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O Filho e o Salmo de Ana (I Samuel 1:1-2:10)

Introdução

Quando os Jogos Olímpicos foram em Atlanta, Geórgia, o mundo inteiro conheceu o nome e a fama da jovem Kerri Strug. Kerri foi a chave para que a equipe americana de ginástica feminina recebesse a medalha de ouro. Se ela se saísse bem ao realizar seu salto, sua equipe ganharia a medalha de ouro; se não, elas teriam que se contentar com outra posição. Seu primeiro salto não foi bom, o que resultou num tornozelo torcido. Só um segundo salto excelente poderia ganhar a medalha de ouro. Enquanto ela voltava com dificuldade à linha inicial, o mundo se perguntava se ela tentaria outro salto e, se tentasse, será que conseguiria? Todos sabemos que ela tentou, e que realizou um salto excelente, às custas de uma lesão ainda maior. O resultado foi a medalha de ouro, e mais, muito mais. A foto de Kerri estampou a página principal de quase todos os jornais do mundo. Num instante ela se tornou uma heroína, não só porque seu salto fez com que sua equipe ganhasse a medalha de ouro, mas porque ela o executou em meio a uma grande adversidade. Se não fosse por sua lesão anterior, sua performance teria sido esquecida. Por causa dela, Kerri Strug sempre será lembrada por sua coragem e habilidade num momento difícil e decisivo.

A história de Ana é muito parecida com a de Kerri Strug. Ana foi uma grande mulher, mãe de Samuel, um dos maiores profetas de Israel. Se não fosse por uma vida cheia de agonia e adversidade, o nascimento de seu primeiro filho teria sido esquecido. No entanto, seus anos de agonia e suas lágrimas de aflição fazem do nascimento de seu filho Samuel um acontecimento a ser lembrado. Estes anos formam o universo de seu salmo de louvor, que tem sido consolo e inspiração para os crentes ao longo dos séculos. Maria, a mãe de nosso Senhor, estava atenta a ele, conforme vemos em seu próprio Salmo em Lucas 1:46-55. Vamos examinar o nascimento do filho de Ana e seu salmo, pois temos muito a aprender para aplicar em nossa vida.

O Contexto

Em nossa Bíblia, o livro de I Samuel vem em seguida ao de Rute. Nos manuscritos do Antigo Testamento, I Samuel vinha imediatamente após o livro de Juízes. Sendo assim, as últimas palavras escritas na Bíblia hebraica antes de nosso texto em I Samuel são:

“Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto.” (Juízes 21:25)

Aqueles dias” estavam longe de ser os mais relevantes da vida espiritual de Israel como nação. O livro de Juízes descreve os dias caóticos em que os israelitas foram oprimidos pelas nações circunvizinhas. Deus enviava um juiz para livrá-los, mas sua liberdade só durava enquanto o juiz vivesse. Até mesmo seus juízes não foram exatamente modelos de santidade. Sansão, por exemplo, foi um homem cuja vida foi dominada pela carne, não pelo Espírito. O escritor de Juízes relaciona a decadência espiritual e o caos político de Israel à falta de um rei. O livro de I Samuel registra o processo pelo qual Deus providenciou um rei para Seu povo. Da mesma forma que Isabel no Novo Testamento, Ana é mãe do profeta que indicará o rei escolhido por Deus. Saul será ungido como o primeiro rei de Israel. E então, após sua rejeição por Deus, Davi será ungido como precursor de uma dinastia eterna. Em meio à anemia espiritual de Israel, Ana e seu marido, Elcana, estão muito acima de seus pares. Vamos ouvir esta história e o salmo de louvor, que é o seu clímax.

Recontando a história

Elcana é um piedoso descendente de Levi que vive na região montanhosa de Efraim. Por causa da região onde vive, ele é conhecido como efraimita, embora seja realmente da tribo de Levi (ver I Crônicas 6:33-38). Elcana tem duas esposas, Ana e Penina. Penina tem filhos de Elcana, mas Ana não (1:2), pois Deus fechou seu ventre (1:6).

Todos os anos, Elcana, Penina e seus filhos, e a estéril Ana vão a Siló, 20 milhas ou mais ao norte de Jerusalém, onde fica o tabernáculo. Eles vão celebrar uma das três festas anuais de Israel (1:3; ver Êxodo 23:14-17; Dt. 16:16). Esta época especial deve ser de alegria, e a tristeza é proibida:

“Nas tuas cidades, não poderás comer o dízimo do teu cereal, nem do teu vinho, nem do teu azeite, nem os primogênitos das tuas vacas, nem das tuas ovelhas, nem nenhuma das tuas ofertas votivas, que houveres prometido, nem as tuas ofertas voluntárias, nem as ofertas das tuas mãos; mas o comerás perante o SENHOR, teu Deus, no lugar que o SENHOR, teu Deus, escolher, tu, e teu filho, e tua filha, e teu servo, e tua serva, e o levita que mora na tua cidade; e perante o SENHOR, teu Deus, te alegrarás em tudo o que fizeres.” (Dt. 12:17-18)

Para Ana e, provavelmente, para Elcana também, regozijar-se diante do Senhor é muito difícil. Primeiro, os dois filhos de Eli, Hofni e Finéias, ministram ali como sacerdotes (1:3). Para aqueles que são verdadeiramente justos, estes sacerdotes patéticos lançam uma nuvem negra sobre a genuína adoração (ver 2:12-17. 22-25). No entanto, a fonte principal do sofrimento de Ana nesta jornada anual até Siló é Penina, que se aproveita da oportunidade para atormentá-la ano após ano, sem cessar (ver 1:4-7). Isto resulta em muitas lágrimas para Ana e a incapacidade de se juntar à refeição festival (1:7).

Não é que Elcana, seu marido, não tente consolá-la ou vir em seu auxílio. Elcana declara seu amor por ela dando-lhe porção dupla da carne que foi sacrificada (1:5). Ele faz um esforço sincero para compensá-la de sua esterilidade, relembrando-a do que ela significa para ele e do que ele é para ela (1:8). A despeito de todas estas coisas, Ana teme a peregrinação anual a Siló, onde deve conviver de perto com Penina, seu tormento.

Não é difícil imaginar o que acontece. Durante o ano, provavelmente, Ana e Penina vivam em tendas separadas, bem distantes uma da outra. Elas nem comem na mesma mesa. No entanto, na jornada anual a Siló, todos devem viajar e comer juntos. Quando a refeição sacrificial é servida, cada esposa tem sua porção. Mesmo que Ana receba porção dupla, Penina recebe para si e para seus filhos. Até posso ouvi-la cruelmente atormentando Ana: “Ó, Elcana, que pedação delicioso de carne para mim e para as crianças! Ó, querida, que pedacinhos saborosos para você também, Ana.”

Nesta viagem, em particular, Ana mal consegue fazer a refeição. De alguma forma ela se fortalece contra os gestos e observações cruéis de Penina. Mas, depois de comer e beber, ela se afasta depressa em direção ao tabernáculo, onde derrama a alma perante Deus. Em seu íntimo ela ora silenciosamente, enquanto Eli, sentado junto à porta, observa com interesse. Ele vê o movimento de seus ombros, enquanto ela soluça em grande aflição e chora amargamente (1:10). Não ouvindo suas palavras, Eli tira a conclusão errada, presumindo que ela tenha festejado demais e que sua alegria seja pura embriaguez. Ele a repreende pela embriaguez e lhe diz para abandonar a bebida (1:13-14).

Rapidamente Ana lhe assegura que não está embriagada, mas que está derramando sua alma perante o Senhor (1:15). Ela suplica que ele não a julgue como filha de Belial (1:16). Ironicamente, a expressão usada por Ana (“filha de Belial”) é o mesmo termo usado pelo autor no capítulo 2 (verso 12) para descrever os dois filhos de Eli. Ela lhe diz que, até agora, esteve expressando a agonia de sua alma.

Todos sabemos, como talvez Eli também soubesse, que entre as palavras soluçadas por Ana está um voto. Ela promete a Deus que, se Ele lhe conceder um filho, ela o devolverá a Ele como nazireu (1:11, ver Nm. 6:1-21; Jz. 13:2-7). Eli lhe assegura que Deus lhe concederá seu pedido e a abençoará (1:17). Desse momento em diante, Ana já pode participar da cerimônia de adoração. Ela faz a refeição e seu rosto agora irradia alegria e não tristeza.

Levantando-se de madrugada, eles adoram o Senhor antes de pegar o caminho de volta a Ramá. Algum tempo depois, Ana concebe e dá à luz o filho prometido. Ela dá à criança o nome de Samuel. Embora os estudiosos discutam os termos e seus significados, está escrito o que este nome significa para ela. Ela sabe que este é o filho que pediu ao Senhor, e que ele é a resposta à sua oração (1:20). O nome Samuel é um lembrete constante de sua origem e de seu destino.

Enquanto a criança ainda está sendo amamentada, chega a época da família fazer a viagem anual a Siló. Elcana sobe com o restante da família, mas Ana fica para trás. Ela não está tentando evitar o cumprimento de seu voto (ver 1:21-23). Muito pelo contrário! Pelas palavras ditas a seu marido, concluo que ela não queira subir com Samuel e depois voltar com ele, uma vez que ele ainda está sendo amamentado e não pode ser deixado em Siló tão novinho. Sua intenção parece ser ficar em casa este ano e desmamar o menino para o ano seguinte. Ela, então, o levará consigo quando chegar a época da próxima jornada, não retornando com ele a Ramá. Talvez Ana não quisesse estabelecer um precedente, indo a Siló com Samuel e depois voltando com ele, por temer ficar tentada a descumprir seu voto.

Chega a época em que a criança é desmamada, e Ana deve levar Samuel consigo para Siló e deixá-lo com Eli. Ele ainda é muito novinho, mas tem idade suficiente para ser cuidado por outra pessoa que não seja sua mãe (ver 1:24). Um novilho de três anos é levado com eles para ser abatido e entregue a Eli. Ana relembra a Eli que ela é a mulher que esteve ali, orando com tanto fervor que ele lhe garantiu que Deus lhe concederia seu pedido. Ela diz que, para cumprir seu voto, trouxe seu filho para dá-lo ao Senhor. Em outras palavras, ela deixará a criança aos cuidados de Eli. Antes de partir, ela faz uma oração louvando ao Senhor, uma oração pela qual será lembrada durante muito tempo.

O Salmo de Ana
(2:1-10)

“Então, orou Ana e disse: O meu coração se regozija no SENHOR, a minha força está exaltada no SENHOR; a minha boca se ri dos meus inimigos, porquanto me alegro na tua salvação. Não há santo como o SENHOR; porque não há outro além de ti; e Rocha não há, nenhuma, como o nosso Deus. Não multipliqueis palavras de orgulho, nem saiam coisas arrogantes da vossa boca; porque o SENHOR é o Deus da sabedoria e pesa todos os feitos na balança. O arco dos fortes é quebrado, porém os débeis, cingidos de força. Os que antes eram fartos hoje se alugam por pão, mas os que andavam famintos não sofrem mais fome; até a estéril tem sete filhos, e a que tinha muitos filhos perde o vigor. O SENHOR é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz subir. O SENHOR empobrece e enriquece; abaixa e também exalta. Levanta o pobre do pó e, desde o monturo, exalta o necessitado, para o fazer assentar entre os príncipes, para o fazer herdar o trono de glória; porque do SENHOR são as colunas da terra, e assentou sobre elas o mundo. Ele guarda os pés dos seus santos, porém os perversos emudecem nas trevas da morte; porque o homem não prevalece pela força. Os que contendem com o SENHOR são quebrantados; dos céus troveja contra eles. O SENHOR julga as extremidades da terra, dá força ao seu rei e exalta o poder do seu ungido.”

Neste Salmo de louvor há uma porção de coisas dignas de nota. Enquanto as examinamos, talvez elas o estimulem a fazer um estudo pessoal e mais profundo deste texto.

Primeiro, a oração de Ana é um salmo. Várias traduções indicam isto pela maneira como o texto é disposto. A oração de Ana se parece com um dos salmos do Livro de Salmos. A oração de Ana emprega paralelismo e simbolismo, que são típicos de um salmo.

Segundo, o salmo de Ana é uma oração, uma oração que talvez ela tenha preparado para fazer antes da adoração.Diante da majestade destas palavras, não podemos nos esquecer que esta é uma oração de louvor. É um salmo, mas, como os salmos, é uma oração dirigida a Deus, uma oração de louvor e agradecimento. Algumas pessoas, quase automaticamente, presumem que Ana tenha emprestado este salmo como expressão de seu louvor a Deus. Os salmos da Bíblia colocam de forma maravilhosa nossas orações em palavras para, com muita habilidade, descrever aquilo que está dentro do nosso coração, mas não há nenhuma indicação de que este não seja um salmo composto pela própria Ana. Será que a julgamos incapaz de uma obra tão magnífica? Ou será que pensamos que Deus não possa colocar tal louvor dentro do nosso coração? Vamos em frente.

Terceiro, o salmo de Ana agora faz parte das Escrituras. Seu salmo não é mais algo seu, particular, mas é uma parte permanente das Escrituras Sagradas para todos nós lermos e repetirmos (se quisermos), e para a edificação de nossa alma.

Quarto, o salmo de Ana, portanto, é um salmo inspirado por Deus. “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para repreensão, para correção, para educação na justiça...” (II Tm. 3:16). Uma vez que este salmo faz parte das Escrituras, sabemos que é inspirado pelo Espírito Santo de Deus (ver I Co. 2:10-13; II Pe. 1:21). Será que as palavras de Ana estão além de sua capacidade natural de expressão? Todas as palavras de cada autor inspirado das Escrituras são assim. É exatamente esta a razão pela qual podemos facilmente aceitar que Ana tenha escrito este salmo, pela capacitação do Espírito Santo.

Quinto, o salmo de Ana é fruto de suas experiências.As Escrituras não são transmitidas mecanicamente por seus autores humanos. De alguma forma misteriosa (tão misteriosa quanto Jesus é tanto divino quanto humano), a revelação de Deus é gerada mediante instrumentos humanos, com suas próprias histórias e experiências, expressando suas personalidades individuais e, ainda assim de forma a transmitir exatamente e inerrantemente as palavras de Deus.

Sexto, o salmo de Ana também parece refletir as experiências de Israel com Deus no passado. A Escritura inspirada tem sua própria forma de se relacionar com o restante das Escrituras. As palavras de louvor do salmo de Ana parecem fluir, em parte, das experiências de Israel no passado, particularmente da época do êxodo. Muitas vezes as palavras ou expressões inspiradas de um escritor são emprestadas de outro texto bíblico e, às vezes, parecem ser quase uma parte inconsciente da estrutura do pensamento do autor. Ana se refere a Deus como sua “rocha” (verso 2). Em Deuteronômio 32:30-31, Deus é descrito como a “Rocha” de Israel. No verso 1, Ana diz que sua “força” (chifre) é exaltada em Deus; Moisés usa o simbolismo do “chifre” em Deuteronômio 33:17. Quando Ana fala sobre o pobre e o necessitado sendo elevados ao poder e à proeminência, não foi isto o que aconteceu a Israel no êxodo? Quando fala dos famintos sendo alimentados, não foi o que aconteceu no êxodo? Quando fala dos poderosos sendo humilhados, não foi o que aconteceu ao Egito no êxodo? Creio que Ana via o trabalho de Deus em sua vida sob a perspectiva da obra de Deus na vida de Israel no êxodo.

Sétimo, a oração de Ana vai muito além de sua própria experiência, enfocando o caráter do verdadeiro Deus a quem ela adora e a quem louva.Diferentemente do “salmo” de Jonas (Jonas 2), mas muito parecido com os salmos do Livro de Salmos, o salmo de Ana não se concentra apenas em sua tristeza, em seu sofrimento, ou mesmo em suas bênçãos. O salmo de Ana se concentra em seu Deus. Em meio ao seu sofrimento e à sua exaltação, ela passa a ver Deus mais claramente e, como conseqüência, ela O louva por quem e pelo que Ele é. Seu salmo se refere a Deus como santo (verso 2), fiel (“rocha”, verso 2), onisciente (conhecedor de todas as coisas, verso 3), gracioso (verso 8), todo-poderoso (verso 6), soberano, o grande modificador das circunstâncias (versos 6-10). Quanta coisa há sobre Deus em tão poucos versos!

Oitavo, a oração de Ana vai muito além de suas experiências, de seu passado e presente, antecipando um futuro distante. O salmo de Ana é profético; é uma profecia. O salmo fala com ansiedade da época em que Israel terá um rei (verso 10). Creio que o salmo fala da vinda do derradeiro “Rei”, nosso Senhor Jesus Cristo, que é o cumprimento final de sua profecia messiânica. Não é por isso que o ”salmo” de Maria nos soa tão familiar (ver Lucas 1:46-55)? É bem verdade que Maria talvez veja outros paralelos entre a sua bênção e a de Ana, mas não acho que a ligação messiânica seja ignorada.

Nove, não devemos nos esquecer que, ainda que o salmo de Ana seja expressão de seu louvor e alegria, ele é oferecido na época em que ela deixa seu filho para trás, jamais tendo-o consigo novamente. Esta é a época em que Ana expressa sua alegria e gratidão a Deus pela vida de Samuel, a resposta às suas orações. É a época em que Ana expressa sua fé em Deus e sua devoção a Ele. Mas também é a época da separação, quando ela deixará Samuel em Siló e voltará para Ramá. A fidelidade de Deus no passado é a garantia de Sua fidelidade no futuro e, assim, ela pode entregar seu filho a Deus.

Conclusão

Nosso texto revela a piedade de Ana e Elcana em contraste com a lamentável paternidade de Eli e a inutilidade de seus filhos, Hofni e Finéias. Elcana é um marido piedoso, sensível à angústia de sua esposa. Ele realmente procura animá-la (dando-lhe porção dobrada da refeição sacrificial e dizendo-lhe palavras bondosas e gentis de incentivo, garantindo-lhe seu amor, mesmo que ela não tenha filhos). Ele gentilmente lhe recorda que seu espírito abatido é impróprio à adoração. Ele lhe dá liberdade para adorar sem oprimi-la ou dizer-lhe o que deve fazer. Ele deixa que ela vá adorar sozinha, quando ela faz seu voto. Ainda que ele pudesse ter anulado o voto, ele não o faz. Ele lhe dá liberdade para decidir quando subirá a Siló com Samuel.

Elcana também é piedoso em seu relacionamento com Deus. Ele cuida para que sua esposa faça as coisas direito diante de Deus. Ele é fiel ao fazer sua jornada anual a Siló, mesmo que haja boas razões para não fazê-la. Ele poderia alegar falta de tempo ou que a viagem é muito dispendiosa. Melhor ainda, ele poderia apontar a corrupção dos sacerdotes, especialmente de Hofni e Finéias, alegando não querer expor sua família à hipocrisia, à imoralidade e à brutalidade. Ele também sabe que na época do sacrifício anual Penina torna as coisas bem mais difíceis para Ana e para ele. Apesar de todas estas razões, ele pode ser visto em Siló ano após ano.

Ana é um exemplo de mulher e esposa piedosa. Ela suporta anos de sofrimento silencioso devido à sua esterilidade e à crueldade de sua rival, Penina. Ela sempre acompanha seu marido e sua família (incluindo Penina) a Siló, sabendo o quanto isto é doloroso. Seu sofrimento silencioso é enorme, sem nenhuma indicação de retaliação contra sua adversária, Penina. Ela adora a Deus fielmente, derramando suas lágrimas e súplicas. E, quando Deus responde suas orações, ela não só mantém seu voto, mas louva a Deus de tal forma que seu louvor continua inspirando e encorajando os crentes ao longo dos séculos. Tão certo quanto as falhas paternas de Eli fazem parte da conduta vergonhosa de seus filhos como sacerdotes, da mesma forma a piedade de Ana e de seu marido influencia positivamente o sacerdócio de Samuel. E, ainda hoje, também nos influencia positivamente como exemplos de fé e devoção.

Nosso texto estabelece o contexto para o desenrolar dos eventos descritos em I e II Samuel.O último verso do livro de Juízes uma vez mais menciona o fato de Israel não ter um rei nestes dias. O salmo profético de Ana fala da vinda de um rei. Ana e Elcana, como seus pares do Novo Testamento, Isabel e Zacarias (Lucas 1), não têm filhos. As duas esposas estéreis se tornam mães de um profeta que indica o rei prometido. Da mesma forma que Samuel indica tanto Saul quanto Davi, João Batista indica Jesus, o Nazareno, como o Messias e Rei de Deus.

A adoração de Ana traz grande compreensão sobre o papel da mulher na adoração nos tempos do Antigo Testamento. Seu papel não é algo público ou oficial; no entanto, ela continua tendo grande impacto espiritual na vida dos crentes ao longo dos séculos. O status público e oficial de Eli, ao contrário, nada faz por sua vida espiritual ou pela de seus filhos. Ana, em seu sofrimento silencioso, e em seu ministério oculto e discreto a Samuel, tem um impacto importante e duradouro em sua época e na nossa também. A súplica de Ana, onde ela profere seu voto, é silenciosa; no entanto, suas conseqüências têm importância nacional. Seu louvor faz parte das Escrituras Sagradas e é fonte de grande instrução, conforto e encorajamento. Mesmo não tendo posição oficial de liderança e sendo seu ministério particular, ela teve grande impacto espiritual. Que os homens e mulheres que desejam proeminência, posição e status aprendam com a maneira como Deus usou Ana e seu ministério.

O sofrimento de Ana e seu salmo são exemplos da maneira como Deus Se revela nas Escrituras. O salmo de Ana, como o restante das Escrituras, é produto do esforço humano, supervisionado e divinamente capacitado pelo Espírito Santo. O salmo é tanto produto do esforço humano quanto expressão de sua personalidade, composto pelas coisas que Ana vivenciou. Ela não poderia ter escrito esta parte das Escrituras sem ter sofrido o que sofreu às mãos de Penina, devido à sua esterilidade. Nem poderia ter escrito o que escreveu acerca do futuro sem a inspiração divina. Suas palavras que foram registradas para nós também são a Palavra de Deus.

O salmo de Ana, como qualquer outra parte das Escrituras, é o escrito de uma pessoa que reflete sua educação, sua personalidade e a história de suas experiências. É também obra do Espírito Santo, que transmite o “pensamento de Deus” para nós. Exatamente como nosso Senhor foi totalmente divino e perfeitamente humano numa só Pessoa, assim as Escrituras são produto do homem e obra de Deus num mesmo trabalho.

O salmo de Ana não poderia ter sido escrito sem o sofrimento que o precedeu. Foi Deus quem fechou o ventre de Ana. Foi Deus quem intencionalmente a fez sofrer nas mãos de uma rival cruel, Penina. Foi Deus quem orquestrou todos os momentos de sua vida, tanto dolorosos, quanto agradáveis, a fim de que resultassem num salmo que se tornou uma obra-prima. É desta forma que Deus emprega o humano e o divino na composição das Escrituras. Ainda que você e eu não escrevamos as Escrituras hoje, creio que Deus orquestra nossa história e nossa vida de maneira a nos preparar e equipar de forma única para o ministério que ele tem para nós. Que nos recusemos a ver as nossas dificuldades do passado como entraves ao presente ou ao futuro. Ao olharmos as recordações dolorosas do nosso passado, vamos encará-las como pedras fundamentais para o nosso ministério presente e futuro, regozijando-nos, portanto, em nossas tribulações e provações à luz da maneira como Deus propõe usá-las para o nosso bem e para a Sua glória.

Nosso texto é um retrato da maneira como Deus proporciona Suas bênçãos e manifesta Sua graça em meio à tristeza, ao sofrimento e às fraquezas humanas. Tendo acabado de concluir um estudo sobre I e II Coríntios, não posso deixar de ver os paralelos entre as experiências e o salmo de Ana e as experiências e as epístolas de Paulo. Considere estas palavras da pena de Paulo à luz do sofrimento de Ana e seu salmo:

“... foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte. ” (II Co. 12:7b-10)

Como Paulo deixa bem claro em suas epístolas, o poder de Deus é demonstrado em nossas fraquezas. Isso é graça. A graça de Deus não procura ressaltar nossos pontos fortes, Sua graça busca nossos pontos mais fracos, para que fique absolutamente claro para todos que é Deus quem realiza grandes coisas por meio de nós. As coisas que causam a Ana as maiores tristezas, as maiores dores, são exatamente as mesmas coisas que Deus usa para lhe trazer grandes alegrias. Para aqueles que confiam Nele, sempre será desse jeito:

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.” (Rm. 8:28-30)

Você ama a Deus? Você é um de Seus filhos pela fé na morte, sepultamento e ressurreição de Jesus Cristo em seu lugar? Estas são as boas novas do evangelho. O evangelho não é boa-nova para aqueles que se acham justos. Para eles é uma ofensa. Essas pessoas acham que Deus lhes deve a vida eterna e desdenham a graça salvadora de Deus em Cristo como ”caridade”. Mas é caridade! Aqueles que abraçam alegremente as boas novas do evangelho sabem que não têm esperança e estão desesperadamente perdidos em seus pecados, dignos da ira eterna de Deus. Eles se regozijam no fato de não poderem comprar a salvação de Deus, pois Cristo já o fez por eles pela Sua morte, sepultamento e ressurreição. Eles recebem com gratidão o perdão dos pecados e o dom da justiça como caridade divina. E aprendem que o mesmo princípio da graça divina pelo qual foram salvos é o princípio com que Deus continua operando em nossa vida. Oro para que você tenha recebido a graça de Deus pelo dom da salvação pela fé em Jesus Cristo. Senão, oro para que você a receba e a Ele neste exato momento.


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