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Where the world comes to study the Bible

21. Matar ou Não Matar (I Samuel 24:1-22)

Introdução

Este incidente na caverna poderia facilmente ser uma reprise da execução de Eglom, rei de Moabe, conforme descrito em Juízes 3:12-31. Os moabitas estão oprimindo Israel e Deus ouve o clamor de Seu povo. Ele levanta Eúde como um dos juízes de Israel. Eúde, um benjamita canhoto, vai a Eglom para entregar o dinheiro do “tributo” que os israelitas pagam para Moabe. Ele porta uma espada feita sob medida na coxa direita, por baixo da capa. Parece que antes de ser admitido à presença de Eglom, ele é revistado, mas apenas do lado esquerdo, onde todos os homens destros guardam suas armas. Eúde chega quando o rei está em seu aposento privativo, sem mais ninguém por perto. Ele encontra o rei em sua sala de verão, onde fica o banheiro. Eúde assassina Eglom e foge, mas não pela entrada normal. Em vez disso, ele fecha e tranca a porta da sala privativa do rei, escapando sem ser visto. À medida que o tempo passa e o rei não sai de lá de dentro, seus servos ficam cada vez mais nervosos - mas ninguém quer interrompê-lo. Quando, finalmente, destrancam a porta, eles encontram o rei morto.

A mesma coisa poderia ter acontecido na caverna onde Davi e seus homens estão escondidos, e onde Saul decide se aliviar. Davi poderia facilmente tê-lo morto neste momento vulnerável, ou, pelo menos, poderia ter permitido que um de seus homens o fizesse. Em vez disso, Davi poupa a vida do rei, permitindo que ele deixe a caverna ileso, sem nem sequer saber que ele está por perto. O que Davi faz a seguir é ainda mais surpreendente, conforme veremos em breve. A reação de Saul é igualmente espantosa.

A história que vamos estudar é uma grande história. A sensação dramática é intensa. Encontramos nesta narrativa: perigo, suspense e surpresas. Mas, esta não é somente uma história bem escrita, legal e divertida. É uma história que tem grande aplicação para todos os cristãos ainda hoje. Como? Davi é um homem designado e ungido como o futuro rei de Israel. Os acontecimentos que estamos estudando têm lugar nesse meio tempo entre a sua designação e a sua nomeação como rei.

Nós, os que confiam em Jesus Cristo para o perdão de nossos pecados e para a nossa salvação eterna, somos aqueles que serão “reis e sacerdotes”.

“e perseveramos, também com ele reinaremos...” (II Tm. 2:12a)

“e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra.” (Ap. 5:10)

“Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele os mil anos.” (Ap. 20:6)

“Então, já não haverá noite, nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles, e reinarão pelos séculos dos séculos.” (Ap. 22:5)

Essa questão de esperar para reinar é muito importante. Uma porção de erros encontrados nos círculos cristãos atuais (e ao longo da história da igreja) tem a ver com o relacionamento entre a nossa vida presente e o futuro reinado de Cristo junto com Seus santos. Alguns se enganam ao supor que podemos “reinar” desde já, gozando todos os benefícios futuros no presente. Nosso texto, como em todo o Velho e Novo Testamento, se baseia no fato de que, ainda que venhamos a reinar no futuro, no presente Deus está nos preparando mediante a rejeição e o sofrimento. Da mesma forma como Deus lidou com Davi nessa área, Ele também lida conosco hoje. Portanto, prestemos bastante atenção, pois não estamos lendo uma simples historinha. Este texto é a instrução de Deus para nós, através do exemplo de santos como Davi, e até mesmo de pessoas patéticas como Saul.

Davi se Recusa a Ceder à Pressão
(24:1-7)

“Tendo Saul voltado de perseguir os filisteus, foi-lhe dito: Eis que Davi está no deserto de En-Gedi. Tomou, então, Saul três mil homens, escolhidos dentre todo o Israel, e foi ao encalço de Davi e dos seus homens, nas faldas das penhas das cabras monteses. Chegou a uns currais de ovelhas no caminho, onde havia uma caverna; entrou nela Saul, a aliviar o ventre. Ora, Davi e os seus homens estavam assentados no mais interior da mesma. Então, os homens de Davi lhe disseram: Hoje é o dia do qual o SENHOR te disse: Eis que te entrego nas mãos o teu inimigo, e far-lhe-ás o que bem te parecer. Levantou-se Davi e, furtivamente, cortou a orla do manto de Saul. Sucedeu, porém, que, depois, sentiu Davi bater-lhe o coração, por ter cortado a orla do manto de Saul; e disse aos seus homens: O SENHOR me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, isto é, que eu estenda a mão contra ele, pois é o ungido do SENHOR. Com estas palavras, Davi conteve os seus homens e não lhes permitiu que se levantassem contra Saul; retirando-se Saul da caverna, prosseguiu o seu caminho.”

No capítulo 23, Saul parece ter Davi em suas mãos. Ele está bem perto de Davi quando um mensageiro o informa que Israel está sob ataque, forçando-o a desistir de sua perseguição, para lutar com os filisteus. Não sabemos como Saul se sai no confronto, mas sabemos que ele retorna são e salvo, disposto a capturar Davi. Alguém o informou que Davi está no deserto de En-Gedi.

Saul espera encontrar Davi no sopé das “penhas das cabras montesas” (24:2) e parte naquela direção. Acho que Saul devia conhecer bem esta região e deve ter concluído que aquele ponto remoto nas montanhas da Judéia provavelmente seria o esconderijo de Davi, caso este soubesse que ele estava em sua perseguição. Parece que Davi faz exatamente o oposto. Em vez de fugir do deserto de En-Gedi para as “penhas das cabras montesas”, Davi vai em direção oposta, direto para Saul. O caminho dos dois se cruza num aprisco de ovelhas, onde também existe uma caverna. Saul sente o chamado da natureza e começa a procurar um lugar nos arredores onde possa se aliviar em particular.

Pense em si mesmo como um dos homens de Davi espreitando para fora da caverna, vendo Saul e seu exército se aproximar, e então parar. Posso até sentir a tensão quando os olhos de Saul se voltam para a caverna. Os homens de Davi se agacham na sua parte posterior e gemem silenciosamente, enquanto vêem Saul se aproximando. Eles não sabem o que Saul tem em mente. Deve parecer como se estivessem liquidados. Saul se aproxima, enquanto Davi e seus homens agarram suas armas, prontos para se defender. O que se segue não precisa ser descrito, exceto para dizer que foi um alívio tanto para Saul quanto para os homens de Davi.

Os homens de Davi agora estão mais calmos e começam a pensar no significado deste momento. Parece-lhes que Deus lhes deu uma oportunidade de matar Saul. Eles citam uma profecia que diz:

“Eis que te entrego nas mãos o teu inimigo, e far-lhe-ás o que bem te parecer.” (verso 4)

Pela reação de Davi, podemos chegar a uma destas alternativas: Primeiro, pode-se dizer que esta profecia é falsa, que deve ser rejeitada (ver I Reis 22). Segundo, talvez seja uma profecia relacionada a alguma outra pessoa (algum inimigo) que não Saul, e erroneamente aplicada a ele pelos homens de Davi. Terceiro, talvez a profecia seja verdadeira e se relacione a Saul, mas é erroneamente interpretada e aplicada pelos homens de Davi. Sou favorável à terceira opção.

Furtivamente, Davi vai até Saul, que está alheio ao que se passa atrás dele. Aparentemente, seu manto tinha sido retirado e posto de lado, longe o suficiente para que Davi pudesse alcançá-lo e cortasse um pedaço de sua orla. Imediatamente a consciência de Davi o acusa. Há aqueles que crêem que isto tenha sido muito significativo, de alguma forma desafiando ou contestando o direito de Saul reinar. Acho que não. Parece-me que a intenção de Davi é apenas obter uma prova de que ele conseguiu chegar a uma distância surpreendente e mesmo assim não causou nenhum dano a Saul. Intrinsecamente isto não teria perturbado Davi, mas o fato é que ele danifica a roupa de Saul. Em linguagem atual, é como se Davi tivesse estourado os pneus do carro de Saul. É mais ou menos como vandalismo.

O gesto de Davi não deve ser julgado pelo valor prejuízo, mas em termos de contra quem foi praticado. Um ato aparentemente banal seria muito grave se fosse contra o Presidente dos Estados Unidos. O ato de Davi foi cometido contra o seu rei. Não interessa se foi um gesto insignificante, certamente banal se comparado ao assassinato pretendido por seus homens. Ele levantou a mão contra o seu rei, e com isto, levantou a mão contra seu Deus. Foi Deus que levantou Saul e é Deus quem o destituirá do trono, de alguma forma que não inclui Davi agir com hostilidade contra ele:

“Acrescentou Davi: Tão certo como vive o SENHOR, este o ferirá, ou o seu dia chegará em que morra, ou em que, descendo à batalha, seja morto.” (I Sam. 26:10)

Ainda que Saul seja destituído, é Deus quem o fará, não Davi. Até que Deus o destitua, o dever de Davi é servir fielmente a seu rei, e cortar um pedaço de seu manto não foi pelo bem de Saul. Por isso, a consciência de Davi o perturba.

Davi está com a consciência pesada por ter tirado um pedaço do manto de Saul. Seus homens, por outro lado, estão planejando coisas bem piores. O sucesso de Davi em cortar o manto de Saul incentiva seus homens a resolver o problema de uma vez por todas. Neste momento Saul está vulnerável. Seus homens estão fora de vista (com certeza Saul quer fazer suas necessidades em particular), e assim os homens de Davi podem dar cabo dele sem mais rodeios. Parece que é isto o que eles pretendem fazer e só a atitude enérgica de Davi os demove de sua intenção. A tradução do verso 7, na maioria das versões, é surpreendentemente branda (“persuadiu”, NASB - “conteve”, ARA) comparada à palavra empregada pelo autor (a nota da margem da versão NASB indica que a tradução literal seria repreendeu severamente). Ante a menção de matar o rei, Davi literalmente ataca seus homens, defendendo ferozmente a vida do rei e exigindo que, da mesma forma que ele não levantaria a mão contra ele, eles também não o farão. Enquanto os homens de Davi o olham com estranheza, Saul termina o serviço, veste seu manto (agora meio estragado) e sai da caverna.

Davi e o Golias II
(24:8-15)

Depois, também Davi se levantou e, saindo da caverna, gritou a Saul, dizendo: Ó rei, meu senhor! Olhando Saul para trás, inclinou-se Davi e fez-lhe reverência, com o rosto em terra. Disse Davi a Saul: Por que dás tu ouvidos às palavras dos homens que dizem: Davi procura fazer-te mal? Os teus próprios olhos viram, hoje, que o SENHOR te pôs em minhas mãos nesta caverna, e alguns disseram que eu te matasse; porém a minha mão te poupou; porque disse: Não estenderei a mão contra o meu senhor, pois é o ungido de Deus. Olha, pois, meu pai, vê aqui a orla do teu manto na minha mão. No fato de haver eu cortado a orla do teu manto sem te matar, reconhece e vê que não há em mim nem mal nem rebeldia, e não pequei contra ti, ainda que andas à caça da minha vida para ma tirares. Julgue o SENHOR entre mim e ti e vingue-me o SENHOR a teu respeito; porém a minha mão não será contra ti. Dos perversos procede a perversidade, diz o provérbio dos antigos; porém a minha mão não está contra ti. Após quem saiu o rei de Israel? A quem persegue? A um cão morto? A uma pulga? Seja o SENHOR o meu juiz, e julgue entre mim e ti, e veja, e pleiteie a minha causa, e me faça justiça, e me livre da tua mão.

Matar Saul é agir contra o ungido do Senhor, e essa não é uma atitude cristã. Assim, o uso da revelação divina pelos homens de Davi está errado, por isso, ele é inflexível. Davi deve fazer para Saul “aquilo que lhe parece bom”. E o que lhe parece bom é sujeitar-se a seu rei e servi-lo fielmente, buscando o seu bem. Certamente isto significa que Davi não deve se opor a Saul ou agir de forma que lhe seja prejudicial. Para Davi, ser submisso ao rei significa muito mais do que isto. Significa agir de maneira a buscar o bem de Saul. A interpretação de Davi daquilo que “é bom”, com referência a Saul, com certeza surpreende o próprio Saul e, indubitavelmente, qualquer um que testemunhe o próximo acontecimento.

Davi e seus homens estão seguramente escondidos dentro da caverna. Tudo o que precisam fazer é ficar quietos e deixar que Saul e seus homens vão embora. Depois eles podem escapar na direção oposta. Abandonando todos os esforços para se proteger e fugir, Davi emerge da caverna, gritando para Saul. Ele se dirige a Saul como “Ó rei, meu senhor!” (verso 8), e um pouco adiante como ”pai” (verso 11). Davi se prostra em terra, mostrando sua reverência e submissão a Saul como rei (verso 8). Ele apela para o rei não levar em consideração as coisas ditas a seu respeito, para ouvir suas palavras e as comparar com suas ações, e então julgar por si mesmo sua culpa ou inocência.

Davi contesta a acusação de estar buscando a morte ou a derrota de Saul. Ele não está tentando tirá-lo do trono. Mostrando a Saul o pedaço do manto que ele cortou, Davi o desafia a reconhecer que, embora pudesse tê-lo morto, ele não o fez. Saul é o ungido de Deus. Prejudicar o rei é agir em rebelião contra Deus, que o colocou no trono. Quando a vida de Saul esteve nas mãos de Davi, este o protegeu, impedindo seus homens de matá-lo. E agora, Davi coloca sua vida nas mãos de Saul e, em última análise, nas mãos de Deus, pois é a Deus que ele faz seu último apelo. É para Ele que Davi clama por justiça. É por isso que ele não precisa agir contra o próprio Saul.

Davi relembra ao rei que os homens podem ser conhecidos por seus frutos. Das palavras de um antigo provérbio, Davi cita: “Dos perversos procede a perversidade” (verso 13). Davi nada fez de mal a Saul, e lhe garante que sua mão não será contra ele no futuro (verso 13). Ele também relembra ao rei que seus temores a seu respeito são exagerados. Davi se compara a um cão morto e a uma pulga (verso 14). Como pode um grande homem como Saul, com todo o seu poderio militar, ter tais temores a respeito de Davi?

Davi encerra sua argumentação dizendo a Saul que ele se entregou aos cuidados de Deus. Ele deixou o juízo e a retribuição para Deus. Ele espera na justiça e proteção de Deus dos ataques de Saul (verso 15). Com isto Davi encerra seu caso. Agora é hora de Saul responder, o que ele faz.

O “Arrependimento” e o Pedido de Saul
(24:16-22)

Tendo Davi acabado de falar a Saul todas estas palavras, disse Saul: É isto a tua voz, meu filho Davi? E chorou Saul em voz alta. Disse a Davi: Mais justo és do que eu; pois tu me recompensaste com bem, e eu te paguei com mal. Mostraste, hoje, que me fizeste bem; pois o SENHOR me havia posto em tuas mãos, e tu me não mataste. Porque quem há que, encontrando o inimigo, o deixa ir por bom caminho? O SENHOR, pois, te pague com bem, pelo que, hoje, me fizeste. Agora, pois, tenho certeza de que serás rei e de que o reino de Israel há de ser firme na tua mão. Portanto, jura-me pelo SENHOR que não eliminarás a minha descendência, nem desfarás o meu nome da casa de meu pai. Então, jurou Davi a Saul, e este se foi para sua casa; porém Davi e os seus homens subiram ao lugar seguro.

Saul fica em estado de choque ao ouvir seu nome. Ele mal pode crer em seus ouvidos, que é realmente Davi quem chama por ele. Saul eleva sua voz, chorando, chamando Davi de ”filho”. Como isto fica mais fácil depois que Davi o chama de “pai” no verso 11 e se curva diante dele como um servo fiel a seu rei. É óbvio que Davi tem a vida de Saul em suas mãos, e que ele o poupa. Como Davi é diferente dele! Saul confessa que Davi é justo, mas ele não. Ele fez o mal para Davi e, mesmo assim, Davi lhe retribuiu com o “bem”. Davi não o teria deixado ir se fosse seu inimigo; portanto, ele deve ser seu amigo. E assim Saul invoca a bênção de Deus sobre ele.

O verso 20 é uma espantosa confissão de Saul. Pela primeira vez registrada nas Escrituras, Saul diz a verdade. Samuel lhe disse que seu reino não iria durar (13:14), e que ele foi rejeitado por Deus como rei de Israel (15:26). No capítulo 18 (versos 8-9), Saul menciona que Davi é tão popular, que a única coisa que lhe falta é a posse do reino. Em 20:31, Saul diz a Jônatas que ele não herdará o trono enquanto Davi estiver vivo. Em outro lugar, Saul trata Davi como um traidor, que planeja matá-lo e se apossar do reino (ver 22:6-13). Mas, aqui, pela primeira vez, Saul reconhece que Deus está tirando seu reino e dando-o a Davi. Ele admite a ascensão de Davi ao trono como certa.

Por isso, Saul suplica que Davi jure que não irá matar seus descendentes (24:21). As preocupações de Saul não são totalmente infundadas. Eliminar todos os possíveis herdeiros era uma prática comum para os homens que ascendiam ao trono, especialmente os descendentes do rei que ele havia deposto ou substituído (ver II Re. 10:11; 15-17; 11:1). A ironia do pedido de Saul é que esta questão já havia sido tratada na aliança entre Davi e Jônatas (I Sam. 20:14-17; 41-42). Apesar disto, Davi promete a Saul que ele não irá destruir nenhum de seus descendentes.

Os dois vão-se embora. Davi sobe para o lugar seguro, enquanto Saul volta prá casa (24:22). É provável que Davi tenha esperanças de que seus problemas com Saul tenham terminado, mas ele não é tolo. Saul já se “arrependeu” outras vezes (ver 19:1-7), mas não durou muito. Davi vai ver o que é uma resposta duradoura de Saul observando à distância. O outro lado da moeda talvez seja que, na verdade, Davi está servindo a Saul de maneira indireta. Será que as pessoas estão se voltando para Davi e desprezando Saul? Então, Davi manterá distância, ficando fora de vista, para que a popularidade de Saul não seja diminuída.

Conclusão

Esta história é realmente incrível. Quem teria pensado que um “chamado da natureza” acabaria numa despedida pacífica entre Davi e Saul? Deus é soberano. Ele está no controle absoluto de todas as coisas, e “todas as coisas” incluem coisas elementares como um “chamado da natureza”. Devido a este acontecimento tão natural (nossos filhos diriam “nojento”, ou coisa parecida), algumas coisas sobrenaturais aconteceram. Primeiro, Davi e Saul se encontraram e se separaram; no entanto, sem qualquer derramamento de sangue. Saul confessou coisas que jamais esperaríamos dele. Davi não só se arrependeu de cortar um pedaço do manto de Saul, como impediu seus homens de matá-lo. E todas estas coisas são conseqüência de Saul procurar um lugar para parar e achar a mesma caverna onde Davi e seus homens “tinham acabado” de se esconder. Deus é capaz de empregar a “natureza” para alcançar Seus propósitos. Que Deus maravilhoso nós servimos!

Em seu livro Liderança Espiritual, J. Oswald Sanders fala sobre três princípios que governam a liderança espiritual:

Soberania

Sofrimento

Sujeição

Creio que este querido irmão esteja absolutamente certo, e que estes três princípios podem ser vistos na vida de Davi enquanto Deus o prepara para a liderança espiritual. Vamos considerar cada um dos três.

    Soberania

O primeiro fator em liderança espiritual é a soberania de Deus. Participei de um encontro onde Sanders nos contou sobre como Deus o chamou à liderança. Ele estava engajado num tipo de ministério bem diferente, no qual esteve durante a maior parte de sua vida, quando foi contatado para se tornar o líder de uma grande organização missionária. Levou um ano para que Sanders (e a esposa) reconhecesse a persistência dessa organização como evidência do soberano chamado de Deus. Deus é quem soberanamente levanta líderes espirituais (ver a maneira como Deus levantou Saulo/Paulo em Atos).

A soberania de Deus também é um dos principais fatores no pensamento de Davi sobre liderança. Deus soberanamente levantou Saul como rei de Israel. Embora Samuel tenha ungido Davi como o futuro rei, Davi crê que é Deus quem destituirá Saul e que esta tarefa não é sua. Enquanto Deus mantiver Saul no poder, levantar a mão contra ele é levantar a mão contra Deus. As circunstâncias podem ter sido favoráveis a Davi ou a um de seus homens para matar Saul, no entanto, a crença de Davi na soberania de Deus o impediu de fazê-lo.

Satanás se rebelou contra o governo soberano de Deus. Ele não estava disposto a servir a Deus, mas queria liderar, como Deus. Pecado é rebelião contra Deus, contra Sua soberania. É tentar se elevar acima de Deus. Davi se submete à soberania de Deus. E ele o faz deixando a vingança para Deus. O comentário de John Murray de Romanos 12:19 é muito pertinente:

“Aqui temos a essência da verdadeira religião. A essência da pecaminosidade é que ousamos assumir o lugar de Deus, tomando as coisas em nossas mãos. Fé é nos entregarmos a Deus, lançando nossos cuidados sobre Ele e investindo todos os nossos interesses Nele. Quanto ao assunto em questão, as injustiças de que somos vítimas, o jeito da fé é reconhecer que Deus é o juiz e deixar que Ele execute a vingança e a retribuição.”

    Sofrimento

O segundo fator em liderança espiritual é o sofrimento. Oswald Sanders nos contou sobre um de seus primeiros sermões (de uns 65 anos atrás!). Ele disse que depois de sua mensagem, não pôde deixar de ouvir duas mulheres discutindo sobre seu sermão. Uma delas perguntou à outra: “Bem, o que você achou?” Ao que a segunda respondeu: “Não foi mal, mas ele será muito melhor quando tiver sofrido”. Sanders, então, prosseguiu, descrevendo como Deus o fez passar pelo sofrimento com a morte de duas esposa e uma sobrinha. Quando ouço alguns músicos cristãos contemporâneos, sinto-me como aquela mulher que ouviu o primeiro sermão de Sanders. Creio que serão muito melhores depois de terem experimentado o sofrimento. Eles sempre escrevem e cantam suas músicas como pessoas jovens e inexperientes. A maioria ainda não provou a taça de sofrimento e dor. O sofrimento muda você e sua mensagem.

Desde quando foi ungido até a época em que é designado rei, Davi passa por muito sofrimento. A maior parte de seu sofrimento vem das mãos de Saul. A ascensão de Davi ao trono não é a despeito de seu sofrimento, mas por meio dele. O sofrimento é o meio mediante o qual Deus prepara Davi para a liderança. E isto não é exceção. O sofrimento de José às mãos de seus irmãos o preparou para liderar e um meio de salvação para sua família. O sofrimento de Israel no Egito preparou o povo de Deus para o êxodo e sua vida como homens e mulheres livres. O sofrimento de nosso Senhor O preparou para o ministério que Ele terá como o Rei dos reis e Senhor dos senhores. O nosso sofrimento faz exatamente a mesma coisa.

Seus homens estão tentando Davi para que ele mate Saul, a fim de encurtar seu sofrimento e apressar seu governo como rei. Sua tentação não é diferente da tentação de Satanás a nosso Senhor no deserto, no início de Seu ministério público (ver Mateus 4:1-11; Lucas 4:1-12). Nós também somos tentados a evitar o sofrimento e ir direto para a glória, mas sofrer é o meio designado por Deus para nos levar para a glória. Davi está disposto a sofrer para obedecer a Deus, mesmo que isto pareça inconsistente com seu futuro reinado.

    Sujeição

O fator final que Sanders descreve em relação à liderança espiritual é a sujeição. Em minha mente, sujeição e submissão estão intimamente relacionadas. Ambas estão muito envolvidas na preparação de Deus para o reinado de Davi. Servo é aquele que serve fielmente a outrem. Davi é um servo fiel de Saul, mesmo quando Saul procura tirar sua vida. Submissão é sujeitar seus próprios interesses para servir a outrem.

Davi serve seu senhor, Saul, fielmente. Sua consciência o atormenta quando ele corta um pedaço do manto de Saul. Isto não é servi-lo fielmente. Ele se recusa a considerar a morte de Saul, ou a permitir que seus homens o façam. Isto não é servir Saul. Sofrimento é o preço que Davi está disposto a pagar para servir Saul fielmente. Saul, em certo sentido, é inimigo de Davi, e Deus colocou sua vida nas mãos de Davi. No entanto, Davi crê que, para fazer o que lhe parece certo, ele terá que servir Saul, não destruí-lo. E, a fim de servir Saul, ele terá que colocar em risco sua própria vida. Assim, Davi deixa Saul sair e depois se revela a ele fora da caverna. Davi chega a repreender humildemente Saul, mostrando-lhe que não é seu inimigo e que só tem feito o bem para ele. Davi jamais deixará de servir humildemente Saul, enquanto ele estiver vivo e enquanto for o rei de Deus. Davi lhe faz o “bem”, como o próprio Saul confessa, e ele o faz sofrendo às suas mãos, servindo-o e submetendo-se a ele, esperando, enfim, pela justiça e retribuição do Deus soberano.

Estes princípios: soberania, sofrimento e sujeição - capacitam Davi a discernir a vontade de Deus em quaisquer circunstâncias. Os homens de Davi (I Samuel 24:4), assim como Saul (I Samuel 23:7), discernem a vontade de Deus com base nas circunstâncias favoráveis: Deus lhes dá a oportunidade de matar Saul, então deve ser a vontade de Deus que eles o façam. Davi discerne a vontade de Deus por princípio. Ele decide lutar com Golias, não porque que a vitória pareça certa (embora ele tenha certeza, ninguém mais tem), mas porque este homem blasfema contra Deus. Davi não está disposto a tirar vantagem das circunstâncias, pois ele pensa como um líder espiritual, do ponto de vista da soberania de Deus, do sofrimento como parte da vontade de Deus e da sujeição.

Atualmente vejo bem menos discernimento a respeito da vontade de Deus como o de Davi, do que vejo como o de Saul ou dos homens de Davi. Ouço muitos cristãos que pensam e ensinam que o sofrimento não é da vontade de Deus, e que a verdadeira fé será recompensada por bênçãos imediatas e pela ausência de dor. Encontro muitas pessoas discernindo a vontade de Deus olhando apenas para as circunstâncias favoráveis, em vez de viver pela fé na palavra de Deus, e não pela vista. Vejo muitos cristãos recebendo orientação de cristãos desorientados, em vez de se firmarem em princípios bíblicos. Sejamos como Davi a este respeito, e não como seus homens que só querem por um fim ao sofrimento, matando o ungido de Deus. Essa visão interesseira é justamente o que vemos nos escribas e fariseus (junto com as multidões, incluindo os romanos), quando rejeitaram a Cristo e O crucificaram, libertando Barrabás em Seu lugar.

Vejo na vida de Davi, como descrito em I Samuel, um exemplo e ilustração de muitos textos bíblicos a respeito de sofrimento, sujeição e submissão. Ainda que não possamos considerá-los agora, deixe-me simplesmente relacionar alguns textos para sua posterior meditação: Salmo 7, Mateus 5:44, Romanos 12:17, 19, I Pedro 2:11-22, 4:12-19. Procuremos ser homens e mulheres como Davi, com um coração segundo o coração de Deus, para Sua glória e para o nosso bem.