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Where the world comes to study the Bible

21. Perfis de Coragem (2 Samuel 23)

Introdução

Em minha última mensagem, falei sobre meu amigo Karl Lind, o qual está esperando para estar com o Senhor. Liguei para ele na semana passada e lhe disse que eu e minha esposa estávamos pensando nele e orando por ele. Também lhe disse que falei sobre ele na introdução do meu sermão; depois relembramos os “bons tempos” do início da Igreja Batista Bíblica e do nosso encontro num velório. Mencionei que, quando menino, eu ficava sempre olhando em volta, perguntando-me onde ficavam os corpos. “Isso não é nada”, disse ele, “Marta (sua esposa) costumava dar as aulas da Escola Dominical na classe do outro lado do corredor da sala de embalsamamento. Toda vez que tínhamos aula, a gente ficava sentindo cheiro de formol.”

Na verdade, um pouco de cheiro de formol de vez em quando talvez seja bom para nos lembrar da nossa mortalidade. Há pouco tempo, quando minha esposa e eu viajávamos pela Costa Leste dos Estados Unidos, vimos uma porção de igrejinhas pitorescas, muitas das quais tinham um cemitério ao lado. É muito triste que uma cidade grande como Dallas não tenha mais esse tipo de coisa, pois a morte e o evangelho devem estar estreitamente ligados. Toda vez que formos à igreja, deveríamos nos lembrar da inevitabilidade da morte, e toda vez que formos a um enterro, deveríamos considerar a morte à luz do evangelho de Jesus Cristo.

Joe Bayly, já falecido, escreveu o livro A Visão de Dentro do Carro Fúnebre, uma leitura excelente sobre o cristão e a morte. Quando foi reeditado, o livro recebeu um novo título; creio que é A Última Coisa Sobre a Qual Falamos. Gosto mais do primeiro, pois acho que todos nós deveríamos ver a vida da perspectiva de um carro funerário. Homens e mulheres quando estão perto da hora da morte geralmente têm prioridades muito diferentes. Vi um filme no qual Malcolm Muggeridge estava num cemitério, diante do túmulo da sua família. Se não me engano, suas palavras foram mais ou menos estas: “Estou aqui, onde minha família está enterrada, sabendo que logo me juntarei a eles. Devo dizer que, quando olho para o passado, percebo que as coisas que eu mais temia na minha juventude tiveram um papel muito importante e útil na minha vida. Por outro lado, aquilo que eu considerava mais necessário, acabou sendo de pouco valor ou utilidade para mim”.

Muitas pessoas na terceira idade fazem um retrospecto da sua vida e veem as coisas de modo diferente. Davi está naquele grupo menor, de quem está na terceira idade e vê as coisas não somente em termos do passado, mas também em termos do seu futuro eterno.1 O salmo dos sete primeiros versos de 2 Samuel 23 é uma espécie de “visão de dentro do carro fúnebre”.2 Considera-se que este seja o registro das suas últimas palavras (verso 1). Ao se aproximar da hora da morte, Davi se recorda da sua vida pregressa e anseia pelo seu futuro eterno.

O salmo no início de 2 Samuel 23 pode parecer sem ligação ou relação com o restante do capítulo, o qual nomeia e exalta os valentes que contribuíram de forma significativa para o sucesso de Davi. Na verdade, creio que as duas seções estejam estreitamente ligadas, conforme veremos em breve. Por enquanto, deixem-me simplesmente dizer que o capítulo todo fala de grandiosidade. Nos versos 1 a 7, vemos como se faz um grande rei. Nos versos 8 a 39, dois grupos de valentes são mencionados, os “três” e os “trinta”. Pela descrição da sua conduta heróica, podemos ver como esses homens se tornaram grandes aos olhos de Deus.

Estamos nos aproximando da conclusão de 2 Samuel (que na Bíblia hebraica é apenas “Samuel”, pois 1 e 2 Samuel formavam um único livro). Na verdade, os capítulos 21 a 24 são uma unidade, um epílogo que o autor usa como conclusão. Vamos aprender como são feitos os grandes homens de Deus. Vamos ouvir e entender o que o autor vem tentando nos ensinar ao longo do livro.

A Canção de Salvação de Davi (23:1-7)3

São estas as últimas palavras de Davi: Palavra de Davi, filho de Jessé, palavra do homem que foi exaltado, do ungido do Deus de Jacó, do mavioso salmista de Israel. O Espírito do SENHOR fala por meu intermédio, e a sua palavra está na minha língua. Disse o Deus de Israel, a Rocha de Israel a mim me falou: Aquele que domina com justiça sobre os homens, que domina no temor de Deus, é como a luz da manhã, quando sai o sol, como manhã sem nuvens, cujo esplendor, depois da chuva, faz brotar da terra a erva. Não está assim com Deus a minha casa? Pois estabeleceu comigo uma aliança eterna, em tudo bem definida e segura. Não me fará ele prosperar toda a minha salvação e toda a minha esperança?4 Porém os filhos de Belial serão todos lançados fora como os espinhos, pois não podem ser tocados com as mãos, mas qualquer, para os tocar, se armará de ferro e da haste de uma lança; e a fogo serão totalmente queimados no seu lugar.

Como indicado no verso 1, as palavras deste salmo são as últimas de Davi, não no sentido de que ele tenha falado e morrido em seguida5, sem dizer mais nada, mas talvez no sentido de que foram suas últimas palavras registradas na forma de salmo. Pessoalmente, estou inclinado a seguir a pontuação da NASB, a qual abre aspas no verso 2, não no verso 1. Se compreendo os tradutores (e, mais importante, o texto), o autor de 2 Samuel usa o verso 1 como introdução. Não é Davi que se refere a ele mesmo em termos tão elevados (“homem que foi exaltado, mavioso salmista de Israel”), mas o escritor. Davi foi tudo o que o verso 1 afirma sobre ele, mas não é ele quem nos relembra desse fato, pelo menos da forma como leio o texto.

De origem humilde como o filho mais novo de Jessé, homem sem grande importância em Israel, Davi é exaltado por Deus. Ele é o “ungido”, o rei, o qual é a descendência de Jacó ou Israel. De certa forma, ser descendente de Jacó não era nada do que se gabar, mas a observação liga Davi à aliança abraâmica (Gênesis 12:1-3, etc) e à promessa de que o Messias (o ungido) viria por intermédio de Judá, filho de Jacó (Gênesis 49:8-10).

As palavras de Davi, então, têm início no verso 2. Ele começa ressaltando o fato de que suas palavras não são meramente suas, mas que transmitem a própria palavra de Deus, ditas a ele e por meio dele. Davi as atribui ao Espírito Santo, o qual fala por intermédio dele. Isso é coerente com o que o Novo Testamento diz sobre ele e outros autores do Antigo Testamento:

Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada, investigando, atentamente, qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo e sobre as glórias que os seguiriam. A eles foi revelado que, não para si mesmos, mas para vós outros, ministravam as coisas que, agora, vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho, coisas essas que anjos anelam perscrutar. (1 Pedro 1:10-12)

Sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo. (2 Pedro 1:20-21)

Irmãos, convinha que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo proferiu anteriormente por boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus. (Atos 1:16)

E, por isso, suas palavras seguintes são as próprias palavras de Deus, não de uma forma diferente do restante das Escrituras inspiradas, mas de uma forma que vê essas palavras, como todas as demais das Escrituras, como palavra de Deus. Deus disse a Davi como deve ser o governo de um rei. O rei de Deus é alguém que deve governar com retidão. Esse governo é resultado de um temor justo e saudável de Deus (verso 3). Os reis pagãos pensam principalmente em termos de ser superior aos outros; o rei de Deus pensa em ser submisso a Deus. Isso fica muito claro no derradeiro rei, nosso Senhor Jesus Cristo:

Eu nada posso fazer de mim mesmo; na forma por que ouço, julgo. O meu juízo é justo, porque não procuro a minha própria vontade, e sim a daquele que me enviou. (João 5:30)

Então, Jesus foi com eles. E, já perto da casa, o centurião enviou-lhe amigos para lhe dizer: Senhor, não te incomodes, porque não sou digno de que entres em minha casa. Por isso, eu mesmo não me julguei digno de ir ter contigo; porém manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado. Porque também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados às minhas ordens, e digo a este: vai, e ele vai; e a outro: vem, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz. Ouvidas estas palavras, admirou-se Jesus dele e, voltando-se para o povo que o acompanhava, disse: Afirmo-vos que nem mesmo em Israel achei fé como esta. (Lucas 7:6-9, ênfase do autor)

Colocando em termos bíblicos, o rei de Deus é chamado de filho de Deus (ver 2 Samuel 7:14; Salmo 2:7), não no sentido de ser Seu descendente, mas no sentido de estar sujeito ao Pai.

O fruto de um reino justo é a bênção do povo. O governo de um rei perverso é tristeza para o reino:

Como leão que ruge e urso que ataca, assim é o perverso que domina sobre um povo pobre. (Provérbios 28:15)

Quando se multiplicam os justos, o povo se alegra, quando, porém, domina o perverso, o povo suspira. (Provérbios 29:2)

Por isso, vemos a ênfase das Escrituras na necessidade de os reis reinarem com justiça:

Nos lábios do rei se acham decisões autorizadas; no julgar não transgrida, pois, a sua boca. Peso e balança justos pertencem ao SENHOR; obra sua são todos os pesos da bolsa. A prática da impiedade é abominável para os reis, porque com justiça se estabelece o trono. Os lábios justos são o contentamento do rei, e ele ama o que fala coisas retas. (Provérbios 16:10-13)

Assentando-se o rei no trono do juízo, com os seus olhos dissipa todo mal. (Provérbios 20:8)

O rei sábio joeira os perversos e faz passar sobre eles a roda. O espírito do homem é a lâmpada do SENHOR, a qual esquadrinha todo o mais íntimo do corpo. Amor e fidelidade preservam o rei, e com benignidade sustém ele o seu trono. (Provérbios 20:26-28)

Davi descreve essa mesma verdade de forma poética (também). Ele compara o governo de um rei justo com a luz trazida pelo sol numa manhã sem nuvens (v. 4a). Ele também o compara ao calor do sol que faz brotar da terra a erva depois da chuva (v. 4b). A liderança justa inspira e permite a produtividade; a perversa a reprime e anula. Não temos visto esse tipo de coisa nos povos oprimidos pelo comunismo nos últimos tempos?

No verso 5, o assunto volta-se para Davi e sua casa (dinastia). A Versão King James e a Nova Versão King James vertem a primeira linha de forma oposta à das demais versões (em português, a versão João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel, e a versão Almeida Revista e Corrigida):

Ainda que a minha casa não seja tal para com Deus, contudo estabeleceu comigo uma aliança eterna, que em tudo será bem ordenado e guardado, pois toda a minha salvação e todo o meu prazer está nele, apesar de que ainda não o faz brotar. (ACR, Fiel)

Ainda que a minha casa não seja tal para com Deus, contudo estabeleceu comigo um concerto eterno, que em tudo será ordenado e guardado. Pois toda a minha salvação e todo o meu prazer estão nele, apesar de que ainda não o faz brotar. (ARC)

Compare com a tradução das versões ARA, NVI e Bíblia de Jerusalém:

Não está assim com Deus a minha casa? Pois estabeleceu comigo uma aliança eterna, em tudo bem definida e segura. Não me fará ele prosperar toda a minha salvação e toda a minha esperança? (ARA)

A minha dinastia está de bem com Deus. Ele fez uma aliança eterna comigo, firmada e garantida em todos os aspectos. Certamente me fará prosperar em tudo e me concederá tudo quanto eu desejo. (NVI)

Sim, a minha casa é estável na presença de Deus: ele fez comigo eterna aliança, em tudo ordenada e bem segura; não faz ele germinar toda a minha salvação e todo o meu prazer? (Bíblia de Jerusalém)

Os tradutores tiveram de fazer uma escolha. Aqueles que traduziram as versões King James, tanto a nova como a velha (em português, as versões Almeida Corrigida e Almeida Corrigida, Fiel), preferiram passar a primeira linha de forma negativa; os outros preferiram a forma positiva. De um jeito ou de outro, o sentido das palavras de Davi é claro. No primeiro caso, Davi estaria ressaltando sua indignidade, juntamente com a de sua casa, em contraste com a graça de Deus em fazer aliança com ele e seus descendentes: “Nem eu, nem meus descendentes merecemos isso, mas Deus fez uma aliança eterna comigo, uma aliança que garante um reino perpétuo de justiça”. No segundo, Davi estaria ressaltando a graça de Deus para com ele e por meio dele: “Não é que Deus realmente tornou justo o meu reinado, e o dos meus descendentes, com base na aliança feita comigo?”

O resultado final é a confiança de Davi ao falar de um reino de justiça para sua casa. Essa confiança não é devido aos seus méritos ou à sua própria justiça, mas à graça de Deus, assegurada pela aliança feita com ele (2 Samuel 7:14). Com base nessa aliança, Davi tem a certeza de um reino de justiça, assinado, selado e entregue6 na aliança de Deus cumprida (total e definitivamente) na pessoa do Messias, o Senhor Jesus Cristo7. Esta é a derradeira salvação e também o último desejo de Davi realizados por Deus, o autor e consumador de toda salvação. A canção de Davi é centrada em Deus, de quem, por meio de quem e para quem são todas as coisas.

Observe como o salmo que estamos estudando tem influência sobre este salmo de Salomão:

[Salmo de Salomão] Concede ao rei, ó Deus, os teus juízos e a tua justiça, ao filho do rei. Julgue ele com justiça o teu povo e os teus aflitos, com equidade. Os montes trarão paz ao povo, também as colinas a trarão, com justiça. Julgue ele os aflitos do povo, salve os filhos dos necessitados e esmague ao opressor. Ele permanecerá enquanto existir o sol e enquanto durar a lua, através das gerações. Seja ele como chuva que desce sobre a campina ceifada, como aguaceiros que regam a terra. Floresça em seus dias o justo, e haja abundância de paz até que cesse de haver lua. (Salmo 72:1-7)

Repare como, tempos depois, outros escritores do Antigo Testamento buscaram as palavras desse salmo de Davi para falar do seu cumprimento em Cristo:

Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo. Repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor do SENHOR. Deleitar-se-á no temor do SENHOR; não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos; mas julgará com justiça os pobres e decidirá com eqüidade a favor dos mansos da terra; ferirá a terra com a vara de sua boca e com o sopro dos seus lábios matará o perverso. A justiça será o cinto dos seus lombos, e a fidelidade, o cinto dos seus rins. (Isaías 11:1-5)

Pois eis que vem o dia e arde como fornalha; todos os soberbos e todos os que cometem perversidade serão como o restolho; o dia que vem os abrasará, diz o SENHOR dos Exércitos, de sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramo. Mas para vós outros que temeis o meu nome nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas; saireis e saltareis como bezerros soltos da estrebaria. (Malaquias 4:1-2)

Davi não é nenhum universalista, achando que as bênçãos sobre as quais escreve são para toda a humanidade. A salvação sobre a qual ele escreve é seu desejo, seu prazer. Nem todos os homens encontram esperança em Deus e creem na Sua salvação. Consequentemente, no final da sua canção de salvação, Davi volta-se para o destino dos perversos, para aqueles que rejeitam a salvação de Deus no Messias, Seu ungido. As imagens dos versos 6 e 7 seguem de perto as do verso 4 só para mostrar o contraste. Quando o justo Rei de Israel (Jesus) vier para governar a terra, Seu reino fará o justo florescer, como a chuva e o sol fazem a grama brotar e crescer. Mas os perversos não são comparados à grama; são comparados aos espinhos. Espinhos não são úteis, não são colhidos, nem guardados para uso futuro. Espinhos são tratados ao alcance da mão. Quem lida com eles não os toca, para não se machucar. A pessoa usa uma lâmina de metal para cortá-los e queimá-los onde estão.

Talvez aqui seja um bom lugar para refletir sobre isso. A mensagem da Bíblia não é promessa de salvação e vida eterna para todos os homens. É oferta de salvação para todos. No entanto, sem a intervenção divina, os perversos invariavelmente rejeitarão essa oferta. E, por isso, estão condenados à destruição pelo fogo. Para colocar de forma bíblica e direta, os perversos são condenados ao inferno:

Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de julgar. Vi ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tampouco a sua imagem, e não receberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos. Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição…  Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros. Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras. Então, a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo. E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo. (Apocalipse 20:4-5; 11-15)

As boas novas do evangelho, oferecendo salvação a todos os homens, não podem ser proclamadas de verdade sem a correspondente advertência do julgamento eterno do qual os homens devem ser salvos. O cântico de salvação de Davi anseia pelo tempo do advento do Grande Rei, o “Filho de Davi”, o Senhor Jesus Cristo, cuja vinda significa salvação para os justos (em Cristo) e julgamento para os ímpios (sem Cristo). Em última análise, a “salvação” de Davi não é militar, nem física, é espiritual.

Antes de seguir adiante, permitam-me sugerir algumas implicações e aplicações sobre o que acabamos de ler. Primeiro, a justiça deve ser refletida naqueles a quem Deus designou como líderes. A justiça tem sua raiz na obra de Cristo, não nas nossas, mas é refletida na nossa preocupação com os pobres e necessitados e na nossa reação aos ímpios. Muitas vezes os pais tratam os filhos de forma positiva, mas ignoram seus pecados ou deixam de lidar com eles. A Bíblia requer de nós que detestemos o mal e nos apeguemos ao bem (Romanos 12:9). A justiça é refletida de forma positiva ou negativa. Ignorar uma dimensão ou outra é deixar de exercer a justiça da forma requerida por Deus de Seus líderes.

Os Valentes de Davi: Perfis de Coragem
Os Três (23:8-12) e os Trinta (23:13-39)

Os Três (v. 8-12)

São estes os nomes dos valentes de Davi: Josebe-Bassebete, filho de Taquemoni, o principal de três; este brandiu a sua lança contra oitocentos e os feriu de uma vez. Depois dele, Eleazar, filho de Dodô, filho de Aoí, entre os três valentes que estavam com Davi, quando desafiaram os filisteus ali reunidos para a peleja. Quando já se haviam retirado os filhos de Israel, ele se levantou e feriu os filisteus, até lhe cansar a mão e ficar pegada à espada; naquele dia, o SENHOR efetuou grande livramento; e o povo voltou para onde Eleazar estava somente para tomar os despojos. Depois dele, Sama, filho de Agé, o hararita, quando os filisteus se ajuntaram em Leí, onde havia um pedaço de terra cheio de lentilhas; e o povo fugia de diante dos filisteus. Pôs-se Sama no meio daquele terreno, e o defendeu, e feriu os filisteus; e o SENHOR efetuou grande livramento.

O primeiro dos “três” valentes é Josebe-Bassebete, chefe dos capitães. Dele é dito que matou 800 homens de uma só vez. O relato paralelo de Crônicas é um pouco diferente:

Eis a lista dos valentes de Davi: Jasobeão, hacmonita, o principal dos trinta, o qual, brandindo a sua lança contra trezentos, de uma vez os feriu. (1 Crônicas 11:11)

A diferença de nome nos dois textos não é surpreendente nem grande. Os números diferem consideravelmente8. No texto de 2 Samuel, lemos que esse guerreiro matou 800 homens de uma só vez; no texto de Crônicas, que apenas 300 foram mortos. É difícil dizer qual dos textos pode ter sofrido erro de copista, mas, de uma forma ou de outra, quem enfrenta algumas centenas de inimigos e mata todos eles em um só dia é realmente um grande guerreiro.

O herói seguinte entre os três maiores é Eleazar, filho de Dodô, o aoíta. Crônicas também descreve seu heroísmo:

Depois dele, Eleazar, filho de Dodô, o aoíta; ele estava entre os três valentes. Este se achou com Davi em Pas-Damim, quando se ajuntaram ali os filisteus à peleja, onde havia um pedaço de terra cheio de cevada; e o povo fugiu de diante dos filisteus. Puseram-se no meio daquele terreno, e o defenderam, e feriram os filisteus; e o SENHOR efetuou grande livramento. (1 Crônicas 11:12-14)

Eleazar e Davi lutavam contra os filisteus. Aparentemente, os inimigos prevaleciam sobre Israel, pelo menos aos olhos de muitos soldados israelitas que estavam fugindo. Eleazar parecia defender um campo de cevada, o qual os filisteus talvez tivessem intenção de saquear ou destruir (compare com Juízes 6:2-6, 11). Pelo plural de 1 Crônicas 11:14, acho que Eleazar não lutava sozinho, mas ao lado de Davi, embora quase todo mundo tivesse fugido. Os filisteus caíram diante de Eleazar e ele continuou a lutar até sua mão ficar com cãibra, grudada na espada. A batalha foi vencida, em parte devido à sua coragem e perseverança, mas, em última análise, graças a Deus, que lhe deu a vitória. Quando o povo voltou ao campo, tudo o que restava a fazer era tirar os despojos dos mortos — isto é, limpar o que foi deixado por Eleazar.

O terceiro dos “três” grandes é Sama, filho de Agé. Nessa ocasião, os filisteus mais uma vez lutavam contra os israelitas. Eles se reuniram para a batalha num terreno onde havia uma plantação de lentilhas. Novamente, parece que eles queriam privar os israelitas de suas colheitas. Conquistar o terreno era obter os suprimentos de que precisavam, despojando-os de Israel. O povo fugiu dos filisteus, mas Sama continuou lá. O Senhor lhe deu a vitória e ele defendeu o campo, ferindo uma porção de filisteus.

Os trinta (v. 13-39)

Também três dos trinta cabeças desceram e, no tempo da sega, foram ter com Davi, à caverna de Adulão; e uma tropa de filisteus se acampara no vale dos Refains. Davi estava na fortaleza, e a guarnição dos filisteus, em Belém. Suspirou Davi e disse: Quem me dera beber água do poço que está junto à porta de Belém! Então, aqueles três valentes romperam pelo acampamento dos filisteus, e tiraram água do poço junto à porta de Belém, e tomaram-na, e a levaram a Davi; ele não a quis beber, porém a derramou como libação ao SENHOR. E disse: Longe de mim, ó SENHOR, fazer tal coisa; beberia eu o sangue dos homens que lá foram com perigo de sua vida? De maneira que não a quis beber. São estas as coisas que fizeram os três valentes. Também Abisai, irmão de Joabe, filho de Zeruia, era cabeça de trinta; e alçou a sua lança contra trezentos e os feriu. E tinha nome entre os primeiros três. Era ele mais nobre do que os trinta e era o primeiro deles; contudo, aos primeiros três não chegou. Também Benaia, filho de Joiada, era homem valente de Cabzeel e grande em obras; feriu ele dois heróis de Moabe. Desceu numa cova e nela matou um leão no tempo da neve. Matou também um egípcio, homem de grande estatura; o egípcio trazia uma lança, mas Benaia o atacou com um cajado, arrancou-lhe da mão a lança e com ela o matou. Estas coisas fez Benaia, filho de Joiada, pelo que teve nome entre os primeiros três valentes. Era mais nobre do que os trinta, porém aos três primeiros não chegou, e Davi o pôs sobre a sua guarda. Entre os trinta figuravam: Asael, irmão de Joabe; Elanã, filho de Dodô, de Belém; Sama, harodita; Elica, harodita; Heles, paltita; Ira, filho de Iques, tecoíta; Abiezer, anatotita; Mebunai, husatita; Zalmom, aoíta; Maarai, netofatita; Helebe, filho de Baaná, netofatita; Itai, filho de Ribai, de Gibeá, dos filhos de Benjamim; Benaia, piratonita; Hidai, do ribeiro de Gaás; Abi-Albom, arbatita; Azmavete, barumita; Eliaba, saalbonita; os filhos de Jasém; Jônatas; Sama, hararita; Aião, filho de Sarar, ararita; Elifelete, filho de Aasbai, filho de um maacatita; Eliã, filho de Aitofel, gilonita; Hezrai, carmelita; Paarai, arbita; Igal, filho de Natã, de Zobá; Bani, gadita; Zeleque, amonita; Naarai, beerotita, o que trazia as armas de Joabe, filho de Zeruia; Ira, itrita; Garebe, itrita; Urias, heteu; ao todo, trinta e sete.

Três Homens e um Gole D’Água (v. 13-17)

O incidente descrito nestes versos talvez tenha ocorrido antes de Davi ter se tornado rei, enquanto ainda fugia de Saul. A “caverna de Adulão” é mencionada pela primeira vez em 1 Samuel 22:1. Foi para lá que Davi se dirigiu quando fugiu de Gate. Foi ali que uma porção de seus parentes se uniu a ele, junto com outros que também tinham caído no desfavor de Saul. Em algum momento, enquanto estavam em guerra com os filisteus, Davi e seus homens se refugiaram na caverna. Os filisteus tinham tomado posse de Belém, cidade natal de Davi, e montado uma guarnição lá. Provavelmente, quando os homens de Davi ficaram sem água e ele ficou com sede, ele expressou aquilo que era apenas um desejo: se ao menos pudesse beber a água do poço junto à porta de Belém. Sem dúvida, ele bebera daquele poço muitas vezes em sua juventude e cultivou um gosto particular por aquela água.

Alguns de seus homens não puderam deixar de ouvir o que ele disse. Ele não lhes deu ordem para buscar água daquele poço. Ele sequer teve a intenção de que suas palavras induzissem alguém a tentar pegá-la. No entanto, para aqueles três bravos, o desejo de Davi era uma ordem. Eles deixaram a segurança da caverna, marcharam cerca de 20 km ou mais até Belém, atravessaram as linhas inimigas, pegaram a água para Davi e voltaram para entregá-la a ele.

Quando presenteado com aquela água, Davi fez o que, a princípio, parece bastante incomum9 — ele se recusou a bebê-la, e em vez disso derramou-a no chão. Não foi porque ele desdenhou dos esforços daqueles homens corajosos, nem porque não quis bebê-la. Creio que sua atitude demonstrou que a coragem daqueles homens foi tão nobre que ele não poderia fazer outra coisa. Ele jamais teve a intenção de colocar suas vidas em risco simplesmente para satisfazer seus próprios desejos10. O sacrifício feito por eles era do tipo devido somente a Deus. Derramar essa água como libação ao Senhor era uma das maiores expressões de apreço e respeito por eles. A água era símbolo do sangue quase derramado por aqueles homens, ao servi-lo. O melhor uso para ela era oferecê-la a Deus, por isso, ele a derramou como libação ao Senhor.

Abisai (v. 18-19)

Abisai e seus irmãos, Joabe e Asael, eram parentes de Davi. Eles eram filhos de Zeruia, irmã de Davi (verso 18, ver 1 Crônicas 2:16). Abisai deve ter sido um mistério para Davi, como mostra uma recapitulação do seu papel na vida dele. Por um lado, Abisai foi um grande guerreiro e líder militar. Ele foi o único a se apresentar como voluntário para acompanhar Davi ao acampamento de Saul naquela que parecia, literalmente, ser uma missão suicida (1 Samuel 26:6-12). Ele comandou uma das tropas de Davi na campanha contra os sírios e amonitas (2 Samuel 10:9-14). Ele liderou um terço do exército contra os rebeldes de Absalão (2 Samuel 18:2). Ele recebeu o comando das tropas para subjugar a rebelião de Seba (2 Samuel 20:6). Sob sua liderança, o exército israelita conseguiu dar cabo de 18.000 edomitas no Vale do Sal (cf. 1 Crônicas 18:12).

Por outro lado, ele era um espinho na carne de Davi. Quando desceram ao acampamento de Saul, ele estava ansioso para matar o rei ungido de Deus (1 Samuel 26:6-8). Ele e Joabe, seu irmão, foram responsáveis pelo assassinato de Abner, em retaliação à morte de Asael, morto por Abner em batalha (ver 2 Samuel 3:26-30). Ele e Joabe também queriam executar Simei por atormentar Davi quando este fugia de Absalão, embora o próprio Davi estivesse disposto a perdoá-lo (2 Samuel 16:5-14). Quando Davi voltou a Jerusalém e Simei foi ao seu encontro mostrando arrependimento, Abisai ainda não estava satisfeito. Ele queria que Davi o deixasse matar Simei, porque ele tinha amaldiçoado o rei (2 Samuel 19:16-23).

Apesar de todos os defeitos de Abisai, ele era um homem valente, cuja coragem e habilidade na guerra não podiam ser negadas. Ele recebeu lugar de destaque no “hall da fama” militar de Israel porque foi um homem valoroso. O texto nos diz que certa vez ele brandiu a espada contra 300 homens do exército inimigo e matou a todos. Dentre os trinta, ele foi o primeiro, mas não teve lugar no grupo de elite dos “três grandes” (acima).

Benaia, o Coração de Leão (v. 20-23)

Devo confessar que Benaia é o meu favorito dentre os valentes de Davi. Ele é realmente especial. Ele era filho de um homem valente, grande em obras (verso 20). Benaia matou dois filhos de Ariel11, de Moabe. Isso, em si, talvez não pareça muita coisa, mas há mais, muito mais. Ele entrou numa cova no tempo da neve para matar um leão e matou mesmo! Essa “cova”, na verdade, talvez fosse uma cisterna12 e os guerreiros israelitas não pudessem tirar água porque um leão caíra lá dentro e não conseguia sair. Quem ia querer discutir direitos sobre a água com um leão? Sendo a água de extrema importância para um exército, Benaia pode ter se oferecido para entrar na cisterna e tirar o leão de lá, de um jeito ou de outro. Apesar de todos os obstáculos e dificuldades, ele foi bem sucedido.

Mas há ainda um outro incidente que o autor registra para mostrar o quanto esse herói era formidável. Um egípcio do tamanho de Golias se opôs a ele no campo de batalha. O problema foi que Benaia encontrou esse cara impressionante quando não portava nenhuma arma. O egípcio tinha uma espada como a de Golias e estava ansioso para lutar contra ele. Benaia o “pôs abaixo”, com apenas um cajado na mão. Ele usou o cajado para dominá-lo. Tomando a espada da sua mão, Benaia acabou com ele com a sua própria arma, não muito diferente da forma como Davi matou Golias (1 Samuel 17:50-51).

O mais surpreendente sobre Benaia é que ele era filho de um sacerdote:

O terceiro capitão do exército e o designado para o terceiro mês era Benaia, chefe, filho do sacerdote Joiada; também em seu turno havia vinte e quatro mil. (1 Crônicas 27:5)

A última coisa que poderíamos esperar era ver um sacerdote enfrentando homens ferozes como leões e leões de verdade. Eis um sacerdote disposto a sujar as mãos e colocar em prática a sua fé. Talvez Davi o tenha encarregado da guarda real, comandando os quereteus e peleteus, em recompensa por seu serviço leal (2 Samuel 8:18; 20:23).

Uma Longa Lista de Heróis (v. 24-39)

O autor conclui o hall da fama de combatentes relacionando pelo menos 30 homens que foram valentes de guerra. Ele informa que, ao todo, eram trinta e sete, mesmo a contagem real sendo menor. Parte do problema talvez seja devido a não sabermos quantos eram os “filhos de Jasém” (verso 32). Alguns também (como Urias) tinham morrido e foram substituídos. Se esse grupo era uma espécie de guarda de honra da qual faziam parte os trinta soldados mais corajosos e heróicos, provavelmente o posto era preenchido quando alguém morria.

Com certeza, a menção de Urias nos interessa. Ele não era um simples recruta, mas um dos guerreiros de elite que lutavam por Davi e por Israel. Parece bastante improvável que Davi não o conhecesse muito bem; e, mesmo assim, ele tomou a esposa de Urias, enganou-o e usou sua lealdade e habilidade como guerreiro como os meios pelos quais o mataria.

Não temos nenhum detalhe sobre os atos heróicos dos homens relacionados nos versos 24 a 39, mas Bergen13 aponta alguns fatos interessantes sobre eles como grupo. Talvez todos, exceto doze, fossem de Judá. Três, pelo menos, vieram de Benjamim. Dois de Efraim. Um talvez fosse de Dã e outro de Gade. Três das cidades de origem não são mencionadas em nenhum outro lugar e duas são o nome de mais de um lugar. Três deles eram gentios (inclusive Urias). Mais uma vez encontramos os gentios participando da salvação do povo de Deus. Parece-me que alguns nomes relacionados aqui são daqueles que se juntaram a Davi logo no início da sua vida pública, antes de ele se tornar rei e enquanto fugia de Saul.

Conclusão

Conforme chegamos ao final do capítulo, percebemos que ele é parte do epílogo que serve como conclusão para 1 e 2 Samuel. O autor veio intensificando a narrativa até este ponto e as coisas escritas aqui são parte importante do que ele (por inspiração do Espírito Santo) está tentando transmitir a seus leitores. Quais lições os antigos israelitas e os cristãos contemporâneos deveriam e devem aprender? Deixem-me sugerir algumas.

1) O autor está nos lembrando do princípio da pluralidade. Bergen ressalta que aquilo que Deus fez por intermédio de Davi, Ele também fez por intermédio de outras pessoas:

“Homem de Guerra, Yahweh treinou, fortaleceu e deu a vitória no campo de batalha ao Seu ungido, Davi, mas não fez isso só com ele. Outros soldados da aliança, como Eleazar, também puderam experimentar tal bênção divina”.14

Há uma tendência de se presumir que Deus Se restrinja somente a uma pessoa, por intermédio da qual Ele faz muitas coisas. No Novo Testamento, essa mentalidade “restritiva” é totalmente refutada. A igreja é o corpo de Cristo, composto pelos judeus e gentios que estão “em Cristo” pela fé. Cada membro do corpo tem uma função única, a qual é desempenha por meio do seu dom ou dons espirituais. Ninguém deve achar que seja independente do resto do corpo (1 Coríntios 12:21-22) ou não seja importante (1 Coríntios 12:14-19). A igreja não é governada pelo “pastor”, mas pela pluralidade dos presbíteros (bispos ou anciãos, 1 Timóteo 3, Tito 1).

Embora muitos estejam dispostos a aceitar o princípio da pluralidade a partir do Novo Testamento, alguns ainda são propensos a pensar no Antigo Testamento como “espetáculos de um homem só”. Eu discordo. Deus dividiu a responsabilidade de liderar Israel entre profetas, sacerdotes e reis. Ele não concentrou todo poder em único ofício ou em um único homem. Na verdade, foi por isso que Saul se meteu numa grande encrenca quando usurpou o papel de Samuel, recusando-se a esperar por ele e indo em frente com a oferta de sacrifícios (1 Samuel 13). Essa também foi a impressão equivocada de Elias, achando que “estava só”, quando a verdade era bem diferente (1 Reis 19). Deus opera por meio de diversas pessoas para alcançar Seus objetivos. Ele não Se restringe a apenas uma, nem mesmo a apenas algumas.

2) A coragem, como a covardia, é contagiosa. Por que, quando lemos a respeito de Saul, não encontramos nenhuma menção a tais “valentes”? Da forma como leio a narrativa de sua liderança em Israel, ele confiava em mercenários (1 Samuel 14:52). Não parece haver grupos como os “Três” e os “Trinta” de Davi. Por que não? Acho que faltava a Saul a coragem de Davi e a capacidade de atrair e inspirar “homens valentes”. O pai de Saul é descrito como esse tipo de homem (1 Samuel 9:1), mas não vejo a mesma coisa ser dita do próprio Saul. Quando Golias zombou do povo de Israel e de seu Deus, não vemos Saul saindo para silenciá-lo, nem encontramos qualquer um de seus seguidores disposto a fazê-lo. Quando Saul se acovardou diante das ameaças, seus homens fizeram o mesmo (ver 1 Samuel 17:11, 24). Seus homens pareciam mais propensos a desertar do que a aguentar o tranco (ver 1 Samuel 13:5-7).

Davi era um homem corajoso. Quando um leão ou um urso ameaçava o rebanho de seu pai, ele se recusava a permitir qualquer perda. Quando Golias blasfemou o nome de Deus, Davi lutou contra ele e o matou. Davi sempre provou ser um homem corajoso. Será que é tão estranho que ele tenha atraído homens como ele? O homem que enfrentou Golias estava rodeado de homens corajosos, os quais de bom grado enfrentariam os descendentes do gigante (ver 2 Samuel 21:15-22). Coragem inspira coragem, e Davi era um homem de coragem. Não é à toa que encontramos tantos heróis entre as pessoas mais próximas a ele.

Hoje em dia é a mesma coisa. Muitas vezes o povo de Deus fica intimidado por causa de líderes covardes, os quais não estão dispostos a confiar em Deus e se amedrontam ao menor sinal de oposição ou adversidade. O que a igreja de hoje precisa, como sempre, é de “homens e mulheres valentes”, por meio dos quais Deus fará grandes coisas, e por meio dos quais Deus inspirará outras pessoas a fazer o mesmo.

3) O texto também tem muito a dizer sobre as qualidades dos grandes homens ou mulheres de Deus. Deixem-me fazer um apanhado de algumas características dos “valentes” presentes no texto.

Heróis não ficam famosos só pela contagem de corpos. É bem verdade que em nosso texto uma das formas de medir a força de uma pessoa é pela quantidade de mortos deixados por ela. Há muitas outras formas de se avaliar alguém, como tentarei mostrar, mas primeiro gostaria de ressaltar que a “contagem de corpos”, como método avaliação de êxito, não é muito aplicável aos cristãos atuais. Os israelitas da época de Davi estavam sempre em guerra com seus inimigos e seu sucesso era medido pelo número de mortos. Hoje, estamos engajados numa “luta espiritual”, onde não é necessário que nossos adversários sejam mortos. Às vezes, fico me perguntando se alguns cristãos já se deram conta disso.

Heróis surgem em tempos de crise. Os homens homenageados neste texto não buscavam a fama. Eles simplesmente se recusaram a ceder quando as coisas ficaram pretas. Os dias difíceis nos desafiam a fazer o que for preciso para sermos contados entre os “valentes” da história.

Heróis surgem quando os outros se amedrontam e falham. Note que em diversos casos os valentes de Davi (e de Deus) permaneceram firmes enquanto os outros fugiram de medo. Quando o coração de algumas pessoas começa a fraquejar, o coração dos homens e mulheres valentes se fortalece com fé e coragem. Heróis não têm medo de ficar sozinhos, como Davi ficou diante de Golias, e como seus seguidores também ficaram.

Heróis estão preparados e predispostos ao heroísmo devido ao seu modo de vida. Já disse anteriormente que heróis surgem em tempos de crise. É verdade, mas há uma preparação que se dá antes disso. Quem aguenta firme em tempos de crise é quem aprendeu a crer e obedecer em tempos normais. O heroísmo existe antes da crise, mas só se manifesta quando ela surge.

Heróis não se assustam quando as chances parecem contra eles. Em outras palavras, heróis estão dispostos a viver perigosamente e confiar em Deus quando assumem certos riscos. Jônatas era um “valente”, por isso não é de admirar que ele fosse tão afeiçoado a Davi. Quando Saul e seus homens ficaram com medo, assustados com o grande número de filisteus contra eles, Jônatas saiu em perseguição do inimigo com estas palavras: “Disse, pois, Jônatas ao seu escudeiro: Vem, passemos à guarnição destes incircuncisos; porventura, o SENHOR nos ajudará nisto, porque para o SENHOR nenhum impedimento há de livrar com muitos ou com poucos” (1 Samuel 14:6). Os valentes de Davi não se impressionavam com as estatísticas, mas permaneciam firmes, crendo que Deus lhes daria a vitória.

Heróis estão dispostos a morrer, se for necessário. Os heróis da Bíblia eram homens que confiavam em Deus. Aqueles homens (e mulheres) não tinham medo de morrer, pois sua fé estava em Deus e no reino celestial (ver Hebreus 11). Quem tem medo da morte não é alguém que esteja disposto a viver perigosamente e assumir riscos.

Heróis trabalham e se esforçam muito, mas no final das contas esperam em Deus pela vitória. Em cada um desses casos de heroísmo, os próprios homens são honrados. Eles aguentaram firme enquanto outros fugiram. Eles tomaram a iniciativa quando foi preciso. E, por sua coragem e habilidade, são louvados. Por outro lado, não foi só devido à sua habilidade ou coragem que a batalha foi vencida. As vitórias conquistadas por eles eram humanamente impossíveis. O autor deixa bem claro que, em última análise, é Deus quem dá a vitória.

Heróis levam seus deveres e responsabilidades a sério. Como soldados, esses homens eram obrigados a defender seu território e lutar, e eles lutaram. Mesmo quando os outros fugiram, eles aguentaram firme. Há um sentimento muito forte de compromisso com o dever nesses “valentes”. 

Heróis vão muito além do chamado do dever, por fé, lealdade e amor. A melhor ilustração desse ponto é a atitude dos três homens de Davi, os quais foram buscar água de um poço em Belém. Davi não lhes deu ordem para trazê-la para ele. Se tivesse dado, e eles tivessem obedecido, teria sido por dever. No entanto, ele apenas expressou um desejo, e para eles, seu desejo era uma ordem. Eles arriscaram a vida, abriram caminho até o poço e voltaram, tudo por lealdade e amor a Davi. Verdadeiros heróis procuram fazer aquilo que agrada a seus superiores; eles não são forçados só pelo dever, mas também pelo desejo de agradar a quem servem.

Heróis surgem onde o heroísmo é demonstrado, valorizado e recompensado. Por que o autor nos conta sobre os “Três” e sobre os “Trinta”? Acredito que, em parte, seja porque o heroísmo era apreciado e esses homens eram considerados dignos de honra e louvor. Davi demonstrou coragem na sua vida pessoal, e ele a valorizou e recompensou em quem estava ao seu redor. Não é à toa que os heróis tenham surgido em tal ambiente, ou que não tenham surgido em outra época (como a de Saul).

Heróis são aqueles que têm a coragem de se identificar com o ungido de Deus. Devo lembrar que esses “valentes” eram os “valentes” de Davi. Esses são os homens que andavam com ele e o apoiavam não só quando as coisas iam bem e era popular ficar ao seu lado, mas quando as coisas engrossavam e andar com ele colocava-os em perigo. Na carta aos Hebreus, parece-me que uma das maneiras de os santos provarem seu heroísmo era identificando-se com Cristo e Sua igreja quando isso era perigoso (ver Hebreus 10:32-34; 13:1-3).

Estes são dias em que o heroísmo pode muito bem ser necessário. Já não é mais popular (ou seguro) ser conhecido como cristão. Não há, na minha opinião, uma “maioria moral” para aplaudir os crentes por sua fé e obediência à Palavra de Deus. Não é raro encontrar crentes professos fraquejando quando as coisas ficam difíceis. Talvez tenhamos de assumir uma posição pessoal, no trabalho, na escola e até mesmo na nossa família.

Davi foi um herói, um “valente”, como o foram os homens relacionados em nosso texto. No entanto, devemos nos lembrar do maior “herói” de todos — nosso Senhor Jesus Cristo:

Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus. Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossa alma. (Hebreus 12:1-3)

Servos, sede submissos, com todo o temor ao vosso senhor, não somente se for bom e cordato, mas também ao perverso; porque isto é grato, que alguém suporte tristezas, sofrendo injustamente, por motivo de sua consciência para com Deus. Pois que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por isso, o suportais com paciência? Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca; pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente, carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados. Porque estáveis desgarrados como ovelhas; agora, porém, vos convertestes ao Pastor e Bispo da vossa alma. (1 Pedro 2:18-25)

É Ele a fonte da nossa coragem e da nossa fé:

Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei. Assim, afirmemos confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem? (Hebreus 13:5-6)

Não tenho muita certeza se o heroísmo é tão perceptível em nossos dias, não porque haja poucos heróis, mas porque verdadeiros atos heróicos não chamam tanta atenção quanto uma grande pilha de corpos chamava na época de Davi. É possível que os membros mais excelentes do corpo de nosso Senhor (a igreja) sejam as pessoas menos visíveis, enquanto as que estão sempre no centro das atenções talvez não sejam tão importantes quanto pensamos (ou pior, quanto “elas” pensam) (1 Coríntios 12:21-25). Da maneira como entendo a Bíblia, haverá um dia quando todos os cristãos irão comparecer diante do trono de Deus e todos os nossos pensamentos e obras serão julgados. Que alegria e privilégio será poder ouvi-lO dizer: “Muito bem, servo bom e fiel”.

Tradução: Mariza Regina de Souza


1 “Há, no entanto, um elemento mais prosaico, mas não menos importante nas ‘últimas palavras’ de David. E é o fato de que estas palavras, em parte, representam a preparação para a sua própria morte. Eis onde a vida de David se relaciona com a nossa. Sem dúvida, ele se coloca no fluxo da história redentora que leva ao advento do Senhor Jesus Cristo. Seu papel no desenrolar dos propósitos de Deus foi único. Mas isso não apagou o fato de que ele era como todos os demais filhos de Deus, no que diz respeito a viver e morrer. De qualquer forma, seu desempenho como rei ungido do Senhor e mavioso salmista de Israel o torna modelo e exemplo para cada um dos filhos de Deus de como se deve se preparar para a morte... ‘Quando sentirmos a aproximação da morte,’ diz Matthew Henry, ‘devemos nos esforçar tanto para honrar a Deus quanto para edificar aqueles que estão ao nosso redor com as nossas últimas palavras. ‘Que aqueles que há muito tempo sentem a bondade de Deus e o deleite da sabedoria… deixem registrada essa experiência e deem testemunho da veracidade da promessa...’ É em face da morte que uma fé viva (contínua) em Jesus Cristo brilha mais...mais intensamente nas profundezas do crente.” Gordon J. Keddie, Triumph of the King: The Message of 2 Samuel (Durham, England: Evangelical Press, 1990), pp. 230-231.

2 “Matthew Henry descreve isso com muita propriedade como sendo ‘a última vontade e o testamento do rei Davi. R. P. Gordon chama de “o legado eterno de Davi para Israel” e observa que ele transmite “tanto a força da esperança dinástica quanto a idealização do início do reino davídico em termos messiânicos’. Peter Ackroyd observa que isso nos faz lembrar ‘das últimas palavras da bênção pronunciada por Jacó a seus filhos, como representantes das tribos de Israel (Gênesis 49), e… das palavras de Moisés (Deuteronômio 33)’.” Gordon J. Keddie, p. 230.

3 Keddie faz um resumo conciso da mensagem do salmo de Davi nos versos 2 a 7: “O pensamento do poema de Davi começa com as provas das bênçãos de Deus ao longo de sua vida, até o limiar da eternidade (23:1-4), continua com a afirmação das promessas de bênçãos futuras em termos da aliança eterna de Deus (23:5) e conclui com a implícita responsabilidade de preparar o encontro com o Senhor, o qual guarda a misericórdia em mil gerações, perdoa a ‘iniqüidade, a transgressão e o pecado’, ainda que não inocente o culpado (Êxodo 34:7)”. Keddie, p. 231.

4 “Este verso (5) não é o mais fácil de traduzir e é possível que a última frase possa se referir, não a ‘cada desejo’ de Davi, mas ao beneplácito de Deus”. (Keddie, p. 234-235)

5 As últimas palavras de Davi a Salomão estão registradas em 1 Reis 2:2-9.

6 “A grosso modo, em tudo bem definida e segura podemos ter uma frase legal comparável à expressão em inglês ‘assinado e selado’”. O verbo traduzido por definida… tem conotação legal em poucas passagens (Jó 13:28; 23:4; Salmo 50:21). Robert P. Gordon, I & II Samuel: A Commentary (Grand Rapids: Regency Reference Library, 1996), p. 311.

7 “O Targum de Jônatas interpreta esta seção como profecia sobre a vinda do Messias. Jesus também parece ter entendido a passagem como messiânica; Sua comparação de Si mesmo com a ‘luz’ (João 8:12, 9:5, cf. v. 4) e sua parábola profética comparando os perversos ao joio a ser queimado (Mateus 13:30, 40, cf. v. 7) sugerem que Ele estava usando imagens tiradas desta passagem”. Robert D. Bergen, The New American Commentary: An Exegetical and Theological Exposition of Holy Scripture, NIV Text: 1, 2 Samuel (Broadman and Holman Publishers, 1996), p. 464.

8 “Os três receberam maior honra que os demais e foram relacionados em ordem de precedência. O nome do primeiro tem uma forma variante em 1 Crônicas 11:11, e é diferente também na LXX; o restante do verso 8 também apresenta alguns problemas (cf. RSV, mg., NIV, mg.)” Joyce G. Baldwin, 1 & 2 Samuel: An Introduction and Commentary (Downers Grove, Illinois: Inter-Varsity Press, 1988), p. 292.

“1 Crônicas 11:11 afirma que Jasobeão, o taquemonita, aparentemente o nome de Crônicas para Josebe Bassebete, o hacmonita, matou 300 homens. Presumindo que os dois nomes se referem à mesma pessoa, a existência de um erro de copista fica evidente. Contudo, a esta altura é impossível determinar se Samuel ou Crônicas mantém o número exato. Bergen, p. 469, fn. 47.

9 “Sabendo o que envolveu a obtenção do líquido, Davi fez algo que, inicialmente, parece absurdo ou insultante: ele ‘se recusou a bebê-lo’. O presente de água adquirido com tanto perigo representou algo tão precioso que Davi considerou-se indigno de bebê-lo”. Bergen, p. 470.

10 Lembramos que nem sempre foi assim, como podemos ver pela atitude de Davi com relação a Bate-Seba e seu marido, Urias.

11 Gordon escreve: “ariels é uma transliteração desesperada da palavra hebraica que pode ser uma tradução aproximada para ‘campeões’ (NEB; cf. NVI ‘melhores’). Compare com o tratamento de MT ‘er’ellam (Is. 33:7) nas versões modernas. Em Ezequiel 43:15 a palavra parece significar ‘lareira’ (cf. Is. 29:2, e possivelmente também em 1.12 da Pedra Moabita). AV, relacionando o elemento ‘ari ao termo hebraico para ‘leão’, traduz por ‘dois homens leoninos’ (‘dois leões em pele de homem’, numa edição anterior!)” Gordon, p. 313.

Pessoalmente, prefiro ver uma espécie de jogo de palavras aqui, pois a palavra hebraica para “leão” é bem parecida com a palavra transliterada “Ariel”. Assim, os tradutores da Versão King James e da Nova Versão King James traduzem ‘Ariel’ como “leonino”. Quem enfrenta dois oponentes leoninos também enfrentará um leão.

12 “Uma exibição única de coragem de sua parte — uma que Davi pudesse, de alguma forma, descrever (cf. 1 Samuel 17:34-36 — envolvia ‘entrar numa cisterna [NVI, ‘cova’] no tempo da neve’; aparentemente a fera tinha caído sem querer dentro de um tanque subterrâneo usado para coletar e guardar água para beber”. Bergen, p. 471.

13 Bergen, p. 472.

14 Bergen, p. 469.