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15. Absalão (2 Samuel 13:13-37-15:12)

Introdução

Quem já perdeu um filho conhece a dor causada por isso. A morte é uma experiência muito dolorosa, mas há outras maneiras — ainda piores — de se perder um filho. No que diz respeito à sua família, Davi sofreu muitas perdas, especialmente com relação aos filhos. Primeiro ele perdeu a primeira criança nascida de Bate-Seba, a viúva de Urias (capítulo 12). Algum tempo depois, sua filha Tamar perdeu a virgindade em um estupro, estupro esse cometido por seu meio-irmão Amnom. Em seguida, Davi perdeu Amnom, devido à vingança de Absalão por causa do estupro de Tamar, sua irmã. A perda mais dolorosa de todas parece ter sido a de Amnom. Finalmente, Davi “perdeu” Absalão, morto pelas mãos de Joabe e seus servos; mas, na verdade, ele já havia “perdido” Absalão muito tempo antes. Ele o perdeu quando Absalão matou o irmão, Amnom, e fugiu para Gesur, onde seu avô, Talmai, pai de sua mãe, Maaca (2 Samuel 3:3), era rei e ofereceu-lhe refúgio. Tal perda nunca foi recuperada, embora Absalão tenha obtido permissão para voltar a Jerusalém e à presença do rei. Esse é o tipo de perda mais doloroso para um pai, pois sei que muitos de vocês passam por isso.

Tenho certeza de que quem teve esse tipo de perda também já experimentou o sentimento de culpa que muitas vezes a acompanha. À primeira vista, essa culpa parece ter sido acrescentada ao texto. Não parece que foi Davi quem provocou grande parte do seu próprio sofrimento? A perda de Absalão não seria consequência de suas falhas paternas? Não foi Davi quem, mesmo sabendo do estupro de Tamar e tendo ficado furioso por causa disso, não fez nada a respeito? Não foi ele quem deixou Absalão viver em Gesur e depois permitiu, com relutância, a sua volta, mas só o viu pessoalmente quando foi literalmente pressionado a isso? Absalão não é fruto de um lar fracassado?

Devo confessar que, a princípio, esta também era minha opinião. Eu estava a ponto de mostrar as falhas paternas de Davi e sugerir que elas provocaram a queda e, por enfim, a morte do seu filho, Absalão. Agora, porém, já não vejo as coisas dessa maneira. Não é que Davi não tenha pecado ou cometido erros, mas é evidente que a queda de Absalão é consequência do seu próprio pecado, das suas próprias escolhas. Em meio ao sofrimento e à dor causados pela “perda” de Absalão, acredito que Deus esteja graciosamente ensinando Davi, levando-o para mais perto de Si e tornando-o um homem cada vez mais segundo o Seu próprio coração. A história é cheia de intriga e tristeza, mas, conforme lemos essa narrativa inspirada da Palavra de Deus, encontramos muita paz e consolação.

Pano De Fundo

A história começa muito antes do nosso texto. Em 1 Samuel 8, os líderes de Israel confrontaram Samuel e exigiram a designação de um rei para governá-los. Essa exigência desagradou tremendamente a Samuel e a Deus, pois o coração do povo não era reto diante do Senhor. Sob orientação divina, Samuel advertiu o povo sobre o alto custo de ter um rei (capítulo 8). Pouco depois, ele os repreendeu por causa de seus pecados, relembrando-os da fidelidade de Deus no cumprimento das Suas promessas, levando-os àquela terra e dando-lhes sua possessão (capítulo 12). Deus deixou bem claro, por meio de Samuel, que um rei não iria, e não poderia, salvá-los; sempre fora Ele quem salvara Seu povo e quem continuaria a salvá-lo. Se o povo e seu rei confiassem em Deus e O obedecessem, Ele continuaria a livrá-los e abençoá-los. Se não, “pereceriam, tanto eles como o seu rei” (1 Samuel 12:25b).

Saul foi escolhido e designado por Deus para ser o primeiro rei de Israel. De modo geral, até que ele se saiu bem em seu trabalho (1 Samuel 14:47-48). Em algumas áreas, ele foi até melhor que Davi. Até onde sabemos, ele não multiplicou para si esposas, cavalos ou riquezas (ver Deuteronômio 17:14-20). Não há registro de que ele tenha cometido adultério como Davi. Ele realmente subjugou muitos inimigos de Israel. Seus grandes pecados foram aqueles decorrentes de sua rebeldia contra Deus: primeiro, por não esperar Samuel e acabar oferecendo ele mesmo os sacrifícios (1 Samuel 13); depois, por não aniquilar totalmente os amalequitas (1 Samuel 15); e então, por pedir orientação a uma médium e não a Deus (1 Samuel 28).

Davi foi um grande rei e um homem segundo o coração de Deus. O pecado relacionado a Urias e Bate-Seba foi exceção à regra, mas foi um pecado monumental (1 Reis 15:5). A chave para a compreensão do que acontece em nosso texto é a acusação feita por Natã a Davi:

“Então, disse Natã a Davi: Tu és o homem. Assim diz o SENHOR, Deus de Israel: Eu te ungi rei sobre Israel e eu te livrei das mãos de Saul; dei-te a casa de teu senhor e as mulheres de teu senhor em teus braços e também te dei a casa de Israel e de Judá; e, se isto fora pouco, eu teria acrescentado tais e tais coisas. Por que, pois, desprezaste a palavra do SENHOR, fazendo o que era mau perante ele? A Urias, o heteu, feriste à espada; e a sua mulher tomaste por mulher, depois de o matar com a espada dos filhos de Amnom. Agora, pois, não se apartará a espada jamais da tua casa, porquanto me desprezaste e tomaste a mulher de Urias, o heteu, para ser tua mulher. Assim diz o SENHOR: Eis que da tua própria casa suscitarei o mal sobre ti, e tomarei tuas mulheres à tua própria vista, e as darei a teu próximo, o qual se deitará com elas, em plena luz deste sol. Porque tu o fizeste em oculto, mas eu farei isto perante todo o Israel e perante o sol.” (2 Samuel 12:7-12)

Todo poder, todas riquezas e toda glória de Davi lhe foram dados por Deus. Sua prosperidade não foi fruto da sua grandeza, mas da graça de Deus. Deus lhe disse que, se ele pedisse, Ele lhe daria “muito mais”. Davi queria mais, mas em vez de obedecer a Deus e pedir-Lhe, ele tomou Bate-Sabe, a esposa de Urias, ao qual depois matou. Deus graciosamente “removeu” o pecado de Davi, para que ele não tivesse de morrer, como requerido pela lei. Todavia, houve algumas consequências. A primeira foi a morte de seu primeiro filho com Bate-Seba (2 Samuel 12:14-23). A segunda foi o estupro de Tamar, sua filha, por seu próprio filho (e meio-irmão de Tamar, Amnom; 2 Samuel 13:1-19). A consequência seguinte foi a morte de Amnom pelas mãos (ou melhor, pela ordem) de Absalão, filho de Davi e irmão de Tamar (2 Samuel 13:20-36). Por conseguinte, Davi perdeu outro filho, Absalão, o qual teve de fugir de Israel e procurar refúgio em Gesur, lugar governado por seu avô, Talmai (2 Samuel 13:37). Absalão ainda não estava literalmente morto, mas certamente estava perdido para Davi e, para todos os efeitos, continuaria assim até sua morte, inclusive, pelas mãos de Joabe (2 Samuel 18).

O objetivo desta mensagem é enfocar Absalão, seu caráter e sua rebelião contra o pai, e também a maneira como Deus o usou para disciplinar Davi e atraí-lo para mais perto de Si mesmo. Para tanto, precisamos voltar ao capítulo 13, onde vislumbramos pela primeira vez o caráter de Absalão.

Absalão, Amnom E Davi, E O Estupro De Tamar (13:1-36)

Já estudamos este texto na mensagem anterior, por isso não vou repassar novamente os detalhes. O que desejo fazer agora é mostrar os primeiros sinais de insubordinação de Absalão (contra Deus e Davi), e o início do rompimento entre pai e filho.

Sabemos que Amnom, auxiliado por Jonadabe, fez um mal tremendo à sua família, especialmente à sua irmã. Ele enganou Davi, para que este desse ordens a Tamar para servir-lhe “café na cama”. Ele violentou a irmã e depois se recusou a fazer a coisa certa, casando-se com ela. Mas ele não foi o único a enganar o pai. Absalão fez a mesma coisa.

O que me perturba muito nesse texto são estas palavras sobre Davi:

“Ouvindo o rei Davi todas estas coisas, muito se lhe acendeu a ira.” (1 Samuel 13:21)

Fico me perguntando como ele pôde ficar tão irado com Amnom e mesmo assim não ter feito nada. Acho que agora estou entendendo. As palavras do verso 21 vêm não só depois da narrativa do pecado de Amnom, mas também da interferência de Absalão:

“Absalão, seu irmão, lhe disse: Esteve Amnom, teu irmão, contigo? Ora, pois, minha irmã, cala-te; é teu irmão. Não se angustie o teu coração por isso. Assim ficou Tamar e esteve desolada em casa de Absalão, seu irmão.” (2 Samuel 13:20)

Vamos voltar um pouco para refletir sobre como a justiça bíblica teria visto o caso do estupro de Tamar. Poderíamos pensar que Amnom, como Davi, merecia a pena de morte. Mas não era o caso, pois Davi adulterou com uma mulher casada; Amnom violentou uma virgem. A lei era bem clara quanto à pena para esses casos:

“Se alguém seduzir qualquer virgem que não estava desposada e se deitar com ela, pagará seu dote e a tomará por mulher. Se o pai dela definitivamente recusar dar-lha, pagará ele em dinheiro conforme o dote das virgens.” (Êxodo 22:16-17)

“Se um homem achar moça virgem, que não está desposada, e a pegar, e se deitar com ela, e forem apanhados, então, o homem que se deitou com ela dará ao pai da moça cinqüenta siclos de prata; e, uma vez que a humilhou, lhe será por mulher; não poderá mandá-la embora durante a sua vida.” (Deuteronômio 22:28-29)

Tamar suplicou a Amnom que pedisse a Davi para dá-la a ele como esposa, mas Amnom não quis. No mínimo, ele deveria ter se casado com ela depois de tê-la violentado. Isso, na verdade, era o que a lei prescrevia. Somente a recusa de Davi teria impedido o casamento1. Por que, então, isso não aconteceu? Por que Amnom não se casou com Tamar? Pela história, fica bem claro que ele não queria mais nada com ela. Mas somente isso não teria impedido o casamento, pois Amnom não tinha escolha. O que o impediu de se casar com Tamar foi a interferência de Absalão, irmão dela.

Pelo texto, fica claro para mim que Absalão tinha em mente uma punição bem diferente:

“Mas Jonadabe, filho de Siméia, irmão de Davi, respondeu e disse: Não pense o meu senhor que mataram a todos os jovens, filhos do rei, porque só morreu Amnom; pois assim já o revelavam as feições de Absalão, desde o dia em que sua irmã Tamar foi forçada por Amnom.” (2 Samuel 13:32)

Absalão odiava o meio-irmão pelo que ele tinha feito com Tamar, sua irmã. Ele não tinha nenhuma intenção de permitir ao rapaz se safar com tanta facilidade quanto a lei teria permitido. Desde o dia em que Tamar fora violentada, Absalão pretendia matar Amnom. Era só uma questão de tempo e oportunidade. Foi por isso que ele agiu como está registrado no verso 20. Ele disse à irmã para se calar e manter o assunto em família. Em outras palavras, ela não devia acusar Amnom. Em linguagem jurídica atual, ela não devia prestar queixa. Ela devia deixar o assunto com Absalão. Além disso, ele a levou para a casa dele, onde ela permaneceria desolada pelo resto da vida2.

O comportamento de Absalão preparava o terreno para o assassinato de Amnom. Sua conduta impediu Tamar de se casar e ter filhos. E também impediu Davi de agir de acordo com a lei de Moisés. Não é de admirar que Davi tenha ficado tão irado quando ouviu todas aquelas coisas. Ele ficou furioso porque estava de mãos atadas para tratar do caso de Amnom. O estupro de Tamar era um rumor não consubstanciado. As mãos de Davi foram atadas por Absalão. Davi, creio eu, ficou furioso não só pelo que Amnom fez, mas também pela atitude de Absalão.

Mas as transgressões de Absalão não param por aqui. Após se passarem dois anos e surgir uma oportunidade para tirar a vida de Amnom, ele realiza seu intento, fazendo de Davi um cúmplice involuntário (embora um tanto relutante — como se pudesse sentir que algo não cheirava bem nas intenções de Absalão, mas sem saber exatamente o quê). Da mesma forma que Amnom enganou Davi, pedindo-lhe para mandar Tamar à sua cabeceira, Absalão também engana Davi, pedindo-lhe para mandar Amnom à sua fazenda.

Absalão, Joabe, A Mulher De Tecoa E O Retorno De Absalão (13:37 - 14:33)

A reação inicial de Davi, como era de se esperar, foi de tristeza pela morte de Amnom. Mas já que ele estava morto, Davi podia e queria seguir em frente. Como o autor do texto coloca, Davi “já se tinha consolado acerca de Amnom, que era morto” (13:39). O filho de Davi, Amnom, se fora; seu filho Absalão estava vivo, mas escondendo-se como fugitivo da justiça no reino de Gesur, governado por seu avô, Talmai (ver 2 Samuel 3:3). Davi amava Absalão e desejava poder vê-lo (ele sabia que Absalão não podia ir até ele, pois era um assassino condenado à morte se voltasse a Israel).

Joabe conhecia o desejo de Davi e bolou um plano para trazer Absalão de volta a Israel. De forma alguma quero dizer que os motivos de Joabe eram autênticos. Quero dizer que ele, como Absalão, parecia determinado a obstruir a justiça. Meu entendimento deste capítulo está, de alguma forma, relacionado à presunção de que as ações de Joabe não são muito confiáveis, por isso, permitam-me explicar como cheguei a essa conclusão.

Embora, possa parecer à primeira vista, a “história” contada pela mulher de Tecoa não é do mesmo tipo da história contada por Natã, a qual levou Davi ao arrependimento. Natã era profeta; a mulher de Tecoa, não. Natã foi enviado por Deus para falar com Davi; a mulher de Tecoa, por Joabe. A mulher parece temer Joabe e não estar muito disposta a fazer o que lhe foi pedido; Natã abordou Davi com confiança. A história da mulher não é real; a história de Natã, embora imaginária, retratou fielmente o pecado de Davi. A história de Natã terminou com uma acusação “Tu és o homem!” A historia da viúva não acusa Davi de pecado, mas de incoerência. Quando Natã acusou Davi, este prontamente reconheceu seu pecado; quando a viúva atinge o ponto principal do plano de Joabe, Davi cede a seu pedido com relutância. Joabe parece grato demais pelo consentimento de Davi, como se isso fosse um favor pessoal a ele, não a coisa certa a fazer.

Quando o encontro com a mulher de Tecoa chega ao fim, Davi parece suspeitar, com razão, que “tem caroço no angu”. O “caroço” é Joabe. Ao pressionar a mulher para lhe contar “toda a verdade e nada mais que a verdade” (que o plano foi de Joabe), ela diz a Davi que foi tudo ideia de Joabe e ela não queria levar o plano adiante. Ela parece suspirar de alívio quando a encenação termina. Ela diz que Joabe orquestrou tudo para “mudar a aparência das coisas” (verso 20). Isso não soa como se ela dissesse: “fiz tudo isso para o senhor fazer a coisa certa”?

As ações posteriores de Joabe (sem mencionar algumas anteriores, como o assassinato de Abner) parecem trair suas segundas intenções. O amor por Absalão aparentemente é o ponto fraco de Davi, o qual Joabe tenta explorar em benefício próprio. Quando Absalão se rebela contra o pai, mal se ouve falar de Joabe. Absalão faz de Amasa o comandante do exército de Israel (ou seja, do exército que decide segui-lo). Quando Davi luta contra ele e suas tropas, ao que tudo indica, Joabe não atua como comandante de todo o exército, mas apenas de um terço das forças de Davi (2 Samuel 18:2). Naturalmente, é Joabe quem mata Absalão, mesmo tendo ordens de Davi para “tratá-lo com brandura” (18:5; 11-15). Quando Davi reassume o trono, ele substitui Joabe por Amasa (19:13), mas Joabe acaba matando Amasa com o auxílio de seu irmão Abisai (20:8-10). Finalmente, quando Davi já está velho e Adonias tenta se afirmar como sucessor do trono em lugar de Salomão, Joabe se une a ele, o que lhe custa a vida (1 Reis 2:28-33).

Absalão cometeu assassinato e procurou asilo político em Gesur, com seu avô. Davi não estava errado por continuar a amar o filho e querer vê-lo. Mas não seria certo Davi perdoá-lo para ele poder voltar. Não seria certo nem mesmo Davi ir até Gesur para visitá-lo. Usando de artifício e artimanha, Joabe segue seus próprios interesses na tentativa de manipular Davi para trazer Absalão de volta a Israel.

A mulher da cidade de Tecoa procura Davi, pedindo seu auxílio. Quando ele lhe pergunta qual é o problema, ela lhe conta. Observar a troca de informações entre eles é como assistir a uma partida de tênis. Cada vez que a mulher “saca” uma pergunta, Davi responde, só para ela voltar com outra pergunta, até que, finalmente, ele assume um compromisso com ela. Tendo obtido a palavra do rei, ela então aplica o seu caso e a resposta dele ao problema de Davi e Absalão.

A mulher diz: — Sou uma viúva que tinha dois filhos. Eles brigaram entre si no campo, e não houve quem os apartasse.3 — Por isso, um matou o outro. Se não havia ninguém para apartá-los, também não havia nenhuma testemunha do ocorrido. A morte pode ter sido em defesa própria. É difícil presumir que tenha sido assassinato em primeiro grau (premeditado). Se o caso fosse levado aos portões da cidade de refúgio, era improvável que o filho sobrevivente fosse mandado para execução pelos vingadores do homem morto.

Davi responde: — Por que não vai para casa e me deixa pensar no assunto? Depois eu lhe mando a resposta.

A mulher tenta novamente: — Compreendo, ó rei, que este é um caso difícil e seria melhor o senhor não se envolver pessoalmente. Posso entender, por isso, vou seguir minha vida e continuar o que vinha fazendo (escondendo o filho sobrevivente), eu aguento! Serei a única culpada, mas o senhor será inocente.

Davi responde: — Ora, só minuto! Não estou dizendo que não vou fazer nada. Eu só queria pensar um pouco mais no assunto. Mas vou lhe dizer o que farei. Se alguém a importunar, é só me dizer e eu dou um jeito.

A mulher fala pela terceira vez: — Bem, é muita gentileza de vossa majestade. Mas não seria melhor e mais fácil se o rei fizesse logo um decreto, para não ter de lidar com cada pessoa que me importunasse? Se o senhor disser que ninguém pode fazer mal ao rapaz, ele ficará seguro e não vou mais ter de escondê-lo. E quando fizer o decreto, se for com juramento divino, as pessoas saberão que o senhor está falando sério (e provavelmente não voltará atrás).

Davi responde: — O. K. Você venceu, eis o decreto real: “Tão certo como vive o SENHOR, não há de cair no chão nem um só dos cabelos de teu filho.”

A mulher fala pela quarta vez: — Muito obrigada, ó rei, mas esse decreto não representará um problema para o senhor? Como pode legislar para proteger a vida do meu filho e não fazer o mesmo com o seu, Absalão? Todos sabem que um dia morrerão, mas Deus não tem prazer na morte. Ele procura formas de manter os homens vivos e fazer retornar aqueles que estão longe dEle. Por que o senhor não faz o mesmo, e tenta encontrar um meio de poupar a vida de Absalão e trazê-lo de volta a Israel?

Davi responde: — Êpa! De repente está começando a parecer que toda essa conversa tem mais a ver comigo e meu filho do que com você e o seu. Isso me parece coisa de Joabe. Diga-me a verdade: Ele está por trás disso, não está?

A mulher responde pela quinta vez: — Ó rei, quem pode vendar seus olhos? Sem dúvida eu não posso. O senhor é tão sábio que pode enxergar a verdade. Sim, Joabe está por trás de tudo. Eu realmente não queria fazer isso, mas fiquei com medo, principalmente dele. Ele fez tudo isso para mudar o aspecto das coisas, para que pareçam melhor.

Davi responde: — Tudo bem, Joabe4, vou atender seu pedido, feito com tanta artimanha por intermédio dessa mulher. Vá e traga de volta meu filho Absalão.

Estou pronto a admitir que esta é uma paráfrase bastante livre do diálogo entre Davi e a mulher de Tecoa; mas ela parece transmitir o sentido do que aparentemente ocorreu. Com muito cuidado, usando as palavras de Joabe, a mulher consegue fazer Davi assumir um compromisso com a segurança do seu filho. No fim, ele faz um decreto com juramento divino para que o rapaz não seja prejudicado. A mulher, então, apela para o precedente recém-estabelecido (o qual parece não poder ser alterado) e o pressiona a fazer o mesmo com seu próprio filho (cuja culpa é bem mais evidente).

Com relutância, Davi cede à pressão de Joabe. Ele lhe dá permissão para trazer Absalão de volta a Israel. Supõe-se que ele não deixará ninguém (nenhum vingador) tirar a vida de Absalão. Em determinado momento, porém, Davi pensa no que o filho fez e altera os planos. Absalão não deve retornar a Israel como um homem inocente, livre para ir e vir a seu bel-prazer. Ele deve ficar em “prisão domiciliar”, detido em Jerusalém e na sua própria casa5.

Talvez eu esteja vendo demais no texto, mas não haveria uma espécie de justiça poética nesta passagem, quando Davi detém Absalão em sua própria casa? Por um lado, Absalão ainda é um assassino não julgado. Mantê-lo “em isolamento” é uma forma bem prática de protegê-lo. É também uma maneira de mantê-lo fora de circulação. Afinal, aparentemente, foi a contragosto que Davi concordou com seu retorno. Mas também me lembro de que foi Absalão quem confinou sua irmã. Isolando Tamar na casa dele, ele a manteve calada. E também desolada. Tudo isso contribuiu para ele poder realizar o plano perverso de assassinar Amnom. Agora parece um tanto apropriado que o próprio Absalão fique detido no mesmo lugar onde sua irmã foi isolada pelo resto da vida.

Absalão tem uma grande coisa a seu favor. Sua aparência é excelente, sem um único defeito físico. O cabelo é seu ponto forte; e todos sabem disso. Ele tem três filhos e uma bela filha, o que também contribui para sua reputação. Ele é, por assim dizer, a princesa Diana daquela época. E Davi está se tornando o príncipe Charles, devido a uma conspiração cuidadosa e deliberada de Absalão. Mas falaremos disso mais tarde. Primeiro, vamos ver como Absalão obtém sua liberdade.

Ele ganha a liberdade após dois anos de prisão domiciliar. Ele está zangado e frustrado. Já que não pode sair de casa, ele convoca Joabe para ir até lá, mas é ignorado. Depois de tentar pela segunda vez uma audiência com Joabe, Absalão toma medidas drásticas. Ele manda seus servos atearem fogo ao campo de Joabe (pegado ao seu). É obvio que isso chama a atenção de Joabe! Rapidinho ele vai pedir satisfações a Absalão, mas, em vez disso, é Absalão quem lhe pede satisfação. Por que Absalão só pode ficar em sua casa? Se isso é tudo o que pode fazer, seria melhor ter ficado em Gesur, pois lá ele tinha liberdade. Absalão exige ver a face do rei.

É o que Absalão diz a seguir que me incomoda: “se há em mim alguma culpa, que me mate” (verso 32). Essas palavras nos soam um tanto familiares: “Dê-me a liberdade, ou a morte!”6 Mas, como ele pode falar desse jeito? Ele realmente acredita não ter culpa? Ele pensa não ser digno de morte? Pelo jeito, assim parece. Se for verdade, então, mais uma vez ele não demonstra nenhum respeito pela lei de Deus. Ele queria a pena de morte para Amnom, embora isso não fosse requerido pela lei. Ele pensa que a pena de morte é dura demais e não serve para ele, embora, segundo a lei, ele seja assassino. Eis um homem que não manifesta absolutamente nenhum arrependimento.

Rebaixando Davi Aos Olhos Do Povo (15:1-12)

Joabe, no entanto, leva a exigência ao rei, o qual cede e permite a Absalão entrar em sua presença. Davi o beija pensando que certamente isso irá colocar um ponto final na questão. Agora Absalão tem acesso ao rei e liberdade para ir aonde quiser. E quando ele vai, sem dúvida é em grande estilo. Ele compra uma carruagem, cavalos e 50 corredores para ir à sua frente (Com tantos guarda-costas, quem vai querer matá-lo?!).

Absalão teria sido um grande político. Pense bem, ele é exatamente isso! Todos os dias ele se posta na estrada de Jerusalém (fora da vista da cidade, e do seu pai, é claro!). Que visão deve ser! Um homem extremamente belo, com um cabelo de fazer inveja a qualquer mulher. Imagino que sua carruagem fique estacionada à vista de todos os transeuntes, junto com os 50 corredores. Cada efeito visual emana realeza e classe.

Absalão chama todos que passam por ali, perguntando-lhes de onde vêm e por quê. Ele saúda todo mundo de forma a se lembrarem dele. Imagine, por exemplo, que você está em uma rodovia e alguém faz sinal para seu carro parar ao lado de uma limusine estacionada. A porta se abre e o Vice-Presidente da República desce do veículo, travando conversa com você. Quando você tenta ser cerimonioso, ele o agarra firmemente pela mão e lhe dá um grande e forte abraço “sem-cerimônia”. Uau! Esse, sim, seria um encontro realmente inesquecível.

Mas ainda tem mais. Absalão não só procura parecer bonzinho, ele também faz Davi parecer muito mau. Ao saber de algum viajante se aproximando de Jerusalém em busca de justiça, ele diz sentir muitíssimo informá-lo de que o rei não tomou as providências necessárias para os casos de julgamento (isso, é claro, é mentira, pois acabamos de ver Davi ouvindo o caso da “viúva” e julgando a seu favor). Absalão diz à pessoa como isso o entristece, pois, pelo que sabe do caso, o julgamento seria favorável a ela. A causa seria ganha, não fosse o fato de Davi não ter designado ninguém para ouvi-la. Não é possível fazer justiça com Davi no trono. E assim, com muita habilidade, Absalão espalha que, se ele fosse juiz em Israel, faria as pessoas serem ouvidas, e julgaria a seu favor. Não se pode obter justiça com Davi, mas com ele, a coisa seria bem diferente.

Absalão não é apenas mentiroso (dizendo não haver ninguém para ouvir os casos), ele também é hipócrita. Exatamente qual tipo de “justiça” ele dispensaria? O mesmo “tipo” assegurada por ele a Amnom? O tipo recebido por sua própria irmã? O “tipo” dispensado por ele a si mesmo? Absalão não é amigo da justiça, nem dos oprimidos. Ele só leva as pessoas a pensar que é seu amigo. E isso funciona! Ele conquista o coração do povo. Agora ele está pronto para agir.

Após quatro anos7 menosprezando Davi e exaltando a si mesmo diante do povo, Absalão está pronto para agir. Seu plano é fazer sua estreia como rei no mesmo lugar onde Davi fez a sua, e onde ele mesmo nasceu, Hebrom (2 Samuel 3:2-3). Primeiro, ele tem de dar um jeito de chegar lá sem levantar suspeitas ou despertar a curiosidade de Davi. Ele conversa com o pai e conta-lhe que fez um voto enquanto estava em Gesur8. Ele votou que, se Deus lhe concedesse o privilégio de voltar a Israel, ele pagaria o voto em Hebrom. Agora, diz ele, é hora de cumpri-lo. Davi lhe dá permissão para ir. E o despede “em paz”. O que, com toda certeza, não vai resultar em “paz”.

Absalão leva consigo 200 homens de Jerusalém. Eles não fazem ideia do que ele tem em mente. No entanto, ele já tinha enviado mensagem às tribos de Israel dizendo que ao ressoar das trombetas deveriam declarar lealdade a ele, não a Davi. Além disso, ele também tinha dado um jeito de recrutar Aitofel, o gilonita, conselheiro de Davi. Aitofel tinha um dom excelente; seu conselho era extremamente sábio:

O conselho que Aitofel dava, naqueles dias, era como resposta de Deus a uma consulta; tal era o conselho de Aitofel, tanto para Davi como para Absalão. (2 Samuel 16:23)

A perda de Aitofel para Absalão é um grande golpe. É de admirar que alguém tão sábio possa se aliar a Absalão. Todavia, Deus fará uso de Aitofel. Deus usará seu conselho para cumprir a profecia (compare 2 Samuel 12:11-12 e 2 Samuel 16:20-22), e frustrará seu conselho para salvar Davi das mãos de Absalão (2 Samuel 17:1-4).

Conclusão

Como é triste ler essa história. O autor não omite nenhum detalhe. O “rastro de lágrimas” principia com o pecado de Davi a respeito de Urias e sua esposa, Bate-Seba. Ele começa com a agonia de sua alma, antes mesmo de ele se arrepender e confessar seu pecado (ver Salmo 32:3-4). Depois continua com a morte de seu primeiro filho com a esposa de Urias. Logo em seguida, sua própria filha (Tamar) é violentada por um de seus filhos, e então, esse filho (Amnom) é assassinado por outro filho (Absalão). Absalão foge para Gesur, e Davi sente saudades, mas sabe que não pode vê-lo. Daí, manipulado pelo engodo de Joabe, Davi se vê forçado a trazer Absalão de volta a Israel. Esta também não é uma experiência muito agradável. Quando Absalão consegue a liberdade, ele a usa para arruinar a reputação de Davi e melhorar sua posição diante do povo. A seguir vem a rebelião de Absalão, a divisão de Israel e, finalmente, a morte de Absalão pelas mãos de Joabe. Esse é, realmente, um rastro de lágrimas.

Em meio a tanto sofrimento e adversidade, preciso novamente ressaltar que Deus não está punindo Davi por seus pecados. Natã deixou bem claro a Davi que ele não seria submetido à pena de morte por causa disso, pois o “Senhor removera seu pecado” (2 Samuel 12:13). Eis um erro bastante comum entre os cristãos, ou seja, de que uma pessoa sofre por estar sendo punida por seus pecados. Os amigos de Jó acreditavam nisso e estavam sempre tentando fazê-lo se arrepender (ver Jó 4 e 5). Os discípulos de nosso Senhor presumiram que o cego de nascença fosse assim por causa do pecado de alguém (João 9:1-2). Há aqueles cujo sofrimento é resultado direto do seu pecado (ver Deuteronômio 28:15 e ss), mas nem sempre essa é a explicação para o sofrimento. Às vezes, o justo sofre simplesmente por ser justo (1 Pedro 4).

E também há vezes em que os santos sofrem por serem “filhos de Deus”, os quais estão sendo preparados para a glória (ver Hebreus 12). Até mesmo nosso Senhor sofreu a fim de ser preparado para Sua glória (ver Hebreus 2:10-18; 5:7-10; Filipenses 2:5-11). Não estou dizendo que o sofrimento de Davi não esteja relacionado a seu pecado. Estou dizendo que o sofrimento não foi punição, mas disciplina de Deus, a qual tinha o propósito de aproximá-lo do Senhor e desapegá-lo das coisas do mundo (compare 2 Coríntios 4:16-18).

Uma das coisas que Deus faz para disciplinar Davi é permitir que ele veja seu pecado de um ponto de vista diferente. Davi foi insensível quando tomou Bate-Seba, deitou-se com ela e matou seu marido. Ele usou (ou abusou) do seu poder como rei para pecar. Agora, Deus graciosamente permite que ele veja seu pecado de outra perspectiva. Davi não abusou do seu relacionamento com Deus, usando seu poder para correr atrás dos seus próprios interesses? Em nosso texto, Joabe parece fazer o mesmo. Amnom abusou do poder para tomar sua irmã, da mesma forma que acredito Davi fez com Bate-Seba. Absalão também abusou do poder, menosprezando Davi enquanto tentava conquistar seu trono. Davi não tentou enganar Saul sobre sua ausência? Agora Absalão também engana Davi sobre sua ida a Hebrom. Davi não tentou enganar Urias para encobrir seu pecado? Agora ele é enganado por Amnom, depois por Absalão, e então por Joabe e a mulher de Tecoa. Davi, o “filho” de Deus (ver 2 Samuel 7:8-17), não se rebelou contra Deus quando pecou? Agora, seu(s) filho(s) se rebela(m) contra ele. Davi não abusou do poder, oprimindo quem era impotente contra ele? Agora ele sente sua impotência quando Absalão frustra todas as oportunidades para ele exercer justiça para Tamar, Amnom e até mesmo para o povo de Israel (2 Samuel 15:2-6). Davi agora é capaz de ver seu pecado sob uma luz diferente, conforme ele é repetido por outras pessoas.

O texto tem muito a dizer sobre educação de filhos. Mesmo uma leitura superficial da Bíblia deixará claro que não há pais perfeitos. Até os homens e mulheres mais piedosos falharam como pais (pense em Eli, Samuel, Saul e agora Davi). Todos nós almejamos ser pais melhores diante de Deus. Não porque “bons pais” garantam filhos tementes a Deus, mas porque “bons pais” agradam a Deus. Devemos procurar ser bons pais porque é isso o que Deus requer de nós.

Quando nossos filhos errarem, e eles vão errar, não devemos nos envergonhar e ficar cheios de culpa, como se fôssemos os únicos responsáveis por seus erros. Veja os filhos de Davi estudados até aqui. Amnom era um rapaz desprezível, um tolo. Salomão será o homem mais sábio que já viveu. Adonias tentará usurpar o trono do irmão. Absalão perverteu o juízo, assassinou o irmão e se voltou contra o próprio pai. Estou certo de que, no caso de Absalão, as falhas de Davi afetaram seu filho de modo prejudicial. Assim dizendo, não creio que o texto tenha sido escrito para nos mostrar como Davi foi um mau pai, mas para nos mostrar como Absalão foi desobediente. Sua desobediência foi devido às suas próprias escolhas. E ela foi usada por Deus para disciplinar Davi, para torná-lo um homem mais segundo o Seu coração.

Por favor, não deixe esta mensagem ou este texto sentindo-se fracassado, dominado pela culpa, porque um de seus filhos de alguma forma está “perdido” para você. Os pecados cometidos por você realmente fazem parte da vida dele, mas ele, como Absalão, tem de decidir se quer ou não ter fé e obedecer. Se ele não crê, a culpa não é toda sua; talvez nem mesmo seja sua. Mas se você é cristão, então, eu lhe garanto que Deus usará até mesmo a rebelião do seu filho para lhe aperfeiçoar e levar-lhe a ter um relacionamento mais íntimo com Ele. Às vezes, nossos filhos são o nosso “deus”, e essa é uma das formas como Deus esclarece as nossas prioridades. No Antigo Testamento em especial, muitas vezes vejo as falhas familiares fazendo parte do grande plano de Deus para o Seu povo. Essas falhas não O impedem de realizar aquilo que Ele prometeu; e muitas vezes são os meios pelos quais Ele cumpre Suas promessas.

Creio haver uma lição sobre disciplina a ser aprendida neste texto; no caso, disciplina dentro da família. Davi queria restaurar seu relacionamento com o filho, Absalão. Ele sabia que não podia ignorar ou distorcer a lei para facilitar esse reencontro. Ele teve de ser enganado para permitir o retorno do filho, mesmo sabendo não ser o certo. Podemos considerá-lo frio e insensível por não permitir a Absalão ver sua face. Não concordo. Creio que ele entendia que reconciliação só pode vir depois de arrependimento, não antes. Ele ficou furioso, não só por Amnom ter violentado Tamar, mas também por Absalão ter obstruído a justiça e assassinado Amnom. Ele não podia se reconciliar com Absalão até este se arrepender, e até sua ira (de Davi) ser “propiciada” (termo teológico pomposo para aplacada ou satisfeita). Quando Joabe enganou Davi para ele permitir o retorno de Absalão, ele o faz de forma a não facilitar o arrependimento ou a reconciliação. Se temos de culpar alguém pelo pecado de Absalão (além do próprio Absalão, principal responsável), esse alguém é Joabe, não Davi, pois é ele quem promove a reconciliação sem arrependimento.

Isso me faz lembrar da história de José e seus irmãos. Os irmãos de José haviam cometido um grande pecado contra ele ao raptá-lo e vendê-lo como escravo. De acordo com a história, José amava seus irmãos, e desejava se reconciliar com eles. Mas ele não podia fazê-lo até que se arrependessem. Por isso, vemos a saga prolongada das duas viagens daqueles homens ao Egito, culminando no seu arrependimento sincero. Foi então que José revelou sua identidade. Eles se arrependeram e José os perdoou. Aí, sim, a reconciliação foi possível. Isso também era necessário ao relacionamento de Davi com Absalão, mas os esforços de Joabe só conseguiram atrapalhar a reconciliação, não facilitá-la.

Conheço muitos pais que estão tão desesperados para se relacionar bem com seus filhos que deixam de discipliná-los. E quando os filhos se rebelam, ficam tão ansiosos para tê-los de volta que os recebem de braços abertos, sem ter havido arrependimento; por isso, a reconciliação não pode ser verdadeira. O mesmo acontece na igreja. Para se ter verdadeira união na igreja, sincera comunhão entre os santos, é preciso, antes da reconciliação, existir repreensão, disciplina e arrependimento.

O filho de Davi, Absalão, também tem algo a nos ensinar. É uma lição sobre qual é, ou não, a verdadeira submissão. Ele parece ser um caso clássico de alguém que “cospe no prato em que come”. Ele não tem senso de dever para com o pai, e nem um pingo de gratidão. Mas, muito além disso, ele não tem absolutamente nenhuma submissão verdadeira a seu pai e rei. Como Satanás, ele se acha o “sucessor” do trono. Ele não se submete ao pai. Pelo contrário, ele usa sua posição e poder para enfraquecer a autoridade de Davi e dividir o reino. Pelas costas, ele fala mal do pai, fazendo-o parecer mau aos olhos dos outros. E tudo isso só para “se promover”.

Quantos de nós não fazemos a mesma coisa no serviço? Quantos não falam pelas costas do chefe com os colegas de trabalho? Quantos não tentam passar uma péssima imagem de seus superiores e uma boa imagem de si mesmos? Quantas esposas não minam a autoridade e a dignidade do marido diante dos filhos? Quantos maridos não fazem o mesmo com a esposa (falando mal dela para os filhos ou colegas, seja verdade ou invenção)? Quantas vezes não acontece o mesmo na igreja! Quem gosta de se exibir e aparecer não costuma lançar dúvidas sobre a capacidade dos líderes, sobre suas decisões e sobre sua liderança, enquanto alega que faria um trabalho bem melhor no lugar deles? Absalão é um alerta para todos nós sobre a submissão e o seu contraponto, a rebelião.

Finalmente, para concluir esta lição, gostaria de deixar algo para você pensar: A mesma coisa que Davi estava disposto a fazer, mas não pôde — salvar seu filho, Absalão — Deus também não e, por isso, mediante Seu Filho sem pecado, Ele constituiu muitos “filhos”. No capítulo 18, verso 33, Davi expressou o desejo de ter morrido em lugar de Absalão. Não podia ser assim e, mesmo que pudesse, não seria bom para Absalão. Davi não podia salvar seu filho da mesma forma que não podemos salvar os nossos. Mas Deus fez o que o homem não pode fazer. Ele entregou o Seu Filho sem pecado, Jesus Cristo, para sofrer e morrer na cruz do Calvário para pagar os nossos pecados. Ele deu o Seu Filho amado para os nossos pecados serem perdoados, e para nos tornarmos Seus filhos. O que nenhum homem pode fazer (salvar seus entes queridos), Deus pode. Ele nos deu o perdão dos pecados e a filiação que tanto precisávamos. Ele o fez por um único meio, a morte sacrificial, o sepultamento e a ressurreição de Seu Filho, Jesus Cristo. Para se reconciliar com Deus, você precisa reconhecer seu pecado, sua rebeldia contra Deus, e aceitar a dádiva de perdão e vida eterna que Ele lhe oferece. Oro para que você já a tenha recebido e, se não, que a receba.

Tradução: Mariza Regina de Souza


1 Há, é claro, a questão de Tamar ser meia-irmã de Amnom. Isso representa um problema, mas se eles tivessem se casado, ela seria para Amnom exatamente o mesmo que Sara foi para Abraão, esposa e meia-irmã. Em todo caso, no entanto, deixarei essa questão de lado, presumindo que o casamento fosse possível, assim como Tamar presumiu.

2 No início eu pensava que Absalão tivesse feito isso para o bem da irmã. No entanto, quanto mais leio a história, mais me convenço de que ele sacrificou os interesses dela pelos seus próprios interesses, para poder se vingar.

3 Um amigo meu me disse que, no Oriente Médio, uma briga deve continuar até que alguém intervenha para pará-la. Às vezes, uma luta tem início e uma das partes, ou ambas, espera pela intervenção para poder parar com dignidade. Se ninguém os detiver, eles devem lutar até a morte. Talvez seja esse o caso do texto.

4 Tem-se a nítida impressão de que Joabe estava bem ali, ao lado da mulher de Tecoa, dando-lhe uns cutucões enquanto ela dizia sua fala. O texto não diz que Davi mandou buscá-lo, mas que falou com ele. Pela narrativa, chego à conclusão de que Joabe estava ali o tempo todo em que a mulher falou com Davi.

5 Posso estar indo um pouco além, mas pense no seguinte. Davi deu instruções a Absalão para voltar para sua própria casa (verso 24). Absalão não devia ver a face de Davi, o que certamente teria acontecido se ele pudesse andar livremente por Jerusalém e arredores. Absalão se encheu da situação, mas teve de convocar Joabe para ir à sua casa; ele não foi à casa de Joabe ou de Davi. Creio que foi porque ele não podia deixar sua casa. Mas quando ganhou liberdade total, suas idas e vindas com uma carruagem e 50 corredores se tornaram muito mais visíveis.

6 Nota da Tradutora: Famosa frase de Patrick Henry, pronunciada na Convenção de Richmond em 1775, algo como o nosso “Independência ou Morte!”.

7 Observe a nota de rodapé da NASB, a qual indica que, embora o texto hebraico pareça indicar “quarenta”, outros manuscritos indicam “quatro”, o que parece ser requerido pelo contexto.

8 Talvez eu esteja vendo demais no texto, mas parece muita coincidência que Absalão explique sua ausência da presença do rei (Davi) com quase a mesma desculpa usada por Davi para explicar sua ausência da presença do seu rei (Saul, veja 1 Samuel 20:1-34). Será possível que o engodo de Davi não tenha sido tratado até agora, quando ele pode ver, novamente, como é sentir-se enganado?

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