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13. A Morte do Filho de Davi (II Samuel 12:14-31)

Introdução

Há algo realmente trágico na morte de uma criança. Minha esposa e eu, como tantos outros pais, passamos pelo trauma de acordar e encontrar nosso filho morto no berço. Esse mal é conhecido como SMSI ou Síndrome da Morte Súbita Infantil. Num momento a criança está saudável e feliz, noutro, ela se foi. É realmente um choque. Nós, no entanto, sentimos uma paz inexplicável em meio à tristeza. Vários anos depois, a questão de para onde vão os bebês quando morrem foi levantada na aula de teologia no seminário. Lembro-me da discussão acadêmica, dos versículos bíblicos citados e das conclusões alcançadas. Finalmente, levantei a mão e disse:

Para minha esposa e eu, essa não é uma questão teórica. Nós perdemos um filho ainda bebê. Sabemos como é. Também conhecemos todos os textos bíblicos citados e estamos familiarizados com as diferentes opiniões sobre o assunto. Entretanto, quando nosso filho se foi, nós sentimos uma paz e uma confiança que vão muito além daquilo que estamos discutindo. Sabíamos que o Deus a quem confiamos nossa alma é bom e perfeito, e que Ele faria o que fosse melhor com nosso filho. Não foram os argumentos discutidos hoje que nos deram paz, foi o próprio Deus, e na Sua paz nós descansamos.

O texto desta lição é um dos mais usados para consolar pais que perdem um filho ainda pequeno. Gostaria de dizer que minha opinião sobre esse assunto, sem dúvida, é moldada pela minha experiência. Devo, no entanto, adverti-los que não falo com muita objetividade, mas da perspectiva de alguém que vivenciou a perda de um filho. Sei que nem todos em nossa igreja aceitam minhas conclusões sobre o destino das crianças quando morrem, talvez nem mesmo os presbíteros. 

Como alguém que perdeu um filho ainda na infância, fico satisfeito com as conclusões a que cheguei. Devo salientar que elas foram resultado de inferências e processos lógicos. Nem sempre foram baseadas em afirmações claras e taxativas. Como tal, não devem ser defendidas tão categoricamente quanto opiniões que possuem sustentação bíblica clara, direta e repetitiva. Como tal, podem e devem ser rejeitadas por aqueles que chegam a conclusões diferentes, também fundamentadas em lógica e inferência. Em uma análise final, todos nós precisamos admitir que nossas conclusões sobre esse assunto não são tão indiscutíveis quanto outras verdades claramente afirmadas nas Escrituras. Enfim, precisamos confiar no Deus a quem entregamos nossa alma e nosso destino eterno. Como disse Abraão há muito tempo: “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gênesis 18:25).

Tendo dito isso, podemos observar que, de acordo com nosso texto, Davi sentiu uma paz incrível diante da morte do seu primeiro filho com Bate-Seba, uma paz que intrigou e surpreendeu aqueles que testemunharam os fatos. Ao examinar esta passagem, vamos atentar para a resposta dada por Davi à pergunta feita por seus servos. Vamos procurar aprender de seus lábios a razão pela qual ele conseguiu louvar e adorar Deus quando perdeu o filho.

Visão Geral e Recapitulação

Depois de se tornar rei de Israel, as coisas iam muito bem para Davi; talvez bem até demais. Ele parecia ter o toque de Midas: tudo em que tocava se transformava em ouro. Deus lhe dera êxito em todos os seus empreendimentos. No entanto, como o Israel de antigamente, momentaneamente Davi pareceu se esquecer de que seu sucesso era consequência da graça de Deus, não fruto de seus próprios esforços. O primeiro vislumbre de seu excesso de confiança se encontra em II Samuel 7, quando ele expressa o desejo de construir uma casa para Deus. Em resposta, Deus o relembra de que seus feitos são manifestações da Sua graça (7:8-9). Prosseguindo, Deus afirma que há ainda muitas coisas boas reservadas para Israel, as quais também serão obras Suas (7:10-11). Tendo gentilmente censurado Davi por supor que Ele realmente precise de uma “casa”, Deus promete edificar-lhe uma “casa” muito melhor, uma que será uma dinastia eterna:

“Dar-te-ei, porém, descanso de todos os teus inimigos; também o SENHOR te faz saber que ele, o SENHOR, te fará casa. Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; se vier a transgredir, castigá-lo-ei com varas de homens e com açoites de filhos de homens. Mas a minha misericórdia se não apartará dele, como a retirei de Saul, a quem tirei de diante de ti. Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será estabelecido para sempre.” (II Samuel 7:11b-16). 

Nos capítulos seguintes, porém, a arrogância de Davi parece aumentar. Isso fica bem claro em II Samuel 11. Israel está em guerra com os filhos de Amom e, na primavera (época em que os reis saíam à guerra), Davi manda seu exército sitiar Rabá, capital amonita, onde os últimos inimigos buscam refúgio. Ele não sai à batalha junto com seu exército, mas permanece em Jerusalém, entregando-se à boa vida enquanto os soldados acampam ao ar livre. Ele se levanta perto da hora em que os soldados (e outras pessoas) costumam ir para a cama. Ao perambular pelo terraço do palácio, sem querer ele vê algo que não deve: uma jovem se banhando; provavelmente, a lavagem cerimonial feita em obediência à lei. A moça é muito bonita e Davi decide que a quer. Ele manda mensageiros para inquirir sobre sua identidade. A resposta — que ela é Bate-Seba, esposa de Urias, o heteu — deveria colocar um ponto final na questão, mas Davi não tem intenção de ser privado de qualquer coisa que deseje. Ele manda buscá-la e se deita com ela. 

Para Davi, tudo termina depois daquela noite de autoindulgência. Ele não quer outra esposa e, aparentemente, nem mesmo um caso, só uma noite de prazer. Mas Deus tem outros planos. Bate-Seba concebe e manda dizer-lhe que está grávida. Quando fracassam as tentativas de Davi para levar Urias (e o povo) a pensar que ele (Urias) é o pai da criança, Davi, com o auxílio de Joabe, o envia para a batalha com o fim de ser morto. Após Bate-Seba prantear a morte do marido, Davi a leva para casa e a toma por esposa. Agora sim, ele espera que tudo esteja acabado. 

Tudo isso, no entanto, desagrada a Deus, e Ele não dará descanso ou paz a Davi até que este reconheça seu pecado e se arrependa. Depois de algum tempo de aflição (ver Salmo 32:3-4), Deus envia Natã com uma história, uma história que deixa Davi profundamente transtornado. Ele fica furioso. Ele diz com veemência que o homem rico que roubou a cordeirinha do homem pobre deve morrer! Natã interrompe seu discurso com as seguintes palavras: “Tu és o homem!” (II Samuel 12:7). Quando ouve Natã falando do seu pecado, Davi desmorona e declara: “Pequei contra o SENHOR” (II Samuel 12:13).

A resposta de Natã à confissão de Davi é ao mesmo tempo consoladora e perturbadora. Embora Davi mereça morrer por causa dos seus pecados, ele não morrerá, porque Deus o perdoou (12:13). Que alívio essas palavras devem ter causado! Mas o que se segue transpassa seu coração: o filho, fruto do seu pecado, vai morrer. É a reação de Davi à morte desse filho que iremos enfocar nesta lição.

Observações

Antes de voltarmos a atenção para a história propriamente dita, gostaria de fazer algumas observações que podem nos auxiliar na compreensão do texto.

Este é o primeiro de uma série de acontecimentos dolorosos na vida de Davi resultantes do pecado relacionado a Urias e Bate-Seba. Em nosso texto, Davi irá sofrer a perda da criança concebida pela união pecaminosa com a esposa de Urias, Bate-Seba. Em seguida, sua filha será violentada por um de seus filhos. Em retaliação ao pecado de Amnom, ele será assassinado por Absalão. Depois, Absalão se rebelará contra o próprio pai e, durante algum tempo, assumirá o trono. Nesse meio tempo, ele também irá para a cama com algumas das concubinas de Davi, diante de todo Israel e no terraço do palácio de onde Davi viu Bate-Seba pela primeira vez. Todas essas coisas são, direta ou indiretamente, consequências do pecado de Davi com Bate-Seba. 

A trágica morte do filho de Davi é consequência do seu pecado, mas não é a pena que ele merece. A pena para adultério e assassinato era a morte, tanto para um quanto para outro. Davi merecia morrer pelas duas coisas: pelo adultério e pelo assassinato. No entanto, Natã deixa bem claro que o pecado de Davi foi “perdoado”. A morte da criança é uma consequência dolorosa do seu pecado, mas, em si mesma, não é a sua punição. Sua punição foi retirada, foi paga pelo Senhor Jesus Cristo. 

O jejum observado por Davi é coisa séria. No Velho Testamento hebraico havia uma forma singular de dar ênfase a alguma coisa. O hebraico antigo repetia a palavra como ênfase. Assim, quando Deus disse a Adão que ele “certamente morreria” (Gênesis 2:17), Ele disse algo como: “você vai morrer a morte”. Por isso, a Tradução Literal de Young interpreta: “E da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, pois no dia em que dela comeres — a morte tu morrerás.”

Em nosso texto, Deus usa esse método de repetição para enfatizar a certeza da morte da criança:

“Mas, posto que com isto deste motivo a que blasfemassem os inimigos do SENHOR, também o filho que te nasceu morrerá.” (II Samuel 12:14)

A mesma repetição é encontrada no verso 16: “Buscou Davi a Deus pela criança; jejuou Davi e, vindo, passou a noite prostrado em terra.”

Somente nas notas marginais da Versão King James é que vemos a tradução literal “jejuou um jejum”. O caso é que o jejum de Davi não foi feito por acaso. Foi algo que ele fez com muita seriedade, pois era uma questão de vida ou morte.

Outra vez, Bate-Seba não é importante neste texto, mas sim Davi. Quem cometeu o adultério foi Davi, enquanto (em minha interpretação da história) Bate-Seba foi apenas uma vítima. É por isso que só ele é importante no texto que descreve seu jejum e sua oração, suplicando a Deus pela vida da criança.

Neste texto, o autor muda a forma de se referir a Bate-Seba. No verso 15, ele fala de Bate-Seba, a mãe da criança que morreu, como a “viúva de Urias” (“a mulher de Urias”, na versão ARA). No verso 24, há uma mudança significativa. Nele, o autor se refere à mesma mulher, a mãe do segundo filho de Davi, Salomão, como “sua esposa Bate-Seba” (“Bate-Seba, sua mulher”, versão ARC). Deus não só aceita este segundo filho, como também aceita Bate-Seba como esposa de Davi.

Os acontecimentos finais do capítulo 12 nos dão uma sensação de desfecho. Devemos entender este pecado na vida de Davi como exceção, não a regra:

“Porquanto Davi fez o que era reto perante o SENHOR e não se desviou de tudo quanto lhe ordenara, em todos os dias da sua vida, senão no caso de Urias, o heteu.” (I Reis 15:5)

Portanto, os capítulos 11 e 12 de II Samuel são quase um parêntese, quando retratam esse período incomum da vida de Davi. Essa foi uma época em que ele não foi um “homem segundo o coração de Deus”. Assim, o início do capítulo 11 descreve a saída de Israel para a guerra, enquanto Davi fica em casa (11:1). Os versos 26 a 31 do capítulo 12 registram como Davi se apresenta na guerra e, quando ela é vencida, como Israel retorna a Jerusalém. Há aqui uma sensação de desfecho, de finalização, a qual creio que o autor pretendia que sentíssemos. Além disso, descobrimos que o texto também registra a morte do primeiro filho de Bate-Seba, seguida do relato do nascimento de Salomão, o qual reinaria em lugar de Davi, seu pai.

Nossa Abordagem

Há muitas maneiras de abordar esta passagem. Poderíamos dissecá-la, dando ênfase aos nuances de cada palavra e de cada frase. Prefiro não fazer isso, pois já apontei os detalhes que considero importantes. Assim, abordarei o texto mais ou menos da forma como Michael Landon, antigo ator e diretor de televisão, teria feito. É provável que muitos já tenham assistido (pelo menos os mais velhos) alguns trabalhos dirigidos por Michael. Ele tinha um jeito especial de captar a emoção do momento e retratá-la com dramaticidade. Lembro-me de um episódio em que ele ficou sabendo, para surpresa sua, que uma mulher ficara cega. Quando ele mostrou ao público o quanto a condição da mulher o abalara, até eu tive de enxugar os olhos. Nosso texto tem alguns momentos muito emocionantes, os quais eu creio que Michael Landon teria gostado de enfatizar. Por isso, tentarei capturar as emoções de Davi, e daqueles próximos a ele, enquanto ele lidava com a morte do filho, fruto do seu pecado.

O Pronunciamento de Natã (12:13-15a)

“Disse Natã a Davi: Também o SENHOR te perdoou o teu pecado; não morrerás. Mas, posto que com isto deste motivo a que blasfemassem os inimigos do SENHOR, também o filho que te nasceu morrerá. Então, Natã foi para sua casa. E o SENHOR feriu a criança que a mulher de Urias dera à luz a Davi; e a criança adoeceu gravemente.”

Davi se condenou com as suas próprias palavras ao reagir à história de Natã sobre o roubo da cordeirinha: “Tão certo como vive o SENHOR, o homem que fez isso deve ser morto” (12:5). A lei certamente não previa tal pena para um ladrão, mas condenava adúlteros e assassinos. De acordo com a Lei, Davi deveria ser morto por causa dos seus pecados. No entanto, com base na graça divina advinda da futura morte de Cristo, ele foi perdoado e teve a garantia de que não morreria. As palavras de Natã devem ter sido um grande alívio para ele, pois ele sabia que não merecia outra coisa além da ira de Deus. Sua sensação de alívio, contudo, foi muito breve, pois Natã ainda não terminara o que tinha a dizer:

“Mas, posto que com isto deste motivo a que blasfemassem os inimigos do SENHOR, também o filho que te nasceu morrerá.” (verso 14)

Natã garantiu a Davi que a punição merecida fora removida (ou seja, transferida para Cristo). Mas Deus não podia permitir que Seu nome fosse blasfemado e, com isso, parecesse que Ele não se importava com o pecado de Davi. A Bíblia nos ensina, desde o princípio, que o salário do pecado é a morte (ver Gênesis 2:17; 4:8, 23: 5:1 e ss; Romanos 6:23). Para Deus, deixar os pecados de Davi sem nenhuma consequência dolorosa seria dar ocasião aos ímpios para concluir que Ele não odeia realmente o pecado, nem toma alguma atitude quando pecamos.

A lei de Moisés foi dada para diferenciar Israel das outras nações. Foi dada para que eles refletissem o caráter de Deus no mundo. Quando Davi pecou, ele violou a lei de Deus, além de desonrá-lO. Essa hipocrisia era observada pelas outras nações e resultava em desonra a Deus. Séculos mais tarde, Paulo faria a mesma acusação contra os judeus:

“Tu, pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Dizes que não se deve cometer adultério e o cometes? Abominas os ídolos e lhes roubas os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa.” (Romanos 2:21-24)

Em outro lugar, o apóstolo ensina a Timóteo que os presbíteros — líderes da igreja cujas vidas estão sob o escrutínio público — que persistem no pecado devem ser corrigidos publicamente, a fim de que todos aprendam (I Timóteo 5:19-20). Deus se preocupa muito com Sua reputação. Ele trabalha de forma a instruir não só aqueles que observam, mas também os anjos (ver Êxodo 32:9-14; 34:10; Efésios 3:8-10).

Deus não podia ignorar o pecado de Davi, pois a desobediência deste a Seus mandamentos era de conhecimento público. Assim como suas vitórias e seus triunfos, os pecados de Davi também deviam ser bem conhecidos entre os gentios. Ao tirar a vida da criança concebida em pecado, Deus Se manifestou para aqueles que estavam observando. Talvez eles pensassem que, se Deus não ligava para o pecado do Seu povo, também não ligaria para os deles. Assim, zombariam Dele com a convicção de que poderiam continuar pecando.

Anos atrás, dei aula para a sexta série. Não era muito frequente, mas, de vez em quando, algum dos alunos quebrava alguma regra de forma ostensiva e era preciso levá-lo para fora e aplicar-lhe um castigo. Minha classe (e todas as das proximidades) sabia o que ia acontecer quando eu saía da aula com alguém1. Entretanto, quando o aluno era encaminhado para o gabinete do Diretor, quase sempre a coisa era diferente. O Diretor lhe passava um pequeno sermão e o cara-de-pau voltava pra classe com um enorme sorriso no rosto. Tanto ele quanto os outros sabiam que ele tinha se safado, apesar da sua conduta. Deus não podia permitir que Davi saísse impune desse pecado monumental sem tomar alguma atitude, algo que todos vissem. A morte da criança era para disciplinar Davi e calar aqueles que quisessem usar seu pecado como desculpa para blasfemar contra Deus; era para proclamar e exaltar a glória de Deus.

A Reação de Davi à Doença e Morte de Seu Filho (12:15b-23) 

“E o SENHOR feriu a criança que a mulher de Urias dera à luz a Davi; e a criança adoeceu gravemente. Buscou Davi a Deus pela criança; jejuou Davi e, vindo, passou a noite prostrado em terra. Então, os anciãos da sua casa se achegaram a ele, para o levantar da terra; porém ele não quis e não comeu com eles. Ao sétimo dia, morreu a criança; e temiam os servos de Davi informá-lo de que a criança era morta, porque diziam: Eis que, estando a criança ainda viva, lhe falávamos, porém não dava ouvidos à nossa voz; como, pois, lhe diremos que a criança é morta? Porque mais se afligirá. Viu, porém, Davi que seus servos cochichavam uns com os outros e entendeu que a criança era morta, pelo que disse aos seus servos: É morta a criança? Eles responderam: Morreu. Então, Davi se levantou da terra; lavou-se, ungiu-se, mudou de vestes, entrou na Casa do SENHOR e adorou; depois, veio para sua casa e pediu pão; puseram-no diante dele, e ele comeu. Disseram-lhe seus servos: Que é isto que fizeste? Pela criança viva jejuaste e choraste; porém, depois que ela morreu, te levantaste e comeste pão. Respondeu ele: Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se o SENHOR se compadecerá de mim, e continuará viva a criança? Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim.”

Após Natã deixar Davi, Deus fere o filho deste com a “mulher de Urias”. Não sabemos qual foi a doença, mas sabemos que a criança morre depois de sete dias.2 Davi lamentou a perda de Saul e de Jônatas, mortos em batalha (II Samuel 1), a morte de Abner por Joabe (II Samuel 3) e até mesmo a morte de Naás, o rei amonita (II Samuel 10). Aqui, no entanto, seu lamento não é pela morte da criança (pois ela ainda não morreu), mas de arrependimento. Ele lamenta em sinal de arrependimento, enquanto suplica a Deus pela vida do menino.

É certo Davi suplicar pela criança, quando Deus já havia dito que iria tirar-lhe a vida? Creio que a resposta é “Sim!”. Davi sabia que algumas profecias eram advertências sobre o julgamento divino em caso de não haver arrependimento. Às vezes, Deus anunciava um julgamento que só ocorreria se as pessoas não se arrependessem. A esperança pela compaixão divina em resposta ao arrependimento humano está registrada em Jeremias 18:5-8:

“Então, veio a mim a palavra do SENHOR: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? — diz o SENHOR; eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel. No momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino para o arrancar, derribar e destruir, se a tal nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe.” (Jeremias 18:5-8)

Essa esperança de perdão foi confirmada na antiga Nínive (para desgosto de Jonas, ver Jonas 3 e 4), e também em Manassés (II Crônicas 33:10-13). 

Além disso, Davi talvez tenha entendido a questão do ponto de vista da aliança davídica, que Deus fizera com ele pouco tempo antes:

“Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; se vier a transgredir, castigá-lo-ei com varas de homens e com açoites de filhos de homens. Mas a minha misericórdia se não apartará dele, como a retirei de Saul, a quem tirei de diante de ti.” (II Samuel 7:12-15)

Será que ele sentia ser essa criança a herdeira do trono? Se foi isso, certamente ele tinha razão em esperar que Deus a poupasse.

Ele tinha razão ao presumir que a vida da criança estava nas mãos divinas, e o melhor a fazer era suplicar ao Senhor para lhe poupar a vida. Davi acreditava na soberania de Deus, por isso, descansou nEle. Suas orações não foram apenas expressão do seu arrependimento, mas exercício da sua fé. Crer na soberania de Deus não o impediu de agir (jejuar e orar); sua fé o levou a tomar uma atitude.

Apesar da sua tristeza, da sua sinceridade e da sua persistência em suplicar pela vida da criança, Deus negou-lhe o pedido. O menino morreu. Davi não devia estar com ele quando isso ocorreu, senão teria visto por si mesmo. Ele percebeu os servos conversando em voz baixa, talvez olhando furtivamente em sua direção. Eles estavam receosos de lhe contar, pois temiam que talvez ele pudesse se afligir. O texto não é totalmente claro sobre a quem Davi poderia afligir. Note que, pelo uso de itálico, a NAB (New American Bible — Nova Bíblia Norte-Americana) indica que o pronome se foi acrescentado pelos tradutores. Não tenho certeza de que os servos temessem somente pelo bem estar de Davi. Talvez eles também temessem por si mesmos. Creio que a Nova Versão Internacional transmite melhor a ambiguidade do texto original:

“Sete dias depois a criança morreu. Os conselheiros de Davi ficaram com medo de dizer-lhe que a criança estava morta, e comentaram: “Enquanto a criança ainda estava viva, falamos com ele, e ele não quis escutar-nos.” Como vamos dizer-lhe que a criança morreu? Ele poderá cometer alguma loucura!” (II Samuel 12:18, NVI)3

Resumindo, o que ninguém queria era ser o portador das más notícias. Afinal, se Davi levou a doença da criança tão a sério, não levaria a notícia da sua morte ainda mais?4 Eles nem precisaram dizer nada, pois ele, instintivamente, soube que a criança se fora. As palavras de Natã foram cumpridas, como Davi pôde observar no rosto dos servos. Quando perguntou se a criança estava morta, eles não conseguiram negar. Disseram que sim.

O que acontece a partir daí é que deixa os servos de Davi perplexos. Enquanto a criança estava doente, eles não conseguiram levantá-lo do chão, nem fazê-lo comer alguma coisa. Por isso, presumiram que a situação ficaria ainda pior quando soubesse da morte do filho. Em vez disso, Davi se levantou, lavou-se, ungiu-se, mudou suas vestes, foi à casa do Senhor e adorou. Depois, voltou para casa e pediu comida. Quando a colocaram diante dele, ele comeu.

Os servos ficaram surpresos e intrigados. Um texto no Novo Testamento talvez nos ajude a explicar o que era de se esperar:

“Então os discípulos de João Batista chegaram perto de Jesus e perguntaram: — Por que é que nós e os fariseus jejuamos muitas vezes, mas os discípulos do senhor não jejuam? Jesus respondeu: — Vocês acham que os convidados de um casamento podem estar tristes enquanto o noivo está com eles? Claro que não! Mas chegará o tempo em que o noivo será tirado do meio deles; então sim eles vão jejuar!” (Mateus 9:14-15, NTLH)

Davi devia chorar após a morte da criança. Do ponto de vista dos servos, ele se entristeceu tanto enquanto ela ainda estava viva, que eles temeram pelo que poderia acontecer quando lhe dissessem que estava morta. Finalmente, eles reúnem coragem e lhe perguntam como ele conseguiu reagir com tanta calma ao saber da sua morte. Ele então lhes dá a razão da sua mudança de atitude. Creio que a reação incomum de Davi pode ser explicada desta forma:

A morte da criança não foi surpresa para Davi, pois ele já tinha sido advertido por Natã. Por intermédio do profeta, Deus o informou que seu filho, fruto da sua união pecaminosa com Bate-Seba, “a viúva de Urias”, morreria. Essa morte foi a vontade revelada de Deus. O grande pesar de Davi foi para expressar seu arrependimento diante dessa vontade. Sua atitude indica que ele aceitou a morte da criança como a vontade do Senhor.

Natã já tinha explicado a Davi o motivo para a morte da criança. A finalidade dessa morte não era puni-lo. A punição apropriada para seus pecados, de acordo com a lei, era a morte. Natã não lhe comunicou a redução da pena, mas o completo perdão, pois a culpa e a punição tinham sido “removidas” (12:13). O propósito para a morte da criança foi didático. Teve a intenção de calar qualquer blasfêmia por parte dos “inimigos de Deus”. A fim de que ninguém pudesse concluir erroneamente que o Deus de Israel tinha ignorado o pecado de Davi ao quebrar Sua lei, o Senhor mostrou claramente que Ele não iria tolerar esse pecado, mesmo tendo sido cometido por um homem segundo o Seu próprio coração. A morte do filho de Davi foi uma lição direta para os inimigos de Deus.

A tristeza de Davi durante a doença da criança foi um ato de arrependimento, não de pesar pela perda de um ente querido:

“Respondeu ele: Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se o SENHOR se compadecerá de mim, e continuará viva a criança? Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim.”

A morte da criança foi aceita como a resposta final de Deus às petições de Davi por sua vida. Essa é a essência da resposta de Davi à pergunta feita pelos servos. Enquanto a criança estava viva, ele jejuou, chorou e orou. Mas agora ela está morta. Davi fez tudo o que podia. Deus lhe deu uma resposta clara e definitiva: “Não”. Davi vê a morte como o momento de cessar de fazer o que era adequado só em vida. Alguém já disse: “Onde há vida, há esperança.” Quanto à esperança da cura, Deus mostrou a Davi que era hora de parar de tentar persuadi-lO a não tirar a vida da criança.

Vejo um exemplo parecido da aceitação da morte como uma questão encerrada no capítulo 13, quando Davi encontra certo conforto no fato de seu filho Amnom estar morto:

“Então, o rei Davi cessou de perseguir a Absalão, porque já se tinha consolado acerca de Amnom, que era morto.” (II Samuel 13:39)

O consolo de Davi, até certo ponto, foi encontrado na morte de Amnom. Em sua cabeça, era como se Deus tivesse encerrado um capítulo. A morte de seu filho com Bate-Seba foi a resposta final de Deus a seu pedido pela vida da criança.

Davi é consolado pelo fato de que aquilo que ele pede (e lhe é negado) é graça. A graça de Deus, pela sua própria natureza, é graça soberana. Frequentemente ela é definida como “favor imerecido”. Deixando de lado por um momento essa definição simples, vejamos como Davi pôde ser consolado pelo fato de que aquilo que ele pediu — e é foi negado — é uma questão de graça.

Já ressaltei as palavras de Jeremias 18, onde o arrependimento é encorajado e onde Deus deixa Suas opções em aberto, no que diz respeito ao cancelamento (ou retardamento) do julgamento ameaçado. Há uma passagem bem parecida no livro de Joel, onde o arrependimento é incentivado e a compaixão divina é dita como uma possibilidade:

“Ainda assim, agora mesmo, diz o SENHOR: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, com choro e com pranto. Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR, vosso Deus, porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal. Quem sabe se não se voltará, e se arrependerá, e deixará após si uma bênção, uma oferta de manjares e libação para o SENHOR, vosso Deus?” (Joel 2:12-14, ênfase do autor).

Tanto em Jeremias como nesta passagem de Joel, os pecadores são encorajados a se arrepender exatamente da mesma forma como vemos Davi se arrependendo e suplicando a Deus em nosso texto. O apelo do pecador penitente — para Deus Se comparecer e reter Seu juízo — é fundamentado na Sua graça, não nos méritos do pecador. E justamente por ser uma questão de graça é que não nos atrevemos a presumir que Deus tenha de fazê-lo. Portanto, em Jeremias e Joel5 somos incentivados a esperar pela possibilidade da compaixão divina, mas não presumimos que Deus realmente vá Se compadecer.

Podemos ver um exemplo do tipo certo de pensamento no livro de Daniel. Seus três amigos, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, recusaram-se a se ajoelhar diante da imagem do rei Nabucodonosor. O rei ficou furioso, mas lhes deu uma segunda chance. Se eles se curvassem na oportunidade seguinte, não seriam punidos; mas, se se recusassem, seriam lançados na fornalha de fogo ardente. Esta foi a resposta dos três a tal oferta:

“Responderam Sadraque, Mesaque e Abede-Nego ao rei: Ó Nabucodonosor, quanto a isto não necessitamos de te responder. Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste.” (Daniel 3:16-18)

Os três sabiam que estavam obedecendo a Deus e não aos homens. Eles sabiam que Deus podia livrá-los da fornalha ardente. Eles não se atreveram a presumir que Ele o faria, por isso, responderam a Nabucodonosor de forma a deixar a opção em aberto. Deus poderia livrá-los, pois era capaz disso. No entanto, se Ele o faria ou não, eles não ousavam pressupor. De qualquer forma, eles não fariam o que o rei exigia, pois antes de mais nada, estavam comprometidos a servir a Deus.

Davi sabia que Deus poderia salvar seu filho. Ele também sabia que se Deus o fizesse, seria somente pela Sua graça, não com base em algum mérito. Se Deus tivesse poupado a vida do seu filho, Davi teria ficado muito feliz. Mas, quando a morte da criança deixou claro que Deus tinha Se recusado a poupar sua vida, Davi ainda pôde sentir-se consolado, pois sabia que a graça é sempre concedida soberanamente. A decisão de Deus não é estabelecida por méritos humanos, sendo um ato soberano, não determinado por alguma força externa, mas pela livre escolha do próprio Deus. Esse é o ponto defendido por Paulo quando ele fala da salvação como consequência da eleição soberana de Deus, muito antes de o homem ter nascido, antes de ter feito qualquer bem ou mal (como se isso pudesse afetar o resultado da escolha de Deus):

“Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa. Porque a palavra da promessa é esta: POR ESSE TEMPO, VIREI, E SARA TERÁ UM FILHO. E não ela somente, mas também Rebeca, ao conceber de um só, Isaque, nosso pai. E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O MAIS VELHO SERÁ SERVO DO MAIS MOÇO. Como está escrito: AMEI JACÓ, PORÉM ME ABORRECI DE ESAÚ.” (Romanos 9:8-13)

No caso do povo de Nínive, Deus Se compadece e a cidade é poupada (para o total desprazer de Jonas). No caso de Davi, Deus não Se compadece. Legalmente Davi não podia se zangar com Deus, pois não merecia o que pediu. Na verdade, ele merecia algo bem pior do que aquilo que recebeu. Ninguém se atreve a ficar chateado com Deus quando Ele não dá o que não é merecido. Nada pode ser reivindicado na graça divina. Quando ela é concedida, devemos recebê-la com gratidão, como indignos dela; quando não é concedida, devemos humildemente reconhecer, em primeiro lugar, que nada merecemos.

Somente essas cinco razões já são base suficiente para a atitude de Davi em nosso texto. Contudo, há ainda mais uma coisa para a qual gostaria de chamar sua atenção: Davi acha conforto e consolo na morte da criança porque tem certeza de que, embora a criança não possa voltar a ele em vida, ele estará com ela no céu:

“Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim.” (II Samuel 12:23)

Creio que haja somente uma forma desse versículo fazer algum sentido, e é entendendo que Davi diz algo como: “Não posso trazê-la de volta à vida, para estar comigo mais uma vez, mas posso ansiar para estar com ela no céu, depois da minha morte.”

Nem todos aceitam essa conclusão. Alguns acham que Davi tem certeza de um dia estar reunido com essa criança no céu. Eles não concluem necessariamente que todos os bebês vão para lá quando morrem. Quem crê no batismo infantil talvez fique tentado a acreditar que eles vão. Há também quem tenha a firme convicção de que, como os bebês não podem se arrepender e crer em Jesus Cristo, nenhum vai para o céu ao morrer. Se fosse assim, as palavras de Davi teriam de ser entendidas como: “Não posso trazer a criança de volta à vida, mas me juntarei a ela no túmulo.” Quero chamar a atenção para essa última ideia primeiro, para depois tentar defender meu próprio ponto de vista, de que os bebês quando morrem (quando ainda não têm entendimento) vão para o céu.

Há quem entenda que Davi esteja falando em juntar-se à criança no túmulo. Pelo contexto do texto, acho difícil entender dessa forma. Davi jejuou, chorou e orou tanto que seus servos ficaram preocupados com seu bem-estar. Eles não conseguiram convencê-lo a se levantar do chão ou a comer. De repente, após a morte da criança, sua vida continua como se nada tivesse acontecido e, quando os servos lhe perguntam o motivo, ele dá a resposta encontrada em nosso texto. Uma parte da resposta é que, embora ele não possa trazer a criança de volta, algum dia ele estará com ela. Para algumas pessoas, ele está dizendo:

“Eu queria muito demonstrar meu arrependimento e suplicar a Deus pela vida da criança. Mas agora ela está morta, e sei que será sepultada no lote nº 23 do Cemitério Descanse em Paz. Para minha grande alegria e conforto, sei que serei sepultado no lote nº 24. É por isso que sinto-me consolado na minha dor. Nós ficaremos lado a lado no túmulo.”6

Simplesmente não acho que essa explicação seja adequada para o consolo e para a conduta de Davi. Creio que ele está olhando para além do túmulo, para seu encontro com a criança na ressurreição. Não sentimos a mesma sensação com as palavras de Paulo no texto abaixo?

“Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes com respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes como os demais, que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará, em sua companhia, os que dormem. Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto: nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem. Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor. Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras.” (I Tessalonicenses 4:13-18)

Advertências e Precauções

Creio ser necessário admitir que a ideia de que todos os bebês vão para o céu quando morrem é algo no qual todos nós gostaríamos muito de acreditar. Só por isso, já temos motivo suficiente para examinar o assunto com muito cuidado e cautela. Eu também diria que apenas o texto de II Samuel seria uma evidência bem pequena para minhas conclusões se não houvesse outros textos e preceitos que lhe dessem suporte. É verdade ainda que minhas conclusões são baseadas em inferências. Assim sendo, também gostaria de dizer que qualquer outra opinião sobre o assunto é inferencial e baseada (em minha opinião) em evidências ainda menores.

Permitam-me esclarecer ainda uma última coisa antes de continuar minha argumentação. Este assunto (Quando morrem, os bebês vão para o céu?) não é algo que deva dividir os cristãos evangélicos. Esta não é uma questão primordial da fé cristã e não deve ser vista como heresia, sejam quais forem as opiniões (citadas acima) defendidas. Em última análise, devemos concordar com o fato de que Deus seria justo e estaria certo em mandar qualquer ser humano (inclusive os bebês) para o inferno, se Ele assim o desejasse. Além do mais, quem quer conhecer e amar a Deus deve confiar nEle em relação a essa questão. Ás vezes, determinados tópicos e questionamentos não são claramente respondidos. Em tais casos creio que isso seja deliberado, de modo a termos de confiar no próprio Deus.

Outras Evidências

Com tais ressalvas, deixem-me listar os fatores que me levaram à conclusão de que, quando os bebês morrem, eles vão o céu. Vou enfocar quatro linhas de evidência.

Primeiro, no livro de Jonas, Deus claramente distingue crianças de adultos, e repreende Jonas por desejar que o julgamento divino recaia sobre os pequeninos. Todo mundo conhece a história de como Jonas, o profeta de Israel, recebeu instrução para ir a Nínive e proclamar o julgamento divino sobre aquela cidade ímpia. Nós nos lembramos de como ele se rebelou, e de como, finalmente, foi compelido a ir à cidade, onde proclamou a derramamento da ira de Deus sobre os ninivitas dentro de 40 dias. O povo de Nínive se arrependeu, e Deus Se compadeceu deles. Jonas ficou furioso. Ele queria que o Senhor destruísse aquela cidade perversa e todos que ali viviam. Desafiadoramente ele permanece fora da cidade, esperando pela destruição ameaçada e cancelada por Deus. Jonas esperou no maior calorão só para ver a morte dos ninivitas. Então, a narrativa continua:

“Então, Jonas saiu da cidade, e assentou-se ao oriente da mesma, e ali fez uma enramada, e repousou debaixo dela, à sombra, até ver o que aconteceria à cidade. Então, fez o SENHOR Deus nascer uma planta, que subiu por cima de Jonas, para que fizesse sombra sobre a sua cabeça, a fim de o livrar do seu desconforto. Jonas, pois, se alegrou em extremo por causa da planta. Mas Deus, no dia seguinte, ao subir da alva, enviou um verme, o qual feriu a planta, e esta se secou. Em nascendo o sol, Deus mandou um vento calmoso oriental; o sol bateu na cabeça de Jonas, de maneira que desfalecia, pelo que pediu para si a morte, dizendo: Melhor me é morrer do que viver! Então, perguntou Deus a Jonas: É razoável essa tua ira por causa da planta? Ele respondeu: É razoável a minha ira até à morte. Tornou o SENHOR: Tens compaixão da planta que te não custou trabalho, a qual não fizeste crescer, que numa noite nasceu e numa noite pereceu; e não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive, em que há mais de cento e vinte mil pessoas, que não sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda, e também muitos animais?” (Jonas 4:5-11)

Jonas ficou irado com Deus. E o motivo da sua ira foi chocante. Ele se irou por causa da graça que o Senhor demonstrou para com os ímpios ninivitas. Jonas ficou furioso por Deus ter perdoado pecadores indignos, quando eles se arrependeram de seus pecados. Mas ele estava totalmente errado, pois parece ter presumido que a bênção de Deus para os judeus tinha outro fundamento — o simples fato de serem judeus. Jonas odiava a graça, especialmente quando era concedida a quem ele considerava um pecador indigno.7 A triste ironia é que ele não conseguia ver que as bênçãos de Deus sobre Israel e sobre ele também eram baseadas única e exclusivamente na graça divina. Enfim, até mesmo Jonas parecia acreditar em algo mais além da graça.

Mas Deus lhe deu uma lição na graça. Ele providenciou para o profeta rebelde e carrancudo uma fonte de sombra, muito embora Jonas não tivesse motivo algum para ficar ali naquele sol quente. Quando Deus retirou a planta, e com isso a sombra que esta proporcionava a Jonas, o profeta ficou louco da vida. Deus, então, perguntou-lhe o motivo da sua ira. Será que Jonas merecia a planta e a sua sombra? Por que ele ficou tão bravo quando Deus a retirou? Jonas não merecia esse cuidado gracioso de Deus, mas, de alguma forma, ele achava que sim.

Agora Deus muda o foco da atenção de Jonas da lição prática para o verdadeiro problema, a destruição ou livramento dos ninivitas. Por que o profeta está tão interessado na condenação de 120.000 pessoas que não conseguem diferenciar a mão direita da mão esquerda? Para mim, o texto parece sugerir que Deus vê essas pessoas diferentemente da forma como Ele vê os ninivitas mais velhos. Quem pode discernir entre a mão direita e a esquerda também pode discernir entre o bem e o mal. Embora Jonas esteja ansioso para condenar essas crianças, Deus não está. Deus não discute com ele sobre a graça demonstrada para com os israelitas (adultos) arrependidos. Ele censura Jonas por desejar que as crianças sofram a ira divina junto com os adultos. Jonas não faz distinção entre crianças e adultos ninivitas; mas Deus faz. A base para tal distinção é o nosso assunto neste estudo sobre a morte do filho de Davi.

Deus repreende Jonas porque o profeta não quer fazer distinção entre os imorais (mas arrependidos) ninivitas adultos e as 120.000 crianças daquela cidade. A distinção não é só uma questão de idade, mas de capacidade de raciocínio. Essas 120.000 crianças não são capazes de distinguir entre a mão direta e a mão esquerda. Se é assim, e se elas não conseguem distinguir coisas concretas, como poderão distinguir coisas abstratas, como o bem e o mal? Como poderão, conscientemente, escolher entre deliberadamente desobedecer a Deus ou crer e obedecer a Ele? Deus também menciona os animais. Eles não podem escolher servir ou não a Deus, não por causa da sua idade, mas por causa da sua natureza incapaz de raciocinar. Jonas teria prazer em ver as crianças e o gado sofrendo a ira de Deus; Deus o repreende por pensar dessa forma. Será que esse princípio não se aplica a todas as crianças, e não apenas às crianças ninivitas? Creio que sim.

Segundo, de acordo com a antiga aliança, bem como com a nova, os filhos não devem sofrer a condenação divina pelos pecados dos pais.

“Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos, em lugar dos pais; cada qual será morto pelo seu pecado.” (Deuteronômio 24:16)

“Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que semearei a casa de Israel e a casa de Judá com a semente de homens e de animais. Como velei sobre eles, para arrancar, para derribar, para subverter, para destruir e para afligir, assim velarei sobre eles para edificar e para plantar, diz o SENHOR. Naqueles dias, já não dirão: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram. Cada um, porém, será morto pela sua iniquidade; de todo homem que comer uvas verdes os dentes se embotarão. Eis aí vêm dias, diz o SENHOR, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o SENHOR. Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao SENHOR, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o SENHOR. Pois perdoarei as suas iniquidades e dos seus pecados jamais me lembrarei.” (Jeremias 31:27-34, ênfase do autor)

Seja na antiga aliança, seja na nova, as crianças não devem ser condenadas pelos pecados dos pais. Cada um deve ser condenado pelo seu próprio pecado. Em Romanos 5, Paulo escreve:

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei. Entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir.” (Romanos 5:12-14)

Em outras palavras, o pecado de Adão foi imputado a toda raça humana. Mesmo antes de a Lei ser entregue, os homens já eram pecadores por natureza. E por isso, todos morrem a morte física. O pecado de Adão tornou toda a raça humana pecaminosa por natureza.

Em Romanos 7, Paulo fala sobre viver sem a lei, e depois sob a lei:

Outrora, sem a lei, eu vivia; mas, sobrevindo o preceito, reviveu o pecado, e eu morri. (Romanos 7:9)

Pelo texto, parece que ele está falando da idade do entendimento. Na infância, ele “vivia sem lei”, pois não era capaz de compreendê-la e, dessa forma, discernir entre o bem e o mal. Já que ele era incapaz de entender a necessidade ou a natureza da escolha diante de si, ainda não estava vivo para a lei. No entanto, chegou a época em que se tornou vivo para a lei e, nesse momento, ele caiu sob sua maldição.

Nos capítulos 1 a 3 de Romanos, Paulo dá a base para o restante da epístola. Ele procura demonstrar que todos os homens são pecadores, sujeitos à ira eterna de Deus e incapazes de salvarem a si mesmos por suas próprias obras (necessitando, portanto, do dom da salvação em Cristo por meio da graça divina). A conclusão de Paulo (de que todos são pecadores) vem resumida no capítulo 3, à medida que ele faz uma lista de citações do Velho Testamento:

Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: NÃO HÁ JUSTO, NEM UM SEQUER, NÃO HÁ QUEM ENTENDA, NÃO HÁ QUEM BUSQUE A DEUS; TODOS SE EXTRAVIARAM, À UMA SE FIZERAM INÚTEIS; NÃO HÁ QUEM FAÇA O BEM, NÃO HÁ NEM UM SEQUER. A GARGANTA DELES É SEPULCRO ABERTO; COM A LÍNGUA, URDEM ENGANO, VENENO DE VÍBORA ESTÁ EM SEUS LÁBIOS, A BOCA, ELES A TÊM CHEIA DE MALDIÇÃO E DE AMARGURA; SÃO OS SEUS PÉS VELOZES PARA DERRAMAR SANGUE, NOS SEUS CAMINHOS, HÁ DESTRUIÇÃO E MISÉRIA; DESCONHECERAM O CAMINHO DA PAZ. NÃO HÁ TEMOR DE DEUS DIANTE DE SEUS OLHOS. (Romanos 3:9-18)

A acusação é a conclusão de tudo o que Paulo escreve até ali, começando no capítulo 1, especialmente o verso 18:

“A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça;”

Como Paulo faz para provar que os homens são pecadores e estão sob a condenação divina? No capítulo um, ele mostra que os gentios, os quais nunca ouviram o evangelho, são pecadores e estão sob condenação. Presume-se que eles nunca ouviram o evangelho de Jesus Cristo. No entanto, eles receberam a revelação divina sobre Deus, a qual deliberadamente rejeitaram. Essa revelação foi feita por intermédio da natureza:

“Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis.” (Romanos 1:20-23)

Creio que o raciocínio seja o seguinte: Deus Se revela a todos os homens por meio da natureza. Essa revelação não é completa, e não inclui as boas novas de perdão dos pecados pela obra substitutiva de Cristo na cruz do Calvário. Mesmo assim, a reação de uma pessoa à revelação de Deus na natureza demonstra como ela reagiria se mais coisas lhe fossem reveladas. A revelação de Deus na natureza foi rejeitada por aqueles que a receberam, os quais a transformaram em sua própria religião, adorando a criatura em vez do Criador. Em Romanos 2, e na primeira parte do capítulo 3, Paulo mostra que Deus, com justiça, condena os homens como pecadores, porque eles não vivem de acordo com o padrão da sua própria consciência, e muito menos de acordo com os padrões estabelecidos na lei de Moisés. Ele mostra que todos são pecadores, merecedores da ira eterna de Deus, pois já receberam determinada revelação e a rejeitaram, pervertendo a verdade a eles relevada e trocando-a por algo no qual preferem acreditar.

Todo aquele que é condenado como pecador em Romanos 1 a 3 já recebeu a revelação de Deus e tem capacidade mental para compreendê-la e reagir a ela, mas a rejeitou. O que estou falando é que fetos e bebês (não tentarei definir onde tem início a assim chamada “idade do entendimento”) nunca receberam tal revelação e não têm capacidade para rejeitá-la como uma coisa ruim ou aceitá-la como uma coisa boa. Eles ainda não pecaram no sentido de saber o que é certo, decidindo deliberadamente fazer o que é errado.

É nesse ponto que algumas pessoas começam a ficar incomodadas. Elas receiam que dizendo isso estejam negando a natureza pecaminosa de toda raça humana, inclusive das crianças. Elas temem que seja o equivalente a dizer que crianças pequenas são inocentes. Não estou dizendo isso de forma alguma. Quer seja um feto, quer seja um bebê, todo descendente de Adão (isto é, todo ser humano, independentemente da sua idade) é pecador por natureza. A natureza pecaminosa é consequência do pecado de Adão, a qual foi imputada a toda sua descendência. Há uma diferença, no entanto, em ser pecador por natureza e ser pecador de fato. Um bebezinho recém-nascido é pecador por natureza, mas não se tornará um pecador atuante até deliberadamente fazer o que sabe ser errado. Sem contar as mortes prematuras, toda criança pecadora por natureza desabrochará numa criança pecadora de fato.

Mas o que acontece com as crianças que morrem antes de se tornarem pecadoras de fato? Se fôssemos concluir que são condenadas ao inferno por toda eternidade, por qual(is) pecado(s) seriam punidas? Eu teria de dizer que é pelo pecado de Adão. Elas sofreriam eternamente devido à sua natureza pecaminosa, por terem nascido. Creio que a distinção feita por Deus em Jonas 4 foi entre ninivitas pecadores de fato e ninivitas pecadores por natureza, mas não de fato. Creio que Deus repreende Jonas por querer ver pecadores por natureza (apenas) sofrerem a ira divina como se fossem pecadores por vontade e ação. Em que base Deus pode salvar pecadores por natureza para não serem condenados? Esse é o próximo tópico de discussão.

Terceiro, em Romanos 5 Paulo ensina que a morte sacrificial de nosso Senhor Jesus Cristo expia o pecado de Adão, a fim de que nenhum de seus descendentes seja condenado ao inferno devido ao seu pecado (de Adão). Se entendo as Escrituras corretamente, a única razão para uma criancinha ir para o inferno é por causa do pecado de Adão. Tanto a antiga como a nova aliança dizem que não é assim, pois as crianças não devem ser punidas pelos pecados dos pais. Romanos 5 nos diz como Deus criou um meio para os pequenos serem salvos da condenação. A questão abordada neste capítulo é: “Como uma pessoa — Jesus Cristo — pode salvar que nEle crê?” “Como um só homem pode salvar a muitos, morrendo por eles?”

A resposta dada por Paulo em Romanos 5 é muito simples: “Um só homem (Adão) trouxe o pecado para toda raça humana; da mesma forma, um só Homem (Jesus Cristo) deu a solução para o problema do pecado de todos os que creem.”

“Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo. Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida.” (Romanos 5:17-18)

“Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, e sim o natural; depois, o espiritual. O primeiro homem, formado da terra, é terreno; o segundo homem é do céu. Como foi o primeiro homem, o terreno, tais são também os demais homens terrenos; e, como é o homem celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer também a imagem do celestial.” (I Coríntios 15:45-49)

Nosso Senhor Jesus Cristo é chamado de “o último Adão” porque Ele é o Único que pode reverter os efeitos do pecado de Adão. Ele o faz, não por salvar automaticamente todas as pessoas, mas por fazer expiação pelos pecados dos homens, de modo que todo aquele que recebe o dom da salvação tenha seus pecados perdoados e receba a vida eterna. Todas as crianças herdam a natureza pecaminosa de Adão. Elas não possuem essa natureza por terem cometido algum pecado, mas por terem nascido na raça humana. A natureza pecaminosa foi obtida involuntariamente. O argumento de Paulo em Romanos 5 é um argumento “muito maior”. Segundo ele, o que quer que Adão tenha feito ao pecar, Cristo fez (ou melhor, desfez), muito mais. Se uma criança vai para o inferno só por causa do pecado de Adão, então a obra de Cristo no Calvário não fez “tanto” assim. Quem sofre a ira eterna de Deus por causa do pecado é quem, deliberadamente, se rebela contra Deus e rejeita a revelação divina manifesta a ele. Quem ainda não praticou ato deliberado para se identificar com o pecado de Adão, e morre antes de praticá-lo, é involuntariamente coberto pelo sangue derramado de Jesus Cristo. Portanto, Adão pode ter corrompido toda raça humana, mas Cristo fez muito mais quando expiou o pecado de Adão e transformou pecadores culpados em santos perdoados. A morte de Cristo na cruz do Calvário é o meio pelo qual os pequeninos são salvos da culpa e da condenação da sua natureza pecaminosa, do mesmo modo que é o meio pelo qual todos (os adultos) que creem são salvos.

É assim que explico a confiança e a paz demonstradas por Davi quando seu filho morreu. Ele sabia que ele mesmo não morreria, pois seus pecados haviam sido “removidos”. Sob a antiga aliança não havia salvação para ele, só a condenação da morte. Por isso, ele teve de ser liberto da ira divina pela providência de Deus em Jesus Cristo de acordo com a nova aliança. Esta é a base para a salvação de qualquer santo, tanto do Novo como do Antigo Testamento. Se Deus foi gracioso com Davi, com base na nova aliança, não seria Ele também gracioso com seu filho, com base na mesma aliança?

Quarto, a convicção de que bebês são salvos pelo sangue de Cristo é uma posição sustentada por alguns dos mais conceituados estudiosos das Escrituras. A posição doutrinária da igreja ao longo de sua história não tem a autoridade das Escrituras, mas ajuda a validar ou por em dúvida as interpretações contemporâneas da Bíblia. Quando alguém sustenta uma opinião ou interpretação, da qual a Igreja sempre discordou ao longo da sua história, tal interpretação certamente é posta em xeque. Deixem-me mencionar algumas citações que expressam o ponto de vista de alguns conceituados teólogos e pregadores do passado.

Vamos começar com Charles Haddon Spurgeon:

“Bem, há uma ou duas questões secundárias nas Escrituras que também parecem lançar um pouco de luz sobre o assunto. Não se esqueçam do caso de Davi. Seu filho com Bate-Seba teve de morrer como punição pelo pecado de seu pai. Davi orou, jejuou e se entristeceu profundamente; finalmente, ele ficou sabendo que a criança era morta. Ele parou de jejuar e disse: “Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim.” Ora, para onde ele esperava ir? Bom, para o céu, é claro. Portanto, a criança deve ter ido para lá, pois ele disse: “Eu irei a ela.” Não o ouço dizendo o mesmo de Absalão. Ele não se estendeu sobre seu corpo e disse: “Eu irei a ele”; Davi não tinha esperanças para esse filho rebelde. Pela criança, ele não disse: “Ó, meu filho. Quem me dera que eu morrera por ti!” Não, ele podia deixar o bebê partir em plena confiança, pois disse: “Eu irei a ele.” “Eu sei”, ele poderia ter dito, “que o Senhor estabeleceu comigo uma aliança eterna, em tudo bem definida e segura; e, quando eu andar pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Ele está comigo; eu irei ao meu filho e, no céu, seremos reunidos um ao outro.”8

E outra vez:

“Ora, que cada mãe e pai aqui presentes saibam com certeza que a criança está muito bem se Deus a tomou de vocês ainda bebê. Nunca se ouviu sua declaração de fé — ela não era capaz disso; ela não foi batizada em nome de Jesus, nem sepultada com Ele no batismo; ela não podia dar “a resposta certa diante de Deus”; contudo, tenham certeza absoluta de que ela está bem, em sentido bem maior e melhor do que o bem de vocês mesmos; ela está bem sem restrições, sem exceções; infinitamente bem, eternamente “bem”. Talvez vocês digam: “Que motivos temos para acreditar que ela está bem?” Antes de examinar a questão, gostaria de fazer uma observação. Dizem que os calvinistas creem na perdição de alguns pequeninos. Tais acusações são vis, enganosas e caluniosas, pois quem as faz sabe que são falsas. Não ouso sequer esperar, embora o desejasse fazê-lo, que eles distorçam nossas doutrinas por ignorância. Maldosamente repetem coisas que já foram negadas milhares de vezes, as quais sabem não ser verdade. Em conselho a John Knox, Calvino interpreta o segundo mandamento — “demonstrando misericórdia para com milhares deles que me amam” — como se referindo a gerações, por isso, ele parece ensinar que as crianças que morrem ainda bebês, e cujos ancestrais foram tementes a Deus, não importando quão distantes, são salvas. Com certeza, isso inclui toda uma descendência. Quanto aos calvinistas atuais, não conheço nenhuma exceção, mas todos nós esperamos e cremos que quem morre ainda na infância seja salvo. O Dr. Gill9, considerado nos últimos tempos um modelo fiel do calvinismo, para não dizer do ultracalvinismo, ele mesmo não sugere por um momento sequer que algum bebê tenha perecido, mas afirma ser este um assunto obscuro e misterioso; no entanto, é sua opinião, a qual ele crê ter a garantia das Escrituras, que todos aqueles que adormecem ainda na infância não perecem, mas são contados entre os eleitos de Deus e, por isso, entram no descanso eterno. Nós nunca ensinamos o contrário e, quando alguém nos acusa, eu respondo: “Pense o que quiser, nós nunca dissemos tal coisa, e você sabe disso. Se ousar repetir essa infâmia, que a mentira cubra seu rosto de vergonha, se é que você ainda consegue ficar vermelho.” Jamais pensamos dessa forma. Com poucas e raras exceções, tão raras que só as ouvimos de lábios caluniadores, nunca sequer imaginamos que bebezinhos entrem na perdição quando morrem, mas sim que entram no paraíso de Deus.”10

Finalmente, ouçamos Loraine Boettner, o qual cita a posição de vários outros teólogos:

“A maioria dos teólogos calvinistas sustentam que quem morre ainda na infância é salvo. As Escrituras parecem ensinar com relativa clareza que os filhos dos crentes são salvos, mas são praticamente silentes quanto aos filhos dos ímpios. A Confissão de Fé de Westminster não se manifesta quanto aos filhos dos ímpios que morrem antes de chegar à idade do entendimento. Onde as Escrituras não se manifestam, a Confissão de Fé também não. Os grandes teólogos, no entanto, conscientes do fato de que “as ternas misericórdias de Deus permeiam todas as suas obras” e, confiantes na Sua imensurável misericórdia, nutrem a bondosa esperança de que, uma vez que esses pequeninos nunca cometeram um verdadeiro pecado por si mesmos, o pecado herdado seria perdoado e eles seriam salvos totalmente dentro dos princípios evangélicos.”

Essa, por exemplo, era a posição defendida por Charles Hodge, W. G. T. Shedd e B. B. Warfield. Diz o Dr. Warfield, a respeito de quem morre ainda na infância: “Seu destino é determinado, independentemente da sua escolha, por um decreto incondicional de Deus; sua execução é suspensa sem qualquer ação da sua parte; sua salvação é operada por uma aplicação incondicional da graça de Cristo à sua alma, por meio da operação imediata e irresistível do Espírito Santo, antes de, e sem levar em conta, qualquer ação da sua própria vontade... E se a morte na infância realmente depende da providência de Deus, seguramente é Deus que, na Sua providência, seleciona esta vasta multidão para ser participante da Sua salvação incondicional... Isso é o mesmo que dizer que eles são incondicionalmente predestinados para a salvação desde a fundação do mundo.”11

Conclusão

Prolongamos um pouco este triste incidente no qual Davi encontra alegria e conforto, mas permitam-me concluir apontando algumas áreas de aplicação.

Primeiro, este texto (juntamente com os outros mencionados) oferece conforto para todos aqueles que sofreram (ou irão sofrer) a perda de um bebezinho. Creio que nosso Senhor resumiu muito bem a questão quando disse: “Deixai vir a mim os pequeninos e não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus.” (Lucas 18:16). Como é bom saber que os nossos pequeninos estão em Seus braços!”

Segundo, aprendemos com este episódio que, mesmo quando Deus perdoa os nossos pecados, Ele não remove todas as suas consequências dolorosas. Os pecados de Davi com Bate-Seba e Urias foram perdoados, mas a morte da criança ainda era necessária. O pecado traz consequências muito tristes. Muito embora nossos erros sejam perdoados, eles nunca valem o preço das consequências.

Terceiro, Deus Se preocupa muito mais com a Sua própria reputação do que com a nossa felicidade. Algumas pessoas pensam que Deus é uma espécie de gênio da lâmpada, que fica aguardando cada um de seus pedidos, tentando satisfazer todos os seus desejos. Davi teria ficado muito feliz em receber seu filho de volta, mas a reputação de Deus exigia que Ele lidasse com a situação de forma a deixar bem claro como Se sente um Deus santo e justo em relação ao pecado.

Quarto, podemos aprender também uma lição sobre a oração não atendida. Davi orou com toda sinceridade, mas Deus claramente lhe disse: “Não!”. Davi ficou satisfeito com isso. Ele não protestou, nem reclamou. Ele aceitou a vontade de Deus como sendo o melhor. Ele cultuou a Deus a despeito da sua perda e dor. Ele não sofreu porque não tinha fé. Ele sabia que Deus o tinha ouvido e tinha lhe respondido. Quantos de nós louvamos a Deus quando Ele nos diz “não”?

Finalmente, a esperança e a alegria do cristão em meio às provações e tribulações são ocasião para o testemunho da sua fé em Jesus Cristo. Os servos de Davi esperavam que ele (re)agisse de forma diferente ao saber da morte do filho. Eles se surpreenderam com a maneira pela qual ele encontrou consolo, alegria e desejo de adorar a Deus, quando sua família foi afetada pela tragédia. Eles lhe perguntaram sobre sua esperança e Davi pôde lhes dar uma razão para ela. Nossa reação aos sofrimentos e tribulações nos dá a mesma oportunidade. Que aprendamos a descansar nAquele a quem confiamos a nossa esperança, para então compartilhar essa esperança com quem não a possui (ver I Pedro 3:15).

Tradução: Mariza Regina de Souza


1 O que, aliás, era feito na presença de outro professor, o qual servia como testemunha.

2 Quando Deus feriu a Nabal, este morreu dez dias depois. Ver I Samuel 25:38.

3 A Nova Versão King James é semelhante, quando interpreta: “Talvez ele faça algo ruim. (NT: em português, a versão que mais se assemelha é a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, que diz: “Ele poderá fazer alguma loucura!”)

4 Não sabemos realmente se algum dos servos sabia das palavras de Natã sobre a morte da criança. Se não, é provável que não tenham entendido a razão pela qual Davi leva tão a sério seu lamento de arrependimento e sua petição.

5 E também Jonas 3.

6 Sou forçado a recordar as palavras de Barzilai em II Samuel 19:37. Existe um certo consolo em ser sepultado perto dos nossos parentes, mas isso não parece ser consolo suficiente para explicar as palavras e a atitude de Davi em nosso texto.

7 Nisso, Jonas não é muito diferente dos escribas e fariseus hipócritas da época de Jesus.

8 “Salvação Infantil”, The Metropolitan Tabernacle Pulpit, sermão proferido na manhã de domingo do dia 29 de setembro de 1861 pelo Rev. C. H. Spurgeon, no Tabernáculo Metropolitano, Newington.

9 Nota da tradutora: Cerca de um século antes de Spurgeon, o Dr. John Gill ocupou o púlpito da igreja que veio a se tornar o Tabernáculo Metropolitano.

10 Spurgeon, no mesmo serão acima.

11 Loraine Boettner, A Doutrina Reformada da Predestinação (Filadélfia: The Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1963 (11a. edição), pp. 143-144.

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