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12. Arrependimento Verdadeiro (II Samuel 12:1-13)

Ver Salmos 32 e 51

Introdução

No final do meu primeiro ano de seminário, arranjei um emprego de verão um tanto diferente. Fui contratado para dar aulas de história e psicologia na escola secundária de uma prisão de segurança média em minha cidade natal. Meu tio trabalhava lá como guarda e diversos funcionários e membros do corpo do docente da prisão tinham sido meus professores quando eu estava no colegial (até o Diretor da minha escola era o Diretor da escola da prisão). Um dia, um de meus colegas me contou uma história interessante e meio divertida sobre uma de suas experiências como professor naquele local.

A penitenciária procurava reabilitar os internos dando-lhes a oportunidade de completar o segundo grau e receber seu diploma. A escola da prisão ficava em uma das melhores instalações que já vi1. As classes raramente tinham mais de 20 alunos e um guarda ficava sempre a postos do lado de fora, “só por precaução...” Uma das regras da escola era a proibição de dormir na sala de aula. Certo dia, enquanto meu colega passava um filme para sua classe, um de seus alunos ficou muito sonolento. O rapaz nem tentou disfarçar, colocou a cabeça na carteira e dormiu. Conforme andava pela classe, meu amigo reparou no dorminhoco, deu a volta por trás da sua carteira e deu-lhe gentilmente um tapinha no ombro, continuando a andar. Pouco depois, ele passou novamente pelo rapaz, que continuava a dormir a sono solto. Meu amigo deu-lhe outro tapinha. Na terceira vez, ele pegou o camarada pelos ombros e deu-lhe uma sacudidela (ele não era do tipo violento). Desta vez o moço acordou, deu um pulo, voltou-se para ele e ameaçou: “Se fizer isso de novo, eu vou te pegar!” Meu amigo se afastou, foi em direção à porta e acenou para o Sr. Look, o guarda de plantão (que era sargento da Marinha e sabia como lidar com esses casos). O aluno foi escoltado até o “buraco” (solitária).

Um mês depois, o rapaz saiu da solitária e voltou para a classe. No primeiro dia da aula do meu amigo, ele foi “se desculpar”. “Sinto muito pelo que eu disse no outro dia”, explicou, “mas acho que o senhor não me entendeu. O que eu disse foi: ‘se fizer isso de novo, posso te pegar.’” Isso, meu amigo, não é arrependimento.

O “arrependimento” desse homem era banal demais. Arrependimento verdadeiro é uma coisa rara, até mesmo na Bíblia. Em nosso texto, Davi disse a Natã: “pequei...” Essas palavras (ou suas equivalentes) podem ser encontradas em outros lugares das Escrituras, mas nem sempre com a mesma sinceridade. Faraó, por exemplo, disse duas vezes a Moisés: “pequei...” (ver Êxodo 9:27, 10:16-17). É óbvio que seu arrependimento não era sincero. Balaão foi interceptado pelo Anjo de Deus quando ia ao encontro de Balaque, mas ao perceber que por pouco tinha escapado da morte nas mãos do Anjo, ele exclamou: “pequei...” (Números 22:34). Outros textos bíblicos posteriores nos informam que esse arrependimento também era falso. Judas, o traidor de nosso Senhor, confessou seu pecado, mas também não se arrependeu realmente (Mateus 27:4). Portanto, podemos concluir que dizer simplesmente “pequei” não significa que o arrependimento seja genuíno. 

Certamente esse era também o tipo de arrependimento de muita gente que procurou João Batista para ser batizada: 

“Então, saíam a ter com ele Jerusalém, toda a Judéia e toda a circunvizinhança do Jordão; e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados. Vendo ele, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão.” (Mateus 3:5-9)

João Batista falava sobre o verdadeiro arrependimento porque via muitas pessoas cujo “arrependimento” estava longe de ser sincero. Atualmente, essa questão também é muito pertinente. É bem verdade que alguns se excedem e estabelecem suas próprias exigências legalistas como único “fruto digno de arrependimento”. Por outro lado, alguns ensinam que o arrependimento é simplesmente uma questão de “concordar com Deus”. Essa definição, no entanto, resulta em uma mera assunção de culpa, de forma a minimizar o peso e o horror do pecado, levando a pessoa a repeti-lo. Além disso, vemos as confissões chorosas dos tele evangelistas e de outros líderes proeminentes ditos cristãos e nos perguntamos se eles estão verdadeiramente arrependidos. Creio que o sentimento de Davi é genuíno e nos dá um exemplo do verdadeiro arrependimento.

Sei que estou restringindo nosso estudo a uma porção bem pequena do nosso texto — a apenas um verso, para ser mais preciso. Nosso foco, no entanto, não é tão restrito quanto parece. Gostaria de considerar II Samuel 12:13 à luz da vida de Davi após essa confissão, bem como à luz da sua confissão ampliada em dois dos salmos que tratam especificamente do seu pecado relacionado a Urias e Bate-Seba: Salmos 32 e 51. Prestemos muita atenção, para vermos, então, como é o genuíno arrependimento.

Características Comuns Do Pseudo-Arrependimento 

Já citei alguns exemplos de falso arrependimento na Bíblia, mas vamos insistir um pouco mais nesse assunto para que a sinceridade de Davi seja vista em contraste com a falsidade dos outros. Para ser mais específico, gostaria de chamar sua atenção para Saul, o qual já havia proferido três vezes a mesma expressão “pequei...” (I Samuel 15:24, 30; 26:21). O que há com o “arrependimento” de Saul que o deixa tão longe de ser sincero? Vamos fazer uma pausa para refletir sobre seu “arrependimento”.

1) A primeira reação de Saul à repreensão profética é o silêncio. Devo ressaltar que, embora Saul pareça arrependido em I Samuel 15, assim como no capítulo 26, esse “arrependimento” é muito fraco e tardio demais. Isso deveria ter ocorrido logo no capítulo 13. Ali, Israel fora invadido em massa pelos filisteus. O exército de Saul nada mais era do que de um punhado de homens, os quais estavam rapidamente desertando. Mesmo tendo sido instruído a esperar por Samuel, o qual ofereceria os sacrifícios (I Samuel 10:8), Saul achou que o tempo estava se esgotando e ele não podia esperar mais. Por isso, ofereceu ele mesmo o holocausto, só para ver Samuel chegando assim que terminou. Quando Samuel o censurou por esse ato de rebelião contra Deus, Saul tentou se defender, afirmando ter agido adequadamente, dadas as circunstâncias. Samuel não aceitou suas desculpas e o repreendeu por sua tolice e desobediência, dizendo-lhe que isso lhe custaria o reino. A resposta de Saul foi o silêncio. Eis um homem a quem acabaram de informar que seus dias como rei de Israel estavam contados e que, em vez de confessar seu pecado, separou-se de Samuel em silêncio.

2) A segunda reação de Saul à repreensão profética de Samuel é resistente, e seguida de uma confissão relutante. Em I Samuel 15, Saul recebe ordem de Deus, por intermédio de Samuel, para aniquilar os amalequitas e seu gado como cumprimento do juízo divino (15:1-3). Saul obedece parcialmente, retendo o melhor do gado e poupando a vida de Agague, o rei amalequita. Quando Samuel chega, Saul audaciosamente se aproxima dele, pronunciando uma bênção e afirmando ter cumprido a ordem de Deus (15:13). Ouvindo o balido das ovelhas que foram poupadas, Samuel não se deixa impressionar pela saudação de Saul. Sentindo o desprazer de Samuel, Saul rapidamente começa a arranjar desculpas, jogando a culpa sobre o povo e insistindo que o gado fora poupado para ser oferecido como sacrifício2. Mesmo depois da repreensão de Samuel (algo que soa bem parecido com as repreensões a Davi em II Samuel 7:8-9 e 12:7-8), Saul ainda nega sua culpa, afirmando que “deu ouvidos à voz do Senhor” (I Samuel 15:20). Só depois de Samuel se recusar terminantemente a aceitar suas desculpas é que Saul finalmente confessa ter pecado (versos 24 e 30). Só posso chamar esse “arrependimento” de arrependimento relutante.

3) O arrependimento de Saul não assume a responsabilidade pelo pecado e tenta jogar a culpa nos outros. Como Adão e Eva, Saul tenta jogar a culpa pelo seu próprio pecado em outra pessoa (compare com Gênesis 3:11-13). Mesmo depois, no verso 24, ele ainda tenta se esquivar. Ele tenta convencer Samuel de que, embora tenha pecado, ele o fez devido à pressão do povo (15:15, 21, 24). 

4) Saul se arrepende numa tentativa de minimizar as consequências do seu pecado. Saul parece não ter nenhum interesse nas causas do seu pecado, ou na sua cura. Ele só se preocupa em minimizar seu sofrimento. Ele pede a Samuel para rapidamente perdoá-lo e então continuar (com a adoração!) como se nada tivesse acontecido. Ele quer que Samuel o acompanhe e o honre, para que ele não fique mal diante do povo (15:30). Um rótulo melhor para o “arrependimento” de Saul seria “controle de danos”.

5) O arrependimento de Saul tem vida curta. Para Saul não existe “fruto digno de arrependimento”, mudança de atitude ou atos que perdurem. Seu “arrependimento” não dura mais que uma fração de segundo. Assim que a pressão diminui e o perigo parece ter passado, ele volta a pecar, se não da mesma forma, de alguma outra. Em I Samuel 26:21, ele confessa a Davi ter pecado ao tentar tirar a vida dele, mas se Saul não tivesse sido morto em batalha, temos poucas dúvidas do que ele poderia ter feito a Davi se tivesse oportunidade (Lembre-se de que Davi não “voltou” com Saul, quando este lhe pediu. Davi o conhecia muito bem!). O arrependimento de Saul era passageiro.

Vamos fazer um resumo da sequência dos eventos que resultaram no pseudo-arrependimento de Saul em I Samuel:

·         Ele tenta justificar sua desobediência como se suas ações fossem ditadas pelas circunstâncias (uma espécie de “lei marcial” moral - 13:11-12);

·         Ele permanece em silêncio quando fica evidente que Deus não aceitará suas desculpas (13:15);

·         Ele procura redefinir sua desobediência, como se ela fosse justificada (15:13);

·         Ele procura lançar sobre o povo a culpa pelo seu pecado, tentando ainda justificar o “pecado” deles como desejo de prestar culto (15:15);

·         Ele diz que estava tentando obedecer a Deus, mas foi incapaz de controlar o povo, o qual pecou ao poupar alguns animais (embora ele omita qualquer menção à sua responsabilidade de matar Agague - 15:20-21);

·         Relutantemente ele admite ter pecado, mas insiste em dividir a culpa com os outros (15:24);

·         Ele tenta rapidamente se “arrepender” e ser perdoado, para poder “prestar culto” (15:25);

·         Ele busca desesperadamente minimizar as consequências do seu pecado, a fim de que não tenha de sofrer muito por causa dele (15:25-31).

Saul E Davi

Antes de nos voltarmos para o arrependimento verdadeiro de Davi, deixe-me fazer uma pausa momentânea para fazer algumas comparações entre ele e Saul. De diversas maneiras, tenho retratado Saul de uma forma bem sombria, mas talvez distorcida. Apesar de todas as suas falhas e pecados, o autor de I e II Samuel faz um relatório geral bastante decente sobre a sua administração: 

“Tendo Saul assumido o reinado de Israel, pelejou contra todos os seus inimigos em redor: contra Moabe, os filhos de Amom e Edom; contra os reis de Zobá e os filisteus; e, para onde quer que se voltava, era vitorioso. Houve-se varonilmente, e feriu os amalequitas, e libertou a Israel das mãos dos que o saqueavam.” (I Samuel 14:47-48) 

As comparações anteriores entre Saul e Davi (como, por exemplo, a reação de ambos a Golias) fizeram Saul parecer muito mau e Davi muito bom. À luz dos pecados de Davi descritos em II Samuel 11 e 12, Saul já não parece tão mau assim. Em lugar algum nós o vemos tomando a esposa de outro homem e matando seu marido. Embora ele tenha tentado tirar a vida de Davi, isso foi às claras, não às ocultas (como Davi fez com Urias, por intermédio de Joabe). Os pecados de Davi fazem Saul parecer um pouco melhor do que antes. Há, no entanto, uma coisa que distingue radicalmente os dois: Davi realmente se arrepende de seus pecados; Saul não. Davi era um homem segundo o coração de Deus. Isso não o isentava das falhas humanas, nem o afastava do pecado, mas resultava em arrependimento genuíno. À medida que estudarmos esse arrependimento genuíno, tentaremos identificar o que isso significa. 

Arrependimento Verdadeiro

Duas pequenas frases resumem o teor do capítulo 12. A primeira é dita por Natã: “Tu és o homem!” (verso 7). A segunda, por Davi: “Pequei contra o SENHOR.” (verso 13). É essa segunda afirmação e suas consequências que desejo explorar. Pense nas seguintes características do arrependimento de Davi, afirmadas de forma simples aqui, mas mais ampliadas nos Salmos 32 e 51, e evidenciadas em sua vida:

1) O arrependimento de Davi é resultado de um processo doloroso, cujo clímax é o confronto com Natã. Em nosso texto, a confissão de Davi vem logo após a narrativa do seu pecado. O próprio texto, porém, indica que o pecado de Davi durou um tempo considerável, um pouco mais de nove meses, de acordo com as estimativas normais. Embora o texto só nos informe o tempo e os acontecimentos que se passaram, o Salmo 32 nos dá uma visão muito oportuna sobre o trabalho de Deus no coração de Davi durante esse período: 

“Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio. Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais ocultei. Disse: confessarei ao SENHOR as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniquidade do meu pecado.” (Salmo 32:3-5)

Nesse salmo, Davi diz que calou o seu pecado. Ele sabia que estava errado, mas preferiu persistir no erro durante algum tempo. Ele não confessou o pecado e o resultado foi um “verdadeiro inferno”. É uma coisa incrível mas, embora o pecado tenha seus momentos de prazer (ver Hebreus 11:25), eles não são tão agradáveis para os cristãos quanto o são para os ímpios. A razão é devido ao Espírito de Deus habitar nos santos. Como o pecado entristece o Espírito habitando em nós, nosso espírito também não consegue sentir grande prazer nele. Não estou dizendo que não há prazer; mas que o prazer é minimizado pelas alegrias de obedecer a Deus e desfrutar da Sua comunhão. A agonia descrita por Davi finalmente o leva a quebrar seu silêncio e confessar seus pecados. Seu arrependimento é o resultado de um processo doloroso, na maior parte ocorrido dentro dele mesmo.

Na maioria das vezes é assim. Estou pensando no “arrependimento” dos irmãos de José, o qual foi provocado por ele mesmo por meio dos acontecimentos descritos em Gênesis 42 a 45. Seus irmãos haviam claramente pecado contra ele ao vendê-lo como escravo (talvez se sentissem aliviados pensando que, pelo menos, não o tinham matado, como planejaram a princípio). Ao ascender à segunda posição mais alta do Egito, José tinha poder para lidar com os irmãos como quisesse. Quando eles foram para lá para comprar grãos, ele podia muito bem ter se vingado, mas, em vez disso, preferiu conduzi-los ao arrependimento3. Para tanto, ele disfarçou sua identidade (se quisesse acertar as contas, ele lhes teria dito quem era). José orquestrou tudo de forma que os irmãos tivessem de tomar uma decisão quase idêntica àquela tomada anos antes. Ele colocou seus irmãos numa situação em que poderiam entregar Benjamin, abandonando-o como escravo no Egito, ou poderiam ficar juntos e tentar salvá-lo. Judá, que recomendara a venda de José como escravo, agora se oferecia como escravo para que Benjamim pudesse voltar para Jacó, seu pai idoso. Esse é um arrependimento verdadeiro. O arrependimento verdadeiro não só lamenta ter feito o que é errado (os irmãos de José lamentaram o mal feito a ele anteriormente — 42:21-22), mas não o repete se tiver chance para tal. José deu aos irmãos uma oportunidade e, dessa vez, eles decidiram agir corretamente. Arrependimento verdadeiro é sempre resultado de um longo e doloroso processo.

2) O arrependimento de Davi é expresso por uma confissão completa de culpa diante de Deus. A brevidade e a simplicidade da confissão de Davi são impressionantes. As confissões de Saul não eram simples, nem diretas. Hoje, ele teria um advogado (e um assessor de imprensa) para rascunhar suas palavras. Davi assume totalmente a responsabilidade por seus pecados; Saul procurava jogar a culpa nos outros ou, pelo menos, dividi-la com eles. Davi confessa o pecado como pecado, sem desculpas, sem acusar ninguém. Ele sabe que o pecado é contra Deus.

3) Davi leva seu pecado muito a sério. Saul sempre procurou minimizar seu pecado, fazendo-o parecer menos mau do que realmente era. Davi faz o oposto. Os Salmos 32 e 51 indicam que ele pensou muito sobre suas ações e, quanto mais pensava, mais abominável o pecado lhe parecia. Uma vez que os salmos foram preservados para o culto e para a posteridade, o pecado e a confissão de Davi se tornaram de conhecimento público. Em última análise, o pecado de Davi é contra Deus, contra Deus somente. Isso não diminui o mal causado a Urias e Bate-Seba. Pecado é quebrar as leis de Deus e, nesse sentido, todo pecado é contra Deus, pois quebra Suas leis. Os crimes são ofensas cometidas contras as pessoas, mas o pecado (nesse sentido específico) é apenas contra Deus, naquilo em que quebra Suas leis. Davi quebrou pelo menos três mandamentos. Ele cobiçou a mulher do próximo, cometeu adultério e cometeu assassinato (Êxodo 20:13, 14 e 17).

4) Davi não espera que suas boas obras compensem ou diminuíam sua culpa. Chegamos agora a um dos maiores erros de todos os tempos: a falsa presunção de que Deus pode ser dobrado. Geralmente se pensa (ou, mais precisamente, se presume) que os homens só precisam superar a quantidade de seus pecados com boas obras. Se fazem mais coisas “boas” do que “más”, acreditam que, no cômputo geral, são mais bons do que maus e, assim, mais qualificados para serem aceitos por Deus. Tais pessoas não compreendem que o tipo de justiça requerida por Deus é a obediência perfeita à Sua Palavra. Uma única falha é suficiente para nos tornar culpados e, por isso, dignos de morte:

“Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos.” (Tiago 2:10, ver também Mateus 5:19 e Gálatas 5:3) 

Davi foi um homem segundo o coração de Deus. Ele amava a lei de Deus. A mão do Senhor estava sobre ele em tudo o que fazia. No geral, sua vida foi um exemplo a ser seguido, estabelecendo um padrão pelo qual devemos nos esforçar. Seu pecado em relação a Urias e Bate-Seba foi uma clara exceção, não a regra:

“Porquanto Davi fez o que era reto perante o SENHOR e não se desviou de tudo quanto lhe ordenara, em todos os dias da sua vida, senão no caso de Urias, o heteu.” (I Reis 15:5) 

Se alguma vez houvesse um homem que poderia ter dito que suas boas ações superaram seus pecados, esse homem seria Davi. Mas, em vez disso, nós o encontramos confessando seu pecado, evitando qualquer referência a algo de bom que tenha feito e reconhecendo merecer a ira de Deus.

“Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mau perante os teus olhos, de maneira que serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar.” (Salmo 51:3-4, ênfase do autor) 

5) Davi não abusa da graça de Deus, esperando ser perdoado e ter a vida poupada. Existem pessoas que planejam e tencionam pecar, crendo que Deus é obrigado a perdoá-las, seja como for. Elas pensam que se fizerem algum ritual, recitarem alguma fórmula, serão automaticamente perdoadas e a vida poderá continuar como era. Quem abusa da graça de Deus em perdoar, por um lado confessa seu pecado, enquanto por outro planeja repeti-lo. Davi confessa seu pecado contra Deus e não pede nada. Ele sabe o que merece, e não pede para ser salvo.

Nesse sentido, ele é como o filho pródigo do Novo Testamento: 

“Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores. E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se.” (Lucas 15:17-24)

Esse filho tinha “bagunçado” tudo, e sabia disso. Ele tinha abandonado a família e gasto toda a sua herança. Ele não tinha direito a qualquer reivindicação como filho. No entanto, ele conhecia seu pai e sabia que ser seu escravo era melhor do que ser escravo de um empregador ímpio numa terra distante. Por isso, ele volta para casa, confessa o pecado e não espera nada além de se tornar um empregado. A reação do pai é de pura graça, pois dá ao jovem o que ele não merece. Davi, como o filho pródigo, sabe que não merece o perdão de Deus ou Suas bênçãos; por isso, ele nem mesmo pede. Apenas confessa o pecado. 

6) O arrependimento de Davi resulta em uma alegria renovada na presença e no serviço do Senhor e em um compromisso de ensinar aos outros a abandonar o pecado. Sabemos, pelo Salmo 51, que Davi orou para que sua alegria no Senhor fosse restituída (51:8, 12). Temos todas as razões para crer que seu pedido foi atendido. Além disso, ele também queria ensinar aos outros:

Então, ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores se converterão a ti.” (Salmo 51:13) 

Davi agora ensinará pecadores como um pecador arrependido. Seu ensino procurará fazer com que eles abandonem seus pecados. Como essa atitude é diferente da atitude dos ímpios, que procuram seduzir os outros a seguir seu exemplo!

“Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem.” (Romanos 1:32) 

Lembro-me de Simão Pedro, cuja negação foi predita por nosso Senhor, juntamente com estas palavras de esperança:

“Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo! Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos.” (Lucas 22:31-32) 

Pedro era arrogante, impaciente e impulsivo antes da crucificação e antes de negar o Senhor. Depois de ter falhado miseravelmente e de ter recebido a graça de Deus, ele foi restaurado. Foi aí que seu ministério realmente começou. De certa forma, Deus usa o nosso pecado para instruir outras pessoas. Talvez seja quando elas observam os resultados dolorosos do nosso pecado (Provérbios 19:25) ou quando veem a restauração e o profundo senso da graça de Deus produzidos na vida do pecador arrependido e restaurado.

7) O arrependimento de Davi, divinamente operado por Deus, produz frutos dignos de arrependimento. Deus responde ao arrependimento de Davi com graça, e assim Davi reage com graça para com aqueles que lhe fazem mal e se arrependem. Quando Absalão se rebela contra ele e está prestes a tomar seu reino, Davi foge de Jerusalém junto com seus seguidores. Enquanto ele deixa a cidade, um homem chamado Simei sai para amaldiçoá-lo e atirar-lhe pedras (II Samuel 16:5-8). Abisai quer cortar a cabeça de Simei, mas Davi não permite. Quando Davi volta a Jerusalém, uma das pessoas que sai ao seu encontro para saudá-lo é Simei, o qual confessa ter pecado ao amaldiçoá-lo e apedrejá-lo (II Samuel 19:16-20).

Abisai novamente quer executar Simei e, desta vez, ele tem um motivo bíblico. Ele chama a atenção para o fato de Simei ter amaldiçoado Davi, rei de Israel. A lei de Moisés proibia que se amaldiçoasse os líderes do povo (Êxodo 22:28). Tecnicamente, ou melhor dizendo, legalmente, Simei deveria ser morto, mas Davi o perdoa e poupa sua vida. Ao fazer isso, Davi o trata da mesma forma graciosa como Deus o tratou. Este incidente nos faz recordar da história contada por nosso Senhor sobre o servo incompassivo (ver Mateus 18:23-35), cuja enorme dívida é perdoada pelo rei, mas que se recusa a perdoar uma dividazinha do seu conservo. Quem realmente experimenta a graça de Deus, manifesta essa graça aos outros. A graça recebida por Davi em consequência do seu arrependimento é demonstrada ao “arrependido” Simei.4

8) O arrependimento de Davi produz frutos duradouros: ele abandona o pecado e não volta a repeti-lo. Há pessoas, como Faraó e Saul, que parecem se arrepender, mas cujo arrependimento é muito breve. Saul, com certeza, não demorou muito para retomar seus esforços para matar Davi; e Faraó, para resistir novamente à partida do povo de Israel. Isso aconteceu porque o arrependimento deles não foi verdadeiro. Na verdade, seu arrependimento foi só um caminho mais curto, um jeito de acabar com a dor do momento. Stuart Briscoe diferencia o falso do verdadeiro arrependimento desta forma:

“Lembro-me de um amigo na Inglaterra que me disse há muito tempo: ‘Arrependimento imaturo se desculpa pelo que fez. Arrependimento maduro lamenta pelo que é. Se só me desculpo pelo que fiz... então, vou fazer de novo.”5

Davi manifesta um “arrependimento maduro”. Ele vê seu pecado como realmente é e seu pesar é genuíno. Por isso, ele não o comete de novo.

Perdão Concedido
(12:13b) 

“Disse Natã a Davi: Também o SENHOR te perdoou o teu pecado; não morrerás.”  

Davi recebe aquilo que não ousou pedir. Que onda de alívio deve ter tomado conta dele ao ouvir as palavras de Natã: “Também o SENHOR te perdoou o teu pecado; não morrerás.” Quando reagiu à história contada por Natã sobre o roubo e a morte da cordeirinha, Davi condenou a si mesmo: 

“Então, o furor de Davi se acendeu sobremaneira contra aquele homem, e disse a Natã: Tão certo como vive o SENHOR, o homem que fez isso deve ser morto.” (II Samuel 12:5)

Legalmente, é claro, a lei de Moisés requeria do culpado na história de Natã apenas uma restituição quádrupla (Êxodo 22:1). Davi, porém, deveria ser morto, tanto pelo adultério quanto pela morte de Urias. 

Sob a lei de Moisés, Davi não tinha qualquer esperança. Ele era um homem condenado. Um homem morto! Como, então, é possível Natã lhe dizer que ele não morrerá? Repare que a promessa de que Davi não morrerá vem após a afirmação: “Também o SENHOR te perdoou o teu pecado.” A “salvação” de Davi da condenação divina, assim como a nossa, não vem pela guarda da lei, mas pela graça. E a razão para seu pecado ser perdoado é porque o Senhor o retirou.

Esse “retirar” do pecado não é algum truque de mágica, onde Deus simplesmente pega o pecado e o faz desaparecer. O pecado foi “retirado”. Creio que a declaração de Natã só pode ter sido feita com base na obra certa e segura de Cristo na cruz do Calvário, séculos mais tarde. Com base na obra de Cristo Davi é perdoado. Seus pecados foram suportados por nosso Senhor e, assim, a justiça de Deus foi satisfeita.

A expressão “foi retirado”, no verso 13 da versão NASB, pode ser literalmente interpretada como “fez morrer o seu pecado, como se pode ver na nota à margem do texto. Esse é um verbo comum e, muitas vezes, é usado no sentido de passar por ou passar sobre, como na época em que os israelitas atravessaram o Mar Vermelho. Aqui, no texto original, o termo está no modo causativo (Hifil), de forma que pode ser traduzido como “fez passar sobre ou fez morrer”. Tanto a nova versão King James quanto sua versão original traduzem o termo como “eliminado”. Creio que a palavra hebraica encontrada em nosso texto é utilizada em sentido aproximado em mais dois outros textos da Bíblia. (Nota: em todas as versões em português o texto é traduzido como “o Senhor perdoou o teu pecado”.)

“Então, se irou muito Abner por causa das palavras de Isbosete e disse: Sou eu cabeça de cão para Judá? Ainda hoje faço beneficência à casa de Saul, teu pai, a seus irmãos e a seus amigos e te não entreguei nas mãos de Davi? Contudo, me queres, hoje, culpar por causa desta mulher. Assim faça Deus segundo lhe parecer a Abner, se, como jurou o SENHOR a Davi, não fizer eu, transferindo o reino da casa de Saul e estabelecendo o trono de Davi sobre Israel e sobre Judá, desde Dã até Berseba.” (II Samuel 3:8-10) 

“Tirou o rei o seu anel, que tinha tomado a Hamã, e o deu a Mordecai. E Ester pôs a Mordecai por superintendente da casa de Hamã.” (Ester 8:2) 

Nos dois casos acima, o mesmo termo hebraico encontrado em nosso texto é usado para descrever a “transferência” de alguma coisa de uma pessoa para outra.6 O reino de Israel foi transferido de Saul para Davi (II Samuel 3:8-10). O anel do rei, dando a um subordinado autoridade para agir em seu nome, foi tomado de Hamã e dado a Mordecai. O anel foi transferido de uma pessoa para outra. O pecado de Davi foi perdoado e ele recebeu a garantia de que não morreria porque Deus havia transferido os seus pecados. Essa transferência ocorreu séculos depois, quando o “filho” de Davi, o Senhor Jesus Cristo, morreu na cruz do Calvário. Os pecados de Davi foram suportados por nosso Senhor, e Ele pagou a pena pelo que Davi tinha feito. Davi não iria morrer por causa do seu pecado porque Cristo estava destinado a morrer, pagando a pena por eles.

Natã fala dessa transferência como se fosse um acontecimento passado. Os profetas do Antigo Testamento muitas vezes usavam o verbo no passado para falar de um acontecimento futuro. Isso, ao que parece, servia para enfatizar a realização da profecia. Quando Deus promete fazer alguma coisa é como se disséssemos: “está praticamente feito”. Quando os profetas falavam das promessas de Deus para o futuro, quase sempre o faziam empregando o verbo no passado. Mesmo séculos antes do nascimento e da morte de Cristo, os homens foram perdoados com base nesse acontecimento. Davi foi perdoado porque Cristo morreu por seus pecados na cruz do Calvário. Essa é a única base para o perdão. Davi corretamente confessou que havia pecado contra Deus e Natã lhe assegurou que seu pecado contra Deus fora perdoado por Ele, por meio da morte sacrificial e substitutiva do Filho de Deus, Jesus Cristo. Essa sempre foi a única base para o perdão dos pecados.

Conclusão

Vamos concluir esta mensagem com vários princípios e áreas de aplicação.

1) Arrependimento é uma obra realizada por Deus que emprega o Seu Espírito, a Sua Palavra e o Seu povo, na medida em que são utilizados em resposta ao pecado. Não temos o poder de mudar os corações, só Deus tem. Nesse sentido, arrependimento é uma obra de Deus. No entanto, Deus prefere utilizar certos meios para alcançar Seus objetivos, e assim é com o arrependimento. Deus usa gente do Seu povo, como fez com Natã, para confrontar as pessoas com seus pecados. Ele usa a Sua Palavra e o Seu Espírito para convencer os pecadores de seus pecados. Hoje, da mesma forma que no passado, é mais fácil falar com os outros sobre o pecado de alguém do que falar com a própria pessoa. A Bíblia nos dá instruções muito claras quanto a nossa obrigação para com um irmão ou irmã que parece ter caído em pecado (ver Mateus 7:1-5; 18:15-20: I Coríntios 5:1-13: Gálatas 6:1-5; I Tessalonicenses 5:14; II Tessalonicenses 3:14-15; II Timóteo 2:23-26; Tito 3:9-11 e Tiago 5:19-20). Ninguém realmente quer ser um “Natã” para um “Davi”, mas este é o meio normal que Deus designou para lidar com o pecado, ou para encorajar o pecador a se arrepender. O ponto alto da amizade de Natã com Davi é quando ele lhe mostra o seu pecado, preparando o terreno para o seu arrependimento.

2) Arrependimento é o meio divinamente designado para obter o perdão dos pecados e desfrutar da comunhão com Deus. Pelos salmos de Davi fica claro que, quando ele pecou e tentou esconder seu pecado, houve uma ruptura no seu relacionamento com Deus. Ele perdeu a alegria da salvação e a certeza da presença de Deus em sua vida. Essas coisas voltaram quando ele se arrependeu. Arrependimento é uma expressão de fé e, por isso, é o meio designado por Deus para o pecador perdido receber o perdão de seus pecados e ter segurança da vida eterna, em comunhão com Ele.

“Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia e dizia: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.” (Mateus 3:1-2)

“Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.” (Mateus 4:17)

“Admirou-se da incredulidade deles.  Contudo, percorria as aldeias circunvizinhas, a ensinar.   Chamou Jesus os doze e passou a enviá-los de dois a dois... Então, saindo eles, pregavam ao povo que se arrependesse” (Marcos 6-7a, 12). 

“Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém.” (Lucas 24:45-47)  

“Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.” (Atos 2:38) 

“E, ouvindo eles estas coisas, apaziguaram-se e glorificaram a Deus, dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para vida.” (Atos 11:18)

“E, quando se encontraram com ele, disse-lhes: Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia, servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram, jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa, testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus [Cristo].” (Atos 20:18-21) 

Arrependimento é também um requisito para que os pecadores abandonem seus pecados e voltem à comunhão com Deus, quebrada pelo pecado. Por isso, Paulo procurou conduzir os santos de Corinto ao arrependimento:

“Agora, me alegro não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus, para que, de nossa parte, nenhum dano sofrêsseis. Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte.” (II Coríntios 7:9-10) 

No livro de Apocalipse, as cartas às sete igrejas da Ásia contêm um chamado ao arrependimento: 

“Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas.” (Apocalipse 2:5)

“Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca.” (Apocalipse 2:16)

“Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te. Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti.” (Apocalipse 3:3)

“Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te.” (Apocalipse 3:19) 

Arrependimento não é uma palavra muito “legal” e, com certeza, também não é uma prática muito popular. Ele começa, creio eu, com um entendimento renovado da santidade de Deus e, dessa forma, com a compreensão da enormidade do nosso pecado. Isso leva a um modo inteiramente novo de encarar a vida, desta vez com os olhos de Deus, por meio das Sagradas Escrituras. O pecado se torna repulsivo, de forma que decidimos não repeti-lo. O resultado é um senso renovado da presença de Deus, uma nova alegria na nossa salvação e um desejo de dissuadir outras pessoas de pecar.

Em minha opinião, uma das características do genuíno avivamento é o arrependimento verdadeiro. Relacionamentos que pareciam irreversivelmente quebrados de repente são reconciliados. Casamentos mortos e moribundos são revitalizados. O amor perdido é novamente encontrado. O cativeiro que leva a um comportamento compulsivo e a um ciclo interminável de pecado é quebrado. É triste ver que, nesta época de tanta terapia, usemos termos psicológicos para descrever problemas espirituais para os quais a Bíblia tem uma definição e uma prescrição. Chegamos a aceitar a crença de que muitos problemas espirituais não podem ser revertidos ou radicalmente solucionados, mas que são necessários anos de terapia e mudança gradual, se houver. Esta não é a maneira como a Bíblia descreve a nossa reação ao pecado por meio do arrependimento. Arrependimento verdadeiro pode trazer, e realmente traz, mudanças radicais. Antes de tudo, precisamos nos voltar para a Palavra de Deus, precisamos chamar o pecado por seu nome bíblico e precisamos exortar as pessoas a reagir de forma bíblica: com arrependimento e fé.

Quando ocorre um verdadeiro arrependimento, creio que ele é óbvio. Nosso texto não apenas descreve o verdadeiro arrependimento em relação ao nosso pecado, ele o descreve de forma a sermos capazes de reconhecê-lo nos outros. E, quando há arrependimento, temos a obrigação de perdoar e receber esse indivíduo de volta à comunhão. Muitas igrejas não exercem a disciplina e não chamam seus membros ao arrependimento. Mas aquelas que o fazem, também precisam estar prontas e dispostas a reconhecer o verdadeiro arrependimento, e a receber o pecador arrependido de volta à comunhão.

Não quero ser como um dos amigos de Jó, exortando ao arrependimento quando isso não é necessário. Nem toda provação ou tribulação é decorrente de pecado. Há ocasiões, porém, em que as nossas provações são graciosamente dadas por Deus para chamar a nossa atenção para o pecado e para nos exortar ao arrependimento. Nessas ocasiões, que sejamos rápidos para assumir a responsabilidade pelo nosso pecado, para confessá-lo e abandoná-lo. Vamos procurar ver novamente as coisas de forma clara e, uma vez mais, desfrutar das bênçãos da salvação e da comunhão com Deus.

Tradução: Mariza Regina de Souza


1 A comida era tão boa que eu não ousava dizer à minha esposa o que tinha de almoço. E mesmo assim, um dos internos reclamava da forma como seu bife fora feito.

2 É muito importante notar aqui que Saul não menciona o rei Agague. Talvez ele tenha sido pressionado pelo povo para ficar com alguns dos despojos, mas quem iria lhe pedir para poupar a vida de Agague? Não faço idea. Agague era um troféu pessoal para Saul, a quem ele planejava manter vivo para servir a seus próprios interesses. Por isso, quando se justifica com Samuel, ele não menciona Agague, pois não havia desculpa razoável para mantê-lo vivo.

3 José já havia percebido que Deus o elevara ao poder, por isso, ele compreendia que Deus usara para o bem todas as coisas ruins feitas pelos irmãos contra ele (veja Gênesis 41:51-52; 50:20). Quando viu os irmãos, ele se lembrou dos sonhos e entendeu que sua posição lhe fora dada para que pudesse lidar com eles com autoridade (Gênesis 42:9).

4 Aliás, textos posteriores das Escrituras lançam dúvidas sobre a sinceridade do arrependimento de Simei. Davi, contudo, parece levar sua confissão ao pé da letra.

5 D. Stuart Briscoe, “Um Coração para Deus” (Nashville: Thomas Nelson Publishers, 1984), p. 141.

6 Em Ester 8:10, a forma verbal é exatamente a mesma de nosso texto. Em II Samuel 3:10, o mesmo verbo é empregado como hifil no infinitivo. Minha opinião é que o mesmo verbo causativo é utilizado nos dois textos onde a ideia de “transferência” está implícita pelo contexto.

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