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8. Guerra E Paz (II Samuel 8:1 - 10:19)

Introdução

Muitas pessoas que parecem ser “boas” só são “boas” porque lhes falta o poder de fazer o mal que desejam. Você se recorda de sua infância, de quando um de seus pais lhe dizia que você não podia fazer uma determinada coisa? Naquela hora, talvez você tenha pensado, ou dito para si mesmo: “Espera só até eu crescer, porque então eu vou...”. Às vezes, tais afirmações iam mais longe: “Quando crescer, vou ser presidente, e aí vou...” O poder é um teste para o nosso caráter. Poder fazer o que quisermos, ou o que preferirmos, revela para nós, e para os outros, quem realmente somos.

Durante muitos anos Davi quase não teve poder. Ele ficava nos campos guardando o pequeno rebanho de ovelhas de sua família. Quando Samuel entrou em cena para ungir o futuro rei de Israel dentre os filhos de Jessé, Davi sequer foi considerado como uma possibilidade. Foi preciso dizer à sua família que fosse buscá-lo no campo. Houve tempos em que ele exerceu certo poder e autoridade no governo de Saul, mas logo se tornou fugitivo e seu poder oficial lhe foi tirado. Até mesmo sua esposa lhe foi tirada.

Agora, anos depois, Saul está morto e Davi reina em seu lugar em Israel. Em nosso texto, ele irá subjugar seus inimigos e trazer paz para a nação. Agora ele tem poder para fazer o que quiser. É nesta época que veremos seus melhores momentos e, infelizmente, também os piores. Nos capítulo 8 a 10, encontramos Davi em sua melhor forma. Ele usa o poder que lhe foi dado por Deus para fazer a Sua vontade. No capítulo 11, ele tropeça, atingindo o ponto mais baixo de sua vida espiritual. Ele emprega seu poder para não ir à guerra, para tomar a esposa de outro homem e depois para mandar matá-lo. No entanto, esta é uma outra história, que guardaremos para a próxima lição.

Nesta lição, iremos nos concentrar em três capítulos de II Samuel: 8, 9 e 10. As razões para esta escolha se tornarão evidentes durante a exposição destes versículos. Basta dizer, por enquanto, que os capítulos 8 a 10 relatam como Davi utiliza seu poder na guerra contra os inimigos de Israel e, portanto, de Deus. O capítulo 9 descreve como ele utiliza o poder para cumprir a aliança feita com seu querido amigo Jônatas e sua promessa a Saul. O capítulo 9 faz um contraste muito bonito com os capítulos 8 e 10, colocando a soberania de Davi (e, dessa forma, a soberania de Deus) na perspectiva correta. Vamos considerar primeiro os capítulos 8 e 10 e depois retornar ao capítulo 9, à bondade de Davi para com Mefibosete. Prestemos bastante atenção às palavras destes capítulos e ao ensinamento do Espírito Santo, confiando Nele para aprendermos as lições pertinentes à nossa própria vida atual.

Davi Dá Cabo De Seus Inimigos
(8 E 10)

Talvez seja útil para a nossa compreensão destes capítulos estabelecer o contexto dos acontecimentos chamando a atenção para alguns fatos relevantes:

Primeiro, os povos e os lugares sobre os quais iremos falar são aqueles que cercam o território de Israel. Eles não estão longe, mas próximos, e têm grande impacto no passado, presente e futuro da nação.

Segundo, eram esses povos e lugares que ocupavam o território dado por Deus a Israel (ver Gênesis 12:1-3; 13:14-18; 15:18-21, Êxodo 23:31) e que os israelitas não tinham conquistado, nem dominado (ver Juízes 1:1-36; 3:1-6).

Terceiro, esses povos não são superpotências internacionais, mas pequenos reinos, quase como cidades-estado. A Bíblia fala de superpotências como Egito, Assíria, Babilônia e Roma, mas não são estas que Davi e os israelitas enfrentam em nosso texto. Eles enfrentam as pequenas nações que rodeiam Israel. Para se proteger e promover seus próprios interesses, essas nações precisam se aliar a outros pequenos reinos.

Quarto, de acordo com o capítulo 7, verso 1, sabemos que esta é uma época de relativa paz. No entanto, não é uma paz permanente. Os inimigos de Israel não estão atacando o povo de Deus ou o seu rei. Os filisteus bem que tentaram - duas vezes - cortar o mal pela raiz, mas não conseguiram destruir o reino de Davi (II Samuel 5:17-25). No capítulo 8, Davi ataca muito mais do que se defende. Isto se deve, em parte, à promessa de Deus de uma paz mais duradoura nestes tempos de paz temporária:

“Agora, pois, assim dirás ao meu servo Davi: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Tomei-te da malhada, de detrás das ovelhas, para que fosses príncipe sobre o meu povo, sobre Israel.  E fui contigo, por onde quer que andaste, eliminei os teus inimigos diante de ti e fiz grande o teu nome, como só os grandes têm na terra. Prepararei lugar para o meu povo, para Israel, e o plantarei, para que habite no seu lugar e não mais seja perturbado, e jamais os filhos da perversidade o aflijam, como dantes, desde o dia em que mandei houvesse juízes sobre o meu povo de Israel. Dar-te-ei, porém, descanso de todos os teus inimigos;”

Quinto, Davi age com base nessa promessa, feita no capítulo 7, quando sai ostensiva e ofensivamente para subjugar os inimigos de Israel e tomar posse da liberdade e da terra que Deus havia prometido. Aqui não há registro de que ele tenha recebido alguma ordem, nem de que esteja ocorrendo algum ataque externo (como o dos filisteus no capítulo 5). Acredito que ele age com base nas promessas feitas por Deus a Israel e nas ordens dadas anteriormente para que tomassem posse da terra. Ele não pede orientação divina porque não precisa, e não precisa porque ela já havia sido dada. Agora ele está no poder e começa a fazer as coisas que outrora foram deixadas inacabadas.

Os Filisteus São Subjugados (8:1)

Os filisteus, situados a oeste de Israel, talvez sejam seus vizinhos mais incômodos (ver Gênesis 26:1, 8, 14, 15, 18), principalmente após a época dos juízes (Juízes 3:3, 31; 10:6-7). Sansão lutou contra eles (Juízes, capítulos 13 a 16). Foram eles que tiraram a vida dos dois filhos de Eli e indiretamente causaram a sua morte, além de levaram a arca de Deus (I Samuel, capítulos 4 a 7). Jônatas atacou a sua guarnição em Israel, precipitando outro confronto com eles (I Samuel 13:3 e ss). Davi matou Golias, um filisteu, e depois perseguiu o seu exército (I Samuel 17). Foram os filisteus também que derrotaram o exército de Israel e acabaram matando Saul e seus dois filhos (I Samuel 31). E foi entre eles que Davi procurou e encontrou refúgio (I Samuel 21:10-15; 27:1 e ss). Quando Davi se tornou rei, eles pensaram que era melhor atacá-lo logo, numa tentativa de anular a ameaça que ele representava. Eles fracassaram e Davi agora irá subjugá-los, acabando com sua tirania por um bom tempo. De acordo com a passagem paralela de I Crônicas 18:1, sabemos que a “metrópole” dos filisteus, na realidade, é Gate. Não é de admirar que Davi consiga capturá-la; ele a conhece como a palma de sua mão.

Os Moabitas São Subjugados (8:2)

Este verso é intrigante por, pelo menos, duas razões. Primeira, os moabitas parecem ter tido boas relações com Davi. A linhagem de Davi incluía Rute, a moabita (Rute 4:5, 10, 13-22). Quando pareceu que Saul iria prejudicar a família de Davi, eles fugiram e foram se encontrar com ele na caverna de Adulão (I Samuel 22:1); em seguida, ele procurou proteção para eles com o rei de Moabe (I Samuel 22:3-4). Existe uma tradição judaica que diz que o rei de Moabe traiu a confiança de Davi e fez mal a seus pais, mas isso não pode ser confirmado. Com base na relação de Davi com Hanum, rei dos amonitas, descrita em II Samuel 10, creio que é certo presumir que ele seja leal a seus amigos. Algo deve ter saído tremendamente errado para ele ter tratado os moabitas com tanta severidade, embora não tenhamos uma explicação plausível do que aconteceu (e nem precisemos de uma neste breve relato).

Segunda, talvez o leitor fique incomodado pela severidade com que Davi trata os moabitas. Quando eu dava aulas, muitas vezes tive vontade de dividir a classe em pequenos grupos. Simplesmente teria de colocá-los em fila e enumerá-los: um, dois, três, um, dois, três... Na verdade, foi isso o que Davi fez. Depois ele pegou dois grupos e eliminou-os, mandando o terceiro (apavorado) para casa, como seus servos.

Alguns ainda podem ficar incomodados pelo fato de Davi deixar tantas pessoas com vida. No caso de Saul e os amalequitas, Saul perdeu seu reino por ter deixado com vida o rei e o melhor do rebanho amalequita (I Samuel 15). Davi deixa com vida muitos mais. Por que, então, Deus não o castiga por deixar tantos sobreviventes? A resposta é simples. Deus tinha um problema de longa data com os amalequitas, por isso ordenou que Saul aniquilasse todas as pessoas e todo o rebanho (I Samuel 15:1-3). Saul falhou porque deixou de obedecer a uma ordem direta. Davi não tinha tal ordem e nem era necessário que todos os moabitas fossem mortos. Em meio ao julgamento divino (com a morte de dois terços), um terço recebeu misericórdia.

Creio que se estivéssemos lá, teríamos achado muito difícil desempenhar a missão executada por Davi e os israelitas. A arbitrariedade disso tudo parece gritante. Até parece um campo de extermínio nazista, não é? Um grupo de internos judeus é levado para o “chuveiro” e morre na câmara de gás. Outro grupo também é levado para o “chuveiro”, mas sai vivo e limpo. Como Davi pôde deixar seus homens fazerem algo tão parecido?

Por enquanto, permitam-me dar uma breve resposta; depois voltaremos a este assunto na conclusão da mensagem. Davi é o rei de Deus. Ele é o rei de Israel, que governa por Deus. Ele é o representante de Deus. Os moabitas se tornaram inimigos de Israel e, por isso, inimigos de Deus. Como tal, eles merecem morrer. O espanto não é que dois terços sejam mortos, mas que um terço seja deixado com vida. E, com a morte de dois terços, sucumbe qualquer pensamento de resistência a Davi ou rebelião contra ele.

Davi E Hadadezer, Rei De Zobá (8:3-12)

De acordo com a cronologia sugerida por nosso texto, Davi começa derrotando os filisteus, que estão a oeste de Israel. Depois ele se volta para leste, contra os amonitas. Após subjugar a ambos, ele vai para o norte. O reino arameu de Zobá fica a 40 km ou mais de Damasco, em direção ao norte. Sabemos que Saul se envolveu em confronto militar com esse reino (I Samuel 14:47). Na época, Hadadezer era seu rei. Aparentemente, ele tinha sofrido algumas perdas para o norte, onde governara “junto ao rio” (8:3). Talvez ele tenha visto os ataques de Davi a seus vizinhos do sul como uma oportunidade de ouro para voltar ao norte, onde poderia restabelecer sua supremacia. Seu plano não funcionou. Davi, ao que parece, viu a manobra de Hadadezer para o norte como uma oportunidade de atacá-lo pelo sul. Parece que, enquanto a maior parte das forças militares de Hadadezer está no norte, Davi captura seu reino no sul e, quando Hadadezer retorna, ele e seu exército encontram Davi naquilo que antes fora seu domínio. Quando os sírios de Damasco percebem que Davi é uma ameaça à sua “segurança nacional”, eles correm em auxílio de Hadadezer, mas também são derrotados (8:5-6).

O reino de Hamate fica ao norte de Zobá. Toí, seu rei, parece ter um vislumbre do desastre e toma uma atitude sábia... a rendição. Ele envia uma delegação liderada por seu filho, Jorão, para falar com Davi, rendendo-se formalmente e tornando-se seu aliado, conforme indicado pelo pagamento substancial de tributo. Toí está encantado com a derrota de Hadadezer, pois seu país estava em guerra contra ele. Tornar-se aliado do vencedor é compartilhar sua vitória sobre o inimigo.

A Vitória No Vale Do Sal (8:13-14)

Estes dois versiculos descrevem mais uma vitória do rei Davi e dos israelitas. De acordo com eles, parece que a vitória é sobre os “sírios”; no entanto, temos boas razões para dar uma olhada melhor no texto. O versículo 14 fala que os edomitas se tornaram servos de Davi. No versículo 13, há uma nota que informa que alguns textos dizem “Edom” em vez de “sírios”. A diferença na palavra hebraica é de apenas uma letra, e as duas letras são fáceis de ser confundidas. O texto paralelo de I Crônicas 18:12 mostra que os 18.000 mortos são edomitas. Ao que tudo indica, parece que eles eram o alvo. O ataque, aliás, é bem mais ao sul, o que significa que o autor descreve as vitórias de Davi a oeste, a leste, ao norte e, finalmente, ao sul. Davi derrota e subjuga todas as nações ao seu redor.

O Resultado Das Vitórias De Davi - II Samuel 8:15-18

O resultado de todos os feitos de Davi descritos no capítulo 8 é a derrota e sujeição de seus inimigos. Agora há guarnições israelitas nas nações vizinhas (verso 14), quando antes havia guarnições estrangeiras em Israel (ver I Samuel 10:5; 13:3-4). Isso significa que, pelo menos por enquanto, elas não podem mais se opor, atormentar ou oprimir Israel. Significa que a terra está em paz, exatamente como Deus prometera. Todos os sucessos alcançados por Davi vêm das mãos de Deus (ver versos 6 e 14). Seus domínios crescem tanto que ele tem de aumentar sua equipe administrativa e ministerial, conforme registrado nos versos 15 a 18. Onde ele reina há justiça e retidão (verso 15). Em consequência, ele ganha renome (verso 13), exatamente como Deus prometera (7:9). Além disso, o tributo pago a ele também é substancial. Ele recebe grandes quantidades de ouro, prata e bronze (versos 7 a 12). Estas riquezas são guardadas e, pelo menos uma parte será utilizada no templo que vai ser construído por Salomão (ver I Crônicas 18:8).

O Poder De Davi Aumenta, Em Consequência Da Loucura Dos Amonitas - II Samuel 10

No capítulo 8, vemos Davi tomando a iniciativa de sujeitar os inimigos que cercam Israel. Tem-se a impressão de que ele está satisfeito com as vitórias obtidas sobre os seus inimigos. No entanto, no capítulo 10, ele é praticamente forçado a lutar contra pessoas que antes eram suas amigas. O personagem central desse capítulo é Hanum, filho de Naás, falecido rei dos amonitas. A primeira vez que encontramos Naás é no capítulo 11 de I Samuel. Naquela ocasião, ele e seu exército haviam sitiado Jabes-Gileade e ameaçado estabelecer a paz só depois de vazar o olho direito de cada homem da cidade. Saul se mostrou a altura da situação e, capacitado pelo Espírito de Deus, liderou os israelitas na vitória sobre Naás e os amonitas. Não obstante, os amonitas não foram erradicados e, com o tempo, Naás se tornou aliado de Davi. É provável que isso tenha ocorrido enquanto Davi fugia de Saul. Seja qual for a razão, nosso texto deixa claro que Davi o considerava como amigo e aliado. Ao enviar uma delegação para lamentar a sua morte, Davi estava determinado a honrar a memória de Naás.

Hanum, filho de Naás e herdeiro do trono, não é o mesmo tipo de homem que seu pai. Parece que ele e os amonitas não têm muita vontade de manter o status de seu relacionamento com Davi e os israelitas. A situação é parecida com aquela descrita em I Reis 12, quando Salomão morre e o povo de Israel pede a Roboão, seu filho, que lhes dê mais liberdade. Roboão aceita o conselho de seus assessores mais jovens para governar com mão de ferro e o reino acaba dividido. Com a morte de Naás, Hanum assume o trono.

Logo no início do reinado de Hanum é que Davi envia uma delegação a Amom, para transmitir seus respeitos por Naás e lamentar sua morte. Os assessores do rei recém-instalado lhe dão maus conselhos. Eles garantem a Hanum que as intenções de Davi não podem ser honrosas. Davi está enviando aqueles homens como espiões, para obter informações a fim de atacá-los, como fez com tantas outras nações. Parece-me que esta explicação dos acontecimentos dá a Hanum a desculpa que ele está procurando, um motivo para quebrar a aliança feita por seu pai com Davi e Israel. Se ele pretende expandir seus domínios, vai ter de guerrear com Davi. Se conseguir derrotá-lo, Hanum terá o controle de todas as nações derrotadas e subjugadas por Davi.

Nenhuma outra explicação - senão a de uma estupidez tremenda - parece fazer qualquer sentido. Uma coisa é concluir que a delegação chegou com segundas intenções. Outra, totalmente diferente, é humilhar deliberadamente essa delegação e provocar uma guerra com Israel. Posso até entender que Hanum convoque mais tropas para proteger suas fronteiras e aumente sua segurança; mas humilhar a delegação enviada por Davi, que devia ser protegida pelo que podemos chamar de direito internacional e imunidade diplomática, é garantir que haja conflito. Parece que Hanum quer comprar briga. Se esse é o seu plano, ele funciona. Há briga. No entanto, nem tudo dá certo, não só porque os amonitas são derrotados, mas também porque os sírios, seus aliados, são desencorajados e não querem mais vir em seu auxílio.

Davi fica sabendo que sua delegação foi abusada e humilhada. Para os hebreus, a barba era sinal de dignidade. Hanum raspou metade da barba de cada homem. Além disso, ele também cortou metade de suas vestes, para envergonhá-los. Se isso tivesse ocorrido há pouco mais de um século, na época do velho oeste, o rei teria forçado esses dignitários a andar pelas ruas só de ceroulas, com a “traseira” rasgada. Alguns de vocês não têm idade suficiente para saber do que estou falando, por isso vou dar outro exemplo. Seria mais ou menos como forçar cada homem a tirar suas roupas e vestir uma camisola de hospital, e depois sair marchando pelas ruas com a parte de trás aberta. Essa foi uma atitude calculada para humilhar a delegação de Davi e começar uma guerra.

Davi se apieda da delegação desonrada. Ele envia mensageiros para encontrá-los e instruí-los a esperar em Jericó até que suas barbas cresçam novamente, e depois retornem a Israel. Não está escrito que ele reúne as tropas com intenção de ir à guerra. O que está escrito é que os filhos de Amom reconhecem que “se tornaram odiosos a Davi” (verso 6). Ao invés de se desculparem ou tentarem se reconciliar com ele, os amonitas procuram fazer uma aliança que os fortaleça no conflito com Israel. Sírios de várias regiões são contratados como mercenários (10:6). Só depois de saber desse ajuntamento militar é que Davi convoca o exército da ativa.

Davi e suas forças saem para a batalha contra os amonitas e mercenários sírios. Este exército de coalisão se divide em dois grupos, com intenção de atacar os israelitas pela frente e pela retaguarda. Quando Joabe percebe a manobra, ele divide o exército de Israel em duas forças. Ele lidera uma das divisões e seu irmão, Abisai, a outra. Joabe enfrenta os sírios, enquanto Abisai está pronto para lutar contra os amonitas. Se um dos dois se vir acuado pelo inimigo, o outro virá em seu socorro. As palavras do verso 12 demonstram sua fé em Deus, enquanto eles se preparam para a batalha: “Sê forte, pois; pelejemos varonilmente pelo nosso povo e pelas cidades de nosso Deus; e faça o SENHOR o que bem lhe parecer” (II Samuel 10:12).

Os sírios fogem de diante de Joabe e seus homens e, quando os amonitas veem isso, também se desanimam. Os sírios vão para casa e os amonitas procuram refúgio em sua capital, Rabá (ver 11:1; 12:26). Os israelitas voltam a Israel. Davi parece disposto a deixar tudo como está, mas os sírios ainda não aprenderam a lição. Eles, da mesma forma que os filisteus em II Samuel 5, não estão dispostos a desistir depois da primeira derrota. Eles querem revanche, e conseguem, só para serem novamente derrotados, com mais eficácia. Os sírios presumem que, se trouxerem mais gente “dalém do rio” (verso 16), poderão vencer. Hadadezer é seu líder. Ele tem contas a ajustar com Davi (ver 8:3 e ss).

Quando Davi fica sabendo que vai ocorrer um novo ataque, ele reúne todo Israel e atravessa o Jordão. A revanche começa e, uma vez mais, os sírios fogem de Davi e seu exército. Desta vez sua derrota é ainda maior do que a anterior. Davi mata 700 homens de carro e mais 40.000 a cavalo, e também Sobaque, comandante do exército sírio. Finalmente, cai a ficha dos sírios. Não vale a pena atacar o povo de Deus e lutar contra seu rei. Os reis sobreviventes fazem paz com Davi. Os sírios estão determinados a não cometer novamente o erro de se juntar aos filhos de Amom em seu conflito com Israel. Os amonitas ainda não se sujeitaram a Davi. Isso só ocorrerá nos capítulos 11 e 12.

Misericórdia Para Com Mefibosete
(II Samuel 9)

A cada ano de eleições nos preparamos para outra enxurrada de “promessas de campanha”, que serão esquecidas tão logo o candidato chegue a seu gabinete. Nem mesmo esperamos que ele ou ela as cumpra e, se o fizerem, ainda ficamos surpresos. Davi é um homem que faz promessas e as cumpre. Antes de se tornar rei de Israel, ele fez promessas tanto a Jônatas quanto a Saul. A Jônatas, ele prometeu proteger-lhe a vida e ser benigno para com sua casa para sempre (I Samuel 20:12-17). A Saul, ele prometeu não eliminar seus descendentes (I Samuel 24:21-22). Agora, tanto um quanto outro estão mortos e Davi é o rei. Seria muito fácil para ele esquecer-se de seu compromisso.

Davi não apenas se lembra de seu compromisso com Saul, mas vai muito além disso. Com Saul, ele se comprometeu a não prejudicar seus descendentes. Com Jônatas, ele se comprometeu a demonstrar benignidade. Aparentemente, todos os descendentes de Saul estão mortos. Ninguém procura Davi em busca de seu favor. Agora ele é rei e está em condições de cumprir a promessa feita a Jônatas. Tudo o que ele precisa é de um de seus descendentes. Ele pergunta se há algum descendente de Saul a quem possa usar de bondade por amor de Jônatas (verso 1). No verso 3, ele se refere a este ato como a “bondade de Deus”, o que certamente é.

Nenhum dos servos de Davi sabe se há algum descendente vivo de Saul. Alguém se lembra de Ziba, servo de Saul, e ele é convocado à presença de Davi. Será possível imaginar a apreensão de ser convocado ao palácio do rei? Será que Davi é como os outros reis, que está simplesmente procurando remover qualquer vestígio do reinado de Saul? Será que Davi está procurando dar um jeito em Ziba e sua família? Com certeza, esses pensamentos devem ter passado pela cabeça de Ziba, mais de uma vez! Como ele deve ter ficado aliviado ao ouvir a pergunta de Davi: “Não ainda alguém da casa de Saul para que use eu da bondade de Deus para com ele?” (verso 3). Na verdade, há sim. Ele se lembra de Mefibosete, o filho de Jônatas. Há um filho, diz ele a Davi, mas é deficiente. É aleijado de ambos os pés. Davi certamente não vai querer demonstrar-lhe seu favor.

O autor de I e II Samuel com certeza nos preparou para este momento. Em II Samuel 4, ele relata a morte de Isbosete pela mão de dois de seus servos. No meio dessa narrativa tenebrosa, ele parece fazer um parênteses no verso 4, informando casualmente ao leitor a lesão sofrida por Mefibosete. O incidente parece meio fora de contexto. No entanto, o autor está preparando o terreno para o nosso texto. Na sequência, ele conta outra história no capítulo 5, sobre a tomada de Jebus. Neste capítulo, aparece três vezes a palavra “coxo” (versos 6 e 8). Os homens de Jebus eram tão confiantes, que se gabavam de que até “cegos e coxos” poderiam repelir o ataque de Davi à sua cidade. Quando este toma a cidade, alguns passam a dizer: “Nem cego nem coxo entrará na casa” (verso 8).

Agora, vemos Davi à procura de um descendente de Saul e Jônatas a quem possa demonstrar seu favor. O único candidato é o filho deficiente de Jônatas. Se já era notório que nenhum coxo entrava nas casas de Jerusalém, quanto mais no palácio. No entanto, é exatamente isso o que acontece. Davi chama Mefibosete, que vive em Lo-Debar, uma cidade a leste do Jordão e depois de Maanaim. A cidade devia ser perto de Amom, próximo à fronteira com Israel. Parece que Mefibosete vive o mais distante possível de Davi e Jerusalém, sentindo-se como um homem marcado para morrer caso se aproxime demais. Quando se apresenta a Davi, ele se prostra diante dele como servo. Davi percebe seu medo e lhe diz para não temer. Davi não pretende lhe fazer mal; sua intenção é usar de bondade por amor de Jônatas, pai de Mefibosete. Davi promete lhe restituir todas as terras que foram de seu pai e que, obviamente, ele perdera depois da morte de Saul e Jônatas. Davi não só restituirá tudo o que Mefibosete herdou, como também o tornará um convidado regular do palácio.

Mefibosete fica cheio de alívio e gratidão, prostrando-se diante de Davi mais uma vez, dizendo-se apenas um “cão morto”. Davi usou essa mesma expressão referindo-se a si mesmo quando falou com Saul (I Samuel 24:14). Naquela ocasião, ele tentava convencer Saul de que não representava um perigo real para ele, não importando o que dissessem a seu respeito. Parece evidente que Mefibosete chama a atenção para a sua deficiência física. Um homem que não pode andar dificilmente poderia servir ao rei, conduzindo seu exército na batalha:

“Adoni-Bezeque, porém, fugiu; mas o perseguiram e, prendendo-o, lhe cortaram os polegares das mãos e dos pés. Então, disse Adoni-Bezeque: Setenta reis, a quem haviam sido cortados os polegares das mãos e dos pés, apanhavam migalhas debaixo da minha mesa; assim como eu fiz, assim Deus me pagou. E o levaram a Jerusalém, e morreu ali.” (Juízes 1:6-7)

Estes reis ficaram incapacitados porque seus polegares das mãos e dos pés foram cortados. Eles não poderiam ficar em pé ou correr no campo de batalha, nem segurar suas armas de forma adequada. Quando um rei prevalecia sobre outro na guerra, ele cortava os polegares das mãos e dos pés de seu oponente para deixá-lo como uma espécie de exemplo. Ao que parece, esses reis ficariam debaixo da mesa do rei, apanhando migalhas; não eram convidados de honra; eram troféus de guerra. Davi não queria nada disso para Mefibosete; não queria que ele se sentasse à sua mesa como um inimigo subjugado, mas como um convidado de honra, o filho de seu querido amigo Jônatas. Este é um gesto surpreendente de graça.

Davi dá ordens a Ziba, dizendo-lhe que tudo o que antes pertencera a Saul agora pertence a Mefibosete e deve ser restituído a ele. Ele faz de Ziba e seus filhos (os quais, aparentemente, tinham sido emancipados com a morte de Saul e seus filhos) servos de Mefibosete. Ziba graciosamente aceita o rumo dos acontecimentos. Daqui por diante, Mefibosete é convidado de honra de Davi, comendo regularmente à sua mesa, não como um inimigo derrotado ou humilhado, mas como um de seus filhos (verso 11).

Conclusão

Esta passagem tem muitas lições a nos ensinar, nas quais meditaremos enquanto concluímos o estudo do texto.

Primeiro, a passagem ilustra a providencial mão de Deus operando todas as coisas para o bem daqueles que creem. As batalhas travadas por Davi com os inimigos que cercam Israel só são possíveis por ele ter sido preparado por Deus nos dias em que fugia de Saul. No capítulo 5, os filisteus marcharam contra Israel, especialmente contra Davi. De acordo com o texto paralelo de I Crônicas 11:15-16, sabemos que a fortaleza mencionada no verso 17 é a caverna de Adulão. Não é interessante que os esconderijos de Davi na época em que fugia de Saul se tornem seus postos de comando nas lutas contra as nações circunvizinhas? Em II Samuel 8:1 está escrito que Davi lutou contra os filisteus e capturou sua metrópole. De acordo com I Crônicas 18:1, essa “metrópole” não era outra senão Gate. Todas as vezes em que Davi se escondeu ali, inconscientemente espionou a cidade e seus arredores, os quais um dia iria atacar e derrotar. Sabemos também que, quando fugia de Saul, ele foi para Moabe e que, provavelmente, deve ter recebido asilo de algumas outras nações. Agora que é rei de Israel, ele pode usar essas informações como vantagem militar. É bem verdade que nos Salmos vemos Davi clamando a Deus nos dias em que fugia de Saul. Ele se perguntava “Por quê?” mas, naquela época, não recebia resposta alguma. Agora, estamos começando a ver a resposta. Quando fugia de Saul, Deus o estava preparando para lutar como rei de Israel. Acho que é Bill Gothard que mostra que os dias de escravidão de Israel no Egito foram uma espécie de campo de treinamento, preparando-os para os dias difíceis que iriam passar no deserto a caminho da terra prometida. Nossas lágrimas, tristezas e sofrimentos nunca são em vão; sempre têm um propósito, e esse propósito é a glória de Deus e o nosso bem.

Mas, espere, tem mais! As intrigas políticas e militares que vemos em nosso texto são usadas providencialmente por Deus para dar a Israel as vitórias e a terra que Ele havia prometido muito tempo antes a Seu povo. E o tributo recebido por Davi dos inimigos que subjugou parecem fornecer os materiais necessários à construção do templo. Os acontecimentos de nosso texto são o cumprimento não só da promessa que Deus fez no capítulo 7, mas também das promessas que Ele fez a Abraão, aos patriarcas e a Moisés.

Segundo, em nosso texto, as ações de Davi prefiguram a vinda de nosso Senhor Jesus como o Rei de Israel. Como deve ser o Rei de Deus? Esta é uma pergunta que há muito tempo tem estado na mente daqueles que aguardam a Sua vinda. Os profetas do Antigo Testamento nos disseram, mas de forma que até mesmo eles ficaram intrigados:

“Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada, investigando, atentamente, qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo e sobre as glórias que os seguiriam.” (I Pedro 1:10-11)

Por um lado, o Messias prometido seria um Servo sofredor, que seria rejeitado pelos homens e entregaria Sua vida pelos pecadores (Isaías 52:13 - 53:12). Por outro, um Rei triunfante, que prevaleceria sobre Seus inimigos e estabeleceria Seu reino (ver Salmo 2). Os homens não conseguiam compreender como essas duas profecias poderiam ser verdadeiras. Obviamente, eles não entenderam que o Messias viria à terra duas vezes: a primeira, para ser rejeitado pelos homens e morrer pelos pecados dos perdidos; a segunda, para destruir os ímpios e governar sobre o Seu reino.

Nos capítulos 8 a 10, Davi serve como um tipo de Cristo. Ele estabelece seu reino, prevalecendo sobre os inimigos de Israel e sujeitando-os. Em contrapartida, ele é misericordioso para com Mefibosete, filho de Jônatas e neto de Saul. Mefibosete é o único herdeiro de Saul, o último candidato a rei. Normalmente, um rei no lugar de Davi mataria quaisquer candidatos potenciais ao trono; ele, no entanto, vai em busca desse homem e tem misericórdia dele. Não é devido a alguma contribuição que Mefibosete possa dar a seu reino, pois ele é deficiente, o que, aos olhos dos homens daquela época, o tornava inútil. Também não é devido ao seu valor ou valor potencial que Davi lhe demonstra favor; é devido ao amor de Davi por seu amigo Jônatas, pai de Mefibosete.

Os capítulos 8 a 10 nos lembram de que estas duas dimensões de Deus e Seu Rei - soberania e graça - combinam perfeitamente. A graça de Deus é graça soberana, graça que não é adquirida ou merecida. Ela é concecida a quem Ele escolhe, e unicamente com base na Sua benevolência. O reino justo de Deus é um governo soberano que prevalece sobre todos os Seus inimigos. Deus os destruirá, como os destruiu no passado.

As pessoas não querem pensar em Deus em nenhum desses termos. Elas preferem pensar em Deus como alguém que concede coisas boas para quem as merece. Elas não gostam da graça, porque a graça não lhes dá crédito algum; não gostam dela, porque não a podem reivindicar, como se a merecessem. Deus não é obrigado a conceder Sua graça a quem quer que seja. Os homens também não gostam de pensar em Deus como soberano sobre Seus inimigos. Eles não querem pensar que Deus enviou o Messias à terra para derrotar Seus inimigos e estabelecer Seu trono de justiça. Eles não querem pensar no inferno e no tormento eterno para os ímpios. Estas duas dimensões de Deus são vistas em Davi. São estas características que fazem os ímpios tremer ou, pelo menos, rejeitar a Deus. E são elas também que fazem o cristão se alegrar. Nós sabemos que fomos salvos pela graça soberana de Deus. Nós, como Mefibosete, éramos indignos da graça de Deus, e éramos respulsivos a Ele. No entanto, apesar da nossa condição miserável, Ele escolheu demonstrar Seu amor por nós, por amor a Seu Filho, Jesus Cristo. Deus nos ama e nos abençoa por amor a Cristo, assim como Davi amou e abençoou Mefibosete por amor a Jônatas, seu pai. Que linda imagem Davi retrata de Deus e Seu Rei, o Senhor Jesus Cristo!

É possível que você ainda não tenha vindo a se relacionar com Deus da mesma forma que Mefibosete veio a se relacionar com Davi. Você, como Mefibosete, precisa reconhecer sua indignidade de habitar na presença de Deus. Você, como Mefibosete, precisa aceitar humildemente a graça de Deus, oferecida por intermédio de Seu Filho Jesus Cristo. Pelo reconhecimento do seu pecado e pela aceitação da solução providenciada por Deus em Jesus Cristo, que morreu por seus pecados e ressuscitou para torná-lo justo diante do Pai, é que você entra em comunhão com Deus. Deus o convida a se sentar à Sua mesa quando você passa a confiar em Seu Filho, Jesus Cristo (ver Salmo 23; Apocalipse 3:20).

Terceiro, este texto ilustra o uso apropriado do poder e se torna o pano de fundo para o abuso de poder de Davi nos dois capítulos seguintes. É evidente que, à medida que a história se desenrola em II Samuel, Davi chega ao poder. Saul foi divinamente removido do trono e, em seguida, seu filho Isbosete. Agora Davi se torna o rei, primeiro de Judá e depois de todo Israel. Ele ascende ao trono. Ele captura a cidade de Jebus e faz dela Jerusalém, sua capital. Ele enfrenta seus inimigos e os vence. Ele usa o poder que Deus lhe deu para fazer a Sua vontade, para derrotar as nações ao redor de Israel, para possuir a terra prometida e para usar de bondade e misericórdia para com os desamparados. Davi usa o poder concedido por Deus de forma adequada, como um bom despenseiro. Isso, portanto, nos mostra como é o Messias e como será quando Ele voltar para estabelecer o Seu reino.

Entretanto, estes três capítulos também nos dão uma espécie de pano de fundo contra o qual serão contrastadas as atitudes e ações de Davi no capítulo 11. Esse capítulo fala sobre o abuso de poder por parte de Davi. Davi abusará do poder ao ficar em casa e enviar seu exército para a batalha sem ele. Ele abusará do poder ao tomar Bate-Seba e depois tirar a vida do marido dela. O retrato dele no auge do sucesso nos capítulos 8 a 10 estabelecem o cenário para a sua profunda queda nos capítulos 11 e 12. Aprendamos com nosso texto que sucesso espiritual não garante que não possamos cair, mas que, de alguma forma, podemos nos preparar para uma queda.

Tradução: Mariza Regina de Souza