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Davi e Bate-Seba (II Samuel 11:1-4)

Introdução

Quando minha avó materna era viva, ela morava num sítio nos arredores de Shelton, Estado de Washington. Na entrada do sítio, em direção à garagem, havia uma pequena área, onde um trailer não muito grande ficava estacionado. Pelo que me lembro, a mulher que vivia nesse trailer e o marido estavam separados. O homem, que havia cumprido pena, era meio violento. Um dia, quando ele foi visitá-la, outro homem estava lá. Houve discussão e pancadaria. Por fim, o homem que estava com a mulher sacou uma arma e exigiu que o marido fosse embora. Ele foi, mas soltando ameças sobre o que iria fazer.

Poucas horas depois, chegou um tio meu para visitar minha avó. Ele entrou no sítio e ia passando bem perto do trailer onde a briga tinha ocorrido. Infelizmente, ele estava dirigindo um carro muito parecido com o do rival do ex-marido da mulher, que estivera estacionado ali no início do dia. Tiros soaram, enquanto o marido enfurecido cumpria sua ameaça. O rifle atravessou com facilidade o parabrisa do carro e meu tio foi morto na hora... por engano. O homem furioso tinha matado o meu tio, falsamente presumindo que ele era o seu rival.

Muitos incidentes trágicos ocorrem como resultado inesperado de uma sequência de acontecimentos. Certamente, esse é também o caso de Davi. Umas férias da guerra o levam a um dia de descanso na cama, seguido de um passeio pelo terraço do palácio quando a noite começa a cair em Jerusalém. Por acaso, Davi vê uma mulher se banhando, uma visão que chama sua atenção e o leva a investigar a sua identidade. A mulher é rapidamente convocada ao palácio e à cama de Davi, onde ele dorme com ela, embora já saiba que ela é esposa de Urias, um guerreiro que está lutando pelo exército de Israel. Ela fica grávida e, por isso, Davi chama Urias de volta da guerra, esperando que todos pensem que foi ele que a engravidou. Quando o plano não funciona, Davi dá ordens a Joabe, comandante do exército, para que Urias seja morto em combate. Esse parece o crime perfeito; no entanto, o pecado de Davi é descoberto e tratado por Natã, o profeta de Deus.

Esta sequência de eventos e suas trágicas consequências são o assunto dos capítulos 11 e 12 de II Samuel. Decidi expor estes capítulos em três lições. A primeira tratará de “Davi e Bate-Seba”, como descrito nos versos 1 a 4 do capítulo 11. Na lição seguinte, abordaremos o tópico “Davi e Urias”, conforme descrito pelo autor em 11:5-27. A terceira lição enfocará em “Davi e Natã”, de acordo com o confronto narrado no capítulo 12. Nosso texto tem muito a dizer sobre os pecados de adultério e assassinato, mas certamente aborda ainda muitas outras coisas. Este é um texto que todos precisam ouvir e entender, pois se um “homem segundo o coração de Deus” pode cair com tanta rapidez e facilidade, com certeza nós também somos capaz de fracassos semelhantes. Que o Espírito Santo tome esta porção da Palavra de Deus e a ilumine para ensinar a cada um de nós, enquanto a estudamos.

Observações Preliminares

Antes de começarmos a examinar os versos 1 a 4 do capítulo 11, permitam-me fazer alguns comentários sobre o episódio relatado nestes dois capítulos de II Samuel. Primeiro, gostaria que reparassem na “lei da proporção” do texto. Somente três versos descrevem o adultério de Davi com Bate-Seba. Segundo, o autor não faz rodeios ao descrever a perversidade desse pecado. A história não foi escrita para fazer Davi parecer bonzinho. Terceiro, o pecado de Davi e Bate-Seba é retratado historicamente, não à maneira hollywoodiana. Os cineastas de Hollywood fariam um remake da narrativa ressaltando seus elementos sensuais. Nada no texto tem a intenção de provocar pensamentos ou atitudes impuros. Na realidade, a história é escrita de forma a nos dar arrepios só de pensar nela.

Davi Fica Em Jerusalém
(11:1)

Israel está em guerra com ninguém menos que os amonitas (verso 1), o que pode vir a ser uma surpresa para vocês, da mesma forma que foi para mim. Achei que eles tinham sido derrotados no capítulo 10. Enganei-me. O autor é bem claro quanto a isso. No capítulo 8, ele conta que Davi começou a lutar com seus inimigos e acabou sufocando todas as nações ao redor de Israel. Davi subjugou os filisteus (8:1) e os moabitas (8:2), e depois deu um jeito no rei de Zobá (8:3 e ss). No decorrer dessas batalhas, outras nações foram envolvidas, as quais encontraram em Israel um inimigo tão formidável que não quiseram mais se opor a ele.

No capítulo 10, encontramos Davi e os israelitas sendo deliberadamente insultados por Hanum, rei dos amonitas. Davi e Naás, o ex-rei de Amom, haviam se tornado amigos. Quando esse rei morreu, Davi enviou uma delegação de oficiais a Amom para expressar seus respeitos e sentimentos pela morte dele. Parece que os amonitas não queriam manter o relacionamento pacífico com Davi e Israel, por isso, humilharam os homens enviados por Davi. Isso levou à guerra entre as duas nações. Os amonitas recrutaram os sírios para lutar contra Davi. No primeiro conflito, os sírios fugiram, forçando os amonitas a bater em retirada para “a cidade” (10:14, a qual deve ser Rabá - ver 12:26 e ss). Os sírios não ficaram contentes com a derrota e tentaram uma revanche, mas foram novamente rechaçados. Isso fez com que eles abandonassem qualquer pensamento futuro de sair em auxílio dos amonitas na guerra contra Israel.

Portanto, vejam, os amonitas não foram subjugados no capítulo 10, só foram privados do auxílio dos sírios. Agora, eles estão por conta própria. Os israelitas exploram ao máximo a situação. Eles destroem o território dos amonitas e sitiam sua metrópole (real), Rabá (11:1, ver I Crônicas 20:1). Rabá, aliás, é hoje a cidade de Amam, na Jordânia. Na verdade, os israelitas só tomam a cidade depois que Davi é repreendido por seu pecado (II Samuel 12:26-31).

O autor do texto nos informa que é primavera, época em que os reis saem para a guerra (11:1, NVI). O tempo sempre afetou as campanhas militares. Batalhas são ganhas ou perdidas devido a estação do ano. Se o tempo está frio e chuvoso, acampar ao ar livre (como o exército que sitia Rabá - ver 11:11) é quase inviável. Entre outras coisas, as rodas dos carros atolam na lama. Por isso, normalmente os reis esperam o inverno passar, retomando a guerra na primavera. É primavera e Israel ainda está em guerra com os amonitas, e já é hora de sujugá-los. O exército se reúne, sob o comando de Joabe e seus oficiais, e “todo Israel”. Eles saem para completar a vitória sobre os amonitas, que parecem recuar para a sua capital, a cidade fortificada de Rabá.

Todos os homens que podem lutar vão para a guerra, menos um... Davi. Davi, está escrito, “ficou em Jerusalém” (11:1). Sua decisão de ficar em casa, em Jerusalém, acaba se tornando um pesadelo. O autor de Samuel não menciona o fato, mas Crônicas sim. Em I Crônicas 20, lemos:

“Decorrido um ano, no tempo em que os reis costumam sair para a guerra, Joabe levou o exército, destruiu a terra dos filhos de Amom, veio e sitiou a Rabá; porém Davi ficou em Jerusalém; e Joabe feriu a Rabá e a destruiu.” (I Crônicas 20:1)

De acordo com os detalhes fornecidos no texto de Crônicas, vemos que é a mesma época do ano e a mesma guerra. A decisão de Davi antecede um outro pecado muito sério em I Crônicas 21:

“Então, Satanás se levantou contra Israel e incitou a Davi a levantar o censo de Israel. Disse Davi a Joabe e aos chefes do povo: Ide, levantai o censo de Israel, desde Berseba até Dã; e trazei-me a apuração para que eu saiba o seu número. Então, disse Joabe: Multiplique o SENHOR, teu Deus, a este povo cem vezes mais; porventura, ó rei, meu senhor, não são todos servos de meu senhor? Por que requer isso o meu senhor? Por que trazer, assim, culpa sobre Israel? Porém a palavra do rei prevaleceu contra Joabe; pelo que saiu Joabe e percorreu todo o Israel; então, voltou para Jerusalém. Deu Joabe a Davi o recenseamento do povo; havia em Israel um milhão e cem mil homens que puxavam da espada; e em Judá eram quatrocentos e setenta mil homens que puxavam da espada.” (I Crônicas 20:1-5)

Joabe insiste para que Davi não faça o recenseamento dos israelitas e, por intermédio do profeta Gade, Deus repreende Davi por tê-lo feito, dando-lhe a escolha de um entre três castigos. Este é um pecado muito grave, que traz sérias consequências para a nação de Israel. Apesar disso, Deus abençoa Israel, pois é no terreno onde Davi oferece o sacrifício a Deus que o templo será construído. O que estou dizendo é que a decisão de Davi, de ficar em Jerusalém, é o começo de grandes aflições, tanto para ele quanto para Israel. Por que será que é errado Davi ficar em casa, enquanto todos em Israel vão para a guerra com os amonitas? Primeiro, liderar a nação na guerra é uma das principais tarefas do rei:

“Porém o povo não atendeu à voz de Samuel e disse: Não! Mas teremos um rei sobre nós. Para que sejamos também como todas as nações; o nosso rei poderá governar-nos, sair adiante de nós e fazer as nossas guerras.” (I Samuel 8:19-20)

Os israelitas erraram ao exigir um rei, mas a expectativa de que ele os conduzisse nas guerras não era tão errada. Os juízes levantados por Deus tempos antes, normalmente eram homens como Baraque ou Gideão, que lideravam a nação contra seus inimigos. Quando Deus designou Saul como primeiro rei de Israel, esse papel militar foi claramente definido:

“Ora, o SENHOR, um dia antes de Saul chegar, o revelara a Samuel, dizendo: Amanhã a estas horas, te enviarei um homem da terra de Benjamim, o qual ungirás por príncipe sobre o meu povo de Israel, e ele livrará o meu povo das mãos dos filisteus; porque atentei para o meu povo, pois o seu clamor chegou a mim.” (I Samuel 9:15-16)

Saul muitas vezes deixou de perseguir os inimigos de Israel e, algumas vezes, foi Davi quem tomou seu lugar, liderando a nação nas batalhas. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando Davi lutou com Golias, uma luta que deveria ter sido travada por Saul, o gigante de Israel (ver I Samuel 9:2). Até agora, Davi tem liderado os homens nas batalhas mas, no capítulo 11, ele repentinamente retrocede, enviando outros em seu lugar. Em II Samuel 12:26-31, o autor deixa claro que talvez ele não tenha planejado participar da rendição formal de Rabá. Joabe manda um recado para ele, insistindo para que ele vá até lá e, pelo menos, dê a impressão de estar liderando o exército. Se ele não for, adverte Joabe, não receberá a glória, que poderá ser dele. Joabe sabe que Davi sabe que esta não é a maneira como deveria ser. E assim é que Davi faz uma aparição formal, para ser o líder “oficial” no momento rendição da cidade de Rabá.

Davi erra também em outro sentido, algo que ele nem teria percebido naquela época. Ele era um tipo do Messias que estava por vir como o rei de Deus. Quando o Messias voltar, será Ele que trará libertação ao Seu povo. Será Ele que subjugará Seus inimigos e estabelerá o Seu reino. Como Davi pode representar o Messias, ficando em casa e se recusando a batalhar com os inimigos de Deus e de Seu povo? O Messias virá (pela segunda vez) como um grande guerreiro. Se Davi deve retratá-lO, precisa também ser um grande guerreiro.

O que será que mantém Davi em casa, em Jerusalém? Por que ele não vai para a batalha? Receio que talvez haja diversas razões. A primeira é a sua arrogância. Deus tem estado com ele em todos os confrontos militares e tem lhe dado a vitória sobre todos os seus inimigos. Deus tem dado a ele um grande prestígio. Davi começa a acreditar em seus próprios recortes de jornal. Ele começa a se sentir invencível. Ele parece ter chegado ao ponto em que acredita que suas habilidades são tão grandes que ele pode conduzir Israel à vitória, mesmo não estando com seus homens.

Isso também parece coerente com o outro grande pecado de Davi, que ocorre após sua decisão de ficar em casa. Quando ele ordena que Joabe faça o recenseamento dos guerreiros israelitas, Joabe protesta. Essa é uma coisa que Davi não deveria fazer. Talvez porque Davi iria confiar mais no tamanho de seu exército do que em Deus. Seu exército, com certeza, é bem maior do que o de Gideão, reduzido a míseros 300 homens.

Uma segunda razão talvez seja o tédio. Uma coisa é travar batalhas em que o inimigo é rapidamente subjugado. O cerco de Rabá, entretanto, são outros quinhentos. A vitória não será tão rápida. Levará algum tempo até que os amonitas fiquem privados de suprimentos a ponto de se render. Este não é um tipo muito interessante de guerra, pois enquanto esperam, os soldados israelitas (incluindo Davi) terão de armar suas tendas fora da cidade, vivendo ao ar livre. Não será um piquenique e Davi sabe disso. A atitude dele parece refletir o slogan da maior rede de hambúrgueres do país: “Você merece uma pausa hoje.”

Uma terceira razão - e hesito em sugeri-la - é que Davi talvez esteja ficando meio mole. Vamos encarar os fatos: ele teve tempos difíceis quando fugia de Saul. Tenho certeza de que havia dias quentes e noites frias. Havia também dias em que a comida ou era racionada ou meio repulsiva, ou ambas. Comida de exército nunca foi conhecida como obra de arte culinária. Ora, Davi subiu na vida, do árido deserto, que se possível seria evitado por Saul e seus homens, às colinas de Jerusalém. Agora, suas acomodações também são melhores. Ele não vive mais em tendas (se é que naquela época ele tinha sorte o bastante para ter uma); ele vive num palácio. Por que ele iria querer ficar numa tenda, ao ar livre, nos arredores de Rabá, se podia ficar em sua própria cama, em seu próprio palácio, em Jerusalém?

Davi está começando a ficar parecido com Saul, no sentido de deixar que outros saiam e lutem por ele. Entre os que ele pretende enviar em seu lugar estão Joabe e Abisai. Joabe, devemos recordar, é um cara violento. Ele não se tornou comandante do exército de Israel por escolha de Davi. Davi havia se distanciado dele e de Abisai por causa da morte de Abner (II Samuel 3:26-30). Joabe se tornou comandante do exército porque foi o primeiro a aceitar o desafio de Davi para atacar Jebus (I Crônicas 11:4-6). Subitamente, Davi quer ficar em casa e deixa toda a força armada de Israel sob o comando de Joabe. Creio que sua motivação seja muito mais o descaso pela dificuldade da campanha contra Rabá do que a confiança em Joabe.

Da mesma forma que meu tio, a quem já me referi, Davi está no lugar errado, na hora errada. Ele está em Jerusalém quando deveria estar em Rabá. Diferentemente do meu tio, no entanto, ele está no lugar errado e na hora errado por decisão própria. Davi é como o simplório de Provérbios 7, que estava tola e deliberadamente no lugar errado, na hora errada. Alguma coisa tinha que sair errada, e saiu!

Davi Fica Na Cama
(11:2-4)

Enquanto leio estes versos de II Samuel, lembro-me daquele filme de Alfred Hitchcock, “Janela Indiscreta”. Se não me falha a memória, o suspense, estrelado por James Stewart e Grace Kelly, conta a história de um fotógrafo confinado em seu apartamento que se recupera de uma perna quebrada. De sua “janela indiscreta”, James Stewart observa os vizinhos através de suas janelas. Acidentalmente, ele descobre um assassinato e é quase morto por isso, junto com sua namorada.

O rei Davi comete o erro de permanecer em Jerusalém em vez de ir com seu exército lutar contra os amonitas. Ele não fica em casa para meditar na lei de Moisés ou escrever um ou dois salmos; ao que parece, ele fica em casa para ficar na cama. Sabemos que Urias ia se deitar à tardezinha (isto é, ao anoitecer) e é muito provável que se levantasse à primeira luz do dia (ver 11:13). Com Davi, é bem diferente. Ele só se levanta à tarde, ou seja, no horário em que um soldado ia se deitar (Como diz um amigo meu, este é provavelmente um hábito adquirido ao longo do tempo, não um caso isolado). É bastante improvável que Davi esteja fazendo algum “serviço real” às altas horas da noite. Ao que tudo indica, ele está simplesmente sendo ingulgente consigo mesmo.

Por fim, Davi não consegue mais ficar na cama. Levantando-se, ele vai dar um passeio pelo terraço do palácio. Seu palácio, com certeza, era construído na parte mais elevada do terreno, a fim de que ele tivesse ampla visão da cidade e seus arredores. Praticamente todas as outras residências e construções deveriam ser mais baixas que sua cobertura e, por isso, ele poderia ver coisas que outras pessoas não poderiam (Após esta mensagem, um amigo comentou que soube por um motorista de caminhão que, da cabine de uma carreta de 18 rodas, a gente vê muita coisa que não pode ser vista por quem está de carro.)

Não estou sugerindo que Davi tivesse intenção de ver algo que não deveria. É mais provável que ele estivesse dando uma volta, meio distraído, quando subitamente alguma coisa chamou sua atenção para uma mulher que se banhava. Na verdade, o texto não diz onde ela se banhava. Sabemos apenas que ela estava dentro do campo de visão do terraço do apartamento de Davi (cobertura). Ele repara em sua beleza. Ele não sabe quem ela é ou se é casada. Não podemos dizer com certeza o quanto ele vê; por isso, não é possível determinar se ele pecou ou não. Se ele viu mais do que deveria (fato ainda em questão), certamente deveria ter desviado os olhos. Não era necessariamente um erro fazer perguntas discretas a respeito dela. Se ela não fosse casada e estivesse disponível, ele poderia tomá-la como esposa. Suas perguntas esclareceriam a questão.

Ele é informado sobre a identidade da mulher:

“e disseram: Porventura, não é esta Bate-Seba, filha de Eliã e mulher de Urias, o heteu?” (II Samuel 3b, ARC)

Davi recebe a resposta em forma de pergunta. Creio que ninguém realmente viu a mulher, só ele. A identificação dela, então, depende da descrição feita por ele - idade, aparência, local onde estava - e ninguém poderia saber com absoluta certeza se era ela ou não; com exceção dele, é claro, que a reconheceria.

A informação que ele recebe deve ser suficiente para por fim à questão. Se a mulher é casada, ele não tem nada que ir adiante. Não importa quão importante ele seja, ou quanto poder tenha, nada lhe dá o direito de tomar a esposa de outro homem. O padrão para o comportamento de Davi é a atitude de José (do Egito), que foi ardentemente perseguido pela esposa de seu senhor:

“Aconteceu, depois destas coisas, que a mulher de seu senhor pôs os olhos em José e lhe disse: Deita-te comigo. Ele, porém, recusou e disse à mulher do seu senhor: Tem-me por mordomo o meu senhor e não sabe do que há em casa, pois tudo o que tem me passou ele às minhas mãos. Ele não é maior do que eu nesta casa e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porque és sua mulher; como, pois, cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus?” (Gênesis 39:7-9)

Os esclarecimentos dados a Davi sobre Bate-Seba lhe dão todas as informações de que ele precisa, e até mais, se ele tem intenção de fazer o que é certo. Ele sabe que ela é casada e, portanto, que está fora de cogitação. Ele sabe também que ela é casada com Urias, o heteu. Urias não é um marido sem nome, alguém de quem Davi nunca ouviu falar. Ele tem de saber quem é Urias, mesmo que não saiba quem é a esposa dele. Em II Samuel 23:39, “Urias, o heteu” está entre os valentes de Davi, conhecido por sua coragem e bravura como soldado. Se Davi não sabe disso, certamente algum de seus servos deve informá-lo.

Meu medo é que Davi tenha preferido ignorar o histórico militar de Urias e tenha se fixado nas origens raciais dele. Davi, clara e notadamente, se refere a ele como “Urias, o heteu”, enquanto o autor de Samuel o chama simplesmente de “Urias”. A expressão “Urias, o heteu” é pejorativa, creio, baseada somente no fato de que ele é heteu. Parece que Davi se esquece de que tem sangue moabita nas veias. Vamos rever rapidamente onde os heteus se encaixam no Antigo Testamento.

Logo no início, em Gênesis 15:18-21, Deus prometeu a Abrão (Abrahão) que seus descendentes herdariam a terra dos heteus (junto com a de outros povos; ver Êxodo 3:8, 17; 13:5; 23:23, 28, 32; 33:21; 34:11; Deuteronômio 7:1; Josué3 1:4; 3:10). Efrom, o homem de quem Abraão comprou a sepultura para sua família, era heteu (ver Gênesis 23:10, 25:9, etc). Esaú, irmão de Jacó, teve várias esposas filhas dos heteus (Gênesis 26:34-35; 36:2). Os israelitas receberam ordens de aniquilá-los (Deuteronômio 20:17). Os heteus se oposuseram à entrada de Israel na terra prometida (ver Números 13:29, Josué 9:1; 11:1-5) e sofreram algumas derrotas às suas mãos (Josué 24:11). Apesar disso, eles não foram totalmente expulsos da terra e passaram a viver entre os israelitas (Juízes 3:5). Quando fugia de Saul, Davi recebeu a notícia de que o acampamento do rei estava nas proximidades. Ele pediu a dois homens que o acompanhassem até lá. Um deles, Abisai, apresentou-se como voluntário, o outro não. Esse outro homem era Aimeleque, o heteu (I Samuel 26:6).

É óbvio que Urias havia abandonado seu próprio povo e seus deuses para viver em Israel, casar-se com uma israelita e lutar no exército de Davi. Ele não é nenhum pagão, para ser morto. Ele é um prosélito. A despeito de tudo isso, acho que Davi o menospreza. Davi se acostumou a ter o melhor. Seu palácio é o mais luxuoso das redondezas. Seus móveis, sua comida, sua criadagem - tudo é do bom e do melhor. Agora, ele olha de sua cobertura e vê uma mulher que considera “fina”. Como é que uma mulher tão fina pode pertencer a um heteu? Ela é digna de um rei. E esse rei pretende tê-la.

Assim, Davi manda mensageiros para tomar Bate-Seba e trazê-la para ele. Quando ela chega, ele dorme com ela e, depois de purificada de sua impureza, ela volta para casa. Ponto. Se ela não tivesse ficado grávida, duvido que tivesse batido à porta de Davi outra vez. Ele não a quer como esposa. Nem mesmo como amante. Ele só quer uma noite de prazer, para depois devolvê-la para Urias.

A sequência dos acontecimentos, no que diz respeito a Davi, pode ser vista desta forma: 1) Davi fica em Jerusalém; 2) Davi fica na cama; 3) Davi vê Bate-Seba se banhando, enquanto está dando uma volta pelo terraço; 4) Davi faz perguntas a respeito dela; 5) Davi fica sabendo quem ela é e que é casada com um herói de guerra; 6) Davi manda buscá-la e trazê-la para ele; 7) Davi se deita com ela; 8) Bate-Seba volta para sua casa após purificar-se. Essa mesma sequência pode ser vista em outros textos, nenhum dos quais é digno de louvor. Siquém “viu, tomou e deitou-se com” Diná, a filha de Jacó, em Gênesis 34:2. Judá “viu, tomou e possuiu” uma mulher cananeia, que tomou por esposa em Gênesis 38:2-3. Acã “viu, cobiçou e tomou” os despojos de guerra proibidos em Josué 7:21. Sansão fez literalmente a mesma coisa em Juízes 14. Não nos esqueçamos também de que uma sequência parecida ocorreu no primeiro pecado, quando Eva “viu, desejou e pegou” o fruto proibido em Gênesis 3.

Será Que Bate-Seba Também Tem Culpa No Cartório?

Pelas palavras de nosso texto, fica claro que Davi pecou. Por suas ações subsequentes, é claro que ele pecou. Pelas palavras de Deus, por intermédio de Natã, é evidente que seu pecado é muito grave. O problema é que muitas pessoas querem ver o texto de maneira que Bate-Seba também tenha culpa, supondo que ela, de alguma forma, tenha seduzido Davi. Gostaria de prosseguir neste assunto, pois creio que não há nenhuma evidência que apoie esse raciocínio.

Quase sempre, a inferência é de que Bate-Seba não deveria ter se exposto da maneira como fez, e que foi a sua indiscrição que deu origem a todo problema. Alguns pensam que ela agiu deliberadamente (que sabia que Davi estava lá e veria...), enquanto outros são mais complacentes e acham que foi simplesmente falta de discernimento. Deixem-me mostrar algumas coisas em nosso texto. Antes de mais nada, quando Natã anuncia o julgamento divino por causa do pecado de Davi, Bate-Seba e Urias são retratados como vítimas, não como vilões. Quando Adão e Eva pecaram, Deus acusou individualmente Adão, Eva e a serpente, e cada um deles recebeu a sua justa maldição. Este não é o caso com Bate-Seba. Em lugar nenhum da Bíblia ela é acusada deste pecado. Talvez seja porque o autor prefira não se concentrar nela; mas, mesmo assim, a Lei exigiria claramente que a considerássemos inocente até prova em contrário.

O livro de Samuel deixa bem claro que as tragédias ocorridas na casa de Davi são consequências do pecado cometido por ele, como indicado por Natã (12:1-12). Portanto, quando Amnom violenta Tamar, a irmã de Absalão, é um caso típico de “feitiço que vira contra o feiticeiro”. Repare que Tamar é chamada, ou convocada, ao palácio por ordem de Davi e, em seguida, à cabeceira de Amnom. Não há o menor indício de que ela vá ser violentada, tudo é feito por Amnom. Será que isso não indica que o mesmo é verdade com relação a Bate-Seba, da qual este segundo incidente é uma espécie de reflexo?

Quando lemos sobre este incidente, lemos com uma visão ocidental. Vivemos numa época em que a mulher tem direito de dizer “não” a qualquer momento em um relacionamento amoroso. Se o homem se recusa a parar, isso é considerado violação dos direitos dela; é considerado estupro. Não era assim que funcionava para as mulheres do antigo Oriente Próximo. Ló podia oferecer suas filhas virgens aos ímpios de Sodoma, para proteger os estrangeiros hospedados em sua casa, sem que houvesse qualquer protesto por parte delas (Gênesis 19:7-8). Esperava-se que as donzelas obedecessem ao pai, que estava em posição de autoridade sobre elas. Mical foi dada a Davi como esposa, depois tomada de volta por Saul, que a deu a outro homem. Tempos depois, Davi tomou-a novamente (1 Samuel 25:44, 2 Samuel 3:13-16). Aparentemente, ela não disse nada em nenhuma dessas ocasiões.

Para abordar este assunto de uma perspectiva totalmente diferente, vamos pensar no livro de Ester. Quando o rei pediu que sua esposa, a rainha Vasti, fosse introduzida à sua presença (talvez para exibi-la de forma inadequada a seus convidados), ela se recusou. Ela foi destituída (ver Ester 1:1-22). Ela não perdeu a vida, mas, de qualquer forma, foi substituída. Em seguida, lemos mais adiante nesse mesmo livro que ninguém podia se aproximar do rei, a menos que fosse convocado. Se alguém se aproximasse e o rei não levantasse seu cetro, a pessoa seria condenada à morte (Ester 4:10-11). Será que isso não retrata a maneira de agir dos reis do Oriente? Será que isso não explica por que Bate-Seba foi ao palácio do rei quando convocada? Será que isso ajuda a explicar a razão pela qual ela cedeu aos atos lascivos do rei? (Não sabemos que tipo de protesto - como Tamar no capítulo 13 - ela pode ter feito, mas temos alguma noção da impotência de uma mulher naqueles dias, principalmente quando recebia ordens do rei.

Assim, depois de termos uma visão mais abrangente da questão, vamos nos concentrar em alguns detalhes. O texto nos informa que Davi vê a mulher se banhando e constata que ela é muito bonita. Alguns pensam que Davi viu Bate-Seba despida enquanto se banhava em público, e que a visão de seu corpo (despido/parcialmente) fez com que ele agisse como agiu. Em Gênesis 24:16, encontramos praticamente as mesmas palavras de nosso texto (“mui formosa de aparência”) a respeito de Rebeca, quando ela foi à fonte com o cântaro no ombro. Ela não estava nua, nem parcialmente despida. Encontramos ainda outras descrições semelhantes (embora não idênticas), onde não há nenhuma indicação de exposição da mulher (ver 12:11; 26:7; 29:17, Ester 1:1). Creio que uma das razões pela qual Davi chama Bate-Seba ao palácio é porque ele não viu tudo o que queria.

Vamos prosseguir um pouco mais com este assunto. Bate-Seba está se banhando. Presumimos que isso signifique que ela esteja despida, pelo menos parcialmente. Creio que ela está se banhando em algum lugar geralmente usado para isso. Só Davi, com a vantagem de estar em sua cobertura, seria capaz de vê-la, e a muitas outras pessoas também, se ele quisesse. Os pobres não têm os mesmos privilégios de privacidade que os ricos. Já vi muita gente se banhando nas calçadas da Índia, porque ali é a casa delas. O termo empregado aqui para banhar-se muitas vezes é usado para descrever o ato de lavar as mãos ou os pés de um convidado, ou as lavagens ceremoniais dos sacerdotes. Abigail usou este termo quando falou em lavar os pés dos servos de Davi (I Samuel 25:41). Tais lavagens poderiam ser feitas, com decência, sem que houvesse total privacidade. Seria presumir demais pensar que Bate-Seba fica andando despida, à vista de todos.

Aliás, o lugar onde Bate-Seba está se banhando é Jerusalém, onde todos os homens em idade de combate tinham ido para a guerra. Lembrem-se das palavras do verso 1:

“Decorrido um ano, no tempo em que os reis costumam sair para a guerra, enviou Davi a Joabe, e seus servos, com ele, e a todo o Israel, que destruíram os filhos de Amom e sitiaram Rabá; porém Davi ficou em Jerusalém.” (ênfase minha)

Não é que ela esteja agindo de maneira inconveniente, sabendo que há homens por perto. Ela tem todo o direito de achar que não há. Davi está por ali, mas não deveria estar. Além do mais, ela não está se banhando ao meio-dia, está se banhando ao anoitecer. Esse era o horário prescrito na lei (para as lavagens cerimoniais): quando o sol estava se pondo. Em outras palavras, está quase escuro quando ela começa a tomar banho. Davi tem de se esforçar para ver alguma coisa. Acho que ela faz o possível para se resguardar, mas o lugar onde o rei está é muito alto, e ele está olhando diretamente para ela. O que estou dizendo é que Davi é muito mais curioso do que Bate-Seba é exibicionista. Creio que o texto dá suporte à minha conclusão.

Conclusão

Se estou certo naquilo que digo, o pecado de Davi se torna ainda mais vil. Em alguns casos, a mulher pode, propositada ou involuntariamente, encorajar o assédio. Neste caso, não há o menor indício de que isso tenha ocorrido. Na verdade, se estou lendo a história direito, a “visão” que Davi tem de Bate-Seba é devido a ela estar cumprindo a lei, enquanto ele está faltando com seus deveres de rei.

Esta passagem, embora tenhamos percorrido apenas os quatro primeiros versículos do texto, tem muito a nos ensinar. Deixem-me tentar resumir algumas de suas lições.

Primeiro, a raiz do pecado de Davi não é sua baixa auto-estima, é sua arrogância. Estou cansado de ouvir que a raiz de todos os males é a baixa auto-estima. Fico me perguntando por que não vemos nada disso na Bíblia. O problema de Davi é justamente o oposto. Ele ficou arrogante e cheio de si por causa de seu sucesso e status como rei de Israel. Ele chega a se considerar diferente/melhor do que os demais israelitas. Eles precisam ir para a guerra, ele não. Eles precisam dormir ao ar livre, ele precisa descansar em sua própria cama, em seu palácio. Eles podem ter uma esposa, ele pode ter a mulher que quiser.

Segundo, a natureza do pecado de Davi é o abuso do poder. Dizem que o poder corrompe, e poder irrestrito, corrompe irrestritamente. Davi chegou ao poder. Nos capítulos anteriores, ele usou o poder que lhe foi dado por Deus para derrotar os inimigos do Senhor e de Israel. Ele usou seu poder como rei de Israel para cumprir a aliança feita com Jônatas, e a promessa a Saul, para restaurar os bens de família a Mefibosete e torná-lo como um filho à sua mesa. Agora, embriagado pelo poder, Davi o usa para ser indulgente consigo mesmo às custas dos outros. Quero que reparem na repetição da palavra “envia” ou “enviou” neste capítulo. Um rei como Davi pode enviar todos os homens para a guerra, enquanto ele mesmo fica em casa (verso 1). Um rei como Davi pode enviar alguém para fazer perguntas a respeito de Bate-Seba e depois enviar mensageiros para “tomá-la” e levá-la ao palácio (versos 3 e 4). Um rei como Davi pode “mandar” buscar Urias e “enviar” ordens para que Joabe o mate. Davi tem poder e, com certeza, sabe usá-lo; só que, agora, está usando esse poder em benefício próprio, às custas dos outros. Essa não é uma liderança servidora.

Violência e assédio sexual são duas das formas usadas pelas pessoas que abusam do poder. Os pais começam a pensar que os filhos são propriedade sua e que podem usá-los como quiserem, por isso, envolvem-nos em várias formas de abuso, muitas vezes de natureza sexual. Patrões se acostumam a estar no controle e dizer às pessoas o que devem fazer; e não é nenhuma surpresa saber que, às vezes, usam esse poder sobre seus empregados e subordinados para se satisfazer sexualmente. Este pecado não é muito diferente do pecado de Davi.

Vou insistir um pouco mais nessa questão. É claro que é errado Davi usar seu poder para ter relações sexuais com a esposa de outro homem. Entretanto, mesmo quando o sexo é permitido, não é certo abusar do poder. O marido não deve abusar de seu poder para ter relações sexuais com sua esposa. E a mulher não deve abusar de seu poder (dizendo “não”, por exemplo) para punir ou desestimular o marido. Dentro do casamento, sexo é simplesmente uma outra área onde servir ao companheiro. Não é uma oportunidade de assenhorar-se do parceiro.

Terceiro, a prosperidade é muito perigosa; às vezes, mais perigosa do que a pobreza e a adversidade. Todo mundo se fatiga com as adversidades da vida. Todo mundo anseia pelo momento de poder relaxar, por os pés numa almofada e descansar um pouco. Todo mundo está cansado de se preocupar com as contas a pagar, sem ter dinheiro suficiente para passear. Davi certamente ansiava pelo tempo em que poderia parar de fugir de Saul e começar a governar como rei. No entanto, deixem-me salientar que, do ponto de vista espiritual, Davi nunca esteve melhor do que na época das adversidades e fraquezas. Por outro lado, ele nunca esteve pior do que na época da prosperidade e do poder. Quantos salmos acham que ele compôs de sua cama palaciana e de sua cobertura? Quantas vezes meditou na lei do Senhor enquanto esteve em Jerusalém e não no campo de batalha? Não precisamos ser masoquistas, querendo mais e mais sofrimento; contudo, devemos reconhecer que o sucesso, muitas vezes, é um teste bem maior do que a adversidade. Com frequência, quando parece que tudo vai bem, é que corremos maior perigo.

Quarto, o pecado é sequencial. Ele “acontece”, mas raramente “simplesmente acontece”. Ele não aparece do nada. Podemos ver sua sequência na carta de Tiago:

“Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte.” (Tiago 1:13-15)

O pecado de Davi não surge do nada, sem mais nem menos. Davi cava o próprio buraco. Sabemos que ele se desengajou da batalha, preferindo uma vida de conforto e tranqüilidade. Vocês e eu podemos fazer a mesma coisa, embora de modo ligeiramente diferente. Podemos esmorecer em seguir os passos de nosso Senhor, em ter uma vida disciplinada que nos faz manter o corpo sob controle (ver I Coríntios 9:24-27). Podemos nos cansar de carregar a nossa cruz e começar a considerar a nós mesmos como uma causa mais importante. Podemos nos retrair e nos isolar, cansados de sermos ridicularizados devido aos nossos princípios cristãos. Podemos silenciar em vez de dar testemunho de nossa fé, para não sermos rejeitados por nossos colegas. Podemos deixar de repreender um amigo cristão, que está caindo em pecado, porque da última vez que o fizemos as coisas ficaram muito confusas. Quando deixamos de lutar, a queda não está longe.

Os pecados deliberados muitas vezes são consequências do pecado da omissão. Davi pecou ao adulterar com Bate-Seba e, depois, ao assassinar o marido dela; no entanto, estes pecados tiveram origem na sua omissão, quando ele ficou em casa em vez de ir à guerra. O pecado da omissão nem sempre é fácil de ser detectado em nós ou nos outros, mas ele está lá. E, depois de um tempo, ele nos leva a cometer pecados mais notórios, como vemos em Davi.

Sei que dentre aqueles que estão lendo esta mensagem, alguns já caíram da mesma maneira que Davi. Já cometeram adultério. A vocês, eu digo: - Parem, agora! - Como teria sido melhor se Davi tivesse confessado seu pecado com Bate-Seba antes de cometer o assassinato de Urias! O pecado é como um câncer: quanto mais cedo se retira, melhor; quanto mais se adia, mais ele cresce. Se algum de vocês já caiu como Davi (ou de alguma outra forma), deixe o pecado, confesse-o, busque o perdão de Deus e siga em frente.

Talvez alguns ainda não tenham pecado como Davi, mas não estão longe disso. Talvez, como Davi, prefiram ficar em Jerusalém, prefiram ficar na cama. Vocês ainda não caíram na armadilha, mas estão quase lá. É só uma questão de tempo e de oportunidade. Minha pergunta para vocês não é se estão em pecado, mas se estão realmente comprometidos com Cristo, servindo-O enquanto servem aos outros, usando o poder (os dons espirituais) que Deus lhes deu em benefício dos outros. Aprendamos com a omissão de Davi em vez de aprender (na prática) com seus erros.

O apóstolo João coloca isso desta maneira:

“Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (I João 1:7-9)

“Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro.” (I João 2:1-2)

“Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei. Sabeis também que ele se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado. Todo aquele que permanece nele não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu. Filhinhos, não vos deixeis enganar por ninguém; aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo. Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo. Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus.” (I João 3:4-9)

Tradução: Mariza Regina de Souza