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6. Quando Deus Dá Um Banho De Água Fria No Entusiasmo De Davi (II Samuel 6:1:23)

Introdução

Recentemente, minha esposa e eu tivemos o privilégio de participar do casamento de nossa filha Jenny. À medida que a data do casamento se aproximava e as coisas ficavam mais agitadas, alguém deu um livro à minha esposa, sugerindo que lêssemos um determinado capítulo. Não me recordo do título do livro, só do capítulo, o qual foi escrito por um ministro que falava sobre a cerimônia de casamento mais memorável que já havia realizado.

A futura noiva era uma jovem cuja mãe, para dizer o mínimo, era neurótica. Ela queria que o casamento simplesmente fosse perfeito; por isso, organizou tudo sozinha. Ela planejou a cerimônia até o último detalhe e depois examinou e reexaminou tudo para ter certeza de que nada fora esquecido. Obviamente, tinha de haver uma orquestra. O vestido era de tirar o fôlego. A igreja era uma maravilha arquitetônica. As flores, a cerimônia, o bolo, as bebidas, tudo fora arranjado sob o olhar atento da mãe da noiva. A mulher, literalmente, atormentou todo mundo que tomou parte da organização do casamento. O ensaio foi impecável, garantindo à mãe que tudo estava sob controle — seu controle.

Assim, o dia fatídico chegou, e a dita cerimônia... com acontecimentos inesperados. Enquanto aguardava para entrar na igreja, a noiva, toda nervosa, esperava com o pai no salão de festas. Caminhando por entre as mesas, ela pegava uma noz aqui, um pouco de ponche ali (enriquecido com champagne), um petisco acolá... Quando chegou o momento de entrar na igreja ao lado do pai, ela já havia passado por todas as mesas e experimentado tudo o que havia, diversas vezes. Ela nem pensava no que estava fazendo, nem o pai. E, assim, começou a processional. Todos os padrinhos estavam em seus lugares. O noivo estava em frente ao púlpito, ao lado do ministro, esperando a noiva. As damas de honra graciosamente desfilaram pela nave e tomaram seus lugares. Agora, era o momento culminante da noiva.

Enquanto ela e o pai atravessavam a nave em direção ao púlpito, ninguém parecia notar o rosto vermelho dela, quase contrastando com a cor do vestido. Assim que chegou à frente, enquanto sua mãe assistia do assento à sua esquerda, toda a comida que ela havia ingerido resolveu sair... e ela vomitou. Não me refiro a uma ânsia discreta, mal percebida quando se leva o lenço à boca. Refiro-me a um jato completo de tudo o que estava dentro do seu estômago. A noiva esguichou em todos e em tudo que estava por perto na frente do púlpito. Sua mãe foi a primeira a ser batizada, seguida pelo noivo e pelas damas de honra mais próximas. Na mesma hora levantou-se um fedor insuportável. É óbvio que a reação em cadeia era iminente. A mãe da noiva ficou horrorizada. A noiva desmaiou, mas foi amparada gentilmente pelo noivo. O pai conseguiu evitar a linha de fogo e sair do caminho, com um leve sorriso no rosto, ligeiramente divertido com o humor — e a ironia — da situação.

Rapidamente o pastor anunciou um breve recesso. A noiva foi limpa, assim como a bagunça na frente do púlpito. Os que haviam sido esguichados por ela recuperaram um pouco da sua compostura e dignidade. Em pouco tempo o casamento recomeçou e a cerimônia foi realizada... sem a pompa e a formalidade que a mãe tinha planejado. Dez anos mais tarde, todos riam enquanto assistiam à repetição dos acontecimentos, gravados mais do que adequadamente pelas três câmeras de vídeo que a mãe tinha cuidadosamente disposto, cada uma capturando, de um ângulo ligeiramente diferente, os detalhes implacáveis da cena.

Algumas vezes, não importa o quanto planejemos e orquestremos os acontecimentos, as coisas simplesmente saem erradas. Foi isso o que aconteceu com o rei Davi. Depois de capturar Jebus, ele resolveu em seu coração reaver a arca da aliança (aqui chamada de a “arca de Deus”), a qual era guardada pessoalmente na casa de Abinadabe, em Quiriate-Jearim. Davi consultou cuidadosamente os líderes da nação, a fim de que essa fosse uma decisão tomada por todos:

“Consultou Davi os capitães de mil, e os de cem, e todos os príncipes; e disse a toda a congregação de Israel: Se bem vos parece, e se vem isso do SENHOR, nosso Deus, enviemos depressa mensageiros a todos os nossos outros irmãos em todas as terras de Israel, e aos sacerdotes, e aos levitas com eles nas cidades e nos seus arredores, para que se reúnam conosco; tornemos a trazer para nós a arca do nosso Deus; porque nos dias de Saul não nos valemos dela. Então, toda a congregação concordou em que assim se fizesse; porque isso pareceu justo aos olhos de todo o povo. Reuniu, pois, Davi a todo o Israel, desde Sior do Egito até à entrada de Hamate, para trazer a arca de Deus de Quiriate-Jearim.” (I Crônicas 13:1-5)

Tal como na história do casamento, todos os detalhes para levar a arca para Jerusalém foram cuidadosamente pensados e todas as providências necessárias foram tomadas. Um carro novo foi adquirido para o transporte de pouco mais de 11 km da região sudeste para Jerusalém. A viagem envolvia algumas mudanças de terreno, uma vez que Quiriate-Jearim ficava nas montanhas, da mesma forma que Jerusalém, mas entre elas havia áreas mais baixas, o que significava algumas manobras morro acima e morro abaixo. Havia grande regozijo enquanto Davi e os israelitas levavam a arca. Ele e todos os que estavam com ele celebravam com todas as suas forças (I Crônicas 13:8; compare com II Samuel 6:5). Cantores com toda sorte de instrumentos musicais participavam da celebração e, pelo contexto, podemos inferir também que dançavam com entusiasmo.

De repente, algo saiu errado e um dos bois quase virou o carro. Não está escrito exatamente o que aconteceu. Talvez os bois tenham tropeçado, ou talvez tenham se assustado com o gesto entusiástico de alguém que porventura tenha chegado perto demais. De alguma forma, os bois perderam o controle por alguns momentos, o que abalou o carro, fazendo com que a arca fosse sacudida de forma a parecer que iria cair para fora. O pensamento da arca se espatifando no chão foi demais para Uzá, que caminhava ao lado do carro, perto da arca. Instintivamente ele estendeu a mão e segurou-a para não deixá-la cair. Quando ele o fez, Deus o feriu de morte. A celebração parou bruscamente. A alegria se transformou em espanto e perplexidade. A alegria de Davi se transformou em raiva, pois Deus havia dado “um banho de água fria em seu entusiasmo”. Tudo havia sido feito para honrar a Deus. Será que Ele não entendia? Por que Ele feriria de morte alguém que durante anos ajudara a cuidar da arca? Por que Ele arruinaria uma ocasião tão maravilhosa?

Davi queria a arca de Deus lá em Jerusalém, junto com ele. Agora que Uzá fora ferido de morte, Davi não queria continuar, receoso de levar a arca para perto dele. Ele decidiu, então, que seria melhor mantê-la a uma distância segura, pelo menos até que pudesse descobrir o que havia saído errado. Qual teria sido o problema? O que saiu errado? E qual seria a solução? Na verdade, o texto não nos diz. É quase como um enigma que devemos resolver sozinhos. A resposta está na Bíblia, como veremos, assim como sua aplicação para a nossa vida, tal como foi para a vida dos que viveram naquela época. Há ainda outra dimensão desta história que não mencionamos, que é a história de Mical, que também “deu um banho de água fria em Davi”. Disso também temos lições a aprender. Estejamos atentos, portanto, e aprendamos aquilo que o Espírito Santo tem para nos ensinar neste texto.

Deus Dá Um Banho De Água Fria No Entusiasmo De Davi
(6:1-11)

Tornou Davi a ajuntar todos os escolhidos de Israel, em número de trinta mil. Dispôs-se e, com todo o povo que tinha consigo, partiu para Baalá de Judá, para levarem de lá para cima a arca de Deus, sobre a qual se invoca o Nome, o nome do SENHOR dos Exércitos, que se assenta acima dos querubins. Puseram a arca de Deus num carro novo e a levaram da casa de Abinadabe, que estava no outeiro; e Uzá e Aiô, filhos de Abinadabe, guiavam o carro novo. Levaram-no com a arca de Deus, da casa de Abinadabe, que estava no outeiro; e Aiô ia adiante da arca. Davi e toda a casa de Israel alegravam-se perante o SENHOR, com toda sorte de instrumentos de pau de faia, com harpas, com saltérios, com tamboris, com pandeiros e com címbalos. Quando chegaram à eira de Nacom, estendeu Uzá a mão à arca de Deus e a segurou, porque os bois tropeçaram. Então, a ira do SENHOR se acendeu contra Uzá, e Deus o feriu ali por esta irreverência; e morreu ali junto à arca de Deus. Desgostou-se Davi, porque o SENHOR irrompera contra Uzá; e chamou aquele lugar Perez-Uzá, até ao dia de hoje. Temeu Davi ao SENHOR, naquele dia, e disse: Como virá a mim a arca do SENHOR? Não quis Davi retirar para junto de si a arca do SENHOR, para a Cidade de Davi; mas a fez levar à casa de Obede-Edom, o geteu. Ficou a arca do SENHOR em casa de Obede-Edom, o geteu, três meses; e o SENHOR o abençoou e a toda a sua casa.”

Descobrimos o que saiu errado aqui voltando na história de Israel, no tempo em que Deus lhes deu a lei, quando lhes deu também instruções a respeito da construção e transporte da arca. Estas são as palavras que Deus disse a Moisés a respeito do tabernáculo e da arca da aliança.

“E me farão um santuário, para que eu possa habitar no meio deles. Segundo tudo o que eu te mostrar para modelo do tabernáculo e para modelo de todos os seus móveis, assim mesmo o fareis. Também farão uma arca de madeira de acácia; de dois côvados e meio será o seu comprimento, de um côvado e meio, a largura, e de um côvado e meio, a altura. De ouro puro a cobrirás; por dentro e por fora a cobrirás e farás sobre ela uma bordadura de ouro ao redor. Fundirás para ela quatro argolas de ouro e as porás nos quatro cantos da arca: duas argolas num lado dela e duas argolas noutro lado. Farás também varais de madeira de acácia e os cobrirás de ouro; meterás os varais nas argolas aos lados da arca, para se levar por meio deles a arca. Os varais ficarão nas argolas da arca e não se tirarão dela. E porás na arca o Testemunho, que eu te darei. Farás também um propiciatório de ouro puro; de dois côvados e meio será o seu comprimento, e a largura, de um côvado e meio. Farás dois querubins de ouro; de ouro batido os farás, nas duas extremidades do propiciatório; um querubim, na extremidade de uma parte, e o outro, na extremidade da outra parte; de uma só peça com o propiciatório fareis os querubins nas duas extremidades dele. Os querubins estenderão as asas por cima, cobrindo com elas o propiciatório; estarão eles de faces voltadas uma para a outra, olhando para o propiciatório. Porás o propiciatório em cima da arca; e dentro dela porás o Testemunho, que eu te darei. Ali, virei a ti e, de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins que estão sobre a arca do Testemunho, falarei contigo acerca de tudo o que eu te ordenar para os filhos de Israel.” (Êxodo 25:8-22)

Quando o tabernáculo foi levantando pela primeira vez, a presença do Senhor apareceu ali na tenda:

“Então, a nuvem cobriu a tenda da congregação, e a glória do SENHOR encheu o tabernáculo. Moisés não podia entrar na tenda da congregação, porque a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do SENHOR enchia o tabernáculo.” (Êxodo 40:34-35)

Deus deu instruções bem claras a respeito da arca. Ele não deu só instruções específicas quanto a sua construção, Ele também indicou quem poderia carregá-la e como ela deveria ser transportada de um lugar para outro. Em Números 5, Deus diz exatamente como o tabernáculo deve ser desmontado e levado até a próxima parada. Repare especialmente nas palavras do verso 15:

“Havendo, pois, Arão e seus filhos, ao partir o arraial, acabado de cobrir o santuário e todos os móveis dele, então, os filhos de Coate virão para levá-lo; mas, nas coisas santas, não tocarão, para que não morram; são estas as coisas da tenda da congregação que os filhos de Coate devem levar.” (Números 4:15; ver também 7:9)

Precisamos nos lembrar de que, de acordo com Êxodo 25:14-15, a arca possuía argolas em que deveriam ser colocadas varas, e essas varas eram a forma pela qual os coatitas deveriam transportar a arca.

A arca acompanhou os israelitas em todos os lugares onde estiveram no deserto. Ela foi adiante deles quando atravessaram o Jordão (Josué 3:14-17). Com frequência vemos menção dela em I e II Samuel. Samuel dormia perto dela quando criança (I Samuel 3:3). Quando os israelitas estavam sendo derrotados pelos filisteus, eles insensatamente a levaram para o campo de batalha como se ela fosse um amuleto mágico. Eles não só perderam a batalha, como também a arca (I Samuel 4). Os capítulos seguintes (5 e 6) de I Samuel são o relato de como Deus mandou uma praga sobre os filisteus, para que finalmente decidissem que não a queriam entre eles. O mais interessante foi o método escolhido por eles para devolver a arca para território israelita. Os sacerdotes e adivinhos filisteus deram aos líderes instruções a respeito de como a arca deveria ser removida. Repare nessas instruções e no que aconteceu:

“Agora, pois, fazei um carro novo, tomai duas vacas com crias, sobre as quais não se pôs ainda jugo, e atai-as ao carro; seus bezerros, levá-los-eis para casa. Então, tomai a arca do SENHOR, e ponde-a sobre o carro, e metei num cofre, ao seu lado, as figuras de ouro que lhe haveis de entregar como oferta pela culpa; e deixai-a ir. Reparai: se subir pelo caminho rumo do seu território a Bete-Semes, foi ele que nos fez este grande mal; e, se não, saberemos que não foi a sua mão que nos feriu; foi casual o que nos sucedeu. Assim fizeram aqueles homens, e tomaram duas vacas com crias, e as ataram ao carro, e os seus bezerros encerraram em casa. Puseram a arca do SENHOR sobre o carro, como também o cofre com os ratos de ouro e com as imitações dos tumores. As vacas se encaminharam diretamente para Bete-Semes e, andando e berrando, seguiam sempre por esse mesmo caminho, sem se desviarem nem para a direita nem para a esquerda; os príncipes dos filisteus foram atrás delas, até ao território de Bete-Semes.” (I Samuel 6:7-12)

Não é de se estranhar que os filisteus tenham escolhido transportar a arca num carro novo conduzido por duas vacas. Primeiro, eles não tinham conhecimento da lei, por isso, certamente não sabiam o que Deus tinha dito sobre como a arca deveria ser transportada. Além disso, onde eles arranjariam coatitas para carregá-la? O mais importante para eles era que esse método de transporte seria uma espécie de teste, a fim de que pudessem determinar se todas as pragas tinham sido realmente enviadas pela mão de Deus ou se simplesmente era “má sorte”. O fato de duas vacas deixarem seus bezerros, sem ninguém conduzindo o carro, e entrarem em território israelita, era difícil demais para ser coincidência. Isso era coisa da mão de Deus.

O problema agora é que os israelitas imitaram os filisteus em vez de obedecer a Deus. Creio que as instruções dadas por Deus em Sua lei foram simplesmente esquecidas, não deliberadamente ignoradas ou desobedecidas. A arca ficou muitos anos sem ser transportada. Ela ficou fora de circulação, fora de uso, na casa de Abinadabe durante uns bons 20 anos, antes de ser usada novamente para qualquer coisa (ver I Samuel 7:2; 14:18-19). É fácil perceber porque ninguém deu importância particular às instruções dadas por Deus a Israel para o transporte no deserto.

Além de tudo, quem iria querer carregar a arca na mão, quando ela poderia simplesmente ser levada num carro de bois? Quando eu era jovem, bons anos atrás, meu pai decidiu mudar uma das construções que havia feito. O barracão, feito de troncos, era usado como uma espécie de garagem. Ele queria movê-lo uns trinta e poucos metros. Ele pretendia usar o que chamávamos de “puxador de tocos”, uma máquina pesada com um longo cabo preso a ela. Movendo-se uns 5 metros para frente e para trás, o cabo poderia avançar cerca de 3 cm. Isso funcionava muito bem com tocos. Lembro-me desse puxador suspenso por um cabo tão esticado que, literalmente, podia até cantar — uma coisa meio assustadora, devo dizer. Como eu era jovem e meio preguiçoso, estava ansioso para achar um meio mais rápido e mais fácil de mover aquele barracão, por isso, propus que enganchássemos uma corrente nele e o puxássemos com a picape. Eu dirigiria, é claro. Meu pai titubeou por alguns instantes, mas concordou em tentar. Enganchei a corrente na carroceria da picape e estava pronto para dar a partida quando ele caiu em si e mudou de ideia. Ele me disse para ir pegar o puxador de tocos, conforme tinha planejado. Pelo menos eu iria dirigir até o puxador. Entrei na picape e sai em disparada, esquecendo-me de desenganchar a corrente. Para horror do meu pai, quase coloquei o barracão abaixo.

Se eu vivesse na época de Davi, também iria querer usar um carro de bois, principalmente se eu fosse um dos escolhidos para levar a arca nos ombros. Fazia sentido. Era mais fácil. No entanto, não era isso o que Deus havia prescrito. E o método prescrito por Deus não era uma regra sem sentido. Era uma regra que tinha suas razões. O fato de tocar na arca ser uma coisa tão séria é revelado para nós no verso dois de nosso texto:

“Dispôs-se e, com todo o povo que tinha consigo, partiu para Baalá de Judá, para levarem de lá para cima a arca de Deus, sobre a qual se invoca o Nome, o nome do SENHOR dos Exércitos, que se assenta acima dos querubins.”

Em Êxodo 25, Deus disse a Moisés que Se encontraria com ele e lhe falaria de cima da arca, do meio dos querubins (25:22). Deus escolheu manifestar Sua presença no tabernáculo, especificamente de sobre a arca. Quando a glória de Deus encheu o tabernáculo pela primeira vez, nem mesmo Moisés pôde entrar nele (Êxodo 40:34-35). Homens pecaminosos não podem se aproximar de um Deus santo.

Não é de admirar que Uzá tenha sido ferido de morte por ter colocado as mãos na arca. A arca era santa. Não podia ser tocada. Qualquer um que a tocasse morreria. Usando varas, os homens poderiam transportá-la sem tocar nela. E esses homens, andando em passo uns com os outros, davam estabilidade à arca. Colocá-la num carro de bois deixou-a suscetível aos movimentos do carro, com menos estabilidade, e portanto, com maior probabilidade de cair para fora. O único jeito de impedir que isso acontecesse era segurando-a, como Uzá segurou, e morrendo, como Uzá morreu.

Davi e todos os envolvidos no transporte da arca erraram de diversas maneiras. Primeiro, eles perderam o temor e a reverência que deveriam ter pela santidade de Deus. Segundo, eles se esqueceram das instruções claras de Deus, estabelecidas na lei, para o transporte da arca. E terceiro, eles se esqueceram da dura lição aprendida por Israel num passado não tão distante. Quando a arca retornou dos filisteus, a negligência por parte de alguns israelitas custou-lhes a vida:

“Feriu o SENHOR os homens de Bete-Semes, porque olharam para dentro da arca do SENHOR, sim, feriu deles setenta homens; então, o povo chorou, porquanto o SENHOR fizera tão grande morticínio entre eles. Então, disseram os homens de Bete-Semes: Quem poderia estar perante o SENHOR, este Deus santo? E para quem subirá desde nós? Enviaram, pois, mensageiros aos habitantes de Quiriate-Jearim, dizendo: Os filisteus devolveram a arca do SENHOR; descei, pois, e fazei-a subir para vós outros.” (I Samuel 6:19-21)

Como é irônico ver os israelitas imitando os filisteus. A irreverência destes fez com que suas cidades fossem atacadas por pragas. Eles acabaram temendo ao Senhor, especialmente Sua arca, e procuraram mandá-la para outro lugar. Agora, quando a arca está de volta aos israelitas, eles são irreverentes e são castigados por Deus, a fim de que também queiram enviá-la para outra pessoa. A lição de I Samuel 6 já foi esquecida em II Samuel 6, e devo lembrar-lhes que no texto original esses dois livros eram apenas um. Uns poucos anos, ou poucos capítulos, e as lições aprendidas de um modo difícil foram rapidamente esquecidas. Por que será que achamos mais fácil reviver a história do que aprender com ela?

Em Casa Afinal!
(6:12-19)

“Então, avisaram a Davi, dizendo: O SENHOR abençoou a casa de Obede-Edom e tudo quanto tem, por amor da arca de Deus; foi, pois, Davi e, com alegria, fez subir a arca de Deus da casa de Obede-Edom, à Cidade de Davi. Sucedeu que, quando os que levavam a arca do SENHOR tinham dado seis passos, sacrificava ele bois e carneiros cevados. Davi dançava com todas as suas forças diante do SENHOR; e estava cingido de uma estola sacerdotal de linho. Assim, Davi, com todo o Israel, fez subir a arca do SENHOR, com júbilo e ao som de trombetas. Ao entrar a arca do SENHOR na Cidade de Davi, Mical, filha de Saul, estava olhando pela janela e, vendo ao rei Davi, que ia saltando e dançando diante do SENHOR, o desprezou no seu coração. Introduziram a arca do SENHOR e puseram-na no seu lugar, na tenda que lhe armara Davi; e este trouxe holocaustos e ofertas pacíficas perante o SENHOR. Tendo Davi trazido holocaustos e ofertas pacíficas, abençoou o povo em nome do SENHOR dos Exércitos. E repartiu a todo o povo e a toda a multidão de Israel, tanto homens como mulheres, a cada um, um bolo de pão, um bom pedaço de carne e passas. Então, se retirou todo o povo, cada um para sua casa.”

Devia haver um ar de tristeza em Jerusalém enquanto a arca esteve na casa de Obede-Edom. Entretanto, foram grandes dias para ele e sua família. Não sabemos quais foram as bênçãos que receberam, mas sabemos que ele e sua família foram abençoados por Deus durante o tempo em que arca permaneceu em sua casa. O povo soube disso e a notícia chegou a Davi. Era um sinal de sorte. Será que Davi tinha concluído que a arca trazia algum tipo de maldição para quem estivesse perto dela? Se era isso, certamente ele não iria querer que ela ficasse com ele em Jerusalém. Foi por isso que ele quis mantê-la a uma distância segura na casa de Obede-Edom. No entanto, agora ficava claro que a arca era realmente uma fonte de bênçãos. O que teria saído errado para provocar a morte de Uzá? Como isso poderia ser corrigido, a fim de que a arca e suas bênçãos pudessem chegar a Jerusalém? Essas perguntas devem ter atormentado a cabeça de Davi, e dos outros israelitas também.

Creio que deveríamos saber a resposta, por isso o autor não nos dá maiores detalhes. O autor de Crônicas já não presume tanto da parte de seus leitores, pois diz claramente:

“Fez também Davi casas para si mesmo, na Cidade de Davi; e preparou um lugar para a arca de Deus e lhe armou uma tenda. Então, disse Davi: Ninguém pode levar a arca de Deus, senão os levitas; porque o SENHOR os elegeu, para levarem a arca de Deus e o servirem para sempre. Davi reuniu a todo o Israel em Jerusalém, para fazerem subir a arca do SENHOR ao seu lugar, que lhe tinha preparado. Reuniu Davi os filhos de Arão e os levitas: dos filhos de Coate: Uriel, o chefe, e seus irmãos, cento e vinte; dos filhos de Merari: Asaías, o chefe, e seus irmãos, duzentos e vinte; dos filhos de Gérson: Joel, o chefe, e seus irmãos, cento e trinta; dos filhos de Elisafã: Semaías, o chefe, e seus irmãos, duzentos; dos filhos de Hebrom: Eliel, o chefe, e seus irmãos, oitenta; dos filhos de Uziel: Aminadabe, o chefe, e seus irmãos, cento e doze. Chamou Davi os sacerdotes Zadoque e Abiatar e os levitas Uriel, Asaías, Joel, Semaías, Eliel e Aminadabe e lhes disse: Vós sois os cabeças das famílias dos levitas; santificai-vos, vós e vossos irmãos, para que façais subir a arca do SENHOR, Deus de Israel, ao lugar que lhe preparei. Pois, visto que não a levastes na primeira vez, o SENHOR, nosso Deus, irrompeu contra nós, porque, então, não o buscamos, segundo nos fora ordenado. Santificaram-se, pois, os sacerdotes e levitas, para fazerem subir a arca do SENHOR, Deus de Israel. Os filhos dos levitas trouxeram a arca de Deus aos ombros pelas varas que nela estavam, como Moisés tinha ordenado, segundo a palavra do SENHOR.” (I Crônicas 15:1-15)

Primeiro Davi ficou com raiva pela morte de Uzá, depois rapidamente sua raiva se transformou em temor. Seu temor era saudável e bem fundado, no entanto, Deus queria estar perto do Seu povo para abençoá-los. A única maneira disso acontecer era os homens se aproximarem Dele do jeito que Ele havia prescrito. A presença de Deus estava associada à arca. Os homens podiam se aproximar, mas não muito. Eles não podiam tocar na arca, para que não morressem. Isso significava que a única maneira de transportar a arca era como Deus havia dito, pelos coatitas, que deveriam carregá-la pelas varas colocadas nas argolas.

Agora Davi tinha certeza de que a proximidade da arca era uma bênção, mas também que ela deveria ser levada para Jerusalém de acordo com as instruções dadas por Deus. Por isso, ele reuniu os israelitas e comissionou os filhos de Coate para carregá-la, instruindo-os cuidadosamente quanto a maneira de desempenhar seus deveres. O autor nos informa que, depois que eles deram seis passos carregando a arca, foi oferecido um sacrifício. Esses passos, sem dúvida, foram os mais tensos de toda a jornada. Depois da morte de Uzá, os que ficavam mais perto da arca (os coatitas) com certeza ficaram bastante nervosos por estarem tão próximos do baú sagrado, ou seja, da presença do próprio Deus. À medida que a jornada prosseguia, a coragem e a alegria dos homens devia ir aumentado. Logo havia grande celebração enquanto caminhavam para a cidade santa.

O texto de II Samuel nos informa que houve grande celebração quando a arca foi levada para Jerusalém. O relato paralelo de I Crônicas é ainda mais detalhado. Não foi apenas um pequeno grupo de israelitas, “mas toda a casa de Israel” (II Samuel 6:15). Da primeira vez, naquela malfadada jornada, músicos acompanharam a arca (II Samuel 6:5). Na segunda, na jornada bem sucedida, havia uma verdadeira multidão deles (II Crônicas 15:16-24). Este foi um dos grandes momentos da história de Israel:

“Assim, todo o Israel fez subir com júbilo a arca da Aliança do SENHOR, ao som de clarins, de trombetas e de címbalos, fazendo ressoar alaúdes e harpas.” (I Crônicas 15:28)

Foi um momento de celebração, de oferecimento de sacrifícios e de banquetes:

“Introduziram a arca do SENHOR e puseram-na no seu lugar, na tenda que lhe armara Davi; e este trouxe holocaustos e ofertas pacíficas perante o SENHOR. Tendo Davi trazido holocaustos e ofertas pacíficas, abençoou o povo em nome do SENHOR dos Exércitos. E repartiu a todo o povo e a toda a multidão de Israel, tanto homens como mulheres, a cada um, um bolo de pão, um bom pedaço de carne e passas. Então, se retirou todo o povo, cada um para sua casa.” (II Samuel 6:17-19)

Uvas Azedas
(6:16, 20-23)

“Ao entrar a arca do SENHOR na Cidade de Davi, Mical, filha de Saul, estava olhando pela janela e, vendo ao rei Davi, que ia saltando e dançando diante do SENHOR, o desprezou no seu coração... Voltando Davi para abençoar a sua casa, Mical, filha de Saul, saiu a encontrar-se com ele e lhe disse: Que bela figura fez o rei de Israel, descobrindo-se, hoje, aos olhos das servas de seus servos, como, sem pejo, se descobre um vadio qualquer! Disse, porém, Davi a Mical: Perante o SENHOR, que me escolheu a mim antes do que a teu pai e a toda a sua casa, mandando-me que fosse chefe sobre o povo do SENHOR, sobre Israel, perante o SENHOR me tenho alegrado. Ainda mais desprezível me farei e me humilharei aos meus olhos; quanto às servas, de quem falaste, delas serei honrado. Mical, filha de Saul, não teve filhos, até ao dia da sua morte.”

Parece que havia apenas uma única pessoa em todo Israel que não queria, que não iria, participar do espírito alegre e comemorativo, e essa pessoa era Mical, esposa de Davi. O autor de Crônicas não dá muita importância ao fato, dedicando apenas um verso ao assunto e informando que, quando Mical olhou para Davi, ela o desprezou em seu coração pela figura que ele fez durante a celebração (I Crônicas 15:29). O autor de I e II Samuel tem um verso parecido (II Samuel 6:16), mas depois ele reforça o texto com a descrição do confronto que se seguiu entre Davi e Mical, informando também sua consequência.

Consideremos primeiro o que parece ser a visão de Mical de tudo o que estava acontecendo. Ela não fazia parte da festa; era apenas uma espectadora, não uma participante. Ela estava olhando da janela do palácio, observando a arca entrar na cidade (verso 16). Todo o restante da nação estava nas ruas. Na verdade, toda a nação estivera com a arca desde que ela deixara a casa de Obede-Edom. Mical não estava na caravana que acompanhou a arca. Parece que ela não queria estar lá. Mesmo que ela não estivesse particularmente entusiasmada com os acontecimentos, achamos que ela poderia, pelo menos, aparecer ao lado do marido, mas isso não aconteceu.

A festa, enfim, acabou, e Davi foi para casa para abençoar seus familiares. Mical não tinha nenhuma intenção de fazer parte disso, por isso, deu um “banho” no louvor e nas bênçãos de Davi. Ela devia estar na porta quando ele chegou, de cara feira e com as mãos na cintura. Antes mesmo que Davi pudesse abrir a boca, ela parece ter despejado toda a sua raiva sobre ele. O que será que ela viu, ou pensou ter visto, que a deixou tão zangada? De acordo com suas próprias palavras, ela viu um rei, um homem de posição e poder, agindo como um tolo. Ela viu um homem indecentemente vestido - não nu, permitam-me dizer, mas vestido de uma forma que estava muito aquém de sua posição - e ficou lívida de raiva. Davi agira como um tolo; ele envergonhou a si mesmo e, com certeza, a ela também.

Antes de passarmos para a visão de Davi da mesma situação, vamos primeiro dar uma olhada no que o autor nos diz. Como ele vê Davi neste texto? Será que sua avaliação da situação desculpa a atitude de Mical? Em primeiro lugar, devemos notar que o autor não sugere que Davi estava nu ou inadequadamente vestido. Ele diz que Davi dançava com todas as suas forças, e que vestia uma estola sacerdotal de linho (6:14). Também nos diz que quando Mical, esposa de Davi, viu isso, ela o desprezou em seu coração (6:16).

O autor de Crônicas nos dá mais detalhes sobre o que Davi fez:

“Foram Davi, e os anciãos de Israel, e os capitães de milhares, para fazerem subir, com alegria, a arca da Aliança do SENHOR, da casa de Obede-Edom. Tendo Deus ajudado os levitas que levavam a arca da Aliança do SENHOR, ofereceram em sacrifício sete novilhos e sete carneiros. Davi ia vestido de um manto de linho fino, como também todos os levitas que levavam a arca, e os cantores, e Quenanias, chefe dos que levavam a arca e dos cantores; Davi vestia também uma estola sacerdotal de linho. Assim, todo o Israel fez subir com júbilo a arca da Aliança do SENHOR, ao som de clarins, de trombetas e de címbalos, fazendo ressoar alaúdes e harpas.” (I Crônicas 15:25-28)

A primeira coisa que gostaria de ressaltar é que Davi não estava sozinho. Ele festejava junto com todo Israel. Se ele estava dançando, todos estavam, e todos incluía os principais líderes da nação. Davi estava alegre e exultante? Todos também estavam; bem, quase todos; exceto Mical, é claro. Davi vestia uma estola sacerdotal de linho? Era isso também o que Samuel costumava usar quando ministrava diante do Senhor (I Samuel 2:18). Era assim que os sacerdotes se vestiam (I Crônicas 15:27).

Mical não estava zangada por Davi ter feito algo errado, por ter se sobressaído ao resto do povo. Ela estava zangada por ele ter se comportado como o povo, como a plebe, e por ter se vestido como um reles sacerdote. Ela estava zangada por ele não ter agido como um rei que adorava a Deus. Ele tinha se humilhado. Tinha se diminuído. Tinha se rebaixado. E Mical não o perdoaria por isso. Se, da primeira vez, Deus havia dado um banho de água fria no entusiasmo de Davi com a morte de Uzá, agora Mical dá outro banho, desprezando-o e criticando-o por não agir como rei.

As palavras de Davi à sua esposa são duras e podem até parecer grosseiras, mas é porque refletem a maldade do coração de Mical. Um homem justo não poderia simplesmente aceitar a repreensão dela. Ele tinha muitas coisas a dizer para sua esposa:

1) A conduta dele, que Mical achou tão repulsiva, tinha sido diante do Senhor (6:21). As ações de Davi podem ter sido vistas por sua esposa, mas não foram para lisonjeá-la, foram para honrar ao Senhor. Ele não estava dançando para ela. Nem mesmo para a multidão. Ele estava dançando para o Senhor. A adoração dele não tinha a intenção de agradá-la. Isso me faz recordar das palavras do apóstolo Paulo:

“Porventura, procuro eu, agora, o favor dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo.” (Gálatas 12:10)

“Pois a nossa exortação não procede de engano, nem de impureza, nem se baseia em dolo; pelo contrário, visto que fomos aprovados por Deus, a ponto de nos confiar ele o evangelho, assim falamos, não para que agrademos a homens, e sim a Deus, que prova o nosso coração. A verdade é que nunca usamos de linguagem de bajulação, como sabeis, nem de intuitos gananciosos. Deus disto é testemunha. Também jamais andamos buscando glória de homens, nem de vós, nem de outros.” (I Tessalonicenses 2:3-6)

Receio que, atualmente, o culto a Deus tenha se transformado em um espetáculo; um espetáculo para o público, não para Deus. As palavras de Davi para sua esposa poderiam muito bem se aplicar a nós. O culto deve ser “diante de Deus”, realizado para o Seu prazer e para a Sua aprovação, não para o prazer e aprovação dos homens. Distante demais do que deveria ser, o culto de nossos dias talvez seja apenas para o agrado dos homens.

2) Davi não deixará de celebrar, principalmente porque aquele a quem ele quer agradar é também Aquele que o escolheu (6:21). Acho que Mical ficou zangada porque Davi estava celebrando, pois estava muito feliz. Ela era como muitos cristãos atuais que parecem dizer: “Tire esse sorriso do rosto. Você não sabe que está na igreja?” Davi estava celebrando porque tinha muito o que celebrar. Ele celebrava o seu reinado, e o seu reinado lhe fora dado por Deus. Como, então, isso poderia ser errado? Errado seria não se regozijar naquilo que dava prazer a Deus.

Fico me perguntando quanto tempo faz desde a última vez que fizemos algo com alegria, exultação e entusiasmo. Não há nenhuma virtude em ser carrancudo. Não há desculpas para ficar de cara fechada quando o próprio Deus Se regozija, quando Ele Se satisfaz. Deveríamos nos regozijar não só com aqueles (nossos semelhantes) que se regozijam (Romanos 12:15), mas também com aqueles em quem Deus Se regozija. Receio que sejamos mais parecidos com Mical do que com Davi, quando se trata de celebrar com júbilo ao nosso Deus e às Suas obras.

3) Terceiro, Davi relembra à sua esposa que ela está agindo como o pai dela, e que ele, seu marido, foi escolhido por Deus para reinar em lugar dele. Deus exaltou Davi sobre Saul, pai de Mical. Ele instituiu Davi em lugar de Saul. Ele rejeitou a casa de Saul e começou tudo de novo com Davi e sua casa. E eis Mical tomando o lugar de seu pai. Como ela podia ter tanto orgulho, orgulho do status de filha do rei (Saul)? Por que ela sentia tanto desprezo por Davi, mesmo sendo ele o escolhido de Deus para reinar em Israel? A razão era simplesmente porque ela era filha de seu pai. Será que a incomodava o fato de Davi ter conquistado o coração do povo e ter se negado a ficar longe daqueles a quem governava? Ao invés de ficar ao lado de Davi, como fez Jônatas, ela se colocou contra ele. E, nesse ponto, ela era exatamente como o pai dela. Contudo, que ela seja relembrada de que Deus rejeitou seu pai. E, por isso, Davi também a rejeita. Se Davi não teve mais relações íntimas com ela ou se Deus simplesmente fechou o seu ventre, o fato é que Mical morreu sem filhos. De acordo com o primeiro capítulo de I Samuel, sabemos que isso era fonte de grande tristeza, vergonha e dor. O julgamento de Deus estava sobre ela.

4) Quarto, Davi governava seu povo como um servo humilde, não como um tirano. Mical desprezou e criticou Davi por ele não ter agido como rei. A resposta de Davi parece ter sido que, uma vez que Deus o fez rei, ele seria o tipo de rei que Deus queria. Ele não seria um rei como Saul, pai de Mical, pois Deus o destituiu, rejeitando-o como rei. Deus levantou Davi para ser um rei diferente, um rei-servo. Se esse era o tipo de rei que Mical não gostava, que fosse; Davi seria o tipo que Deus o designou para ser. Ele se identificava com o povo em vez de se diferenciar dele. Mais ainda, ele vestiu-se e adorou a Deus “como sacerdote” (6:14-19, I Crônicas 15:25-27). Deus não chamara Israel para ser “reino de sacerdotes”? (Êxodo 19:6) Quando vestiu a estola sacerdotal, Davi exerceu uma forma legítima de sacerdócio.

Saul errou quando tomou o lugar de Samuel como profeta e sacerdote (I Samuel 13:8-9). Ele errou porque desobedeceu uma ordem explícita de Deus. Davi exerceu seu sacerdócio de maneira agradável a Deus. No entanto, na cabeça de Mical, essa posição humilde estava aquém da dignidade de um rei; e assim ela desprezou o marido porque ele se humilhou diante do povo.

Conclusão

Este texto está repleto de lições para nós. Primeiro, podemos aprender com Uzá. Não sabemos muita coisa a respeito dele. Também não temos certeza sobre o seu relacionamento com Deus. Não sabemos quais foram seus motivos para estender a mão e tocar na arca. De um modo geral, sou propenso a lhe dar o benefício da dúvida. Acho que ele estava realmente preocupado com a possibilidade da arca cair no chão, e tocar nela não lhe pareceu uma coisa tão séria, caso estivesse tentando salvá-la.

Sabemos que ele cresceu tendo a arca em sua casa (I Samuel 7:1-2; II Samuel 6:2-4). Será que ele estava acostumado demais às coisas sagradas? Com certeza, essa é uma possibilidade. O mesmo perigo existe para nós. Todas as semanas somos lembrados da obra expiatória de nosso Senhor na cruz do Calvário quando celebramos a Santa Ceia. Os santos de Corinto começaram a ver isso como um ritual, e sua conduta à mesa do Senhor não estava agradando a Deus. Paulo lhes disse que eles tinham deixado de “discernir o corpo” (I Cotíntios 11:29). Por isso, uma porção de irmãos estava ficando doente, e alguns até morreram (11:30). Vamos estar mais atentos à santidade de Deus e ser mais reverentes em nossa adoração. Deus leva muito a sério nossa insensibilidade para com a Sua santidade.

Ananias e Safira estavam mais preocupados com o que o povo pensava deles do que como Deus os via. Por isso, mentiram ao Espírito Santo, dizendo que haviam dado todo o dinheiro da venda de sua propriedade, em vez de somente uma parte (Atos 5:1-11). Deus é um Deus santo que chama Seu povo à santidade (ver I Pedro 1:14-16). Ele leva nosso pecado muito a sério. Quando Herodes não Lhe deu glória e aceitou ser glorificado pelo povo como um deus, Deus o feriu de morte (Atos 12:20-23). Desrespeito à santidade de Deus pode ser mortal.

Uzá é um lembrete para nós de que a santidade de Deus é tamanha que homens pecaminosos não podem se aproximar Dele a menos que Ele providencie um meio para isso. Depois da queda, Deus teve que expulsar Adão e Eva do jardim do Éden. Ele providenciou-lhes uma cobertura, mas essa foi só uma solução parcial. Quando Deus libertou Israel do cativeiro egípcio, Ele lhes deu Sua lei no monte Sinai. Sua glória e majestade foram reveladas aos israelitas:

“Ao amanhecer do terceiro dia, houve trovões, e relâmpagos, e uma espessa nuvem sobre o monte, e mui forte clangor de trombeta, de maneira que todo o povo que estava no arraial se estremeceu. E Moisés levou o povo fora do arraial ao encontro de Deus; e puseram-se ao pé do monte. Todo o monte Sinai fumegava, porque o SENHOR descera sobre ele em fogo; a sua fumaça subiu como fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia grandemente. E o clangor da trombeta ia aumentando cada vez mais; Moisés falava, e Deus lhe respondia no trovão. Descendo o SENHOR para o cimo do monte Sinai, chamou o SENHOR a Moisés para o cimo do monte. Moisés subiu,” (Êxodo 19:16-20)

Mais de uma vez, Deus estabeleceu limites além dos quais nem homem nem animal poderia passar. Ele fez Moisés advertir o povo a respeito do perigo de se aproximar demais Dele:

“Marcarás em redor limites ao povo, dizendo: Guardai-vos de subir ao monte, nem toqueis o seu limite; todo aquele que tocar o monte será morto. Mão nenhuma tocará neste, mas será apedrejado ou flechado; quer seja animal, quer seja homem, não viverá. Quando soar longamente a buzina, então, subirão ao monte.” (Êxodo 19:12-13)

“Descendo o SENHOR para o cimo do monte Sinai, chamou o SENHOR a Moisés para o cimo do monte. Moisés subiu, e o SENHOR disse a Moisés: Desce, adverte ao povo que não traspasse o limite até ao SENHOR para vê-lo, a fim de muitos deles não perecerem. Também os sacerdotes, que se chegam ao SENHOR, se hão de consagrar, para que o SENHOR não os fira. Então, disse Moisés ao SENHOR: O povo não poderá subir ao monte Sinai, porque tu nos advertiste, dizendo: Marca limites ao redor do monte e consagra-o. Replicou-lhe o SENHOR: Vai, desce; depois, subirás tu, e Arão contigo; os sacerdotes, porém, e o povo não traspassem o limite para subir ao SENHOR, para que não os fira. Desceu, pois, Moisés ao povo e lhe disse tudo isso.” (Êxodo 19:20-25)

Lembro-me das palavras que Moisés disse aos israelitas antes de entrarem na terra prometida:

“O SENHOR, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás, segundo tudo o que pediste ao SENHOR, teu Deus, em Horebe, quando reunido o povo: Não ouvirei mais a voz do SENHOR, meu Deus, nem mais verei este grande fogo, para que não morra. Então, o SENHOR me disse: Falaram bem aquilo que disseram. Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. De todo aquele que não ouvir as minhas palavras, que ele falar em meu nome, disso lhe pedirei contas.” (Deuteronômio 18:15-19)

Lá, no monte Sinai, os israelitas começaram a entender a santidade e a glória de Deus. Acertadamente eles perceberam que chegar perto demais de Deus seria fatal. Eles decidiram que precisavam de um mediador para interceder junto a Deus em favor deles. Eles pediram a Moisés para realizar esse papel e ele concordou, elogiando sua decisão. Eles não foram covardes (ou, pelo menos, não totalmente covardes), foram sábios. Pecadores precisam de um mediador para se aproximar de um Deus santo.

O tabernáculo, a arca, os sacerdotes e os sacrifícios foram uma solução temporária; havia ainda a necessidade de uma solução definitiva para o problema do homem pecador se aproximar de um Deus santo. E foi Deus quem resolveu esse problema, na pessoa de Jesus Cristo. Na Sua encarnação (Seu nascimento como uma criancinha em Belém), Deus assumiu a forma humana. Ele Se identificou com os homens pecadores para solucionar o problema eterno do nosso pecado, e o perigo de se aproximar Dele.

Devemos ter profunda reverência pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo em Sua encarnação (Seu nascimento, vindo à terra como o inculpável Deus-Homem). Com admiração, lemos as palavras do apóstolo João:

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (João 1:14)

“O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada), o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo.” (I João 1:1-3)

É por meio Dele que temos o perdão de Deus e a ousadia de entrar na Sua presença:

“Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual a si mesmo se deu em resgate por todos: testemunho que se deve prestar em tempos oportunos.” (I Timóteo 2:5-6)

“Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura. Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel.” (Hebreus 10:19-23)

O convite do evangelho do Novo Testamento é para que os pecadores se acheguem a Deus por intermédio do sangue derramado de Jesus Cristo:

“Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna.” (Hebreus 4:16)

“Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles.” (Hebreus 7:25)

“Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros. Purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo dobre, limpai o coração.” (Tiago 4:8)

A Bíblia nos adverte de que o Senhor Jesus Cristo chegará para julgar todos aqueles que se recusaram a se achegar a Ele pela fé:

“Chegar-me-ei a vós outros para juízo; serei testemunha veloz contra os feiticeiros, e contra os adúlteros, e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o salário do jornaleiro, e oprimem a viúva e o órfão, e torcem o direito do estrangeiro, e não me temem, diz o SENHOR dos Exércitos.” (Malaquias 3:5)

Você já se achegou a Deus pela fé em Jesus Cristo, o único meio dos homens entrarem em comunhão com Ele? Se ainda não, eu lhe digo para fazer isso neste exato momento. Deus nos deixará ir para o inferno do jeito que quisermos, mas se quisermos ir para o céu, deve ser do jeito que Ele mesmo providenciou - o sangue derramado de nosso Senhor Jesus Cristo.

Podemos aprender com Mical. Mical serve como uma espécie de tipo dos escribas e fariseus fanáticos da época de nosso Senhor. Da mesma forma que ela usufruía da posição de filha do rei, os escribas também usufruíam da posição privilegiada de líderes religiosos de Israel. Eles temiam perder seu poder e seu status. Eles desafiavam Jesus sobre Sua autoridade. Eles olhavam com desdém para o Senhor porque ele se associava com pessoas humildes. E, da mesma forma que Mical não produziu nenhum fruto (isto é, filhos), os escribas e fariseus também não. Aqueles que adoram a Deus, devem se achegar a Ele com humildade, não com orgulho. No que diz respeito à nossa história, Mical foi a única pessoa que não adorou a Deus com alegria. O que não é de admirar, uma vez que ela estava mais preocupada consigo mesma.

Podemos aprender com Davi também. Davi serve como um tipo de Cristo, não só em nosso texto, como em outros também. Ele foi rei e sacerdote (quando usou a estola sacerdotal de linho). Ele deixou de lado suas vestes reais e se humilhou, da mesma forma que nosso Senhor (Filipenses 2:5-8; ver também João 13:1 e ss). Davi não permitiu qualquer tipo de discriminação social durante a adoração. A verdadeira adoração não pode tolerar a divisão de classes sociais. O evangelho iguala todos os homens. Todos nós somos pecadores, condenados ao tormento eterno de Deus. E todos somos salvos independentemente de nossas obras, unicamente com base na obra expiatória de Cristo na cruz do Calvário. Como, então, Davi poderia fazer qualquer outra coisa, senão humilhar-se em adoração a Deus, mesmo que sua esposa o desprezasse por isso?

Finalmente, este capítulo tem muito a dizer sobre a controvérsia carismática tão predominante na igreja atual. Existem dois extremos, dois opostos, e estamos sempre predispostos a pender para um ou para outro lado (e, às vezes, para um, depois para o outro). O primeiro é a completa negligência. Davi e o restante do povo estavam tão obcecados com a adoração que parecem ter se esquecido de quem adoravam - um Deus santo. Podemos ficar tão arrebatados pelo elemento emocional da adoração que acabamos perdendo o autocontrole. No entusiasmo do momento, as coisas claramente proibidas por Deus nos parecem um tanto permissíveis, até mesmo necessárias (como segurar a arca). Uzá foi “arrebatado” pelo entusiasmo de levar a arca de volta, mas se esqueceu de dar atenção suficiente a Deus e a Sua Palavra. Uzá morreu por causa da sua irreverência. Jamais nos esqueçamos disso. O entusiasmo nunca deve ser desculpa para desobedecer a Palavra de Deus.

Para muitos de nós, o perigo que mencionei nem parece perigo. Corremos o risco de não nos deixarmos arrebatar em nossa adoração. Nossos cultos são tão formais, ou tão organizados, que nada inesperado poderia acontecer. Ouçam bem: não estou me opondo à organização, e há muito o que dizer para uma avaliação da majestade de Deus em nossa adoração. No entanto, alguns de nós não levantam as mãos ou erguem a voz simplesmente porque são orgulhosos demais para isso. Como Mical, estamos mais preocupados com nossa sobriedade do que com Deus. Vamos tomar cuidado para não deixar o entusiasmo de lado enquanto adoramos, por achar que isso está aquém de nós.

Os dois extremos são claros em nosso texto e ambos são errados. Adoração entusiástica, que subestima a santidade de Deus e viola Sua Palavra, é errada; e, não importa o quanto estejamos entusiasmados, ainda será errado se Deus não for visto da maneira correta e se não nos aproximarmos Dele do jeito certo. Adoração imponente, que deixa a emoção e o entusiasmo de lado, simplesmente porque somos orgulhosos demais para nos humilharmos diante de Deus, também é errada. Esta gera esterilidade; aquela, a morte. Vamos procurar adorar a Deus como Davi e Israel finalmente fizeram, de acordo com a Sua Palavra, com humildade, com o coração cheio de alegria e gratidão, e com entusiasmo.

Tradução: Mariza Regina de Souza

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