Where the world comes to study the Bible

A Unidade da Descrença

Introdução

Recentemente, posar para a câmera da Playboy custou o emprego a uma aeromoça de 26 anos. Conforme noticiado no Dallas Morning News112, a tragédia não foi o seu lançamento, mas as razões para sua decisão. Ela soube que precisava fazer uma cirurgia no pulmão e que o resultado poderia não ser bom. Então decidiu posar para que o mundo se lembrasse dela.

Admiro a honestidade desta jovem, mas fico preocupado com sua decisão. Ainda que a maioria das pessoas não seja tão sincera quanto a seus motivos, o mundo está repleto de pessoas que desejam desesperadamente ser lembradas. Todos nós somos propensos a erguer monumentos a nós mesmos de uma forma ou de outra.

Os homens precisam enfrentar aquilo que é conhecido como a “crise da meia-idade”. Atingimos esses anos quando começamos a perceber que a maior parte daquilo que pretendíamos fazer ainda não foi realizada. E não podemos mais negar o fato de que a melhor parte da vida já foi vivida. Muitas vezes, no meio desta crise, os homens começam, febrilmente, a erguer monumentos pelos quais serão lembrados.

É por isso que o relato da Torre de Babel, encontrado em Gênesis capítulo 11, é tão importante para nós. Ele revela a causa principal para erguer monumentos. Melhor ainda, ele nos dá a cura e nos ensina como enfrentar o futuro com paz no coração.

É grande a tentação de se referir a este incidente na planície de Sinear como “A Torre de Babel”. Ainda que tudo que saibamos sobre este incidente possa nos levar a enfocar a torre, ela não foi o mal principal, mas apenas um sintoma. Cassuto, em seu comentário sobre Gênesis, se recusou a intitular a seção da maneira tradicional, pois ele reconheceu o verdadeiro vilão.113 Uma vez que apreciamos o comentário de Cassuto, iremos ao centro da história, e sua aplicação para nós hoje.

Condições Anteriores à Confusão de Línguas
(11:1)

O verso um destaca uma particularidade da raça humana que, em si e de si mesma, não é ruim: “Ora, em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar.” (Gênesis 11:1). Presumimos que, desde que a raça humana veio de um ancestral comum, chamado Noé, todos os homens falassem uma linguagem comum.114 Moisés começou o relato da confusão de línguas chamando nossa atenção para este fato.

Ora, não há nada de errado com uma linguagem comum. Não é ruim, e nem é a causa do mal. A comunicação ficou muito melhor com ela. Facilitava a vida da comunidade e foi a base para a união. Potencialmente uma linguagem comum poderia ter atraído homens e mulheres para, juntos, adorarem e servirem a Deus. Praticamente, foi pervertida para promover a desobediência e a descrença. O homem pecaminoso nada pode fazer, exceto usar mal os dons dados pela graça de Deus.

Nossa atenção então é atraída para o fato de um conhecimento comum, não porque não saibamos disto, mas porque ele deu ocasião ao mal que se seguiu. Também foi aquilo que Deus mudou para prevenir o mal que os homens intentavam realizar.

A Intenção do Homem

O homem migrou para uma planície fértil na terra de Sinear e lá se assentou. “Sucedeu que, partindo eles do Oriente, deram com uma planície na terra de Sinear, e habitaram ali.” (Gênesis 11:2)

Parecia que a descendência de Noé tinha decidido negociar suas tendas por uma casa na cidade.115 “Engrandeça Deus a Jafé, e habite ele nas tendas de Sem; e Canaã lhe seja servo.” (Gênesis 9:27)

Leupold observa que a palavra “partiram” em Gênesis 11:2 significava, literalmente, “mudar de lugar”.116 Pouco antes em Gênesis a vida urbana não foi mostrada numa luz muito favorável. Caim edificou uma cidade e a chamou pelo nome de seu filho Enoque (Gênesis 4:17). Deus tinha dito que ele seria fugitivo e errante (4:12). Ninrode, descendente de Cam, também parecia ser um construtor de impérios (10:9-12). De fato, é possível que Ninrode fosse o líder do movimento para se estabelecerem em Sinear e edificarem esta cidade com sua torre.117

Estabelecer-se no vale de Sinear foi um ato de desobediência. Deus tinha ordenado aos homens para se espalharem pela terra e enchê-la, não para se ajuntarem em cidades:

“Abençoou Deus a Noé e a seus filhos e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra... Mas sede fecundos e multiplicai-vos; povoai a terra e multiplicai-vos nela.” (Gênesis 9:1, 7)

Nos versos 3 e 4 são reveladas as intenções do homem:

E disseram uns aos outros: Vinde, façamos tijolos e queimemo-los bem. Os tijolos serviram-lhes de pedra, e o betume, de argamassa. Disseram: vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue aos céus e tornemos célebres o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra. (Gênesis 11:3-4)

O verso 3 nos fala da intensidade das intenções do homem em edificar uma cidade e construir uma torre. Um judeu palestino, particularmente alguém que tivesse acabado de chegar do Egito, esperaria que qualquer projeto de construção empregasse pedra e cimento. Estes materiais não eram abundantes e então foi necessário substituí-los por piche e tijolos queimados.118

Estes homens não começaram a construir antes de calcular os custos. Eles anteviram os obstáculos e foram determinados em superá-los. A determinação da raça humana para construir a cidade a despeito das dificuldades nos mostra a intensidade deste esforço. Alguns vêem no verso 4 uma forte entonação religiosa, ainda que os homens estivessem tentando chegar a Deus por meio da construção de uma torre.

Disseram: vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue aos céus e tornemos célebres o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra. (Gênesis 11:4)

Não acho que tal afirmação possa ser consubstanciada. É difícil acreditar que Moisés tivesse deixado tal assunto para simples inferência. A expressão “chegue aos céus” não é tão espiritual quanto o é especial. Implica simplesmente em grande altura. Tal é sua conotação em outras passagens:

Para onde subiremos? Nossos irmãos fizeram com que se derretesse o nosso coração, dizendo: Maior e mais alto do que nós é este povo: as cidades são grandes e fortificadas até aos céus. Também vimos ali os filhos dos enaquins. (Deuteronômio 1:28, cf. 9:1; Salmo 107:26)

Não é dada grande ênfase à torre. Ela é considerada como parte da cidade. Enquanto tempos mais tarde as zigurates foram distintamente religiosas119, não há tal indicação em nosso texto. A finalidade para a construção da cidade e sua imponente torre é melhor explicada na afirmação: “e tornemos célebres o nosso nome” (verso 4).

Aqui a raiz das atividades dos homens parece ser arrogância, rebelião e orgulho.120

Como em muitos casos, não revelamos nossos verdadeiros motivos até a última hora. Acho que isso seja verdadeiro em nosso texto. A última afirmação do antigo povo de Babel é a chave para nossa passagem: “...para que não sejamos espalhados por toda a terra” (verso 4).

Estas pessoas não podiam conceber bênçãos e segurança como conseqüências da dispersão, mesmo que Deus tenha assim ordenado. Eles se sentiam mais seguros quando viviam próximos uns dos outros. Eles viam um futuro mais brilhante quando podiam deixar para a posteridade um monumento à sua engenhosidade e dedicação.121

Ainda que rebelião, orgulho e descrença sejam evidentes na história, o problema por trás disso é o medo. Richardson colocou o dedo na ferida quando escreveu:

O ódio ao anonimato leva o homem a valorosos feitos heróicos ou a longas horas de trabalho árduo; ou ele os incita a escândalos espetaculares ou à inescrupulosa autopromoção. Na pior das hipóteses tenta lhes dar a honra e a glória que pertencem somente ao nome de Deus.122

Estes homens antigos deviam conhecer os mandamentos de Deus e da Sua aliança. De outra forma por que teriam temido ser espalhados? Contudo, tudo o que tinham era uma promessa de Deus. Suas esperanças estavam em palavras abstratas, nada concreto, e assim eles colocaram sua fé em piche e tijolos.

Os versos seguintes registram a resposta de Deus à desobediência do homem:

Então, desceu o Senhor para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam; e o Senhor disse: Eis que o povo é um e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem do outro. Destarte, o Senhor os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade. (Gênesis 11:5-8)

Como Cassuto observa123, esta passagem é um exemplo da linguagem bíblica. As intenções do homem são refreadas pela intervenção divina.

Os versos 5 e 6 têm incomodado muitas pessoas porque podem parecer diminuir a soberania de Deus. Há a aparência de que Deus deixa que a situação fique quase fora de controle, antes mesmo que estivesse ciente dela. Parece como se algum dos anjos o tivesse informado sobre o incidente em Babel e Deus tivesse descido afobadamente para investigar o assunto. Qualquer concepção como essa carece do ponto de vista do escritor.

Estes versos são uma sátira bem adaptada da tolice das atividades do homem. Os homens começaram a construir uma cidade com uma grande torre que pensavam lhes daria renome. Moisés está sugerindo que os pensamentos e os esforços do homem, não importa quão imponentes sejam, são insignificantes para Deus. Ainda que o topo de uma torre possa parecer, do ponto de vista terrestre, penetrar as nuvens, para o Deus infinito e todo poderoso era apenas um ponto indistinto na terra. Era como se Deus tivesse que se inclinar para vê-lo.124 Se Deus tivesse que “descer” à terra para examinar esta cidade, seria devido à sua total insignificância, não devido à Sua inabilidade em preservar Sua criação.

Se o verso 5 descreve a investigação de Deus, o verso 6 nos informa sobre Sua avaliação da situação.

E o Senhor disse: Eis que o povo é um e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. (Gênesis 11:6)

O mal não reside no fato de todos os homens falarem a mesma linguagem. Isto apenas deu ocasião ao homem pecaminoso para se expressar mais facilmente. Todavia, realmente sugeriu os meios para reverter os planos do homem.

O término da cidade de maneira nenhuma ameaçaria a autoridade de Deus. Obviamente, violaria a ordem de Deus para o homem se dispersar e encher a terra. O verso 6 explica o impacto que o sucesso desse plano de construir a cidade teria nos homens. Os homens concluiriam que, desde que fossem capazes de construir esta cidade a despeito dos obstáculos, poderiam fazer qualquer coisa que tivessem em mente. Um pouco dessa mentalidade foi mostrado quando o homem pôs os pés na lua pela primeira vez. Lembro-me de que algo como isto foi dito: “Um pequeno passo para o homem, um passo gigantesco para a humanidade”. Quando a engenhosidade do homem foi empregada com sucesso para superar as diversas barreiras para alcançar a superfície da lua, o homem sentiu que nenhum problema estava além da solução humana.

Nos dias dos descendentes de Noé em Babel, os homens puseram sua confiança em tijolos e cimento e no trabalho de suas mãos. Em nossa época somos apenas um tanto mais sofisticados. Confiamos em transistores, circuitos integrados e tecnologia. Sentimos que, se pudemos colocar um homem na lua, nada pode nos afastar de solucionar qualquer problema.

É esta atitude arrogante de autoconfiança e independência de Deus que Ele sabia ser inevitável se os homens tivessem sucesso. Por causa disto, Deus propôs frustar os planos do homem: “Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem do outro.” (Gênesis 11:7)

O que vemos aqui não é tanto uma punição sendo aplicada quanto medidas preventivas sendo tomadas. O mecanismo da confusão de línguas pode apenas ser imaginado, mas o resultado é evidente. O projeto foi abruptamente interrompido, um monumento ao pecado do homem.

Condições Depois da Confusão de Línguas

Aquilo que o homem mais temia veio a acontecer.

“Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a terra e dali o Senhor os dispersou por toda a superfície dela.” (Gênesis 11:9)

A ironia dessa história é que aquilo que os homens mais desejavam os teria destruído, e aquilo que eles mais temiam provou ser uma parte de sua libertação.

Algumas vezes o nome Babel (Ba,,b-ili), em babilônico, tinha o significado de “o portão Deus”.125 Através de um jogo de palavras Deus mudou seu nome para “confusão” (Balal).126

Conclusão

Encontramos nesta breve narrativa alguns princípios que são essenciais aos verdadeiros crentes de qualquer época.

(1) Os planos do homem nunca frustrarão os propósitos de Deus. Deus ordenou à raça humana que “enchesse a terra” (Gênesis 9:1). Os homens preferiram se isolar ao invés de cumprir a ordem de Deus para se espalharem. A despeito dos maiores esforços do homem, os propósitos de Deus prevaleceram. Meu amigo, os homens de todas as épocas têm aprendido que a vontade de Deus não pode ser resistida. Você pode ser destruído, mas Deus não se desviará de Seus propósitos. Tal foi a conclusão a que Saulo chegou:

“E caindo todos em terra, ouvi uma voz que me falava em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura cousa é recalcitrares contra os aguilhões.” (Atos 26:14)

Um amigo meu costumava dizer “Essa parede está ficando mais macia ou é minha cabeça que está ficando cada vez mais ensangüentada?”

Homem nenhum pode frustrar a vontade de Deus. Uma vida vivida em resistência ao Senhor revelado de Deus só pode terminar em frustração e fracasso. Ninguém pode ter sucesso resistindo a Deus.

(2) A união não é a maior dádiva, mas a pureza e obediência à Palavra de Deus. Ecumenismo é a palavra de ordem da religião de nossos dias, mas é uma unidade às custas da verdade. Alguns consideram a unidade como alvo digno de qualquer sacrifício. Deus não. De fato, os antigos israelitas deviam logo aprender que os cananeus, diferentemente dos egípcios (cf. Gênesis 46:33-34), estavam ansiosos por se unir ao povo escolhido de Deus (cf. Gênesis 34: 8-10, Números 25:1 e ss). Paz e união não devem nunca ser conquistadas às custas da pureza. O povo de Deus deve ser santo, assim como Ele é santo (Levítico 11:44 e ss, I Pedro 1:16).

A união verdadeira só pode ocorrer em Cristo (João 17:21, cf. Efésios 2:4-22). Esta união deve ser diligentemente preservada (Efésios 4:3). Mas união em Cristo resulta em divisão daqueles que rejeitam a Cristo (Mateus 10:34-36). Devemos nos separar daqueles que negam a verdade (II João 7-11, Judas 3). Não pode haver união verdadeira com aqueles que negam ao nosso Deus.

(3) A falha na comunicação criada em Gênesis 11 só pode ser preenchida por Cristo. Os profetas do Velho Testamento reconheceram o efeito progressivo de Babel, e falaram do dia em que seria revertido:

“Então, darei lábios puros aos povos, para que todos invoquem o nome do Senhor e o sirvam de comum acordo. Dalém dos rios da Etiópia, os meus adoradores, que constituem a filha da minha dispersão, me trarão sacrifícios. Naquele dia, não te envergonharás de nenhuma de tuas obras, com que te rebelaste contra mim; então, tirarei do meio de ti os que exultam na sua soberba, e tu nunca mais te ensoberbecerás no meu santo monte.” (Sofonias 3:9-11)127

O fenômeno das línguas de Atos capítulo dois indica “os primeiros frutos” da renovação que ainda deverá ser completada.

Francamente estou profundamente preocupado com a ignorância dos cristãos de hoje no que diz respeito às falhas de comunicação que experimentamos em nossos relacionamentos. A quebra da comunicação tem suas raízes em Gênesis capítulo 11. Muitas esposas agonizam silenciosamente diante da maneira como seus maridos falham em compreender o que elas estão tentando lhes dizer, e diante de sua incapacidade de revelar seus sentimentos mais íntimos. Ainda que Cristo seja a resposta para esse dilema, a maioria de nós falha em compreender o fato de que este é o problema que ameaça os nossos relacionamentos.

(4) Inevitavelmente faltará o significado da vida aos relacionamentos superficiais e atividades artificiais. Alguém já disse que a definição para “casca” é “algumas migalhas de pão unidas pela massa”. O que é que mantém suas vidas unidas? Que tragédia que os antigos babilônios encontrassem sua segurança numa cidade e pusessem suas esperanças em betume e tijolos queimados.

O que me assusta ainda mais é que a igreja muitas vezes cai na mesma armadilha que o mundo. Procuramos criar programas para manter as pessoas ocupadas e lhes dar a falsa segurança de envolvimento e atividade. Ainda que os programas não sejam contrários à vida cristã, muitas vezes são substitutos de uma fé viva, força e devoção. Em muitas igrejas Deus poderia ter morrido há 50 anos atrás e ainda nem saberíamos.

Não posso, mas para ajudar a pensar no planejamento de construção de igrejas considerei a torre de Babel. Quantas vezes participamos do planejamento da construção achando que ele irá dar às pessoas um motivo para se animarem, e que um edifício adorável de alguma forma atrairá novos membros.

Que Deus nos ajude a evitar a artificialidade de Babel. É uma religião forjada, que não tem vida e nenhum valor final.

(5) A Palavra de Deus, e não as obras de nossas mãos, é a única coisa digna de nossa fé. Os homens de Babel começaram a considerar a obra como solução em vez de maldição. Eles acreditavam que a obra de suas mãos poderia lhes assegurar alguma espécie de imortalidade além-túmulo. Desconfio que aqui esteja a força motora por trás do viciado em trabalho. Ele (ou ela) não pode sequer descansar porque nunca tem certeza de que um monumento grande o bastante foi construído.

Não foi sobre isso que o salmista escreveu?

“Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem. Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão. Como flechas na mão do guerreiro, assim os filhos da mocidade. Feliz o homem que enche deles a sua aljava; não será envergonhado, quando pleitear com os inimigos à porta.” (Salmo 127:1-5)

Você reparou na referência do verso dois ao “pão que penosamente granjeastes”? Certamente é um reflexo da maldição de Gênesis capítulo três: “No suor do rosto comerás o teu pão...” (Gênesis 3:19a)

O salmista sabia que o trabalho nunca poderia dar ao homem o descanso e a paz pelos quais labutou, mas só o confiar naquilo que Deus providenciasse. A bênção viria através dos filhos que Deus lhe daria em descanso e intimidade (Salmo 127:3-5). Não é isso que as pessoas da Babilônia precisavam entender?

O esforço humano nunca é satisfatório, nunca é efetivo. Só o trabalho que é feito para o Senhor e na Sua força traz satisfação permanente.

A mulher diante do poço em João capítulo 4 buscava água para saciar sua sede. Jesus lhe ofereceu aquilo que a satisfaria para sempre:

“Afirmou-lhe Jesus: Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.” (João 4:13-14)

Esse “alimento”, que era mais do que simples comida, era fazer a vontade do Pai:

“Nesse ínterim, os discípulos lhe rogavam, dizendo: Mestre, come! Mas ele lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis. Diziam, então, os discípulos uns aos outros: Ter-lhe-ia, porventura, alguém trazido o que comer? Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra.” (João 4:31-34)

Você já encontrou a satisfação e o descanso que Deus dá em Jesus Cristo? Só ele pode satisfazer os desejos do homem.

Este “descanso” é aquele pelo qual Lameque, o pai de Noé, procurou na descendência de seu filho:

“Pôs-lhe o nome de Noé, dizendo: Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o Senhor amaldiçoou.” (Gênesis 5:29)

Agora Deus dá salvação aos homens na morte sacrificial de Jesus na cruz do Calvário. Ele assegura aos homens que, a tantos quantos Nele crerem - que confiam Nele para perdoar seus pecados e lhes dar a vida eterna - serão salvos. Isso é o suficiente. E esse é o único fundamento para a esperança além-túmulo.

(6) Muito daquilo que o homem faz na terra é um monumento à sua insegurança. Esta passagem me impressiona mais do que nunca pela intensa insegurança do homem. Muita vezes sinto que a fonte das ações pecaminosas do homem é a rebelião obstinada ou a constante agressão contra Deus. O homem realmente se rebela contra Deus, mas o motivo de grande parte de sua desobediência está em sua insegurança.

Por trás da fachada de ativismo, realizações, bravatas e autoconfiança está o espectro assustador de deixar esta vida sem nenhuma certeza daquilo que se segue. Essa, na minha opinião, é a verdadeira razão da construção da cidade de Babel e de sua torre. As pessoas daqueles dias estavam desejosas de fazer quase qualquer tipo de sacrifício para ter alguma esperança de imortalidade. Eles viram isto no renome que poderiam adquirir por si mesmos.

Você já parou para pensar no papel que a insegurança pode ter nas coisas a que você devota tempo e energia? Os cristãos que não compreendem a profundidade da graça de Deus e de Seu soberano controle são atormentados pela insegurança de supor que o trabalho de Deus e Sua vontade estão condicionados à sua fidelidade, ao invés da Dele. Nossa insegurança pode ser o motivo para muitos dos nossos serviços cristãos. Se pudéssemos fazer mais pelo Senhor nos sentiríamos mais seguros e certos de Suas bênçãos. Tal ativismo é só um pouco diferente daquele encontrado nos que viveram na planície de Sinear.

Nós, pregadores, também devemos aprender uma importante lição aqui. Queremos ver o resultado de nossos trabalhos. Podemos ficar inseguros naquilo que Deus nos chama a fazer. Por causa de nossa própria insegurança, podemos encorajar outros a trabalhar mais arduamente na atividade cristã, e podemos motivar esta atividade agindo sobre os motivos errados de culpa e insegurança. Estes motivos sempre são razões erradas para o serviço cristão. O serviço deve ser baseado na gratidão, não em culpa ou medo.

Como Paulo escreveu: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos...” (Romanos 12:1a).

Os problemas que discutimos são complexos, mas a solução é simples. Devemos fazer aquilo que os filhos de Noé deveriam ter feito, simplesmente confiar e obedecer. Este é o jeito de se ter bênção em Jesus.


112 “People”, The Dallas Morning News, p. 3a., April 23, 1980.

113 Sou grato a U. Cassuto, que colocou a torre de Babel na perspectiva correta, quando escreveu:

“A torre é apenas um detalhe no episódio - parte de uma cidade gigantesca que os homens procuraram construir para alcançar seu objetivo. Não é sem razão, então, que o final da história se refira somente à suspensão da construção da cidade, e não da torre (v. 8: e cessaram de edificar a cidade). Portanto, não coloco no cabeçalho desta narrativa o título usual “A Torre de Babel” ou “A Construção da Torre de Babel”; Uso ao invés dito a expressão costumeiramente empregada pela literatura judaica “A História da Geração da Divisão”, que enquadra melhor a intenção e o conteúdo do texto.” U. Cassuto, Comentário no Livro de Gênesis (Jerusalém: The Magnes Press, 1964), II, p. 226.

114 Literalmente, lê-se no texto “umas palavras”, i. e., as palavras eram comuns a todos, indicando que todos as compartilhavam, suportando a tradução “um vocabulário”. A sintaxe (linguagem) e o vocabulário eram simples e de entendimento totalmente compreensível por todos. A comunicação era rápida e as idéias e planos eram rapidamente propagados.” Harold G. Stigers, Comentário em Gênesis (Grand Rapids: Zondervan, 1976), p. 131.

115 Havia também um fator nômade natural, pois eles estavam sempre se mudando de um lugar para outro. As condições da vida agrícola sem dúvida precisavam de muita movimentação. Em suas jornadas por fim eles chegaram à terra de Sinear, a planície na qual a Babilônia foi mais tarde estabelecida (cap. 10:10). A fertilidade desta planície seria de especial valor, e não ficamos surpresos ao ler que “ali eles habitaram”. W. H. Griffith Thomas, Genesis: A Devotional Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 1946), I, p. 108.

116 H. C. Leupold, Exposition of Genesis (Grand Rapids: Baker Book House, 1942), I, p.384

117 “Outra vez, este evento, com toda a probabilidade, teve lugar na vida de Ninrode, o primeiro indivíduo de que se tem registro que aspirou ao domínio sobre as outras pessoas, e, conforme é expresso naquilo que foi dito a seu respeito: “o início de seu reino foi Babel”, nada mais natural do que se supor que ele tenha sido o líder deste ousado empreendimento, o qual pode muito bem ter sido um esquema seu para alcançar o governo do mundo.” (George Bush, Notes on Genesis (Minneapolis: James and ClockPublishing Co., 1976, Reprint), p. 183.

118 “Aqui Moisés introduz uma nota explicativa antes de nos deixar ouvir o restante do propósito daqueles homens, ao se estender sobre a natureza única dos materiais empregados - única por ser de pouca valia na Palestina rochosa com suas incontáveis pedras. Pois os construtores se propuseram a usar tijolos queimados em lugar de pedra e betume como argamassa. Muitas ruínas de construções semelhantes mostram o quão preciso foi o autor em sua afirmação. Para as construções mais importantes eram usados tijolos secos em forno, não secos ao sol, e betume para uni-los. Tais estruturas permanecem muito firmes até o presente. Para um não babilônico tal forma de construção pareceria tão estranha quanto digna de nota.” Leupold, Genesis, I, pp. 385-386.

119 “Estas zigurates, mais de 30 das quais ainda são conhecidas, eram formadas por pequenos degraus sucessivos, ou andares, feitos de tijolos queimados ou secos ao sol, no topo das quais era construído um templo.” Howard F. Vos, Genesis and Archaeology (Chicago: Moody Press, 1963), p. 46.

120 “Em Gênesis 9:1 Deus disse especificamente a Noé e a seus filhos: Sede fecundos e multiplicai-vos, e povoai (literalmente “enchei”) a terra. Em direta desobediência, seus descendentes ficaram inquietos por serem espalhados sobre a terra e com orgulho procuraram construir uma cidade e uma torre como ponto de reunião e para simbolizar e fazer memorável sua grandeza. Isto Deus não podia perdoar. Gênesis não diz que eles pretendiam entrar no céu por meio desta torre ou que eles pretendiam usá-la com o propósito de adoração. Os hebreus simplesmente a chamaram de imponente (“torre”), a qual poderia ser usada tanto para defesa quanto para inúmeros outros fins, e não há indicação de que os construtores planejassem erigir um templo sobre ela, para que a estrutura servisse de “ligação entre o céu e a terra” como eram as zigurates. Além disso, a narrativa de Gênesis implica em que tais torres não foram construídas antes e que esta seria algo único na experiência do homem.” (Ibid., pp. 46-47)

121 A história primitiva alcança seu clímax infrutífero quando o homem, consciente de suas novas habilidades, se prepara para glorificar e fortalecer a si mesmo pelo esforço coletivo. Os elementos da história são características atemporais do espírito do mundo. O projeto é tipicamente grandioso; os homens o descrevem excitadamente uns aos outros, como se fosse a realização mais moderna, da mesma forma que os homens atuais se gloriam em seus projetos espaciais. Ao mesmo tempo eles mostram sua insegurança à medida em que se aglomeram para preservar sua identidade e controlar suas fortunas.” Derek Kidner, Genesis, An Introduction and Commentary (Chicago: Inter-Varsity Press, 1967), p. 109.

122 Alan Richardson, Genesis 1-11, Introduction and Commentary (London: SCM Press Ltd., 1953), p. 128, como citado por Allen Ross, The Table of Nations in Genesis (Dissertação de Doutorado não publicada, Dallas Theological Seminary, 1976), pp. 292-293.

123 “Nesta breve narrativa temos um bom exemplo de literatura bíblica. Ela engloba dois parágrafos, quase do mesmo tamanho, que constituem um paralelismo antitético na forma e no conteúdo. O primeiro começa com uma referência à situação que existia no começo (v. 1), a partir daí descreve o que os homens continuaram a fazer (versos 2-4). O segundo relata o que o Senhor fez (versos 5-8), e conclui com uma referência à situação gerada no final do episódio (v. 9).” Cassuto, Genesis, II, pp. 231-232.

124 “Como expliquei na introdução, há uma insinuação cômica aqui: eles imaginavam que o topo de sua torre alcançaria os céus, mas do ponto de vista de Deus sua gigantesca estrutura era apenas uma obra de pigmeus, uma empreitada terrestre, não celestial, e, se Ele, que habita nos céus, desejasse ter um close daquilo, teria que descer dos céus para a terra.” Ibid., pp. 244-245.

“Yahweh precisou se aproximar, não porque fosse míope, mas porque habita nas maiores alturas, e o trabalho deles era simplesmente minúsculo. O movimento de Deus precisa então ser entendido como uma extraordinária sátira aos feitos do homem.” Esta é uma observação de Proksch, citado por Gerhard Von Rad, Genesis (Philadelphia: Westminster Press, 1972), p. 149.

125 Ross, p. 299.

126 “Babel (Babilônia) se chamava a si mesma pelo nome de Bab-ili, “o portão de Deus” (o que pode ter sido a re-interpretação lisonjeira de seu significado original); mas por meio de um jogo de palavras as Escrituras se sobrepõem com um título mais verdadeiro ba,,lal (“Ele confundiu”).” Kidner, Genesis, p. 110.

127 Ross entende que “lábio puro” do verso 9 se refere a uma linguagem comum: “Dito no singular, “lábio puro” pode significar que a barreira da linguagem será quebrada para se tornar uma língua universal. A segunda idéia na expressão significa que sua fala será purificada.” Ross, p. 258. fn. 1. Infelizmente a versão NASB coloca a expressão no plural “lábios puros”.

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