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Os Filhos de Deus e as Filhas dos Homens (Gênesis 6:1-8)

Introdução

As tentativas de se produzir uma raça superior não tiveram início com Adolf Hitler, nem terminaram com ele. Nossa geração parece ter uma fixação por super humanos. Super Homem, o Homem Biônico, a Mulher Biônica, Hulk, e muitos outros personagens da televisão contribuem para o mesmo tema. E o domínio desta super-raça não fica apenas no reino da ficção. É quase assustador perceber que os cientistas genéticos estão trabalhando seriamente para criar humanos melhores, enquanto que os abortos podem ser empregados sistematicamente para eliminar os indesejáveis. Outro dia, li um artigo no jornal que falava de uma organização que torna disponível para determinadas mulheres o esperma de ganhadores do Prêmio Nobel.

É muito mais difícil determinar as últimas conseqüências dessas tentativas do que encontrar sua origem. Seu início está registrado no sexto capítulo do livro de Gênesis. Devo dizer, à medida em que iniciamos o estudo destes versículos, que há mais discordância por centímetro quadrado deste texto do que em qualquer outro lugar da Bíblia. Em geral são os estudiosos conservadores que têm mais dificuldade com esta passagem. Isso é porque aqueles que não levam a Bíblia a sério, ou literalmente, se apressam em classificar este episódio como lenda. Os estudiosos conservadores precisam explicar este acontecimento de acordo com o que Moisés afirmou que ele era, um acontecimento histórico. Ainda que se levantem grandes diferenças na interpretação desta passagem, o assunto não é algo que seja fundamental - algo que afetará o conteúdo principal que dá base à salvação eterna de alguém. Aqueles dos quais discordo mais sinceramente, em geral, são meus irmãos em Cristo.

Quem são os “Filhos de Deus”?

A interpretação dos versos 1 a 8 depende da definição de três termos chave: “os filhos de Deus” (versos 2 e 4), “as filhas dos homens” (versos 2 e 4) e os “nefilins” (verso 4). Há três interpretações principais destes termos que tentarei descrever, começando por aquela que, para mim, é a menos provável, e terminando com a que é a mais satisfatória.

1ª Opinião: A União dos Ímpios Cainitas com os Piedosos Setitas

Aqueles que sustentam esta opinião dizem que “os filhos de Deus” são os homens piedosos da linhagem de Sete. Eles acham que as “filhas dos homens” sejam as filhas dos ímpios Cainitas. E os “nefilins” são os homens ímpios e violentos que foram produzidos por essa união irreverente.

O principal suporte para esta interpretação é o contexto dos capítulos 4 e 5. O capítulo quatro descreve a ímpia geração de Caim, enquanto que o capítulo cinco nos mostra a piedosa linhagem de Sete. Em Israel, a separação era uma parte essencial da responsabilidade religiosa daqueles que verdadeiramente adoravam a Deus. O que teve lugar no capítulo seis foi uma transgressão dessa separação que ameaçou a descendência piedosa através da qual nasceria o Messias. Essa transgressão foi a causa do dilúvio que viria a seguir. Ele destruiu o mundo impiedoso e preservou o justo Noé e sua família, através dos quais a promessa de Gênesis 3:15 seria cumprida.

Embora esta interpretação tenha as características recomendáveis à explicação da passagem sem criar qualquer problema doutrinário ou teológico, o que ela oferece em termos de ortodoxia, o faz às custas de uma prática exegética aceitável.

Primeiro e mais importante, esta interpretação não fornece definições que surjam da passagem ou mesmo que se adaptem bem ao texto. Em lugar algum os descendentes de Sete são chamados de “filhos de Deus”.

O contraste entre a piedosa linhagem de Sete e a ímpia linhagem de Caim pode estar sendo superenfatizado. Não tenho absoluta certeza de que a linhagem de Sete, como um todo, fosse piedosa. Enquanto todos os des-cendentes da linhagem de Caim parecem ser ímpios, apenas um punhado de Setitas são chamados de piedosos. O que Moisés indica no capítulo cinco é que Deus preservou um remanescente justo através do qual Suas promessas a Adão e Eva seriam cumpridas. Têm-se a distinta impressão de que poucos foram piedosos nestes dias (cf. 6:5-7, 12). Parece que apenas Noé e sua família poderiam ser chamados justos na época do dilúvio. Teria Deus falhado em livrar qualquer outro que fosse justo?

Além disso, “as filhas dos homens” dificilmente poderiam ser restritas apenas às filhas dos Cainitas. No verso um Moisés escreveu “Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhes nasceram filhas” (Gn. 6:1).

É difícil concluir que estes “homens” não sejam os homens em geral ou a raça humana. Segue-se que a referência às suas “filhas” seria igualmente geral. Concluir que as “filhas dos homens” no verso dois é algo dife-rente, um grupo mais restrito, é ignorar o contexto da passagem.

Por estas e outras razões83, devo concluir que esta opinião é exegeticamente inaceitável. Ainda que vá de encontro ao exame da ortodoxia, falha em submeter-se às leis da interpretação.

2ª Opinião: A Interpretação dos Déspotas

Reconhecendo as deficiências da 1ª opinião, alguns estudiosos procuram definir a expressão “os filhos de Deus” comparando-a com as línguas do Antigo Oriente Médio. É interessante saber que alguns governantes eram identificados como filho de um deus em particular. No Egito, por exemplo, o rei era chamado de filho de Rá84

No Antigo Testamento, a palavra hebraica para Deus, Elohim, é usada para homens em posição de autoridade: “Então, o seu senhor o levará aos juízes que agirão em nome de Deus” (Ex. 21:6, seguido do comentário da NASV).

“Deus assiste em sua própria congregação; Ele julga em meio aos governantes” (literalmente, deuses, Sl. 82:1, cf. também 82:6).

Esta interpretação, como a dos anjos caídos, tem suas raízes na antiguidade.85 De acordo com esta abordagem os “filhos de Deus” são nobres, aristocratas e reis.

Estes déspotas ambiciosos cobiçaram poder e riquezas, e desejaram tornar-se “homens de renome” ou seja, célebres (cf. 11:4). Seu pecado não foi o “casamento misto entre dois grupos, ou entre dois mundos (anjos e homens), ou entre duas comunidades religiosas (descendentes de Sete e de Caim), ou de duas classes sociais (plebe e realeza) - mas esse pecado foi a poligamia.” Era o mesmo tipo de pecado que Lameque, o descendente de Caim, praticava, o pecado da poligamia, particularmente expresso na forma de um harém, instituição característica das cortes dos déspotas do Antigo Oriente Médio. Neste tipo de transgressão, os “filhos de Deus” com freqüência violavam a responsabilidade sagrada de suas funções como guardiães das ordenanças gerais de Deus para a conduta humana.86

No contexto de Gênesis 4 e 5 encontramos algumas evidências que poderiam ser interpretadas como base à opinião dos déspotas. Caim fundou uma cidade e em seguida lhe deu o nome de seu filho Enoque (verso 4:17). As dinastias seriam mais facilmente estabelecidas num cenário urbano. Também sabemos que Lameque teve duas mulheres (verso 4:19). Apesar disto estar bem longe de ser um harém, poderia ser visto como um passo nessa direção. Também esta opinião define “as filhas dos homens” como mulheres e não como as filhas da linhagem de Caim.

A despeito destes fatores, esta interpretação provavelmente nunca teria sido considerada não fossem os “problemas” criados pela opinião dos anjos caídos. Enquanto os reis pagãos eram referidos como sendo filhos de alguma estranha divindade, nenhum rei Israelita era assim designado. É verdade que os nobres e algumas autoridades foram, ocasionalmente, chamados de “deuses”, mas não de “filhos de Deus”. Esta opinião prefere ignorar a definição precisa dada pelas próprias Escrituras.

Além disso, toda a idéia de homens famintos de poder, procurando estabelecer uma dinastia formando um harém parece forçada nesta passagem. Quem teria encontrado esta idéia no próprio texto, a menos que a impusesse sobre ele? Ainda, a definição dos Nefilins como sendo apenas homens violentos e tirânicos parece inadequada. Por que estes homens deveriam ser mencionados com deferência especial se fossem simplesmente como quaisquer outros daquela época? (cf. 6:11, 12) Apesar de a opinião dos déspotas ser menos violenta ao texto do que a opinião dos descendentes de Sete e de Caim, ela me parece ser inadequada.

3ª Opinião: A Interpretação dos Anjos Caídos

De acordo com esta opinião, os “filhos de Deus” dos versos 2 e 4 são anjos caídos, que assumiram a aparência da forma humana masculina. Estes anjos casaram-se com mulheres da raça humana (descendentes de Caim ou de Sete) e a descendência resultante foram os Nefilins. Os Nefilins foram gigantes com superioridade física que então se estabeleceram como homens reconhecidos por suas proezas físicas e seu poderio militar. Esta raça de criaturas meio humanas foi exterminada pelo dilúvio, junto com a raça humana em geral, que eram pecadores confessos (versos 6:11, 12).

Minha pressuposição básica na abordagem de nosso texto é que deveríamos deixar a Bíblia defini-lo em seus próprios termos. Se não são encontradas definições bíblicas então podemos olhar para a linguagem e cultura dos povos contemporâneos. Mas a Bíblia define o termo “os filhos de Deus” para nós.

“Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles.” (Jó 1:6).

Outra vez “Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles.” (Jó 2:1)

“Quando as estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus?” (Jó 38:7, cf. Sl. 89:6, Dn. 3:25)

Os estudiosos que rejeitam esta opinião prontamente reconhecem o fato de que o termo preciso é claramente definido na Escritura.87 A razão para rejeitar a interpretação dos anjos caídos é que tal opinião é tida como uma afronta à razão e às Escrituras.

Dizem que a principal passagem problemática é aquela encontrada no Evangelho de Mateus, onde nosso Senhor disse: “Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus. Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu.” (Mt. 22:29-30).

Falam que nosso Senhor disse que os anjos não têm sexo, mas, isto é mesmo verdade? Jesus comparou os homens no céu aos anjos no céu. Não é dito nem que homens nem que os anjos sejam sem sexo no céu, mas que no céu não haverá casamento. Não há anjos femininos com os quais os anjos possam gerar descendência. Nunca foi dito aos anjos “crescei e multiplicai-vos” como o foi ao homem.

Quando encontramos anjos descritos no livro de Gênesis, fica claro que eles podem assumir a forma humana, e que seu sexo é masculino. O escritor de Hebreus menciona que os anjos podem ser hospedados sem o co-nhecimento do homem (Hb. 13:2). Certamente os anjos devem ser bem convincentes como homens. Os homens homossexuais de Sodoma eram muito capazes para julgar a sexualidade. Eles foram atraídos pela “masculinidade” dos anjos que vieram destruir a cidade (cf. Gn. 19:1 e ss, especialmente o verso 5).

No Novo Testamento, duas passagens parecem se referir a este incidente em Gênesis 6, e dão base à opinião dos anjos:

“Ora, se Deus não poupou a anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno os entregou a abismos de trevas, reservando-os para o juízo.” (II Pe. 2:4)

“E a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do Grande Dia.” (Jd. 6)

Estes versos indicariam que alguns dos anjos que caíram com Satanás não ficaram contentes com seu “próprio domicílio” e então começaram a viver entre os homens (e mulheres) como homens. O julgamento de Deus sobre eles foi colocá-los em algemas88 de modo que não pudessem mais servir aos propósitos de Satanás sobre a terra como o fazem os anjos caídos ainda soltos que continuam a fazer sua vontade.

Os Nefilins são claramente mencionados como resultado dessa união entre os anjos caídos e as mulheres. Enquanto estudos da palavra produzem numerosas sugestões para o significado deste termo, a sua definição bíblica vem de apenas um outro único momento nas Escrituras, Números 13:33:

“Também vimos ali gigantes (Nefilins) (os filhos de Anaque são descendentes de gigantes), e éramos, aos nossos próprios olhos, como gafanhotos e assim também o éramos aos seus olhos.”

Entendo, então, que os Nefilins sejam uma raça de super-humanos que são o produto desta invasão angelical da terra.89

Esta opinião não apenas se adapta ao uso bíblico da expressão “filhos de Deus”, como também é a mais adequada ao contexto da passagem. Os efeitos da queda foram vistos na ímpia descendência de Caim (capítulo 4). Ainda que Caim e seus descendentes estivessem “no bolso de Satanás”, Satanás conhecia as palavras de Deus em Gn. 3:15, de que através da descendência da mulher Deus iria trazer o Messias que o destruiria. Não sabemos se toda a linhagem de Sete foi temente a Deus. De fato, podemos supor o contrário. Somente Noé e sua família pareciam justos à época do dilúvio.

Gênesis seis descreve uma tentativa desesperada da parte de Satanás para atacar o remanescente piedoso que está relacionado no capítulo cinco. Enquanto um descendente justo é preservado, a promessa de salvação de Deus paira sobre a cabeça de Satanás ameaçando sua condenação.

As filhas dos homens não foram estupradas ou seduzidas. Elas simplesmente escolheram seus maridos da mesma forma que os anjos as selecionaram - pela atração física. Agora, se você fosse uma mulher qualificada naquela época, quem você escolheria? Escolheria um homem atraente e musculoso, que tivesse reputação por sua força e grandes feitos, ou aquele que parecia ser um fracote de meia tigela?

As mulheres ansiavam pela esperança de ser a mãe do Salvador. Quem seria o pai mais apropriado para tal criança? Não seria um “homem poderoso de renome”, que também seria capaz de se gabar da imortalidade? Alguns dos piedosos descendentes de Sete viveram aproximadamente 1000 anos de idade, mas os Nefilins não morreriam, se fossem anjos. E assim começou uma nova raça.

Deus Muda de Opinião?

Enquanto os versos de 1 a 4 destacam a invasão angélica no início de uma nova super raça, os versos 5 a 7 servem para informar que a raça humana em geral estava merecendo a intervenção destrutiva de Deus na história - o dilúvio. No entanto, é aqui que encontramos um problema muito sério, pois quase parece que Deus mudou de opinião, como se a criação do homem fosse um erro colossal de Sua parte. Vamos, então, colocar a questão “Deus muda de opinião?” Muitos fatores devem ser considerados.

Primeiro, Deus é imutável, não muda em Sua pessoa, em Sua perfeição, em Seus propósitos e em Suas promessas.

“Deus não é homem para que minta, e nem filho de homem para que se arrependa. Porventura tendo ele prometido não o fará, ou tendo ele falado, não o cumprirá?” (Nm. 23:19)

“Também a glória de Israel não mente, nem se arrepende, porquanto não é homem, para que se arrependa.” (I Sm. 15:29, cf. também Sl. 33:11, 102:26-28, Hb. 1:11-12, Ml. 3:6, Rm. 11:29, Hb. 13:8 e Tg. 1:17).

Segundo, há passagens em que “parece” que Deus muda de opinião.

“Disse mais o Senhor a Moisés: Tenho visto este povo, e eis que é povo de dura cerviz. Agora, pois, deixa-me, para que se acenda contra eles o meu furor, e eu os consuma; e de ti farei uma grande nação... Então, se arrependeu o Senhor do mal que dissera havia de fazer ao povo.” (Ex. 32:9-10, 14)

“Viu Deus o que fizerem, como se converteram do seu mal caminho e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez.” (Jn. 3:10)

“Então o Senhor se arrependeu disso. Não acontecerá, disse o Senhor... E o Senhor se arrependeu disso. Também não acontecerá, disse o Senhor Deus.” (Am. 7:3, 6)

Terceiro, nesses casos em que Deus “parece” mudar Sua opinião, uma ou mais dessas considerações deve ser aplicada.

A expressão “Deus se arrependeu” é um antropomorfismo, ou seja, uma descrição de Deus que assemelha as Suas ações às ações do homem. De que outra forma, então, o homem poderia entender o pensamento de Deus em termos e comparações humanas? O “mudar de opinião” de Deus pode ser a-penas a maneira de ver da perspectiva do homem. Em ambos os textos de Gênesis 22 (cf. os versos 2, 11-12) e de Êxodo 32, aquilo que Deus propôs foi um teste. Em ambos os casos, Seu propósito eterno não mudou.

Nos casos onde o julgamento ou a bênção são prometidos, pode haver uma condição implícita ou explícita. A mensagem pregada por Jonas aos ninivitas foi um desses casos:

“Começou Jonas a percorrer a cidade de caminho dum dia, e pregava, e dizia: Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida. Os ninivitas creram em Deus e proclamaram um jejum, e vestiram-se de pano de saco, desde o maior até o menor. Chegou esta notícia ao rei de Nínive: ele levantou-se do seu trono, tirou de si as vestes reais. cobriu-se de pano de saco e assentou-se sobre a cinza. E fez-se proclamar e divulgar em Nínive: Por mandato do rei e seus grandes, nem homens, nem animais, nem bois, nem ovelhas provem coisa alguma, nem, os levem ao pasto, nem bebam água; mas, sejam cobertos de pano de saco, tanto os homens como os animais, e clamarão fortemente a Deus; e se converterão, cada um do seu mau caminho e da violência que há nas suas mãos. Quem sabe se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos?” (Jn. 3:4-9)

Jonas sabia que aquilo que os ninivitas esperavam era um fato. Eles clamaram por misericórdia e perdão, no caso de Deus poder ouvir e perdoar. Quando os ninivitas se arrependeram e Deus demonstrou piedade, Jonas pulou de raiva:

“Com isso, desgostou-se Jonas extremamente e ficou irado. E orou ao Senhor e disse: Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que se arrepende do mal.” (Jn. 4:1-2)

Jonas sabia ser Deus amoroso e clemente. A mensagem que ele pregou implicava numa exceção. Se os ninivitas se arrependessem, Deus os perdoaria. Isto é o que Jeremias escreveu, dizendo:

“No momento em que eu falar acerca de uma nação de ou de um reino para o arrancar, derribar e destruir, se tal nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. E, no momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino, para o edificar e plantar, se ele fizer o que é mal perante mim e não der ouvidos à minha voz, então, me arrependerei do bem que houvera dito lhe faria.” (Jr. 18:7-10)

Ainda que o decreto de Deus não possa ser alterado, devemos admitir que Deus é livre para agir à Sua escolha. Enquanto o programa de Deus pode mudar, Seus propósitos não “porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Rm. 11:29)

Deus prometeu levar seu povo à terra de Canaã. Devido à sua incredulidade a primeira geração não possuiu a terra, mas a segunda sim. Quando Jesus veio, ofereceu-se a Si mesmo para Israel como o Messias. A rejeição de Israel tornou possível oferecer o evangelho aos gentios. Apesar de tudo, quando os propósitos de Deus para os gentios forem cumpridos, Deus derramará Sua graça e salvação novamente sobre os judeus. O programa de Deus muda, mas não Seus propósitos (cf. Rm. 9-11).

d) Enquanto a vontade de Deus (Seu decreto) não pode e não muda, Ele é livre para mudar Suas emoções. Gênesis 6:6-7 descreve a resposta de Deus ao pecado humano. Pesar é a resposta de amor ao pecado. Deus não é estóico; Ele é uma pessoa que se regozija na salvação dos homens e em sua obediência, e que se aflige ante a incredulidade e a desobediência. Enquanto o propósito de Deus para a raça humana nunca mudou, Sua atitude sim. Certamente um Deus Santo deve sentir-se diferente com relação ao pecado e com relação à obediência. Esse é o ponto dos versos seis e sete. Deus é afligido pelo pecado do homem e suas conseqüências. Mas Deus cumprirá Seus propósitos independentemente disso. Ainda que tal ação tenha sido decretada desde a eternidade, Deus nunca se regozijaria nela, mas apenas lamentaria a maldade e a obstinação do homem.

Uma ilustração similar é a resposta emotiva de nosso Senhor no Jardim do Getsêmani (cf. Mt. 26:36 e ss). Desde a eternidade o Senhor tinha proposto ir à cruz para comprar a salvação do homem. No entanto, no momento em que Sua agonia se aproximava Ele temeu. Seu propósito não mudou, mas Sua emoção sim.

O Significado desta Passagem para o Antigo Israel

Para os antigos israelitas esta passagem ensinaria muitas lições valiosas. Primeiro, deu uma explicação adequada para o dilúvio. Podemos ver que esta super-raça foi eliminada. O dilúvio não foi apenas o jeito de Deus de julgar os homens pecaminosos, mas de cumprir Sua promessa de trazer salvação através do descendente da mulher. Se o relacionamento entre os anjos e os homens não tivesse sido interrompido, o remanescente piedoso teria cessado de existir (humanamente falando). Segundo, esta passagem ilustraria o que Deus disse à serpente, Adão e Eva: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente” (Gn. 3:15a).

Israel não ousava esquecer que ocorria uma intensa batalha, não apenas entre os descendentes de Caim e os de Sete, mas entre Satanás e o descendente da mulher. Enquanto nós estamos acostumados a tal ênfase no Novo Testamento, os antigos tinham poucas referências diretas a Satanás ou a seus assistentes demoníacos (cf. Gênesis 3, Deuteronômio 32:17, I Crônicas 21:1, Jó 1 e 2, Salmo 106:37, Daniel 10:13, Zacarias 3:1-2). Esta passagem seria uma vívida lembrança da precisão da Palavra de Deus.

Terceiro, ressaltava a importância de manter sua pureza racial e espiritual. O remanescente crente em Deus devia ser preservado. Quando os homens falharam em perceber a importância disto, Deus teve que julgá-los severamente. À medida em que a nação entrasse na terra de Canaã, poucas lições poderiam ser mais valiosas do que a necessidade de separação.

O Significado de Gênesis 6 para os Cristãos de Hoje

Apesar do Novo Testamento ter muito mais a dizer sobre as atividades de Satanás e seus demônios, poucos de nós parecem levar a sério nossa batalha espiritual. Nós realmente cremos que a igreja possa operar somente com o esforço e a sabedoria humana, ou com uma pequena ajuda de Deus. Com freqüência tentamos viver a vida espiritual pelo poder da carne. Encorajamos as pessoas a dedicarem suas vidas e a redobrarem seus esforços, mas falhamos em relembrá-las de que nossa única força é aquela que Deus nos dá.

A batalha travada entre os filhos de Satanás e os filhos de Deus (no sentido do Novo Testamento - Jo. 1:12, Rm. 8:14, 19) é ainda mais intensa hoje do que o foi nos tempos antigos. A condenação de Satanás está selada e seus dias estão contados (cf. Mt. 8:29). Vamos, então, nos revestir da armadura espiritual com a qual Deus nos equipa para a batalha espiritual que travamos (Ef. 6:10-20).

Segundo, vamos aprender que Satanás nos ataca com os mesmos instrumentos ainda hoje. Não conheço qualquer caso, em nossos dias, de anjos caídos invadindo a terra em forma humana para promover a causa de Satanás. Mas apesar disso Satanás trabalha sutilmente através dos homens.

“Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo. E não é de se admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça; e o fim deles será conforme as suas obras.” (II Co. 11:13-15).

Assim como Satanás procurou corromper os homens ao se revelar (ou melhor, a seus anjos) na forma de seres humanos superiores, hoje ele trabalha através dos “anjos de luz”. Nossa tendência é supor que Satanás só trabalha com eficácia através dos réprobos. Quase sempre esperamos encontrar Satanás num patético endemoni-nhado ou num traidor desesperado. É fácil atribuir tais tragédias a Satanás. Mas o melhor trabalho de Satanás, em minha opinião, seu trabalho mais comum, é através daqueles pregadores aparentemente éticos, devotos e religiosos que estão atrás do púlpito, ou assentados no Conselho, e falam sobre salvação como se falassem dos membros de um clube ao invés de almas, por meio das obras ao invés da fé. Satanás continua promovendo sua causa através dos homens que não são o que aparentam ser.

Finalmente, repare que Satanás faz seu melhor trabalho exatamente naquelas áreas onde os homens e mulheres colocam sua esperança de salvação. Quando os homens-anjos pediram as filhas dos homens em casamento eles pareciam ser os pais mais promissores. Se estas criaturas fossem imortais, então sua descendência também não o seria? Era este o jeito que Deus daria para revogar a queda e a maldição? Assim deve ter parecido àquelas mulheres. Isso é exatamente o que Satanás faz hoje. Oh, ele não está se promovendo através do ateísmo ou de outros “ismos”, mas ele encontra grande sucesso na área da religião. Ele coloca sua máscara mais piedosa e usa expressões religiosas. Não procura abolir a religião, apenas a anula retirando dela seu elemento essencial - a fé no sangue derramado de Jesus Cristo como substituto para os homens pecaminosos. Ele prontamente se unirá a qualquer causa religiosa, contanto que este ingrediente seja omitido, ou distorcido, ou perdido num labirinto de legalismo ou libertinagem. Tome cuidado, meu amigo, pois Satanás está no mundo da religião. Que maneira me-lhor de desviar almas e cegar as mentes dos homens (II Co. 4:4)?

Onde está sua esperança de imortalidade? Está na sua descendência? Esse jeito não funcionou para Caim. Está no seu trabalho? Deseja construir um império ou erigir um monumento ao seu nome? Não será o último. Todas estas coisas pereceram no dilúvio do julgamento de Deus. Apenas a fé no Deus da Bíblia e, mais especificamente, no Filho que Ele mandou, dará imortalidade a você e o libertará da maldição. O único jeito de se tornar um filho de Deus é através do Filho de Deus.

Jesus lhe disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Jo. 4:6)


83 O problema mais sério com esta opinião predominante repousa no verso 4. Sob todos os aspectos, os gigantes (nephilim) e os homens poderosos (gibborim) são a descendência dos casamentos dos “filhos de Deus” com as “filhas dos homens”. Como Kline diz:

“De maneira nenhuma fica claro porque a descendência de casamentos mistos deveria ser Nephilim-Gibborim, no entanto estes devem ser entendidos dentro do alcance da interpretação possível... Mas sua (a do autor bíblico) referência ao ato conjugal e à gestação encontra justificativa apenas se ele estiver descrevendo a origem dos nephilim-gibborim. A menos que a dificuldade que se segue a esta conclusão possa ser superada, a interpretação do casamento misto da passagem deve ser definitivamente abandonada.”

Para resumir o problema: “Por que alguém encontra a espécie de descendência mencionada no verso quatro se estes foram apenas casamentos mistos?” Manfred E. Kober, Os Filhos de Deus de Gênesis 6: Demônios, Degenerados, ou Déspotas?, p. 15. Kober cita aqui Meredith G. Kline, “Divine Kingship and Genesis 6:1-4”, Westminster Theological Journal, XXIV, Nov. 1961- May 1962, p. 190.

84 “No Egito o rei era chamado de o filho de Ra (o deus-sol). O rei Sumero-Akkadian era considerado descendente da deusa e um dos deuses, e esta identificação com a deidade remonta aos primeiros tempos, de acordo com Engell. Em uma inscrição ele é referido como “o rei, o filho de seu deus”. O rei Hitita era chamado “filho do deus-tempo”, e o título de sua mãe era Tawannannas (mãe do deus). Na região Semítica noroeste o rei era diretamente chamado de filho de deus e o deus era chamado de pai do rei. O texto Ras Shamra (Ugarítico) Krt se refere a deus como o pai do rei e o rei Krt como Krt bn il, o filho de el ou o filho de deus. Assim, com base no uso semítico, o termo be ne ha elohim, os “filhos de deus” ou “filhos dos deuses”, muito provavelmente se refira aos governantes da dinastia de Gênesis 6.” “Estudo exegético de Gênesis 6:1-4”, Journal of the Evangelical Theological Society, XIII, inverno 1970, pp. 47-48, como citado por Kober, p. 19.

85 Num excelente artigo apresentando esta opinião, Kline escreve que antigamente predominava entre os Judeus a opinião de que os “filhos de Deus” de Gênesis 6 eram aristocratas, príncipes, e nobres, em contraste com as socialmente inferiores “filhas dos homens”. Desta interpretação veio a expressão, por exemplo, no Targum Aramaico (o Targum de Onkelos inverte o termo para “filhos dos nobres”) e na tradução grega de Symmachus (onde se lê “os filhos de reis ou lordes”) e é seguida por muitas autoridades judaicas até o presente.” Kober, pp; 16-17, referindo-se a Kline, p. 194.

86 Kober, p. 16, citando Birney, p. 49 e Kline, p. 196.

87 Por exemplo, W. H. Griffith Thomas, que mantém a opinião Cainita/Setita, diz:

“O verso 2 fala da união de duas linhagem pelo casamento misto. Alguns escritores observam a frase “filhos de Deus” como se referindo aos anjos, e isso é encorajado em outra passagem - cf. Jó 1:6; Sl. 28:1, Dn. 3:25 - e, de fato, em qualquer lugar das Escrituras, a frase invariavelmente significa anjos.” Genesis: Um Comentário Devocional (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1946), p. 65.

88 Não é este cativeiro que os demônios temiam em Marcos 5:10 e Lucas 8:31?

89 O fato dos nefilins serem mencionados depois do dilúvio significa que esta prática continuou depois do dilúvio? Alguns pensam que sim, enfatizando a frase “e também depois”(Gênesis 6:4). Se é assim, temos que dizer que esta prática não ameaçou a promessa de Deus naquela época. Ela só intensificaria a importância da não mistura de casamento com alguém dos cananeus, entre os quais os nephilins foram encontrados.

Pessoalmente, não acho que a super-raça tenha aparecido após o dilúvio. A expressão nephilim, como entendo, não é sinônimo desta, super-raça, mas a descrição dela. Refere-se simplesmente ao fato de uma grande estrutura física, justamente como outras expressões (“homens poderosos”, “homens de renome”), refere-se à sua reputação e poderio militar. Não acho que devamos encontrar criaturas super-humanas em Números 13:33, mas apenas gigantes. A palavra nefilim é então definida em Números por Moisés como se referindo a uma grande estatura física. Nenhum nome técnico é dado para a super-raça, apenas descrições que podem ser usadas em qualquer outro lugar para outras criaturas não angélicas.

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