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Davi e Golias (I Samuel 17:1-58)

Introdução

Quando chego à história de “Davi e Golias” sinto-me como um comediante convidado para falar numa convenção de comediantes. Enquanto subo ao palco, alguém me entrega uma lista das dez piadas mais famosas e mais batidas que se conhece - com instruções para contá-las de forma a fazer o público rir.

O problema com histórias do Antigo Testamento como a nossa, e de outras como “Daniel na cova dos leões” e “Jonas e a ‘Baleia’”, é que estamos familiarizados demais com elas. Não quero dizer que as conheçamos tão bem assim, pois muitas vezes não conhecemos. Mas pensamos que sim e, conseqüentemente, temos uma longa lista de idéias preconcebidas. Ao abordarmos nosso estudo vamos procurar obter o máximo que pudermos e, pela capacitação do Espírito, colocar essas idéias preconcebidas na prateleira e considerar todos os aspectos de nosso texto uma vez mais.

Observações Preliminares

Talvez seja útil fazermos algumas considerações antes de nosso estudo em I Samuel 17 sobre Davi e Golias.

Primeiro, a Septuaginta (a tradução grega do Velho Testamento feita por volta de 200 a.C.) omite uma porção de versos deste capítulo. A Septuaginta omite, especificamente, os versos 12 a 31, 41, 50 e 55 a 58. O texto hebraico tradicional, conhecido como Texto Massorético, não omite. Uma vez que o Texto Massorético é o texto original e a Septuaginta apenas uma tradução (e, às vezes, bastante livre), presumiremos que a Septuaginta omitiu propositadamente os versos que estavam no texto original.

Segundo, parece haver uma discrepância entre os capítulos 16, onde Saul conhece e ama Davi, e o capitulo 17, onde Saul parece não saber quem seja ele. Várias soluções são propostas. Certamente nenhum autor (ou “editor”) colocaria estes dois capítulos lado a lado, sabendo que há alguma coisa errada no capítulo 16, ou no capítulo 17, ou em ambos. Talvez Davi tenha crescido consideravelmente desde o capítulo 16, ou a memória de Saul esteja falhando (havia uma porção de rostos e nomes a serem lembrados, ou quem sabe seu estado mental simplesmente turve seus pensamentos). Existem algumas explicações plausíveis para este aparente problema. Também devemos observar que o verso 15 do capítulo 17 parece ligar claramente este capítulo ao capítulo 16. É preciso lembrar que Saul não pergunta sobre Davi, mas sobre o pai de Davi. Afinal de contas, ele promete que sua casa ficará livre de impostos (ver 17:25). Se Jessé realmente é muito velho nos dias de Saul (17:12), então é provável que este jamais o tenha encontrado, uma vez que Jessé não podia viajar para visitar o rei. Não seria por isso que Jessé envia Davi para checar o bem-estar de seus filhos (ver 17:17-19)? Por que, então, devemos presumir que Saul se lembre dele?

Terceiro, o capítulo 17 complementa muito bem o capítulo 16, fornecendo detalhes que não estão presentes no capítulo anterior. No capítulo 16 temos o relato da designação (unção) de Davi como futuro rei de Israel mas, nesse capítulo, ele não pronuncia uma só palavra e nenhum de seus feitos é registrado. É no capítulo 17 que vemos um retrato claro de Davi e de seu caráter, pelas palavras e atos aqui registrados. No capítulo 16, Deus designa Davi como Seu rei porque ele é um “homem segundo o coração de Deus” (ver 13:14, 16:7). No capítulo 17, vemos, em termos bem específicos, exatamente o que é ser um “homem segundo o coração de Deus”. Qualquer um que tente colocar uma brecha entre estes dois capítulos, apontando aparentes incoerências entre eles, deixa de considerar sua evidente continuidade.

Quarto, esta guerra não precisaria ser travada, não fosse a tolice de Saul no capítulo 14. É Jônatas, filho de Saul, quem precipita a guerra com os filisteus que ocupam o território de Israel (capítulo 13). Saul vê o exército se dissolvendo diante de seus olhos e desobedece a Deus, deixando de esperar por Samuel para oferecer o holocausto (13:8-14). No capítulo 14, Jônatas inicia um ataque ao posto de guarda dos filisteus que resulta na intervenção divina por meio de um terremoto. A batalha contra os filisteus poderia ter sido definitivamente vencida pelo exército israelita, não fosse um edito insano expedido por Saul. Ao proibir seus soldados de comer antes do anoitecer, Saul coloca em risco a vida de Jônatas e predispõe os outros soldados a pecar por consumir a carne dos animais abatidos junto com seu sangue. À medida que o dia se arrasta, a fraqueza dos soldados devido à fome os impede de lutar bem. Além do mais, o tempo gasto no preparo da comida para este exército faminto custa a Saul e seus homens a chance de vencer definitivamente os filisteus. A guerra do capítulo 17 é conseqüência da loucura de Saul no capítulo 14, uma guerra que jamais teria sido travada não fosse seu edito.

Quinto, apenas uma pequena parcela dos 58 versos do capítulo 17 descreve a luta entre Davi e Golias. Se admitirmos que os versos 40 a 51 tratem da batalha entre Davi e o gigante filisteu, devemos, então, observar que aproximadamente 80% do capítulo seja preparação para este confronto ou venha após a vitória sobre Golias, enquanto somente 20% descrevem realmente o confronto entre ambos. Quando nos concentramos somente em “Davi e Golias”, negligenciamos a maior parte desta passagem e sua ênfase.

Uma Perspectiva Mais Ampla

Consideremos, então, o capítulo 17 à luz de um retrato mais amplo do Velho Testamento até este ponto da história de Israel. A história de Davi e Golias parece bem diferente quando vista numa perspectiva mais ampla das Escrituras que a precedem (de Gênesis até I Samuel 16).

Começaremos em Gênesis 12:3, com a chamada “Aliança Abraâmica”. Ali, Deus diz a Abrão:

“Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra.” (Gn. 12:3, ARA, ênfase minha)

Se Golias está amaldiçoando Israel e seu Deus e, se Deus é um Deus que guarda Sua aliança, é de se esperar que Golias seja divinamente amaldiçoado. Biblicamente falando, uma nuvem negra paira sobre a cabeça de Golias, o blasfemo filisteu.

Passando rapidamente pela Lei de Moisés, chegamos ao livro de Números, particularmente aos capítulos 13 e 14, que descrevem o temor de Israel com relação aos cananeus e sua conseqüente rebelião contra Deus em Cades-Barnéia. Deus tinha libertado Israel das mãos de Faraó e tinha lançado os egípcios no Mar Vermelho. Agora, quando os israelitas chegam a Cades-Barnéia, espias são enviados a Canaã para avaliar a terra prometida. A terra e seus frutos são magníficos. O único problema para dez dos espias é o tamanho dos habitantes do lugar:

“Relataram a Moisés e disseram: Fomos à terra a que nos enviaste; e, verdadeiramente, mana leite e mel; este é o fruto dela. O povo, porém, que habita nessa terra é poderoso, e as cidades, mui grandes e fortificadas; também vimos ali os filhos de Anaque. Os amalequitas habitam na terra do Neguebe; os heteus, os jebuseus e os amorreus habitam na montanha; os cananeus habitam ao pé do mar e pela ribeira do Jordão. Então, Calebe fez calar o povo perante Moisés e disse: Eia! Subamos e possuamos a terra, porque, certamente, prevaleceremos contra ela. Porém os homens que com ele tinham subido disseram: Não poderemos subir contra aquele povo, porque é mais forte do que nós. E, diante dos filhos de Israel, infamaram a terra que haviam espiado, dizendo: A terra pelo meio da qual passamos a espiar é terra que devora os seus moradores; e todo o povo que vimos nela são homens de grande estatura. Também vimos ali gigantes (os filhos de Anaque são descendentes de gigantes), e éramos, aos nossos próprios olhos, como gafanhotos e assim também o éramos aos seus olhos.” (Nm. 13:27-33, ARA, ênfase minha).

O temor dos israelitas é causado pela estatura (ou seja, o poderio militar) dos “gigantes” que vivem em Canaã. “Não podemos subir contra os cananeus”, protestam, “lá tem gigantes!” Devido a esse medo e sua recusa em confiar em Deus, esta geração de israelitas perece no deserto. Quando seus filhos - a segunda geração - estão prestes a possuir a terra, Deus lhes dá instruções muito claras sobre como reagir diante dos inimigos que irão enfrentar:

“Eis que o SENHOR, teu Deus, te colocou esta terra diante de ti. Sobe, possui-a, como te falou o SENHOR, Deus de teus pais: Não temas e não te assustes.” (Dt. 1:21)

“O SENHOR fará que sejam derrotados na tua presença os inimigos que se levantarem contra ti; por um caminho, sairão contra ti, mas, por sete caminhos, fugirão da tua presença.” (Dt. 28:7)

“Passou Moisés a falar estas palavras a todo o Israel e disse-lhes: Sou, hoje, da idade de cento e vinte anos. Já não posso sair e entrar, e o SENHOR me disse: Não passarás o Jordão. O SENHOR, teu Deus, passará adiante de ti; ele destruirá estas nações de diante de ti, e tu as possuirás; Josué passará adiante de ti, como o SENHOR tem dito. O SENHOR lhes fará como fez a Seom e a Ogue, reis dos amorreus, os quais destruiu, bem como a sua terra. Quando, pois, o SENHOR vos entregar estes povos diante de vós, então, com eles fareis segundo todo o mandamento que vos tenho ordenado. Sede fortes e corajosos, não temais, nem vos atemorizeis diante deles, porque o SENHOR, vosso Deus, é quem vai convosco; não vos deixará, nem vos desamparará. Chamou Moisés a Josué e lhe disse na presença de todo o Israel: Sê forte e corajoso; porque, com este povo, entrarás na terra que o SENHOR, sob juramento, prometeu dar a teus pais; e tu os farás herdá-la. O SENHOR é quem vai adiante de ti; ele será contigo, não te deixará, nem te desamparará; não temas, nem te atemorizes.” (Dt. 1:1-8, ver também Js. 1:9, 8:1 e 10:25)

O livro de Josué registra a derrota dos inimigos de Israel, não devido à sua estatura ou poderio militar, mas porque Deus está com eles nas batalhas. No livro de Juízes lemos a respeito dos homens levantados por Deus para libertar Seu povo das mãos de seus inimigos. Em alguns casos, um único indivíduo (como Sansão, ver cap. 13-16) mata muitos deles, ao passo que, em outros, um pequeno grupo (como Gideão e seus 300 homens, ver cap. 6-8) derrota uma força inimiga amplamente superior.

Quando chegamos em I Samuel, encontramos nos primeiros 16 capítulos a preparação para o confronto entre Davi e Golias. Ouça as palavras de Ana, registradas no capítulo 2:

“Não multipliqueis palavras de orgulho, nem saiam coisas arrogantes da vossa boca; porque o SENHOR é o Deus da sabedoria e pesa todos os feitos na balança. O arco dos fortes é quebrado, porém os débeis, cingidos de força... Ele guarda os pés dos seus santos, porém os perversos emudecem nas trevas da morte; porque o homem não prevalece pela força. Os que contendem com o SENHOR são quebrantados; dos céus troveja contra eles. O SENHOR julga as extremidades da terra, dá força ao seu rei e exalta o poder do seu ungido.” (I Sam. 2:3-4, 9-10)

No capítulo 4 chegamos à primeira batalha com os filisteus no livro de I Samuel. Quando os israelitas sofrem uma derrota às suas mãos, eles levam a Arca de Deus consigo para a guerra, certos de que isto lhes dará, milagrosamente, a vitória. Os israelitas são novamente derrotados, os filhos de Eli, Hofni e Finéias, são mortos e o próprio Eli também morre quando toma conhecimento deste desastre. Os filisteus orgulhosamente carregam a Arca como troféu de guerra, um símbolo de sua “vitória sobre Israel e seu Deus”. Sem nenhuma assistência humana, Deus humilha Dagom, o deus filisteu, e o povo das principais cidades filistéias (capítulos 5 e 6).

No capítulo 7 os israelitas se arrependem de seus pecados e vão à Mispa para serem julgados por Samuel e cultuar a Deus. Quando os filisteus tomam conhecimento deste ajuntamento, presumem que seja algum tipo de manobra militar hostil, e por isso reúnem suas forças e cercam o lugar onde os israelitas estão reunidos. Os israelitas estão indefesos, mas Samuel intercede por eles e, enquanto ele oferece o sacrifício, Deus intervém com uma tempestade elétrica que faz com que as armas de ferro dos filisteus virem condutores elétricos e devastem seu exército.

No capítulo 8 os israelitas exigem um rei para julgá-los e governá-los. Boa parte de sua motivação é querer alguém que vá adiante deles e lute suas batalhas (ver 8:5, 20). Saul é escolhido, um homem que, dos ombros para cima, sobressai a seus irmãos israelitas (9:2). Este é o homem que libertará o povo de Deus dos filisteus:

“Ora, o SENHOR, um dia antes de Saul chegar, o revelara a Samuel, dizendo: Amanhã a estas horas, te enviarei um homem da terra de Benjamim, o qual ungirás por príncipe sobre o meu povo de Israel, e ele livrará o meu povo das mãos dos filisteus; porque atentei para o meu povo, pois o seu clamor chegou a mim.” (I Sam. 9:1516, ARA, ênfase minha).

A primeira batalha de Saul com os filisteus vem imediatamente após sua vitória decisiva sobre os amonitas que sitiavam Jabes-Gileade (capítulo 11). O confronto não é iniciado por Saul, mas por seu filho Jônatas, que ataca a guarnição dos filisteus situada em Israel (13:1-4). Saul entra em pânico em virtude do tamanho do exército filisteu e de seu exército estar se desmantelando. Em desobediência à ordem de Deus, ele mesmo oferece o holocausto em vez de esperar por Samuel (13:814). Este é o começo do fim para Saul.

A situação entre os soldados israelitas e o exército filisteu chega a uma espécie de impasse. Saul parece preferir isto a se arriscar em qualquer atitude ofensiva. Jônatas toma uma atitude tipo Davi. Sem dizer nada a ninguém (especialmente ao seu pai), ele toma seu escudeiro e ataca um posto avançado dos filisteus, dizendo estas palavras, que refletem seu caráter e a qualidade de sua fé:

“Disse, pois, Jônatas ao seu escudeiro: Vem, passemos à guarnição destes incircuncisos; porventura, o SENHOR nos ajudará nisto, porque para o SENHOR nenhum impedimento há de livrar com muitos ou com poucos.” (I Sam. 14:6, ARA, ênfase minha)

Quando vemos o confronto entre israelitas e filisteus e entre Davi e Golias à luz da revelação bíblica precedente, ganhamos uma perspectiva bem diferente. Será que os israelitas, incluindo Saul, são aterrorizados por Golias? (ver 17:11, 24, 32) Não deveriam. Na verdade, esse medo não é apenas falta de fé, é desobediência aos mandamentos de Deus ao Seu povo (ver Dt. 1:21, 31:8, etc). Será que eles têm pavor deste gigante? Deveriam dizer: “Só um...?” Será que eles querem bater em retirada e não atacar? Deveriam considerar a teologia e a prática de Jônatas, que crê que Deus não é limitado pelo número de guerreiros que lutam em Seu nome. Não é o tamanho de Golias ou a arrogância de suas palavras que devem nos causar estranheza, mas a incredulidade e o medo do povo de Deus. A situação não é nova, nem desconhecida. As chances não são piores aqui do que em qualquer outro lugar. Simplesmente Israel carece de fé. Israel carece de uma liderança temente a Deus.

O Cenário
(17:1-3)

“Ajuntaram os filisteus as suas tropas para a guerra, e congregaram-se em Socó, que está em Judá, e acamparam-se entre Socó e Azeca, em Efes-Damim. Porém Saul e os homens de Israel se ajuntaram, e acamparam no vale de Elá, e ali ordenaram a batalha contra os filisteus. Estavam estes num monte do lado dalém, e os israelitas, no outro monte do lado daquém; e, entre eles, o vale.”

Saul jamais parece tomar a iniciativa de iniciar um confronto militar com os filisteus, e esta vez não é exceção. Depois da derrota parcial e humilhação às mãos dos israelitas no capítulo 14, os filisteus parecem ansiosos não só por recuperar seu domínio militar sobre Israel (ver 4:9), mas também seu orgulho. Os dois exércitos se preparam para o confronto, aproximadamente 14 milhas a sudoeste de Jerusalém, entrincheirando-se em lados opostos do Vale de Elá e assentando acampamento nas encostas de duas montanhas, cada uma das quais desce para o vale onde corre um ribeiro (ver 17:40).

Podemos muito bem nos perguntar por que este impasse continua por tanto tempo, com os dois lados fingindo um luta com muita gritaria e brados de guerra, mas sem nenhum contato verdadeiro e sem nenhuma baixa. Saul e seu exército realmente não querem lutar, nem os filisteus. É mais fácil compreender a relutância dos filisteus. Eles empregam tanto o aço quanto o bronze em seus instrumentos de guerra. Eles têm carros, por exemplo (ver 13:5), mas estes são projetados para um solo relativamente nivelado, não para a encosta de montanhas - estes veículos não são “para todo tipo de terreno”. Também não é fácil para um soldado com uma proteção tão pesada quanto a de Golias lutar com agilidade e facilidade enquanto se esforça para manter o equilíbrio na encosta de uma montanha. O perigo de lutar nesses terrenos acidentados é claramente expresso mais tarde em II Samuel. Quando as forças leais a Davi saem para lutar contra Absalão e seu exército, mais guerreiros das forças rebeldes são mortos por causa do terreno do que pelos soldados de Davi:

“Porque aí se estendeu a batalha por toda aquela região; e o bosque, naquele dia, consumiu mais gente do que a espada.” (II Sam. 18:8)

Ainda que os filisteus superem os israelitas em número e em armas, o terreno é tal que dificulta em muito a sua investida, da mesma maneira que o inverno dificultou as investidas militares na Europa no passado. Nenhum dos dois lados parece querer uma batalha de verdade, e assim, o desafio de Golias é uma espécie de chamariz, se ele puder encontrar alguém disposto a lutar com ele.

O Vilão e o Vitorioso
(17:4-16)

“Então, saiu do arraial dos filisteus um homem guerreiro, cujo nome era Golias, de Gate, da altura de seis côvados e um palmo. Trazia na cabeça um capacete de bronze e vestia uma couraça de escamas cujo peso era de cinco mil siclos de bronze. Trazia caneleiras de bronze nas pernas e um dardo de bronze entre os ombros. A haste da sua lança era como o eixo do tecelão, e a ponta da sua lança, de seiscentos siclos de ferro; e diante dele ia o escudeiro. Parou, clamou às tropas de Israel e disse-lhes: Para que saís, formando-vos em linha de batalha? Não sou eu filisteu, e vós, servos de Saul? Escolhei dentre vós um homem que desça contra mim. Se ele puder pelejar comigo e me ferir, seremos vossos servos; porém, se eu o vencer e o ferir, então, sereis nossos servos e nos servireis. Disse mais o filisteu: Hoje, afronto as tropas de Israel. Dai-me um homem, para que ambos pelejemos. Ouvindo Saul e todo o Israel estas palavras do filisteu, espantaram-se e temeram muito. Davi era filho daquele efrateu de Belém de Judá cujo nome era Jessé, que tinha oito filhos; nos dias de Saul, era já velho e adiantado em anos entre os homens. Apresentaram-se os três filhos mais velhos de Jessé a Saul e o seguiram à guerra; chamavam-se: Eliabe, o primogênito, o segundo, Abinadabe, e o terceiro, Samá. Davi era o mais moço; só os três maiores seguiram Saul. Davi, porém, ia a Saul e voltava, para apascentar as ovelhas de seu pai, em Belém. Chegava-se, pois, o filisteu pela manhã e à tarde; e apresentou-se por quarenta dias.”

É possível que Golias seja o comandante das forças filistéias, mas não vejo razão convincente para pensar assim. Ele não é mencionado nos três primeiros versos do capítulo 17 e parece ter surgido somente depois de um prolongado impasse entre os dois exércitos. Quando ele é apresentado, não é como rei dos filisteus, nem como seu comandante em chefe, mas como um “campeão”. Por isso, estou inclinado a pensar que, enquanto o impasse continua, Golias aproveite a oportunidade para se aproximar dos israelitas, passando por suas próprias tropas e apresentando-se abertamente como um alvo convidativo a qualquer um suficientemente ousado para “vir e pegá-lo”.

Golias parece falar por todo o exército filisteu quando propõe uma solução para o impasse entre os dois exércitos. Se ele vencer, isto lhe dará grande prazer (ele parece amar uma boa briga e o fato de ainda estar vivo testemunha que não perdeu nenhuma disputa), e uma vantagem real para os filisteus. No entanto, enquanto a oferta for mantida, se pelo menos um único israelita se opuser a Golias e vencê-lo, Israel obterá a vitória sobre todo o exército filisteu. Desta forma, a perda de apenas uma vida seria necessária para determinar o exército vitorioso.

Durante esses 40 dias parece que os israelitas ficam cada vez mais receosos e relutantes em aceitar o desafio de Golias. Enquanto isso, ele parece ficar cada vez mais ousado. Duas vezes ao dia (de manhã e à tarde) ele se aproxima da linha de frente israelita e desafia qualquer guerreiro corajoso a sair e lutar com ele. Até posso imaginar que, à medida que os dias passem, Golias se torne cada vez mais arrogante, talvez chegando mais e mais perto (e os israelitas fugindo toda vez que ele o faz - ver 17:24). A princípio, sua oferta é um desafio, depois parece se tornar um insulto. Ele está tentando incitar os israelitas a tomarem uma atitude.

Este desafio é fácil para Golias. Afinal, esse camarada é um gigante. Ele mede “seis côvados e um palmo” (verso 4), o que o faz ter quase 3 metros de altura. Se hoje ele fosse um jogador de basquete, poderia “enterrar” a bola sem tirar os pés do chão! Se sua altura não for suficiente para aterrorizar os israelitas, sua armadura deve dar arrepios na espinha. Já ouvi falar de mulheres “bem vestidas”, mas Golias manda sua mensagem justamente pelo modo como está equipado. Ele usa um capacete de bronze e uma couraça que pesa cerca de 60 kg, e suas pernas também estão protegidas por caneleiras. Ele carrega um dardo de bronze entre os ombros e tem uma lança tão pesada que alguns precisariam de um amigo para pegar uma das extremidades e ajudar a carregá-la. A ponta da lança pesa cerca de 7 kg, segundo algumas estimativas, e outros sugerem ainda mais. Além de todo esse equipamento de proteção usado ou carregado por Golias, ele tem um escudeiro que vai à sua frente levando seu escudo.

Os israelitas levam a sério o desafio de Golias. Eles e seu rei estão apavorados por causa do gigante filisteu. Eles estão tão assustados que ninguém se dispõe a aceitar o desafio de Golias. Ninguém quer enfrentar o gigante. De manhã e à tarde, durante 40 dias, Golias tenta provocar alguém para que lute com ele, e aterroriza os que não aceitam.

Golias, o campeão filisteu, é descrito nos versos 4 a 11 por sua elevada estatura física e sua impressionante e ofensiva armadura. Davi, o futuro oponente de Golias, é apresentado nos versos 12 a 15 com uma descrição bem diferente. Nada é dito sobre sua estatura, sua força ou suas armas. Simplesmente é dito que ele é o mais novo dos oito filhos de Jessé, o efrateu de Belém de Judá. Muito mais é dito a respeito de Jessé, que é um homem já muito velho nos dias de Saul (verso 12). Também é dito que os três irmãos mais velhos de Davi (os mesmos mencionados em 16:6-9) foram à guerra com Saul, e que Davi é deixado em casa para apascentar as ovelhas, salvo quando precisa viajar para servir como ministro de música para Saul (ver 16:14-23).

Por que esta ênfase “familiar” na descrição de Davi, quando Golias é descrito em termos de sua assombrosa aparência, armas e agressividade? Há muitas razões. Primeira, não é a aparência de Davi que faz com que Deus o escolha, mas seu coração, seu caráter. Segundo, para que Davi seja reconhecido como alguém de cuja descendência algum dia virá o Messias, ele precisa ser da tribo de Judá (ver Gn. 49:8-12), e deve ser de Belém (ver Mq. 5:2). Ser o mais novo da família explica a razão pela qual ele é designado para apascentar as ovelhas, e também a razão pela qual seu pai idoso o envia para entregar comida a seus irmãos e trazer notícias de seu bem-estar. É também outro exemplo de como Deus muitas vezes reverte a maneira dos homens, a qual, aqui, seria escolher o filho mais velho de Jessé, não o mais novo.

Davi Visita Seus Irmãos na Batalha
(17:17-25)

“Disse Jessé a Davi, seu filho: Leva, peço-te, para teus irmãos um efa deste trigo tostado e estes dez pães e corre a levá-los ao acampamento, a teus irmãos. Porém estes dez queijos, leva-os ao comandante de mil; e visitarás teus irmãos, a ver se vão bem; e trarás uma prova de como passam. Saul, e eles, e todos os homens de Israel estão no vale de Elá, pelejando com os filisteus. Davi, pois, no dia seguinte, se levantou de madrugada, deixou as ovelhas com um guarda, carregou-se e partiu, como Jessé lhe ordenara; e chegou ao acampamento quando já as tropas saíam para formar-se em ordem de batalha e, a gritos, chamavam à peleja. Os israelitas e filisteus se puseram em ordem, fileira contra fileira. Davi, deixando o que trouxera aos cuidados do guarda da bagagem, correu à batalha; e, chegando, perguntou a seus irmãos se estavam bem. Estando Davi ainda a falar com eles, eis que vinha subindo do exército dos filisteus o duelista, cujo nome era Golias, o filisteu de Gate; e falou as mesmas coisas que antes falara, e Davi o ouviu. Todos os israelitas, vendo aquele homem, fugiam de diante dele, e temiam grandemente, e diziam uns aos outros: Vistes aquele homem que subiu? Pois subiu para afrontar a Israel. A quem o matar, o rei o cumulará de grandes riquezas, e lhe dará por mulher a filha, e à casa de seu pai isentará de impostos em Israel.”

Nos versos 4 a 30 há um claro contraste entre o jeito como Golias vem para o combate e a maneira como Davi se apresenta para enfrentá-lo. A figura marcante de Golias é previsível, até mesmo esperada. Ele é um soldado experiente, um lutador arrogante (se não corajoso), um campeão cuja função é lutar no território entre os exércitos oponentes. Davi está envolvido nesta batalha de uma forma diferente. Jamais esperaríamos isto dele e, provavelmente, nem ele. Ele nem mesmo está no exército. Seus três irmãos mais velhos estão, mas há ainda outros quatro que são mais velhos do que ele e que também não estão lutando. Davi é o mais novo de oito filhos. Seu trabalho é tocar harpa para Saul e apascentar as ovelhas de seu pai. Quem poderia imaginar que ele acabaria aceitando o desafio de Golias?

A chegada de Davi à cena do conflito não é conseqüência de sua própria iniciativa. Ele está mais do que ocupado cuidando de Saul e das ovelhas de seu pai (verso 15). Seus três irmãos mais velhos estão lutando contra os filisteus poucas milhas a oeste e, aparentemente, já faz algum tempo que Jessé recebeu alguma notícia deles. Devido à sua idade avançada, Jessé não pode viajar para muito longe; portanto, ele chama Davi e o instrui a ir ao acampamento do exército israelita. Aparentemente, o propósito de sua visita é levar alguns suprimentos para seus irmãos e seu comandante (versos 17-18). No entanto, sente-se que o que Jessé mais deseja é ter notícias em primeira mão sobre o rumo das coisas e sobre seus filhos.

Estou certo de que Jessé não deseja colocar seu filho mais novo em perigo. Creio que ele espera que Davi chegue enquanto os soldados estão no acampamento, não na frente de batalha. Ele quer que Davi entregue os suprimentos, fale diretamente com seus irmãos, e depois se apresse em voltar prá casa com as notícias, sem se envolver na luta. Simplesmente não acontece desse jeito. Deus providencialmente orquestra os fatos para que ocorra uma série de acontecimentos bem diferentes.

Depois de cuidar para que alguém tomasse conta de seu rebanho de ovelhas, Davi parte logo cedo, viajando aproximadamente 12 milhas para oeste, rumo ao acampamento israelita. Se ele tivesse chegado alguns minutos antes, as coisas poderiam ter sido bem diferentes. Ele teria encontrado seus irmãos ainda no acampamento, onde simplesmente lhes teria dado os suprimentos enviados por Jessé, perguntado sobre seu bem-estar e depois iniciado a volta para casa antes que eles fossem para a frente de batalha.

Mas Davi chega justamente quando os soldados israelitas estão deixando o acampamento e indo apressadamente para a linha de frente, dando um impressionante grito de guerra enquanto atacam - aproximando-se, mas nem tanto, dos filisteus. Davi tem pouca opção, a não ser deixar a comida que trouxe de casa com o soldado que está na retaguarda com os suprimentos, e ir atrás de seus irmãos na frente de batalha. Ali ele encontra os irmãos e, enquanto conversa com eles, Golias se adianta para repetir seu desafio pela 41ª vez. Golias diz o de sempre, mas esta é a primeira vez que Davi o ouve. Ele ouve o desafio do gigante e sua blasfêmia contra Israel e seu Deus. Ele vê os apavorados israelitas (incluindo seus irmãos) baterem em retirada, sua coragem estraçalhada pelas palavras e pela aparência deste homem.

Providencialmente, alguns soldados israelitas conversam com Davi ou, pelo menos, conversam na sua frente. As palavras que ele ouve o pegam totalmente desprevenido, tanto que ele pede que sejam repetidas e confirmadas diversas vezes por diversas pessoas. Todos dizem a mesma coisa, que o rei Saul expediu um edito convocando voluntários para lutar com Golias, e que também ofereceu uma recompensa substancial ao homem que se apresentasse e aceitasse o desafio. Saul promete dar a essa pessoa grandes riquezas, assim como uma de suas filhas por esposa. Ele também promete isentar de impostos a família do pai do voluntário.

Admito que é mera especulação, mas não creio que esta tríplice oferta seja feita de uma só vez. Creio que tenha sido feita de modo progressivo. Você já esteve no portão de embarque de um aeroporto prestes a embarcar, quando o atendente anuncia que o vôo está com excesso de reservas? A princípio, a companhia aérea pode oferecer US$ 100 de crédito a quem se dispor a ceder seu assento. Depois, se ainda forem necessários outros assentos, a companhia aumenta a oferta. E então, a pessoa que devolve sua passagem recebe um crédito de US$ 200. Finalmente, se ainda for necessário, a companhia oferece passagens grátis de ida e volta para qualquer lugar do país.

Acho que é isto que Saul faz. Ele não está disposto a enfrentar Golias pessoalmente, por isso convoca um voluntário. Ninguém se apresenta. Então ele oferece uma quantia substancial em dinheiro (ou terras, ou o que quer que seja em forma de riqueza) a qualquer voluntário. Ninguém ainda. Poucos dias depois, Saul lança a oferta de uma de suas filhas como esposa - sem voluntários. Finalmente, ele acrescenta mais um benefício ao pacote - ele isentará de impostos a família do homem. Eis um negócio que Saul acha irrecusável.

Davi também acha irrecusável. Quando fica sabendo o que está sendo oferecido por Saul, ele acha tão incrível que pede a confirmação de diversas pessoas antes de acreditar. Em minha opinião, Davi não é totalmente motivado pelo que é oferecido. Pelo contrário, ele fica espantado que tal oferta tenha sido feita, pois espera que um verdadeiro soldado aproveite a oportunidade - o privilégio - de enfrentar Golias. Afinal, este homem está afrontando o povo de Deus e, portanto, o próprio Deus. Davi está certo de que Deus dará a vitória àquele que lutar com Golias. É batata! E além da grande honra e do privilégio de lutar com Golias, o rei está oferecendo todos estes prêmios! Não dá para entender. Davi pergunta mais e mais vezes para ter certeza de que ouviu corretamente. É alguma pegadinha? Por que será que ninguém quer aceitar a oferta de Saul?

A Discussão de Davi com Eliabe
(17:28-30)

“Ouvindo-o Eliabe, seu irmão mais velho, falar àqueles homens, acendeu-se-lhe a ira contra Davi, e disse: Por que desceste aqui? E a quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto? Bem conheço a tua presunção e a tua maldade; desceste apenas para ver a peleja. Respondeu Davi: Que fiz eu agora? Fiz somente uma pergunta. Desviou-se dele para outro e falou a mesma coisa; e o povo lhe tornou a responder como dantes.”

A maioria das pessoas pensa que o milagre deste capítulo seja a derrota de Golias por Davi. Embora seja um grande milagre, não vamos nos esquecer que muitos obstáculos precisam ser superados antes que Davi possa confrontar Golias. O primeiro é a sua situação. Ele é jovem e nem mesmo está no exército de Saul. Ele é um jovem pastor que cuida do rebanho de seu pai a algumas milhas do lugar onde os dois exércitos estão frente a frente. Além de Golias, Davi também precisa passar por seu irmão mais velho, Eliabe, e por Saul. Ele precisa primeiro obter permissão oficial para entrar em combate com Golias no campo de batalha. O primeiro obstáculo está em vias de ser removido. Agora Davi está tratando do segundo obstáculo – seu irmão mais velho, Eliabe – nos versos 28 a 30.

Vamos relembrar as palavras de Eliabe a Davi à luz daquilo que já aprendemos sobre ele no capítulo 16. Eliabe é o mais velho dos oito filhos de Jessé; Davi é o mais novo. Eliabe deve ser “alto, moreno e bonito”, pois Samuel espera que ele seja ungido rei de Israel. Eliabe é rejeitado (junto com os outros seis irmãos mais velhos de Davi), porque Deus não escolherá o rei com base na aparência, mas com base num coração segundo o Seu próprio coração (13:14; 16:7). Eliabe não possui o “coração” que Davi possui. Além disso, Samuel ungiu Davi na presença de seus irmãos (16:13) para que Eliabe soubesse de sua eleição como rei.

Perto do final do capítulo 17, Eliabe não está com boa cara. Quando ouve Davi perguntando a alguns de seus companheiros de batalha sobre as recompensas oferecidas por Saul ao homem que derrotar Golias, Eliabe fica extremamente irado e descarrega sua raiva em Davi. Primeiro ele o acusa de vir ao campo de batalha pelos motivos errados. Especificamente, ele acusa Davi de querer ser um espectador da peleja por pura diversão, não muito diferente de ir a um circo. Ou ele não sabe que Davi veio em obediência às instruções de seu pai ou mentalmente põe isso de lado. Depois, ele ataca Davi acusando-o de deixar suas responsabilidades com relação ao seu trabalho de cuidar das ovelhas de seu pai. Ele acusa Davi de abandonar o rebanho e junta um insulto à injúria, acrescentando a palavra “poucas” (“poucas ovelhas”, verso 28), sugerindo que a tarefa de Davi não é apenas doméstica (cuidar de ovelhas), mas também banal (só umas “poucas ovelhas”). Na verdade, Davi não negligenciou seu rebanho, mas assegurou-se de que alguém cuidasse dele na sua ausência (verso 20). No entanto, o pior de tudo é que Eliabe ousa julgar o coração de seu irmão mais novo, acusando-o de agir com maldade.

Ironicamente, em todas as áreas em que Eliabe acusa Davi, seu irmão mais novo não é somente inocente, mas é digno de elogio. Davi vem ao campo de batalha para trazer comida a seus irmãos e levar notícias deles a seu pai - ele vem em obediência às instruções de seu pai. Davi não abandonou seu rebanho; ele se assegurou de que alguém cuidasse dele enquanto estivesse ausente. Davi não é culpado de ter um coração maléfico; ele é escolhido por Deus porque é “um homem segundo o coração de Deus”. E Davi não deve ser tratado com desrespeito, uma vez que em breve será o rei de Israel (e isto inclui Eliabe).

Examinando todas as acusações de Eliabe, o ponto principal é: a juventude de Davi. Davi é acusado de vir à cena da batalha por curiosidade infantil. Isto é injusto. É acusado de abandonar suas responsabilidades como faria uma criança, e também é acusado da insolência e maldade que as crianças são capazes. Que ousadia Davi vir e levantar questões pertinentes ao pedido de Saul e ao desafio de Golias!

Se Davi tivesse voltado direto para casa e desse ao seu pai um relato honesto e completo sobre a guerra e a conduta de seus irmãos mais velhos, o que ele teria dito a Jessé? Teria relatado que absolutamente nenhum progresso tinha sido feito para derrotar os filisteus, e que Eliabe, Abinadabe e Samá correram como covardes quando Golias se aproximou. Teria que dizer a seu pai que, ao trazer à baila a questão do voluntário para lutar com Golias, foi severamente “cortado” por seu irmão mais velho. Não é interessante que a arrogância e as blasfêmias de Golias são minimizadas por Eliabe, enquanto Davi é falsamente acusado de maldade por fazer e falar o que é certo?

Davi talvez fique aflito e desapontado pelas cruéis palavras acusatórias de seu irmão, mas não é barrado por elas. Ele responde a seu irmão e o desafia a ser específico quanto aos erros que cometeu, dizendo o que ele fez. Ele parece insistir que o assunto sobre o qual está falando não é inadequado. Sobre o que mais alguém deveria conversar, a não ser sobre enfrentar Golias e ir buscar a recompensa oferecida por Saul? Assim, Davi continua o que estava fazendo - perguntando àqueles ao seu redor se o seu entendimento sobre a oferta de Saul é correto.

Davi e o Golias de Golias (Saul)
(17:31-39)

“Ouvidas as palavras que Davi falara, anunciaram-nas a Saul, que mandou chamá-lo. Davi disse a Saul: Não desfaleça o coração de ninguém por causa dele; teu servo irá e pelejará contra o filisteu. Porém Saul disse a Davi: Contra o filisteu não poderás ir para pelejar com ele; pois tu és ainda moço, e ele, guerreiro desde a sua mocidade. Respondeu Davi a Saul: Teu servo apascentava as ovelhas de seu pai; quando veio um leão ou um urso e tomou um cordeiro do rebanho, eu saí após ele, e o feri, e livrei o cordeiro da sua boca; levantando-se ele contra mim, agarrei-o pela barba, e o feri, e o matei. O teu servo matou tanto o leão como o urso; este incircunciso filisteu será como um deles, porquanto afrontou os exércitos do Deus vivo. Disse mais Davi: O SENHOR me livrou das garras do leão e das do urso; ele me livrará das mãos deste filisteu. Então, disse Saul a Davi: Vai-te, e o SENHOR seja contigo. Saul vestiu a Davi da sua armadura, e lhe pôs sobre a cabeça um capacete de bronze, e o vestiu de uma couraça. Davi cingiu a espada sobre a armadura e experimentou andar, pois jamais a havia usado; então, disse Davi a Saul: Não posso andar com isto, pois nunca o usei. E Davi tirou aquilo de sobre si.”

Se for do jeito de Eliabe, Davi voltará para casa humilhado. Felizmente para Israel, Davi não fica arrasado e nem é dissuadido pela sarcástica repreensão de seu irmão, que tenta “podá-lo”. Eliabe poderia ter ordenado que ele fosse para casa, se Saul não tivesse ouvido sobre o interesse de Davi em seu programa de incentivos para enfrentar Golias. Sem levar Eliabe em consideração, Saul convoca Davi, cujas primeiras palavras ao rei são piedosas e animadoras:

“Não desfaleça o coração de ninguém por causa dele; teu servo irá e pelejará contra o filisteu.” (v. 32)

Embora o sentido das palavras de Davi vá muito além de Saul, o foco principal está sobre ele, pois está apavorado com a presença agourenta de Golias e dos filisteus. Davi bondosamente e, um tanto indiretamente, encoraja Saul a não temer. Ele fala isto porque está disposto a ir e lutar com Golias. Ele está disposto a fazer aquilo que nem Saul, nem qualquer outro soldado em Israel, está disposto a fazer - lutar com Golias.

Antes de considerar a fé de Davi, vamos ponderar por alguns instantes sobre os temores de Saul. Sou forçado a concluir que ele, por natureza, não é nenhum pouco corajoso. Seu pai foi “um homem de bens” (9:1), mas o mesmo não é dito a seu respeito. Saul é aquele que se esconde entre a bagagem quando é indicado para ser rei de Israel (10:22). Quando o Espírito desce sobre ele, ele se torna um novo homem, com um novo coração (10:9). Davi parece ser um homem segundo o coração de Deus antes mesmo do Espírito Santo descer sobre ele. Quando enfrenta a oposição dos filisteus, Saul é passivo, não ofensivo, embora a luta contra os filisteus seja uma parte significativa de seu chamado como rei (9:16). Somente quando o Espírito de Deus desce poderosamente sobre ele, Saul parece agir decisivamente contra seus inimigos (11:6). Por natureza, de maneira alguma Saul é corajoso; somente no Espírito ele é um verdadeiro líder.

Assim dizendo, devo admitir que sinto certa compaixão (ou pelo menos pena) de Saul. De diversas formas, sua recusa em lutar com Golias (individual ou coletivamente) é totalmente lógica. Afinal, disseram-lhe que seu reinado estava praticamente no fim (13:13-14; 15:23). Samuel o deixou, não vendo sua face novamente (15:35). E o Espírito de Deus se apartou dele, sendo substituído por um “espírito maligno da parte do Senhor” (16:14). Acho que eu também não estaria fazendo qualquer coisa perigosa ou corajosa.

Davi é um homem intrépido e, até aqui, o único israelita com coragem no campo de batalha. Onde ele a consegue? Deixe-me sugerir algumas fontes. Primeiro, sua coragem tem origem em sua teologia - seu entendimento de Deus. Ele é “um homem segundo o coração de Deus” (13:14, 16:7). Uma pessoa não pode ser um “homem segundo o coração de Deus” a menos que conheça o Seu coração, e isto só ocorre quando se entende Deus por meio de Sua Palavra (veja, por exemplo, o Salmo 119). Davi conhece a Deus não só de forma histórica (como Deus libertou Israel no passado) e teológica, mas também de forma prática, como em breve irá demonstrar a Saul.

Davi age como um rei de Israel deveria agir. Ele precisa confiar em Deus, incentivar seus colegas israelitas a fazer o mesmo, e derrotar os inimigos de Deus, especialmente os filisteus. Quando ele foi ungido como o futuro rei de Israel (capítulo 16), deve ter gasto um bom tempo meditando no significado destas coisas, bem parecido com o que Maria faria séculos depois (ver Lucas 2:19, 51). O que significa ser rei de Israel? O que ele deve fazer como rei? Suas ações no dia em que ele enfrenta Golias, sem dúvida, são conseqüências de suas meditações. Este jovem não é um soldado, e alguns diriam até que ele é jovem demais para lutar, mas Davi é providencialmente colocado numa situação em que precisa confiar em Deus e obedecer à Sua Palavra, ou então acovardar-se em incredulidade e desobediência, como Saul e os demais.

Saul dá a Davi todas as oportunidades para arranjar uma desculpa e voltar para a casa de seu pai e suas ovelhas, sem culpa ou vergonha. Há certa bondade em suas palavras quando tenta convencê-lo a não lutar com Golias. Ele não diz que Davi é muito pequeno para lutar, mas que é muito jovem e, por isso, inexperiente. Golias é um campeão maduro, com muitos anos de experiência em combates. Davi é apenas um garoto, sem nenhuma experiência. Ou pelo menos é isto que Saul supõe; no entanto, Davi diz o contrário, com tanta convicção que Saul permite que ele represente Israel na luta contra Golias.

Davi é jovem, mas seu dever, aparentemente banal, de cuidar de um pequeno rebanho de ovelhas o preparou muito bem para lutar com Golias. Eliabe jamais esteve tão errado a seu respeito, como demonstram as palavras de Davi a Saul. Esta manhã, junto com seus irmãos, Davi vê e ouve o que qualquer outro soldado israelita vê e ouve na frente de batalha. A diferença é que o que ele vê é muito parecido com as coisas que já enfrentou como pastor. Golias é forte e poderoso, capaz de destruir um homem? Leões e ursos também, e Davi os derrubou e matou. Poucas criaturas são mais assustadoras quando rugem do que um urso ou um leão (ver I Pe. 5:8). Ao desempenhar seus deveres como pastor Davi matou tanto ursos quanto leões (versos 34-36).

Quando Davi arrisca sua vida para salvar uma ovelha que está sob seus cuidados, Deus o salva. Será que ele está preocupado por ter que enfrentar Golias? Não, pois o Deus que o salvou das garras do leão e das garras do urso também o salvará das mãos de Golias. Repare que Davi fala em ser salvo das “mãos” ou das “garras” de um leão ou urso, não das “presas”. Isto porque a fera tinha um cordeiro em sua boca e não queria soltá-lo, tendo que lutar com Davi com suas patas e garras. Golias não representa nenhuma ameaça e, uma vez que Davi, com a ajuda de Deus, destruiu com suas próprias mãos o leão e urso que rugiam, ele também pode destruir os filisteus que urram. Golias fala (urra) de um jeito que assusta as forças israelitas? Ele não assusta Davi. Davi já viu isso antes.

Creio que a fé de Davi em Deus seja contagiosa e que Saul, de alguma forma, crê que haja uma boa chance de ele prevalecer contra Golias. Saul lhe dá permissão para lutar e lhe oferece sua armadura. A armadura não é uma boa idéia, e Davi a recusa, mas ela é uma forte implicação de que Davi luta com Golias em lugar de Saul, como representante oficial do exército israelita. Se for esse o caso, a vitória de Davi deve ser a vitória de Israel (o que acabará sendo). Caso contrário, sua derrota irá parecer a derrota de Israel, pelo menos nos termos especificados por Golias (ver versos 8 e 9). Davi não está travando esta luta sozinho. Ele está lutando por Deus, por Saul e por todo o povo de Israel.

Não quero ser muito prolixo a respeito da armadura de Saul, a qual ele oferece a Davi. Pode parecer, pelo menos à distância (e para aqueles mal informados), que é Saul quem esteja saindo contra Golias. Afinal, quem mais tem uma armadura como a dele? Isto também sugere que Davi não pode ser tão pequeno em estatura, ou a armadura nem mesmo serviria nele. Ele a coloca e depois a tira, porque não sabe lutar com ela - em suas palavras, ele nunca a “usou”. Davi irá contra Golias com as mesmas armas que costuma usar, aquelas que Deus lhe deu habilidade para usar.

Davi e Golias
(17:40-54)

“Tomou o seu cajado na mão, e escolheu para si cinco pedras lisas do ribeiro, e as pôs no alforje de pastor, que trazia, a saber, no surrão; e, lançando mão da sua funda, foi-se chegando ao filisteu. O filisteu também se vinha chegando a Davi; e o seu escudeiro ia adiante dele. Olhando o filisteu e vendo a Davi, o desprezou, porquanto era moço ruivo e de boa aparência. Disse o filisteu a Davi: Sou eu algum cão, para vires a mim com paus? E, pelos seus deuses, amaldiçoou o filisteu a Davi. Disse mais o filisteu a Davi: Vem a mim, e darei a tua carne às aves do céu e às bestas-feras do campo. Davi, porém, disse ao filisteu: Tu vens contra mim com espada, e com lança, e com escudo; eu, porém, vou contra ti em nome do SENHOR dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado. Hoje mesmo, o SENHOR te entregará nas minhas mãos; ferir-te-ei, tirar-te-ei a cabeça e os cadáveres do arraial dos filisteus darei, hoje mesmo, às aves dos céus e às bestas-feras da terra; e toda a terra saberá que há Deus em Israel. Saberá toda esta multidão que o SENHOR salva, não com espada, nem com lança; porque do SENHOR é a guerra, e ele vos entregará nas nossas mãos. Sucedeu que, dispondo-se o filisteu a encontrar-se com Davi, este se apressou e, deixando as suas fileiras, correu de encontro ao filisteu. Davi meteu a mão no alforje, e tomou dali uma pedra, e com a funda lha atirou, e feriu o filisteu na testa; a pedra encravou-se-lhe na testa, e ele caiu com o rosto em terra. Assim, prevaleceu Davi contra o filisteu, com uma funda e com uma pedra, e o feriu, e o matou; porém não havia espada na mão de Davi. Pelo que correu Davi, e, lançando-se sobre o filisteu, tomou-lhe a espada, e desembainhou-a, e o matou, cortando-lhe com ela a cabeça. Vendo os filisteus que era morto o seu herói, fugiram. Então, os homens de Israel e Judá se levantaram, e jubilaram, e perseguiram os filisteus, até Gate e até às portas de Ecrom. E caíram filisteus feridos pelo caminho, de Saaraim até Gate e até Ecrom. Então, voltaram os filhos de Israel de perseguirem os filisteus e lhes despojaram os acampamentos. Tomou Davi a cabeça do filisteu e a trouxe a Jerusalém; porém as armas dele pô-las Davi na sua tenda.”

A ironia deste incidente é que a armadura de Davi (ou a falta dela) parece “desarmar” Golias. Eis um homem cujo ego parece tão grande ou maior do que sua estrutura. Ele é arrogante, orgulhoso e blasfemo. Ele desafia os israelitas a lhe enviar seu melhor guerreiro, e o vencedor leva tudo. Você pode imaginar que choque para Golias e seu ego quando Davi aparece? Eis aqui um jovem sem nenhuma proteção e, aparentemente, sem nenhuma arma ofensiva. Davi leva uma funda, mas ainda não colocou nela uma pedra, por isso, com certeza, não parece ameaçador. O que Golias vê é o cajado que Davi leva nas mãos. Ele parece concluir que esta seja sua única arma. Ainda hoje as pessoas carregam pedaços de pau - para afastar cachorros inoportunos. Será que é por isso que Davi carrega seu cajado, para tratar Golias como a um cachorro? Golias profere maldições pelos seus deuses (verso 43). Ele é de Gate; será que ele sabe como Deus tratou seu “deus” Dagon?

Que insulto para Golias mandarem um rapazinho sem nenhuma armadura e com um pedaço de pau! É assim que o levam a sério? Será que fazem tão pouco de suas habilidades que mandam alguém como este? Golias é louco e, com certeza, pretende matar Davi e dar sua carcaça como alimento às aves do céu e às bestas do campo (verso 44). Será que a ameaça também pretende intimidar Davi? Não. De qualquer forma, isto confirma a fé de Davi. A imagem do cadáver de um inimigo alimentando as aves e as feras não começou com Golias:

“O SENHOR te fará cair diante dos teus inimigos; por um caminho, sairás contra eles, e, por sete caminhos, fugirás diante deles, e serás motivo de horror para todos os reinos da terra. O teu cadáver servirá de pasto a todas as aves dos céus e aos animais da terra; e ninguém haverá que os espante.” (Dt. 28:25-26)

Deus usou esta expressão para descrever o destino dos israelitas que rejeitarem Sua Palavra, mas a imagem também pode ser empregada com relação aos inimigos de Deus, quem quer que sejam (ver Jr. 7:33; 15:3; 16:4; 19:7; 34:20; Ez. 29:5). Golias espera assustar Davi, ameaçando matá-lo e dar seu corpo como alimento às aves e às feras? Simplesmente ele relembra a Davi a promessa de Deus com relação a Seus inimigos. É por isso que Davi pode reverter sua maldição:

“Hoje mesmo, o SENHOR te entregará nas minhas mãos; ferir-te-ei, tirar-te-ei a cabeça e os cadáveres do arraial dos filisteus darei, hoje mesmo, às aves dos céus e às bestas-feras da terra; e toda a terra saberá que há Deus em Israel.” (I Sam. 17:46)

Não é o corpo de Davi que virará comida de passarinho neste dia, mas o de Golias. Davi deixa bem claro que sua disputa com Golias não é apenas uma questão pessoal - Davi luta com ele para a glória de Deus, e a favor da nação de Israel. Sua vitória será uma lição para todos de que “a batalha é do Senhor”, da mesma forma que a vitória (verso 47).

Isto faz Golias se mover. Davi não espera que Golias venha até ele. Em vez disto, ele corre em sua direção, pegando uma das cinco pedras na corrida, colocando-a na funda e depois girando enquanto se dirige para o gigante. Você pode imaginar Davi, a esta altura, tentando correr com a armadura de Saul, esperando desferir um golpe fatal contra Golias quando nem mesmo pode estender o braço acima dos ombros com uma espada? A funda é a arma perfeita. Golias está atrás do escudo carregado por seu escudeiro. Ele está protegido dos pés à cabeça, com uma abertura apenas ao redor dos olhos para que possa ver. Esta é a parte exposta de seu corpo. Este é o alvo de Davi, que ele acerta em cheio, ouso dizer, enquanto corre. A pedra se encrava na cabeça de Golias, derrubando-o como a uma árvore. Davi corre para ele, arranca a espada do corpo inerte e corta sua cabeça com ela. Agora o inimigo é comida de passarinho.

Este momento deve ter sido angustiante, quando o mundo todo parecia imóvel e em silêncio. Por alguns instantes os filisteus ficam paralisados, as mentes em disparada tentando captar o que acaba de acontecer diante de seus olhos, enquanto começam a perceber suas implicações. O mesmo deve ser verdade para os soldados israelitas. E então, depois de um instante de paralisia, os filisteus batem em retirada. Com a perda de seu campeão, toda coragem e vontade de lutar vão embora. Os soldados israelitas aproveitam a ocasião e vão atrás dos inimigos que batem em retirada. Não há lugar melhor para lutar com o inimigo como pela retaguarda, onde não existe proteção e o peso da armadura atrapalha sua fuga. Armadura, espada, qualquer coisa que retarde a fuga do inimigo, é deixada prá trás. Os corpos dos filisteus ficam espalhados desde o campo de batalha até os portões de suas cidades. E no caminho de volta os soldados israelitas voltam carregados dos despojos saqueados dos campos filisteus. Davi parece carregar somente a cabeça do filisteu, junto com suas armas, as quais ele temporariamente coloca em sua tenda.

Uma Passagem Problemática
(17:55-58)

“Quando Saul viu sair Davi a encontrar-se com o filisteu, disse a Abner, o comandante do exército: De quem é filho este jovem, Abner? Respondeu Abner: Tão certo como tu vives, ó rei, não o sei. Disse o rei: Pergunta, pois, de quem é filho este jovem. Voltando Davi de haver ferido o filisteu, Abner o tomou e o levou à presença de Saul, trazendo ele na mão a cabeça do filisteu. Então, Saul lhe perguntou: De quem és filho, jovem? Respondeu Davi: Filho de teu servo Jessé, belemita.”

Esta passagem apresenta alguns problemas para os estudiosos. Pode parecer que Saul não conhece Davi e, portanto, não saiba quem seja ele. Devemos começar mostrando o que a pergunta de Saul não é: “Quem é este jovem?”, e sim “De quem é filho este jovem?” Porque deveríamos supor que uma vez que Saul conhece Davi ele também conhece seu pai? No capítulo 16, mensageiros são enviados a Jessé para pedir que ele permita que Davi vá à casa de Saul e toque harpa para ele (16:19). Isto não requer que Saul saiba o nome do pai de Davi. Seus servos podem cuidar de todos os detalhes. Devemos também nos lembrar que Jessé é idoso e não pode viajar, razão pela qual Davi é enviado ao campo de batalha para perguntar sobre o bem-estar de seus irmãos (17:12, 17 e seguintes). Assim, Jessé e Saul, provavelmente, nunca se encontraram. Por que, então, é tão extraordinário que Saul pergunte o nome do pai de Davi, talvez para a papelada fiscal, se ele realmente for isentá-lo?

No capítulo 16, sabemos que Davi vai trabalhar para Saul (16:14-23), e no capítulo 17, somos relembrados deste fato (17:15). No capítulo 18, encontramos Davi tocando sua harpa para o atribulado Saul, como ele faz no capítulo 16 (18:10-12) - e também no capítulo 19 (19:9-10). É difícil evitar o fato de que Saul conhece Davi, apesar de não saber (ou pelo menos não se lembrar) do nome de seu pai, Jessé. Não é nenhuma surpresa que um rei não se lembre do nome do pai de um de seus empregados de meio período. Mesmo que esperássemos que Saul se lembrasse, nosso texto não levanta questões sobre a precisão da passagem, apenas sobre a precisão da memória de Saul. Confuso como Saul está, por que achamos isto estranho?

Entretanto, existe uma coisa nos versos 55 a 58 que deveria nos incomodar - não é a falta de memória de Saul, mas seu desinteresse pela batalha. Mostrei que no capítulo 14 ele está “debaixo de uma romãzeira” (verso 2), enquanto Jônatas, junto com seu escudeiro, está prestes a lutar com alguns filisteus. É como se Saul estivesse no lugar mais confortável em vez de estar no lugar mais estratégico (que é para onde Jônatas vai). Agora, no capítulo 17, Davi acabou de falar com Saul e está saindo para a batalha com Golias. Saul e seu comandante em chefe assistem de um cômodo lugar à distância. Se alguém deveria estar pronto para a batalha, deveria ser estes dois. Saul é aquele cujo dever é ir para a batalha adiante dos israelitas; Abner, “o comandante do exército”, também deve liderar a batalha. No entanto, os dois parecem observar de uma distância segura, enquanto Davi sai para arriscar sua vida.

Podemos comparar esta cena a um jogo de futebol (americano) entre o Dallas Cowboys e o San Francisco Forty-Niners. Olhamos para o campo e vemos grandes jogadores como Jerry Rice e Steve Young pelo San Francisco. Depois, vemos um zagueiro novato em linha pelos Cowboys, junto com outros zagueiros bem leves. Ao correr os olhos pelo estádio, vemos Troy Aikman e o treinador Barry Switzer sentados no banco, observando o jogo com binóculos e perguntando um ao outro o nome do pai do novato. Simplesmente não parece certo, parece?

Eis aqui Saul e Abner, de braços cruzados e a uma distância segura, conversando sobre o pai de Davi. Abner diz a Saul que não sabe. Saul diz a Abner para verificar. Enquanto isso Davi avança contra Golias. Quase posso ouvir Saul, virando-se para Abner, dizer: “passa a pipoca”. Quando Davi volta, depois de matar Golias, Abner o leva a Saul com a cabeça de Golias nas mãos. Saul então pergunta a Davi de quem ele é filho, e ele lhe diz que o nome de seu pai é Jessé, o belemita. Isto é ainda mais bizarro, não é? E quanto à batalha? Por que Saul e Abner não estão envolvidos nela? Como encontram tempo para conversar sobre coisas como o nome do pai de Davi numa hora como esta? Saul não é retratado sob uma luz muito favorável. Se alguém quiser se preocupar, é só pensar no que Saul e Abner estão fazendo, e no que não estão fazendo, em vez de se torturar sobre razão pela qual eles não se lembram do nome do pai de Davi, um homem que, provavelmente, nunca encontraram e cujo nome talvez jamais tenham ouvido.

Conclusão

Sabemos o que Davi considerava em seu coração quando Samuel o ungiu como futuro rei de Israel em lugar de Saul. Imagino que ele tenha se sentido tal como a virgem Maria quando o anjo Gabriel lhe disse que ela estava prestes a se tornar mãe do Messias prometido. Sua resposta foi: — Como será isto, pois não tenho relação com homem algum? (Lc. 1:34). Davi, da mesma forma, deve ter pensado: — Como posso me tornar rei de Israel, quando sou apenas um jovem que nem mesmo tem idade para estar no exército, e cuja única autoridade está sobre um pequeno rebanho de ovelhas? Os últimos versos do capítulo 16 começam a nos dizer como Deus realizará Sua vontade para Davi. O capítulo 17 é outra parte muito importante no plano para fazer dele um rei. É maravilhoso ver como Deus cuida em cumprir a Sua Palavra. E aquilo que Deus promete, Ele cumpre. Sua Palavra é certa.

Somos propensos a considerar a disputa entre Davi e Golias como algo extraordinário, extremamente incomum. E não é. Deus havia dado instruções bem específicas a respeito desses confrontos:

“Quando saíres à peleja contra os teus inimigos e vires cavalos, e carros, e povo maior em número do que tu, não os temerás; pois o SENHOR, teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, está contigo. Quando vos achegardes à peleja, o sacerdote se adiantará, e falará ao povo, e dir-lhe-á: Ouvi, ó Israel, hoje, vos achegais à peleja contra os vossos inimigos; que não desfaleça o vosso coração; não tenhais medo, não tremais, nem vos aterrorizeis diante deles, pois o SENHOR, vosso Deus, é quem vai convosco a pelejar por vós contra os vossos inimigos, para vos salvar.” (Dt. 20:1-4)

Alguns versos depois Deus instrui os israelitas a identificarem os covardes para que não minem a fé e a confiança de seus irmãos (verso 8). O problema de Saul e de Israel com os filisteus não é algo fora de série. O problema é o medo de Saul e sua falta de fé, que são contagiosos.

Não é interessante que as tropas fujam quando são lideradas por Saul? (ver I Sam. 13:5-7) Os soldados ficam apavorados porque Saul está aterrorizado (17:11, 24). Davi, um humilde pastorzinho, jovem demais para ser soldado do exército de Saul, se apresenta e, devido à sua fé e coragem, anima os outros a confiarem em Deus quando é usado para matar Golias e dar à Israel a vitória. Repare na longa lista de heróis que há entre os soldados de Israel em II Samuel 23, após Davi ter se tornado rei. Há muitos valentes sob sua liderança, muitos devido à fé e coragem demonstrados pessoalmente por Davi. Fico fascinado em saber que há uma porção de Golias depois deste, e sobre o quê os homens de Davi (assim como Davi) fazem com eles:

“Depois disto, houve ainda, em Gobe, outra peleja contra os filisteus; então, Sibecai, o husatita, feriu a Safe, que era descendente dos gigantes. Houve ainda, em Gobe, outra peleja contra os filisteus; e Elanã, filho de Jaaré-Oregim, o belemita, feriu a Golias, o geteu, cuja lança tinha a haste como eixo de tecelão. Houve ainda outra peleja; esta foi em Gate, onde estava um homem de grande estatura, que tinha em cada mão e em cada pé seis dedos, vinte e quatro ao todo; também este descendia dos gigantes. Quando ele injuriava a Israel, Jônatas, filho de Siméia, irmão de Davi, o feriu. Estes quatro nasceram dos gigantes em Gate; e caíram pela mão de Davi e pela mão de seus homens.” (II Sam. 21:18-22, compare com I Cr. 20:4-8).

Esse negócio de matar gigantes parece que virou rotina. Uma vez que Davi se levanta contra Golias, outros valentes enfrentam os membros da família de Golias. A coragem de Davi é contagiosa, da mesma forma que foi a covardia de Saul. Deus não pretendia que um gigante fosse morto por ele a fim de que nenhum israelita tivesse que encarar esse problema de novo. Deus pretendia que Davi enfrentasse e matasse o gigante para dar exemplo aos outros e fé para agir da mesma forma.

Digo que Golias sempre terá seus “Davis” e que estes homens sempre terão seus “Golias”. Algumas vezes os “Golias” serão indivíduos; outras, nações, ou até mesmo poderes celestiais. Em cada caso devemos nos lembrar de que “a batalha é do Senhor”. É Ele quem vai adiante de nós dando-nos a vitória.

“O SENHOR, vosso Deus, que vai adiante de vós, ele pelejará por vós, segundo tudo o que fez conosco, diante de vossos olhos, no Egito, como também no deserto, onde vistes que o SENHOR, vosso Deus, nele vos levou, como um homem leva a seu filho, por todo o caminho pelo qual andastes, até chegardes a este lugar. Mas nem por isso crestes no SENHOR, vosso Deus, que foi adiante de vós por todo o caminho, para vos procurar o lugar onde deveríeis acampar; de noite, no fogo, para vos mostrar o caminho por onde havíeis de andar, e, de dia, na nuvem.” (Dt. 1:30-33)

“Porquanto não saireis apressadamente, nem vos ireis fugindo; porque o SENHOR irá adiante de vós, e o Deus de Israel será a vossa retaguarda.” (Is. 52:12)

“Então, romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda;” (Is. 58:8)

“Sede fortes e corajosos, não temais, nem vos assusteis por causa do rei da Assíria, nem por causa de toda a multidão que está com ele; porque um há conosco maior do que o que está com ele. Com ele está o braço de carne, mas conosco, o SENHOR, nosso Deus, para nos ajudar e para guerrear nossas guerras. O povo cobrou ânimo com as palavras de Ezequias, rei de Judá.” (II Cr. 32:78)

Nosso texto tem muitas coisas a nos ensinar sobre liderança, como ela se desenvolve e como é reconhecida. Devido às circunstâncias familiares e à ordem de nascimento, Davi não parece destinado à liderança. Mas ele é um homem segundo o coração de Deus. Deus providencialmente o prepara enquanto ele cumpre fielmente suas obrigações como pastor. Quando um leão ou um urso ataca uma das ovelhas do rebanho, ele a salva, enfrentando o urso ou o leão. Neste processo, Davi aprende a confiar em Deus e a usar as armas que lhe foram dadas, uma lição para nós também. Davi não busca a liderança; de certa maneira, ela é imposta a ele. Davi se torna um líder por ser um bom crente. Ele vai à cena da batalha em obediência às instruções de seu pai. E quando vê o medo dos israelitas, procura fazer alguma coisa a esse respeito. Ao ouvir Golias blasfemar contra Deus e intimidar os exércitos do Senhor, Davi se propõe a lutar com ele em nome do Senhor. Davi não busca a liderança, mas ela é imposta a ele e ele não procura se esquivar de suas responsabilidades. Quão humildes talvez tenham parecido suas funções de pastor, mas quão bem Deus as usou preparando-o para enfrentar Golias na batalha.

Nosso texto nos ensina sobre meios e métodos. Vivemos numa época em que os homens imitam os métodos de outros homens. Um homem parece ter um negócio ou ministério de sucesso, e escreve um livro contando aos outros “como” ele fez. Outros lêem seu livro, também querendo ser bem sucedidos, e então imitam seus métodos. Davi não luta contra Golias com as armas ou com os métodos de Saul. Davi luta contra Golias com os métodos que desenvolveu e praticou enquanto cuidava de suas ovelhas.

Muitas vezes esperamos que Deus cause a derrota de seus inimigos usando meios incomuns ou espetaculares. De fato, Deus lançou as pragas sobre os egípcios e atraiu seu exército para o Mar Vermelho. Deus usou terremotos, tempestades e enchentes. Deus é capaz de libertar Seu povo do jeito que quiser. Mas, no caso de Golias, Deus usou um rapazinho e uma funda. Em si mesmas estas armas podem não ser muito impressionantes, mas Davi e sua funda causaram grande impressão em Golias! Quando os meios mais comuns são usados por Deus, devemos nos lembrar que até nossa habilidade em atirar uma flecha, ou arremessar uma pedra, ou permanecer num terreno escorregadio vêm Dele:

“O caminho de Deus é perfeito; a palavra do SENHOR é provada; ele é escudo para todos os que nele se refugiam. Pois quem é Deus, senão o SENHOR? E quem é rochedo, senão o nosso Deus? O Deus que me revestiu de força e aperfeiçoou o meu caminho, ele deu a meus pés a ligeireza das corças e me firmou nas minhas alturas. Ele adestrou as minhas mãos para o combate, de sorte que os meus braços vergaram um arco de bronze. Também me deste o escudo da tua salvação, a tua direita me susteve, e a tua clemência me engrandeceu. Alargaste sob meus passos o caminho, e os meus pés não vacilaram.” (Sl. 18:30-36)

“Bendito seja o SENHOR, rocha minha, que me adestra as mãos para a batalha e os dedos, para a guerra;” (Sl. 144:1)

Enfim, não é que Davi seja incrível, mas que o Deus a quem ele serve, e que foi adiante dele, é que é incrível. Saul parece ter se concentrado no inimigo em vez de ter se concentrado em Deus. Parece que Deus sempre nos dá inimigos que são bem maiores do que nós, para que lutemos em nossas fraquezas, confiando Nele e não em nós mesmos, dando-Lhe a glória, em vez de tomarmos o crédito para nós mesmos.

Quando chegamos a Davi, chegamos ao rei escolhido de Deus. Este é aquele de cuja descendência virá o Messias prometido, cujo reino não terá fim. E assim Davi, muitas vezes, nos provê uma prefiguração de Cristo. Nosso texto não é exceção. Davi é um tipo de Cristo, como Golias é um tipo de Satanás. Satanás tem o mundo inteiro tremendo de medo dele e da morte (ver Hb. 2:14-15). Nós, como os israelitas do passado, somos impotentes para derrotá-lo. Aquilo que não podemos fazer por nós mesmos, Cristo fez por nós, da mesma forma que Davi lutou com Golias por Saul e pelos israelitas. Jesus veio e enfrentou Satanás face a face e obteve a vitória. Davi fez isto ao matar Golias. Jesus o fez sendo crucificado na cruz do Calvário. Mas depois que Ele morreu para pagar a pena pelos nossos pecados, Ele ressurgiu do túmulo, triunfou sobre Satanás, o pecado e a morte. Em tudo Ele foi vencedor, e Jesus venceu morrendo e ressurgindo da morte. Todos aqueles que reconhecem seus pecados, e desistem de confiar em si mesmos colocando sua confiança em Jesus Cristo, têm o perdão de seus pecados e a segurança da vida eterna em Seu reino. Obrigado, Senhor, por seu campeão, o Senhor Jesus Cristo.