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20. De Conselheiro Municipal a Homem das Cavernas: “Quanta Diferença de um Dia para o Outro!” (Gênesis 19:1-38)

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Introdução

Semanas atrás, estive de visita ao estado de Washington junto com um amigo nosso que também é do Texas. Estávamos em pé, à beira do lago onde meus pais moram, observando a natureza maravilhosa e os magníficos pinheiros, e apreciando a temperatura amena. Pensativamente, meu amigo se virou para mim e perguntou: “Diga-me de novo, por que mesmo você quer voltar para Dallas”?

Suponho que a maioria de nós gasta um tempo considerável pensando em sair da cidade e fugir dos altos índices de criminalidade, da multidão, da poluição, das cenas impróprias, dos ruídos e do mau-cheiro, das aglomerações e dos congestionamentos. Ultimamente, a “volta ao campo” parece ser uma tendência geral. Alguns até acham que deixar a cidade seja bíblico.

Até este ponto de Gênesis, as cidades não eram muito bem-vistas. Caim construiu a primeira cidade, dando a ela o nome de seu filho Enoque, e isso depois de ficar sabendo que seria fugitivo e errante (Gênesis 4:12, 17). Embora o homem tenha recebido ordem de povoar a terra (9:7), a humanidade caída se uniu e começou a edificar a cidade de Babel com sua torre (11:4). Abraão foi chamado para deixar a vida urbana e viver como peregrino (12:1-3).

Agora, Ló, que tinha escolhido viver em Sodoma, está prestes a perder tudo: esposa, família, reputação e todas as coisas pelas quais lutou. Abraão, vivendo longe das cidades da planície, vê com tristeza a destruição de Sodoma e Gomorra (19:27-29). Tudo isso não seria uma indicação de que separação implica em fuga da cidade? Alguns pensam que sim. No entanto, a queda de Ló não se deu na sociedade doentia e mundana de Sodoma, e sim numa caverna isolada. Enfim, o problema não estava na cidade, mas na alma. Gênesis 19 nos ajuda a colocar na perspectiva correta a questão da separação.

Este capítulo talvez seja a parte mais trágica do livro de Gênesis, pois descreve a destruição de uma cidade. Pior ainda, retrata a queda de um santo. Não fosse pelas palavras do apóstolo Pedro, nunca saberíamos com certeza que o personagem patético conhecido como Ló foi um verdadeiro crente:

… e livrou o justo Ló, afligido pelo procedimento libertino daqueles insubordinados (porque este justo, pelo que via e ouvia quando habitava entre eles, atormentava a sua alma justa, cada dia, por causa das obras iníquas daqueles)... (2 Pedro 2:7-8)

Para sermos sinceros, precisamos admitir que na igreja de Cristo há muito mais “Lós” que “Abraãos”. Para sermos honestos, temos de dizer que na nossa vida há muito mais evidências de Ló do que do amigo de Deus, Abraão. Se isso é correto, então a destruição de Ló é uma advertência a todo cristão verdadeiro. Precisamos abordar esta passagem com muito cuidado, e em espírito de oração, se quisermos aprender as lições de Ló pela literatura ao invés de pela vida.

Hospitalidade Versus Homossexualidade (19:1-11)

Ao anoitecer, vieram os dois anjos a Sodoma, a cuja entrada estava Ló assentado; este, quando os viu, levantou-se e, indo ao seu encontro, prostrou-se, rosto em terra. E disse-lhes: Eis agora, meus senhores, vinde para a casa do vosso servo, pernoitai nela e lavai os pés; levantar-vos-eis de madrugada e seguireis o vosso caminho. Responderam eles: Não; passaremos a noite na praça. Instou-lhes muito, e foram e entraram em casa dele; deu-lhes um banquete, fez assar uns pães asmos, e eles comeram. (Gênesis 19:1-3)

Os dois anjos chegaram a Sodoma ao anoitecer. Ló, que estava assentado à entrada da cidade, pensou que fossem homens mortais e estrangeiros, não mensageiros da destruição. Uma vez que os anciãos se assentavam às portas da cidade como juízes (cf. Jó 29:7-12), não é improvável que Ló, depois de certo tempo, tenha adquirido notoriedade e poder. Para mim, parece o mesmo tipo de notoriedade adquirida por Billy Carter1. Lembre-se de que logo após sua mudança para Sodoma, a cidade foi saqueada e o povo levado cativo, até tudo ser resgatado pela atitude heroica de Abrão (Gênesis 14:1-16). A popularidade e o poder de Ló podem muito bem ter sido consequência da sua relação com Abraão.

De forma alguma, isso deve diminuir sua hospitalidade genuína oferecida aos dois estranhos. O paralelo com a hospitalidade de Abraão no capítulo anterior não é acidental. Sua atitude, antes de tudo, demonstra o caráter justo de Ló, conforme indicado por Pedro em sua epístola. A aparente relutância dos anjos em aceitar sua oferta, até serem gentilmente pressionados por ele, é mais uma questão cultural e de costumes do que qualquer outra coisa (cf. Lucas 24:28-29).

Embora isto não seja dito em termos concretos, parece que a insistência de Ló foi motivada tanto por temor à segurança dos forasteiros quanto por sua generosidade. Ele devia conhecer muito bem o destino de quem não tinha um teto onde passar a noite. Em qualquer outra cidade, dormir na praça não seria incomum ou imprudente. No entanto, a depravação de Sodoma fez Ló insistir delicadamente com seus convidados para que ficassem com ele e partilhassem da sua mesa. Para mim, a refeição servida por Ló não foi nem tão calma nem tão suntuosa quanto a servida por Abraão2.

Se Ló achou que seus convidados iam entrar na sua casa sem serem notados, ele deve ter ficado muito desapontado. Doentios como pareciam ser, os homens da cidade tinham olhos de águia para qualquer estrangeiro além de Ló. Seus motivos eram depravados e suas intenções indescritíveis. Em pouco tempo, a cidade toda rodeou sua casa, tentando fazer sexo com os forasteiros. O que ocorreu não foi uma atitude “liberal” de uma cidade cujas leis permitiam esse tipo de conduta consensual e particular entre dois adultos. Não foi nem mesmo um pedido indecente para pecar. Na verdade, foi mesmo uma tentativa de estupro, da pior espécie. Imagine só, uma cidade inteira, desde o mais novo até o mais velho. Com certeza, isso exigia uma atitude drástica.

A reação de Ló foi típica do seu estado espiritual; foi uma mistura estranha de coragem e concessão, de força de caráter e circunstancialismo. A multidão exigiu que ele entregasse seus hóspedes, uma violação impensável da proteção garantida a quem estivesse sob o teto de outra pessoa. Ló saiu, fechando a porta atrás de si, na esperança de acalmar a situação. Ele lhes implorou para não serem perversos e, justamente quando estamos prestes a aplaudir sua coragem, ele oferece suas filhas para saciar o apetite depravado daqueles degenerados. É simplesmente inconcebível! A prontidão de Ló (preocupação com seus hóspedes) tornou-se devassidão (disposição de entregar as próprias filhas em lugar dos forasteiros). Quando a turba recusa sua oferta, dá até para soltar um suspiro de alívio; no entanto, é preciso dizer que as consequências dessa concessão ainda estavam por vir.

Ló viveu em Sodoma durante vinte anos, mas, para os homens da cidade, ele continuou sendo forasteiro. Suspeito que a razão pela qual ele foi deixado em paz durante todo esse tempo foi porque eles ainda se lembravam do poderio militar de Abraão. Se Ló fosse atacado, eles teriam de acertar as contas com seu tio.

Ao longo dos anos, aparentemente, Ló se contentou em manter distância do pecado da cidade, mas nada fez para combatê-lo. Agora, ele atuava como juiz, falando contra sua perversidade. Isso era demais para aquela turba. Quando finalmente foi forçado a protestar contra sua depravação, a multidão ficou enfurecida. Primeiro eles iam dar um jeito em Ló, depois nos outros dois.

Ló, que supunha ser seu dever salvar os estranhos, foi resgatado por eles. Pelas palavras que lhe disseram, eles revelaram a Ló sua identidade e o que iam fazer. Quanto aos homens da cidade, ou ficaram cegos ou com a visão distorcida e embaçada; o certo é que ficaram tateando à procura da porta até cansarem (cf. 2 Reis 6:18).

A Derradeira Missão de Ló (19:12-22)

Nas últimas horas da madrugada, antes do nascer do sol, Sodoma viu mais atividade missionária por parte de Ló do que em todos os anos anteriores. No entanto, seus esforços não recaíram sobre o povo daquela cidade, e sim sobre uma tentativa vã e frenética de salvar a própria família, cuja salvação ele tinha negligenciado.

Então, disseram os homens a Ló: Tens aqui alguém mais dos teus? Genro, e teus filhos, e tuas filhas, todos quantos tens na cidade, faze-os sair deste lugar; pois vamos destruir este lugar, porque o seu clamor se tem aumentado, chegando até à presença do SENHOR; e o SENHOR nos enviou a destruí-lo. (Gênesis 19:12-13)

Seus genros3 foram despertados e avisados de uma forma meio surreal. Foi como tentar pregar o evangelho no último minuto a alguém à beira da morte. Sem dúvida, a atitude de Ló deve ter dado uma impressão muito bizarra. Eles acharam que fosse algum tipo de piada:

Então, saiu Ló e falou a seus genros, aos que estavam para casar com suas filhas e disse: Levantai-vos, saí deste lugar, porque o SENHOR há de destruir a cidade. Acharam, porém, que ele gracejava com eles. (Gênesis 19:14)

Por que será? Por que eles não levaram Ló a sério? Repare que não está escrito que eles não quiseram acreditar nele, mas que não o levaram a sério. Parece haver apenas uma explicação possível para isso: Ló nunca havia mencionado sua fé. Suas palavras não eram a repetição de uma longa vida de advertências sobre pecado e juízo — elas eram totalmente novas e inéditas. Mas que chacoalhada no seu testemunho! Uma coisa é alertar as pessoas e elas não darem ouvidos à nossa mensagem. Outra, muito pior, é nem sequer levarem a sério as nossas palavras4.

O dia amanheceu sem nenhum convertido, muito menos uma alma justa para fugir da ira de Deus. O tempo tinha acabado. Os anjos disseram a Ló para pegar sua esposa e suas duas filhas e dar o fora da cidade antes de vir o juízo.

A incredulidade dos cidadãos de Sodoma até certo ponto é previsível, mas a relutância de Ló é inacreditável. Nunca ninguém se esforçou tanto para não ser salvo. Existem muitas razões para ele ter sido relutante e ficar embromado durante o resgate. Primeira, em seu estado carnal, talvez ele não tivesse plena convicção da realidade e da gravidade do juízo de Deus. Segunda, talvez ele tivesse a esperança de que, demorando e protelando a partida, seus amigos e sua família pudessem ser preservados, pois sabia que o juízo não viria antes de ele partir (cf. versículo 22). Terceira, ele estava tão ligado a seus amigos, à sua família e às coisas “do presente século” que não podia suportar a ideia de ir embora. Enfim, ele foi literalmente arrastado pelo anjo para fora da cidade.

Ao amanhecer, os anjos instaram com Ló, dizendo: “Levanta-te, toma tua mulher e tuas duas filhas, que aqui se encontram, para que não pereças no castigo da cidade. Como, porém, se demorasse, pegaram-no os homens pela mão, a ele, a sua mulher e as duas filhas, sendo-lhe o SENHOR misericordioso, e o tiraram, e o puseram fora da cidade” (Gênesis 19:15-16).

Mesmo recebendo instruções específicas para fugir para as montanhas, para o mais distante possível de Sodoma (versículo 17), Ló resistiu novamente e pediu algo menos doloroso:

Respondeu-lhes Ló: Assim não, Senhor meu! Eis que o teu servo achou mercê diante de ti, e engrandeceste a tua misericórdia que me mostraste, salvando-me a vida; não posso escapar no monte, pois receio que o mal me apanhe, e eu morra. Eis aí uma cidade perto para a qual eu posso fugir, e é pequena. Permite que eu fuja para lá (porventura, não é pequena?), e nela viverá a minha alma. (Gênesis 19:18-20)

Quanta diferença entre a intercessão de Abraão e a oração (pedido) de Ló! Abraão orou pela preservação das cidades por causa dos justos, particularmente de Ló e sua família. Ele não tinha nenhum interesse em jogo. Pelo contrário, a remoção das pessoas das cidades teria dado a impressão de que a terra estava livre para ele tomar posse dela5. Ló pediu por Zoar (anteriormente denominada Bela, cf. Gênesis 14:2), não por causa de quem vivia lá, mas para sua própria conveniência. Já que o castigo vinha mesmo, Deus não podia dar um jeitinho para ele? Afinal, era só uma cidadezinha, não era? E, assim, a cidade foi poupada (versículo 21).

Fogo e Enxofre (19:23-26)

O sol nasceu assim que Ló, sua mulher e suas filhas chegaram a Zoar (versículo 23). Quando estavam seguros, fora do alcance da devastação, o Senhor fez chover fogo e enxofre do céu sobre as cidades do vale. Muitas sugestões já foram feitas quanto às causas dessa destruição6. Embora eu creia que provavelmente tenham sido empregados meios naturais, tais como raios, terremotos ou erupções vulcânicas, isso não significa que não tenha ocorrido um milagre. O juízo veio da parte do Senhor (19:13-14; 24-25) e foi Ele quem esteve no controle absoluto tanto da sua extensão quanto da sua duração (versículos 22, 24-25). A devastação destruiu quatro cidades, inclusive o terreno onde foram construídas. Foi uma devastação completa.

… e toda a sua terra abrasada com enxofre e sal, de sorte que não será semeada, e nada produzirá, nem crescerá nela erva alguma, assim como foi a destruição de Sodoma e de Gomorra, de Admá e de Zeboim, que o SENHOR destruiu na sua ira e no seu furor (Deuteronômio 29:23)

A morte da esposa de Ló foi realmente trágica. Pelo visto, ela morreu a poucos passos da segurança. Eles praticamente tinham chegado a Zoar. No entanto, enquanto seu Ló apertava o passo, dona Ló vacilava. Talvez seu coração de mãe estivesse abalado pela morte de seus filhos e filhas, ou talvez fosse o clube das mulheres ou a casa nova na cidade; até podiam ser os móveis luxuosos que tinham acabado de pagar. No entanto, uma coisa é certa, sua olhadela para trás diferiu da atitude de Ló apenas em grau, não em gênero. Seu coração, como o dele, estava em Sodoma. Ela diminuiu o passo e olhou para trás apenas por um instante, mas não teve mais volta7. A destruição que assolava Sodoma atingiu-a em cheio, a poucos passos da segurança e daqueles a quem ela amava. Sem levar em conta suas razões, ela desobedeceu diretamente uma ordem clara do anjo mensageiro (cf. 19:17).

Deus Atende ao Pedido de Abraão (19:27-29)

Os versículos 27 a 29 servem para diversos propósitos. Primeiro, eles mostram o coração de Abraão em contraste com o egoísmo de Ló. Abraão, como Deus, não sentia prazer na perversidade, nem na destruição de pecadores. Ambos sentiam compaixão pelos justos. Abraão tinha feito uma súplica a Deus. Não creio que ele tenha ido ao mesmo local do dia anterior a fim de orar, mas para ver a resposta de Deus às suas orações. Não foi uma atitude do tipo “o que será, será”, e sim uma preocupação genuína com o que havia acontecido.

Segundo, estes versículos ressaltam a verdadeira razão pela qual Ló foi poupado. Embora um Deus justo não destrua o justo com o ímpio (18:25), a ênfase aqui é: “muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tiago 5:16). Foi devido à fidelidade de Abraão, não à de Ló, que Ló foi liberto. Humanamente falando, havia pouca razão para Ló ser poupado, exceto pelo caráter de Deus e pela preocupação de Abraão com seu destino.

Ló Pode Ter Saído de Sodoma, mas… (19:30-38)

Embora Ló tenha pedido aos anjos para poupar Zoar, temeroso, logo ele saiu de lá. Mas, do que ele tinha medo? Alguns sugerem que ele temia o povo da cidade, devido à possibilidade de retaliação. Talvez ele receasse que, no futuro, o castigo recaísse sobre a cidade, provavelmente tão depravada quanto as outras.

Sou mais propenso a ver isso de forma um pouco diferente. Depois de um tempo para refletir, Ló talvez tenha percebido que se estabelecer em Sodoma foi a causa de todos os seus problemas. Isso lhe custou sua riqueza, sua esposa e grande parte da sua família. Ficar em Zoar, ou em outra cidade pervertida, poderia acarretar mais destruição e condenação. Deus não tinha dito a ele para fugir para as montanhas? Portanto, ele resolveu “ficar longe de tudo aquilo”. Longe da cidade e da sua depravação. Longe do mundo. Ló buscou segurança numa caverna, não numa cidade.

Mas uma pergunta irritante me persegue. Por que ele não quis ficar com Abraão? Com certeza, agora não havia mais o problema de excesso de prosperidade. E Abraão não vivia nas montanhas, longe da cidade? Ló tinha liberdade para escolher onde se estabelecer, desde que não fosse numa das cidades condenadas. Para mim, ele não quis encarar o tio, Abraão, e confessar sua idiotice. Com Abraão, poderia ter havido companheirismo, incentivo e talvez a possibilidade de algum marido temente a Deus para suas filhas entre os homens da sua comunidade.

Os versículos seguintes descrevem a condição final de Ló, o cristão carnal. Ele é passivo e patético. Em estado de embriaguez, ele acaba se tornando o pai de duas nações, as quais viriam a ser uma verdadeira praga para Israel. Ló, e aqueles que procederam dele, foram uma verdadeira pedra no sapato de Abraão e seus descendentes.

No lugar de Ló, talvez tivéssemos feito a mesma coisa, deixando a cidade e indo para uma caverna. Finalmente ele estava pronto para lidar com seu mundanismo. E ele o fez abandonando o mundo. O único problema foi que, embora ele estivesse fora de Sodoma, Sodoma não estava fora dele. Monasticismo nunca foi solução para o materialismo; a reclusão não é substituta da santificação. O tormento do mundo exterior não chega nem perto do tormento do mundo interior (cf. Romanos 7).

Para as filhas de Ló, a caverna não era uma habitação temporária, um abrigo durante a tempestade. Mas, para Ló, é claro que o lugar era permanente, um lar. Suas filhas também começaram a perceber que seu pai estava protegendo mais a elas do que a ele mesmo. Ele não ia perder mais nenhuma filha para homens depravados. Por isso, parecia que ele ia morrer sem um descendente, a menos que as garotas fizessem, elas mesmas, alguma coisa. Elas concluíram: “Nosso pai está velho, e não há homem na terra que venha unir-se conosco, segundo o costume de toda terra” (Gênesis 19:31).

Com certeza, esse quadro sombrio era um exagero. Elas não conseguiam ver meios normais pelos quais poderiam se casar e ter filhos. Embora seu pensamento, sem dúvida, estivesse errado, ele as levou ao erro ainda maior de deduzir que teriam de recorrer a meios extraordinários (talvez fosse mais correto dizer imorais, já que o incesto não devia ser tão extraordinário assim em Sodoma) para preservar a linhagem de seu pai. Esse raciocínio resultou numa trama pecaminosa.

Na idade de Ló, elas precisavam agir rápido. É evidente que elas resolveram que o pai nunca concordaria com um esquema daqueles em sã consciência, por isso, nada disseram a ele. Alguma coisa tinha de ser feita para enfraquecer sua resistência; vinho ia servir direitinho. Enquanto Ló estava no torpor da embriaguez, a primeira filha entrou na tenda; depois a segunda; e ambas ficaram grávidas. Na melhor das hipóteses, Ló estava apenas meio consciente do que acontecia, até ser tarde demais.

Duas nações nasceram daquelas relações incestuosas: Moabe e Amom. Embora Deus tenha tratado com bondade as duas nações por causa da sua relação com Abraão (cf. Deuteronômio 2:19), elas sempre foram uma empecilho à conduta piedosa dos israelitas. Kidner faz o seguinte comentário sobre elas:

Moabe e Amom (37f) estavam destinadas a proporcionar o pior tipo de sedução (a de Baal-Peor, Números 25) e a mais cruel perversão religiosa da história de Israel (a de Moloque, Levítico 18:21)8.

E, no final, elas iriam receber o juízo de Deus tal como Sodoma e Gomorra.

Portanto, tão certo como eu vivo, diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel, Moabe será como Sodoma, e os filhos de Amom, como Gomorra, campo de urtigas, poços de sal e assolação perpétua; o restante do meu povo os saqueará, e os sobreviventes da minha nação os possuirão. (Sofonias 2:9)

Conclusão

Muitos aspectos da destruição de Sodoma e Gomorra tornam esta passagem extremamente perturbadora e desafiadora. Vamos examiná-los com muito cuidado.

(1) Semelhança. As semelhanças entre Sodoma e a sociedade de nossos dias são angustiantes. A imoralidade era desenfreada e a perversão tinha se tornado a regra, não a exceção. A homossexualidade sempre foi considerada um pecado na Bíblia (cf. Romanos 1:24 e ss), mas aqui é o sintoma de uma sociedade tão doentia por causa desse pecado que devia ser condenada. Como um câncer devastador, o pecado precisou ser extirpado para não se alastrar ainda mais.

Gostaria de dizer que Sodoma não era muito pior que a nossa sociedade. Hoje em dia, a homossexualidade, embora seja apenas um sintoma do pecado, não só é tolerada, como também é ostensivamente proclamada e abertamente defendida como estilo de vida alternativo. Filmes e outros meios de comunicação romanceiam o pecado e os aproveitadores fazem fortunas em cima dele. Agora, com a TV a cabo, a depravação de Sodoma tem se infiltrado na nossa própria sala de estar. Que mais resta para se ver em nossa sociedade que não estava em Sodoma? Creio que nada.

Sodoma se encontra na Escritura como símbolo do mal e da depravação. Ela também é uma advertência sobre o futuro juízo de Deus (Deuteronômio 29:23; 32:32; Isaías 1:9-10; 3:9; Jeremias 49:18). Por maior que tenha sido a destruição de Sodoma e Gomorra, ela nem se compara à destruição daqueles que recebem mais esclarecimento pela pregação do evangelho de Jesus Cristo:

Em verdade vos digo que menos rigor haverá para Sodoma e Gomorra, no Dia do Juízo, do que para aquela cidade. (Mateus 10:15)

A semelhança da nossa sociedade com a de Sodoma nos adverte de que o juízo está próximo. A ira eterna de Deus já foi derramada sobre a cruz de Cristo no Calvário. Jesus Cristo se fez pecado por nós; Ele suportou nosso castigo na cruz.

Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos. (Isaías 53:4-6)

Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus. (2 coríntios 5:21)

Pela fé na morte de Cristo em nosso lugar, não teremos de enfrentar a ira de Deus:

Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós (2 Tessalonicenses 5:9-10a).

Mas aqueles que recusam o dom da salvação por meio do Senhor Jesus Cristo terão de suportar o castigo pelos seus pecados, a eterna separação de Deus:

… tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder (2 Tessalonicenses 1:8-9)

Há também uma semelhança entre Ló e muitos cristãos professos que não pode ser negligenciada. Ló era, na melhor das hipóteses, um cristão sem muito fervor. Na terminologia do Novo Testamento, talvez ele tenha sido um crente, mas não um discípulo (cf. Lucas 9:57-62). Ló tentou, sem êxito, manter um pé no mundo e outro na companhia dos fiéis. Ele era muito materialista, mais preocupado com seus próprios interesses do que com os de Abraão (cf. Gênesis 13 e Filipenses 2:1-9). Ele escolheu para si a melhor parte da terra, deixando o resto para Abraão. Ele escolheu a vida sedentária da cidade, enquanto Abraão preferiu a vida de peregrino. Ló colocou sua família em risco pela chance de lucro financeiro. Ló era mundano, indiferente e fraco nas suas convicções.

Será que existe mesmo alguma diferença entre ele e a maioria de nós? Devo confessar que parece haver mais de Ló na minha vida do que de Abraão.

Qual é a resposta para o nosso dilema? Como podemos lidar de forma eficaz com a nossa própria complacência? A solução, creio, está nas diferenças entre Ló e Abraão. Ló, na melhor das hipóteses, não tinha fervor no seu relacionamento com Deus. Abraão tinha uma intimidade crescente com o Senhor, demonstrada na sua intercessão por Ló. Ló se importava mais consigo mesmo, chegando ao ponto de se dispor a sacrificar suas filhas. Abraão se importava mais com os outros, como visto na sua generosidade em dar a Ló a oportunidade de escolha da terra e na sua intercessão por seu livramento. Ló foi um homem que não aprendeu com a disciplina divina. Quando se mudou para Sodoma e, em seguida foi sequestrado, ele voltou ao mesmo lugar, sem qualquer mudança aparente no modo de agir. Abraão cometeu muitos erros (pecados), mas aprendeu com eles. Ló foi um homem que viveu apenas para o momento presente, enquanto Abraão foi estrangeiro e peregrino sobre a terra. Ele preferiu não ter muitos prazeres terrenos para poder desfrutar das alegrias maiores e eternas das bênçãos de Deus.

(2) Segurança. Tendo salientado as falhas de Ló, não podemos perder de vista o fato de que ele era um salvo (2 Pedro 2:7-8). Não obstante todos os seus defeitos, Deus o poupou do juízo, embora Ló tenha gritado e esperneado durante todo o caminho. Mas que retrato da segurança dos santos, até dos mais carnais!

A segurança de Ló, assim como a nossa, não tem como base a sua fidelidade, pois ele não era fiel. Sua salvação ocorreu claramente a despeito dele mesmo, não devido às suas obras. Qual a base, então, da sua segurança? Em relação ao nosso texto, a resposta é simples. Ele foi salvo, não por causa dele mesmo, mas por causa de Abraão. Não foi a sua fidelidade, e sim a de Abraão, que o livrou da destruição:

Ao tempo que destruía as cidades da campina, lembrou-se Deus de Abraão e tirou a Ló do meio das ruínas, quando subverteu as cidades em que Ló habitara. (Gênesis 19:29)

O mesmo princípio se aplica aos cristãos de hoje. Nós somos salvos, não devido à nossa fidelidade, mas devido Àquele que intercede por nós, Jesus Cristo, nosso grande Sumo Sacerdote:

Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. (Romanos 8:34)

Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles. (Hebreus 7:25)

Que garantia maravilhosa! Sermos salvos não por causa nosso valor, mas por causa de Cristo, O qual não só morreu para nos salvar, mas também intercede por nós junto ao Pai:

Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. (1 João 2:1)

Será que a nossa segurança deve ser motivo de preguiça ou incentivo para pecar? Longe disso (cf. Romanos 6:1 e ss; 1 Pedro 2:16). Embora Gênesis 19 nos diga que Ló foi poupado do juízo de Deus, ele não escapou das dolorosas consequências dos seus pecados. Ele perdeu tudo que tinha, a maior parte da sua família e a sua dignidade. O pecado nunca vale a pena! Os cristãos podem andar nos seus próprios caminhos, mas não irão desfrutar deles por muito tempo.

(3) Separação. A vida de Ló serve como um valioso esclarecimento sobre a doutrina da separação. Da forma como vejo, existem duas fases na sua vida, cada uma pendendo para um lado.

A primeira fase mostra um período de identificação com os pecadores. A separação nessa época manifestou-se em não praticar os pecados que eram normalmente aceitos e imitados. Nosso Senhor também se identificou com pecadores e foi criticado por isso:

Os escribas dos fariseus, vendo-o comer em companhia dos pecadores e publicanos, perguntavam aos discípulos dele: Por que come [e bebe] ele com os publicanos e pecadores? Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores. (Marcos 2:16-17)

Embora tanto nosso Senhor quanto Ló vivessem na companhia de pecadores sem tomar parte de seus pecados, a diferença entre os dois foi que nosso Senhor falou claramente sobre pecado e salvação, enquanto Ló permaneceu em silêncio. Os cristãos devem ser sal numa sociedade corrompida. A importância do sal é que ele é distintivo. Ló perdeu sua salinidade na sociedade ao seu redor. Na verdade, creio que ele simplesmente perdeu sua têmpera. Para ele, aparentemente não havia senso de perigo ou urgência. Nosso Senhor claramente veio para salvar pecadores.

Vivendo em Sodoma sem ser distintivo, Ló não só fracassou em salvar outras pessoas, como perdeu sua própria família. Eis a grande tragédia da sua vida em Sodoma: seus filhos (exceto duas filhas) e sua esposa foram perdidos. Se não procuramos salvar os outros, podemos perder até nossa própria família. Mas muitos, quando tentam ministrar a outros, perdem a própria família para o mundo.

O pecado de Ló não foi ficar em Sodoma, mas sua motivação para ficar lá. Viver no mundo não é errado, mas ser do mundo é (João 17:15-16). Viver em meio a uma geração degenerada e perversa não é errado, mas deixar de proclamar a mensagem sobre o pecado, a justiça e o juízo é. O problema de Ló não foi tanto sua vida em Sodoma, mas sua falta de sal9.

O último capítulo da vida de Ló se passou numa caverna. Lá, ele parece ter tentado lidar com o problema do mundo isolando-se dele. Monasticismo sempre foi uma alternativa tentadora para não se misturar com os pecadores. Permitam-me lembrar-lhes que o fracasso de Ló na cidade não chegou nem perto do seu fracasso na caverna. Foi lá, na caverna, que sua bebedeira embotou seus sentidos o suficiente para ele ser levado a cometer incesto com suas filhas.

Ali, seu fracasso foi devido mais à sua própria responsabilidade do que a maioria de gostaria de admitir. Não foi apenas o que suas filhas tinham aprendido em Sodoma — lembrem-se de que elas ainda eram virgens (19:8). O verdadeiro problema não estava em Sodoma, mas em Ló. Suas filhas simplesmente fizeram aquilo que tinham aprendido com o próprio pai. As garotas estavam em casa quando o ouviram dizer:

Tenho duas filhas, virgens, eu vo-las trarei; tratai-as como vos parecer, porém nada façais a estes homens, porquanto se acham sob a proteção de meu teto. (Gênesis 19:8)

Suas filhas aprenderam com ele que, às vezes, a moralidade precisa ser sacrificada em nome da praticidade. Ló estava disposto a entregar as próprias filhas aos sodomitas (as quais ainda eram sexualmente puras, não corrompidas pelos pecados de Sodoma) em lugar dos estrangeiros. Elas aprenderam com ele que a moralidade, às vezes, precisa dar lugar às emergências. Já que elas tinham visto a situação aflitiva do pai (e delas também) como uma emergência, o incesto não era mais um problema moral, pois a moralidade, nas emergências, tinha de dar lugar à praticidade.

Muitos de nós, como pais, ficam extremamente preocupados com o mundo onde vivem nossos filhos. As tentações são grandes demais. No entanto, em nossa preocupação com o que acontece nas cidades, não devemos pensar que podemos salvar nossos filhos isolando-os numa caverna, pois, na caverna, eles ainda são influenciados por nós. Que a tragédia ocorrida na família de Ló nos sirva de alerta, pois muitos pecados de nossos filhos não são aprendidos com o mundo, mas conosco.

Vejam, a doutrina cristã da separação deve mostrar um delicado equilíbrio entre dois extremos igualmente perigosos. Um é a demasiada identificação com o mundo —  sem, no entanto, proclamar claramente o evangelho. Outro, é o isolamento do mundo para tentar obter segurança. Nenhum dos dois é solução para o pecado:

Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros; refiro-me, com isto, não propriamente aos impuros deste mundo, ou aos avarentos, ou roubadores, ou idólatras; pois, neste caso, teríeis de sair do mundo. Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais. (1 Coríntios 5:9-11)

Ló tentou viver numa cidade, depois numa caverna. Não podemos ser um com o mundo, mas também não devemos fugir dele. O equilíbrio entre a cidade de Sodoma e a caverna é a tenda de Abraão. Devemos viver no mundo, mas sem nos tornar ligados ou conformados a ele. Devemos ser forasteiros e peregrinos. Como Pedro, sob inspiração divina, expressou:

Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma, mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação. (1 Pedro 2:11-12)

Que Deus nos ajude a viver no mundo sem nos tornarmos parte dele, ou ele parte de nós. Como disse o escritor de Provérbios:

A casa dos perversos será destruída, mas a tenda dos retos florescerá. (Provérbios 14:11)

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Tradução: Mariza Regina de Souza


1 Falecido irmão do ex-presidente americano Jimmy Carter.

2 Embora esta não seja de forma alguma uma questão importante, várias considerações me levam a chegar a esta conclusão. Primeira, Ló serviu pão asmo, mas Abraão, não (aparentemente). Pão asmo foi aquele preparado às pressas pelos israelitas antes de saírem do Egito. Talvez fosse tarde da noite e não houvesse tempo para levedar a massa antes do amanhecer. Ló, no entanto, conhecendo os homens da cidade, achou melhor preparar uma refeição menos demorada. Quando disse aos anjos para se levantarem de madrugada e seguirem seu caminho (versículo 2), será que ele não queria mandá-los embora antes dos outros acordarem? Neste caso, ele devia estar impaciente para servir uma refeição rápida e mandá-los logo para a cama. E ainda, a palavra hebraica traduzida como “banquete” pode significar também “bebida”. Na maioria dos casos, esta seria a descrição de um banquete requintado onde se poderia beber; às vezes, podendo chegar ao ponto de beber até cair. Em geral, era uma festa de casamento. A Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento) interpreta a passagem de modo a sugerir que Ló preparou para seus convidados algo para beber e pão asmo. A NVI não vai tão longe, mas também não prefere descrever um banquete: “Ló mandou preparar-lhes uma refeição e assar pão sem fermento...” O Antigo Testamento Amplificado tenta transmitir o sentido literal, interpretando desta forma: “E preparou-lhes uma refeição (com bebida), e tinha pão sem fermento que ele assara; e eles comeram”. Tudo isso, pelo menos, deixa espaço para sugerir que a hospitalidade de Ló foi mais apressada e, talvez, não tão suntuosa quanto a mesa de Abraão.

3 “Genros”, versículo 14, pode ser entendido tanto com relação aos que eram casados com as filhas de Ló quanto com relação aos que estavam comprometidos (“estavam para casar”) com elas. Se esta última for correta, as filhas seriam aquelas que ainda moravam com Ló, as quais eram “virgens” (versículo 8). As duas filhas “comprometidas” seriam as que foram com os pais para Zoar e depois para a caverna com Ló. Dá para perceber porque elas raciocinaram que o casamento não seria mais uma opção. Se a primeira alternativa fosse a correta, os “genros” seriam homens casados com outras filhas de Ló, e tanto eles quanto elas foram mortos no julgamento de Sodoma. Assim, o fracasso de Ló seria muito maior. O versículo 15 parece sustentar a opinião de que Ló tinha duas filhas solteiras e outras que eram casadas, quando diz: “Levanta-te, toma tua mulher e tuas duas filhas, que aqui se encontram…” A implicação, portanto, é que havia outras que não estavam com Ló, mas com seus maridos.

4 Ironicamente, a palavra hebraica kematzehak, literalmente traduzida como “como alguém que estava gracejando” (nota à margem, NASV) tem a mesma raiz de onde vem o nome Isaque, que significa “riso”.

5 Uma pergunta pode surgir: “O que Deus fez com a terra que se tornou imprestável devido ao julgamento de Sodoma e Gomorra? Poderíamos supor que, com isso, Deus tivesse removido os habitantes do vale e dado a terra a Abraão. No entanto, Seu propósito fora revelado a Abraão no capítulo 15 (versículos 13-16). Abraão não ia possuir a terra durante a sua vida, ele ia ser “estrangeiro e peregrino” sobre a terra. Assim, sua fé foi testada e fortalecida. Somente na quarta geração, seus descendentes tomariam posse da terra. Talvez tenha sido por causa da ampla devastação ocorrida no local que Abraão se mudou para o Neguebe (20:1).

6 Bush discorre longamente sobre a destruição de Sodoma (I, p. 314-325), concluindo que: “A catástrofe, portanto, se nossa interpretação estiver correta, foi assinalada pela junção dos horrores de um terremoto e de uma erupção vulcânica, esta última sendo descrita como um incêndio destrutivo vindo dos céus, formando uma cena de tal confusão que olhos humanos jamais tinham visto”. George Bush, Apontamentos em Gênesis, Reprint (Mineápolis: James and Klock Publishing Co., 1976), I, p. 325.

7 “... ela pode ter sido envolta pela fumaça venenosa e pela violenta destruição que vinha dos céus… No entanto, uma vez envolta, ali ela ficou, aparentemente sem ter sido alcançada pelo fogo, mas ficando com uma crosta de sal devido aos vapores vindos do Mar Morto. Naquele instante, talvez Ló e suas filhas não tenham visto o que aconteceu, pois olhar para trás envolvia o mesmo tipo de destruição. Seu amor por aquela que foi perdida, sem dúvida, levou-os a visitar o lugar depois da destruição, e lá eles encontraram a “estátua de sal”. As palavras watteh (“e converteu-se”), de forma alguma exigem uma conversão instantânea na tal estátua”. H. C. Leupold, Exposição de Gênesis (Grand Rapids: Baker Book House, 1942), I, p. 571-572.

8 Derek Kidner, Gênesis Introdução e Comentário (Chicago: InterVarsity Press, 1967), p. 136.

9 Aqui deve ser dada uma palavra de alerta. Na história de Israel, Deus levantou profetas para falar às cidades cheias de pecado e para alertá-las sobre a ira vindoura (Jonas, por exemplo). Pelo que sei, no entanto, poucos com esse ministério, se é que houve algum, tiveram famílias expostas aos pecados que eles condenavam. Pode ter havido algum caso onde o celibato não só era aconselhável, mas imperativo. Precisamos ter cuidado para nosso ministério não ser exercido às custas da nossa família.