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O Espírito Santo e a Hermenêutica

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Prefácio

Este curto artigo é uma tentativa preliminar na articulação do papel do Espírito Santo em relação à interpretação das Escrituras. Críticas e interações são bem-vindas. Deve-se lembrar, contudo, que estou dirigindo-me aos evangélicos. Aqueles com um padrão teológico diferente irão, tenho certeza, achar tantas críticas neste artigo, que eles não saberão por onde começar!

Introdução

A relação do Espírito Santo com a hermenêutica é uma questão polêmica entre os evangélicos hoje. A nível popular, sempre houve um grande mal-entendido sobre o papel do Espírito. Muitos cristãos acreditam que se eles simplesmente orarem, o Espírito Santo lhes dará a interpretação apropriada. Outros não estão tão preocupados com a interpretação do texto; eles se contentam em ter um significado idiossincrático do texto (“o que este versículo significa para mim...”). Tudo isto é a doutrina do ‘sacerdócio de todos os santos’ correndo à solta indiscriminadamente. Embora cada um de nós seja responsável diante de Deus pelo entendimento e aplicação da mensagem bíblica, isto de modo algum significa que uma mistura de ignorância compartilhada ou uma mera aproximação piedosa às Escrituras satisfaça o mandato divino.

Surpreendentemente, há também uma crescente, e grande lacuna entre estudiosos conservadores. James De Young, por exemplo, recentemente disse que “quando se trata dos métodos eruditos de interpretação da Bíblia, o Espírito Santo pode até estar morto.”1 Por que há tal polaridade? Há pelo menos quatro razões: (1) por causa da guinada em direção ao pós-modernismo (e assim, saindo do racionalismo e da lógica para a experiência como norma de interpretação), (2) por causa da falta de desejo em fazer-se estudos sérios, como David F. Wells assim expressou, (3) porque o pensamento evangélico de fato tem se alimentado demasiadamente no racionalismo, (4) porque o movimento evangélico está se deslocando em direção ao pós-conservadorismo, no qual a tolerância, ao invés de convicção, é o posicionamento adequado em muitas questões.

Algumas Questões Chaves

1. Qualquer ponto de vista evangélico do papel do Espírito Santo quanto a interpretação deve ser baseado no texto. O argumento fundamental sobre esta questão deve encarar as principais passagens.

2. Muitos comentários não-evangélicos (até não-cristãos) estão entre os melhores comentários disponíveis em termos de lucidez, discernimento, e entendimento do texto bíblico. Por outro lado, muitos comentários evangélicos estão entre os piores disponíveis. Qualquer ponto de vista sobre a relação do Espírito Santo com a hermenêutica deve encarar com honestidade esta situação. O ponto para nós é este: entendimento pode ocorrer até mesmo entre os incrédulos.

3. É importante articular nossa posição de tal forma que reconheçamos o status revelador exclusivo das Escrituras. Isto é, não devemos dizer que o Espírito acrescenta mais revelação à Palavra escrita. Isto negaria a suficiência das Escrituras. Além do mais, esta posição dá uma interpretação não-falsificável, porque então a revelação acrescida do Espírito é accessível a mim apenas através de você. Finalmente, esta posição se aproxima perigosamente da posição neo-ortodoxa de Barth, de que a Bíblia se torna a Palavra de Deus na experiência do indivíduo. Podemos facilmente notar como, em tal cenário, a Bíblia pode ser empregada como diz o ditado “casa de mãe Joana,” ou seja, ela poderia significar qualquer coisa nas mãos daquele que a está manipulando.

Algumas Passagens Chaves

Uma passagem chave em uma interpretação teológica é conhecida como uma crux interpretum. Tal texto é um eixo, no qual o ponto de vista do indivíduo vai se apoiar. Entre os textos mor da cruces hermenêutica, há duas passagens: 1 Cor 2:12-14 e 1 João 2:20, 27. Eu não darei o tempo devido para tratar estas passagens com uma exegese detalhada, mas, destacarei os principais problemas e os discutirei com brevidade.

1 Cor 2:12-14

O texto em grego é o seguinte:

(12) hJmei' deV ouj toV pneu'ma tou' kovsmou ejlavbomen ajllaV toV pneu'ma toV ejk tou' qeou', i{na eijdw'men taV uJpoV tou' qeou' carisqevnta hJmi'n: (13) a} kaiV lalou'men oujk ejn didaktoi' ajnqrwpivnh sofiva lovgoi ajll∆ ejn didaktoi' pneuvmato, pneumatikoi' pneumatikaV sugkrivnonte. (14) yucikoV deV a[nqrwpo ouj devcetai taV tou' pneuvmato tou' qeou', mwriva gaVr aujtw'/ ejstin, kaiV ouj duvnatai gnw'nai, o{ti pneumatikw' ajnakrivnetai:

As traduções variam consideravelmente, especialmente no v. 13. Mas por razões de brevidade, as seguintes traduções podem ser consideradas como uma boa representação:

ARA: 12 Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente. 13 Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais. 14 Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.

BJ 12Quanto a nós, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, a fim de que conheçamos os dons da graça de Deus. 13Desses dons não falamos segundo a linguagem ensinada pela sabedoria humana, mas segundo aquela que o Espírito ensina, exprimindo realidades espirituais em termos espirituais. 14O homem psíquico não aceita o que vem do Espírito de Deus. É loucura para ele; não pode compreender, pois isso deve ser julgado espiritualmente.

NVI: 12Nós, porém, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito procedente de Deus, para que entendamos as coisas que Deus nos tem dado gratuitamente. 13Delas também falamos, não com palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas com palavras ensinadas pelo Espírito, interpretando verdades espirituais para os que são espirituais. 14O homem que não tem o Espírito não aceita as coisas que vêm do Espírito de Deus, pois lhe são loucura; e não é capaz de entendê-las, porque elas são discernidas espiritualmente.

As questões chaves aqui são: (1) o significado da última clausula do v. 13 (viz., a importância dos dois adjetivos e a força lexical do particípio neste contexto); (2) no v. 14 (a) em qual sentido a pessoa natural não aceita as coisas do Espírito, e (b) se as duas cláusulas são paralelas ou apositivas.

Desenrolando estas questões um pouco, eis aqui algumas tentativas de conclusão:

(1) versículo 13 significa, ou que Paulo e seus companheiros interpretam coisas espirituais para pessoas espirituais, ou alguma outra coisa (há uma variedade de opções aqui). Contudo, um ponto chave a ser feito é este: ninguém deve usar tal texto oblíquo como texto fundamental de prova para qualquer ponto de vista. Busque passagens mais claras para provar o seu ponto. (Pelo menos, podemos dizer que a tradução da Bíblia de Jerusalém está provavelmente incorreta, baseado no campo lexical sugerido por BAGD.2)

(2) No versículo 14: (a) a pessoa natural não aceita as verdades espirituais. O verbo de,comai fundamentalmente traz esta noção. Ele está mais explicitamente amarrado à vontade do que está o verbo lamba,nw. Assim, a pessoa natural tem um problema volitivo, quando se trata do evangelho.

(b) Se as duas cláusulas são apositivas, então a pessoa natural não acolhe as verdades espirituais e por causa disto, não pode completamente apreendê-las. Se as duas clausulas são paralelas, então Paulo está apresentando aqui duas verdades distintas, porém separadas: o homem natural tem um problema com a sua volição e o homem natural tem um problema com a sua compreensão. A simples conjunção kai., que junta as duas cláusulas, normalmente não seria convincente como um indicador de aposição (embora um kai. epexegético é, obviamente, possível); prima facie, as duas cláusulas do v. 14 aparentam ser pontos paralelos. Contudo, a favor da aposição está o fato de que paralelismos Semíticos (tal como paralelismo sinônimo ou sintético) foram empregados com freqüência até mesmo no Novo Testamento; se é isto que Paulo está usando aqui, ele pode muito bem ter a noção de aposição em mente. O problema com este ponto de vista é que ginw,skw é um termo um pouco básico para “saber” (apesar dos protestos de alguns). Em outras palavras, se esta cláusula está de certa forma apositiva à cláusula anterior, poderíamos esperar uma outra palavra, tal como oi=da. A presença de ginw,skw parece indicar que estão envolvidas duas noções separadas: a pessoa natural não compreende devidamente a revelação, por causa do efeito do pecado sobre sua vontade e sobre sua mente. Esta última categoria envolve os efeitos noéticos do pecado. Tal categoria teológica é compatível com Paulo e o NT. O pecado afeta nossa vontade, emoções, e nossas mentes.

Resumidamente, 1 Cor 2:12-14 está dizendo que o não-cristão não aceitará verdades espirituais e não pode compreendê-las. Estas são duas coisas distintas, embora, conceitos relacionados. Não-cristãos, de fato, entendem plenamente a mensagem do evangelho às vezes; além disto, exegetas descrentes com freqüência oferecem comentários valiosos sobre o texto. Esta não é a discussão aqui. O ponto de Paulo parece ser que as profundezas dos caminhos de Deus e a sabedoria de Deus não podem nem mesmo ser tocadas por não-crentes. Há um nível para o qual eles não podem atinar.

1 João 2:20, 27

O texto em grego é o seguinte:

20 kai. u`mei/j cri/sma e;cete avpo. tou/ a`gi,ou kai. oi;date pa,ntejÅ 27 kai. u`mei/j to. cri/sma o] evla,bete avpV auvtou/( me,nei evn u`mi/n kai. ouv crei,an e;cete i[na tij dida,skh| u`ma/j( avllV w`j to. auvtou/ cri/sma dida,skei u`ma/j peri. pa,ntwn kai. avlhqe,j evstin kai. ouvk e;stin yeu/doj( kai. kaqw.j evdi,daxen u`ma/j( me,nete evn auvtw/|Å

Os elementos chaves nestes versículos são: (1) v. 20: “e todos tendes conhecimento” (i.e., vocês todos sabem que têm uma unção do Espírito Santo); (2) v. 27: (a) “não tendes necessidade de que alguém vos ensine” e (b) “a sua unção vos ensina todas as coisas.”

Alguns poucos comentários são precisos: (1) Esta passagem ilustra três das mais importantes regras da exegese: CONTEXTO, CONTEXTO, CONTEXTO. Somente se ignorarmos o contexto poderemos dar um significado que universaliza este texto. (2) O versículo 20 indica que o que os crentes sabem por experiência pessoal (oi=da) é sua unção. Eu entendo que isto é o testemunho interior do Espírito: eles reconheciam que o Espírito lhes ministra de uma forma imediata, não-discursiva, lhes convencendo do relacionamento deles com Deus (veja Rom 8:16). (3) Se o autor está dizendo que ninguém deveria de modo algum lhes ensinar qualquer coisa, por que então João está lhes ensinando nesta carta? Certamente, o contexto imediato sugere algo diferente. (4) A unção que lhes ensina sobre todas as coisas também precisa ser contextualizada. O autor está contrastando esses crentes com hereges, que se retiraram da comunidade de crentes (veja 2:19). O autor enfatiza o que esses crentes sabem: que Cristo veio na carne, que ele virá outra vez, e que eles são filhos de Deus. O autor também destaca como esses crentes discernem as verdades essenciais da fé: eles têm o Espírito de Deus. O autor está convicto de que eles se manterão leais à sua fé; de que eles permanecerão (me,nw), “porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo” (4:4).

Assim, por um lado, 1 João 2:20, 27 não indica que o Espírito Santo proporciona um atalho no processo interpretativo. Por outro lado, o Espírito Santo de fato trabalha em nossos corações nos convencendo das verdades essenciais da fé. Aquele que não tem o Espírito de Deus não pode crer em tais verdades e, portanto, não pode conhecê-las por experiência.

A Relação do Espírito Santo com a Interpretação

Minhas conclusões preliminares são oferecidas aqui. Eu creio que há pelo menos sete ou oito maneiras pelas quais o Espírito Santo relaciona-se com a interpretação. Muitas destas se sobrepõem; algumas pessoas talvez queiram organizá-las de forma diferente.

1. O trabalho do Espírito é primariamente no campo da convicção, ao invés do da cognição. Ao mesmo tempo, até mesmo nesta área necessita-se de nuanças. A convicção de um indivíduo de fato tem um impacto em sua percepção. Assim, pode-se dizer que o Espírito Santo auxilia nossa interpretação, mesmo que este papel se limitasse àquele da convicção. Como?

2. Conhecimento por experiência tem um efeito bumerangue na compreensão intelectual. Em várias áreas, se um intérprete já experimentou o que lhe está sendo proposto, ele(a) pode compreender tal verdade. Por exemplo, se alguém nunca se apaixonou, terá dificuldades em compreender completamente tudo que um romance envolve.

3. Na medida em que alguém é desobediente às Escrituras, ainda que respeite sua autoridade, pelo menos com seus lábios, ele irá distorcer as Escrituras (veja 2 Pedro 3:15-16). Por outro lado, na medida em que alguém é obediente às Escrituras, ele(a) estará numa melhor posição para compreender uma verdade e lidar com ela com honestidade.

4. Simpatia para com o autor bíblico abre o entendimento. O mais simpatizante exegeta é o crente. Um intérprete não-simpatizante geralmente se equivoca, por causa da falta de desejo de compreender. Isto pode ser facilmente ilustrado na arena política. Aqueles que são rigorosos quanto a retidão de um certo partido tendem a vilificar tudo que é do outro partido. Até mesmo entre cristãos há freqüentemente um “cânon dentro de um cânon.” Isto é, alguns livros/autores são mais altamente respeitados do que outros. Se não cultivamos simpatia por todos os autores das Escrituras, fechamo-nos ao pleno impacto de suas mensagens.

Ao mesmo tempo, se alguém simpatiza com o autor divino, enquanto ignora o autor humano, várias tensões nas Escrituras serão desconsideradas. Assim, ironicamente, quando a inerrância é exibida seguindo as linhas docéticas bibliológicas (que é tão freqüente hoje em dia), a interpretação é com freqüência mais uma defesa de uma suposta harmonia do que uma investigação honesta do significado que o autor quis dar. Revelação progressiva é abandonada; autores humanos se tornam meros estenógrafos. Tensões não são respeitadas, apenas para serem levantadas como contradições absolutas por aqueles que não têm muita simpatia pelas Escrituras, deixando os evangélicos numa posição de correr atrás do prejuízo. Reconhecendo as tensões nas Escrituras bem como o progresso da revelação, e que a Bíblia é tanto um livro divino quanto um livro bastante humano, evita tais problemas.

5. Aqueles que abraçam em princípio uma crença no sobrenatural estão em melhores condições na interpretação tanto de milagres, quanto de profecias. Estes elementos das Escrituras simplesmente não podem ser tratados adequadamente por incrédulos. Isto vai muito além da mera simpatia para a visão universal. Se alguém consistentemente descrê que profecias podem ser cumpridas, então ele terá que explicar as porções proféticas das Escrituras de outra maneira, e não como reais predições. Ou elas serão descreditadas como não realizadas, ou de outro modo serão tratadas como vaticinium ex eventu (ou profecia após o fato). Milagres também necessitarão ser reescritos para que sejam demitologizados. A crítica de C. S. Lewis, muitas décadas atrás, ainda é tida como uma acusação válida contra tal tratamento das Escrituras: tratar as Escrituras – especialmente o NT – como sendo cheio de fábulas pressupõe uma linha do tempo que é demonstravelmente falsa. O espaço entre o tempo dos eventos até o relato da narrativa é simplesmente muito curta, não achando assim nenhum paralelo em qualquer literatura histórica acreditável. Lewis conclui que aqueles que chamam o NT de “cheio de fábulas”, nunca na verdade estudaram fábulas. Ou como Vincent Taylor, o erudito britânico notou, considerar os documentos do NT como cheios de mitos pressupõe que todas as testemunhas devam ter desaparecido quase que imediatamente após os eventos se realizaram. Resumidamente, quando se trata de profecias e milagres, o crente está em melhor posição para compreender a mensagem. Isto é parecido com a acusação de Jesus aos Saduceus por não aceitarem a ressurreição: “Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.”

6. O testemunho interior do Espírito (veja Rom 8:16; 1 João 2:20, 27, etc.) é um fator importante tanto na convicção, quanto na percepção de verdades centrais das Escrituras. De acordo com meu estudo preliminar, eu diria que o testemunho do Espírito é um testemunho imediato, não-discursivo e supra-racional da verdade de princípios centrais da fé. O Espírito nos convence dessas verdades de uma forma extra-exegética. Ele nos convence exatamente do quê? Alguma destas coisas são: (1) nossa relação filial com Deus; (2) a ressurreição corpórea de Cristo; (3) a humanidade de Cristo; (4) o retorno corpóreo de Cristo; (5) a divindade de Cristo; (6) a natureza da salvação como um dom de Deus. O testemunho do Espírito pode, de fato, ser mais abrangente do que isto. Quanto mais abrangente? É duvidoso que o Espírito dê testemunho do tempo que Deus levou para criar o universo, ou se a teologia dispensacionalista ou se a teologia da aliança é o melhor sistema, ou se a inerrância é verdadeira. Eu duvido que ele dê testemunho de qual forma de governo eclesiástico é mais preferível, o papel da mulheres na liderança, ou como definir dons espirituais. Há tantas questões nas Escrituras que nos são deixadas para examinar usando o melhor das nossas fontes racionais e empíricas! Mas isto não significa que não possamos chegar a conclusões bem firmes sobre estas questões. Isto significa, por outro lado, que estas são questões mais periféricas do que outras relativas à salvação. Eu acredito que estas questões “negociáveis” são importantes áreas de investigação. Devidas conclusões sobre muitas destas questões, mas não a todas, são necessárias para a saúde da Igreja, mas não são essenciais para a vida da Igreja.

Há três comentários finais sobre o testemunho interior do Espírito: (1) Que eu tenha oferecido uma taxonomia preliminar da doutrina pode ser surpreendente para alguns. A alternativa é ver todas as doutrinas como de igual importância. Mas isto é problemático historicamente, exegeticamente, e espiritualmente. Tal visão “em cadeia” da doutrina resultaria tanto em um dogma insustentável unido a uma arrogância egoísta, ou em uma queda de virtualmente todas as crenças doutrinárias de um indivíduo, porque se uma doutrina cair, todas cairão. (2) Que algumas áreas aparentemente não são tratadas pelo testemunho do Espírito não significa que estas áreas não são importantes. Pelo contrário, significa que quanto menos centrais elas sejam para a salvação e para a saúde da Igreja, mais liberdade e tolerância deveríamos dar àqueles que discordam conosco. Isto requer uma dose de humildade nestas questões; até mesmo sobre questões que são atualmente tópicos polêmicos, como dons espirituais e o papel das mulheres na liderança. Parte do real desafio em pôr as mãos nestas questões é determinar o quanto a saúde da Igreja é atingida por nossas decisões exegéticas. Mas a apresentação das nossas conclusões deve sempre ser acompanhada por um espírito de caridade. Tenha cuidado para não elevar suas próprias crenças não-centrais ao primeiro nível de convicção que está reservada àquelas verdades, as quais o Espírito nos dá testemunho. (3) O testemunho interior do Espírito pode ser suprimido até um certo grau. É preciso manter um coração caloroso para com Deus, através da oração, adoração, comunhão, humildade, obediência, etc., e uma vigilância sutil sobre a preciosidade das verdades centrais, através do estudo tanto das Escrituras, quanto da história da Igreja, a fim de cultivar uma apreensão do testemunho interior do Espírito.

7. Iluminação geral é também uma área na qual o Espírito ajuda nossa interpretação. Por iluminação geral, eu quero dar a entender seu trabalho em nos ajudar a entender qualquer área da vida e do mundo. Isto necessita de mais explicação. Em geral, eu acredito que o Espírito nos ajuda, limpando as nossas mentes à medida que lidamos com muitas coisas: desde o pagamento de impostos, ao achar as chaves do carro, até fazer provas. Por que excluiríamos as Escrituras desta matriz? Certamente as Escrituras não estão fora da jurisdição do auxílio geral oferecido aos crentes pelo Espírito. Admitamos, esta área de investigação necessita de mais trabalho. Meus pensamentos são meramente preliminares.

8. Iluminação corporativa e histórica: através de todo o corpo de Cristo, tanto em sua manifestação atual, quanto através da história – crentes têm chegado a um melhor entendimento da vontade de Deus e da palavra de Deus. Nós não ousamos, contudo, elevar tanto a opinião consensual, quanto a tradição ao status de autoridade infalível! Mas, tais áreas também não devem ser relegadas ao desdém. Afinal de contas, o Espírito Santo não começou com você, quando ele começou a ensinar a Igreja; ele tem estado neste empreendimento há alguns séculos.

***

Concluo este artigo com três palavras de precaução:

1. Não veja os limites da exegese como a interpretação de um texto. No final das contas, o alvo da exegese não é a interpretação, mas a transformação.

2. Não presuma que porque você ora, é espiritual, etc., que sua interpretação automaticamente está correta. Preguiça nos estudos não é desculpa para uma interpretação pobre. Além do mais, mesmo que você não seja preguiçoso, uma interpretação inacessível ainda deve ser julgada como uma interpretação improvável.

3. Não isole seus estudos de sua adoração. Aqueles em seminários, especialmente, deveriam levar com seriedade o mandato para aqueles que serão ministros da Palavra: Estude! Exposição que não nasceu de um estudo sério produz uma sensação aconchegante que falta substância. É confeito para a alma. Ao mesmo tempo, se seu estudo é meramente um exercício cognitivo, ao invés de ser parte da adoração que você oferece a Deus, este terá um efeito frio e sem paixão. Comer pedras pode ser uma forma de ter a sua dose diária de minerais, mas quem quer ingerir seus minerais de tal forma indigesta?


1 James B. De Young, “The Holy Spirit—The Divine Exegete: How Shall We Be Able to Hear Him?” (O Espírito Santo – O Exegeta Divino: Como Podemos Ouvir Ele?) (Evangelical Theological Society national meeting, Jackson, Miss [11-21-96]) 1.

2 Bauer, W., W. F. Arndt, F. W. Gingrich, and F. W. Danker. Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature. 2d ed. Chicago, 1979

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