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Falhas Fatais da Religião: n: 1 - Secularismo (Mateus 5:1-16)

Introdução

Há muitos anos atrás Joseph Lupo, um padre católico romano, fez uma pesquisa de mercado que acabou com a colocação de um anúncio de página inteira na edição da Costa Leste da Revista Playboy, para candidatos ao sacerdócio. Mais de 600 jovens responderam ao anúncio, e, pelo menos 28 deles foram examinados como prováveis candidatos ao sacerdócio. Nos anos anteriores, o melhor que ele poderia esperar era, no máximo, uns 10 candidatos. A resposta do público à sua abordagem também foi esclarecedora. Os elogios ganharam de 7 a 1 das reclamações. Mas, de qualquer forma, ele não estava preocupado com as críticas. O principal é - ele conseguiu resultados.

A fim de não sermos muito rápidos para criticar, deixe-me lembrar que nós, que somos chamados de evangélicos protestantes fundamentalistas, somos culpados do mesmo tipo de abordagem para o ministério cristão. Nós empacotamos e promovemos o cristianismo sem nenhuma diferença da Av. Madison vendendo pasta de dente ou desodorante. Administramos nossas igrejas de tal forma que, se Deus tivesse morrido há 20 anos atrás, ninguém ainda teria descoberto.

O mal sobre o qual estou falando é chamado de secularismo. Os cristãos são culpados de secularismo quando pensam e agem como as pessoas do mundo. Caímos no mal do secularismo quando tentamos cuidar do trabalho de Deus à maneira do mundo. Sucumbimos ao secularismo quando adotamos as mesmas atitudes, valores e metas que aqueles que não conhecem a Jesus como Senhor e Salvador adotam. É para este assunto do secularismo que nosso Senhor primeiramente dirige Sua atenção no Sermão do Monte.

Uma Olhada Mais Ampla no Sermão do Monte

Antes de mergulharmos no ensinamento de nosso Senhor sobre o secularismo, precisamos tratar da interpretação e aplicação do Sermão do Monte para nós do século 20. Antes de começarmos a interpretá-lo, ou de fazer a aplicação, precisamos responder a duas questões: (1) O que é o Sermão do Monte? (2) Como deve ser interpretado?

O Que é o Sermão do Monte?

A ocasião do sermão é descrita por Mateus. João Batista tinha sido preso recentemente (4:12). Jesus tinha deixado a Galiléia e estabelecido Seu quartel-general em Cafarnaum (4:12-13). Daí em diante Jesus pregou abertamente sobre o Reino de Deus (4:17, 23-25). Depois de passar uma noite em oração, nosso Senhor chamou os 12 que seriam Seus apóstolos (Lucas 6:12-13, Mt. 4:18-22).

As circunstâncias deste sermão indicavam que o ensinamento de nosso Senhor era dirigido àqueles que verdadeiramente seriam Seus discípulos. Nosso Senhor sentou-se para ensinar, assumindo uma postura autoritária, característica dos rabis de Seus dias. Quando nosso Senhor ensinava, ensinava como alguém qualificado a interpretar as Escrituras do Velho Testamento. Muitas características do ensinamento do Sermão do Monte emergem desses três capítulos:

(1) O Sermão do Monte foi a condensação de todo o ensino de Jesus ao longo de Sua vida e de Seu ministério. Apesar de Mateus e Lucas afirmarem claramente que este foi um sermão pregado em uma ocasião determinada, é possível que possa ter se estendido pelo período de alguns dias, tema de alguma espécie de retiro. Deduzindo que este foi realmente um sermão (ainda que um tanto prolongado), devemos continuar dizendo que este sermão se apresenta para nós com uma espécie de filtro do ensino de nosso Senhor. Barclay mostra como os temas deste sermão (pelo relato de Mateus) são um resumo do relato inteiro de Lucas. Diversos dos principais temas do ensino de nosso Senhor são encontrados neste único sermão.

Apesar de Mateus e Lucas afirmarem claramente que este foi um sermão pregado em uma ocasião determinada, é possível que possa ter se estendido pelo período de alguns dias, tema de alguma espécie de retiro. Deduzindo que este foi realmente um sermão (ainda que um tanto prolongado), devemos continuar dizendo que este sermão se apresenta para nós com uma espécie de filtro do ensino de nosso Senhor. Barclay mostra como os temas deste sermão (pelo relato de Mateus) são um resumo do relato inteiro de Lucas. Diversos dos principais temas do ensino de nosso Senhor são encontrados neste único sermão.

(2) O sermão é um esclarecimento do ensino de nosso Senhor sobre o Reino que Ele estabeleceria. Jesus saíra do anonimato retomando a pregação de João Batista e proclamando o evangelho do Reino (Mateus 4:17-23). Havia muitas concepções erradas e exageradas a respeito do que seria este reino. Nosso Senhor, neste sermão, tornou claro o ensino sobre este assunto para aqueles que seriam Seus discípulos.

Jesus saíra do anonimato retomando a pregação de João Batista e proclamando o evangelho do Reino (Mateus 4:17-23). Havia muitas concepções erradas e exageradas a respeito do que seria este reino. Nosso Senhor, neste sermão, tornou claro o ensino sobre este assunto para aqueles que seriam Seus discípulos.

(3) O Sermão do Monte contrasta a verdadeira religião de Jesus com as falsas religiões do paganismo, e especialmente com o Judaísmo de sua época. Talvez o versículo chave de todo o sermão seja Mateus 5:20, quando Jesus disse: "Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus."

Talvez o versículo chave de todo o sermão seja Mateus 5:20, quando Jesus disse: "Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus."

As bem-aventuranças descrevem o caráter daquele que é verdadeiramente justo e que experimentará o reino milenar de Cristo. É um contraste absoluto com o caráter dos escribas e fariseus. O ensino de nosso Senhor e Sua interpretação das Escrituras do Velho Testamento eram radicalmente diferentes das tradições judaicas e dos ensinos dos rabinos.

(4) O Sermão da Monte foi uma palavra de conforto e consolação ao remanescente fiel de Israel. Aqueles que estiveram ouvindo este sermão eram representantes daqueles que verdadeiramente buscavam e adoravam a Deus em Israel. Enquanto há severa condenação para os líderes judaicos, há encorajamento e consolo para aqueles que aguardavam "a consolação de Israel" (cf. Lucas 2:25). As primeiras palavras de nosso Senhor neste sermão são: "Bem-aventurados..."

Aqueles que estiveram ouvindo este sermão eram representantes daqueles que verdadeiramente buscavam e adoravam a Deus em Israel. Enquanto há severa condenação para os líderes judaicos, há encorajamento e consolo para aqueles que aguardavam "a consolação de Israel" (cf. Lucas 2:25). As primeiras palavras de nosso Senhor neste sermão são: "Bem-aventurados..."

Como Deve Ser Interpretado?

Tenho o maior interesse em considerar as diversas formas que as pessoas têm de interpretar e aplicar o mais conhecido sermão de nosso Senhor. Estranhamente é o não crente que parece aplicá-lo pessoalmente, enquanto muitos cristãos tentam evitar seus ensinamentos.

Ouve-se muitas vezes o não crente dizer: "Tento viver de acordo com o Sermão do Monte".

Isto parece querer dizer algo como: "Tento viver pela regra de ouro". Duvido que a maior parte desses que dizem tais coisas sequer tenham lido o Sermão do Monte inteiro. Com certeza não estabeleceriam padrões tão altos para si mesmos.

O Cristianismo liberal também dá muita importância ao Sermão do Monte. Eles consideram as palavras de Cristo como modelo para uma sociedade ideal. Eles desejam e lutam para estabelecer uma sociedade perfeita, na qual possam transmitir tais qualificações.

Outros vêem o sermão como a descrição do tipo de obras que alguém deveria se esforçar por fazer para alcançar a vida eterna. O erro aqui é que, aqueles que são chamados de bem-aventurados por nosso Senhor, devem ser presumidos como crentes verdadeiros. Suas obras são conseqüência da graça de Deus e não meios para obter a salvação eterna. Como o Dr. S. Lewis Johnson disse, quando Paulo foi argüido pelo carcereiro de Filipos: "Que devo fazer para herdar a vida eterna?" Paulo não respondeu: "Bem-aventurados os pobres de espírito: porque deles é o Reino dos céus."

Em minha opinião, o Evangelho não é pregado neste sermão por duas razões principais: primeiro, nosso Senhor estava falando àqueles que faziam parte do remanescente justo de Israel. Estes eram aqueles que aguardavam a salvação de Deus através do Seu Messias. Segundo, a obra expiatória de Cristo na cruz do Calvário ainda estava no futuro. Até que fosse completada, que mais poderia nosso Senhor dizer além daquilo que já tinha sido falado pelos escritores do Velho Testamento (e crido por seus ouvintes)?

Alguns cristãos têm interpretado este sermão como se referindo diretamente à igreja, ignorando completamente o contexto judaico no qual foi entregue. Outros, virtualmente, colocam de lado o sermão inteiro por causa do dispensacionalismo. Crêem que foi dado como uma espécie de Constituição para o Reino de Deus. Uma vez que ele dita a Lei do Reino de Deus para Israel, nós que somos da era da igreja (eles dizem) não estamos debaixo de seus requisitos. Esta opinião falha por ir de encontro ao fato de que nosso Senhor falava de um Reino até então no futuro ("herdarão a terra", Mt. 5:5), e que a experiência no presente daqueles a quem se destinava incluiria perseguição e rejeição.

O ponto principal, creio, é que não desejamos nos sujeitar ao ensino de Cristo. "Dar a outra face" não é o que a velha natureza deseja fazer. Posso me lembrar de um de meus professores dizendo, a respeito de Mateus 5:42 ("Dá ao que te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes."): "Se hoje um homem de negócios fosse seguir esta instrução, ele iria à falência."

Eu diria muitas coisas em reposta a esse tipo de evasão dispensacionalista. Primeiro, Deus nos chama a viver o tipo de vida ousada e impossível que precisa de fé no tipo de Deus que faz o impossível. A vida de fé é irracional para o homem do mundo. Segundo, ainda que este sermão tenha sido pregado aos judeus, ele tem aplicação para todos os cristãos. Se estou correto em presumir que a igreja é um reflexo do reino de Deus em miniatura, então devemos levar este sermão a sério. Finalmente, nunca devemos aplicar e interpretar qualquer versículo fora do ensinamento de outra parte das Escrituras. Não podemos tomar a promessa de que se dois ou três concordarem com alguma coisa em oração, nós a teremos (Mt. 18:19), isoladamente, sem considerar todo o ensino das Escrituras sobre oração. Assim também não podemos tomar um versículo do Sermão da Monte, interpretá-lo e aplicá-lo isoladamente. As Escrituras sempre interpretam as Escrituras.

Ainda que o Sermão da Monte tenha sido dirigido aos judeus, ele também fala aos cristãos de hoje. Ele nos diz quais devem ser nossas ações e atitudes. Ele nos desafia a viver uma vida excitantemente distinta, colocando sabor em nossa sociedade. Ele nos alerta sobre os perigos de uma religião falsa que se insinua dentro da teologia e da prática cristã. Ele nos instrui como devemos interpretar e aplicar as Escrituras do Velho Testamento. Ele coloca diante de nós as medidas do homem ou da mulher de Deus.

O Relacionamento do Crente Com Deus e Com o Homem (5:1-9)

Os 10 Mandamentos prescreveram o relacionamento de Israel com seu Deus e também o relacionamento com o seu próximo. Nosso Senhor resumiu assim os mandamentos: "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento... e... amarás o teu próximo como a ti mesmo." (Mt. 22:37, 39);

Da mesma forma, nas bem-aventuranças, nosso Senhor nos dá a descrição ou as características do verdadeiro crente, no que se refere a seu relacionamento tanto com Deus quanto com o homem. Cada bem-aventurança deve caracterizar cada crente verdadeiro. Cada bem-aventurança é um contraste marcante ao caráter e à conduta dos escribas e fariseus.

Você verá que cada atribuição é acompanhado pela expressão "bem-aventurado". Embora este termo possa ser legitimamente traduzido dessa forma (e J. B. Phillips assim o faz), certamente este é o sentido errado aqui. Felicidade implica mais em um sentimento passageiro que, normalmente, depende de circunstâncias favoráveis. A palavra grega (markarios) era usada para descrever a felicidade celestial dos deuses, uma vida livre de trabalho e das preocupações do mundo. Usada para o homens, inicialmente sugeria a mesma espécie de felicidade, de ser retirado dos cuidados da vida. Assim foi usada com relação à morte daqueles de quem se pensava terem passado para uma existência melhor. Mais precisamente, "bem-aventurado" aqui se refere à bênção e à alegria do homem que é contente, independentemente das circunstâncias que o cercam. Como Barclay nos lembra, "felicidade" (happiness) vem da raiz "hap" que significa acaso. A felicidade humana é dada pelo acaso, quando "tudo está correndo do nosso jeito". A bem-aventurança divina é a alegria interna, a serenidade, e a postura que vem do saber que somos retos diante de Deus, que nosso contentamento e bem-estar não são produto do acaso, mas da graça infinita.

Os Pobres em Espírito (verso 3)

Das duas palavras gregas que são usadas para descrever a pobreza, a que é usada aqui por nosso Senhor (pto,,chos) é a que se refere à pobreza mais extrema e sem recursos. Literalmente, a raiz significa encolher-se ou contrair-se. Esta pobreza do homem o coloca de joelhos. No Velho Testamento a palavra pobre evoluiu pelo uso constante. Primeiro, significava simplesmente pobre. Depois, indicava não ter nenhuma influência, prestígio ou, como diríamos, um trapo sequer. Uma vez que o pobre não tinha um trapo sequer, ele era oprimido e abusado pelos homens. Finalmente, como ele não poderia contar com mais ninguém, ele vinha a confiar em Deus. Cada vez mais a expressão "pobre" falava do homem que reconhecia sua própria incapacidade e confiava somente em Deus: "Clamou este aflito, e o Senhor o ouviu e o livrou de todas as suas tribulações." (Salmo 34:6, cf. 9:18, 35:10, 68:10, 72:4, 107:41, 132:15).

Isaías falou muitas vezes deste tipo de pobreza, e prometeu a estes "pobres" a salvação do Senhor (Isaías 41:17-18, 57:15, 61:1, 66:1-2).

Nosso Senhor não está glorificando a pobreza, mas aquele espírito de humildade que ela freqüentemente produz. Aqueles que herdarão o Reino dos Céus são aqueles que estão completamente cientes de que nada possuem que os recomende diante de Deus. Eles reconhecem que são espiritualmente sem recursos e esperam em Deus por sua libertação e salvação. Como são diferentes os fartos dos bens deste mundo que "confiam nas falsas riquezas" (I Timóteo 6:17)

Como eram orgulhosos e pomposos os escribas e fariseus que podiam orar: "Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho." (Lucas 18:11-12)

Os Que Choram (verso 4)

Este forte termo de luto expressava, com freqüência, o pesar de uma pessoa pela perda de alguém amado (cf. Gn. 37:34 LXX). Somado a isso, era usado para aqueles que sofriam por causa do pecado, tanto deles quanto dos outros. Este, certamente, é o sentido principal do uso deste termo aqui. Não deve haver somente admissão do pecado, mas um genuíno senso de arrependimento sobre ele. Há pouca conversa hoje em dia, mesmo nas igrejas cristãs, sobre arrependimento e tristeza pelos pecados. Para alguns, devemos apenas nos "confessar" com Deus. Falamos demais sobre I Jo. 1:9, como se fosse um "sabonete de Deus". Que Deus nos livre dessa atitude negligente diante do pecado (cf. Esdras 10:1, Salmo 119:135, Ezequiel 9:4, Filipenses 3:18).

Há conforto para aqueles que choram. Para os que choram pela morte física e a separação que ela traz, podemos ser consolados porque Jesus venceu o pecado, a morte e o túmulo. Àqueles a quem deixamos prá trás (ou melhor, que nos deixaram prá trás) no Senhor, nós veremos outra vez (I Tessalonicenses 4:13-18).

Há, da mesma forma, conforto para aqueles que choram devido ao pecado. A obra expiatória de Jesus na cruz obteve para todos os cristãos a liberdade da pena do pecado (Romanos 6:23, 8:1), do poder do pecado (Romanos 6:14), e, finalmente, da presença do pecado (Romanos 8:18 e ss).

Os Mansos (verso 5)

A mansidão nunca foi uma qualidade invejada. Geralmente pensamos em mansidão em termos de fraqueza. É uma qualidade que nenhum dos filmes de Burt Reynolds retrata (assim me dizem). É uma qualidade de Casper Milquetoast, ou assim supomos.

Devemos relembrar que Moisés foi chamado de "o homem mais manso que havia sobre a face da terra" (Números 12:3). Nosso Senhor Jesus também referiu-se a Si mesmo como sendo manso (Mateus 11:29). A mansidão muitas vezes implicava em autocontrole; era o controle da força.

O Dr. Lloyd-Jones ressalta que a mansidão falada por nosso Senhor é impulsionada por um alerta da nossa própria pecaminosidade. É difícil ser grosseiro com os outros numa área onde nós mesmos falhamos. Uma vez que chegamos a admitir a nossa própria perversidade e pecaminosidade, seremos menos rápidos em criticar os outros. Há um provérbio que diz: "O pobre fala com súplicas, porém o rico responde com durezas." (Pv. 18:23)

A nossa visão de nós mesmos é refletida no tratamento dispensado aos outros. Os ricos podem ser rudes, grosseiros e insensíveis. Podem escoicear os outros, porque podem se dar a esse luxo. O pobre deve tratar a todos com gentileza. Ele não está em posição de fazer outra coisa.

Certa vez trabalhei para um homem que tinha um temperamento explosivo e incontrolável. Sua fúria poderia entrar em erupção como um vulcão flamejante e todos os empregados tinham que se preparar para seus ataques verbais. Mas, na frente de um cliente, ele era doce e suave.

Encontro nas palavras de Paulo em Gálatas 6:1 muita coisa a esse respeito:

"Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que dois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guardais para que não sejais também tentados."

Você vê a questão? A visão que alguém tem de si mesmo determina ou modifica seu relacionamento com os outros. Uma pessoa mansa é alguém que se controla, totalmente ciente de que também é pecador.

Certa noite estive num Banquete dos Fundadores do Seminário de Dallas. Foi um evento adorável e o Dr. Charles Swindoll trouxe uma excelente mensagem sobre servidão. No caminho de casa pensava numa característica extra de um servo: o servo não vê como seu objetivo criticar outros servos. Nas palavras de Paulo: "Quem és tu que julgas o servo alheio?" (Romanos 14:4)

Os servos não fazem julgamento; os senhores sim. Se vemos a nós mesmos como servos, preocupamo-nos com nosso serviço, não com o dos outros. A mansidão (poderei dizer servidão?) deriva da minha atitude para comigo mesmo e de minha postura diante de Deus e dos homens.

Os Que Têm Fome e Sede de Justiça (verso 6)

Séculos antes da vinda de Cristo à terra na forma de homem o profeta Isaías escrevera: "Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite." (Isaías 55:1)

Os remanescentes justos de Israel sempre ansiaram pelo estabelecimento da retidão e da justiça sobre a terra. Eles clamavam a Deus em sua aflição; agonizavam sobre a prosperidade dos maus (cf. Salmo 37). A promessa foi sempre a mesma: "Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele e o mais Ele fará. Fará sobressair a tua justiça como a luz e o teu direito, como sol ao meio dia." (Salmo 37:5-6)

Aqueles que vieram a reconhecer sua pobreza e indignidade espiritual (verso 3) e que estão genuinamente contritos pelos seus pecados e dos outros (verso 4) esperam a época em que a justiça será estabelecida sobre a terra. Esta justiça é parte integrante da vinda do Messias e de Seu Reino milenar.

Poucos americanos têm qualquer idéia sobre a intensidade da fome e da sede a que se referia Jesus nas bem-aventuranças. Somos condicionados a sentir sede, mais ou menos como os cães de Pavlov, pela televisão e pelos anúncios da mídia, que produzem a sensação de sede para vender seus produtos. A fome e sede aqui mencionadas são algo insaciável, resultado de uma prolongada privação.

Aqueles que verdadeiramente desejam justiça serão satisfeitos. Em primeiro lugar os cristãos são revestidos da justiça pessoal do Senhor Jesus Cristo (Zacarias 3; Romanos 3:21-22; 10:4; I Coríntios 1:30; II Coríntios 5:21). Os trapos de imundícia da justiça decorrente das nossas boas obras são descartados (Isaías 64:6), e a justiça de Cristo é imputada a nós quando confiamos nEle. E ainda, quando nosso Senhor retornar, a justiça prevalecerá. "Nós, porém, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça." (II Pedro 3:13)

A suposição de que aqueles que têm fome e sede de justiça reconhecem que isso é algo que não possuem em si mesmos está implícita nesta bem-aventurança. Antes, é algo que lhes falta, mas que, desesperadamente desejam. Os escribas e fariseus estavam convencidos de que possuíam toda a justiça necessária para entrar no reino de Deus. A resposta de nosso Senhor aos fanáticos religiosos de Israel tornou claro um fato: "... os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores." (Marcos 2:17)

Os Misericordiosos (verso 7)

Um outro traço característico do verdadeiro crente é a misericórdia. A misericórdia como atitude tem uma relação muito próxima com a piedade. É a resposta aflita de um coração caloroso à tragédia e à miséria, à dor e ao sofrimento. Esta atitude se manifesta em atos de bondade que tencionam aliviar o sofrimento. A misericórdia vê o feio e o grotesco e estende a mão para ajudar em vez de olhar para o outro lado e bater em retirada.

A misericórdia é um dos magníficos atributos de Deus, através do qual Ele olha para o homem em seu estado patético de pecado e rebelião e vem em sua ajuda. O supremo ato de misericórdia foi a morte de Cristo na cruz do Calvário. Esta misericórdia é, então, uma característica de todo verdadeiro crente.

Os escribas e fariseus nada sabiam sobre a verdadeira misericórdia. Qualquer ato de caridade era simplesmente uma tentativa de obter aprovação pública (cf. Mateus 6:2-4). Na realidade, os escribas e fariseus olhavam para o desamparado e rejeitado como uma presa em potencial: "Ai de vós escribas e fariseus, hipócritas, porque devorais as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações..." (Mateus 23:14)

Não só o crente pode olhar prá trás para os atos de misericórdia de Deus no passado, mas também pode esperar que Deus continue a tratá-lo com misericórdia. Assim todo cristão pode esperar ansiosamente por receber misericórdia no futuro. (Não podemos nos esquecer que o supremo ato de misericórdia de Deus, a expiação substitutiva de Cristo na cruz, ainda estava no futuro para aqueles a quem Jesus falou este sermão.)

Os Puros de Coração (verso 8)

Pureza interna é uma outra faceta do caráter do verdadeiro crente. Os escribas e fariseus ocuparam-se com a limpeza externa, exterior. Eles eram meticulosos, por exemplo, na lavagem cerimonial de suas mãos, mas, ao mesmo tempo eram corruptos por dentro: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança." (Mateus 23:25)

A pureza deve começar internamente, e então se manifestar através de atitudes visíveis (cf. Mateus 23:26). O povo de Deus sempre foi marcado pela pureza interna (Salmo 24:4; 51:10; 73:1).

São eles que têm a esperança de permanecer na presença do Deus vivo. E é isto o que nosso Senhor prometeu: "pois verão a Deus" (verso 8b).

A pureza de coração, esta sinceridade e franqueza absoluta diante de Deus e dos homens, não é obra do homem. Como Davi escreveu: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro em mim um espírito inabalável" (Salmo 51:10). Pureza de coração é obra do próprio Deus.

Os Pacificadores (verso 9)

Existem muitos tipos de paz nestes dias. Existe o tipo "guerra fria", que significa a ausência da flagrante hostilidade da batalha. Este tipo existe internamente nas nações e é característico de muitos casamentos. Alguém já descreveu esses casamentos como "irreverentes becos sem saída". Existe a paz apática e aquiescente. Esta pode ser chamada de "paz a qualquer custo". Esta é a paz daqueles que dizem: "antes comunista do que morto".

Mas este não é o tipo de paz que Jesus fala. Aqueles que vêm a ter fé em Jesus como o Salvador que suportou seus pecados, experimentam a paz com Deus. Esta paz expressa a nossa reconciliação com Deus, mas também envolve a reconciliação do homem com o homem (cf. Efésios 2). Aqueles que experimentam esta paz provarão ser reconciliadores de homens (II Coríntios 5:18-19).

Embora devamos ser pacificadores, não somos apaziguadores de homens. Não buscamos paz a qualquer custo, mas buscamos compartilhar a paz alcançada pelo precioso sangue de Jesus Cristo. A despeito de nossos esforços em perseguir o caminho da paz (cf. Romanos 12:18), nossa fé inevitavelmente nos trará reação, perseguição e conflito. Os discípulos foram avisados por nosso Senhor de que isso também devia ser conseqüência de Seu ministério:

"Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra." (Mateus 10:34-35)

A proclamação do evangelho, combinada com uma vida vivida de acordo com a Palavra de Deus, coloca os homens frente a uma escolha. Ou irão alegremente aceitá-la, ou veementemente rejeitá-la. Essas são as conseqüências naturais (apesar de não intencionais) do discipulado cristão.

A Resposta do Mundo ao Modo de Viver Cristão

(5:10-12)

Já vimos que, ainda que o verdadeiro crente possa viver uma vida exemplar (como nosso Senhor o fez - sem pecar), haverá rejeição e até mesmo perseguição. Jesus não registrou a perseguição no campo de contas a pagar do livro-caixa, mas no das bênçãos do discipulado. Assim, Ele começou "Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça..." (Mateus 5:10)

Perseguição é reação natural à retidão. Pedro explicou desta forma:

"Porque basta o tempo decorrido para terdes executado a vontade dos gentios, tendo andado em dissoluções, orgias, bebedices e em detestáveis idolatrias. Por isso, difamando-vos, estranham que não concorrais com eles ao mesmo excesso de devassidão." (I Pedro 4:3-4)

O mundo é ameaçado pelo modo de vida cristão. Ele os convence do pecado, e condena seu estilo de vida. A reposta natural à ameaça é a retaliação. Eis aqui a fonte de nossa perseguição.

Nosso Senhor dá três razões que explicam porque esta perseguição pode ser percebida como bênção. Em primeiro lugar, é sofrer por Sua causa. É um nítido privilégio sofrer por causa de Cristo. "E eles se retiraram do Sinédrio regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afrontas por esse Nome." (Atos 5:41, cf. Filipenses 1:29; 3:10; Colossenses 1:24-29)

Segundo, sofrer no presente traz a promessa de galardão no futuro: "Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus..." (Mateus 5:12)

O escritor aos Hebreus disse a respeito de Moisés: "Pela fé, Moisés, quando homem já feito, recusou ser chamado de filho da filha de Faraó, preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado." (Hebreus 11:24-25) A ordem divina é sempre o sofrimento, depois a glória.

Terceiro, podemos nos regozijar porque a perseguição por causa de Cristo nos coloca em companhia dos antigos profetas que, por seu testemunho, também foram perseguidos (Mateus 5:12b).

A Razão para Viver Retamente

(5:13-16)

Percebendo que a vida vivida de acordo com as bem-aventuranças certamente levará à rejeição e à perseguição, alguns cristãos podem ficar tentados a se dissimular dentro da sociedade. Para combater esta tentação nosso Senhor explicou o propósito para as atitudes e ações justas nos versos 13-16. Essencialmente, a razão é: somente ao viver distintivamente como cristão, um verdadeiro crente pode glorificar a Deus e contribuir positivamente para sua sociedade. Para exemplificar esse ponto, o Senhor Jesus usou duas ilustrações, ou figuras: sal e luz.

O sal era um produto tão comum nos tempos bíblicos quanto o é ainda hoje. No Velho Testamento o sal era usado como tempero (Jó 6:6) e para acompanhar muitos dos sacrifícios que eram oferecidos (Levítico 2:13). Também era usado pelos orientais para selar um acordo (como, segundo me disseram, ainda é usado pelos Árabes atuais) e era usado nas alianças entre Deus e Israel (Números 18:19, II Crônicas 13:5). O sal, portanto, era um ingrediente que dava sabor, um símbolo de pureza e perpetuidade.

Havia grandes quantidades de sal nas encostas do Mar Morto, que eram formadas por uma espécie de rocha ou fóssil. Por causa das impurezas e da contaminação, muitas camadas externas desse sal eram inúteis como tempero. A referência de nosso Senhor ao "sal" em Mateus 5:13 pode muito bem se referir a esse "sal" contaminado, que era virtualmente inútil. Nesse caso, Ele está dizendo que o cristão que se compromete com o mundo a seu redor perde sua pureza e, ao mesmo tempo, sua utilidade para Deus e para a sociedade.

A luz também é uma das necessidades fundamentais do homem. O mundo, de forma geral, está em trevas espirituais (Salmo 82:5; Provérbios 4:19; Efésios 6:12, etc.). Nosso Senhor veio como a "luz" deste mundo (João 1:5 e ss, 8:12) e para chamar os homens das trevas para a luz (Efésios 5:8; Colossenses 1:13, I Tessalonicenses 5:4-5). Agora refletimos a luz de Sua glória ao mundo ao nosso redor através das nossas boas obras (as quais Ele coloca em nós). Como luzes, expomos as más obras das trevas e iluminamos o caminho divino, que Deus prescreveu para os homens andarem em justiça. O propósito da luz é iluminar, brilhar intensamente na escuridão (Mateus 5:15). Assim, o cristão só pode realizar seu propósito ao ser notável em seu inconfundível estilo de vida.

O estilo de vida cristão é, por sua própria natureza, algo distinto. Qualquer um que tente viver de acordo com o Sermão do Monte somente será capaz de fazê-lo pelo poder do Espírito Santo. É a vida do cristão, pois só ele deseja viver assim, e só ele pode viver desta maneira. Um estilo de vida inconfundível trará, inevitavelmente, reações adversas, e assim, devemos nos preparar para a perseguição. Mesmo nisto podemos nos regozijar, sabendo que é por causa de nosso Senhor, que nosso galardão nos espera no céu, e que estamos na companhia dos antigos profetas. Exceto pelo modo de vida cristão, o cristão não pode glorificar a Deus ou contribuir com a sociedade.

Conclusão

Muitas conclusões são difíceis de evitar como resultado de nosso estudo das bem-aventuranças. Em primeiro lugar, devo ressaltar o fato de que, ainda que estas bem-aventuranças constituam a medida de Deus para o homem e a mulher do mundo, certamente elas não se conformam aos padrões do mundo. O modelo que nossa mídia retrata para homens e mulheres não é o de Deus. Humildade, arrependimento, mansidão, pureza interna, e assim por diante, não são aquilo que o mundo considera marcas de maturidade, ou de masculinidade. Que Deus nos ajude a perceber isto claramente e reagir às situações como deveríamos.

Segundo, fico impressionado com o fato de que as circunstâncias que trazem alguns homens às bênçãos de Deus são idênticas àquelas que levam outros a amaldiçoarem a Deus. Como pode um Deus bondoso permitir a fome e a pobreza? Alguém já disse que, ou somos como uma batata, ou como um ovo. A água fervente endurece os ovos e amacia as batatas. Exatamente as mesmas circunstâncias resultam em efeitos opostos. Se você tem experimentado muitas situações humilhantes, pode muito bem ser que Deus esteja trazendo você ao ponto de ser um "pobre em espírito", e um verdadeiro lamentador, que busca a justiça de Deus. As adversidades levam alguns homens a não confiar em si mesmos e a se voltarem para Deus para a salvação eterna. Você já percebeu sua bancarrota espiritual? Você odeia seu pecado e anseia pela justiça que você mesmo não pode produzir? Então você deve se voltar para Jesus Cristo através da fé. Ele morreu pelos pecadores. Ele lhe oferece a justiça que Deus requer para entrar em Seu Reino.

Terceiro, temo que muitos cristãos estejam desesperadamente tentando camuflar suas convicções, e seu chamado como discípulos, para evitar a rejeição e a perseguição. O secularismo insinua-se dentro da igreja de uma forma aterradora. Os cristãos chegam a pensar e a agir como o mundo a seu redor. Procuramos até evangelizar com a metodologia do mundo e atrair com a mentalidade secular.

Muitas vezes nossa conformidade é indireta. Quando o mundo decide que está na hora de usar vestidos com a barra na altura da coxa, a igreja levanta a barra de suas saias acima dos joelhos. Quando o mundo decide ir à praia de "topless", os cristãos decidem ir de maiô de suas peças. E assim vai. A igreja não está ditando o ritmo ou o padrão; eles esperam o mundo agir e seguem dois passos atrás. Que patético!

Nossos filhos desejam desesperante a aceitação de seus colegas. Desejam ser o "Joe Cool". Farão quase qualquer coisa para evitar serem diferentes. E nós adultos não somos diferentes. Damos um jeitinho em nossos impostos e excedemos o limite de velocidade, porque "todo mundo faz". Mesmo o divórcio está ficando desenfreado entre cristãos e líderes cristãos. Somos muito parecidos com a igreja de Laodicéia, que não era "nem fria nem quente" (Apocalipse 3:14 e ss). Como Deus odeia tal mediocridade! Possa Deus nos capacitar a viver distintivamente para Sua glória, e para o benefício de nossa sociedade.

 

Tradução: Mariza Regina de Souza

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