Where the world comes to study the Bible

Uma Vez Mais (I Samuel 26:1-25)

Introdução

O raciocínio de alguns estudiosos, quando tratam de nosso texto, seria algo como: “Os acontecimentos do capítulo 26 são incrivelmente parecidos com os do capítulo 24. A semelhança pode ser explicada se presumirmos que os textos sejam apenas narrativas diferentes de um mesmo incidente.” É difícil chegar a esta conclusão sem pensar que o texto das Escrituras esteja de alguma forma corrompido e, por isso, não seja inerrante. É verdade que existem muitas semelhanças entre os dois capítulos. Por exemplo, em ambos os zifeus vão até Saul para informá-lo do paradeiro de Davi. Mas, por que é tão difícil entender os dois capítulos de forma literal e presumir que aquilo que os zifeus não conseguem da primeira vez, eles tentam na segunda?

Os estudiosos têm razão, creio, em apontar as semelhanças entre os dois capítulos. Eles não têm razão, em minha opinião, quando tentam explicar essas semelhanças baseando-se na suposição de que um dos dois, ou ambos os relatos bíblicos, tenham algum problema. Existe uma solução bem mais fácil (e melhor). E começa com a assunção de que a Bíblia é, tal como afirma ser, a Palavra inspirada de Deus, inerrante. Vamos admitir que a proximidade e a semelhança entre as duas narrativas do encontro de Saul com Davi sejam por desígnio divino. Vamos admitir também que o autor (Autor) coloca as narrativas bem perto uma da outra propositadamente, a fim de que notemos sua semelhança. E vamos supor ainda que o autor tenha a intenção de que percebamos tanto as semelhanças quanto as diferenças. Pode ser que as diferenças entre as duas narrativas seja a chave para o entendimento de ambas.

Deixe-me ilustrar o que estou sugerindo. No livro de Gênesis, lemos que os irmãos de José o vendem como escravo para o Egito. Eles o vendem porque estão com ciúmes dele e o odeiam porque é o filho favorito de Jacó. Eles não se importam com o fato de que a venda de José como escravo irá partir o coração de seu pai. Quando José, finalmente, se torna o segundo em comando de Faraó, seus irmãos descem ao Egito para comprar cereal, sem saber que ele é, na realidade, seu irmão. José, então, cria uma situação em que eles devem trazer o irmão mais novo, Benjamim, junto com eles, quando retornarem ao Egito para comprar mais cereal. Depois, ele cria um incidente que faz com que Benjamim pareça culpado de roubo. José dá a seus irmãos a oportunidade de trair seu irmão, Benjamim, deixando-o como escravo no Egito, e retornando a salvo para seu pai. Em resumo, José dá a seus irmãos a chance de, literalmente, reviver sua traição de aproximadamente 20 anos antes. O que importa nesta situação “semelhante” no Egito é a diferença na maneira como reagem os irmãos de José - especialmente Judá. A compaixão deles por Jacó e a preocupação com Benjamim mostram a José que eles realmente se arrependeram de seu pecado contra ele. Propositadamente, a situação é muito parecida com a traição cometida contra José, a fim de que o arrependimento de seus irmãos seja evidenciado nas diferenças entre o segundo e o primeiro incidentes.

Esta situação é bem parecida com a que o autor de I Samuel relata no capítulo 26. No capítulo 24, Davi está com a consciência culpada por ter cortado uma parte do manto de Saul. Embora ele faça muitas coisas certas ao tratar com Saul no capítulo 24, ele não aplica de forma consistente os mesmos princípios ao tratar com Nabal no capítulo 25. Só depois de ser gentilmente repreendido por Abigail é que ele deixa a vingança com Deus e desiste de seu plano de executar Nabal, junto com todos os seus servos. No capítulo 26, encontramos Davi em circunstâncias semelhantes àquelas do capítulo 24. Creio que Deus esteja lhe dando outra oportunidade, uma chance de “fazer a coisa certa”. E ele fará, como veremos. As semelhanças entre os capítulos 24 e 26 nos informam que Davi tem uma segunda chance. As diferenças entre os dois capítulos nos dizem como ele se saiu bem, uma vez mais.

Deja Vu
(26:1-5)

“Vieram os zifeus a Saul, a Gibeá, e disseram: Não se acha Davi escondido no outeiro de Haquila, defronte de Jesimom? Então, Saul se levantou e desceu ao deserto de Zife, e com ele, três mil homens escolhidos de Israel, a buscar a Davi. Acampou-se Saul no outeiro de Haquila, defronte de Jesimom, junto ao caminho; porém Davi ficou no deserto, e, sabendo que Saul vinha para ali à sua procura, enviou espias, e soube que Saul tinha vindo. Davi se levantou, e veio ao lugar onde Saul acampara, e viu o lugar onde se deitaram Saul e Abner, filho de Ner, comandante do seu exército. Saul estava deitado no acampamento, e o povo, ao redor dele.”

Já vimos os zifeus antes. No capítulo 23 está escrito que eles foram até Saul em Gibeá, informando-o sobre o paradeiro de Davi e prometendo entregá-lo a ele (23:19-20). Saul queria ter certeza de que Davi não escorregaria pelo vão de seus dedos, por isso mandou a delegação dos zifeus de volta prá casa, com instruções para identificar todos os possíveis esconderijos de Davi, a fim de garantir sua captura na campanha seguinte (23:21-23). Eles voltaram prá casa e Saul prontamente saiu em intensa perseguição a Davi. Quando Davi soube de sua aproximação, ele se dirigiu mais para o sul, onde quase caiu na cilada armada por Saul na montanha do deserto de Maon. Não fosse pela chegada oportuna de um mensageiro, informando que os filisteus tinham atacado Israel, Saul o teria capturado (23:24-29).

Após seu retorno da perseguição aos filisteus, Saul retomou sua caça a Davi. Aconteceu que Saul fez uma parada para descanso justamente na mesma caverna em que Davi e seus homens estavam escondidos. Enquanto Saul estava na caverna, Davi, sem ser visto, cortou um pedaço de seu manto, mas não permitiu que ninguém lhe fizesse mal. Depois, ele se apresentou a Saul, demonstrando sua inocência ao lhe mostrar o pedaço do manto que acabara de cortar. Naquele momento Saul “se arrependeu” e os dois homens se separaram em paz (capítulo 24). Foi ali que Davi publicamente adotou a posição de que seria errado para ele (ou para qualquer outro) tirar Saul do trono, causando-lhe algum dano, uma vez que isto seria se opor ao ungido de Deus. Davi não faria mal a seu rei; ele buscaria somente o seu bem.

No capítulo 25, vemos que o compromisso assumido por Davi em relação ao bem estar de Saul era algo que ele não estava disposto a estender a Nabal. Davi havia enviado uma delegação de dez homens para pedir a Nabal uma contribuição em alimentos, pois este comemorava o período de tosquia. Rudemente, Nabal se recusa a ceder qualquer alimento, acrescentando à injustiça uma porção de ofensas a Davi e seus seguidores. Davi fica tão irado que se prepara para matar Nabal e todos os homens de sua casa. Devido à sábia intervenção de Abigail, a esposa de Nabal, Davi poupa a vida deste, sendo impedido, desta forma, de agir de forma insensata. Abigail, em seu apelo a Davi, o relembra dos princípios que ele adotou no capítulo 24.

Agora, uma vez mais, encontramos os zifeus denunciando Davi para Saul. Quando eles vão até Saul, este não está no deserto de Zife ameaçando a vida daqueles que poderiam reter informações sobre o paradeiro de Davi. Ele está em sua casa em Gibeá, tendo abandonado a perseguição a Davi, pelo menos por algum tempo. No entanto, com a chegada destes úteis informantes, Saul novamente é compelido a perseguir Davi. Os zifeus são descendentes de Calebe e, por isso, de Judá; eles são compatriotas de Davi, e mesmo assim, denunciam seu futuro rei a um benjamita como Saul.

Saul volta ao deserto de Zife, acompanhado por 3.000 de seus melhores soldados. Desta vez ele não pretende deixar Davi escapar. Saul assenta acampamento no outeiro de Haquila, perto da estrada. Davi permanece na parte mais remota do deserto. Desta vez as coisas vão ser bem diferentes do que na última vez em que os dois se encontraram neste lugar. Da primeira vez Davi procurava escapar, enquanto Saul avançava. Agora é Saul, com seus homens, que estão acampados, e Davi quem toma a iniciativa. Os espiões localizam o acampamento de Saul e informam Davi, que se aproxima com seus homens. Davi olha para baixo e vê Saul dormindo no meio do acampamento, facilmente identificado por seu tamanho, por sua armadura ou vestimenta e, com toda certeza, por sua lança. Ao lado de Saul está deitado seu tio e comandante do exército, Abner. Ao redor de Saul e Abner estão espalhados seus 3.000 soldados, dispostos em ondas concêntricas, tal como quando uma pedra é lançada numa lagoa tranqüila.

Um Pedido e Um Voluntário
(26:6-12)

“Disse Davi a Aimeleque, o heteu, e a Abisai, filho de Zeruia, irmão de Joabe: Quem descerá comigo a Saul, ao arraial? Respondeu Abisai: Eu descerei contigo. Vieram, pois, Davi e Abisai, de noite, ao povo, e eis que Saul estava deitado, dormindo no acampamento, e a sua lança, fincada na terra à sua cabeceira; Abner e o povo estavam deitados ao redor dele. Então, disse Abisai a Davi: Deus te entregou, hoje, nas mãos o teu inimigo; deixa-me, pois, agora, encravá-lo com a lança, ao chão, de um só golpe; não será preciso segundo. Davi, porém, respondeu a Abisai: Não o mates, pois quem haverá que estenda a mão contra o ungido do SENHOR e fique inocente? Acrescentou Davi: Tão certo como vive o SENHOR, este o ferirá, ou o seu dia chegará em que morra, ou em que, descendo à batalha, seja morto. O SENHOR me guarde de que eu estenda a mão contra o seu ungido; agora, porém, toma a lança que está à sua cabeceira e a bilha da água, e vamo-nos. Tomou, pois, Davi a lança e a bilha da água da cabeceira de Saul, e foram-se; ninguém o viu, nem o soube, nem se despertou, pois todos dormiam, porquanto, da parte do SENHOR, lhes havia caído profundo sono.”

Os observadores de Davi localizam o acampamento de Saul e, acompanhado por pelo menos dois de seus homens, Davi vai até lá. Dois parecem estar junto dele, Aimeleque, o hitita (não confundir com Aimeleque, o sacerdote, que foi morto por Saul), e Abisai, filho de Zeruia, irmão de Joabe e Azael (II Samuel 2:18). Davi conversa com eles, pedindo que um dos dois desça com ele ao acampamento. Aimeleque parece ficar em silêncio, enquanto Abisai se oferece como voluntário.

Imagine por alguns instantes que você seja Abisai. Saul cuidadosamente se posicionou na parte mais interna do círculo feito por suas tropas. Abner, um heróico guerreiro e guarda-costas de Saul, está deitado bem ao lado do rei. Cuidadosamente, você abre caminho por entre esse labirinto de corpos humanos, temendo que, a qualquer momento, alguém acorde. Parece impossível que alguém dentre esses 3.000 homens não esteja de guarda. Você ouve um soldado roncando muito alto e se pergunta se deveria virá-lo de lado, para não acordar os outros. Você pisa num galho seco e ele estala - seu coração quase pára. Você mal pode acreditar que realmente esteja fazendo isso, enquanto está ali, ao lado de Davi, vendo Saul dormir tranqüilamente, com Abner a seu lado. Próximo à cabeça de Saul está sua lança fincada no chão, e sua vasilha d’água.

Se você fosse Abisai, não levaria muito tempo para compreender o que viria a seguir. Sabendo, pelo incidente na caverna, que Davi é sensível quanto à questão de matar Saul, Abisai sussurra: “Deus te entregou, hoje, nas mãos o teu inimigo; deixa-me, pois, agora, encravá-lo com a lança, ao chão, de um só golpe; não será preciso segundo.” Abisai raciocina: “É bem verdade que Davi se recusou a matá-lo na caverna, mas, com certeza, agora ele aprendeu a lição. Se ele relutar, eu o farei. Com certeza, ele não pediu um voluntário para descer até aqui, só para olhar o rei e depois ir embora.” Que debate interessante deve ter havido entre Davi e Abisai, enquanto eles discutem violentamente, mesmo tentando desesperadamente impedir que Saul ou qualquer um de seus homens acordem.

Davi proíbe Abisai de matar Saul basicamente pelas mesmas razões que apresentou na caverna, no capítulo 24. Ninguém pode levantar a mão contra o ungido do Senhor sem incorrer em culpa. No verso 10, Davi vai ainda mais além do que havia dito anteriormente: “Tão certo como vive o SENHOR, este o ferirá”, ele assevera. Davi não sabe como, mas, depois de sua experiência com Nabal e Abigail, ele sabe que Deus pode realizar Sua vontade de diversas maneiras. Ele poderia ferir Saul de morte, Saul poderia morrer de causas naturais, ou ser morto em batalha. Estas são apenas algumas maneiras pelas quais Deus poderia tirar Saul do trono, mas, em todos os casos, isto não será pelas mãos de Davi, nem pelas mãos de qualquer um de seus homens.

Davi foi até lá por causa da lança de Saul e de sua vasilha d’água, e isso é tudo. Assim, ele pega a lança e a jarra, dizendo a Abisai para acompanhá-lo. Posso até ver Abisai balançando a cabeça, enquanto retornam pelo meio daquele labirinto de corpos humanos ao redor de Saul e, finalmente, se esgueiram para a segurança da escuridão. “Que missão suicida! Tudo isso só para pegar uma lança e uma vasilha d’água!” O autor de nosso texto nos informa que este não foi apenas um golpe de sorte, ou uma excelente manobra militar, soubessem eles, ou não. Deus, miraculosamente, fez com que estes 3.000 homens adormecessem. Davi e Abisai poderiam ter gritado um com o outro (será possível que tenham feito?), e ninguém teria acordado. Abisai poderia ter tropeçado e despencado em cima de alguns deles, e ainda assim estariam a salvo. Pergunto-me quantas vezes na história os homens admitiram ter realmente escapado por milagre, ou ter tido um desempenho fantástico em alguma empreitada, sem sequer saber que a mão de Deus estava por trás de tudo.

Um Brusco Despertar
(26:13-16)

“Tendo Davi passado ao outro lado, pôs-se no cimo do monte ao longe, de maneira que entre eles havia grande distância. Bradou ao povo e a Abner, filho de Ner, dizendo: Não respondes, Abner? Então, Abner acudiu e disse: Quem és tu, que bradas ao rei? Então, disse Davi a Abner: Porventura, não és homem? E quem há em Israel como tu? Por que, pois, não guardaste o rei, teu senhor? Porque veio um do povo para destruir o rei, teu senhor. Não é bom isso que fizeste; tão certo como vive o SENHOR, deveis morrer, vós que não guardastes a vosso senhor, o ungido do SENHOR; vede, agora, onde está a lança do rei e a bilha da água, que tinha à sua cabeceira.”

A mãe de Davi não criou nenhum tolo. Ele deixa para gritar depois de ter atravessado o que parece ser um vale. Então, estando no topo de uma montanha, longe do alcance de Saul, ele brada ao povo, em geral, e a Abner, em particular. Provavelmente ainda é noite escura, ou a meia claridade das primeiras horas da manhã. Os soldados de Saul, ao que parece, são despertados pelo som da sua voz. Sem distinguir quem está chamando, Abner não reconhece a voz de Davi.

Há uma razão para Davi gritar para os soldados e para Abner, em particular. Ele acusa o grupo todo de não proteger adequadamente seu rei. Por isso, ele insiste que esta falha deve lhes custar a vida. Ao lermos as palavras de Davi para Abner e para os outros, começamos a entender as razões por detrás da desconcertante invasão ao acampamento de Saul. Davi não foi até lá sem mais nem menos, como uma espécie de travessura impulsiva. Ele tinha um plano, que saiu exatamente como o esperado. Quando pediu um voluntário, Abisai se apresentou, tal como suspeito que Davi tenha previsto. Veja, Abisai era um de seus valentes, conforme descrito em II Samuel 23:18-19:

“Também Abisai, irmão de Joabe, filho de Zeruia, era cabeça de trinta; e alçou a sua lança contra trezentos e os feriu. E tinha nome entre os primeiros três. Era ele mais nobre do que os trinta e era o primeiro deles; contudo, aos primeiros três não chegou.”

Abisai é um soldado arrojado, um homem que não tem escrúpulos em tirar a vida dos outros. Davi o levou consigo, sabendo perfeitamente que ele queria matar Saul quando chegassem ao acampamento.

Aqueles a quem Davi se dirige são soldados. Eles estão ali para prender Davi, descrito por alguns como um perigoso fora-da-lei, determinado a matar Saul para se apossar de seu trono. Se fosse assim (ou mesmo se não fosse), eles fazem parte do serviço secreto de Saul. Davi lhes diz que eles falharam no cumprimento de seu dever mais importante - o de proteger o rei. Ele afirma que um suposto assassino foi bem sucedido em penetrar suas defesas e chegar ao rei, com toda intenção de lhe fazer o mal. O rei só respira porque Davi o deteve (a Abisai). Davi tem razão! Apesar de ele não ter se aproximado de Saul para lhe causar algum dano, com certeza esta era a intenção de Abisai. A única razão pela qual Abisai não matou Saul foi porque Davi o deteve. Se algum deles duvidava de que alguém pudesse chegar tão perto de Saul, que procurasse a lança do rei e sua vasilha d’água. Imagine o terror, especialmente de Abner, quando olham para o chão, a algumas polegadas da cabeça de Saul, e vêem o buraco onde a ponta da lança estava encravada e o lugar da vasilha d’água desaparecida e, talvez até um par de pegadas indo e voltando em direção à lança. Davi pede que a segurança de Saul envie um homem até ele para retirar os objetos subtraídos. Ele tem a lança, e prova o que disse.

Na verdade, Davi salvou a vida de Saul. Como comandante-em-chefe de suas forças, Abner é o responsável por esta terrível violação da segurança que pôs a vida do rei em perigo. Ele é o homem no comando. Foi na sua vigília, por assim dizer, que a vida do rei esteve em perigo. E era ele quem estava deitado ao lado do rei, ao alcance de quem o poderia ter morto. Abner é o soldado mais renomado do exército de Saul. Que mancha este incidente coloca em seu currículo! No entanto, a coisa é bem pior, pois falhar em proteger o rei é um crime punível com a morte. Neste caso, não apenas Abner, mas cada um dos 3.000 soldados é culpado de um pecado imperdoável.

Alguém me falou de uma notícia que ouviu no rádio. Ao que parece houve uma tentativa contra a vida do filho de Saddam Hussein. Ele não foi morto, mas, por falharem na sua proteção, todos os membros de sua equipe de segurança foram executados. Davi não está exagerando e, cada um dos soldados perto de Saul deve se perguntar qual será a reação do rei.

Davi Conversa com Saul
(26:17-20)

“Então, reconheceu Saul a voz de Davi e disse: Não é a tua voz, meu filho Davi? Respondeu Davi: Sim, a minha, ó rei, meu senhor. Disse mais: Por que persegue o meu senhor assim seu servo? Pois que fiz eu? E que maldade se acha nas minhas mãos? Ouve, pois, agora, te rogo, ó rei, meu senhor, as palavras de teu servo: se é o SENHOR que te incita contra mim, aceite ele a oferta de manjares; porém, se são os filhos dos homens, malditos sejam perante o SENHOR; pois eles me expulsaram hoje, para que eu não tenha parte na herança do SENHOR, como que dizendo: Vai, serve a outros deuses. Agora, pois, não se derrame o meu sangue longe desta terra do SENHOR; pois saiu o rei de Israel em busca de uma pulga, como quem persegue uma perdiz nos montes.”

Lentamente Saul começa a despertar, sem dúvida ainda meio grogue, de sua soneca sobrenatural. Ele ouve meio indistintamente a conversa entre Abner e uma voz distante. Ele conhece essa voz; é a voz de nenhum outro que não Davi. Ele já ouviu o bastante para acalmá-lo. Não é a tua voz, meu filho Davi? Davi confirma que de fato é ele. Daqui em diante, Davi assume o comando, perguntando a Saul por que ele o está perseguindo novamente. Ele pergunta que mal fez a Saul que requeira tal atitude. Não há, é claro, nenhuma boa resposta.

O que se segue é ainda mais intrigante. Davi suplica que Saul ouça suas palavras e leve em consideração aquilo que vai dizer. Não é justo Saul procurar matá-lo, pois ele nada fez de errado ao rei. Na verdade, ele acabou de salvar sua vida. Depois disto, Davi vai mais a fundo na questão, do ponto de vista das implicações teológicas. Nos versos 19 e 20 Deus é enfatizado, bem como as conseqüências espirituais da perseguição de Saul a Davi.

É óbvio que Saul acredita que Davi seja culpado de alguma coisa para que tenha de ser caçado e eliminado. Davi mostra que só pode haver duas fontes para Saul chegar a essa conclusão. Por um lado, é possível que ele, Davi, tenha realmente pecado, e que o Senhor tenha induzido Saul a resolver o problema. Se for assim, Saul só precisa dizer qual é o pecado de Davi, para que ele possa expiá-lo, oferecendo um sacrifício aceitável a Deus. Se for assim, não há necessidade de Saul persegui-lo e puni-lo, visto que Deus já o perdoou.

Há ainda outra possibilidade. Se Davi é inocente, então, houve alguém que o acusou injustamente diante de Saul, descrevendo-o como um bandido perigoso, digno de morte. Se esta segunda possibilidade é verdadeira, então esses falsos acusadores estão debaixo da maldição do Senhor. Não é Davi quem é digno de morte, mas aqueles que o acusaram injustamente.

“O que justifica o perverso e o que condena o justo abomináveis são para o SENHOR, tanto um como o outro.” (Pv. 17:15)

“Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!” (Is. 5:20)

O pecado desses homens vai muito além de fazer falsas acusações contra Davi. Ao incitarem Saul a persegui-lo, eles obrigaram um homem inocente a fugir de sua pátria. Foram eles, ajudados por Saul, que expulsaram Davi de Israel. As implicações espirituais são imensas. Deixar a pátria, como Davi o fez, é “não ter parte na herança do SENHOR” (verso 19). Obrigar um verdadeiro israelita a deixar sua terra é o mesmo que dizer: “Vai, serve a outros deuses.” (verso 19)

Este ponto é muito importante, mas é bem mais difícil para nós entendermos do que o foi para os israelitas do Antigo Testamento, como Davi. Quando Deus criou o mundo e a raça humana, Ele colocou Adão e Eva num lugar especial, o Jardim do Éden. Era ali que Deus se relacionava com eles. Quando pecaram, eles foram expulsos desse lugar de bênção e companheirismo. Quando Deus chamou Abraão, Ele separou um homem a quem abençoaria, e cujos descendentes Ele também abençoaria. No entanto, Ele também estabeleceu um lugar de bênção. Foi para este lugar que Abraão foi instruído a ir, deixando para trás sua família e sua terra natal. Deus também escolheu a terra de Israel como o lugar onde habitaria de maneira especial.

Quando Jacó enganou seu irmão Esaú, ele, literalmente, foi obrigado a deixar este lugar especial, Israel. Ao deixar Israel (ou aquele lugar que se tornou a terra de Israel), em direção a Padã-Harã, Deus apareceu num sonho a Jacó:

“E sonhou: Eis posta na terra uma escada cujo topo atingia o céu; e os anjos de Deus subiam e desciam por ela. Perto dele estava o SENHOR e lhe disse: Eu sou o SENHOR, Deus de Abraão, teu pai, e Deus de Isaque. A terra em que agora estás deitado, eu ta darei, a ti e à tua descendência. A tua descendência será como o pó da terra; estender-te-ás para o Ocidente e para o Oriente, para o Norte e para o Sul. Em ti e na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra. Eis que eu estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei voltar a esta terra, porque te não desampararei, até cumprir eu aquilo que te hei referido. Despertado Jacó do seu sono, disse: Na verdade, o SENHOR está neste lugar, e eu não o sabia. E, temendo, disse: Quão temível é este lugar! É a Casa de Deus, a porta dos céus. Tendo-se levantado Jacó, cedo, de madrugada, tomou a pedra que havia posto por travesseiro e a erigiu em coluna, sobre cujo topo entornou azeite. E ao lugar, cidade que outrora se chamava Luz, deu o nome de Betel. Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo, e me guardar nesta jornada que empreendo, e me der pão para comer e roupa que me vista, de maneira que eu volte em paz para a casa de meu pai, então, o SENHOR será o meu Deus; e a pedra, que erigi por coluna, será a Casa de Deus; e, de tudo quanto me concederes, certamente eu te darei o dízimo. (Gênesis 28:12-22, ênfase minha)”

Neste sonho Deus transmitiu a Jacó uma mensagem muito importante. A mensagem era que Canaã era um lugar muito especial; era o lugar onde o céu e a terra se encontravam, um lugar onde Deus habitava de maneira especial. Foi esta mensagem que motivou Jacó a voltar a este lugar e a não continuar em Padã-Harã. Da mesma forma que Deus escolheu um povo, em meio ao qual Ele habitaria, Ele também escolheu um determinado lugar onde habitaria. É por isso que Jacó foi enterrado na terra prometida, mesmo tendo morrido no Egito (Gênesis 47:27-31; 49: 29-33). José, da mesma forma, deu instruções para que seus ossos fossem levados para essa terra, quando a nação de Israel voltasse para lá (Gênesis 50:22-26; Êxodo 13:19)

Quando os israelitas estavam prestes a entrar na terra prometida, Deus deixou bem claro que eles somente deveriam adorá-Lo no lugar determinado por Ele:

“Mas buscareis o lugar que o SENHOR, vosso Deus, escolher de todas as vossas tribos, para ali pôr o seu nome e sua habitação; e para lá ireis. A esse lugar fareis chegar os vossos holocaustos, e os vossos sacrifícios, e os vossos dízimos, e a oferta das vossas mãos, e as ofertas votivas, e as ofertas voluntárias, e os primogênitos das vossas vacas e das vossas ovelhas. Lá, comereis perante o SENHOR, vosso Deus, e vos alegrareis em tudo o que fizerdes, vós e as vossas casas, no que vos tiver abençoado o SENHOR, vosso Deus. Não procedereis em nada segundo estamos fazendo aqui, cada qual tudo o que bem parece aos seus olhos, porque, até agora, não entrastes no descanso e na herança que vos dá o SENHOR, vosso Deus. Mas passareis o Jordão e habitareis na terra que vos fará herdar o SENHOR, vosso Deus; e vos dará descanso de todos os vossos inimigos em redor, e morareis seguros. Então, haverá um lugar que escolherá o SENHOR, vosso Deus, para ali fazer habitar o seu nome; a esse lugar fareis chegar tudo o que vos ordeno: os vossos holocaustos, e os vossos sacrifícios, e os vossos dízimos, e a oferta das vossas mãos, e toda escolha dos vossos votos feitos ao SENHOR, e vos alegrareis perante o SENHOR, vosso Deus, vós, os vossos filhos, as vossas filhas, os vossos servos, as vossas servas e o levita que mora dentro das vossas cidades e que não tem porção nem herança convosco. Guarda-te, não ofereças os teus holocaustos em todo lugar que vires; mas, no lugar que o SENHOR escolher numa das tuas tribos, ali oferecerás os teus holocaustos e ali farás tudo o que te ordeno. (Dt. 12:5-14)”

Obrigar Davi a fugir do território de Israel era obrigá-lo a fugir do lugar onde Deus habitava de maneira especial; era obrigá-lo a deixar o lugar que Deus providenciara para que os homens O adorassem. Portanto, obrigar alguém a fugir de Israel era mais ou menos como dizer: Vai, serve a outros deuses. Você se recorda da história de Rute? No livro que tem o seu nome, Noemi e seu marido deixam Israel na época da fome e vão para o território de Moabe. Quando seu marido e seus dois filhos morrem, Noemi decide voltar a Israel. Suas noras eram moabitas. Noemi pretendia deixá-las em sua própria terra, voltando sozinha para Israel. Repare no que ela lhes diz, e como Rute responde:

“Tornai, filhas minhas! Ide-vos embora, porque sou velha demais para ter marido. Ainda quando eu dissesse: tenho esperança ou ainda que esta noite tivesse marido e houvesse filhos, esperá-los-íeis até que viessem a ser grandes? Abster-vos-íeis de tomardes marido? Não, filhas minhas! Porque, por vossa causa, a mim me amarga o ter o SENHOR descarregado contra mim a sua mão. Então, de novo, choraram em voz alta; Orfa, com um beijo, se despediu de sua sogra, porém Rute se apegou a ela. Disse Noemi: Eis que tua cunhada voltou ao seu povo e aos seus deuses; também tu, volta após a tua cunhada. Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o SENHOR o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.” (Rute 1:12-17)

Para todos os efeitos, dizendo-lhes para ficar em Moabe em vez de voltar com ela para Israel, ela as incentivou a servir seus deuses. Deixar Israel é deixar a terra onde se pode adorar a Deus (devido à Sua presença especial ali, particularmente junto à Arca da Aliança e, conseqüentemente, ao Templo).

No livro de II Reis, lemos sobre a cura e conversão de Naamã, o sírio. Quando estava prestes a retornar à sua própria terra, ele fez um pedido muito incomum ao profeta Eliseu:

“Disse Naamã: Se não queres, peço-te que ao teu servo seja dado levar uma carga de terra de dois mulos; porque nunca mais oferecerá este teu servo holocausto nem sacrifício a outros deuses, senão ao SENHOR.” (II Re. 65:17)

Naamã percebeu que o Deus de Israel era o único e verdadeiro Deus. Ele também reconheceu que Deus habitava de forma especial em Israel, e que era ali que Ele devia ser adorado. O que fez, então, Naamã? Pediu um pouco de terra do solo israelita para levar consigo para a Síria, a fim de que pudesse adorar o Deus de Israel em solo israelita.

Tempos depois na história de Israel, Deus mandaria Seu povo para o cativeiro, para fora da terra. Este foi um golpe devastador, como pode ser visto em um dos Salmos escritos durante o cativeiro judaico na Babilônia:

“Às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião. Nos salgueiros que lá havia, pendurávamos as nossas harpas, pois aqueles que nos levaram cativos nos pediam canções, e os nossos opressores, que fôssemos alegres, dizendo: Entoai-nos algum dos cânticos de Sião. Como, porém, haveríamos de entoar o canto do SENHOR em terra estranha? Se eu de ti me esquecer, ó Jerusalém, que se resseque a minha mão direita. Apegue-se-me a língua ao paladar, se me não lembrar de ti, se não preferir eu Jerusalém à minha maior alegria.” (Salmo 137:1-6)

Davi fugiu para Gate na Filistia (21:10-15), e depois para Moabe (22:3-4). Creio que ele estava fora do território de Israel quando o profeta Gade lhe apareceu, instruindo-o a deixar o lugar seguro e retornar para o território de Judá (22:5). O motivo não é dito no texto, e acho que também não foi dito a Davi. No entanto, creio que agora ele entenda por quê. Ele compreende uma verdade muito importante - que Israel é o lugar que Deus escolheu para habitar de forma especial e onde deve ser adorado. De fato, ali é o lugar onde o céu encontra a terra, tal como no sonho de Jacó. Davi também compreende as implicações desta verdade à medida que ela se aplica à perseguição feita por Saul e seus homens, obrigando-o a fugir do país. Aqueles que instigaram Saul contra Davi obrigaram-no a fugir de sua pátria, e, assim, é como se tivessem dito a ele: Vai, serve a outros deuses. Este crime é passível de morte:

“Se teu irmão, filho de tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu amor, ou teu amigo que amas como à tua alma te incitar em segredo, dizendo: Vamos e sirvamos a outros deuses, que não conheceste, nem tu, nem teus pais, dentre os deuses dos povos que estão em redor de ti, perto ou longe de ti, desde uma até à outra extremidade da terra, não concordarás com ele, nem o ouvirás; não olharás com piedade, não o pouparás, nem o esconderás, mas, certamente, o matarás. A tua mão será a primeira contra ele, para o matar, e depois a mão de todo o povo. Apedrejá-lo-ás até que morra, pois te procurou apartar do SENHOR, teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão. E todo o Israel ouvirá e temerá, e não se tornará a praticar maldade como esta no meio de ti. (Dt. 13:6-11, ver também os versos 12 a 18)”

A acusação e perseguição a Davi são realmente um assunto muito sério. São injustas, pois Davi é inocente. Aqueles que o estão perseguindo se colocaram numa posição muito perigosa. Ao lado de quem estes homens supõem que Deus esteja? Davi conseguiu entrar e sair de seu acampamento. Ele conseguiu chegar perto de Saul e pegar sua lança, sem qualquer resistência. Se ele quisesse, poderia ter matado Saul. E, mesmo assim, é ele quem salva a vida do rei, não seus homens. Eles falharam na proteção ao rei! Eles, não Davi, são dignos de morte. E, uma vez que todos os soldados de Saul deixaram de protegê-lo, todos são culpados de uma ofensa capital. Eles merecem morrer. Eles merecem morrer não só nas mãos de Saul, mas nas mãos de Deus. Ao acusar Davi e obrigá-lo a fugir do país, eles promovem a adoração de falsos deuses. Eles são homens condenados. Eles estão encrencados, com seu rei e com seu Deus. Este incidente mostra que não é a vida de Davi que está em perigo, mas a daqueles que o perseguem, ou que falsamente o acusam. Parece que os culpados estão ali naquela noite. A lança de Saul não é arremessada, mas as palavras de Davi penetram o coração de cada homem.

No verso 20, Davi suplica a Saul que seu sangue não seja derramado fora de sua pátria, longe da presença do Senhor. Não há necessidade de Saul persegui-lo com tanta intensidade. Sair em busca de Davi é como sair em busca de uma pulga, como perseguir uma perdiz nos montes. É muito trabalho por pouca coisa. É trabalho sem sentido, prá não dizer perigoso. O rei deve abandonar sua perseguição e parar de dar ouvidos àqueles que o colocam contra Davi.

Saul Fala
(26:21-25)

“Então, disse Saul: Pequei; volta, meu filho Davi, pois não tornarei a fazer-te mal; porque foi, hoje, preciosa a minha vida aos teus olhos. Eis que tenho procedido como louco e errado excessivamente. Davi, então, respondeu e disse: Eis aqui a lança, ó rei; venha aqui um dos moços e leve-a. Pague, porém, o SENHOR a cada um a sua justiça e a sua lealdade; pois o SENHOR te havia entregado, hoje, nas minhas mãos, porém eu não quis estendê-las contra o ungido do SENHOR. Assim como foi a tua vida, hoje, de muita estima aos meus olhos, assim também seja a minha aos olhos do SENHOR, e ele me livre de toda tribulação. Então, Saul disse a Davi: Bendito sejas tu, meu filho Davi; pois grandes coisas farás e, de fato, prevalecerás. Então, Davi continuou o seu caminho, e Saul voltou para o seu lugar.”

Davi não usa a lança de Saul contra ele, mas Saul capta a mensagem. Ele reconhece seu próprio pecado no relacionamento com Davi. Mas, a palavra mais importante é volta. Saul tomou parte no pecado de expulsar Davi do país, longe de poder adorar seu Deus? Então ele confessa seu pecado, e abandona sua perseguição, a fim de que Davi possa voltar em segurança ao lugar de adoração. Uma vez que Davi considera preciosa a vida de Saul, Saul promete considerar a vida de Davi da mesma forma. Ele confessa que pecou, e que, em seu pecado, se tornou culpado do terrível erro a que Davi se refere.

Em resposta à confissão de Saul e sua promessa de anistia, Davi grita: “Eis aqui a lança, ó rei; venha aqui um dos moços e leve-a.” Parece realmente que, como alguns já observaram, a lança, antigamente, era símbolo de autoridade. Davi não ousa manter aquilo que pertence a Saul, e assim ele pede que alguém vá buscá-la.

Será que alguns chamariam Davi de pecador, traidor e inimigo de Saul? Nos versos 23 e 24 Davi conclui sua defesa, expressando sua justiça. Ele relembra a seus perseguidores que é o Senhor quem retribuirá a justiça e lealdade de cada um. Deus o faz de forma individual (“cada um”). Embora o Senhor entregue Saul em suas mãos, Davi não lhe causa nenhum dano, pois Saul é o ungido do Senhor. Portanto, Davi espera que a recompensa por sua atitude nesta noite venha do Senhor.

Ainda que Saul e seus homens tenham se arriscado, acusando e perseguindo Davi como pecador e criminoso, Davi tem certeza de que sua vida está segura nas mãos de Deus. Da mesma forma que Davi deu muito valor à vida de Saul, ele sabe que Deus dá valor à sua vida e, por isso, tem certeza de que Deus de fato o livrará de todas as suas aflições (verso 24).

As palavras finais de Saul são de bênção sobre Davi, com a garantia de ele que fará grandes coisas e de que, finalmente, prevalecerá (verso 25). Com estas palavras, os dois homens se separam pela última vez. Eles não se encontrarão novamente, pois a época da morte de Saul se aproxima. Saul retorna a seu lugar, mas Davi prossegue em seu caminho. Davi sabe muito bem que o arrependimento de Saul não durará por muito tempo.

Conclusão

Eis aqui uma mensagem para aqueles que, como Saul e seus homens, acusaram Davi injustamente. Deus defende aqueles que são Seus. Não existe maneira do ungido de Deus ser afastado antes do tempo estabelecido por Ele. Isto foi verdade com relação a Saul; e também com relação a Davi. Deus defende o inocente, e Ele fará justiça ao aflito. Em pouco tempo Deus virou a mesa sobre os inimigos de Davi. Não era Davi quem corria grande perigo, mas aqueles que se opunham a ele. Que os inimigos dos eleitos de Deus tomem nota e que Seus eleitos tomem coragem.

Os acontecimentos deste capítulo são muito relevantes para a compreensão de Davi a respeito da fidelidade de Deus, e para sua aplicação em sua vida. Davi foi corajoso fora da caverna no capítulo 24, mas ele é ainda mais corajoso aqui no capítulo 26. Ele confia na proteção e no cuidado de Deus, e Nele, como aquele que recompensará sua justiça e julgará seus acusadores. Se no capítulo 24 vemos Davi repreendendo gentilmente seu rei, no capítulo 26 vemo-lo repreendendo aqueles que colocaram o rei contra ele. Agora, Davi vê sua fuga em termos de suas implicações espirituais.

Se Davi cresce espiritualmente devido aos acontecimentos do capítulo 24, e este crescimento é evidente no capítulo 26, devemos concluir que Abigail desempenha papel significativo nesse crescimento. As verdades ditas por Davi no capítulo 26 são exatamente as mesmas que ela lhe diz. Se ele tem alguma dúvida acerca de ser rei, Abigail lhe garante que ele será o rei de Israel (25:30). Embora ele queira se vingar de seus inimigos (quer dizer, de Nabal), ela o relembra de que a vontade de Deus cuidará melhor desse assunto, e que, deixando tudo em Suas mãos, evitará que ele se lamente (25:31). Davi teme ser morto? Ela lhe garante que sua vida está segura nas mãos de Deus (25:29). Dizem que, por trás dos grandes homens, há sempre uma grande mulher. Com certeza isso é verdade com relação a Davi e Abigail.

Os estudiosos se torturam porque o capítulo 26 é parecido demais com o capítulo 24? É parecido porque é uma espécie de reprise. Quando Deus quer nos ensinar alguma coisa, se não conseguimos aprender a lição na primeira vez, ele continuará a nos fazer passar por experiências que irão nos confrontar com o mesmo tipo de teste. Creio que a razão para haver um segundo incidente no capítulo 26, tão semelhante ao do capítulo 24, é que Deus queria que Davi fizesse o teste novamente a fim de receber uma nota maior.

Lembro-me de uma conversa que tive há alguns anos com um amigo que estava passando por algumas dificuldades. Enquanto conversávamos, meu amigo mencionou que, além dos problemas em questão, ele também enfrentara muitos outros. Sondei-o com algumas perguntas e ficou claro que, em todas as situações, os problemas e os casos eram muito parecidos. Então lhe perguntei: “Já lhe ocorreu que Deus continua levando-o de volta ao mesmo problema porque você ainda não lidou com ele como deveria?” Ele reconheceu que, provavelmente, era isso mesmo. Acho que talvez tenha acontecido o mesmo com Davi, e também aconteça conosco. Quando deixamos de tratar certas questões como deveríamos, Deus continua nos dando outra chance de fazer a coisa certa.

Finalmente, creio que haja algo para aprendermos sobre o “lugar da bênção” para os cristãos atuais. Para os santos do Antigo Testamento, como vimos, habitar no território de Israel era um privilégio e fonte de bênçãos. Lá eles poderiam oferecer sacrifícios e adorar a Deus com total liberdade. Em qualquer outro lugar Deus poderia ser adorado e servido, mas com certas restrições. É claro que alguns poderiam permanecer ali e distantes de Deus, devido à sua incredulidade e desobediência. E, da mesma forma, estar num lugar distante, mas ainda andando intimamente com Deus. No entanto, o ideal era viver em Israel, lugar da presença e das bênçãos de Deus.

O que isso quer dizer para nós, cristãos do Novo Testamento, que vivemos longe da terra prometida? A resposta do Novo Testamento é bem clara sobre esse assunto. Em João 1, Jesus Se apresenta como o Messias de Israel. Jesus chama Filipe para segui-Lo, e Filipe encontra Natanael, dizendo-lhe que o Messias prometido já veio e que é Jesus de Nazaré (João 1:43-44). Quando Natanael se aproxima de Jesus, o Senhor lhe diz “Antes de Filipe te chamar, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira” (1:48). Natanael é persuadido e diz a Jesus: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (1:49). As palavras de nosso Senhor a Natanael são fantásticas:

“Ao que Jesus lhe respondeu: Porque te disse que te vi debaixo da figueira, crês? Pois maiores coisas do que estas verás. E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.” (João 1:50-51)

Com estas palavras, Jesus leva Natanael, e a nós também, de volta ao sonho de Jacó em Gênesis 28. Neste sonho Jacó vê os anjos subindo e descendo uma escada que vai até o céu, mas que está na terra. Jacó fica muito impressionado com o lugar onde a escada está - em Israel - e com a natureza especial deste lugar como o lugar da morada de Deus. Jesus agora retoma esta imagem enquanto conversa com Natanael. Natanael tinha acabado de se objetar a afirmação de Pedro, baseado somente no lugar de onde viera Jesus - Nazaré (João 1:46). Agora Jesus lhe diz que embora ele estivesse preocupado com o lugar onde estava a escada, Jesus é a escada! O lugar é importante, mas a Pessoa de Jesus é ainda mais importante. Jesus é o meio designado por Deus para unir o céu e a terra, para providenciar o acesso dos homens ao céu. Não era Israel, o lugar, mas Israel, a pessoa, que salvaria os homens de seus pecados e os levaria para o céu.

No evangelho de Mateus, lemos sobre o nascimento de nosso Senhor Jesus, e depois sobre a fuga de José, Maria e a criança para o Egito. Após a morte de Herodes, José traz sua família de volta a Israel. Quando ele o faz, Mateus escreve:

“Dispondo-se ele, tomou de noite o menino e sua mãe e partiu para o Egito; e lá ficou até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor, por intermédio do profeta: DO EGITO CHAMEI MEU FILHO.”

Estas palavras, DO EGITO CHAMEI MEU FILHO, são encontradas em Oséias 11:1. Elas se referem ao fato de Deus ter tirado Israel, Seu filho (ver Êxodo 4:22-23) do Egito. Agora, por inspiração, Mateus aplica estas palavras ao menino Jesus. Tal como Israel foi o filho de Deus, que Ele tirou do Egito, assim o menino Jesus é o Filho de Deus, que Ele também trouxe do Egito. Deus resumiu numa só Pessoa, o Senhor Jesus Cristo, todo o Israel e suas esperanças. Israel é o lugar onde Deus se encontra com os homens, mas Jesus é o Filho, a pessoa por meio de quem Deus salva os homens. Israel é o lugar aonde veio a pessoa do Messias. E agora que Ele veio, é Ele que deve ser importante, não o lugar.

Quando Jesus se encontra com a mulher samaritana, a questão sobre “lugar” de adoração é levantada. Quero que prestem bastante atenção ao que a mulher diz a Jesus e ao que nosso Senhor lhe diz em resposta:

“Senhor, disse-lhe a mulher, vejo que tu és profeta. Nossos pais adoravam neste monte; vós, entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade. Eu sei, respondeu a mulher, que há de vir o Messias, chamado Cristo; quando ele vier, nos anunciará todas as coisas. Disse-lhe Jesus: Eu o sou, eu que falo contigo.” (João 4:19-26)

A mulher samaritana conhece muito bem as diferenças existentes entre samaritanos e judeus a respeito do lugar apropriado para adoração. Ela traz o assunto à baila em sua discussão com Jesus. Mas Jesus não conversa sobre o lugar apropriado. Ele lhe diz que, agora, a questão da adoração se concentra numa Pessoa, não num lugar. Aqueles que adoram a Deus em espírito e em verdade devem adorá-Lo por intermédio do Messias prometido. A mulher concorda, mas erroneamente supõe que Ele ainda não tenha vindo. Jesus lhe diz: Eu... sou Ele. Aqueles que adoram a Deus devem adorá-lo por intermédio de Jesus Cristo. Portanto, a adoração não é mais uma questão de estar no lugar certo, mas de adorar por intermédio da Pessoa certa.

Desde a vinda de Jesus Cristo, o Messias de Israel, adorar a Deus não é mais uma questão de estar no lugar certo, mas de estar na Pessoa certa. Em João 15, Jesus fala a Seus discípulos sobre permanecer Nele como o ramo permanece na videira. Nos capítulos 14 e 16 Jesus fala a Seus discípulos sobre a vinda do Espírito Santo. Jesus promete habitar em cada verdadeiro crente, por intermédio do Espírito Santo. E é desta forma que encontramos a salvação, a santificação e as bênçãos espirituais descritas como conseqüências de estar “em Cristo”, nas epístolas do Novo Testamento.

“Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.” (Romanos 3:23-24, ênfase minha)

“Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.” (Romanos 6:11, ênfase minha)

“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.” (Romanos 6:23, ênfase minha)

“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.” (Romanos 8:1)

“Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.” (Romanos 8:38-39, ênfase minha)

“À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso.” (I Co. 1:2, ênfase minha)

“Sempre dou graças a meu Deus a vosso respeito, a propósito da sua graça, que vos foi dada em Cristo Jesus.” (I Co. 1:4, ênfase minha)

“Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção.” (I Co. 1:30, ênfase minha)

“Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo.” (I Co. 15:22, ênfase minha)

“Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento.” (II Co. 2:14, ênfase minha)

“E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (II Co. 5:17, ênfase minha)

“E isto por causa dos falsos irmãos que se entremeteram com o fim de espreitar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus e reduzir-nos à escravidão.” (Gl. 2:4, ênfase minha)

Termino esta mensagem com uma nota um tanto triste, mas doce. Meu amigo e companheiro de Conselho, Lee Crandell, faleceu na semana que sucedeu a pregação desta mensagem. Lembro-me de suas últimas palavras. Ele ressaltou o quanto gostou da mensagem e, especialmente, de sua aplicação. Sei o que ele quis dizer. Lee amava o Senhor Jesus Cristo, e amava ouvir e proclamar a mensagem do evangelho. Ele sabia o que significava estar em Cristo. Lee morreu, em Cristo. Que consolo:

“Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes com respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes como os demais, que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará, em sua companhia, os que dormem. Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto: nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem. Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor. Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras.” (I Ts. 4:13-18, ênfase minha)

Estar em Cristo é ser perdoado de nossos pecados. É ser nova criatura, as coisas velhas ficaram prá trás, e tudo se fez novo. Estar em Cristo é ter certeza da ressurreição da morte, de passar a eternidade na presença de Jesus Cristo. Meu amigo, Lee, estava em Cristo. Se estivesse aqui hoje, faria a você somente uma pergunta: Você está em Cristo? Ser salvo, ser cristão, ter certeza do perdão dos pecados e da vida eterna, não é uma questão de estar no lugar certo, mas de estar na Pessoa certa. A maneira de estar em Cristo é reconhecer seu pecado contra Deus e confiar somente em Jesus Cristo como o meio providenciado por Deus para a sua salvação. Pela fé em Cristo, Seu sofrimento e Sua morte pagam a penalidade por seus pecados. Pela retidão de Cristo e Sua ressurreição da morte, você é justificado e levantado em novidade de vida. Se você não confia na morte, sepultamento e ressurreição de Jesus em seu favor, eu lhe digo que faça isso neste exato momento. Estar em Cristo é estar no lugar designado por Deus para salvação e bênção para sempre.