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28. O Desejo de Morte de Saul (I Samuel 31)

Introdução

Nos livros de I e II Samuel, o autor conta a história de modo semelhante ao modo que as principais redes de televisão utilizam na cobertura das Olimpíadas. Uma vez que muitas competições diferentes são realizadas ao mesmo tempo, a rede não tem condições de fazer a cobertura simultânea de todas elas. Mas as maravilhas da comunicação moderna providenciaram uma solução: enquanto uma competição é transmitida ao vivo, as demais são gravadas. Depois elas são cuidadosamente intercaladas, para que a cobertura completa não pareça incoerente. Se não soubéssemos que algumas competições são videoteipe, poderíamos muito bem achar que elas acontecem na seqüência em que aparecem.

O autor de I Samuel faz algo parecido. Ele rastreia simultaneamente a vida de dois homens - Saul e Davi - os quais, na maior parte das vezes, estão em lugares diferentes. Seu interesse principal não é dispor os acontecimentos em ordem cronológica, na seqüência exata em que ocorrem, mas contar a história de forma que mostre o contraste entre Saul e Davi. É por isso que nos capítulos finais de I Samuel, vamos e voltamos entre eles e, nesse processo, a seqüência exata dos acontecimentos se perde, pois o autor não a considera importante para sua história.

Com um pouco de esforço, nestes últimos capítulos podemos perceber, em determinados momentos, a seqüência dos acontecimentos; em outros, é impossível. De qualquer forma, devemos seguir o entendimento do autor de que isto não é a chave para a compreensão do texto. Se pudermos ligar os acontecimentos da vida de Davi aos de Saul, muito bem; senão, isto não deve nos incomodar.

O que devemos nos esforçar para perceber em nosso texto é a ligação entre a história da morte de Saul e suas implicações para nós hoje. Com certeza há uma ligação muito clara entre a sua morte e a vida de alguém que lê esta narrativa escrita há tanto tempo atrás. Além disto, nosso texto levanta uma das questões morais e legais mais discutidas de nossa época. Fique comigo, portanto, enquanto tentamos compreender o significado e a mensagem desta passagem para nossa vida.

O Cenário
(31:1-3)

“Entretanto, os filisteus pelejaram contra Israel, e, tendo os homens de Israel fugido de diante dos filisteus, caíram feridos no monte Gilboa. Os filisteus apertaram com Saul e seus filhos e mataram Jônatas, Abinadabe e Malquisua, filhos de Saul. Agravou-se a peleja contra Saul; os flecheiros o avistaram, e ele muito os temeu.”

Quando Davi e seus homens se separam de Aquis e dos filisteus, estes se dirigem para norte, para Jezreel, enquanto Davi e seus homens voltam para o sul, em direção a Ziclague. Imagino que eles tenham alcançado seu destino mais ou menos ao mesmo tempo. Isto significa que Saul e o exército israelita estão lutando contra os filisteus quase na mesma hora em que Davi e seus homens estão perseguindo o bando amalequita. Pelo menos é isto que ficamos sabendo, uma vez que está escrito que Davi sabe da morte de Saul três dias após terem chegado a Ziclague, após a vitória sobre os amalequitas (II Samuel 1:1-2). Providencialmente, Deus tira Davi deste conflito, desviando sua atenção bem mais para o sul. Portanto, não é permitido que Davi lute com ou contra os filisteus. A vontade de Deus é que, nesta batalha entre Israel e os filisteus, os filisteus vençam e Saul e seus filhos pereçam.

Muitos detalhes trágicos desta batalha são omitidos. Os homens de Israel fogem ao ataque filisteu. Muitos soldados israelitas caem mortos no Monte Gilboa; agora cai por terra qualquer esquema defensivo que tenham providenciado para Saul (lembre-se de 26:5). Os filisteus começam a apertar o ataque contra Saul e seus filhos. Saul deve ter se refugiado no ponto mais alto e mais protegido do Monte Gilboa, observando com terror enquanto seus filhos tentam fazer a última linha de defesa para seu pai. A tentativa falha e os três filhos de Saul jazem mortos, enquanto os arqueiros localizam Saul e começam a usá-lo para a prática do tiro ao alvo. Nenhum dos ferimentos de Saul é fatal, embora ele não possa mais atacar, muito menos se defender. É só uma questão de tempo e Saul sabe disso.

O Último Pedido de Saul
(31:4-6)

“Então, disse Saul ao seu escudeiro: Arranca a tua espada e atravessa-me com ela, para que, porventura, não venham estes incircuncisos, e me traspassem, e escarneçam de mim. Porém o seu escudeiro não o quis, porque temia muito; então, Saul tomou da espada e se lançou sobre ela. Vendo, pois, o seu escudeiro que Saul já era morto, também ele se lançou sobre a sua espada e morreu com ele. Morreu, pois, Saul, e seus três filhos, e o seu escudeiro, e também todos os seus homens foram mortos naquele dia com ele.”

O “pedido” de Saul, na verdade, é uma exigência. Ele ordena que seu escudeiro desembainhe a espada e o atravesse com ela. Talvez este não seja um pedido tão incomum, tanto naquela época quanto agora. No capítulo nove do livro de Juízes, Abimeleque faz o mesmo pedido. Abimeleque é um dos muitos filhos de Gideão, embora sua mãe seja uma concubina. Ele convence seus parentes em Siquém a torná-lo seu líder, e depois mata seus 70 irmãos sobre uma pedra (versos 1-5). O relacionamento entre os líderes de Siquém e Abimeleque fica hostil, o que acaba em conflito. Abimeleque derrota os homens de Siquém e encurrala os líderes na torre da cidade. Ele está prestes a incendiá-la, quando uma mulher joga uma pedra de moinho de cima da torre e o golpeia na cabeça. Ele é mortalmente ferido e sabe que está morrendo. Para evitar o estigma de ter sido morto por uma mulher, ele ordena a seu escudeiro que desembainhe sua espada e o mate. O jovem faz o serviço para Abimeleque, e ele morre. A morte de Abimeleque está muito longe de ser nobre e não é um precedente ao qual alguém quisesse recorrer.

Saul está numa situação parecida. Uma porção de flechas dos filisteus acerta o alvo e ele fica gravemente ferido. De um jeito ou de outro, ele sabe que sua morte está próxima, e assim ordena a seu escudeiro que acabe com ele. Ele dá ao escudeiro duas razões, as quais ele parece achar que sejam incontestáveis: (1) ele não quer morrer pelas mãos de algum pagão “incircunciso”; (2) ele não quer que seus inimigos escarneçam dele (verso 4). No entanto, suas razões não são incontestáveis o bastante para seu escudeiro. Alguns poderiam esperar uma resposta do escudeiro que mencionasse o fato de Saul ser o “ungido do Senhor” (compare com II Samuel 1:14, 16). Por isso, não podemos ter certeza de que ele se recuse a agir por causa de seus princípios. No entanto, é dito que ele deixa de agir por medo. Aliás, é dito que ele tem muito medo (verso 4).

Saul está desesperado. Ele não tem forças para lutar contra os filisteus e menos ainda para se matar. Mas há uma coisa que ele pode fazer: cair sobre sua própria espada; e é o que ele faz. Quando preguei esta mensagem e cheguei a este ponto, tenho certeza de que algumas pessoas da congregação pensaram que eu tinha perdido completamente o juízo, pois joguei a cabeça para trás e comecei a rir. Vendo os olhares confusos, expliquei que não pude evitar, pois até isto Saul não consegue fazer direito. Ele errou o alvo! Você consegue imaginar a cena? Ele não erra apenas quando tenta acertar Davi com sua lança (no mínimo duas vezes), e Jônatas; agora, nem quando mira a si mesmo ele consegue acertar o alvo.

Digo isto não pelo que lemos no capítulo 31, mas pelo que lemos em II Samuel 1. Sabemos pelas palavras de um amalequita, que Saul não consegue terminar o serviço. Este jovem encontra Saul apoiado sobre sua lança (II Samuel 1:6). Saul tenta se matar e, simplesmente, não consegue fazer o serviço direito. Se Deus não permitiu que Saul tirasse a vida de Davi, Seu ungido, tampouco permitirá que ele tire sua própria vida, pois ele também é Seu ungido. Aquilo que o escudeiro não fez a Saul, ele faz a si mesmo. O escudeiro morre, deixando Saul sozinho, pelo menos por alguns instantes.

Os Efeitos da Derrota
(31:7-10)

“Vendo os homens de Israel que estavam deste lado do vale e daquém do Jordão que os homens de Israel fugiram e que Saul e seus filhos estavam mortos, desampararam as cidades e fugiram; e vieram os filisteus e habitaram nelas. Sucedeu, pois, que, vindo os filisteus ao outro dia a despojar os mortos, acharam Saul e seus três filhos caídos no monte Gilboa. Cortaram a cabeça a Saul e o despojaram das suas armas; enviaram mensageiros pela terra dos filisteus, em redor, a levar as boas-novas à casa dos seus ídolos e entre o povo. Puseram as armas de Saul no templo de Astarote e o seu corpo afixaram no muro de Bete-Seã.”

O autor de nosso texto usa uma técnica muito popular entre os escritores de filmes para televisão. Você se lembra dos filmes onde o herói está num lugar perigoso e, de repente, acontece alguma coisa horrível e deixam que o telespectador presuma o pior... durante os comerciais? No entanto, de alguma maneira, depois do intervalo comercial, descobrimos que o herói realmente não morreu conforme fomos levados a pensar. É isto que o autor faz em nosso texto. Ele deixa que pensemos que Saul deu fim a si mesmo, seguido por seu escudeiro. E então, de repente, no capítulo 1 de II Samuel, descobrimos que ele não estava realmente morto.

Um jovem amalequita vai a Davi com a coroa e o bracelete de Saul, e a história de como, afinal, ele morre. Ele vai a Ziclague informar Davi sobre a derrota de Israel para os filisteus e lhe diz que havia escapado do arraial israelita. Ele diz que encontrou Saul por acaso, e que o rei estava apoiado sobre sua espada próximo da morte, mas ainda com vida. Saul lhe pediu que se aproximasse e o matasse, e o jovem sentiu-se obrigado a fazê-lo. Ele vai, então, a Davi, achando que poderia ser recompensado. Com toda certeza Davi ficará encantado ao ouvir que seu inimigo está morto. Este é o segundo erro do dia deste jovem, e ambos lhe custam a vida.

A morte de Saul e seus filhos é uma recordação da morte de Eli e seus filhos no capítulo 4. Em ambas as ocasiões, a morte e a derrota vêm pelas mãos dos filisteus. Em ambos os casos, pai e filhos morrem no mesmo dia. Em ambas as derrotas, não morrem somente os líderes, mas também muitos israelitas. A vitória dos filisteus é uma catástrofe individual (para Saul e Eli, e para seus filhos), não uma catástrofe nacional (para Israel).

O autor de nosso texto decide claramente enfocar mais Saul do que seus filhos ou a nação de Israel. Por exemplo, não é dito como Jônatas morre, embora queiramos muito saber e embora esperemos que ele morra como o grande guerreiro que foi, lutando até o último suspiro. Antes de vermos como Saul morre, vamos fazer uma pausa para relembrar que, quando ele é morto, muitos israelitas também morrem, e muitos outros batem em retirada, conforme lemos no verso 7. Os que estão do outro do vale e daquém do Jordão (que não estão no foco do ataque filisteu) vêem a derrota de Israel e a morte de Saul e seus filhos, e sabem que não há esperanças de derrotarem os filisteus. Eles fogem, abandonando as cidades, que depois são ocupadas pelos filisteus. Esta grande derrota não reduz só o tamanho do exército de Israel, reduz o tamanho de Israel.

É importante observar que Israel, bem como Saul, estão sendo divinamente disciplinados. Você deve se lembrar que Saul foi o rei exigido pelos israelitas no capítulo 8, e que esta exigência era uma evidência de que eles tinham rejeitado a Deus como seu rei (I Samuel 8:7-8). Não é só por causa dos pecados de Saul que Israel é derrotado e muitos perecem; é também pelos pecados de Israel. Em I Samuel 12, Samuel faz uma ligação muito clara entre a conduta de Israel e seu rei e seu destino:

“Agora, pois, eis aí o rei que elegestes e que pedistes; e eis que o SENHOR vos deu um rei. Se temerdes ao SENHOR, e o servirdes, e lhe atenderdes à voz, e não lhe fordes rebeldes ao mandado, e seguirdes o SENHOR, vosso Deus, tanto vós como o vosso rei que governa sobre vós, bem será. Se, porém, não derdes ouvidos à voz do SENHOR, mas, antes, fordes rebeldes ao seu mandado, a mão do SENHOR será contra vós outros, como o foi contra vossos pais. Ponde-vos também, agora, aqui e vede esta grande coisa que o SENHOR fará diante dos vossos olhos. Não é, agora, o tempo da sega do trigo? Clamarei, pois, ao SENHOR, e dará trovões e chuva; e sabereis e vereis que é grande a vossa maldade, que tendes praticado perante o SENHOR, pedindo para vós outros um rei. Então, invocou Samuel ao SENHOR, e o SENHOR deu trovões e chuva naquele dia; pelo que todo o povo temeu em grande maneira ao SENHOR e a Samuel. Todo o povo disse a Samuel: Roga pelos teus servos ao SENHOR, teu Deus, para que não venhamos a morrer; porque a todos os nossos pecados acrescentamos o mal de pedir para nós um rei. Então, disse Samuel ao povo: Não temais; tendes cometido todo este mal; no entanto, não vos desvieis de seguir o SENHOR, mas servi ao SENHOR de todo o vosso coração. Não vos desvieis; pois seguiríeis coisas vãs, que nada aproveitam e tampouco vos podem livrar, porque vaidade são. Pois o SENHOR, por causa do seu grande nome, não desamparará o seu povo, porque aprouve ao SENHOR fazer-vos o seu povo. Quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o SENHOR, deixando de orar por vós; antes, vos ensinarei o caminho bom e direito. Tão-somente, pois, temei ao SENHOR e servi-o fielmente de todo o vosso coração; pois vede quão grandiosas coisas vos fez. Se, porém, perseverardes em fazer o mal, perecereis, tanto vós como o vosso rei.” (I Samuel 12:13-25, ênfase minha).

Nos versos 8 a 10, vemos que Saul não consegue o que quer. Seu escudeiro não atende seu duplo desejo:

(1) Não ser morto por um incircunciso.

(2) Que ninguém escarneça dele (talvez como os filisteus fizeram com Sansão - Juízes 16:23-25).

O pedido de Saul não é concedido. Primeiro, ele é morto por um incircunciso. Ele não é morto por sua espada, nem pela espada de seu escudeiro. São as flechas dos filisteus (31:3) e a espada de um amalequita (II Sam. 1:9-10) que o matam. Saul realmente é morto por mãos incircuncisas. É exatamente como Deus queria que fosse e como disse que seria:

“Porque o SENHOR fez para contigo como, por meu intermédio, ele te dissera; tirou o reino da tua mão e o deu ao teu companheiro Davi. Como tu não deste ouvidos à voz do SENHOR e não executaste o que ele, no furor da sua ira, ordenou contra Amaleque, por isso, o SENHOR te fez, hoje, isto. O SENHOR entregará também a Israel contigo nas mãos dos filisteus, e, amanhã, tu e teus filhos estareis comigo; e o acampamento de Israel o SENHOR entregará nas mãos dos filisteus.” (I Sam. 28:17-19)

Não é por mera coincidência que ele é morto pelas mãos dos filisteus (28:19) e pela mão de um amalequita (28:18). Temos aqui uma espécie de justiça poética. Saul está colhendo o que ele mesmo plantou. Ele é morto por mãos de incircuncisos porque Deus disse que seria assim que ele morreria. Não importa o quanto Saul tente mudar seu destino, ele não consegue ser bem sucedido em frustrar a vontade de Deus ou Sua palavra. Será que sua morte não é mais uma tentativa de desobedecer a Deus, um ato final de rebelião?

Tal qual o primeiro, o segundo desejo de Saul - que seus inimigos não escarneçam dele -também é negado. Primeiro, ele é atingido por uma porção de flechas dos filisteus, as quais, literalmente, drenam sua vida. Sua morte lenta e agonizante não é uma bela visão. Saul não chega ao fim com bom aspecto. Depois que ele morre, sua armadura é retirada e sua cabeça é cortada fora. Os filisteus devem realmente gostar disto. Eles, então, pegam sua armadura e sua cabeça e desfilam por suas cidades, levando-as ao templo de seu deus. Todas estas coisas zombam não só de Saul, mas de seu Deus. A afronta final a Saul é que seu corpo, junto com o de seus filhos, é fixado no muro de Bete-Seã. As afrontas sofridas por Saul em sua morte não poderiam ser piores.

Um Raio de Luz - Um Ato de Heroísmo
(31:11-13)

“Então, ouvindo isto os moradores de Jabes-Gileade, o que os filisteus fizeram a Saul, todos os homens valentes se levantaram, e caminharam toda a noite, e tiraram o corpo de Saul e os corpos de seus filhos do muro de Bete-Seã, e, vindo a Jabes, os queimaram. Tomaram-lhes os ossos, e os sepultaram debaixo de um arvoredo, em Jabes, e jejuaram sete dias.”

Esta não é uma bela visão, nem um conto de fadas com final “felizes para sempre”. Mas é como tudo termina para Saul. Para que o leitor não fique muito pesaroso pelas afrontas sofridas por Saul e pela derrota e morte que sobrevêm a Israel, o autor relata um ato muito corajoso da parte dos homens de Jabes-Gileade. Quando ouvem que Saul e seus filhos foram mortos e seus corpos foram publicamente expostos no muro de Bete-Seã, estes homens sabem o que devem fazer. Eles marcham noite adentro para Bete-Seã e depois retornam a Jabes-Gileade. É provável que a viagem de ida e volta seja de mais de 20 milhas. Eles descem os corpos do muro e os carregam todo o caminho de volta para Jabes. Lá, eles queimam os corpos e depois enterram os ossos sob um arvoredo.

O que leva os homens desta cidade a fazer aquilo que ninguém mais pensa fazer? O povo desta cidade guarda boas recordações de Saul e de seu auxílio. O episódio está descrito em I Samuel 11. Naás, o comandante dos amonitas, e seu exército sitiam Jabes-Gileade e exigem sua rendição. No entanto, Naás exige bem mais do que uma simples “rendição incondicional”. Ele insiste em vazar o olho direito de cada israelita da cidade. Os anciãos de Jabes pedem tempo para pensar e apelam para o auxílio de seus irmãos. A notícia se espalha por Israel e chega aos ouvidos de Saul, que, embora tenha sido designado rei de Israel, ainda está trabalhando em sua casa. Saul fica furioso no Espírito e dilacera uma junta de bois, enviando os pedaços a cada tribo de Israel. Ele avisa que, aquele que não aparecer para defender Jabes-Gileade também encontrará seus bois estraçalhados. 330.000 israelitas aparecem para a batalha e a cidade de Jabes é salva.

Os homens de Jabes não se esqueceram do que Saul fez por eles. Na hora da necessidade, Saul chegou com o auxílio que os salvou. Agora, na hora da necessidade de Saul, eles encontram um jeito de ajudá-lo. Os corpos de Saul e seus filhos, suspensos no muro da cidade de Bete-Seã, estão lá para serem ridicularizados. Os homens de Jabes marcham noite adentro, descem o corpo do rei e de seus filhos, e os levam de volta a Jabes, onde são enterrados - um magnífico gesto de consideração e respeito. Como a coragem de Saul frente aos amonitas em Jabes é o seu melhor momento (pelo menos em I Samuel), este é o melhor momento dos homens de Jabes.

Conclusão

Vamos agora destacar algumas lições que este texto nos reserva, tal como reservou para os antigos israelitas.

Primeiro, devemos aprender com a morte de Saul, que é o foco principal de nossa passagem. Saul morreu, tal como Deus disse que morreria. Sua morte foi exatamente no tempo previsto. Ele morre da maneira que Deus disse que seria. Ele morre nas mãos dos filisteus e de um amalequita. Saul morre de maneira totalmente coerente com a maneira que viveu. Mesmo no fim de sua vida, ele não morre como um homem de coragem. Ele não quer sofrer e pede que outros tirem sua vida e até tenta tirá-la ele mesmo.

A palavra de Deus é absolutamente fiel. Deus cumpre o que promete. Ele tratará o pecado e a rebelião com juízo; Ele tratará a confiança e a obediência com bênção. Saul é removido do trono e da vida; Davi é preservado das conspirações de Saul e logo será empossado como rei de Judá (e depois de Israel). Antes que o primeiro homem pecasse, Deus disse que a pena do pecado era a morte (Gênesis 2:16-17). Daí em diante, Deus falou claramente aos homens a respeito do pecado. Sua palavra não só define o que é pecado, ela explica nos mínimos detalhes a conseqüência do pecado - a morte (Romanos 3:23; 6:23). Deus deu a Saul tempo para se arrepender, mas ele não o fez. E, assim, sua morte ocorreu exatamente como Deus dissera. Se você ainda não confia em Cristo para a salvação, Deus está lhe dando neste momento oportunidade para arrependimento. Você pode, como Saul, escolher usar este tempo para aumentar seus pecados. Mas, esteja certo de uma coisa, seus pecados o encontrarão. O salário do pecado é a morte. Se você se arrepender, reconhecendo seu pecado e confiando em Jesus para a salvação, terá a vida eterna. Tenha certeza de que as promessas de Deus - tanto de juízo quanto de salvação - são certas. Saul nos relembra desta verdade.

Segundo, entendemos melhor nosso texto quando levamos em consideração o texto paralelo de I Crônicas 10:

“Assim, morreu Saul por causa da sua transgressão cometida contra o SENHOR, por causa da palavra do SENHOR, que ele não guardara; e também porque interrogara e consultara uma necromante e não ao SENHOR, que, por isso, o matou e transferiu o reino a Davi, filho de Jessé.” (I Cr. 10:13-14)

Os doze primeiros versos de I Crônicas 10 são praticamente idênticos ao texto de I Samuel 31. Mas os versos 13 e 14 (acima), não. Estes versos deixam absolutamente claras muitas questões que estão implícitas em I Samuel. Numa análise final, não foram os homens que mataram Saul (quer filisteus, israelitas ou amalequitas), foi Deus. Estes versos também informam que Saul foi morto por Deus por causa de seu pecado, de seu persistente pecado. Finalmente, é dito que Saul foi morto por Deus não apenas para cumprir Suas advertências a ele, mas também para cumprir Suas promessas a Davi.

Por que o autor de I Samuel não inclui esta informação? Acho que ele crê que devamos concluir por nós mesmos. Como não chegaremos a esta conclusão, se temos como base tudo o que foi dito e feito antes deste capítulo? Mas, para os que não chegam a esta conclusão, ela é claramente afirmada num relato paralelo, para que ninguém deixe de compreendê-la.

Esta passagem enfoca diretamente um problema muito em evidência nos nossos dias e na nossa época. Deixe-me mencionar apenas um nome e o assunto ficará claro: Dr. Jack Kervorkian. O assunto é o suicídio assistido. Nas cortes e órgãos legislativos da América, Canadá e outras partes do mundo, os homens estão debatendo o suicídio assistido.

Seria muito útil à nossa reflexão se fôssemos claros na definição de suicídio assistido. Encontrei esta definição na Internet, fazendo uma pequena busca: Suicídio assistido é o ato de uma pessoa se matar intencionalmente com a assistência de outra pessoa que lhe forneça os meios ou o conhecimento para tal, ou ambos.

Suicídio assistido não é o mesmo que eutanásia. Eutanásia é tirar a vida de outra pessoa, sem que ela peça ou consinta com isto. O suicídio assistido é iniciado e solicitado por alguém que deseja morrer. Suicídio assistido não é permitir que a morte siga seu curso natural, recusando medidas especiais. Suicídio assistido é causar a morte de outra pessoa, tomando medidas especiais.

Saul pede o suicídio assistido. Nosso texto deixa claro que ele está errado. Ele está errado porque está tentando minimizar o sofrimento causado pelo julgamento divino. Está errado porque está tentando alterar os meios do julgamento divino. Ele quer morrer de maneira diferente daquela predita por Deus. Ele está errado porque está tentando matar o ungido do Senhor. Tal como era errado para qualquer outro fazer mal ao rei (como Davi ou o jovem amalequita), também é errado para o próprio rei. E, do mesmo modo, é errado para o escudeiro ou para o jovem amalequita. O amalequita pagou por seu pecado com a própria vida. Nosso texto não sanciona o suicídio assistido. Tanto em Juízes 9 quanto aqui, esta não é maneira de lidar com o sofrimento, mesmo que nos dois casos a morte seja iminente.

É importante reconhecer que a hipocrisia de Saul é evidente nas duas vezes em que pede para ser morto, primeiro ao escudeiro e depois ao amalequita. Vamos colocá-las lado a lado e compará-las:

Então, disse Saul ao seu escudeiro: Arranca a tua espada e atravessa-me com ela, para que, porventura, não venham estes incircuncisos, e me traspassem, e escarneçam de mim. Porém o seu escudeiro não o quis, porque temia muito; então, Saul tomou da espada e se lançou sobre ela. (I Sam. 31:4)

Então, me disse: Arremete sobre mim e mata-me, pois me sinto vencido de cãibra, mas o tino se acha ainda todo em mim. (II Sam. 1:9)

O segundo pedido de Saul revela a hipocrisia do primeiro. O primeiro é feito ao escudeiro, que, com toda certeza, é israelita. Ele não quer ser morto por um incircunciso. No entanto, ele pede a um amalequita (um gentil incircunciso) que o mate. A verdadeira razão para Saul querer ser assistido em seu suicídio é dada no segundo pedido: ele não quer sofrer. Ele quer morrer para por fim à dor, para acabar com seu sofrimento. Indo direto ao assunto, ele está mais interessado em evitar o sofrimento do que em obedecer a Deus (não fazer mal a Seu ungido). Da mesma forma que Saul estava disposto a matar Davi por causa da dor que este lhe causava, agora ele está disposto a se matar por causa da dor que está sofrendo.

Para os cristãos, é errado cometer suicídio, quer assistido ou não. Para os cristãos, é errado ajudar alguém a se suicidar. Quando homens e mulheres chegam a ponto de preferir morrer a viver, precisamos nos esforçar para lhes mostrar Cristo, para a vida eterna. Quando os cristãos chegam ao ponto onde a morte parece próxima e onde a dor é intensa, devemos ansiar por estar com o Senhor, mas não por nossas próprias mãos. Não precisamos permitir que a tecnologia médica prolongue a dor e o processo da morte, mas não devemos procurar por fim à vida que Deus dá, e que só Ele pode tirar (Jó 1:21). Todas as vezes que os homens da Bíblia desejaram morrer, isto não é elogiado; é claramente visto como falta de fé.

Sem dúvida, há alguns lendo esta mensagem que já consideraram (ou estão considerando) pegar a saída mais fácil. Este texto deve falar claramente a vocês. Mas gostaria de lembrar que muitas outras pessoas agem de maneira bastante parecida e pecaminosa, e não reconhecem sua atitude como suicida. No fundo, o pecado de Saul é tentar escapar da situação, da dor, que ele mesmo criou e que Deus decretou como disciplina. Saul quer “evitar a dor” de maneira pecaminosa, e muitos de nós também. Alguns procuram evitar a dor de forma espiritual. Paulo crê e pratica a cura sobrenatural. Ele pede a Deus que remova seu espinho na carne, mas seu pedido é negado (II Co. 12:7-10). Deus tem um propósito mais sublime para o sofrimento de Paulo, e este propósito é humilhá-lo e proporcionar-lhe manifestações ainda maiores de Seu poder e graça. Por que alguns crentes não podem aceitar que Deus não acalme a dor, não remova o sofrimento, porque tem um propósito ao usá-los para o nosso próprio bem e para a Sua glória? Por que buscamos espiritualizar nosso pecado, agindo como se nossa resistência ao sofrimento divinamente enviado fosse um ato de fé? Vamos procurar não fugir daquilo que Deus nos dá para enfrentar.

Há outros meios de “fuga” que são muitos comuns hoje em dia, mesmo entre os cristãos. Alguns tentam fugir do sofrimento emocional divorciando-se ou separando-se. Outros, desejando manter as aparências de um casamento, simplesmente colocam um muro entre eles e seu companheiro (e talvez sua família), para “evitar o sofrimento”. Quero lembrar que isto é apenas outra forma de suicídio. Relações sexuais ilícitas, drogas, álcool e outras formas de vício são, na realidade, tentativas ímpias e não bíblicas de fugir do sofrimento. Seja o entusiasmo passageiro e o prazer de uma experiência sexual ilícita ou o êxtase das drogas e do álcool, tudo é fuga momentânea. No entanto, a Bíblia diz que estas coisas são realmente desastrosas, pois levam a um passo da morte (ver Pv. 7).

Jamais gostei do termo “facilitador”, pois procura descrever pecar em termos seculares, não bíblicos. Pergunto-me, no entanto, se o que algumas pessoas chamam de facilitador não seja a mesma coisa que Saul queira de seu escudeiro, e o que o amalequita virá a ser - alguém que auxilia no suicídio. Ver um irmão em pecado e não agir de forma que ele o deixe é ajudá-lo em sua busca da morte. Vamos pensar seriamente se estamos facilitando o pecado e a morte dos outros ou se estamos incentivando-os a buscar o caminho da vida, Cristo.

Finalmente, vejo em Saul um contraste gritante com a pessoa e a obra de Jesus Cristo. O pecado de Saul, e seu desejo de morrer, é egoísta, egocêntrico. Seu pecado causa não apenas a sua própria morte, mas também a morte de seus filhos e de muitos israelitas, e o sofrimento de muitas outras pessoas. Sua liderança não é uma bênção, mas uma maldição para Israel. Como foi diferente da morte de nosso Senhor. Nosso Senhor não tinha desejo de morrer, humanamente falando. Ele não foi um suicida. Ele orou no Jardim do Getsêmani para que o “cálice” fosse retirado Dele (Mateus 26:39). Ele morreu em obediência à vontade do Pai, não em desobediência (Mateus 26:39; João 6:38; Filipenses 2:3-8). Ele não morreu para Se livrar do sofrimento; Ele morreu para suportar todo o sofrimento que estava reservado a nós por causa de nossos pecados (Isaías 53; II Co. 5:21; Hb. 2:17-18). Foi por isso que ele não quis beber o vinho com fel (Mateus 27:33-34). Ele não queria tomar nenhum “medicamento” que entorpecesse a dor que Ele devia suportar em nosso lugar. Sua morte não é um trágico fracasso de sua parte que tentamos esquecer (como um suicídio), mas um magnífico sacrifício por nós, o qual celebramos a cada Santa Ceia. Sua morte não foi egoísta, mas sacrificial. Foi uma morte que Ele sofreu por causa dos nossos pecados e para a nossa salvação. E tudo o que temos a fazer é aceitá-la como meio de Deus para perdoar os nossos pecados e nos dar a vida eterna.

Muitas vezes há um ponto crítico para onde Deus leva o pecador, um ponto onde o suicídio pode ser considerado como saída. As pessoas vêem o pecado que cometeram e se sentem desesperadamente dominadas pela culpa e pelas conseqüências desse pecado. Talvez elas pensem que a morte (por suicídio) seja a única saída. Não é a saída, pois a morte encerra a oportunidade de nos arrependermos e sermos salvos:

“E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo.” (Hb. 9:27)

A solução para o seu problema não é morrer em pecado; é morrer para o pecado. A única maneira de você fazer isto é pela fé em Jesus Cristo - quando reconhecer seu pecado e sua culpa e confiar Naquele que morreu em seu lugar, que sofreu a dor eterna de nossos pecados. É em Cristo que você morre para o pecado, e entra para a vida eterna. Se você ainda não o fez, eu o incentivo a fazê-lo já. Tal como a promessa da salvação de Deus é certa, assim a Sua promessa de juízo e morte eterna. Vamos aprender com a morte de Saul.