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Débora, a Profetisa (Juízes 4 - 5)

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Introdução1

Meus pais vivem à beira de um lago no Estado de Washington. Na semana passada, aconteceu uma coisa bastante estranha naquele lugar. Anos atrás, o antigo dono (o que construiu a propriedade) plantou alguns lírios às margens do lago. Eles são lindos, variando em cores que vão desde o branco-rosado até um vermelho vibrante. Ao longo dos anos esses lírios tornaram-se tão prolíferos, que agora estão invadindo até a área de natação e a parte mais aberta do lago. Um homem ofereceu-se para pulverizá-los e, assim, dar cabo deles. Parecia uma boa idéia e era mais fácil acabar com todos os lírios do que arrancar suas raízes do fundo do lago.

Minha família decidiu resolver o problema desse jeito. O homem veio e pulverizou os lírios. A operação parecia ter sido muito bem sucedida. Os lírios invasores realmente estavam morrendo. Aparentemente, o problema fora resolvido sem muito esforço e sem muita despesa. Então, um dia, algo inesperado aconteceu. Um dos vizinhos, ao olhar para o lago, viu o que parecia ser uma “ilha”. A tal “ilha” era uma imensa massa flutuante formada pelas raízes dos lírios. Tudo bem, eles tinham morrido, mas, quando suas raízes abaixo da superfície também morreram, elas se desprenderam do fundo do lado e emergiram como uma enorme ilha flutuante. Quando meus pais contataram o homem que havia feito o serviço, ele admitiu que era “raro”, mas às vezes isso acontecia.

Os vizinhos ficaram bastante apreensivos com a nova ilha de meus pais, achando que ela poderia flutuar até a frente de suas propriedades ou se alastrar pelas margens do lago e se tornar um perigo para as lanchas e esquis aquáticos. A questão toda era: o que meus pais deveriam fazer com a ilha? As raízes teriam de ser cortadas em pequenos pedaços que pudessem ser trazidos para a margem, carregados e rebocados por um trailer. Primeiramente, ela teria de ser puxada para onde a água fosse mais rasa, a fim de ser cortada. Eles decidiram amarrar cordas à sua volta para tentar rebocá-la com um barco a motor. Quando estavam no barco ao lado da ilha, procurando um lugar para amarrar a corda, uma coisa muito estranha aconteceu. Uma porção de bolhas começaram a surgir ao redor do barco. Era como se o lago abaixo e ao redor deles estivesse cheio de gás carbônico. E então, a maior surpresa de todas, uma outra massa enorme de raízes se soltou do fundo do lago, emergindo bem debaixo do bote e suspendendo-o para fora d’água como uma espécie de doca natural.

O bote, que antes servira para passear no lago, agora era totalmente inútil. “Encalhado” como estava, vários pés acima d’água, não era de nenhum proveito. Este incidente aparentemente estranho, e o jeito como o bote ficou imobilizado, me faz lembrar da cena da batalha descrita em Juízes 4:1-5:31. Durante 20 anos os israelitas foram subjugados pelos cananeus. A superioridade militar destes fazia de Israel um estado vassalo. Uma das armas que dava aos cananeus essa superioridade militar era a posse de carros de ferro. Nosso texto nos diz que eles possuíam 900 desses carros usados contra Israel. Durante 20 anos esses carros foram empregados contra os israelitas, e a simples visão de um deles devia aterrorizá-los. Quando Sísera, o comandante do exército cananeu, ouviu que um grande número de israelitas havia se reunido para a batalha, enviou todos os seus carros de ferro na luta contra eles. Na hora do confronto Deus parece ter enviado uma tremenda tempestade que tornou os carros completamente inúteis. O chão seco ficou enlameado e o rio transbordou. Os carros agora eram um verdadeiro estorvo. Sísera abandonou seu carro e fugiu a pé, tentando desesperadamente escapar. Nosso texto fala desta derrota dos cananeus e descreve o momento como um grande acontecimento na história de Israel, o qual se tornou possível pelo ministério fiel de Débora, a profetisa. Em uma de nossas últimas lições, estudamos sobre Balaão e sua tentativa inútil de amaldiçoar os israelitas. Estes mesmos israelitas tomaram posse da terra prometida sob a liderança de Josué, mas deixaram de expulsar completamente os cananeus. O livro de Juízes retoma a história de Israel após a morte de Josué. Infelizmente, havia um padrão bem claro para esse período, o qual está resumido em Juízes 2:

“Então, fizeram os filhos de Israel o que era mau perante o SENHOR; pois serviram aos baalins. Deixaram o SENHOR, Deus de seus pais, que os tirara da terra do Egito, e foram-se após outros deuses, dentre os deuses das gentes que havia ao redor deles, e os adoraram, e provocaram o SENHOR à ira. Porquanto deixaram o SENHOR e serviram a Baal e a Astarote. Pelo que a ira do SENHOR se acendeu contra Israel e os deu na mão dos espoliadores, que os pilharam; e os entregou na mão dos seus inimigos ao redor; e não mais puderam resistir a eles. Por onde quer que saíam, a mão do SENHOR era contra eles para seu mal, como o SENHOR lhes dissera e jurara; e estavam em grande aperto. Suscitou o SENHOR juízes, que os livraram da mão dos que os pilharam. Contudo, não obedeceram aos seus juízes; antes, se prostituíram após outros deuses e os adoraram. Depressa se desviaram do caminho por onde andaram seus pais na obediência dos mandamentos do SENHOR; e não fizeram como eles. Quando o SENHOR lhes suscitava juízes, o SENHOR era com o juiz e os livrava da mão dos seus inimigos, todos os dias daquele juiz; porquanto o SENHOR se compadecia deles ante os seus gemidos, por causa dos que os apertavam e oprimiam. Sucedia, porém, que, falecendo o juiz, reincidiam e se tornavam piores do que seus pais, seguindo após outros deuses, servindo-os e adorando-os eles; nada deixavam das suas obras, nem da obstinação dos seus caminhos. Pelo que a ira do SENHOR se acendeu contra Israel; e disse: Porquanto este povo transgrediu a minha aliança que eu ordenara a seus pais e não deu ouvidos à minha voz, também eu não expulsarei mais de diante dele nenhuma das nações que Josué deixou quando morreu; para, por elas, pôr Israel à prova, se guardará ou não o caminho do SENHOR, como seus pais o guardaram. Assim, o SENHOR deixou ficar aquelas nações e não as expulsou logo, nem as entregou na mão de Josué. (Juízes 2:11-23)”

O livro de Juízes tem muitos temas recorrentes. O primeiro deles é o ciclo de pecado, sofrimento, súplica, libertação e morte do juiz, quando, então, tudo recomeçava. Isto está delineado no texto acima. A próxima recorrência é uma afirmação: “não havia rei em Israel; cada qual fazia o que achava mais reto” (ver 17:6; 18:1; 19:1; 21:25). Outro tema recorrente é o da liderança, pois, nessa época, Israel tinha dois problemas: 1) não tinha rei; 2) seus líderes (juízes) morriam. A solução se tornará mais clara no devido tempo: Israel precisava de um homem que pudesse ser rei e que não morresse. Isso somente poderia ser cumprido na pessoa e no ministério de Jesus Cristo.

Cenário
(Juízes 4:1-3)

“Os filhos de Israel tornaram a fazer o que era mau perante o SENHOR, depois de falecer Eúde. Entregou-os o SENHOR nas mãos de Jabim, rei de Canaã, que reinava em Hazor. Sísera era o comandante do seu exército, o qual, então, habitava em Harosete-Hagoim. Clamaram os filhos de Israel ao SENHOR, porquanto Jabim tinha novecentos carros de ferro e, por vinte anos, oprimia duramente os filhos de Israel.”

Na época de Juízes 4 Israel já havia tido dois juízes. Deus levantara Otoniel para livrar os israelitas de Cusã-Risataim, rei da Mesopotâmia (3:7-11), e depois Eúde, o benjamita canhoto, para livrá-los das mãos de Eglom, rei de Moabe (3:12-31). O ciclo de pecado e julgamento recomeçou logo após a morte de Eúde. Os israelitas fizeram o que era mal perante os olhos de Deus; por isso, Deus os entregou a Jabim, rei de Canaã. Jabim dominou Israel com mão de ferro durante 20 anos; seu braço direito era Sísera, capitão de seu exército. De acordo com o verso 3, entendemos que o fator chave para o domínio cananeu sobre Israel foi a posse de 900 carros de ferro. É claro que os cananeus também tinham uma porção de armas. Lendo Juízes 5, adquirimos uma compreensão maior desse período de dominação canaanita:

“Nos dias de Sangar, filho de Anate, nos dias de Jael, cessaram as caravanas; e os viajantes tomavam desvios tortuosos. Ficaram desertas as aldeias em Israel, repousaram, até que eu, Débora, me levantei, levantei-me por mãe em Israel. Escolheram-se deuses novos; então, a guerra estava às portas; não se via escudo nem lança entre quarenta mil em Israel. (Juízes 5:6-8)”

A presença dos cananeus em Israel causou muita destruição. As estradas ficaram literalmente desertas; sem dúvida, devido ao forte patrulhamento dos cananeus com seus carros. As aldeias, igualmente, foram abandonadas, pois não tinham muros de proteção contra pilhagens e roubos. Parece que os israelitas se refugiaram em cidades muradas, mas até estas não os protegiam. E, se os cananeus podiam ter carros de ferro, espadas, lanças e escudos, os israelitas nada podiam ter. Israel poderia até reunir 40.000 guerreiros, mas eles tinham que lutar desarmados.

De Profetisa de Sombra de Palmeira a Camarada do Exército
(Juízes 4:4-9)

“Débora, profetisa, mulher de Lapidote, julgava a Israel naquele tempo. Ela atendia debaixo da palmeira de Débora, entre Ramá e Betel, na região montanhosa de Efraim; e os filhos de Israel subiam a ela a juízo. Mandou ela chamar a Baraque, filho de Abinoão, de Quedes de Naftali, e disse-lhe: Porventura, o SENHOR, Deus de Israel, não deu ordem, dizendo: Vai, e leva gente ao monte Tabor, e toma contigo dez mil homens dos filhos de Naftali e dos filhos de Zebulom? E farei ir a ti para o ribeiro Quisom a Sísera, comandante do exército de Jabim, com os seus carros e as suas tropas; e o darei nas tuas mãos. Então, lhe disse Baraque: Se fores comigo, irei; porém, se não fores comigo, não irei. Ela respondeu: Certamente, irei contigo, porém não será tua a honra da investida que empreendes; pois às mãos de uma mulher o SENHOR entregará a Sísera. E saiu Débora e se foi com Baraque para Quedes.”

Débora era realmente uma profetisa de sombra de árvore. Ela não tinha um escritório em Jerusalém, mas trabalhava à sombra de uma “palmeira” dez milhas ao norte, nas montanhas de Efraim, entre Ramá e Betel (verso 5). As pessoas vinham à sua palmeira e ela resolvia suas questões (ou mais literalmente “julgava-as”). Parece que esse julgamento era do mesmo tipo que aquele feito por Moisés (Êxodo 18:13-27), e depois pelos 70 anciãos (Números 11:16-30). O julgamento de Débora, da mesma forma que o de Moisés e seus auxiliares, era capacitado pelo Espírito Santo. Pode ser que o dom de profecia que ela já possuía tenha se tornado mais evidente em seus julgamentos. Quem melhor para “julgar” uma questão do que alguém que pode “ver” o problema exatamente como ele é? À medida que a notícia de que a vontade de Deus podia ser conhecida por intermédio de Débora se espalhou, as pessoas começaram a vir a ela para julgamento. Parece que ela foi um dos poucos profetas juízes ou, com toda a probabilidade, a única pessoa com esse dom atuando naquela época.

É durante esse período negro da história de Israel que Débora, a profetisa, chama Baraque e lhe transmite a instrução divina:

“Ela disse a ele: Porventura, o SENHOR, Deus de Israel, não deu ordem, dizendo: Vai, e leva gente ao monte Tabor, e toma contigo dez mil homens dos filhos de Naftali e dos filhos de Zebulom? E farei ir a ti para o ribeiro Quisom a Sísera, comandante do exército de Jabim, com os seus carros e as suas tropas; e o darei nas tuas mãos. (Juízes 4:6b-7)”

A Nova Versão King James traduz o texto desta forma:

“Não te ordenou o Senhor Deus de Israel: Vai e leva tropas ao Monte Tabor; toma contigo dez mil homens dos filhos de Naftali e de Zebulom; e contra ti enviarei Sísera, comandante do exército de Jabim, com seus carros e suas tropas, ao rio Quisom; e o entregarei nas tuas mãos?” (Juízes 4:6b-7)

Uma coisa interessante é que algumas traduções não interpretam esta ordem de forma tão literal:

“Ora, mandou ela chamar e convocar Baraque, filho de Abinoão, de Quedes de Naftali, e disse-lhe: “Vê que o Senhor, o Deus de Israel, te ordenou: “Vai e marcha ao monte Tabor, e toma contigo dez mil homens dos filhos de Naftali e dos filhos de Zebulom”. (Juízes 4:6, NAS)”

“Débora mandou chamar Baraque, filho de Abinoão, de Quedes, em Naftali, e lhe disse:”o Senhor, o Deus de Israel, lhe ordena que reúna dez mil homens de Naftali e Zebulom e vá ao monte Tabor.” (NIV)

A diferença é sutil, mas evidente. No texto hebraico, mais precisamente, a ordem é expressa em forma de pergunta: “Não te...” As traduções menos literais interpretam a passagem como um mero pedido. Talvez a Nova Versão Padrão Americana e a Nova Versão Internacional estejam certas ao traduzir mais livremente, mas não estou totalmente convencido. Primeiro, existem outros lugares onde podemos encontrar expressão semelhante, e onde a interpretação mais literal parece mais apropriada.

“Então, disse Débora a Baraque: Dispõe-te, porque este é o dia em que o SENHOR entregou a Sísera nas tuas mãos; porventura, o SENHOR não saiu adiante de ti? Baraque, pois, desceu do monte Tabor, e dez mil homens, após ele. (Juízes 4:14)”

“Vai, apresenta-te ao rei Davi e dize-lhe: Não juraste, ó rei, senhor meu, à tua serva, dizendo: Teu filho Salomão reinará depois de mim e se assentará no meu trono? Por que, pois, reina Adonias?”

Por estes e outros exemplos, parece-me que esta forma de expressão às vezes é empregada para se referir a afirmações feitas anteriormente ou a ações já executadas. No verso 14 do capítulo 4, por exemplo, Débora diz a Baraque que Deus ordenou que ele inicie a marcha, com a certeza de que, quando o fizer, Deus terá saído adiante dele. Em Juízes 4:6, pela maneira como é dita, tenho a impressão de que a ordem já tinha sido dada por Deus. Não seria possível que Deus já tivesse ordenado a Baraque que reunisse suas tropas e iniciasse o ataque contra os cananeus? Não seriam as palavras de Deus, ditas por intermédio de Débora, repetição e confirmação daquilo que Ele já revelara a Baraque? Creio que sim. De um jeito ou de outro, Baraque já ouvira a palavra de Deus e, obviamente, isso não tinha sido suficiente para ele. Ele se recusa a obedecer a menos que Débora o acompanhe. Se ela for com ele, ele irá; se não for, ele não irá.

Exatamente o quê teria feito Baraque responder desta forma? Acho que podemos dizer com segurança que ele não tinha fé suficiente para agir sem Débora. Mas, o que será que ele temia? Em que contribuiria ela ir junto com ele? Com certeza não era sua habilidade militar. Ela não era um Davi que, sozinho, deu um jeito em Golias. Ela, na verdade, era esposa (Juízes 4:4) e mãe (Juízes 5:7). Talvez Baraque tivesse receio de que ninguém o seguisse. Tais temores não eram infundados. Afinal, os israelitas eram oprimidos pelos cananeus há 20 anos. Estes eram bem armados; os israelitas, literalmente desarmados. Muitos deles tinham vindo a Débora para julgamento. Talvez a seguissem na batalha, mesmo que não seguissem a Baraque. Ou talvez Baraque só quisesse uma profetisa ao seu lado para ter os meios de obter orientação divina num momento crítico. O pedido não era tão terrível assim. Afinal, os israelitas já não tinham levado esses meios com eles em outras ocasiões? (I Samuel 14:3; 18:20; 30:7-8). Até Jônatas buscou um sinal para confirmar que seu ataque era da vontade de Deus (I Samuel 14:6-14). A diferença aqui é que a vontade de Deus já fora revelada a Baraque, e mesmo assim ele reluta em agir de acordo com a ordem recebida.

Sejam quais forem os seus temores, ele é repreendido por Débora por sua falta de fé. Ela lhe diz que o acompanhará, mas que a glória pela vitória prometida por Deus sobre os cananeus não será dele. (verso 9). Podemos facilmente identificar os temores de Baraque, mas não temos como defendê-los. Quando Deus lhe falou por intermédio de Débora, Ele lhe disse tudo o que era necessário saber. Baraque não precisava de mais nenhuma palavra de Deus. Vejamos novamente suas instruções:

“Mandou ela chamar a Baraque, filho de Abinoão, de Quedes de Naftali, e disse-lhe: Porventura, o SENHOR, Deus de Israel, não deu ordem, dizendo: Vai, e leva gente ao monte Tabor, e toma contigo dez mil homens dos filhos de Naftali e dos filhos de Zebulom? E farei ir a ti para o ribeiro Quisom a Sísera, comandante do exército de Jabim, com os seus carros e as suas tropas; e o darei nas tuas mãos.”

Deus disse a Baraque aonde ir, quantos homens levar e até mesmo de quais tribos levar. Deus lhe disse para provocar o ataque de Sísera, descendo do monte Tabor para a planície próxima ao rio Quisom, onde Ele o entregaria nas suas mãos. Não havia mais nada a saber. Baraque não precisava de Débora para outras instruções, e nem de sua presença para conseguir seguidores ou vitória. Contudo, ele achava que precisava dela ao seu lado; por isso, ela consentiu em ir com ele.

A Vitória de Israel
(Juízes 4:10-16)

“Então, Baraque convocou a Zebulom e a Naftali em Quedes, e com ele subiram dez mil homens; e Débora também subiu com ele. Ora, Héber, queneu, se tinha apartado dos queneus, dos filhos de Hobabe, sogro de Moisés, e havia armado as suas tendas até ao carvalho de Zaananim, que está junto a Quedes. Anunciaram a Sísera que Baraque, filho de Abinoão, tinha subido ao monte Tabor. Sísera convocou todos os seus carros, novecentos carros de ferro, e todo o povo que estava com ele, de Harosete-Hagoim para o ribeiro Quisom. Então, disse Débora a Baraque: Dispõe-te, porque este é o dia em que o SENHOR entregou a Sísera nas tuas mãos; porventura, o SENHOR não saiu adiante de ti? Baraque, pois, desceu do monte Tabor, e dez mil homens, após ele. E o SENHOR derrotou a Sísera, e todos os seus carros, e a todo o seu exército a fio de espada, diante de Baraque; e Sísera saltou do carro e fugiu a pé. Mas Baraque perseguiu os carros e os exércitos até Harosete-Hagoim; e todo o exército de Sísera caiu a fio de espada, sem escapar nem sequer um.”

Que cena teria sido se pudéssemos ver os dois exércitos saindo para a batalha. Baraque e seus homens quase, ou totalmente, desarmados (ver 5:8); Sísera e seus soldados armados até os dentes, e 900 carros de ferro. Baraque, com 20 anos de derrota nas costas; Sísera, com 20 anos de domínio militar. Sísera, provavelmente, acompanhado por uma porção de estrategistas militares; Baraque, por Débora, esposa e mãe de Israel. Será que dá para imaginar Lapidote, o marido de Débora, entre aqueles que estão despachando seus entes queridos para a guerra, segurando as crianças no colo? Sem dúvida elas ficaram chorando enquanto a mãe acenava em despedida. Se elas já tivessem idade suficiente para compreender a situação, talvez se perguntassem se veriam sua mãe novamente. Que contraste! E que contraste entre partida e o retorno!

Francamente, o plano dado por Deus a Baraque não fazia muito sentido, militarmente falando. Carros com rodas de ferro eram muito úteis nas planícies, mas de pouco, ou nenhum valor nas montanhas. Deus tinha ordenado que Baraque reunisse as tropas no monte Tabor e depois descesse para a planície, exatamente onde os carros de ferro levavam vantagem e poderiam causar maiores danos. Humanamente falando, o plano não fazia sentido. No entanto, olhando para o passado, podemos perceber como o plano de Deus era engenhoso. Já que o exército israelita estava em terreno plano, Sísera pensou que seus carros seriam uma arma perfeita contra eles. Ele ordenou que todos saíssem à batalha. Parecia que ia ser um massacre, exatamente como Deus queria que parecesse. E, então, Débora dá sua contribuição ao combate. Ela ordena: “Dispõe-te, porque este é o dia em que o SENHOR entregou a Sísera nas tuas mãos; porventura, o SENHOR não saiu adiante de ti?” (verso 14) Isto nada mais é do que uma repetição daquilo que ela dissera anteriormente, não indicação de que agora era hora de começar a batalha.

Em Juízes 4, sabemos unicamente que a vitória dos israelitas sobre os cananeus foi esmagadora. No entanto, o inspirado cântico de triunfo de Débora, no capítulo 5, explica exatamente como as coisas aconteceram:

“Vieram reis e pelejaram; pelejaram os reis de Canaã em Taanaque, junto às águas de Megido; porém não levaram nenhum despojo de prata. Desde os céus pelejaram as estrelas contra Sísera, desde a sua órbita o fizeram. O ribeiro Quisom os arrastou, Quisom, o ribeiro das batalhas. Avante, ó minha alma, firme! Então, as unhas dos cavalos socavam pelo galopar, o galopar dos seus guerreiros. (Juízes 5:19-22)”

Como estes versos soam irônicos, principalmente se os cananeus praticavam a astrologia. Será que eles pediram orientação ou auxílio às estrelas? Elas lutaram contra eles! Será que eles confiaram em seus carros? Uma tempestade enviada por Deus encharcou as planícies e transbordou o rio Quisom, devastando o exército cananeu. Parece que os cavalos entraram em pânico, derrubando e matando seus cavaleiros. Não é de admirar que Deus tenha instruído Baraque a levar seus homens para as planícies próximas ao rio. Agora, fica evidente toda a sabedoria de Seu plano.

Na verdade, não foram os israelitas que venceram os cananeus. Foi o Senhor. Foi Ele quem derrotou Sísera e todos os seus carros (verso 15). Parecia não haver sobreviventes entre os cananeus. Os israelitas só precisavam fazer o que chamamos de operação “limpeza”. Tinham apenas que cuidar dos corpos, assegurando-se de que todos os soldados estavam mortos, e saquear suas armas. Doravante eles tinham armas! Sísera viu que a derrota era certa e fugiu, deixando o carro para trás, correndo com todas as forças e esperando encontrar um lugar seguro entre sua própria gente. Os versos seguintes falam de sua fuga e de sua morte pelas mãos de uma mulher.

Sísera se Encontra com Jael
(Juízes 4:17-22)

“Porém Sísera fugiu a pé para a tenda de Jael, mulher de Héber, queneu; porquanto havia paz entre Jabim, rei de Hazor, e a casa de Héber, queneu. Saindo Jael ao encontro de Sísera, disse-lhe: Entra, senhor meu, entra na minha tenda, não temas. Retirou-se para a sua tenda, e ela pôs sobre ele uma coberta. Então, ele lhe disse: Dá-me, peço-te, de beber um pouco de água, porque tenho sede. Ela abriu um odre de leite, e deu-lhe de beber, e o cobriu. E ele lhe disse mais: Põe-te à porta da tenda; e há de ser que, se vier alguém e te perguntar: Há aqui alguém?, responde: Não. Então, Jael, mulher de Héber, tomou uma estaca da tenda, e lançou mão de um martelo, e foi-se mansamente a ele, e lhe cravou a estaca na fonte, de sorte que penetrou na terra, estando ele em profundo sono e mui exausto; e, assim, morreu. E eis que, perseguindo Baraque a Sísera, Jael lhe saiu ao encontro e lhe disse: Vem, e mostrar-te-ei o homem que procuras. Ele a seguiu; e eis que Sísera jazia morto, e a estaca na fonte.”

Não sabemos quase nada sobre Lapidote, o marido de Débora, a não ser seu nome. Mas, sobre Héber, o marido de Jael, sabemos um pouco mais. Contudo, o que sabemos não soa muito bem:

“Ora, Héber, queneu, se tinha apartado dos queneus, dos filhos de Hobabe, sogro de Moisés, e havia armado as suas tendas até ao carvalho de Zaananim, que está junto a Quedes... Porém Sísera fugiu a pé para a tenda de Jael, mulher de Héber, queneu; porquanto havia paz entre Jabim, rei de Hazor, e a casa de Héber, queneu. (Juízes 4:11, 17, ênfase minha)”

Héber, o queneu, era relacionado com o sogro de Moisés e, desta forma, com os israelitas (verso 11). No entanto, ele parece ter abandonado esse relacionamento e se mudado para o norte, aliando-se a Jabim, o rei cananeu. Em outras palavras, é como se ele tivesse mudado de lado. Ele não estava mais do lado israelita, e sim do lado cananeu.

O fato, aparentemente, era de conhecimento comum, pois Sísera fugiu para a casa de Héber achando que estaria seguro sob a proteção de um aliado. Parece que, providencialmente, Héber não estava em casa. Assim, Sísera cometeu um erro fatal ao procurar refúgio ali. A resposta de Jael fê-lo acreditar que encontrara um lugar seguro onde poderia comer e descansar, e depois continuar sua fuga para casa. Ela o convidou a entrar na tenda e lhe disse para não temer. Depois que ele entrou, ela o cobriu com uma manta ou coisa parecida. Ela lhe deu leite, o que, combinado com sua fadiga, foi o suficiente para fazê-lo dormir. Ela também lhe prometeu ficar vigiando à porta da tenda. Sísera presumiu que, se alguém o procurasse, ela diria que ele não estava. E, então, ele adormeceu - pela última vez. Nunca mais acordou.

Não sabemos quando, ou porque, Jael decidiu matar Sísera. É óbvio que ela não era leal às mesmas pessoas que Héber, seu marido. Sua lealdade era para com Israel, não para com os cananeus. Ela se recusava a fazer parte do acordo de paz feito por seu marido. Pela maneira como Sísera chega em sua tenda, ela deve ter percebido que os israelitas estavam vencendo a batalha contra os cananeus. Ela deve ter sentido que esta era sua oportunidade de ajudar Israel, matando Sísera. Armar e desarmar tendas era serviço de mulher; por isso, Jael tinha sempre à mão suas ferramentas de trabalho, e sabia como usá-las. Enquanto Sísera dormia profundamente, ela pegou uma estaca da tenda e a encravou em seu crânio, penetrando até o chão. Não muito depois chega Baraque, em perseguição a Sísera. Jael o chama e lhe mostra o corpo estendido na tenda com a cabeça encravada no chão. Do ponto de vista israelita, Jael fez um trabalho de mestre. A glória realmente é dada a uma mulher, não a Baraque.

A Volta por Cima de Israel
(Juízes 4:23-24)

“Assim, Deus, naquele dia, humilhou a Jabim, rei de Canaã, diante dos filhos de Israel. E cada vez mais a mão dos filhos de Israel prevalecia contra Jabim, rei de Canaã, até que o exterminaram.”

Estes versos são muito importantes, pois nos informam que a vitória de Israel sobre Sísera e seu exército não foi o fim da história, e sim a primeira de uma série de batalhas vencidas pelos israelitas sobre os cananeus. A derrota de Sísera e seus homens foi um momento decisivo na história de Israel, pois colocou os israelitas na ofensiva e os cananeus na defensiva. A vitória de Israel não só eliminou alguns dos maiores guerreiros de Jabim, como também o privou de suas melhores armas: os 900 carros com roda de ferro. Os despojos de guerra também proveram os soldados israelitas, que antes lutavam desarmados, de armas e armaduras (ver Juízes 5:8).

Esta vitória colocou os cananeus em grande desvantagem e nivelou as condições para as batalhas seguintes, o que causou uma mudança no coração dos israelitas. Durante 20 anos eles tinham sido oprimidos pelos cananeus. Já estavam até acostumados a serem dominados. Eles praticamente haviam abandonado qualquer pensamento de resistência, quanto mais de derrota dos cananeus. Não é de admirar que Baraque tenha ficado tão hesitante em liderar as tropas israelitas. Entretanto, esta vitória muda tudo. Embora somente as tribos de Naftali e Zebulom tenham sido convocadas para o combate (4:6), as outras tribos também se unem a elas (5:14). Depois de algum tempo, os israelitas se tornaram mais fortes e prevaleceram sobre os já enfraquecidos cananeus. Israel fora libertado novamente.

A Batalha do Ponto de Vista Divino
(Juízes 5:1-31)

“Naquele dia, cantaram Débora e Baraque, filho de Abinoão, dizendo:

Desde que os chefes se puseram à frente de Israel, e o povo se ofereceu voluntariamente, bendizei ao SENHOR. Ouvi, reis, dai ouvidos, príncipes: eu, eu mesma cantarei ao SENHOR; salmodiarei ao SENHOR, Deus de Israel. Saindo tu, ó SENHOR, de Seir, marchando desde o campo de Edom, a terra estremeceu; os céus gotejaram, sim, até as nuvens gotejaram águas. Os montes vacilaram diante do SENHOR, e até o Sinai, diante do SENHOR, Deus de Israel.
Nos dias de Sangar, filho de Anate, nos dias de Jael, cessaram as caravanas; e os viajantes tomavam desvios tortuosos. Ficaram desertas as aldeias em Israel, repousaram, até que eu, Débora, me levantei, levantei-me por mãe em Israel. Escolheram-se deuses novos; então, a guerra estava às portas; não se via escudo nem lança entre quarenta mil em Israel. Meu coração se inclina para os comandantes de Israel, que, voluntariamente, se ofereceram entre o povo; bendizei ao SENHOR. Vós, os que cavalgais jumentas brancas, que vos assentais em juízo e que andais pelo caminho, falai disto. À música dos distribuidores de água, lá entre os canais dos rebanhos, falai dos atos de justiça do SENHOR, das justiças a prol de suas aldeias em Israel. Então, o povo do SENHOR pôde descer ao seu lar. Desperta, Débora, desperta, desperta, acorda, entoa um cântico; levanta-te, Baraque, e leva presos os que te prenderam, tu, filho de Abinoão. Então, desceu o restante dos nobres, o povo do SENHOR em meu auxílio contra os poderosos. De Efraim, cujas raízes estão na antiga região de Amaleque, desceram guerreiros; depois de ti, ó Débora, seguiu Benjamim com seus povos; de Maquir desceram comandantes, e, de Zebulom, os que levam a vara de comando. Também os príncipes de Issacar foram com Débora; Issacar seguiu a Baraque, em cujas pegadas foi enviado para o vale. Entre as facções de Rúben houve grande discussão. Por que ficaste entre os currais para ouvires a flauta? Entre as facções de Rúben houve grande discussão. Gileade ficou dalém do Jordão, e Dã, por que se deteve junto a seus navios? Aser se assentou nas costas do mar e repousou nas suas baías. Zebulom é povo que expôs a sua vida à morte, como também Naftali, nas alturas do campo.
Vieram reis e pelejaram; pelejaram os reis de Canaã em Taanaque, junto às águas de Megido; porém não levaram nenhum despojo de prata. Desde os céus pelejaram as estrelas contra Sísera, desde a sua órbita o fizeram. O ribeiro Quisom os arrastou, Quisom, o ribeiro das batalhas. Avante, ó minha alma, firme! Então, as unhas dos cavalos socavam pelo galopar, o galopar dos seus guerreiros. Amaldiçoai a Meroz, diz o Anjo do SENHOR, amaldiçoai duramente os seus moradores, porque não vieram em socorro do SENHOR, em socorro do SENHOR e seus heróis.
Bendita seja sobre as mulheres Jael, mulher de Héber, o queneu; bendita seja sobre as mulheres que vivem em tendas. Água pediu ele, leite lhe deu ela; em taça de príncipes lhe ofereceu nata. À estaca estendeu a mão e, ao maço dos trabalhadores, a direita; e deu o golpe em Sísera, rachou-lhe a cabeça, furou e traspassou-lhe as fontes. Aos pés dela se encurvou, caiu e ficou estirado; a seus pés se encurvou e caiu; onde se encurvou, ali caiu morto.
A mãe de Sísera olhava pela janela e exclamava pela grade: Por que tarda em vir o seu carro? Por que se demoram os passos dos seus cavalos? As mais sábias das suas damas respondem, e até ela a si mesma respondia: Porventura, não achariam e repartiriam despojos? Uma ou duas moças, a cada homem? Para Sísera, estofos de várias cores, estofos de várias cores de bordados; um ou dois estofos bordados, para o pescoço da esposa? Assim, ó SENHOR, pereçam todos os teus inimigos! Porém os que te amam brilham como o sol quando se levanta no seu esplendor. E a terra ficou em paz quarenta anos.”

O enfoque de nossa lição foi o capítulo 4 de Juízes, mas devo dizer que, como resultado de meu estudo, estou convencido de que a chave para a interpretação do texto está no capítulo seguinte - Juízes 5. Como podemos ver, esse capítulo é uma poesia. Ele é bastante parecido, na forma e no conteúdo, com o “cântico de livramento” entoado pelos israelitas após a travessia do Mar Vermelho, quando o exército egípcio foi tragado por suas águas (ver Êxodo 15). Da mesma forma que a profetisa Miriã ajudou na composição do “cântico do mar” (Êxodo 15), Débora também lança mão da pena para escrever o “cântico” inspirado de Juízes 5. O tempo não me permitirá expor os detalhes do cântico, mas creio que podemos resumir rapidamente a seqüência dos argumentos do capítulo 5.

Ceio que a chave para os capítulos 4 e 5 esteja no verso 2 do capítulo 5: “Desde que os chefes se puseram à frente de Israel, e o povo se ofereceu voluntariamente, bendizei ao SENHOR.” Israel louva ao Senhor porque seus líderes foram realmente líderes, depois de muitos anos de pouca, ou nenhuma, liderança de fato. E, uma vez que os líderes assumiram sua posição, o povo (ou, pelo menos, algumas pessoas) os seguiu. Muitos voluntários se juntaram a seus irmãos israelitas na guerra contra os cananeus.

Os versos 3 a 11 relacionam a entrega da lei no monte Sinai à libertação dos israelitas sob a liderança de Débora e Baraque. No Sinai, Deus fez uma aliança com Israel. Sua presença e Seu poder foram demonstrados quando Ele empregou a natureza para realizar Seus propósitos. A terra tremeu e os céus mandaram fortes chuvas, testificando a presença da Deus (versos 4 e 5). Isto aconteceu no passado e foi testemunhado pela primeira geração de israelitas, a qual havia sido libertada do cativeiro do Egito. Agora, a segunda geração entoa um cântico semelhante, com base na libertação dada por Deus da opressão dos cananeus. Aqui também a libertação de Israel é devido à graça e ao poder de Deus. Os israelitas estavam mal equipados e indefesos diante dos cananeus e seus carros de ferro, mas Deus interveio, empregando a natureza para derrotar aqueles que oprimiam Seu povo. Israel nada mais tinha do que um exército esfarrapado, literalmente desarmado. Um exército que tinha entre eles Débora, “mãe em Israel” (versos 6-8). Parecia que eles estavam prestes a sofrer um grande massacre; no entanto, graças à vitória dada por Deus, o povo é impelido a louvá-lO por Sua salvação (versos 9-11).

À frente desse exército desajeitado estava Baraque, acompanhado por Débora. Débora foi instruída a despertar e entoar um cântico (como profetisa, será que ela não teve uma visão?). A Baraque foi dito que libertasse os cativos. Os voluntários mencionados nos versos 2 e 9 são identificados por suas tribos nos versos 14 e 15. Eles vieram de Benjamin e da meia-tribo de Manassés (Maquir, cf. Gênesis 50:23, etc.), assim como de Zebulom (verso 14). Issacar e Rubem também tomaram parte no confronto (5:15).

Nos versos 16 a 18 vemos um contraste gritante entre os “batalhadores” (Zebulom e Naftali, verso 18) e os “preguiçosos” (como Dã e Gileade, verso 17). Se havia aqueles que eram os primeiros a se apresentar, como Zebulom e Naftali, havia também os que fugiam da batalha. Pode ser também que estes estivessem tão longe do conflito que acharam não ser necessário se envolver. O fato de fazerem parte de uma organização maior - a nação de Israel - não os motivou a sair em auxílio de seus irmãos. E é por isso que eles são censurados.

Os versos 19 a 23 descrevem, em linguagem poética, a batalha travada entre cananeus e israelitas. Os reis de Canaã vieram à luta, mas não prevaleceram, e não levaram os despojos de guerra. Deus chamou as forças da natureza ao “dever” e as empregou para derrotar os cananeus (versos 20-21). As “estrelas” se juntaram à batalha, lutando contra Sísera. Chuvas torrenciais fizeram o rio Quisom transbordar. Os carros de ferro dos cananeus foram imobilizados e seus cavalos entraram em pânico (verso 22). No verso 23 há uma maldição contra Meroz, pois o povo das outras cidades saiu em auxílio de seus irmãos, mas não o desta cidade.

Os versos 24 a 27 são poéticos, mas bastante esclarecedores, descrevendo a morte de Sísera pelas mãos de Jael. Nestes versos Jael recebe a glória que teria sido dada a Baraque. Ela é bendita entre as mulheres. Ela, como Débora, é identificada por intermédio de seu marido. Ela habitava em tendas, mas dentro de sua esfera de ação também desempenhou sua parte. Sísera lhe pediu água, mas ela lhe deu leite. Provavelmente leite morno. Sem dúvida este era o seu jeito de dar a ele uma espécie de sedativo. Ela lhe deu uma tigela com coalhada (iogurte), que ele tomou com prazer. Depois, quando ele deitou a seus pés em sono profundo, ela pegou uma estaca e, com um martelo, atravessou-a na cabeça dele. Ei-lo morto aos pés de Jael. Ela vencera. Prevalecera sobre o arquiinimigo de Israel. Por três vezes no verso 27 está escrito que Sísera se curvou aos pés de Jael. Creio que isto se refira à posição dele durante o sono, mas a canção parece ir mais além, ou seja, simbolicamente, ele se submete à superioridade dela.

Os versos 28 a 30 pintam uma cena dramática. Repare que, uma vez mais, a cena é mostrada do “ponto de vista feminino”. Se Débora, a “mãe de Israel”, representa as mulheres israelitas, a mãe de Sísera representa as angustiadas mulheres cananéias, cujas perdas foram grandes nesse dia. O autor do cântico focaliza a mãe de Sísera esperando o retorno triunfal do filho, como ocorrera tantas vezes nos últimos 20 anos. Mas o tempo passa e não há sons de patas de cavalo. Por que a demora? Será que algo saiu errado? Suas damas sabiamente tentam presumir o melhor. Com certeza a vitória foi tão grande e os despojos de guerra foram tantos que exigiram mais tempo para juntar tudo e trazer para casa. Era isso. Só podia ser.

O verso 31 conclui o cântico com bênção e maldição. Se Débora viu o poder de Deus demonstrado no Sinai repetido na guerra contra Sísera, agora ela vê esta batalha como uma figura do futuro relacionamento de Deus com os homens. Que todos os inimigos de Deus pereçam, como os cananeus nesta batalha. E que todos aqueles que amam a Deus sejam abençoados, brilhando como o sol em todo o seu poder e glória. Esta não seria, de fato, uma repetição da Aliança Abraâmica (Gênesis 12:1-3)? Os que abençoarem o povo de Deus serão abençoados; e os que amaldiçoarem serão amaldiçoados. Isto se aplica a todo mundo. Os compatriotas israelitas que saíram em auxílio de seus irmãos foram abençoados. Os que se recusaram foram amaldiçoados, não muito diferente dos cananeus que se opunham ao povo de Deus.

Conclusão

Não posso deixar de comparar estes dois homens: Sísera e Baraque. Sísera era um homem cheio de fé, mas nas coisas erradas. Ele confiou em si mesmo, em seu exército, em seus 900 carros de ferro. Confiou até na esposa de Héber, Jael. E o resultado foi que ele morreu pelas mãos de uma mulher, com uma estaca encravada no crânio.

Baraque, por outro lado, não era um homem cheio de fé. Ele hesitou em atacar os cananeus, que possuíam armas e um exército superior. Ele se recusou a ir para a guerra, a menos que Débora fosse com ele. Baraque não tinha muita fé, mas tinha. Sua fé, por menor que fosse, estava em Deus. Ele obedeceu às palavras de Deus ditas por intermédio de Débora, e o resultado foi que Deus entregou os cananeus nas mãos dos israelitas. Sua fé podia ser do tamanho de um grão de mostarda (cf. Mateus 17:20), mas estava em Deus. Fé pequena, bem direcionada, é bem melhor do que grande fé em coisas erradas.

Baraque é um daqueles que fazem parte da “Galeria da Fé” da carta aos Hebreus, no Novo Testamento:

“E que mais direi? Certamente, me faltará o tempo necessário para referir o que há a respeito de Gideão, de Baraque, de Sansão, de Jefté, de Davi, de Samuel e dos profetas, os quais, por meio da fé, subjugaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecharam a boca de leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros.” (Hebreus 11:32-34, ênfase minha)

A pergunta que surge é: “Se Baraque faz parte da ‘Galeria da Fé’, por que, então, Débora não faz?” Creio que a resposta esteja no verso 34. Baraque foi alguém que “da fraqueza tirou força” e “fez-se poderoso na guerra”. Ele era fraco, mas se tornou forte. Em nossa história, Débora foi forte desde o princípio. De fato, creio que ela foi a razão principal para Baraque ser fortalecido em sua fé. A ausência do nome de Débora no texto de Hebreus não é um insulto a ela, é um elogio.

O problema que enfrentamos ao interpretar e aplicar este texto das Escrituras é que muitas pessoas procuram usá-lo para aprovar seus próprios interesses. Para ser mais específico, aqueles que resistem ao ensinamento bíblico sobre o papel das mulheres no ministério (que os homens devem conduzir a igreja) se apóiam neste texto e afirmam que ele comprova que as mulheres podem assumir a liderança, especialmente quando os homens se recusam a fazê-lo. Com isto, eles se desviam da mensagem desta passagem, que ensina exatamente o oposto.

O fato de Débora ser profetisa é de interesse particular para algumas pessoas. Será que ter o dom da profecia muda as regras, como algumas pessoas parecem sugerir? Deixe-me começar mostrando que o termo profeta ou profetas (e dos profetas) aparece 490 vezes na Nova Versão King James da Bíblia. O termo “profetisa”, 8 vezes (e “profetisas”, uma vez na Nova Versão Padrão Americana, em Atos 21:9). De 9 referências, duas se referem a falsas profetisas. Em toda a Bíblia encontramos 9 profetisas identificadas como tal: Miriã (Êxodo 15:20), Débora (Juízes 4:4), Hulda (II Reis 22:14, II Crônicas 34:22), a profetisa que dá à luz um filho em Isaías 8:3, Ana (Lucas 2:36) e as 4 filhas de Filipe (Atos 21:9). Este número deve ser comparado ao número imensamente maior de homens que foram profetas. As profetisas eram relativamente raras, tanto nos tempos do Velho, quanto do Novo Testamento.

Miriã era profetisa, mas parece que seu ministério foi junto às mulheres. Não a vemos liderando homens (exceto, talvez, quando pecaminosamente liderou a rebelião contra Moisés - ver Números 12:1-16). Ela é identificada como profetisa em Êxodo 15:20 e parece ter desempenhado seu papel ao escrever e cantar um dos Cânticos do Mar, que os israelitas entoaram depois que Deus os fez atravessar a salvo o Mar Vermelho (Êxodo 15:20 e ss). Parece que Débora escreveu o “cântico de livramento” registrado em Juízes 5.

No livro de Atos, Lucas nos informa que Filipe tinha quatro filhas que profetizavam; entretanto, a profecia sobre a prisão e o encarceramento que aguardavam Paulo caso ele insistisse em permanecer em Jerusalém, não foi revelada por intermédio delas. Ágabo, um profeta da Judéia, foi ter com Paulo e lhe revelou a profecia (Atos 21:10 e ss). Se essas mulheres eram profetisas e estavam em cena, por que, então, Deus trouxe um homem da Judéia? Creio que foi porque esta era uma tarefa que Ele queria que fosse realizada por um homem. (Também é possível que elas tenham profetizado sobre o destino de Paulo e que Ágabo tenha sido enviado para confirmar a profecia; contudo, a narrativa de Lucas mostra Ágabo como líder).

Já assinalei que, todas as vezes que uma profetisa é identificada na Bíblia, sua identificação está relacionada a um homem (por exemplo, pai ou marido). Creio que isto demonstre que quando alguma profetisa assumia o papel de líder, esta era uma indicação bastante clara de declínio espiritual:

“Estatelai-vos e ficai estatelados, cegai-vos e permanecei cegos; bêbados estão, mas não de vinho; andam cambaleando, mas não de bebida forte. Porque o SENHOR derramou sobre vós o espírito de profundo sono, e fechou os vossos olhos, que são os profetas, e vendou a vossa cabeça, que são os videntes.” (Isaías 29:9-10)

Acho que os israelitas tiveram que consultar Débora (em nosso texto), e Hulda, anos depois (II Reis 22:14; II Crônicas 34:22), por causa do pecado e do declínio espiritual de Israel. Devido ao pecado do Seu povo, Deus tirou os profetas, os “olhos” do povo (lembre-se de que os profetas eram chamados de “videntes”). O povo buscou a vontade de Deus por intermédio de Débora e de Hulda devido ao pecado e declínio espiritual de Israel. Consultar uma profetisa em lugar de um profeta era uma repreensão, não às profetisas, mas à nação.

Gostaria de dar um alerta especial àqueles que tentam utilizar esta passagem para aprovar a liderança feminina em Israel e na igreja: lembrem-se de que o ministério de Débora está registrado no livro de Juízes. E é em Juízes que lemos “Naqueles dias não havia rei em Israel; cada qual fazia o que achava mais reto” (Juízes 17:6; cf. também 18:1; 19:1; 21:25). O livro não nos dá os passos que devemos seguir, mas descreve os males que devemos evitar. Se dissermos que Débora é exemplo de liderança para as mulheres (isto é, que elas devem liderar os homens), será que também podemos encorajá-las a seguir o exemplo de Jael? Podemos dizer que os homens devem ser como Sansão? Juízes descreve pessoas reais, pessoas que têm falhas muito graves, pessoas que, apesar disso, Deus usa em Seus propósitos. No entanto, não podemos cometer o erro de pensar que, só porque elas estão na Bíblia, tudo o que fizeram serve de exemplo para seguirmos.

A história de Débora e Baraque não advoga o princípio de que as mulheres devem liderar os homens. E, mesmo tendo dito isto, sou de opinião que nosso texto nos ensina sobre liderança. E iria até mais longe. Creio realmente que Débora foi uma líder. Na verdade, eu diria que ela foi a líder e Baraque o liderado. No entanto, havia limites definidos até aonde ela estava disposta a ir. Eu também diria que ela não assumiu a liderança até o ponto que Baraque parece ter desejado. Ela não conduziu o exército israelita na guerra; ele o fez. Débora o seguiu na batalha como qualquer outro soldado (Juízes 4:10). Em 4:14, ela lhe diz para ir à guerra; contudo, está só repetindo o que havia dito anteriormente. Ele deve ter percebido que já era hora de ir à luta por si mesmo, com base naquilo que Deus lhe dissera. Débora desempenha um papel crucial nesta batalha. Ela trabalha nos bastidores da melhor forma possível. A hesitação de Baraque em assumir a liderança e sua insistência em Débora ir com ele são retratadas como fraquezas de sua parte, pelas quais ele é repreendido. Deixar que uma mulher receba a glória deve ser visto como repreensão divina, não como elogio.

Creio que nosso texto realmente diga que Débora desempenhou o papel de líder nesse ponto da história de Israel. Isto não é retratado como uma coisa boa, que deva ser imitada por outras mulheres. Baraque é retratado como um homem fraco, cuja fé Deus fortalece. Débora estava no comando, mas só dentro de certos limites. Ela liderou, mas de forma a promover a liderança masculina, mantendo-se, portanto, num papel submisso. Ela não procurou ser líder e, na verdade, quis até evitar que isso acontecesse. Ela deixou claro que Deus havia designado Baraque como líder e que foi Ele quem ordenou a Baraque assumir a liderança.

Débora desempenha um papel fundamental em nosso texto, mas veja as conseqüências de sua liderança. De acordo com o capítulo 4, versos 23-24, ficamos sabendo que esta batalha foi decisiva para a relação entre israelitas e cananeus, os quais dominavam os israelitas há 20 anos. No “cântico de libertação” do capítulo 5 (verso 2) vemos que, devido ao ministério de Débora, os líderes assumiram seu papel e os outros os seguiram (não a ela). Débora não procurou ditar o modo como a liderança deveria agir; ela o confirmou. Por causa de seu ministério, Deus designou líderes que realmente lideraram, e seguidores que rapidamente se apresentaram como voluntários. É desse jeito que deve ser. Foi assim que funcionou quando Débora desempenhou seu papel na história de Israel.

Baraque se tornou o líder que deveria ser, em grande parte graças ao papel desempenhado por Débora. Gostaria de dizer também que, com bastante freqüência, quando um homem se torna um líder do jeito que Deus quer, há sempre uma “Débora” por perto, talvez longe dos holofotes, mas bem atrás do homem, encorajando-o e fortalecendo sua fé em Deus. Grandes atos de fé realizados por homens têm suas raízes nas ações e orações de uma mulher piedosa - esposa, mãe, filha ou crente fervorosa. Muitas vezes penso que qualquer que seja o sucesso que tenho experimentado em meu ministério, ele está mais relacionado às orações de minha esposa do que à minha fidelidade ou habilidade no ministério. Que houvessem mais Déboras nos dias de hoje.

Para encerrar, deixe-me mencionar ainda uma última coisa. Naqueles dias negros da época dos juízes, os líderes não assumiam seu papel e poucas pessoas estavam dispostas a segui-los. O grande problema é que parecia não haver ninguém para lutar contra os inimigos - os cananeus. Por intermédio do ministério desta grande mulher, Débora, surgiram líderes e seguidores, e a batalha foi travada e vencida. Hoje em dia não é muito diferente daquela época. Há muito a ser feito na igreja de nosso Senhor Jesus Cristo. Temos as classes de Escola Dominical para ministrar, novos crentes para discipular, evangelismo para fazer, e por aí afora. E, mesmo assim, há pouca gente disposta a se apresentar e assumir posições de liderança. E há ainda menos pessoas com disposição para segui-las. Em nossa igreja, como em muitas outras, há muito o que ser feito, e pouca gente para fazê-lo. O que Deus o chamou a fazer? Ele o chamou para servir? Então, apresente-se e seja um seguidor que dê apoio à liderança. Faça o que precisa ser feito! Foi chamado à liderança? Então lidere, confiando que Deus trabalha em meio à fraqueza para torná-lo forte.


1 Tradução: Mariza Regina de Souza