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A Criação dos Céus e da Terra (Gênesis 1:1-2:3)

Introdução

Quero ser especialmente cuidadoso ao abordarmos este primeiro capítulo de Gênesis. Na semana que passou li a história de um homem que tentou citar uma passagem de nosso texto como prova para fumar maconha. Eis a história como foi dada pela Christianity Today há uns dois anos atrás:

“Preso em Olathe, Kansas, por posse de drogas, Herb Overton baseou sua defesa em Gênesis 1:29: “e Deus disse... Eis que vos tenho dado todas as sementes que se acham na superfície da terra...”

“O Juiz Earl Jones, no entanto, duvidou da hermenêutica de Overton. De acordo com o artigo do Chicago Tribune, o juiz disse ao acusado de citar a Bíblia: “Como um mero mortal, vou lhe considerar culpado por posse de maconha. Se você quiser apelar para a instância superior, por mim tudo bem.”17

Todos podemos ler tais coisas em certas ocasiões e rir delas. Enquanto que o erro de Herb Overton é cômico, podem haver erros menos óbvios dos quais muitos cristãos podem ser culpados - e isso não é engraçado.

Esta semana um breve artigo chamou minha atenção na revista Eternity, intitulado “Seis Falhas do Evangelicalismo”. A maior parte do artigo ainda provoca coceira em minha cabeça, mas fiquei particularmente preocupado com esta afirmação:

“Temos tratado a Criação como um acontecimento estático - argumentando se Deus criou ou não tudo em sete dias, faltando assim a questão do significado religioso da criação e a atividade contínua de Deus na história.”18

À medida em que considero a acusação de Robert Webber, parece-me que nós, evangélicos, temos cometido cinco grandes erros na maneira como temos lidado com Gênesis nos últimos anos. A maioria desses erros consiste na reação ao tríplice ataque da evolução ateísta, da religião comparativa e da crítica literária.19

(1) Tratamos o relato da criação de acordo com a grade científica. Algumas recentes teorias e conclusões dos cientistas têm contestado a interpretação tradicional do relato bíblico da criação. Num esforço cons-ciencioso para provar que a Bíblia é cientificamente acurada, temos abordado os primeiros capítulos de Gênesis de um ponto de vista científico. O problema é que esses capítulos não pretendem nos dar um relato da criação que responderia a todos os problemas e fenômenos científicos.

O Dr. B. B. Warfield expõe bem o problema:

“Uma janela de vidro está diante de nós. Levantamos os olhos e vemos o vidro; notamos sua qualidade, observamos seus defeitos e especulamos sobre sua composição. Ou olhamos através dele na perspectiva de ver além terra, céu e mar. Da mesma forma, há duas maneiras de se olhar o mundo. Podemos ver o mundo e ficar absorvidos pelas maravilhas da natureza. Essa é a maneira científica. Ou podemos olhar diretamente através do mundo e ver Deus por detrás dele. Essa é a maneira religiosa.

A maneira científica de olhar para o mundo não é mais errada do que a maneira do fabricante do vidro olhar a janela. Essa maneira de olhar para as coisas tem um uso muito importante. No entanto, a janela foi colocada não para ser observada, mas para observarmos através dela, e o mundo falha em seu propósito a menos que também olhemos através dele e os olhos repousem não nele mas no Deus que o fez.”20

O autor de Gênesis não escreveu o relato da criação para o fabricante do vidro. Antes ele nos incentiva a ver através do vidro de seu relato para o Criador por detrás dele.

(2) Usamos o relato de Gênesis como apologia, quando seu propósito primário não é apologético. O uso apologético dos capítulos iniciais de Gênesis, ainda que seja importante,21 não é adequado ao propósito do autor. Gênesis foi escrito para o povo de Deus, não para descrentes. Os homens que se recusam a crer no criacio-nismo não o fazem por ausência de fatos ou de provas (cf. Rm. 1:18s), ou devido ao seu grande conhecimento (Sl. 14:1), mas devido a ausência de fé (Hb.11:3). Gênesis é muito mais uma declaração do que uma defesa.

(3) Tentamos encontrar em Gênesis algumas respostas para mistérios que podem ou não podem ser explicados em algum outro lugar. Podemos desejar aprender, por exemplo, onde a queda e o julgamento de Satanás se encaixam no relato da criação, mas tal informação não pode ser dada porque não era propósito do autor responder a tais questões.22

(4) Falhamos ao estudar Gênesis um dentro de seu contexto histórico. Suponho que seja muito fácil cometer esse tipo de erro aqui. Podemos duvidar de que haja algum fundo histórico. Ou podemos concluir que este é precisamente o propósito do capítulo - dar-nos um relato histórico da criação.

O panorama essencial à nossa compreensão do significado e da mensagem da criação, é o daqueles que primeiramente receberam este livro. Supondo que Moisés tenha sido o autor de Gênesis, o livro provavelmente teria sido escrito em alguma época depois do êxodo e antes da entrada na terra de Canaã. Qual seria a situação na época em que foi escrito este relato da criação? Quem recebeu essa revelação e quais necessidades foram satisfeitas por ele? Isto é crucial à correta interpretação e aplicação da mensagem da criação.

(5) Muitas vezes falhamos ao aplicar o primeiro capítulo de Gênesis de maneira relevante às nossas próprias vidas espirituais. Como um de meus amigos diz: “Olhamos para a mensagem de Gênesis um e não esperamos nada mais além de ter nossas baterias apologéticas recarregadas novamente.”

O relato da criação vem a ser um assunto importante em todo o Velho e Novo Testamento. Aqui, como em outros lugares, não podemos errar, mas permitir que as Escrituras interpretem as próprias Escrituras. Quando o assunto da criação aparece nas Escrituras requer uma reação dos homens. Quando ensinamos Gênesis capítulo um muitas vezes falhamos em despertar qualquer tipo reação.

O Cenário Histórico de Gênesis um

A revelação nunca é dada num vácuo histórico. A Bíblia fala aos homens em situações específicas e por motivos especiais. Não podemos interpretar corretamente as Escrituras ou aplicá-las a nós mesmos até que te-nhamos respondido à questão: “O que esta passagem queria dizer àqueles a quem originalmente foi dada?” Muitas coisas sobre a literatura, cultura e religiosidade dos povos que cercavam os israelitas são conhecidas através de estudos arqueológicos. O conhecimento de fatos contemporâneos aos Israelitas aumentará grandemente nossa compreensão do significado do relato da criação de acordo com a revelação divina, tal como é encontrada em Gênesis um.

Primeiro, sabemos que, virtualmente, todas as nações tinham sua própria cosmogonia, ou relato(s) da criação. De certo modo, sempre pensei que o relato da criação de Gênesis um fosse algo novo e original. De fato, esta revelação veio tarde se comparada à de outras nações do Oriente Médio. A Antigüidade devotava muito tempo e esforço às suas origens. O relato de Gênesis capítulo um tinha que “competir”, por assim dizer, com outros relatos de sua época.

Segundo, há quase que uma similaridade marcante entre esses relatos pagãos da formação do cosmos. De seus estudos dos doze mitos, a Sra. Wakeman identificou três características sempre presentes: 1) um monstro re-pressivo restringindo a criação; 2) a derrota do monstro por um deus heróico que liberta as forças vitais para a vida; 3) o controle final do herói sobre essas forças.”23

Terceiro, ainda que aflija alguns, há consideráveis semelhanças entre os mitos da criação pagã e o relato inspirado da criação na Bíblia.24 A correspondência inclui o uso de alguns dos mesmos termos (por exemplo, Leviatã) ou descrições (por exemplo, um dragão ou monstro marinho), forma literária similar25 e seqüência de eventos paralelos na criação.26

A explicação de algumas dessas semelhanças são inaceitáveis. Por exemplo, dizem que essas semelhanças evidenciam o fato de que a cosmogonia bíblica não é diferente de qualquer outro mito antigo da criação. Outros nos assegurariam que, ainda que haja semelhanças, os Israelitas “desmistificaram” esses relatos corrompidos para assegurar um relato acurado da origem da terra e do homem.27 Alguns estudiosos conservadores simplesmente chamam a correspondência de coincidência, apesar de isto parecer evitar as dificuldades ao invés de explicá-las. A explicação mais aceitável é que as semelhanças são explicadas pelo fato de que todos os relatos similares da criação tentam explicar os mesmos fenômenos.

“Muito cedo os povos se desviaram daquelas primeiras tradições da raça humana, e em climas e temperaturas variadas, têm-nas modificado de acordo com sua religião e modo de pensar. As modificações com o tempo resultaram na corrupção da tradição pura e original. O relato de Gênesis não é o único inalterado, mas em qualquer lugar sustenta a inerrante impressão da inspiração divina quando comparado às extravagâncias e corrupções de outros relatos. A narrativa bíblica, podemos concluir, representa a forma original que deve ter sido assumida por essas tradições.”28

Mais importante que o fato de que as nações ao redor de Israel tinham seus próprios (talvez mais antigos) relatos da criação, foi o uso para o qual esses relatos foram colocados no antigo Oriente Médio. Os antigos estudos do cosmos não foram cuidadosamente registrados e preservados por amor à história antiga; eles foram o fundamento de costumes religiosos.

As divindades do mundo antigo foram deuses da natureza, como o deus sol, deus lua, deus chuva e assim por diante.29 Para assegurar o curso das forças da natureza e garantir colheita abundante e os rebanhos de gado, os mitos da criação eram encenados todos os anos.

“Os mitos, então, no mundo antigo, eram reencenados através de pantomimas em festivais públicos para acompanhamento dos rituais. Uma complexa estrutura compunha a mágica encenação, cujo efeito, acreditava-se, seria benéfico a toda comunidade. Através de rituais aromáticos eram revividos os primeiros eventos registrados na mitologia. Acreditava-se que a encenação das ações criadoras dos deuses na estação própria, e a declamação de uma fórmula verbal apropriada faria a renovação periódica e a revitalização da natureza, e assim asseguraria a prosperidade da comunidade.30

Por esse cenário podemos começar a perceber quão vital foi o papel encenado pelo estudo do cosmos no antigo Oriente Médio. A vida social e religiosa de Israel, como a de seus vizinhos, era baseada em suas origens. O relato da criação em Gênesis estabeleceu o fundamento para o restante do Pentateuco.

Sob essa luz podemos ver a importância do contexto entre o Deus de Israel e os “deuses” do Egito. Faraó ousou perguntar a Moisés “Quem é o Senhor para que eu obedeça à sua voz e deixe ir a Israel?” (Ex. 5:2).

A resposta do Senhor foi uma série de dez pragas. A mensagem dessas pragas foi que o Deus de Israel é o Deus criador dos céus e da terra.

“Porque, naquela noite, passarei pela terra do Egito e ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até os animais; executarei juízo sobre todos os deuses do Egito. Eu sou o Senhor.” (Ex. 12:12, cf. 18:11, Nm. 33:4)

Parecia que cada praga era uma afronta direta a algum dos muitos deuses do Egito. Ainda que uma correlação direta de cada praga com um deus específico possa ser um tanto especulativa31, a batalha dos deuses é evidente.

Não é de se estranhar que o sinal da aliança dos Israelitas fosse a guarda do sábado:

“Tu, pois, falarás aos filhos de Israel e lhes dirás: Certamente, guardareis os meus sábados, pois é sinal entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica... Entre mim e os filhos de Israel é sinal para sempre, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra e, ao sétimo dia, descansou, e tomou alento.” (Ex. 31:13/17).

A observância do sábado identificava Israel com seu Deus, o Criador que descansou de seu trabalho no sétimo dia.

Os milagres do Êxodo tiveram, então, uma função similar à dos sinais e maravilhas realizados por nosso Senhor. Eles autenticaram a mensagem que foi proclamada. No caso de nosso Senhor foram as palavras que Ele proclamou e os escritores inspirados preservaram. No caso do Êxodo, o Pentateuco foi a revelação de Deus escrita por Moisés que seus milagres autenticaram. O Êxodo provou ser Yahweh o único Deus, o Criador e Redentor. O Pentateuco forneceu o conteúdo para a fé de Israel, do qual o relato da criação é o fundamento.

Gênesis 1:1-3

Há muitas interpretações para os três primeiros versos da Bíblia, mas mencionaremos brevemente as três mais popularmente sustentadas pelos evangélicos. Não gastaremos muito tempo aqui, pois nossas conclusões não serão finais e as diferenças têm pouca influência na aplicação do texto. Deixe-me começar simplesmente dizendo que nós, que somos chamados pelo nome de Cristo, devemos, no final das contas, tomar Gênesis 1:1 ao pé da letra, pela fé (Hb. 11:3).

1ª opinião: A Teoria da Recriação (ou lacuna). Esta opinião sustenta que Gênesis 1:1 descreve a criação original da terra, anterior à queda de Satanás (Is. 14:12-15, Ez. 28:12s). Em conseqüência da queda de Satanás a terra perdeu seu estado original de beleza e glória e se encontrou no estado de caos de Gênesis 1:2. Essa “lacuna” entre os versos 1 e 2 não só ajuda a explicar o ensino a respeito da queda de Satanás, mas também permite um considerável período de tempo, o qual ajuda a harmonizar o relato da criação com as modernas teorias científicas. Esta teoria sofre de uma série de dificuldades.32

2ª opinião: A Teoria do Caos Inicial. Brevemente, esta opinião sustenta que o verso um seria uma frase introdutória independente. O verso 2 descreveria o estado da criação inicial como sem forma e vazia. Em outras palavras, o universo é como um bloco bruto de granito antes do escultor começar a moldá-lo. A criação não está em mau estado em conseqüência de alguma queda catastrófica, mas simplesmente em seu estado informe inicial, como um monte de barro nas mãos do oleiro. Os versos 3 e seguintes começam a descrever o trabalho de Deus e a modelagem da massa, transformando-a do caos no cosmos. Muitos estudiosos respeitáveis sustentam esta posição.33

3ª opinião: A Teoria do Caos Pré-Criação. Nesta opinião (sustentada pelo Dr. Waltke) o verso um ou é entendido como uma oração independente (“Quando Deus começou a criar...”) ou como um enunciado introdutório independente e resumido (“No princípio criou Deus...”). O relato da criação resumido no verso 1 começa no verso 2. Esta “criação” não é “ex nihilo” (do nada), mas por causa das coisas existentes no verso 2. De onde isto vem não é explicado nesses versos. Em conseqüência, esta opinião sustenta que o estado caótico não ocorre entre os versos um e dois, mas antes do verso um numa época não especificada. A origem absoluta da matéria é, então, não o objeto da “criação” de Gênesis 1, mas apenas o princípio relativo do mundo e da civilização como a conhecemos hoje. 34

Podemos resumir as diferenças entre esses três pontos de vista na figura abaixo:35

Os Seis Dias da Criação
(1:1-31)

É importante reconhecer que os versos 2 a 31 nada mais são do que uma pequena expansão do verso um. Eles não explicam completamente a criação (certamente não do modo científico - quem teria se preocupado com isso durante todos esses anos?). Nem a provam, pois, no final das contas, isto é uma questão de fé. Os fatos sobre os quais esta fé deve ser baseada simplesmente são afirmados.

Parece haver um padrão para estes seis dias da criação, como muito estudantes da Bíblia têm observado. Pode ser melhor ilustrado graficamente:

Sem Forma Transformado em Forma

Vazio Transformado em Habitação

v. 3-5

1º Dia

Luz

v. 14-19

4º Dia

Luminares (sol, luz, estrelas)

v. 6-8

2º Dia

Atmosfera (espaço superior)

Água (espaço inferior)

v. 20-23

5º Dia

Peixes e Pássaros

v. 9-13

3º Dia

Plantas terrestres

v. 24-31

6º Dia

Animais e Homem

Vendo desta maneira, os três primeiros dias cuidam da situação “sem forma” descrita em Gênesis 1:2. Os dias 4 a 6 tratam do estado de “vácuo” ou “vazio” do verso 2. Parece haver também uma correlação entre os dias 1 e 4, 2 e 5 e 3 e 6. Por exemplo, a atmosfera e a água recebem a forma de vida correspondente de pássaros e peixes, como se isto não devesse estar tão longe.

Duas outras observações devem ser feitas. Primeiro, há uma seqüência nos seis dias. Fica claro que este relato está disposto cronologicamente, cada dia edificado sobre a atividade criativa dos dias anteriores. Segundo, há um processo envolvido na criação, um processo envolvendo a transformação do caos no cosmos, a desordem na ordem.

Enquanto Deus poderia ter instantaneamente criado a terra tal como ela é, Ele não escolheu fazer assim. A clara impressão dada pelo texto é que este processo levou seis dias literalmente, e não longas eras. No entanto, o Deus eterno não está tão preocupado em fazer as coisas instantaneamente quanto nós estamos. O processo de santificação é apenas mais um dos muitos exemplos da atividade progressiva de Deus no mundo.

O Significado da Criação para os Antigos Israelitas

Antes de examinarmos a questão do que a criação deve significar para nós, devemos tratar do seu significado para aqueles que primeiramente leram estas palavras inspiradas da pena de Moisés. O propósito inicial deste relato foi para os Israelitas dos dias de Moisés. O que devem ter aprendido? Como devem ter reagido?

(1) O relato da criação de Gênesis foi uma correção à cosmogonia corrompida de seus dias. Já dissemos que o Egito, por exemplo, acreditava em múltiplos deuses da natureza. Precisamos reconhecer que Israel, devido à sua proximidade e contato prolongado com os egípcios, não deixou de ser afetado por seus pontos de vista religiosos.

“Agora, pois, temei ao Senhor e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e servi ao Senhor.” (Js. 24:14)

Não era suficiente honrar a Yahweh simplesmente como um deus, um entre muitos. Nem poderia ser concebido isso do Deus de Israel. Só Yahweh é Deus. Não há outro Deus. Ele é o criador dos céus e da terra. Ele não é simplesmente superior aos deuses das nações em derredor. Somente Ele é Deus.

A tendência em se começar a confundir Deus com Sua criação foi uma parte dos pensamentos do mundo antigo. Ele deve ser honrado como o Deus da criação, não apenas Deus na criação. Todas as tentativas de se visua-lizar ou humanizar a Deus na forma de alguma coisa criada foram tendências em equiparar Deus com Sua criação. Creio que foi assim com o bezerro de ouro de Arão.

(2) O relato da criação descreve o caráter e os atributos de Deus. Negativamente, Gênesis um corrige muitas concepções populares erradas a respeito de Deus. Positivamente, retrata Seu caráter e Seus atributos.

Deus é soberano e Todo-Poderoso. Distintamente das cosmogonias de outros povos antigos, não há nenhuma batalha na criação descrita em Gênesis um. Deus não enfrentou forças opostas para criar a terra e o homem. Deus criou com uma simples ordem “Haja...” Há ordem e progresso. Deus não faz experiência, mas, ao invés disso, habilmente molda a criação conforme Seu projeto onisciente.

Deus não é simplesmente energia, mas uma Pessoa. Ainda que devamos ficar atemorizados pela transcendência de Deus, devemos ficar também pela Sua imanência. Ele não é uma energia cósmica distante, mas um Deus pessoal sempre presente. Isto é refletido no fato de que Ele criou o homem à sua própria imagem (1:26-28). O homem é um reflexo de Deus. Nossa personalidade é simplesmente uma sombra da personalidade de Deus. No capítulo dois Deus deu a Adão uma tarefa significativa, com uma companheira como auxiliadora. No terceiro capítulo aprendemos que Deus tinha comunhão diária com o homem no jardim (cf. 3:8).

Deus é eterno. Enquanto que outras criações são vagas ou errôneas no que concerne à origem de seus deuses, o Deus de Gênesis é eterno. O relato da criação descreve Sua atividade no princípio dos tempos (do ponto de vista humano).

Deus é bom. A criação não teve lugar num vácuo moral. A moralidade foi tecida dentro da estrutura da criação. Repetidamente é encontrada a expressão “e era bom”. Bom implica não somente em utilidade e complexidade, mas em valores morais. Aqueles que sustentam pontos de vista ateístas sobre a origem da terra não vêem nenhum outro sistema de valores a não ser o que é sustentado pela maioria das pessoas. A bondade de Deus é refletida em Sua criação, a qual, em seu estado original, era boa. Mesmo hoje, a graça e a bondade de Deus são evidentes (cf. Mt. 5:45; At. 17:22-31).

O significado da Criação Para Todos os Homens

O tema de Deus como Criador é relevante através de toda a Escritura. É significativo que as últimas palavras da Bíblia sejam notadamente similares às primeiras.

“Então me mostrou o rio da água da vida, brilhante como cristal, que sai do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua praça, de uma e outro margem do rio, está a árvore da vida, que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em mês, e as folhas da árvore são par a cura dos povos. Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus servos o servirão, contemplarão a sua face, e na sua fronte está o nome dele. Então, já não haverá noite, nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles e reinarão pelos séculos dos séculos.” (Ap. 22:1-5)

A verdade de que Deus é o Criador dos céus e da terra não é simplesmente algo para se acreditar, mas algo a que devemos reagir. Deixe-me mencionar apenas umas poucas implicações do ensinamento de Gênesis um.

(1) Os homens devem se submeter ao Deus da criação em temor e obediência. Os céus proclamam a glória de Deus:

“Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite.” (Sl. 19:1-2)

“Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato.” (Rm. 1:20-21)

Os homens devem temer ao Deus Todo-Poderoso da criação:

“Os céus por sua palavra se fizeram e, pelo sopro de sua boca, o exército deles. Ele ajunta em montão as águas do mar; e em reservatório encerra as grandes vagas. Tema ao Senhor toda a terra, temam-nos todos os habitantes do mundo. Pois ele falou e tudo se fez, ele ordenou e tudo passou a existir.” (Sl. 33:6-9)

A grandeza de Deus é evidente nas obras de suas mãos - a criação que está ao nosso redor. Os homens deveriam temê-Lo e reverenciá-Lo por Quem Ele é.

“Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Senhor, Deus meu, como tu és magnificente, sobrevestido de glória e majestade, coberto de luz como de um manto. Tu estendes o céu como uma cortina, pões nas águas o vigamento da tua morada, tomas as nuvens por teu carro, e voas nas asas do vento. Fazes a teus anjos ventos e a teus ministros, labaredas de fogo. Lançaste os fundamentos da terra, para que ela não vacile em tempo nenhum. Tomaste o abismo por vestuário e a cobriste; as águas ficaram acima das montanhas; à tua repreensão, fugiram, à voz do teu trovão, bateram em retirada. Elevaram-se os montes, desceram os vales, até ao lugar que lhes havias preparado. Puseste às águas divisa , que não ultrapassarão, para que não tornem a cobrir a terra.” (Sl. 104:1-9)

(2) Os homens devem confiar no Deus da criação, para prover todas as suas necessidades.

“Após voltar Abrão de ferir a Quedorlaomer e aos reis que estavam com ele, saiu-lhe ao encontro o rei de Sodoma no vale de Savé, que é o vale do rei. Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do Deus Altíssimo: abençoou ele a Abrão, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo; que possui os céus e a terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos. E de tudo lhe deu Abrão o dízimo. Então disse o rei de Sodoma a Abrão: dá-me as pessoas, e os bens fiquem contigo. Mas Abrão lhe respondeu: Levanto minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, que possui o céu e a terra, e juro que nada tomarei de tudo o que te pertence, nem um fio, nem uma correia de sandália, para que não digas: Eu enriqueci a Abrão; nada quero para mim, senão o que os rapazes comeram, e a parte que toca aos homens Aner, Escol e Manre, que foram comigo; estes que tomem o seu quinhão.” (Gn. 14:17-24)

Abrão deu o dízimo a Melquisedeque com base em sua confissão de que o Deus de Abrão era “o Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra” (v. 19, 20). E mesmo enquanto Abrão dava o dízimo a Melquisedeque, ele se recusou a se beneficiar em qualquer aspecto financeiro do rei pagão de Sodoma, pois queria que este homem soubesse que “o Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra” foi o Único que o fez prosperar.

Nós cantamos “Ele é o dono do gado em milhares de montes... sei que ele se importará comigo.” Que boa teologia. O Deus que é o nosso Criador, é também o nosso Sustentador. Veja que Deus não concluiu o universo e então o deixou entregue a si mesmo, tal como parecem dizer. Deus mantém um cuidado contínuo sobre Sua criação.

“Fazes crescer a relva para os animais, e as plantas para o serviço do homem, de sorte que da terra tire o seu pão; o vinho, que alegra o coração do homem, o azeite que lhe dá brilho ao rosto, e o pão que lhe sustém as forças. Avigoram-se as aves do Senhor, e os cedros do Líbano que ele plantou, em que as aves fazem seus ninhos; quanto à cegonha, a sua casa é nos ciprestes. Os altos montes são das cabras montesinhas, e as rochas o refúgio dos arganazes. Fez a lua para marcar o tempo; o sol conhece a hora do seu ocaso. Dispões as trevas, e vem a noite, na qual vagueiam os animais da selva. Os leõezinhos rugem pela presa, e buscam de Deus o sustento; em vindo o sol, eles se recolhem e se acomodam nos seus covis. Sai o homem para o seu trabalho, e para o seu encargo até a tarde.” (Sl. 104:14-23)

O Novo Testamento dá um passo além ao nos informar que o Filho de Deus foi o Criador e continua a servir como Sustentador da criação, mantendo todas as coisas juntas:

“Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste.” (Cl. 1:16-17)

(3) Os homens devem se humilhar diante da sabedoria de Deus evidenciada na criação. Jó sofreu muitas aflições. Mas, afinal, o suficiente foi suficiente. Ele começou a questionar a sabedoria de Deus em sua adversidade. Ao seu questionamento Deus respondeu:

“Depois disto o Senhor, do meio de um redemoinho, respondeu a Jó: Quem é este que escurece os meus desígnios com palavras sem conhecimento? Cinge, pois, os teus lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me farás saber. Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento. Quem lhe pôs as medidas, se é que o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel? Sobre que estão fundadas as tuas bases, ou quem lhe assentou a pedra angular, quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus?” (Jó 38:1-7).

Jó foi desafiado a sondar a sabedoria de Deus na criação. Ele não podia explicá-la ou compreendê-la, quanto mais contestá-la. Como, então, Jó poderia questionar a sabedoria da obra de Deus em sua vida. Na verdade, ele não podia ver o propósito de tudo aquilo, mas sua perspectiva não era a de Deus. Deixe que, quem quer que questione a ação de Deus em sua vida contemple a infinita sabedoria de Deus como é vista na criação, e então seja silenciado e espere Nele para fazer o que é certo.

Se o homem pudesse escolher refletir sobre qualquer questão, deixe-o tentar sondar a razão pela qual um Deus infinito deveria Se preocupar tanto com um simples homem:

“Quanto contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus, e de glória e de honra o coroaste.” (Sl. 8:3-5).

(4) O homem deve encontrar conforto em tempos de perigo e dificuldade, sabendo que seu Criador é capaz e desejoso de livrá-lo.

“Por isso também os que sofrem segundo a vontade de Deus encomendem as suas almas ao fiel Criador, na prática do bem.” (I Pe. 4:19)

“Por que, pois, dizes, ó Jacó, e falas, ó Israel: O meu caminho está encoberto ao Senhor, e o meu direito passa despercebido ao meu Deus? Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos fins da terra, nem se cansa nem se fatiga? Não se pode esquadrinhar o seu entendimento. Faz forte ao cansado, e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e se fatigam, e os moços de exaustos caem, mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam.” (Is. 40:27-31)

“Assim Deus, o Senhor, que criou os céus e os estendeu, formou a terra, e a tudo quanto produz; que dá fôlego de vida ao povo que nela está, e o espírito aos que andam nela. Eu, o Senhor, te chamei em justiça, tomar-te-ei pela mão, e te guardarei, e te farei mediador da aliança com o povo, e luz para os gentios.” (Is. 42:5-6)

“Eu sou o Senhor, e não há outro; além de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que não me conheces. Para que se saiba até ao nascente do sol e até ao poente, que além de mim não há outro; eu sou o Senhor, e não há outro. Eu formo a luz, e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu o Senhor, faço todas estas cousas.” (Is. 45:5-7).

(5) O homem deve responder ao Deus da criação com o louvor que Lhe é devido:

“A glória do Senhor seja para sempre! Exulte o Senhor por suas obras! Com só olhar para a terra ele a faz tremer; toca as montanhas, e elas fumegam. Cantarei ao Senhor enquanto eu viver; cantarei louvores ao meu Deus durante a minha vida. Seja-lhe agradável a minha meditação; eu me alegrarei no Senhor. Desapareçam da terra os pecadores, e já não subsistam os perversos. Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Aleluia!” (Sl. 104:31-35)

“Aleluia! Louvai ao Senhor do alto dos céus, louvai-o nas alturas. Louvai-o todos os seus anjos; louvai-o todas as suas legiões celestes. Louvai-o, sol e lua; louvai-o todas as estrelas luzentes. Louvai-o, céus dos céus, e as águas que estão acima do firmamento. Louvem o nome do Senhor, pois mandou ele e foram criados. E os estabeleceu para todo o sempre: fixou-lhes uma ordem que não passará.” (Sl. 148:1-6)

“Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do Senhor que nos criou.” (Sl. 95:6)

“Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome! Pois expuseste nos céus a tua majestade.” (Sl. 8:1)

Conclusão

Meu amigo, o ensinamento de Gênesis um é uma grande e poderosa verdade. É o único que exige mais do que aceitação; ele precisa de ação. E mesmo assim, por maior que seja, é empalidecido pela vinda de Jesus Cristo. Da mesma forma que Deus proclamou: haja luz, assim Deus de uma vez por todas falou nos últimos tempos pelo Filho (Hb.1:1-2), que é a luz:

“Porque Deus que disse: De trevas resplandecerá luz – ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo.” (II Co. 4:6)

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez. A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.” (Jo. 1:1-5)

“A saber: a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem. Estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo.1:9-13)

Enquanto Deus Se revelou palidamente na criação, Ele Se desvelou completamente em Seu Filho:

“Ninguém jamais viu a Deus: o Deus unigênito, que está no sei do Pai, é quem o revelou.” (Jo. 1:18)

Não podemos evitar a revelação bíblica de que o Deus que criou os céus e a terra, o Deus que redimiu os Israelitas do Egito, é o Deus-Homem da Galiléia, Jesus Cristo. Da mesma forma como Ele fez a primeira criação (Cl. 1:16), agora Ele vem realizar uma nova criação, através de Sua obra na cruz do Calvário:

“E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (II Co. 5:17)

Além disto, breve virá o dia em que os céus e a terra serão purificados dos efeitos do pecado e serão novos céus e nova terra:

“Virá, entretanto, como ladrão, o dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas. Visto que todas estas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do dia de Deus, por causa do qual os céus incendiados serão desfeitos e os elementos abrasados se derreterão. Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça.” (II Pe. 3:10-13)

Você está pronto para esse dia, meu amigo? Já é uma nova criatura em Cristo? Gênesis um revela como Deus tomou o caos e o transformou no cosmos – belo e ordenado. Se você ainda não veio a Cristo, posso dizer com toda segurança que sua vida é sem forma e vazia, é caótica e sem vida. O mesmo que tornou o caos em cosmos pode fazer de sua vida uma nova vida.


17 “Pot Proof”, Christianity Today, September 22, 1978, p. 43.

18 “Evangelicalisms Six Flaws”, Eternity, January, 1980, p. 54. Este artigo da equipe da Revista Eternity é um sumário de um artigo de Robert E. Webber, matéria publicada em outubro na New Oxford Review.

19 O Dr. Bruce Waltke brevemente descreve este tríplice ataque:

Primeiro, veio a contestação da comunidade científica. Na esteira da revolucionária teoria da evolução de Charles Darwin para explicar a origem das espécies, a maior parte da comunidade científica acatou a hipótese de Darwin contra a Bíblia. Eles criam que podiam validar a teoria de Darwin através de dados empíricos, mas acharam que não podiam fazer o mesmo em relação à Bíblia.

A segunda contestação veio dos religiosos comparativos que procuraram desacreditar a história bíblica pelo apontamento de várias semelhanças entre ela e os antigos relatos mitológicos da criação, provenientes de várias partes do Oriente Médio, estudando-os ao mesmo tempo... De acordo com sua opinião (Gunkel), a versão hebraica da criação foi apenas uma outra lenda folclórica do Oriente Médio, que aqueles que transmitiam a história, com o passar do tempo, aperfeiçoaram com sua criatividade e visão filosófica e teológica.

A terceira contestação veio do criticismo literário. O caso mais expressivo foi o de Julius Wellhausen em seu clássico mais influente, ainda disponível em brochura nas livrarias, intitulado Pro Legomena to the Old Testament. Aqui ele argumenta que haviam, pelo menos, dois relatos distintos da criação em Gênesis 1 e 2 e que os dois se contradiziam em vários pontos. Bruce Waltke, Creation and Chaos (Portland, Oregon: Western Conservative Baptist Seminary, 1974), pp. 1-2.

20 Benjamin B. Warfield, Selected Shorter Writings of Benjamin B. Warfield, Vol. I, editado por John E. Meeker (Nutley, N.J. Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1970), p. 108.

21 Devo enfatizar que deveríamos tomar seriamente a instrução de Pedro “... estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós...” (I Pe. 3:15) Mesmo aqui, no que pode ser chamado de exortação a uma prontidão apologética, a mensagem mais necessária ao não crente é a do evangelho da salvação pela fé em Cristo. Minha experiência é que poucos são salvos pelo uso apologético do relato de Gênesis da criação. Para aqueles que consideram seriamente o chamado de Cristo, mas temem que a Bíblia não seja digna de confiança, tais esforços podem muito bem valer a pena.

22 “Primeiro, podemos dizer que o livro de Gênesis não nos informa, consoante às origens, aquilo que é contrário à natureza de Deus, nem no cosmos, nem no mundo espiritual. Onde se opõe a Ele, que é a boa e resplandecente origem? Quando nos deparamos com o problema da origem do mal no reino moral, encontramos um grande mistério. De repente, sem explicação, em Gênesis 3 aparece no Jardim do Éden um personagem totalmente maléfico, brilhante e inteligente, dissimulado numa serpente. O princípio das origens, tão forte em nossas mentes, exige uma explicação. Mas a verdade é que o Livro nos frustra. Igualmente, quando nos aproximamos daquilo que é negativo nos cosmos, algo obscuro e sem forma, a Bíblia não nos dá nenhuma informação. Eis aqui algumas das coisas ocultas que pertencem a Deus.” (Waltke, Creation and Chaos, p. 52). Ainda que eu não concorde com a escolha das palavras do Dr. Waltke (“o Livro nos frustra”), concordo com sua posição de que Gênesis não nos diz aquilo que podemos desejar aprender.

23 Wakeman, como citado por Waltke, Creation and Chaos , p. 6.

24 Waltke demonstra as semelhanças entre a cosmogonia bíblica e os mitos da criação do antigo Oriente Médio:

Primeiro, pela comparação do Salmo 74:13-14 com o Texto Ugarítico 67:I: 1-3 (Waltke, p. 12).

Salmo 74:13-14 “Tu, com o teu poder, dividiste o mar; esmagaste sobre as águas a cabeça dos monstros marinhos. Tu espedaçaste a cabeça do crocodilo e o deste por alimento às alimárias do deserto.”

Texto 67: I . 1-3, 27-30: “Quando esmagaste Lotan (Leviathan) o diabólico dragão, também destruíste o dragão disforme, o poderoso de 7 cabeças...”

Segundo, pela comparação de Isaías 27:1 com o Texto Ugarítico ‘nt:III: 38-39 (Waltke, p. 13):

Isaías 27:1 “Naquele dia, o Senhor castigará com a sua dura espada, grande e forte, o dragão, serpente veloz, e o dragão, serpente sinuosa, e matará o monstro que está no mar.”

Texto ‘ni:III: 38-39: “O dragão disforme, o poderoso de 7 cabeças.”

25 Cf. Waltke, Creation and Chaos, pp. 33,35. Realmente, esta semelhança na forma entre o texto bíblico do Pentateuco e os textos antigos do Oriente Médio, tem mostrado ser uma bênção para aqueles que sustentam a autoria (Mosaica) unificada:

“Kitchen comparou o Pentateuco com os antigos textos do Oriente Médio e descobriu que os mesmos traços usados pelos críticos como uma varinha de condão para dividir o Pentateuco estavam presentes nestes textos, escritos na rocha sem nenhuma pré-história.” Waltke, pp. 41-42.

26 Ibid, p. 45.

27 “A explicação mais comum dos estudiosos que observam o mundo como um sistema fechado sem nenhuma intervenção divina é a de que Israel apropriou-se destas mitologias, desmistificou-as, purificou-as de seu politeísmo ordinário e grosseiro, e gradualmente adaptou-as à sua própria superior e desenvolvida teologia.” Ibid., p. 46.

28 Merrill F. Unger, Archaeology and the Old Testament, p. 37, citado por Waltke, p. 46.

29 “Em Canaã, na época da conquista, cada cidade tinha seu próprio templo dedicado a alguma força da natureza. O nome Jericó deriva da palavra hebraica yerah, que significa “lua”, por seus habitantes adorarem a lua, o deus “Yerach”. Igualmente, no outro lado da cadeia central de montanhas da Palestina, encontramos a cidade de Beth Shemesh, que significa “Templo do Sol” pois Shamash, o deus sol, era adorado lá.” Waltke, p. 47.

30 Sarna, Understanding Genesis, p. 7, como citado por Waltke, p. 47.

31 “O conhecimento existente a respeito das práticas diárias de adoração dos deuses egípcios é muito pequeno; e, apesar dos propósitos e intenções, pouco ou nada é conhecido de fontes documentadas de seus assuntos metafísicos. É óbvio, no entanto, que as 22 províncias egípcias tinham, cada uma, seus respectivos centros religiosos e tótens de animais ou de plantas. É precisamente os atributos dessas deidades que estão envolvidos nas pragas; mas, se cada praga foi imaginada para estar no domínio especial de um ou outro dos deuses egípcios, não se pode estabelecer com certeza.” W. White, Jr. “The Plagues of Egypt, The Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible (Grand Rapids: Zondervan, 1975, 1976), IV, p. 806.

32 Cf. Waltke, pp. 21-25.

33 Por exemplo, E. J. Young, In the Beginning (Carlisle; Pennsylvania: Banner of Truth Trust, 1976), pp. 20ff.

34 “Mas o que diremos sobre o estado informe e não criado, as trevas e o abismo de Gênesis 1:2? Aqui entramos num grande mistério, pois a Bíblia nunca disse que Deus os trouxe à existência pela Sua Palavra. O que podemos dizer sobre eles?” Bruce Waltke, p. 52.

35 Adaptado de Waltke, p. 18.

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