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2. A Criação dos Céus e da Terra (Gênesis 1:1 - 2:3)

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Introdução

Quero ter muito cuidado ao abordar este primeiro capítulo de Gênesis. Na semana passada, li a história de um homem que tentou citar esta passagem da Escritura como prova para o uso de maconha. Eis a história publicada pela Christianity Today há uns dois anos:

Preso em Olathe, Kansas, por posse de drogas, Herb Overton usou como base para sua defesa o texto de Gênesis 1:29: “e Deus disse... Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra…”

O Juiz Earl Jones, no entanto, achou duvidosa a hermenêutica de Overton. De acordo com o relato do Chicago Tribune, o juiz disse ao acusado de citar a Bíblia: “Como mero mortal, vou considerá-lo culpado pela posse de maconha. Se quiser apelar para a instância superior, por mim tudo bem1.

Quando a gente lê esse tipo de história, pode até dar risada. Embora o erro de Overton seja cômico, muitos cristãos talvez cometam erros não tão óbvios — e isso não é engraçado.

Esta semana, um pequeno artigo da revista Eternity, intitulado “Seis Falhas do Evangelicalismo”, chamou minha atenção. A maior parte dele ainda me deixa preocupado, mas o que mais me incomodou foi esta afirmação:

Temos tratado a Criação como um evento estático — argumentando se Deus criou ou não tudo em sete dias, deixando, assim, de entender o seu significado religioso e a atividade contínua de Deus na história2.

Pensando nessa acusação de Robert Webber, parece-me que nós, evangélicos, temos cometido cinco grandes erros na maneira como temos lidado com Gênesis nos últimos anos. A maioria desses erros, em parte, consiste na reação ao tríplice ataque da evolução ateísta, da religião comparada e da crítica literária3.

(1) Tratamos o relato da criação de acordo com a grade científica. Recentes teorias e conclusões dos cientistas têm desafiado a interpretação tradicional do relato bíblico da criação. Numa tentativa escrupulosa de provar que a Bíblia é cientificamente correta, abordamos os primeiros capítulos de Gênesis do ponto de vista científico. O problema é que esses capítulos não foram destinados a nos dar um relato da criação para responder a todos os problemas e fenômenos científicos.

O Dr. B. B. Warfield exprime bem o problema:

Temos diante de nós uma janela. Olhamos para ela e observamos o vidro; vemos sua qualidade, notamos seus defeitos e ficamos imaginando do que ele é feito. Ou, então, olhamos através do vidro e vemos a grande extensão de terra, o céu e o mar do outro lado. Da mesma forma, há duas maneiras de se ver o mundo. Podemos olhar para ele e ficar extasiados diante das maravilhas da natureza. Essa é a maneira científica. Ou podemos olhar através dele e ver o Deus que o fez. Essa é a maneira religiosa.

A maneira científica de observar o mundo é semelhante à maneira do fabricante observar uma janela. Essa forma de olhar para as coisas tem um uso muito importante. No entanto, a janela foi colocada lá não para ser observada, mas para que olhemos através dela, e o mundo deixa de ter seu propósito se não olharmos através dele e nossos olhos repousarem no Deus que o criou, não nele4.

O autor de Gênesis não escreveu o relato da criação para o fabricante do vidro. Pelo contrário, ele nos exorta a olhar através do vidro do seu relato para o Criador de todas as coisas.

(2) Usamos o relato de Gênesis como apologia, quando seu propósito primário não é apologético. O uso apologético dos capítulos iniciais de Gênesis, embora tenha seu valor5, não está de acordo com o propósito do autor. Gênesis foi escrito para o povo de Deus, não para descrentes. Não é pela ausência de fatos ou de provas que os homens não querem acreditar no criacionismo, (cf. Romanos 1:18 e ss), nem por terem mais conhecimento (Salmo 14:1), mas pela ausência de fé (Hebreus 11:3). Gênesis é uma declaração, não uma defesa.

(3) Tentamos encontrar no primeiro capítulo de Gênesis respostas para mistérios que podem ou não ser explicados em algum outro lugar. Talvez queiramos saber, por exemplo, onde a queda e o julgamento de Satanás se encaixam no relato da criação; mas não temos essa informação porque não era propósito do autor responder a esse tipo de pergunta6.

(4) Deixamos de estudar o primeiro capítulo de Gênesis dentro do seu contexto histórico. Suponho que seja muito fácil cometer esse tipo de erro aqui. Podemos achar que não há nenhum fundo histórico. Ou podemos concluir que esse seja exatamente o propósito do capítulo — dar-nos um relato histórico da criação.

As informações essenciais para a compreensão do significado e da mensagem da criação são as que foram dadas aos que primeiramente receberam este livro. Admitindo-se que tenha sido Moisés o autor de Gênesis, o mais provável é que o livro tenha sido escrito em alguma época entre o êxodo e a entrada em Canaã. Qual era a situação no momento em que o relato da criação foi escrito? Quem recebeu esta revelação e o que precisava saber? Isso é crucial para a interpretação e aplicação correta da mensagem da criação.

(5) Muitas vezes, deixamos de aplicar, de forma relevante, o primeiro capítulo de Gênesis à nossa própria vida espiritual. Como diz um dos meus amigos: “Olhamos para a mensagem do primeiro capítulo de Gênesis e a única coisa que esperamos é ter nossas baterias apologéticas recarregadas mais uma vez”.

O relato da criação passa a ser um tema proeminente ao longo do Antigo e do Novo Testamento. Aqui, como em outros lugares, temos de deixar a Escritura interpretar a própria Escritura. Na Bíblia, quando surge o tema da criação, ele requer uma reação dos homens. Ao ensinar o primeiro capítulo de Gênesis, muitas vezes deixamos de despertar tal reação.

O Panorama Histórico de Gênesis 1

A revelação nunca é dada num vácuo histórico. A Bíblia fala aos homens em situações específicas e por motivos especiais. Não podemos interpretar a Escritura de forma correta, ou aplicá-la a nós mesmos, sem antes responder a pergunta: “O que esta passagem queria dizer àqueles a quem foi entregue originalmente?” Devido aos estudos arqueológicos, conhecemos muita coisa sobre a literatura, cultura e religiosidade dos povos que viviam ao redor dos israelitas. O conhecimento de fatos daquela época aumentará a nossa compreensão do significado do relato da criação conforme a revelação divina encontrada em Gênesis um.

Primeiramente, sabemos que praticamente todas as nações tinham sua própria cosmogonia ou relato(s) da criação. De certo modo, sempre pensei que o relato da criação de Gênesis um fosse algo novo e original. Na verdade, essa revelação veio tarde em relação à das outras nações do Oriente Próximo. A Antiguidade dedicou muito tempo e esforço às suas origens. O relato de Gênesis um teve de “competir”, por assim dizer, com os outros relatos da sua época.

Em segundo lugar, há uma semelhança quase notável entre essas cosmogonias pagãs. De acordo com seu estudo de doze mitos, a Sra. Wakeman identificou três características sempre presentes nesses mitos: “1) um monstro repressor sujeitando a criação; 2) a derrota do monstro por um deus heróico que liberta as forças vitais para a vida; 3) o domínio final do herói sobre essas forças”7.

Em terceiro lugar, embora seja motivo de aflição para algumas pessoas, existem algumas similaridades consideráveis entre os mitos pagãos da criação e o relato inspirado da Bíblia8. As semelhanças incluem o uso de alguns dos mesmos termos (Leviatã, por exemplo) ou descrições (como monstro marinho), forma literária semelhante9 e uma sequência paralela de eventos na criação10.

Algumas explicações para essas semelhanças são inaceitáveis. Por exemplo, dizem que elas evidenciam o fato de que a cosmogonia bíblica não é diferente de qualquer outro mito antigo da criação. Outros afirmam que, embora existam similaridades, os israelitas “desmistificaram” essas histórias corrompidas para assegurar um relato preciso da origem da terra e do homem11. Alguns estudiosos conservadores simplesmente chamam as correspondências de coincidências, embora isso pareça contornar as dificuldades em vez de explicá-las. A explicação mais plausível é que as similaridades são explicadas pelo fato de que todos os relatos semelhantes da criação tentam explicar os mesmos fenômenos.

Os povos primitivos, por onde andaram, levaram consigo as primeiras tradições da raça humana e, em diferentes latitudes e condições climáticas, eles as modificaram de acordo com sua religião e modo de pensar. Com o tempo, as modificações acabaram resultando na adulteração das tradições originais. O relato de Gênesis não é apenas puro, mas em todos os lugares tem-se a inconfundível sensação da inspiração divina quando o comparamos às extravagâncias e adulterações dos outros relatos. A narrativa bíblica, podemos dizer, representa a forma original de onde essas tradições devem ser provenientes12.

Mais importante que o fato de as nações ao redor de Israel terem seus próprios (e talvez mais antigos) relatos da criação, era o uso ao qual eles se destinavam no antigo Oriente Próximo. As antigas cosmogonias não eram cuidadosamente registradas e preservadas por amor à história antiga; elas eram o fundamento da prática religiosa.

No mundo antigo, as divindades eram deuses da natureza, deuses do sol, deuses da lua, deuses da chuva e assim por diante13. Para assegurar o curso ininterrupto das forças da natureza, e garantir uma colheita abundante e o crescimento dos rebanhos de gado, os mitos da criação eram reencenados todos os anos.

Assim, os mitos no mundo antigo eram imitados e reencenados em festivais públicos, como acompanhamento dos rituais. A estrutura toda compreendia uma imitação mágica, cujo efeito, dizia-se, seria benéfico a toda comunidade. Por meio de rituais aromáticos, os acontecimentos dos primórdios registrados na mitologia eram reativados. Acreditava-se que a encenação dos feitos criativos dos deuses na estação apropriada e a declamação de fórmulas verbais adequadas teriam influência sobre a renovação periódica e a revitalização da natureza, garantindo, assim, a prosperidade da comunidade14.

Por esse cenário, podemos começar a perceber como era vital o papel da cosmogonia no antigo Oriente Próximo. A vida social e religiosa de Israel, assim como a de seus vizinhos, era baseada em suas origens. O relato da criação em Gênesis estabeleceu o fundamento para o restante do Pentateuco.

Sob essa luz podemos ver a importância do contexto entre o Deus de Israel e os “deuses” do Egito. Faraó ousou perguntar a Moisés: “Quem é o Senhor para que eu obedeça à sua voz e deixe ir a Israel?” (Êxodo 5:2).

A resposta do Senhor foi uma série de dez pragas. A mensagem das pragas era que o Deus de Israel é o criador dos céus e da terra.

Porque, naquela noite, passarei pela terra do Egito e ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até os animais; executarei juízo sobre todos os deuses do Egito. Eu sou o Senhor. (Êxodo 12:12, cf. 18:11, Números 33:4)

Parece que cada praga era uma afronta direta a um dos muitos deuses do Egito. Embora uma correlação direta de cada uma com um deus específico seja um tanto especulativa15, a batalha dos deuses é evidente.

Não é de admirar que o sinal da aliança dos israelitas fosse a guarda do sábado:

Tu, pois, falarás aos filhos de Israel e lhes dirás: Certamente, guardareis os meus sábados, pois é sinal entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica... Entre mim e os filhos de Israel é sinal para sempre, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra e, ao sétimo dia, descansou, e tomou alento. (Êxodo 31:13-17)

A observância do sábado identificava Israel com seu Deus, o Criador que descansou de seu trabalho no sétimo dia.

Portanto, os milagres do Êxodo tiveram uma função semelhante à dos sinais e maravilhas realizados por nosso Senhor. Eles autenticaram a mensagem que foi proclamada. No caso de nosso Senhor, foram as palavras ditas por Ele e preservadas pelos escritores inspirados. No caso do Êxodo, os milagres autenticaram a revelação de Deus escrita por Moisés no Pentateuco. O Êxodo provou que Yahweh é o único Deus, o Criador e Redentor. O Pentateuco forneceu o conteúdo para a fé de Israel, da qual o relato da criação é o fundamento.

Gênesis 1:1-3

Existem muitas interpretações para os três primeiros versículos da Bíblia, mas vamos mencionar brevemente apenas as três mais populares defendidas pelos evangélicos. Não vamos gastar muito tempo aqui, pois nossas deduções não serão conclusivas e as diferenças têm pouco valor na aplicação do texto. Vou começar simplesmente dizendo que quem leva o nome de Cristo como Salvador, deve, pela fé, tomar Gênesis 1:1 ao pé da letra (Hebreus 11:3).

1ª Posição: A Teoria da Restituição (do Intervalo ou Lacuna). Esta teoria sustenta que Gênesis 1:1 descreve a criação original da terra, anterior à queda de Satanás (Isaías 14:12-15, Ezequiel. 28:12 e ss). Como consequência da queda de Satanás, a terra perdeu seu estado original de beleza e glória e, em Gênesis 1:2, encontra-se em estado de caos. Esse “intervalo” entre os versículos 1 e 2 não só ajuda a explicar o ensino a respeito da queda de Satanás, como também permite um considerável período de tempo, e, ainda, harmonizar o relato da criação com as modernas teorias científicas. Esta teoria sofre de uma série de dificuldades16.

2ª Posição: A Teoria do Caos Inicial. Em resumo, esta teoria sustenta que o versículo um seria uma declaração introdutória independente. O versículo dois descreveria o estado da criação inicial como sem forma e vazia. Em outras palavras, o universo é como um bloco bruto de granito antes do escultor começar a esculpi-lo. A criação não está em más condições devido a alguma queda catastrófica, está simplesmente em seu estado informe inicial, como uma porção de barro nas mãos do oleiro. Os versículos três e seguintes começam a descrever o trabalho de Deus para esculpir a massa, transformando-a do caos no cosmos. Muitos estudiosos de respeito sustentam esta posição17.

3º Posição: A Teoria do Caos Pré-Criação. Nesta teoria (sustentada pelo Dr. Waltke) o versículo um é entendido como uma oração independente (“Quando Deus começou a criar...”) ou como um enunciado introdutório independente e resumido (“No princípio criou Deus...”). O relato da criação, resumido no versículo um, começa no versículo dois. Essa “criação” não é “ex nihilo” (do nada), mas devido às coisas existentes no versículo dois. De onde vêm essas coisas, não é explicado nesses versículos. Na verdade, essa teoria sustenta que o estado caótico não ocorre entre os versos um e dois, mas antes do verso um numa época não especificada. A origem absoluta da matéria não é, portanto, objeto da “criação” de Gênesis um, mas apenas o princípio relativo do mundo e da civilização como a conhecemos hoje18.

Podemos resumir as diferenças entre os três pontos de vista na figura abaixo19:

Os Seis Dias da Criação (1:1-31)

É importante reconhecer que os versos 2 a 31 nada mais são do que uma expansão do verso um. Eles não explicam totalmente a criação (certamente não do modo científico — quem se importou com isso durante tantos séculos até agora?). Eles também não a comprovam, pois, em última análise, isso é uma questão de fé. Os fatos sobre os quais esta fé deve estar fundamentada são simplesmente declarados.

Parece haver um padrão para os seis dias da criação, como muito estudantes da Bíblia têm observado. Talvez isso seja melhor ilustrado graficamente:

Sem forma passa a ter forma

Vazio para a ser habitado

v. 3-5

1º Dia

Luz

v. 14-19

4º Dia

Luminares (sol, luz, estrelas)

v. 6-8

2º Dia

Ar (espaço superior)

Água (espaço inferior)

v. 20-23

5º Dia

Peixes e Pássaros

v. 9-13

3º Dia

Plantas terrestres

v. 24-31

6º Dia

Animais e Homem

Visto dessa forma, os três primeiros dias cuidam da situação sem forma descrita em Gênesis 1:2. Os dias 4 a 6 tratam do estado de “vácuo” ou “vazio” do versículo 2. Parece haver também uma correlação entre os dias 1 e 4, 2 e 5, e 3 e 6. Por exemplo, o ar e a água recebem a forma de vida correspondente de pássaros e peixes, embora isso não seja tão explícito.

Duas outras observações ainda devem ser feitas. Primeira, existe uma sequência para os seis dias. É evidente que a narrativa está em ordem cronológica, cada dia fundamentado na atividade criativa do dia anterior. Segunda, há um processo envolvido na criação, um processo envolvendo a mudança do caos para o cosmos, da desordem para a ordem.

Embora Deus pudesse ter criado a terra tal como ela é num piscar de olhos, Ele preferiu não fazer assim. A clara impressão dada pelo texto é que o processo levou literalmente seis dias, não longas eras. No entanto, o Deus eterno não está tão preocupado em fazer as coisas de forma instantânea como nós estamos. O processo de santificação é apenas um dos muitos exemplos da atividade progressiva de Deus no mundo.

O Significado da Criação para os Antigos Israelitas

Antes de examinar a questão do que a criação deve significar para nós, precisamos pensar no que ela significou para aqueles primeiros leitores das palavras inspiradas escritas por Moisés. O alvo inicial da narrativa foi os israelitas da época dele. O que deveriam ter aprendido? Como deveriam ter reagido?

(1) O relato da criação de Gênesis foi uma correção à cosmogonia corrompida daquela época. Já dissemos que o Egito, por exemplo, acreditava em múltiplas divindades da natureza. É preciso admitir que Israel, devido à proximidade e ao contato prolongado com os egípcios, não deixou de ser afetado pela sua religiosidade.

Agora, pois, temei ao Senhor e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e servi ao Senhor. (Josué 24:14)

Não bastava considerar Yahweh apenas como um deus, um entre muitos. Ele também não deveria ser concebido somente como o Deus de Israel. Yahweh é o único Deus. Não há outro deus. Ele é o criador dos céus e da terra. Ele não é simplesmente superior aos deuses das outras nações. Só Ele é Deus.

A tendência de confundir Deus com a Sua criação foi parte do pensamento do mundo antigo. Ele deve ser considerado como o Deus da criação, não apenas como Deus na criação. Todos os esforços de imaginar ou humanizar Deus na forma de alguma coisa criada foram tendências para equiparar Deus à Sua criação. Foi assim, creio eu, com o bezerro de ouro de Arão.

(2) O relato da criação descreve o caráter e os atributos de Deus. De forma negativa, Gênesis um corrige muitas concepções populares erradas a respeito de Deus. De forma positiva, ele retrata Seu caráter e Seus atributos.

  • Deus é soberano e todo-poderoso. Diferente das cosmogonias de outros povos antigos, não há nenhum conflito na criação descrita em Gênesis um. Deus não enfrenta forças opostas para criar a terra e o homem. Deus cria com um simples comando: “Haja...”. Há ordem e progresso. Deus não faz experiências, mas prontamente executa Seu projeto da criação.
  • Deus não é simples energia, Ele é uma Pessoa. Embora devamos demonstrar reverência diante da transcendência de Deus, também precisamos demonstrar diante da Sua imanência. Ele não é uma energia cósmica distante, Ele é um Deus pessoal sempre presente. Isso é refletido no fato de Ele ter criado o homem à sua própria imagem (1:26-28). O homem é um reflexo de Deus. Nossa personalidade é simplesmente uma sombra da personalidade de Deus. No capítulo dois, Deus deu a Adão uma tarefa importante e uma companheira como auxiliadora. No terceiro capítulo, aprendemos que Deus mantinha comunhão diária com o homem no jardim (cf. 3:8).
  • Deus é eterno. Apesar das outras histórias da criação serem vagas ou errôneas a respeito da origem de seus deuses, o Deus de Gênesis é eterno. O relato da criação descreve Sua atividade no princípio dos tempos (do ponto de vista humano).
  • Deus é bom. A criação não teve lugar num vácuo moral. A moralidade fazia parte da estrutura da criação. Diversas vezes encontramos a expressão “e era bom”. Bom implica não somente em funcionalidade e perfeição, mas em valores morais. Aqueles que defendem opiniões ateístas sobre a origem da terra não veem outro sistema de valores além daquele defendido pela maioria das pessoas. A bondade de Deus é refletida na Sua criação, a qual, em seu estado original, era boa. Ainda hoje, a graça e a bondade de Deus são evidentes (cf. Mateus 5:45; Atos 17:22-31).

O significado da Criação Para Todos os Homens

O tema de Deus como Criador é relevante ao longo de toda a Escritura. É significativo que as últimas palavras da Bíblia sejam notadamente semelhantes às primeiras.

Então me mostrou o rio da água da vida, brilhante como cristal, que sai do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua praça, de uma e outro margem do rio, está a árvore da vida, que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em mês, e as folhas da árvore são par a cura dos povos. Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus servos o servirão, contemplarão a sua face, e na sua fronte está o nome dele. Então, já não haverá noite, nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles e reinarão pelos séculos dos séculos. (Apocalipse 22:1-5)

O fato de Deus ser o Criador dos céus e da terra não é algo só para ser aceito, mas ao qual também devemos reagir. Deixe-me mencionar apenas algumas implicações e aplicações do ensinamento de Gênesis um.

(1) Os homens devem se submeter ao Deus da criação com temor e obediência. Os céus proclamam a glória de Deus:

Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. (Salmo 19:1-2)

Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. (Romanos 1:20-21)

Os homens devem temer ao todo-poderoso Deus da criação:

Os céus por sua palavra se fizeram e, pelo sopro de sua boca, o exército deles. Ele ajunta em montão as águas do mar; e em reservatório encerra as grandes vagas. Tema ao Senhor toda a terra, temam-nos todos os habitantes do mundo. Pois ele falou e tudo se fez, ele ordenou e tudo passou a existir. (Salmo 33:6-9)

A grandeza de Deus é evidente nas obras das Suas mãos — a criação que está ao nosso redor. Os homens devem temê-lO e reverenciá-lO por Quem Ele é.

Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Senhor, Deus meu, como tu és magnificente, sobrevestido de glória e majestade, coberto de luz como de um manto. Tu estendes o céu como uma cortina, pões nas águas o vigamento da tua morada, tomas as nuvens por teu carro, e voas nas asas do vento. Fazes a teus anjos ventos e a teus ministros, labaredas de fogo. Lançaste os fundamentos da terra, para que ela não vacile em tempo nenhum. Tomaste o abismo por vestuário e a cobriste; as águas ficaram acima das montanhas; à tua repreensão, fugiram, à voz do teu trovão, bateram em retirada. Elevaram-se os montes, desceram os vales, até ao lugar que lhes havias preparado. Puseste às águas divisa , que não ultrapassarão, para que não tornem a cobrir a terra. (Salmo 104:1-9)

(2) Os homens devem confiar no Deus da criação para suprir cada uma das suas necessidades.

Após voltar Abrão de ferir a Quedorlaomer e aos reis que estavam com ele, saiu-lhe ao encontro o rei de Sodoma no vale de Savé, que é o vale do rei. Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do Deus Altíssimo: abençoou ele a Abrão, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo; que possui os céus e a terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos. E de tudo lhe deu Abrão o dízimo. Então disse o rei de Sodoma a Abrão: dá-me as pessoas, e os bens fiquem contigo. Mas Abrão lhe respondeu: Levanto minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, que possui o céu e a terra, e juro que nada tomarei de tudo o que te pertence, nem um fio, nem uma correia de sandália, para que não digas: Eu enriqueci a Abrão; nada quero para mim, senão o que os rapazes comeram, e a parte que toca aos homens Aner, Escol e Manre, que foram comigo; estes que tomem o seu quinhão. (Gênesis 14:17-24)

Abrão deu o dízimo a Melquisedeque com base na declaração feita por este de que o Deus de Abrão era “o Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra” (v. 19, 20). E, ao dar o dízimo a Melquisedeque, Abrão se recusou a receber qualquer benefício financeiro por parte do rei pagão de Sodoma, pois ele queria que aquele homem soubesse que “o Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra” foi Quem o tornou bem-sucedido.

Há uma canção que diz: “Ele é o dono do gado em milhares de montes... Eu sei que Ele vai cuidar de mim”. Essa é uma boa teologia. O Deus que é o nosso Criador é também o nosso Sustentador. Veja, Deus não criou o universo e o abandonou à própria sorte, como alguns parecem dizer. Deus mantém um cuidado contínuo sobre a Sua criação.

Fazes crescer a relva para os animais, e as plantas para o serviço do homem, de sorte que da terra tire o seu pão; o vinho, que alegra o coração do homem, o azeite que lhe dá brilho ao rosto, e o pão que lhe sustém as forças. Avigoram-se as aves do Senhor, e os cedros do Líbano que ele plantou, em que as aves fazem seus ninhos; quanto à cegonha, a sua casa é nos ciprestes. Os altos montes são das cabras montesinhas, e as rochas o refúgio dos arganazes. Fez a lua para marcar o tempo; o sol conhece a hora do seu ocaso. Dispões as trevas, e vem a noite, na qual vagueiam os animais da selva. Os leõezinhos rugem pela presa, e buscam de Deus o sustento; em vindo o sol, eles se recolhem e se acomodam nos seus covis. Sai o homem para o seu trabalho, e para o seu encargo até a tarde. (Salmo 104:14-23)

O Novo Testamento vai mais além, dizendo que o Filho de Deus foi o Criador e continua a servir como o Sustentador da criação, mantendo juntas todas as coisas:

Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste. (Colossenses 1:16-17)

(3) Os homens devem se humilhar diante da sabedoria de Deus exibida na criação. Jó passou por muitas aflições. Mas, no final, o suficiente foi suficiente. Na sua adversidade, ele começou a questionar a sabedoria de Deus. Ao seu questionamento, Deus respondeu:

Depois disto o Senhor, do meio de um redemoinho, respondeu a Jó: Quem é este que escurece os meus desígnios com palavras sem conhecimento? Cinge, pois, os teus lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me farás saber. Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento. Quem lhe pôs as medidas, se é que o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel? Sobre que estão fundadas as tuas bases, ou quem lhe assentou a pedra angular, quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus? (Jó 38:1-7)

Jó foi desafiado a sondar a sabedoria de Deus na criação. Ele não podia explicá-la ou compreendê-la, muito menos contestá-la. Como, então, ele podia questionar a sabedoria da obra de Deus em sua vida? É verdade que ele não podia entender o propósito de tudo aquilo, mas sua perspectiva não era a de Deus. Se alguém quiser questionar a ação de Deus em sua vida, que contemple a infinita sabedoria demonstrada na criação e, assim, permaneça em silêncio e espere em Deus para fazer o que é certo.

Quando quiser refletir sobre alguma coisa, tente entender a razão pela qual um Deus infinito Se preocupa tanto com um mero mortal:

Quanto contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus, e de glória e de honra o coroaste. (Salmo 8:3-5)

(4) O homem deve encontrar consolo em tempos de aflição e perigo, sabendo que o Criador pode e quer livrá-lo.

Por isso também os que sofrem segundo a vontade de Deus encomendem as suas almas ao fiel Criador, na prática do bem. (1 Pedro 4:19)

Por que, pois, dizes, ó Jacó, e falas, ó Israel: O meu caminho está encoberto ao Senhor, e o meu direito passa despercebido ao meu Deus? Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos fins da terra, nem se cansa nem se fatiga? Não se pode esquadrinhar o seu entendimento. Faz forte ao cansado, e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e se fatigam, e os moços de exaustos caem, mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam. (Isaías 40:27-31)

Assim Deus, o Senhor, que criou os céus e os estendeu, formou a terra, e a tudo quanto produz; que dá fôlego de vida ao povo que nela está, e o espírito aos que andam nela. Eu, o Senhor, te chamei em justiça, tomar-te-ei pela mão, e te guardarei, e te farei mediador da aliança com o povo, e luz para os gentios. (Isaías 42:5-6)

Eu sou o Senhor, e não há outro; além de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que não me conheces. Para que se saiba até ao nascente do sol e até ao poente, que além de mim não há outro; eu sou o Senhor, e não há outro. Eu formo a luz, e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu o Senhor, faço todas estas cousas. (Isaías 45:5-7)

(5) O homem deve responder ao Deus da criação com o louvor que Lhe é devido:

A glória do Senhor seja para sempre! Exulte o Senhor por suas obras! Com só olhar para a terra ele a faz tremer; toca as montanhas, e elas fumegam. Cantarei ao Senhor enquanto eu viver; cantarei louvores ao meu Deus durante a minha vida. Seja-lhe agradável a minha meditação; eu me alegrarei no Senhor. Desapareçam da terra os pecadores, e já não subsistam os perversos. Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Aleluia! (Salmo 104:31-35)

Aleluia! Louvai ao Senhor do alto dos céus, louvai-o nas alturas. Louvai-o todos os seus anjos; louvai-o todas as suas legiões celestes. Louvai-o, sol e lua; louvai-o todas as estrelas luzentes. Louvai-o, céus dos céus, e as águas que estão acima do firmamento. Louvem o nome do Senhor, pois mandou ele e foram criados. E os estabeleceu para todo o sempre: fixou-lhes uma ordem que não passará. (Salmo 148:1-6)

Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do Senhor que nos criou. (Salmo 95:6)

Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome! Pois expuseste nos céus a tua majestade. (Salmo 8:1)

Conclusão

Amigo, o ensino do primeiro capítulo de Gênesis é uma verdade grande e poderosa. É algo que exige mais do que simples aceitação; ele requer uma atitude. E mesmo sendo tão importante, ele é ofuscado pela vinda de Jesus Cristo. Da mesma forma que Deus proclamou “haja luz”, nos últimos tempos Ele tem falado, de uma vez por todas, por meio de Seu Filho (Hebreus 1:1-2), O qual é a luz:

Porque Deus que disse: De trevas resplandecerá luz – ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo. (2 Coríntios 4:6)

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez. A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. (João 1:1-5)

A saber: a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem. Estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. (João1:9-13)

Embora Deus tenha Se revelado palidamente na criação, em Seu Filho Ele Se manifestou plenamente:

Ninguém jamais viu a Deus: o Deus unigênito, que está no sei do Pai, é quem o revelou. (João 1:18)

Não podemos fugir à revelação bíblica de que o Deus que criou os céus e a terra, o Deus que libertou os israelitas do Egito, é o Deus-Homem da Galileia, Jesus Cristo. Assim como Ele fez a primeira criação (Colossenses 1:16), agora ele faz uma nova criação por meio da Sua obra na cruz do Calvário:

E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. (2 Coríntios 5:17)

Além disso, logo virá o dia em que os céus e a terra serão purificados dos efeitos do pecado e haverá um novo céu e uma nova terra:

Virá, entretanto, como ladrão, o dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas. Visto que todas estas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do dia de Deus, por causa do qual os céus incendiados serão desfeitos e os elementos abrasados se derreterão. Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça. (2 Pedro 3:10-13)

Você está preparado para esse dia, meu amigo? Já se tornou uma nova criatura em Cristo? Gênesis um mostra como Deus tomou o caos e o transformou no cosmos — belo e ordenado. Se você ainda não crê em Cristo, posso lhe dizer com toda certeza que sua vida é sem forma e vazia, é caótica e sem vida. O mesmo Deus que transformou o caos em cosmos pode fazer da sua vida uma nova vida.

Tradução e Revisão: Mariza Regina de Souza


1 “Pot Proof”, Christianity Today, 22 de setembro de 1978, p. 43.

2 “Evangelicalisms Six Flaws”, Eternity, Janeiro, 1980, p. 54. Este artigo da equipe da Revista Eternity é um resumo do artigo de Robert E. Webber publicado em outubro na New Oxford Review.

3 O Dr. Bruce Waltke de forma sucinta esse  tríplice ataque:

Primeiro, veio a contestação da comunidade científica. Na esteira da revolucionária teoria da evolução de Charles Darwin para explicar a origem das espécies, a maior parte da comunidade científica seguiu a hipótese de Darwin contra a Bíblia. Eles acreditavam que poderiam validar a teoria de Darwin por meio de dados empíricos, mas acharam que não poderiam fazer o mesmo em relação à Bíblia.

A segunda contestação veio dos religiosos comparativos que procuraram desacreditar a história bíblica apontando várias semelhanças entre ela e os antigos relatos mitológicos da criação, provenientes de várias partes do Oriente Próximo, estudados naquela época... De acordo com sua opinião (Gunkel), a versão hebraica da criação foi apenas uma outra lenda folclórica do Oriente Próximo, que aqueles que transmitiam a  história, com o passar do tempo, aperfeiçoaram com sua criatividade e visão filosófica e teológica.

A terceira contestação veio do criticismo literário. O caso mais expressivo foi o de Julius Wellhausen em seu clássico mais influente, ainda disponível em brochura nas livrarias, intitulado Pro Legomena to the Old Testament. No livro ele argumenta que haviam, pelo menos, dois relatos distintos da criação em Gênesis 1 e 2 e que os dois se contradiziam em vários pontos. Bruce Waltke, Creation and Chaos (Portland, Oregon: Western Conservative Baptist Seminary, 1974), p. 1-2.

4 Benjamin B. Warfield, Selected Shorter Writings of Benjamin B. Warfield, Vol. I, editado por John E. Meeker (Nutley, N.J. Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1970), p. 108.

5 Devo enfatizar que deveríamos levar com seriedade a instrução de Pedro “... estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós...” (1 Pe. 3:15). Mesmo aqui, no que pode ser chamado de exortação a uma prontidão apologética, a mensagem mais necessária ao não crente é a do evangelho da salvação pela fé em Cristo. Pela minha experiência, poucas pessoas são salvas com o uso apologético do relato da criação de Gênesis. Para quem leva com seriedade o chamado de Cristo, mas receia que a Bíblia não seja digna de confiança, tais esforços podem ser úteis.

6 “Primeiro, podemos dizer que o livro de Gênesis não nos informa, em relação às origens, o que é contrário à natureza de Deus, nem no cosmos, nem no mundo espiritual. Onde tem origem o que se opõe Àquele que é bom e cheio de esplendor? Quando nos deparamos com o problema da origem do mal no reino moral, nós nos deparamos com um grande mistério. De repente e sem explicação, em Gênesis 3 aparece no Jardim do Éden um personagem totalmente maligno, brilhante e inteligente, dissimulado numa serpente. O princípio das origens, tão forte em nossas mentes, exige uma explicação. Mas a verdade é que o Livro nos frustra. Igualmente, quando chegamos ao que é negativo nos cosmos, algo escuro e sem forma, a Bíblia não nos dá nenhuma informação. Eis algumas das coisas ocultas que pertencem a Deus.” (Waltke, Creation and Chaos, p. 52). Embora eu não concorde com a escolha das palavras do Dr. Waltke (“o livro nos frustra”), concordo com sua posição de que Gênesis não nos diz aquilo que queremos aprender.

7 Wakeman, como citado por Waltke, Creation and Chaos , p. 6

8 Waltke mostra as semelhanças entre a cosmogonia bíblica e os mitos da criação do antigo Oriente Próximo:

Primeiro, pela comparação do Salmo 74:13-14 com o Texto Ugarítico 67:I: 1-3 (Waltke, p. 12). Salmo 74:13-14 “Tu, com o teu poder, dividiste o mar; esmagaste sobre as águas a cabeça dos monstros marinhos. Tu espedaçaste a cabeça do crocodilo e o deste por alimento às alimárias do deserto.” Texto 67: I . 1-3, 27-30: “Quando esmagaste Lotan (Leviathan) o diabólico dragão, também destruíste o dragão disforme, o poderoso de 7 cabeças...”

Segundo, pela comparação de Isaías 27:1 com o Texto Ugarítico ‘nt:III: 38-39 (Waltke, p. 13): Isaías 27:1 “Naquele dia, o Senhor castigará com a sua dura espada, grande e forte, o dragão, serpente veloz, e o dragão, serpente sinuosa, e matará o monstro que está no mar.” Texto ‘ni:III: 38-39: “O dragão disforme, o poderoso de 7 cabeças.”

9 Cf. Waltke, Creation and Chaos, p. 33,35. Realmente, a semelhança na forma entre o texto bíblico do Pentateuco e os textos antigos do Oriente Próximo acaba sendo uma bênção para aqueles que sustentam a autoria (Mosaica) unificada:

“Kitchen comparou o Pentateuco com os antigos textos do Oriente Próximo e descobriu que os mesmos traços usados pelos críticos como uma varinha de condão para dividir o Pentateuco estavam presentes nesses textos, escritos na rocha sem nenhuma pré-história.” Waltke, pp. 41-42.

10 Ibid, p. 45.

11 “A explicação mais comum dos estudiosos que consideram o mundo como um sistema fechado, sem intervenção divina, é a de que Israel apropriou-se dessas mitologias, desmistificou-as, purificou-as de seu politeísmo ordinário e grosseiro, e gradualmente adaptou-as à sua própria teologia melhor desenvolvida.” Ibid., p. 46.

12 Merrill F. Unger, Archaeology and the Old Testament, p. 37, citado por Waltke, p. 46.

13 “Em Canaã, na época da conquista, cada cidade tinha seu próprio templo dedicado a alguma força da natureza. O nome Jericó deriva da palavra hebraica yerah, que significa “lua”, por seus habitantes adorarem a lua, o deus “Yerach”. Igualmente, no outro lado da cadeia central de montanhas da Palestina, encontramos a cidade de Bete-Semes, que significa “Templo do Sol”, pois Shamash, o deus sol, era adorado lá.” Waltke, p. 47.

14 Sarna, Understanding Genesis, p. 7, como citado por Waltke, p. 47.

15 “O conhecimento existente a respeito das práticas diárias de adoração dos deuses egípcios é muito pequeno; e, apesar dos propósitos e intenções, pouco ou nada é conhecido de fontes documentadas de seus assuntos metafísicos. É óbvio, no entanto, que as 22 províncias egípcias tinham, cada uma, seus respectivos centros religiosos e tótens de animais ou de plantas. É precisamente os atributos dessas deidades que estão envolvidos nas pragas; mas, se cada praga foi idealizada para atingir a área específica de um ou outro dos deuses egípcios, não se pode estabelecer com certeza.” W. White, Jr. “The Plagues of Egypt, The Zondervan Pic­torial Encyclopedia of the Bible (Grand Rapids: Zondervan, 1975, 1976), IV, p. 806.

16 Cf. Waltke, pp. 21-25.

17 Por exemplo, E. J. Young, In the Beginning (Carlisle; Pennsylvania: Banner of Truth Trust, 1976), p. 20 e ss.

18 “Mas o que diremos sobre o estado informe e não criado, as trevas e o abismo de Gênesis 1:2? Aqui chegamos a um grande mistério, pois a Bíblia nunca disse que Deus os trouxe à existência pela Sua Palavra. O que podemos dizer sobre eles?” Bruce Waltke, p. 52.

19 Adaptado de Waltke, p. 18.

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