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26. De “jogando dos dois lados” para “num beco sem saída” (I Samuel 29:1-30:6)

Introdução

Tenho uma porção de jovens amigos de quem gosto muito. Recentemente, um deles fez uma visita ao meu gabinete enquanto eu terminava de imprimir o sermão do domingo anterior. Meu amiguinho de 9 anos de idade, Luke, perambulou pelo gabinete para ver o que eu fazia. “O que é isso na tela”, perguntou. “Esse é o meu sermão da semana passada”, respondi. “Meio longo, né?”, disse ele. “Bem, talvez seja”, respondi. Enquanto continuava a trabalhar em minha mensagem e passava para a página 10, Luke conversava e observava com um interesse despreocupado. “Espera aí, tio Bob!”, disse ele, “acho que vi alguma coisa. Poderia voltar um pouquinho - só um pouquinho?” Explorando meu monitor, Luke apontou para uma frase em meu sermão onde eu escrevera: “Saul comandante de mil, esperando que Davi fosse morto”. “É isso mesmo que o senhor queria dizer?”, perguntou. “Não”, admiti, um tanto embaraçado e completamente espantado. Arrumei a frase para a satisfação de Luke, e minha também, mudando-a para “Saul designou a Davi comandante de mil, esperando que ele fosse morto.” Enquanto Luke perdia o interesse e saía de meu gabinete, perguntei a mim mesmo “Com é que ele fez isso?”.

Às vezes recebemos ajuda de lugares inesperados. Com toda a certeza, esse é o caso de Davi em I Samuel 29. Ele consegue se meter numa verdadeira enrascada. Depois de ser liberto das mãos de Saul em diversas ocasiões, ele se cansa de viver como fugitivo. Num momento de desespero, ele acha que sua única esperança é fugir de Saul para o território dos filisteus. Davi está convencido de que, quando Saul souber onde ele está, desistirá de sua perseguição. Ele e seus 600 homens, acompanhados por suas esposas e filhos, encontram refúgio em território filisteu. Davi persuade Aquis, o rei filisteu, a permitir que eles deixem Gate e se estabeleçam em Ziclague, uma cidade bem distante dali. De sua base de operações, Davi faz uma série de ataques contra os inimigos de Israel. Em todos os casos, ele engana Aquis dizendo-lhe que acabou de invadir alguma das vilas de Israel ou alguma cidade das vizinhanças. Para garantir que ninguém informe Aquis sobre o que realmente aconteceu, ele cuidadosamente elimina todas as pessoas, não deixando nenhum sobrevivente. Davi parece dividir alguns despojos de guerra com Aquis (ver 27:9), enquanto também leva uma parte (pelo menos em uma ocasião) a seus irmãos israelitas (ver 30:26-31), as mesmas pessoas que Aquis pensa que ele esteja matando. Em resumo, Davi está jogando dos dois lados.

Davi parece estar escapando impune em sua farsa. De repente as coisas tomam um rumo inesperado, e agora parece que ele está num beco sem saída. O rei Aquis o informa que os comandantes filisteus estão unindo suas forças para fazer um ataque maciço contra Israel. Ele, então, diz a Davi que ele e seus 600 homens vão ter a honra de lutar por ele e com ele. Davi enerva o leitor de I Samuel 28 garantindo a Aquis que lutará valentemente pelos filisteus. Ele promete mostrar a Aquis toda a sua habilidade quando for para a batalha com ele. Aquis reage à assertiva de Davi oferecendo-lhe o que acredita ser uma grande recompensa por seus fiéis serviços - um emprego vitalício como seu guarda-costas pessoal. Quem sequer teria imaginado que Davi, que uma vez serviu como escudeiro de Saul, seria agora designado como guarda-costas de um rei filisteu?

A esta altura dos acontecimentos o autor nos deixa completamente aturdidos, enquanto volta nossa atenção para o rei Saul e a narrativa de sua visita à médium de En-dor. No capítulo 29, encontramos um Saul em pânico e aterrorizado. Ele não consegue mais ter a atenção de Deus, nem receber Suas instruções para livrá-lo e a seu exército de uma derrota certa às mãos dos filisteus. Em absoluto desespero, Saul busca conselho com uma médium que vive em En-dor. Quando fica sabendo que Deus não virá salvá-lo, mas vai entregá-lo, e a seus soldados, aos filisteus, ele perde a força e a coragem. Literalmente ele fica paralisado de medo. Finalmente, depois de ser persuadido a comer, ele recobra força suficiente para partir noite adentro e voltar para seus homens e para a batalha. Agora ele sabe como essa batalha terminará.

Durante toda esta angustiante experiência de Saul em En-dor, nossos pensamentos toda hora se voltavam para Davi, que se meteu numa situação das mais perigosas. Até parece um “ardil 22” (filme sobre pilotos da II Guerra que fazem de tudo para voltar prá casa), sem saída para ele e seus homens. Se Davi realmente lutar ao lado de Aquis, junto com os soldados filisteus, estará lutando contra seu próprio povo (os israelitas), seu rei (Saul), e seu querido amigo, Jônatas. Se ele não lutar ao lado dos filisteus, é quase certo que terá que se voltar contra eles na batalha. Isto também traz problemas quase insuperáveis. A intenção de Deus é entregar os israelitas aos filisteus e tirar a vida de Saul e de seus filhos na batalha. Se Davi lutar contra os filisteus, estará lutando (como se estivesse) contra os propósitos de Deus. O que ele deve fazer? Passar para o lado dos filisteus pareceu-lhe um movimento brilhante na primeira parte do capítulo 27. Ele conseguiu ficar a salvo, fora do alcance de Saul, e foi bem sucedido em agradar tanto aos filisteus quanto aos israelitas. Mas agora, de uma hora para outra, ele está num beco sem saída, sem nenhuma solução aparente. É neste exato momento que vem auxílio de uma fonte das mais improváveis - dos príncipes filisteus.

Observações Preliminares

Antes de tentarmos acompanhar os acontecimentos da história que nosso autor tão habilmente nos conta, vamos tomar nota de algumas coisas que poderão nos ajudar a entender melhor o texto.

Primeiro, repare que não é dito por que Davi faz o que faz. Por inspiração divina, nosso autor é perfeitamente capaz de nos dizer quais são os motivos e as intenções de Davi. Por exemplo, anteriormente em I Samuel é dito que Saul promove Davi à liderança e lhe oferece suas filhas em casamento. A razão talvez não seja evidente àqueles à volta de Saul, mas o autor de I Samuel informa a seus leitores os motivos e intenções dele: ele está com ciúmes e se sente ameaçado por Davi e pretende matá-lo, ficando, portanto, livre dele como rival ao trono. No capítulo 27 é dito o porquê de Davi fugir para Aquis, procurando se refugiar de Saul: ele está com medo e não crê que haja alguma outra forma de se salvar, a não ser buscando asilo na Filistia. Agora, na hora em que gostaríamos muito de saber o que ele planeja fazer e por que, nada é dito.

Uma coisa sabemos com certeza: o autor retém esta informação de propósito. Ele não deseja que saibamos o que Davi pretende fazer por várias razões: (1) O autor parece querer que adivinhemos o que Davi está pensando, o que aumenta o clima de mistério e suspense. Um bom escritor prende nossa atenção tanto pelo que retém quanto pelo que revela. (2) O autor não está tentando dizer que Davi é um santo, mas retratá-lo como um “homem sujeito às mesmas paixões, que tem dúvidas, medos, e que comete erros, tal como eu e você. (3) Se fosse dito o que Davi pretendia fazer e por que, facilmente concordaríamos com ele. Poderíamos desculpá-lo.

Vivemos numa época em que os princípios circunstanciais são muito comuns. Estes princípios não julgam uma atitude como sendo errada - dizer imoralidades, por exemplo - mas procuram distinguir o “que é certo” e o “que é errado” com base nos motivos. Se um homem cometer adultério, mas for por “amor” ou por se “importar” com a outra pessoa, então sua atitude não é errada. Embora haja um certo elemento de verdade nisto, algumas coisas simplesmente são erradas, e nossa motivação e atitude ao fazê-las não as tornarão certas. O autor não parece querer que “entendamos” porque Davi agiu como agiu, mas que soframos porque ele agiu dessa forma.

Segundo, nestes capítulos o autor deixa de lado a ordem estritamente cronológica. No capítulo 28, encontramos os israelitas acampados em Gilboa, enquanto os filisteus estão em Suném (28:4). Isto é ao norte e totalmente fora da verdadeira batalha entre os dois exércitos (31:1). Mas, no capítulo 29, os filisteus estão reunidos em Afeca, enquanto os israelitas estão em Jezreel. Isto é bem ao sul do lugar descrito no capítulo 28, o que significa que os acontecimentos do capítulo 29 precedem aqueles do capítulo 28. O autor propositadamente trocou a seqüência cronológica dos acontecimentos por uma seqüência mais temática. Ele está mais interessado em mostrar seu ponto de vista do que de nos dar uma ordem cronológica. Parece que a intenção do autor é revezar entre Saul e Davi com o propósito de estar sempre comparando estes dois homens.

Terceiro, o autor não prova seu ponto de vista dando muitas explicações, ou mesmo dando abertamente o crédito a Deus pelo que está acontecendo. Isto estragaria a trama da história e o propósito pelo qual ele a está contando desta forma. Há poucas “palavras de Deus” nesta passagem, e aquilo que “Deus fala” encontramos vindo de um rei pagão, não de Davi. Creio que o autor não queira insultar seus leitores dizendo-lhes o que devem pensar em cada momento da história. Ele espera que a leiamos como história sagrada, com a estrutura teológica estabelecida na lei de Moisés. Ele quer que o leitor pense por si mesmo e tire conclusões bíblicas.

Quarto, ainda que Davi seja o personagem principal - a estrela - da história, ele não é o orador principal. Davi fala pouco neste texto. Aquis e os príncipes filisteus têm a maioria das falas.

Uma Mosquinha na Tenda dos Filisteus
(29:1-5)

“Ajuntaram os filisteus todos os seus exércitos em Afeca, e acamparam-se os israelitas junto à fonte que está em Jezreel. Os príncipes dos filisteus se foram para lá com centenas e com milhares; e Davi e seus homens iam com Aquis, na retaguarda. Disseram, então, os príncipes dos filisteus: Estes hebreus, que fazem aqui? Respondeu Aquis aos príncipes dos filisteus: Não é este Davi, o servo de Saul, rei de Israel, que esteve comigo há muitos dias ou anos? E coisa nenhuma achei contra ele desde o dia em que, tendo desertado, passou para mim, até ao dia de hoje. Porém os príncipes dos filisteus muito se indignaram contra ele; e lhe disseram: Faze voltar este homem, para que torne ao lugar que lhe designaste e não desça conosco à batalha, para que não se faça nosso adversário no combate; pois de que outro modo se reconciliaria como o seu senhor? Não seria, porventura, com as cabeças destes homens? Não é este aquele Davi, de quem uns aos outros respondiam nas danças, dizendo: Saul feriu os seus milhares, porém Davi, os seus dez milhares?”

Os filisteus escolheram Afeca como base para o agrupamento de seus exércitos na preparação para o ataque a Israel. Aqui, cada um dos cinco príncipes filisteus (ver capítulos 5 e 6) chegam com os homens a seu comando. (Parece também que cada um deles é o rei de uma das cinco principais cidades filistéias. Aquis é o rei de Gate, e assim comandante das tropas de sua área). As tropas são passadas em revista (por seus comandantes), por centenas e milhares. Quatro dos cinco comandantes ficam chocados e furiosos pelo que vêem.

Às vezes as pessoas dizem: “Gostaria de ter sido ’uma mosquinha’ para ouvir o que se passou quando...” Elas querem dizer que gostariam muito de ter estado presentes para ouvir ou ver o que aconteceu em certo lugar e em certa época. Por inspiração divina, é permitido que nos tornemos uma “mosquinha” virtual na tenda dos filisteus – a tenda onde os cinco comandantes mantêm uma calorosa discussão.

A “retaguarda” do exército filisteu não é outra senão Davi e seus homens. Levou algum tempo (e um certo empurrãozinho) para que eu compreendesse o significado disto, uma vez que não tenho nenhuma experiência militar. Você se recorda de que Aquis “honrou” Davi tornando-o seu guarda-costas pessoal. Entendo que, das cinco divisões de soldados que passaram por ali naquele dia, a quinta divisão é a que é liderada por Aquis. Davi está na retaguarda de todo o exército. Esta é uma posição crucial, pois sempre que for possível, o exército inimigo tentará flanquear o inimigo e depois atacá-lo pelas costas, assim como pela frente. Aqueles que ficam na retaguarda são os melhores, mais valentes e mais hábeis guerreiros. Esta honra é dada a Davi e seus homens.

Aquilo que Aquis considera uma “honra” é visto como um “horror” pelos outros príncipes filisteus. Apesar de não ser dito o que Davi está pensando ou planejando, é permitido que ouçamos a discussão entre Aquis e seus quatro colegas em comando durante esta reunião da alta cúpula militar. Os outros comandantes ficam lívidos. Eles mal conseguem imaginar como Aquis poderia ser tão ingênuo a ponto de levar Davi para a batalha com eles, e ainda colocá-lo na posição mais estratégica. Eles não estão nenhum pouco contentes com a situação e, sem perder tempo, intimam Aquis a dar satisfação de sua estupidez. Mas o que é que Davi e seus 600 guerreiros (hebreus) estão fazendo no exército filisteu?

Aquis vê exatamente o oposto dos outros comandantes. Ele considera Davi um trunfo, justamente por ele ser quem é. Davi é um desertor, um homem que é fiel a ele ao invés de Saul. Quem é que não percebe o valor de ter um dos homens mais confiáveis de Saul como aliado, depois que ficou evidente que ele realmente mudou de lado? Agora Davi é um deles. Não há possibilidade de ele voltar a Israel. Ele garante que não há absolutamente nada com que se preocupar. Durante todo o tempo, desde que Davi desertou de Saul, Aquis não achou nele nenhuma culpa. “Confiem em mim, camaradas, Davi é um dos nossos, e ele pode fazer muitas coisas boas para nós”. Os quatro comandantes não ficam nenhum pouco impressionados com a confiança de Aquis ou com suas garantias. De qualquer forma, a resposta de Aquis os deixa ainda mais furiosos. Como é que este homem pode ser enganado desse jeito por Davi? Como pode ser tão estúpido? Como não percebe o que Davi realmente é capaz de fazer? Davi é hebreu. É um hebreu no exílio. Fará qualquer coisa para ganhar o favor do rei Saul. Que melhor forma de fazer isto do que fingir lealdade aos filisteus, e depois se voltar contra eles no calor da batalha? Será que Aquis já se esqueceu da genialidade e da força militar de Davi, e de sua popularidade entre seu próprio povo? Que ele ouça mais uma vez a canção: “Saul feriu os seus milhares, porém Davi, os seus dez milhares.”

Os outros comandantes não dão nenhuma opção a Aquis. Eles lhe dizem para mandar Davi de volta prá casa - para Ziclague. Ele não vai mais se juntar a eles na batalha, ou para ser mais preciso, eles não vão mais se juntar a ele. Se Aquis quiser continuar oferecendo asilo a Davi em Ziclague, tudo bem. Esse lugar é tão remoto que Davi pode até causar alguns estragos por lá. Que seja mandado de volta a Ziclague, mas que não vá para a guerra com o exército filisteu. E ponto final.

Aquis se desculpa com Davi e o Manda de Volta prá Casa
(29:6-11)

Então, Aquis chamou a Davi e lhe disse: Tão certo como vive o SENHOR, tu és reto, e me parece bem que tomes parte comigo nesta campanha; porque nenhum mal tenho achado em ti, desde o dia em que passaste para mim até ao dia de hoje; porém aos príncipes não agradas. Volta, pois, agora, e volta em paz, para que não desagrades aos príncipes dos filisteus. Então, Davi disse a Aquis: Porém que fiz eu? Ou que achaste no teu servo, desde o dia em que entrei para o teu serviço até hoje, para que não vá pelejar contra os inimigos do rei, meu senhor? Respondeu, porém, Aquis e disse a Davi: Bem o sei; e que, na verdade, aos meus olhos és bom como um anjo de Deus; porém os príncipes dos filisteus disseram: Não suba este conosco à batalha. Levanta-te, pois, amanhã de madrugada com os teus servos, que vieram contigo; e, levantando-vos, logo que haja luz, parti. Então, Davi de madrugada se levantou, ele e os seus homens, para partirem e voltarem à terra dos filisteus. Os filisteus, porém, subiram a Jezreel.”

Aquis agora tem a desagradável tarefa de “desapontar” Davi e lhe dizer que ele deve ir prá casa. Ele o faz usando uma linguagem que não se encaixa num verdadeiro pagão: “Tão certo como vive o SENHOR...” (29:6). Este não é o termo pagão para “deuses”, mas o termo hebraico Yaweh, para o único Deus verdadeiro, o Deus de Israel. Depois, no verso 9, este rei filisteu diz a Davi que ele é “como um anjo de Deus”. Realmente estas palavras são estranhas. Não é Davi quem está falando “palavras de Deus”, mas Aquis. Pode ser que ele esteja escolhendo cuidadosamente as palavras para se adequar à fé de Davi. Pode ser que a fé de Davi esteja fazendo efeito em Aquis.

É quase engraçado ler as coisas boas que Aquis diz sobre Davi. São tão lisonjeiras, e tão iludidas. Aquis lhe diz que ele tem sido agradável a seus olhos, que desde o primeiro dia em que chegou, não fez nada de errado contra ele. Será que Aquis se sentiria desse jeito e diria as mesmas coisas se soubesse o que Davi realmente estava fazendo, a quem ele estava saqueando e matando, e que seus relatórios eram falsos? Acho que não! Mas Aquis tem mais coisas boas a dizer sobre Davi. Ele lhe diz que ele é “como um anjo de Deus” a seus olhos (verso 9). Ele é completamente enganado por Davi, e a enormidade desta farsa fica clara nas palavras elogiosas deste rei pagão. Aquis não só o elogia, mas também lhe pede desculpas. Ele explica que, apesar dele querer que Davi o acompanhe na batalha contra Israel, seus colegas não estão de acordo com este plano. Davi e seus homens devem voltar a Ziclague pela manhã.

Davi não pára de me surpreender. Se eu estivesse em seu lugar, estaria dançando pelas ruas depois de ouvir o que Aquis acabou de dizer. No entanto, ei-lo aqui, na mesma situação aparentemente sem esperanças, num beco sem saída. Os quatro comandantes filisteus se recusam a permitir que ele vá com eles para a batalha, e Aquis acanhadamente lhe dá as “más notícias”. Más notícias? Isto é fantástico! Ele não tem que lutar contra os israelitas, com Saul ou com Jônatas. Nem tem que lutar contra Aquis ou qualquer outro filisteu. Tudo o que precisa fazer é ir para sua própria casa em Ziclague. Mas, ao invés de se submeter humildemente ao comando de Aquis e dos comandantes filisteus, ele protesta, como se tentasse dissuadi-los de sua decisão, como se fosse obrigado e estivesse determinado a ir para a guerra. Considerando ser “uma saída”, ele parece inverter a situação.

Dale Ralph Davis não perde o bom humor nesta troca de gentilezas entre Aquis e Davi, escrevendo:

Há muito mais do que um pouco de humor nesta cena (v. 6-8). Aquis fica ali se desculpando, ressaltando porque ele acha que Davi deveria ir com eles nesta campanha e exaltando sua fidelidade, a qual ele não tem nenhuma razão para exaltar. Por outro lado, Davi, com expressão incrédula e voz exasperada, protesta a rejeição contra a qual ele não tem nenhuma razão para protestar. O enganado defende seu enganador, e o aliviado discute seu alívio!”

Se as palavras de protesto de Davi são uma encenação, ele é um excelente ator. Graças a Deus, a opinião dos comandantes filisteus não pode ser mudada. Davi voltará a Ziclague pela manhã.

Logo cedo na manhã seguinte, tanto Davi quanto os guerreiros filisteus se levantam para seguir seu caminho. Os filisteus partem para Jezreel, onde os israelitas estão acampados, e Davi lidera a volta para Ziclague. Davi foi salvo, e isto devido à reação furiosa de quatro comandantes filisteus que rejeitam os planos de Aquis.

Problemas em Casa
(30:1-6)

Sucedeu, pois, que, chegando Davi e os seus homens, ao terceiro dia, a Ziclague, já os amalequitas tinham dado com ímpeto contra o Sul e Ziclague e a esta, ferido e queimado; tinham levado cativas as mulheres que lá se achavam, porém a ninguém mataram, nem pequenos nem grandes; tão-somente os levaram consigo e foram seu caminho. Davi e os seus homens vieram à cidade, e ei-la queimada, e suas mulheres, seus filhos e suas filhas eram levados cativos. Então, Davi e o povo que se achava com ele ergueram a voz e choraram, até não terem mais forças para chorar. Também as duas mulheres de Davi foram levadas cativas: Ainoã, a jezreelita, e Abigail, a viúva de Nabal, o carmelita. Davi muito se angustiou, pois o povo falava de apedrejá-lo, porque todos estavam em amargura, cada um por causa de seus filhos e de suas filhas; porém Davi se reanimou no SENHOR, seu Deus.”

Enquanto Davi e seus homens estão com Aquis em Afeca, os amalequitas estão saqueando Ziclague. Se aprendemos alguma coisa, é que falhar em cumprir totalmente a Palavra de Deus tem conseqüências devastadoras. O fracasso de Saul a respeito dos amalequitas está fazendo seu governo como rei chegar ao fim. Isto lhe custará sua própria vida e a vida de seus filhos. As invasões de Davi, enquanto estava em Ziclague, são contra os inimigos de Israel, entre os quais estão os amalequitas (ver 27:8). Será que esta invasão é uma retaliação? Por alguma razão, os amalequitas se aproveitam dos movimentos militares dos filisteus e atacam suas vilas e cidades indefesas. Dentre elas está Ziclague. A cidade é totalmente destruída e queimada. Providencialmente, todo o povo é poupado, junto com o gado. Davi não trata os amalequitas com tanta gentileza.

Para Davi e seus homens, a viagem de Afeca a Ziclague deve ter sido bem descontraída, meio parecida com um ônibus lotado de estudantes em férias a caminho das montanhas para um passeio de esqui. Posso imaginar o alívio que Davi e seus homens sentem quando deixam as tropas filistéias e voltam para Ziclague. Eles sobreviveram a esta estranha situação com dignidade, não com vergonha. Aquis ainda pensa muito bem a respeito de Davi, e os quatro comandantes filisteus ainda parecem temê-lo. Eles não têm que batalhar contra seus compatriotas israelitas, nem que se voltar contra os filisteus. Eles foram salvos. Nenhuma vida foi perdida em batalha. Tudo o que precisam fazer é voltar para Ziclague e desfrutar um pouco de tempo com suas famílias. Como diz o comercial da TV, como eles “soletram alívio”? Z I C L A G U E.

À medida que se aproximam de Ziclague, eles começam a ver, e talvez a sentir o cheiro, de fumaça. Um sentimento crescente de medo cai sobre este pequeno exército. Podemos imaginar que os olhares confusos se transformam em olhares de inquietação, a conversa cessa, substituída por um silêncio gelado. A cidade está em ruínas, totalmente queimada. Não há absolutamente nenhum sinal de vida. Nem qualquer corpo. Alguns ainda podem estar vivos, mas aqueles que estão vivos podem desejar que estivessem mortos.

Talvez este seja o dia mais negro da vida de Davi até aqui. Neste momento, ninguém parece pensar em perseguir aqueles que fizeram isto, quem quer que seja. As duas esposas de Davi foram levadas, e também todas as famílias de seus homens. Os homens ficam deprimidos. Eles não poderiam ter imaginado coisa pior. Todos choram até não terem mais forças.

Esta não é uma bela visão, mas fica ainda pior. À medida que a dura realidade começa a aparecer, os homens de Davi começam a pensar no que teria acontecido. Tudo é culpa de Davi. Eles os trouxe para Gate e depois para Ziclague. Ele os fez trazer suas famílias junto com eles. Ele ordenou os ataques contra povos como os amalequitas. Seus negócios escusos fizeram com que fossem promovidos no exército filisteu. Devido ao relacionamento de Davi com Aquis, todos estavam muito longe, em Afeca, quando suas famílias foram aterrorizadas e seqüestradas. Eles já tinham o suficiente de Davi e de sua liderança. Eles estão muito desgostosos e prontos para descarregar sua raiva. Um rumor sobre apedrejar Davi começa a circular entre eles.

Agora as coisas estão tão ruins quanto Davi pode imaginar. Ele fora rejeitado por Saul, e depois por muitos de seus compatriotas israelitas. Alguns de seus parentes estavam dispostos e prontos para entregá-lo a Saul para ser condenado à morte. Rejeitado por Saul e os israelitas, Davi foge para Aquis, que o recebe de braços abertos. Mas agora ele é rejeitado pelo exército filisteu e mandado de volta prá casa. E, quando chega em casa, descobre que sua família e as famílias de seus homens se foram, o gado tomado, e a cidade em ruínas. Além de tudo isto, agora ele está sendo rejeitado por muitos de seus próprios homens, que também gostariam de vê-lo morto. Tudo o que poderia dar errado aconteceu.

Conclusão

Fazendo uma pausa em nosso estudo desse momento negro da vida de Davi, vamos refletir sobre o que aconteceu e o que podemos aprender com isto.

A primeira lição que aprendemos (ou que vem à nossa mente) é que as conseqüências do pecado muitas vezes demoram, mas são inevitáveis. Aquilo que lemos em nosso texto é o resultado de uma péssima decisão que Davi tomou um ano antes. Essa decisão foi deixar Israel e fugir para Aquis, em território filisteu, para procurar segurança e proteção (27:1 ss). À luz das palavras de Davi para Saul no capítulo 26, poderíamos questionar esta decisão de levar seus homens e suas famílias para o território filisteu. No mínimo foi contrária às suas próprias convicções, declaradas com tanta paixão e clareza a Saul. O resultado imediato parecia favorável. Davi e seus homens poderiam estar com suas famílias. Eles foram bem recebidos por Aquis e viveram confortavelmente enquanto atacavam e saqueavam seus inimigos. Eles até conquistaram o favor de muitos israelitas (30:26-31). Eles estavam jogando dos dois lados, e tudo ia bem.

E então, como sempre, as conseqüências do pecado começam a aparecer. Davi ficou popular demais com Aquis. Em vez de ser um refugiado, um exilado, ele se torna o guarda-costas de um rei filisteu e líder de 600 homens no exército filisteu. Davi se encontra num beco sem saída. A época de por em prática aquilo que ele diz chegou. Agora ele é obrigado a travar batalha com o ungido do Senhor, e com seu filho Jônatas, seu querido amigo. O vôo de Davi para o lado dos filisteus, que tinha a intenção de “salvar” seus homens e suas famílias, e lhes dar tempo juntos, agora fez com que fossem capturados por invasores desconhecidos. Os homens de Davi, em cujo benefício aparentemente ele agiu ao fugir para a Filistia, agora estão prontos a apedrejá-lo. Como diz um certo provérbio “o castigo sempre vem a cavalo”. Aqui, com certeza.

Deus e Satanás são completamente diferentes. Deus deixa muito claras as conseqüências do pecado. Embora haja muitos detalhes, podemos resumir tudo na afirmação: “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). Até quando são discipuladas – para seguir a Cristo - nosso Senhor quer que as pessoas saibam tanto o preço à vista, quanto a longo prazo. Deus não procura nos “tentar” a fazer o que é certo colocando uma etiqueta com o preço em letras miúdas. Satanás sim. Ele minimiza o custo do pecado e muitas vezes o nega completamente (por exemplo, “É certo que não morrereis - Gn. 3:4). Mas, esteja certo de que o pecado tem um preço muito alto.

Anos atrás, quanto nossa família esteve em Six Flags Over Texas (um parque de diversões), junto com uma outra família, algo me fez lembrar do custo do pecado. Depois de pagar um preço bem alto pela entrada e de ficar esperando na fila, conseguimos fazer um passeio bastante procurado. Depois do passeio, voltei-me para o pai da outra família e disse: “Esta é uma boa ilustração do pecado. O preço é alto, mas o passeio é curto!” E é assim. Para Davi, o passeio terminou. Agora é hora de pagar o preço.

O sábio é cauteloso e desvia-se do mal, mas o insensato encoleriza-se e dá-se por seguro. (Pv. 14:16)

Segundo, devemos perceber em nosso texto que as conseqüências prejudiciais de nossos pecados vão além de nós mesmos e, muitas vezes, causam dor e sofrimento àqueles que mais amamos. Tenho certeza de que Davi deve ter pensado que estava agindo no melhor interesse de sua família ao levá-los para a terra dos filisteus. Mas, ao fazer isto, aquilo que era errado para ele (capítulo 26), também se tornou errado para sua família. Sabemos que na realidade este incidente acaba bem. Mas durante aqueles dias em que estas famílias foram aterrorizadas e traumatizadas, um alto preço foi pago - por eles! Quando Abrão disse a Sarai para mentir a respeito de ser sua esposa, tanto ele quanto ela passaram algumas noites angustiantes separados um do outro, preço por seu pecado.

Asafe, o salmista dos tempos antigos, escreveu um salmo sobre uma época crítica de sua vida, o Salmo 73. Ele começa este Salmo afirmando um princípio bíblico:

Com efeito, Deus é bom para com Israel, para com os de coração limpo. (Sl. 73:1)

Depois ele prossegue dizendo-nos que, ao olhar ao seu redor, simplesmente parece que isto não é verdade. Os justos parecem sofrer, e os perversos parecem prosperar. E enquanto os maus prosperam, eles escarnecem de Deus. Asafe está prestes a atirar a toalha, quando percebe que se ele pecar, outros irão sofrer:

Se eu pensara em falar tais palavras, já aí teria traído a geração de teus filhos. (Sl. 73:15)

Essa é a maneira como o pecado funciona. Ele não apenas tem conseqüências dolorosas para o pecador, mas também atinge muitas outras pessoas. Entre estas “outras pessoas” estão aquelas a quem mais amamos. Quando um marido ou uma esposa decidem renunciar aos votos de casamento e cometer adultério, eles causam grande sofrimento, não apenas para o seu companheiro, mas também às suas famílias. O pecado jamais satisfaz, nunca vale seu preço. Mas aqueles que pagam caro por nossos pecados muitas vezes são aqueles a quem amamos. Por amor a Deus, por amor a si mesmo, e por amor àqueles que você ama, veja o pecado como ele é, e o que ele faz. O pranto que vemos em nosso texto é parte do preço pelo pecado, de Davi. Já disse isto antes àqueles que contemplam o pecado deliberado, e agora digo outra vez àqueles de nós que talvez estejam brincando com um determinado pecado (ou persistindo nele). Ainda estou para ver o homem que escolhe pecar olhar para trás com um sorriso no rosto, como se tivesse valido a pena.

Terceiro, embora nosso texto ressalte o alto preço do pecado, ele também nos dá esperança - ele nos lembra que há uma saída. Tenho um amigo que diz: “Não tenho somente pés de barro; sou todo de barro até as axilas!” Davi também era “todo de barro até as axilas”. Mas, vejamos o contraste que o autor faz entre Davi e Saul. Tanto um quanto outro se meteram em sérias complicações, situações que parecem sem esperança. Tanto um quanto outro estão profundamente angustiados, a ponto de perderem as forças. Quando Saul sai, ele sai “à noite”. Quando Davi deixa os filisteus, é “de manhã”. É como se o escritor quisesse que percebamos as diferenças entre ambos, até no meio das semelhanças.

A última parte do verso 6 é uma pista importante, não apenas para a diferença entre Davi e Saul, mas para a fonte desta diferença: “porém Davi se reanimou no SENHOR, seu Deus” (verso 6).

Saul vai consultar uma feiticeira; Davi se fortalece no Senhor seu Deus. Eis a diferença. Saul parece nunca se arrepender, nunca ter um coração para Deus. Davi tem mesmo um coração para Deus e verdadeiramente se arrepende. Ele, como a maioria de nós, descobre seus momentos mais importantes nos tempos de sofrimento e tristeza, nas épocas negras de sua vida. Mas, no seu dia mais negro, quando não tem mais ninguém a quem recorrer, ele recorre a Deus.

Como é que ele faz? Como ele se fortalece no Senhor seu Deus? Devemos observar que o autor nos dá muito poucos detalhes. Ele não nos dá uma fórmula, uma série de passos infalíveis. Vivemos em dias em que as pessoas querem uma solução rápida com cura garantida e, muitas vezes, seguindo uma série de passos visivelmente planejados - uma fórmula. Numa análise final, não creio que a vida cristã seja vivida por meio de fórmulas, mas por verdades e princípios. Há faça e não faça, mas isto não é uma fórmula. Observemos que Davi encontra sua força espiritual no Senhor seu Deus.

Tendo dito que aqui não há nenhuma fórmula, o que realmente encontramos são dicas que podem ser úteis àqueles que desejam se fortalecer em Deus. Podemos nos recordar de um episódio anterior quando Jônatas ajudou no fortalecimento de Davi no Senhor:

“Vendo, pois, Davi que Saul saíra a tirar-lhe a vida, deteve-se no deserto de Zife, em Horesa. Então, se levantou Jônatas, filho de Saul, e foi para Davi, a Horesa, e lhe fortaleceu a confiança em Deus, e lhe disse: Não temas, porque a mão de Saul, meu pai, não te achará; porém tu reinarás sobre Israel, e eu serei contigo o segundo, o que também Saul, meu pai, bem sabe. E ambos fizeram aliança perante o SENHOR. Davi ficou em Horesa, e Jônatas voltou para sua casa.” (I Sam. 23:15-18)

Se Davi se fortaleceu no Senhor, é possível inferirmos que, da mesma forma que Jônatas fez anteriormente, Davi deve ter se recordado do caráter e das promessas de Deus. Se Deus é quem é, em Seu caráter (Seus atributos), podemos estar certos de que aquilo que Ele promete, Ele faz. Paulo coloca isto desta forma:

Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus. (Fp. 1:6)

“e, por isso, estou sofrendo estas coisas; todavia, não me envergonho, porque sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia.” (II Tm. 1:12, ver também Judas 1:24)

Outro fator relacionado ao fortalecimento de Davi vem logo depois do verso 6:

Disse Davi a Abiatar, o sacerdote, filho de Aimeleque: Traze-me aqui a estola sacerdotal. E Abiatar a trouxe a Davi. Então, consultou Davi ao SENHOR, dizendo: Perseguirei eu o bando? Alcançá-lo-ei? Respondeu-lhe o SENHOR: Persegue-o, porque, de fato, o alcançarás e tudo libertarás. Partiu, pois, Davi, ele e os seiscentos homens que com ele se achavam, e chegaram ao ribeiro de Besor, onde os retardatários ficaram. Davi, porém, e quatrocentos homens continuaram a perseguição, pois que duzentos ficaram atrás, por não poderem, de cansados que estavam, passar o ribeiro de Besor.” (I Sam. 30:7-10)

Davi não só se fortalece no Senhor, ele consulta o Senhor. Ele busca a Deus. Ele busca conhecer a vontade de Deus nesta situação, e depois ele a coloca em prática. Como Davi é diferente de Saul a este respeito. A força de Davi, então, parece vir da percepção de quem Deus é, do que Ele promete, e do que Ele quer que façamos. Davi talvez tenha se metido, e aos outros, numa grande confusão, devido a uma decisão imprudente, mas ele também recorre a Deus, em quem ele confia.

Quarto, esta passagem tem muitas coisas encorajadoras a nos ensinar sobre Deus. Este texto nos relembra da fidelidade de Deus, mesmo quando necessitamos de fé.

se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo.” (II Tm. 2:13)

Deus ungiu Davi como futuro rei de Israel. Deus ia cuidar para que ele fosse o futuro rei. Nem Saul, nem os israelitas infiéis, nem os reis filisteus, nem os soldados de Davi, e nem mesmo o próprio Davi poderiam impedir que ele se tornasse rei de Israel. Os propósitos e as promessas de Deus são certos.

Deus não é somente fiel, como vemos em nosso texto, Ele também é misericordioso. Davi simplesmente se meteu na maior confusão. Seria muito fácil dizermos que já que ele fez a bagunça, que limpe tudo. Como seria bom deixá-lo cozinhando lentamente em seu próprio molho. Deus realmente permite que ele sinta as dolorosas conseqüências de seu pecado, mas Ele não tem prazer em fazer isso; Ele tem prazer em mostrar misericórdia. E Ele o faz salvando Davi, seus homens e todas as suas famílias e bens. Isto veremos em breve.

A soberania de Deus fica muito clara no livramento de Davi e de seus homens do serviço militar, serviço a favor dos filisteus e contra Israel. Deus usa Davi, e até mesmo seu pecado, para alcançar Seus propósitos finais. Deus não faz Davi pecar, nem desculpa seu pecado. No entanto, a soberania de Deus (controle absoluto) é tão grande que Ele pode até empregar a desobediência e os pecados dos homens para alcançar Seus propósitos. Ele usou a traição pecaminosa dos irmãos de José para salvar a nação de Israel. E assim Deus usa homens pecaminosos em nosso texto. Ele usou Davi, como vimos. Ele usa a ingenuidade de um rei como Aquis e o bom senso e a perspicácia de quatro comandantes filisteus. Ele usará até um ataque amalequita para um bom propósito. Amo o que Davis diz sobre Deus usar Seus inimigos:

“Vejamos outra vez. Que instrumentos Yahweh usa para salvar Seu servo deste dilema? Os oficiais em comando do exército filisteu. Esta não foi a primeira vez que Yahweh transformou inimigos em salvadores (ver 23:19-28). Os filisteus se tornam tais servos, inconscientes, mas eficazes! Quem foi Seu conselheiro?! (cf. Isaías 40:13-14)”

“O que nosso texto realmente nos ensina é que mesmo em nossos ataques de insensatez e fraqueza, ainda não somos páreo para Deus, que tem milhares de maneiras inimagináveis de salvar Seu povo - até pela boca dos filisteus. Ele pode fazer o inimigo nos servir como amigo. Ele não só nos prepara a mesa na presença de nossos inimigos, mas também tem o talento especial de fazer com que os inimigos preparem a mesa!”

Penso que às vezes inconscientemente supomos que Deus seja um Deus salvador somente na cruz do Calvário. O fato é que Deus foi e ainda é um Deus salvador. Ele salva os homens desde o início da história. Deus é um salva-vidas. Ele salvou Noé e sua família do dilúvio (Gênesis 6-9). Salvou Ló e suas filhas de Sodoma e Gomorra (Gênesis 19). Salvou Jacó e sua família da extinção, como uma nação separada (Gênesis 37 e ss). Salvou os israelitas de faraó, e da mão perversa de muitos outros reis e nações. Salvou constantemente Israel dos inimigos à sua volta nos dias dos juízes. Se Deus precisasse de prática para salvar os homens (o que, com toda certeza, Ele não precisa!), Ele já seria muito bom a esta altura.

Mas, todos estes livramentos do passado não se comparam ao grande livramento final que Ele trouxe aos homens na morte sacrificial, no sepultamento e na ressurreição de Jesus Cristo. Ele morreu por nossos pecados, suportando a nossa punição. Ele não só tomou nossos pecados sobre Si, Ele nos ofereceu Sua justiça para que pudéssemos ter a vida eterna e habitar com Ele por toda a eternidade. E Deus realizou isto por meio da traição pecaminosa de Judas, do ciúme e das maquinações dos líderes religiosos judaicos, da cooperação de um governador gentil romano (que procurava ser politicamente correto), e da passividade (e até mesmo participação) do povo. Ele fez isto para que homens pecaminosos pudessem ser perdoados de seus pecados e receber a justiça que Ele oferece na pessoa de Jesus Cristo.

Você já foi salvo? Já percebeu a enrascada em que seu pecado o colocou? Deus providenciou “uma saída” de uma forma que ninguém jamais poderia esperar ou pedir - por meio do sangue de Jesus Cristo, derramado na cruz do Calvário. Tudo o que você precisa fazer é receber este perdão, como um presente da graça e da misericórdia de Deus. Que coisa maravilhosa é ser liberto e perdoado, ser salvo por Deus. A Deus seja toda a glória.

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