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15. Davi se Une à Família de Saul (I Samuel 18:1-30)

Introdução

Há uns 25 anos, quando dava aulas, conheci um jovem que, segundo os boatos, fora membro de uma gangue de motoqueiros. Em conseqüência de um acidente, ele sofrera danos cerebrais e viera para a escola onde eu lecionava para obter ajuda. Certa vez, enquanto falava de Jesus a outro estudante, o motoqueiro com danos cerebrais me interrompeu, prensou-me contra a parede e depois me suspendeu pelo pescoço até alguém vir em meu socorro. O jovem escapou impune, pois se presumia que seus atos fossem conseqüência de suas condições, não de seu pecado e rejeição ao evangelho. Jamais houve qualquer dúvida para mim de que seus atos foram friamente calculados e executados.

Enquanto leio nosso texto em I Samuel 18, penso em meu encontro com este jovem agressivo. Sob todos os aspectos, o comportamento de Saul se parece com os delírios de um homem mentalmente perturbado, não responsável por seus atos. Se Saul fosse acusado de tentativa de assassinato pelas duas vezes em que atirou sua lança em Davi, há pouca dúvida de que alegaria “insanidade temporária”. Creio que nosso texto retrata Saul sob uma luz diferente, algo que está longe de ser lisonjeiro. Neste incidente, e naquele que se segue, creio que talvez tenhamos mal interpretado a narrativa da união de Davi com a família de Saul. Vamos prestar bastante atenção às palavras de nosso texto e à voz do Espírito Santo, enquanto Ele nos fala através deste intrigante capítulo.

Observações Preliminares

Quanto mais alguém lê e medita sobre este texto, mais algumas características vão se tornando evidentes. Permitam-me compartilhar algumas delas para prepará-los para esta exposição e estimulá-los ao seu próprio estudo da passagem.

Primeiro, algumas repetições importantes devem ser registradas:

  • O sucesso de Davi (versos 5, 14, 15, 30)
  • O fato de Deus estar com Davi (versos 12, 14, 28)
  • O amor (versos 1, 13, 16, 20, 22, 28)
  • O medo de Saul (versos 12, 15, 29)
  • As emoções, os pensamentos íntimos e os motivos de Saul são revelados (versos 8-9, 11-12, 15, 17, 20-21, 29)

Segundo, o autor parece comparar a atitude de Saul com a atitude de Jônatas, com relação a Davi e seu reino.

Terceiro, existe um forte senso de progressão ou de desenvolvimento neste capítulo. Por um lado, o entusiasmo de Saul por Davi e seu ministério degenera para a suspeita e depois para o medo. Por outro, a popularidade e a ascensão de Davi em Israel são cada vez mais crescentes. Cada degrau acima para Davi parece ser um degrau abaixo para Saul. E cada tentativa de Saul para reprimir a popularidade de Davi só faz aumentá-la.

Quarto, existe uma sutil ligação entre os esforços de Saul para se livrar de Davi e os esforços posteriores de Davi para se livrar de Urias, o marido de Bate-Seba. Saul tenta colocar Davi em situações militares perigosas para que ele seja morto em batalha. Isto tirará Davi do caminho de maneira a não colocar Saul sob um ângulo desfavorável (compare I Samuel 18:17 com II Samuel 11:14-17). Será que Davi aprendeu esta artimanha com Saul?

Quinto, o medo de Saul e seus intentos para matar Davi são mascarados por ele (Saul) no capítulo 18, mas revelados no capítulo 19. No capítulo 18 Saul tenta acabar com Davi de forma astuciosa. Ele parece promover Davi ao colocá-lo em posição de autoridade sobre seu exército, e depois o recompensando ao lhe oferecer sua(s) filha(s) em casamento. No entanto, por trás disto, há um motivo muito sinistro revelado em nosso texto, mas que não é publicamente revelado aos que viviam naquela época. Saul fala com um vocabulário dos mais santos (“...sê-me somente filho valente e guerreia as guerras do SENHOR...” - verso 17), mas sua intenção é totalmente vil (“porque Saul dizia consigo: Não seja contra ele a minha mão, e sim a dos filisteus.” - verso 17). Quando todas estas artimanhas falham, no capítulo 19, a oposição de Saul a Davi se torna pública, onde ele ordena que Jônatas e seus servos o matem (19:1). Há hipocrisia em toda parte no capítulo 18, mas ela dá lugar à franca hostilidade no capítulo 19. Assim, no capítulo 18 precisamos ver as coisas não do jeito como aparentam ser - o jeito como Saul quer que os outros vejam - mas como elas são, à luz do que é revelado sobre o coração e a mente de Saul, fornecido pelo autor inspirado de I Samuel.

Sexto, o capítulo 18 (como o capítulo 16) não enfoca Davi tanto quanto enfoca Saul, Jônatas e Mical. Podemos dizer que este capítulo “enfoca a família” de Saul. Começa com o amor de Jônatas por Davi e termina com o amor de Mical por ele. Durante todo o tempo, aprendemos sobre o medo e a animosidade crescente de Saul para com Davi, que se torna seu genro, assim como seu oficial.

Sétimo, a Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento por volta do segundo século a.C) omite uma porção dos versos encontrados no texto original hebraico (versos 1 a 5, 10-11, 17 a 19).

Davi “Tem um Dia Legal”
(18:1-5)

“Sucedeu que, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma. Saul, naquele dia, o tomou e não lhe permitiu que tornasse para casa de seu pai. Jônatas e Davi fizeram aliança; porque Jônatas o amava como à sua própria alma. Despojou-se Jônatas da capa que vestia e a deu a Davi, como também a armadura, inclusive a espada, o arco e o cinto. Saía Davi aonde quer que Saul o enviava e se conduzia com prudência; de modo que Saul o pôs sobre tropas do seu exército, e era ele benquisto de todo o povo e até dos próprios servos de Saul.”

Este deve ter sido um dia glorioso para Davi e, também, um bom dia para Saul. O prolongado impasse entre Israel e os filisteus finalmente chega ao fim. Golias, que aterroriza a cada soldado israelita e prova ser um grande embaraço para Saul, é morto pelas mãos de Davi. Isto leva a uma debandada geral, com corpos e despojos filisteus espalhados desde o campo de batalha até os portões de suas principais cidades. Quando Davi regressa, após a morte de Golias, ele é levado diante de Saul por Abner. Saul averigua uma vez mais quem é o pai de Davi. Não estou tão certo quanto já estive de que isto fosse para isentar seu pai dos impostos. Pelo fato de Saul ter pedido a permissão de Jessé para empregar Davi por meio período (16:19), parece razoável que ele peça novamente sua permissão para manter Davi consigo em tempo integral.

A conversa de Davi com Saul define a questão para Jônatas (18:1). Sem dúvida, ele fica impressionado com a vitória de Davi sobre Golias, mas, o que mais o impressiona, parece ser as palavras de Davi ao seu pai. Será a fé de Davi em Deus? Será o fato de ele ter cuidado em dar glória a Deus? Será seu espírito humilde e reverente? Será seu cuidado pelo povo de Israel? Não é dito exatamente o que tanto impressiona Jônatas nesta conversa, mas fica claro que daí em diante estes dois homens passam a ser como irmãos.

Somente uma geração má e perversa poderia encontrar nas palavras de nosso texto ocasião para dizer que o relacionamento entre Davi e Jônatas é pervertido. Davi e Jônatas são almas gêmeas. Jônatas ama Davi como a si mesmo. Esta não é a maneira como todo crente deveria se sentir com relação a seus irmãos? Nesse dia, Jônatas e Davi fazem uma aliança. Apesar de não serem fornecidos os detalhes, não é difícil inferir quais sejam. De sua parte, Jônatas parece reconhecer que Davi é aquele que Deus escolheu para ser o próximo rei de Israel. Jônatas fica mais do que feliz em abrir mão da esperança do trono de seu pai em consideração ao escolhido de Deus - Davi.

Creio que isto seja simbolizado pelo fato de Jônatas presentear Davi com sua capa e sua armadura. Sabemos, pelo Velho Testamento, que a túnica de José era símbolo de sua autoridade (Gn. 37:3, 23). Antes de Arão morrer, suas vestes sacerdotais foram removidas para serem usadas por seu filho, Eleazar (Nm. 20:22-28). Elias colocou seu manto sobre Eliseu, que estava para assumir o seu lugar (I Re. 19:19-21).

Em seu livro Considerando o Coração, numa nota de rodapé, Dale Ralph Davis se reporta a um documento acadiano, encontrado em Ugarit, sobre a história de um rei do século XIII que se divorciou da esposa. Seu filho poderia escolher com qual dos pais viveria; mas, se o herdeiro escolhesse viver com sua mãe, ele tinha que abdicar do seu direito ao trono. Se ele escolhesse viver com sua mãe, desistindo, assim, de seus direitos, ele deveria indicá-lo, simbolicamente, deixando suas vestes no trono. Assim se parece o presente de Jônatas a Davi de seu manto e sua armadura. Eis um homem magnífico, com um espírito como o de João Batista (Jo. 3:30) e de Barnabé.

Jônatas está disposto a abrir mão de seu direito ao trono e servir Davi, o escolhido de Deus como o próximo rei. Esse mesmo espírito não é encontrado em Saul. Na melhor das hipóteses, Saul está empolgado por causa daquilo que Davi pode fazer por ele. Como sempre, Saul está ansioso para acrescentar homens militarmente habilidosos às suas tropas. Assim, ele promove Davi a funcionário de tempo integral. Até onde vai o registro bíblico, nada é feito com relação às recompensas que Saul ofereceu ao homem que acabasse com Golias. Davi é um servo fiel de Saul, indo aonde quer que seja enviado, e sendo bem sucedido aonde vai. Todo mundo fica impressionado com ele, mesmo os servos de Saul (que devem fazê-lo com certa precaução, sabendo o quão ciumento Saul pode se tornar - ver 16:2). Davi tem o “toque de Midas”. É como se tudo o que ele tocasse prosperasse, e é assim porque a mão de Deus está sobre ele (verso 12).

Os Músicos Compõem uma Canção Mordaz e as Dançarinas Pisam nos Calos de Saul
(18:6-9)

“Sucedeu, porém, que, vindo Saul e seu exército, e voltando também Davi de ferir os filisteus, as mulheres de todas as cidades de Israel saíram ao encontro do rei Saul, cantando e dançando, com tambores, com júbilo e com instrumentos de música. As mulheres se alegravam e, cantando alternadamente, diziam: Saul feriu os seus milhares, porém Davi, os seus dez milhares. Então, Saul se indignou muito, pois estas palavras lhe desagradaram em extremo; e disse: Dez milhares deram elas a Davi, e a mim somente milhares; na verdade, que lhe falta, senão o reino? Daquele dia em diante, Saul não via a Davi com bons olhos.

Você já deve ter ouvido as palavras daquela canção não tão nova que diz: “Que diferença faz um dia...” Nada pode ser mais verdadeiro em nosso texto. É difícil acreditar como a popularidade de Davi tem vida curta com Saul. Um dia ele se apresenta pela fé e derrota Golias, o que resulta na vitória de Israel sobre os filisteus (capítulo 17). Bem no meio da comemoração, as mulheres israelitas entoam uma canção de vitória e azedam a consideração e o respeito de Saul, levando-o a numerosas tentativas para tirar a vida de Davi. Os versos 6 a 9 descrevem este acontecimento decisivo, que muda para sempre o curso da história.

Davi, aparentemente, se juntou aos israelitas enquanto eles perseguiam os filisteus fugitivos e, agora, ele está de regresso. Talvez Saul nem mesmo tenha saído com suas tropas, como parecem indicar os versos finais do capítulo 17. Se for assim, as mulheres de todas as cidades israelitas “foram ao encontro do rei Saul, cantando e dançando”, onde ele esteve desde o princípio, e foram saudar Davi e os guerreiros israelitas quando voltavam da perseguição aos filisteus fugitivos.

Ninguém poderia prever o resultado desta comemoração. O canto e a comemoração das mulheres não parecem incomuns em Israel. Vimos isto na época em que Deus tirou os israelitas do Egito e lançou os egípcios no Mar Vermelho (ver Ex. 15:1-21). A letra da canção composta às pressas inclui este refrão:

“Saul feriu os seus milhares, porém Davi, os seus dez milhares.”

A primeira pergunta que devemos fazer é “Será verdade? Saul mata apenas milhares, enquanto Davi mata dez milhares?” Embora, provavelmente, haja alguma licença poética envolvida, sou propenso a achar que, em essência, os versos sejam verdadeiros. Sabemos, pelo capítulo 14, que a vitória de Israel sobre os filisteus é minimizada devido ao decreto insano de Saul para que seus soldados não comam até o anoitecer. A vitória de Davi (a vitória que Israel obteve porque Davi derrotou Golias) parece mais decisiva. Parece que qualquer coisa que Saul faça, ou tenha feito, Davi faz melhor.

Será que as mulheres querem dizer alguma coisa com o que estão cantando? Acho muito difícil. Elas estão exultantes, regozijando-se com a vitória que Deus lhes deu. Saul contribuiu muito em tempos passados; só que Davi contribuiu muito mais. Saul, que não estava sequer ansioso para se tornar o primeiro do reino, agora está extremamente irritado porque o povo o colocou em segundo plano e a Davi, em primeiro. Eis um homem a quem foi dito que sei reinado chegaria ao fim, e agora ele tem uma forte premonição (se é que a unção de Davi já não se tornou conhecida) de que Davi é aquele que o substituirá. As mulheres estão cantando e dançando, mas Saul não está mexendo os pés. Ele ficou ofendido e a canção não é aquela que o faz querer “cantar junto”. Todos os demais estão celebrando, felizes pela vitória que Deus proporcionou através de Davi - exceto Saul. Eis agora uma aparência horrível em seu rosto e, deste momento em diante, ele olha para Davi com desconfiança.

Maníaco Assassino ou Por Que Davi Não Pode Ficar Quieto!
(18:10-12)

“No dia seguinte, um espírito maligno, da parte de Deus, se apossou de Saul, que teve uma crise de raiva em casa; e Davi, como nos outros dias, dedilhava a harpa; Saul, porém, trazia na mão uma lança, que arrojou, dizendo: Encravarei a Davi na parede. Porém Davi se desviou dele por duas vezes. Saul temia a Davi, porque o SENHOR era com este e se tinha retirado de Saul.” (10-12)

Todos nós sabemos que Saul realmente tem alguns dias bem ruins causados pelo “espírito maligno da parte do Senhor”, que se apossa dele de tempos em tempos. Davi é contratado, em regime de meio período, para tocar sua harpa e acalmar a alma atribulada de Saul (16:14-23). Agora Davi é empregado em tempo integral e parte de seus deveres é continuar a tocar a harpa quando Saul está atribulado. O problema com os problemas de Saul é que Davi se tornou o seu maior problema (pelo menos em sua mente). O ciúme de Saul vira assassinato nos versos 10 a 12.

Antes de nos atermos a estes versos, talvez seja útil um comentário sobre a relação entre os versos 6 a 9 e 10 a 12. Nos versos 6 a 9, Saul está com ciúmes e, nos versos 10 a 12, é dito que o espírito maligno se apossa dele. Alguns dizem, e até mesmo insistem, que os demônios são a fonte da maioria dos males. Já ouvi falar sobre o “demônio do ciúme”, o “demônio do alcoolismo”, o “demônio do orgulho”, e assim por diante. Não estou tentando dizer que a atividade demoníaca não possa produzir tais manifestações, mas preciso dizer que a Bíblia nos fala que estas coisas não vêm de Satanás, mas de nossa própria natureza pecaminosa (ver Gl. 6:16-21). Em nosso texto, o ciúme de Saul (versos 6 a 9) precede a poderosa possessão do espírito maligno sobre ele (verso 10). Entendo que a possessão do espírito maligno sobre Saul é, de alguma forma, conseqüência de seu ciúme. Creio que Satanás seja um oportunista, que se aproveita das fraquezas e do pecado humano (ver, por exemplo, II Co. 2:10-11). O uso de drogas ilegais (e talvez de algumas legais), a entrega ao sexo ilícito ou a acessos de fúria, ou outros tipos de males, podem muito bem abrir as portas para os ataques satânicos e demoníacos. Vamos ter cuidado para não dar a Satanás tanto crédito, fazendo-o a causa do mal em vez de um oportunista que simplesmente promove e aumenta o mal que há em nossa natureza caída.

Estou em dívida com Dale Ralph Davis por sugerir que as atitudes assassinas de Saul para com Davi nos versos 10 a 12 (como em todo o capítulo) ainda não são reconhecidas como tal por Davi ou pelos outros. Deixe-me sugerir por que concordo com ele. Primeiro, a intenção de Saul matar Davi não é conhecida nem mesmo por seu filho Jônatas até o primeiro verso do capítulo 19. Repetidamente, o autor nos diz quais são os verdadeiros motivos de Saul, da mesma forma que faz aqui no verso 11. Mas isto se faz necessário somente se as ações de Saul não forem evidentes. Saul realmente tem acessos ocasionados pelo “espírito maligno”, mas até aqui parece que apenas ele é afetado. Ele está aterrorizado (16:14). Agora, sem mais nem menos, os “acessos” de Saul viram atos homicidas - a lança atirada duas vezes em Davi. Posso até ouvir os servos de Saul desculpando-o e dizendo: “Você terá que desculpar Saul, hoje ele não está em si.” Afirmo que ele está em si.

Em minha opinião, parte do problema deriva da tradução “delirou”, no verso 10. O termo hebraico ocorre mais de 100 vezes no Velho Testamento. Na versão NASB é traduzido por “delirou” apenas duas vezes (aqui e em I Re. 18:29). Jamais é traduzido como “delirar” na versão King James. Praticamente é sempre traduzido como algum tipo de “profecia”. O termo pode se referir à profecia de um verdadeiro profeta (como em Nm. 11:25-26; I Cr. 25:2), ou a profecias enganosas de um falso profeta (como em I Re. 22:10). Parece que, mesmo quando verdadeiros profetas profetizaram, eles se comportaram de maneira diferente (ver I Sam. 19:18-24), o que poderia ser considerado como “delírio” por um observador.

O problema com a tradução “delirou”, em nosso texto, é que também pode ser facilmente mal interpretada como alguma forma de insanidade temporária. De fato, talvez seja como o comportamento de Saul se parece. Também poderia ser o que Saul quer que as pessoas pensem sobre seu comportamento. Afinal, se Saul “age como louco”, atirando a lança em Davi e o matando durante o que parece ser um ataque de insanidade ou um ato incontrolável propiciado por um espírito maligno, ele acaba se safando. O problema em ver Saul como temporariamente insano é que aqui está escrito o que ele pensa no momento em que atira a lança em Davi “Encravarei a Davi na parede.” (verso 11). Saul sabe exatamente o que está fazendo, e faz exatamente o que pretende. Por isso, não estranho que Saul realmente profetize, talvez da maneira como o fazem os demônios do Novo Testamento:

“Achava-se na sinagoga um homem possesso de um espírito de demônio imundo, e bradou em alta voz: Ah! Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para perder-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus!” (Lc. 4:33-34)

Portanto, se Saul profetiza, ele percebe que Davi é próximo rei, o que poderia estimulá-lo a se fingir de louco e procurar matar Davi de maneira que pareça um ataque incontrolável ocasionado por um espírito demoníaco. Apesar das duas tentativas de Saul para matar Davi, elas não funcionam. Uma vez mais Davi é bem sucedido enquanto Saul fracassa:

  • Davi: uma pedra acerta Golias bem no meio dos olhos
  • Saul: duas tentativas sem acertar Davi com a sua lança

Porque o Senhor está com Davi, ele não pode ser morto antes do tempo; porque o Senhor deixou Saul, ele não consegue fazer nada direito.

Mate-o com Gentileza ou Assassinato nas Forças Armadas
(I Sam. 18:13-30)

“Pelo que Saul o afastou de si e o pôs por chefe de mil; ele fazia saídas e entradas militares diante do povo. Davi lograva bom êxito em todos os seus empreendimentos, pois o SENHOR era com ele. Então, vendo Saul que Davi lograva bom êxito, tinha medo dele. Porém todo o Israel e Judá amavam Davi, porquanto fazia saídas e entradas militares diante deles. Disse Saul a Davi: Eis aqui Merabe, minha filha mais velha, que te darei por mulher; sê-me somente filho valente e guerreia as guerras do SENHOR; porque Saul dizia consigo: Não seja contra ele a minha mão, e sim a dos filisteus. Respondeu Davi a Saul: Quem sou eu, e qual é a minha vida e a família de meu pai em Israel, para vir a ser eu genro do rei? Sucedeu, porém, que, ao tempo em que Merabe, filha de Saul, devia ser dada a Davi, foi dada por mulher a Adriel, meolatita. Mas Mical, a outra filha de Saul, amava a Davi. Contaram-no a Saul, e isso lhe agradou. Disse Saul: Eu lha darei, para que ela lhe sirva de laço e para que a mão dos filisteus venha a ser contra ele. Pelo que Saul disse a Davi: Com esta segunda serás, hoje, meu genro. Ordenou Saul aos seus servos: Falai confidencialmente a Davi, dizendo: Eis que o rei tem afeição por ti, e todos os seus servos te amam; consente, pois, em ser genro do rei. Os servos de Saul falaram estas palavras a Davi, o qual respondeu: Parece-vos coisa de somenos ser genro do rei, sendo eu homem pobre e de humilde condição? Os servos de Saul lhe referiram isto, dizendo: Tais foram as palavras que falou Davi. Então, disse Saul: Assim direis a Davi: O rei não deseja dote algum, mas cem prepúcios de filisteus, para tomar vingança dos inimigos do rei. Porquanto Saul tentava fazer cair a Davi pelas mãos dos filisteus. os servos de Saul referido estas palavras a Davi, agradou-se este de que viesse a ser genro do rei. Antes de vencido o prazo, dispôs-se Davi e partiu com os seus homens, e feriram dentre os filisteus duzentos homens; trouxe os seus prepúcios e os entregou todos ao rei, para que lhe fosse genro. Então, Saul lhe deu por mulher a sua filha Mical. Viu Saul e reconheceu que o SENHOR era com Davi; e Mical, filha de Saul, o amava. Então, Saul temeu ainda mais a Davi e continuamente foi seu inimigo. Cada vez que os príncipes dos filisteus saíam à batalha, Davi lograva mais êxito do que todos os servos de Saul; portanto, o seu nome se tornou muito estimado.” (13-30)

A simples visão de Davi em sua casa enfurece Saul, mas parece que ele não pode matá-lo ali também; assim, Saul tenta afastá-lo, constituindo-o comandante de uma tropa de 1.000 homens. É difícil ver isto como rebaixamento de posto no esboço geral deste capítulo, embora possa ser. Antes, sou propenso a ver como uma clara promoção. Com isto Saul parece mostrar bondade para com Davi, embora, na realidade, esteja procurando ocasião para se livrar dele. Se os filisteus ou algum outro inimigo não matar Davi, pelo menos ele ficará fora de vista e, quem sabe, fora da mente dos israelitas. Simplesmente não funciona desse jeito, de novo. Aonde quer que Davi seja enviado, Deus o faz prosperar, para que sua posição junto ao povo continue a se elevar. Tudo isto é observado por Saul, cujo medo de Davi continua aumentando.

Saul deve pensar que está no caminho certo ao tentar que Davi seja morto pelas mãos de algum dos inimigos de Israel, mas ele precisa atrai-lo a uma empreitada mais perigosa, que certamente será fatal para ele. Assim, Saul lhe oferece sua filha Merabe como esposa (verso 17). Este não é um presente em resposta à morte de Golias. Deveria ser (17:25), mas não é. É como se Saul tivesse se esquecido de sua promessa. Saul faz com que se pareça uma nova oferta e tudo o que Davi precisa fazer é “ganhar” Merabe, sendo “somente filho valente e guerreando as guerras do SENHOR” (verso 17).

Como estas palavras soam piedosas. Felizmente o texto não é do tipo “esfregue e cheire”, porque o cheiro não seria agradável. Lembro-me de uma canção caipira: “‘Trabalhando’ como o diabo, Servindo ao Senhor”. Se fôssemos escrever uma canção sobre Saul, seria “‘Falando’ como o Senhor, Servindo ao diabo”. Suas palavras são realmente religiosas, mas sua intenção é totalmente vil. Saul oferece sua filha a Davi com a esperança de que ela seja a sua morte enquanto ele procura obter sua mão realizando grandes proezas militares.

Certamente Saul não está preparado para a resposta de Davi. Davi rejeita sua oferta. Não é que Davi esteja relutante em se arriscar na batalha. Isto ele faz com toda disposição, sem esperar qualquer recompensa, como desposar uma das filhas de Saul. Davi é realmente um homem humilde, que considera sua posição indigna de tal presente, por isso, ele recusa. Devido à sua recusa, Merabe é dada a outro homem como esposa. Isto não é conseqüência da mudança de opinião de Saul ou da quebra de sua promessa (não que Saul seja incapaz de tais coisas), mas simplesmente porque o texto não sustenta esta conclusão. É estabelecido um tempo, um prazo, dentro do qual Davi deve preencher certos critérios (ver versos 19 e 26). Uma vez que Davi recusa a oferta de Saul, ele não preenche os requisitos dentro do tempo estabelecido, e então Merabe é dada a Adriel (verso 19). O reflexo disto não é tão negativo para Saul quanto é positivo para Davi.

Grandemente desapontado, Saul tem certeza de que se puder fazer Davi se interessar por uma de suas filhas, ele fará alguma loucura suficientemente grande para se matar em batalha. Como Saul fica feliz ao ouvir que sua filha mais nova, Mical, está loucamente apaixonada por Davi. Esta é sua segunda chance. Uma vez que Mical está mais do que disposta a se casar com Davi, com um ligeiro empurrãozinho, desta vez Davi até pode aceitar a oferta. Ainda resta uma esperança de se livrar dele.

Desta vez Saul é bem mais meticuloso. Ele oferece Mical a Davi e então instrui seus servos a falarem bem de sua idéia para que, desta vez, Davi aceite a oferta. Seus servos falam com Davi e dizem que o rei realmente gosta dele e que todos querem que ele se torne seu genro. Como seria de esperar, Davi responde mostrando sua condição humilde e sua incapacidade em dar um dote apropriado a uma mulher tão nobre. O que ele poderia dar em pagamento seria um insulto a Mical e a Saul. Eis como Saul atrai Davi: ele não quer seu dinheiro - o dote pode ser pago com uma moeda diferente - prepúcios de filisteus! Isto, sim, prende o interesse de Davi. Ele quer Mical e está ansioso para batalhar pelo Senhor; assim, aceita a oferta. No entanto, em vez de ser morto, Davi luta contra os filisteus e apresenta ao rei o dobro do número de prepúcios exigido.

Para seu desgosto, Saul agora deve dar a Davi a mão de sua filha em casamento. Isto representa muito mais do que o fracasso de seus planos, de novo - e até pior, Davi é bem sucedido, de novo. Agora, Saul, que teme demais a Davi e quer vê-lo eliminado, tem dois membros de sua própria família ligados a ele por amor e compromisso. O capítulo começa com a narrativa do amor de Jônatas por Davi e sua aliança com ele; e termina com o amor de Mical por Davi e seu compromisso de casamento com ele. De certa forma, Davi saiu-se vitorioso sobre dois membros diretos da família de Saul. Agora, exatamente aqueles que Saul pensava poder confiar para ajudá-lo a se livrar de Davi, estão ao lado deste. Saul, seus planos e seu reino estão se desintegrando.

O casamento que Saul propõe a Davi é planejado como incentivo para engajá-lo numa ousada campanha militar, e assim ele o faz. O único problema é que estes deveres perigosos não livram Saul de Davi; apenas servem para elevar Davi acima de todos os outros comandantes militares. Ele age mais sabiamente do que todos eles e, por isso, é muito querido.

Conclusão

Voltemos um pouco para dar uma olhada mais abrangente no que o capítulo 18 descreve. Primeiro, da forma mais incomum e inesperada, Deus faz acontecer aquilo que Ele planejou e prometeu. Nos capítulos 13 e 15, Deus mostra a Saul que seu reinado chegará ao fim. Em nosso texto, observamos a desintegração de seu reino. Saul continua a perder o controle de sua própria vida e de seu reino. No capítulo 16, Davi é ungido como o novo rei de Israel e vemos como Deus prepara o caminho para o seu reinado. Davi tem ligações estreitas com Saul e seu palácio. Agora ele está intimamente associado aos membros da família real de Saul - seu filho (agora um amigo chegado) e sua filha (agora esposa de Davi). Ele tem autoridade no exército de Saul e, através de suas experiências, revela-se um homem valente e um grande líder. Davi está em ascensão e Saul em queda. Não é do jeito que esperávamos, mas os planos de Deus raramente acontecem do jeito que esperamos (ver Is. 55:8-11; Rm. 11:33-36: I Co. 2:6-16).

Uma segunda observação de nosso texto é que a Palavra de Deus é absolutamente certa e segura. Deus alerta Saul sobre a disciplina que virá se ele não se arrepender e é quase certo que ele não se arrepende. A despeito dos intensos esforços de Saul, Deus cuida para que seu reino seja removido. Por outro lado, Deus prometeu o reino a Davi, e nosso texto nos assegura que nada menos que o total cumprimento de Sua promessa deve ser esperado. Deus mantém Suas promessas, quer sejam de bênção e prosperidade, quer de julgamento.

Terceiro, vemos em Jônatas a mais excelente ilustração do amor que Deus requer de nós. Somos continuamente instruídos a “amar ao próximo como a nós mesmos” (Lv. 19:18; Mt. 19:19; 22:39, Mc. 12:31; Rm. 13:9; Gl. 5:14; Tg. 2:8). Isto é precisamente o que Jônatas faz com relação a Davi (ver verso 1). Assim, Jônatas é um exemplo para nós de como devemos amar o próximo como a nós mesmos. Não vejo qualquer referência a Jônatas amar primeiro a si mesmo, como um tipo de pré-requisito para amar aos outros. O que vejo é auto-sacrifício, quando Jônatas, de bom grado, desiste de seu reino em favor de Davi (sem mencionar seu manto e sua armadura). Jônatas é um amigo leal e fiel, que arriscará sua própria vida para salvar a vida de Davi. Que homem nobre e abnegado Jônatas é! A tanto quanto a Bíblia se refere suas ações não estão “acima e além do chamado do dever”; elas são o cumprimento de seu dever, e do nosso.

Quarto, observamos em Saul aquilo que vemos nos discípulos de nosso Senhor durante Seu ministério terreno, e aquilo que, muitas vezes, vemos na igreja hoje em dia - competição, ciúmes e auto-afirmação. Davi é o servo mais leal que Saul já teve e, no entanto, Saul se sente ameaçado pela sua competência, pelo seu sucesso. Os discípulos estavam sempre procurando se afirmar, perguntando quem seria o maior, e se zangavam quando outro discípulo parecia superá-los. Na igreja de hoje, Deus intencionalmente deu a cada cristão um dom ou dons espirituais, para capacitá-lo a se sobressair em determinado ministério. Podemos nos regozijar na força que Deus dá aos outros, procurando nos beneficiar de seus ministérios, ou podemos resistir a eles com um espírito competitivo. Alguns se perguntam o quanto a crítica, o ministério e a doutrina a outros cristãos estão enraizados em ciúmes e inveja, em vez de estarem enraizados na fidelidade a Deus e à Sua Palavra. Vamos tomar cuidado com o ciúme, não importa quão religioso seja o rótulo que demos a ele ou às suas manifestações.

Jônatas e Saul ilustram, cada um ao seu modo, uma das duas reações lógicas ao fato de Jesus ser o rei de Deus. Davi é o escolhido de Deus como o próximo rei de Israel. Saul parece ter conhecimento disto, e se opõe intensamente, a ponto de fazer todos os esforços para dar cabo de Davi. Jônatas também parece ter conhecimento disto e, mesmo que isto signifique que Davi reinará em seu lugar, Jônatas faz aliança com ele e renuncia a seu direito ao trono.

Deus designou Seu Filho, Jesus Cristo, para estabelecer o Seu Reino e governar sobre todas as criaturas da terra, e do céu. Como Saul, podemos procurar prolongar nosso reinado e resistir ao reino inevitável do rei de Deus. Se assim o fizermos, o faremos para nossa própria destruição. Ou, então, podemos renunciar a todo pensamento de reinar e nos submetermos ao rei de Deus, o Senhor Jesus Cristo, como Jônatas se submeteu a Davi. A escolha certa é renunciar a todo e qualquer pensamento de tentar manter o controle e autoridade sobre a nossa própria vida, e nos submetermos somente Àquele que é qualificado para reinar. Estas são as duas únicas escolhas que Deus nos dá. Não levar Cristo a sério é rejeitar o Seu governo. Resistir ao reino de Cristo é trazer julgamento sobre nós mesmos. Submeter-se a Ele é ter a vida eterna. Qual delas você escolherá? Com quem será parecido: Jônatas ou Saul? Jamais você tomará uma decisão tão importante em toda a sua vida.

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