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Angelologia: A Doutrina dos Anjos

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Introdução

O facto de Deus ter criado um domínio de seres pessoais à parte da humanidade é um tópico apropriado para estudos teológicos sistematizados, uma vez que, naturalmente, alarga a nossa compreensão de Deus, aquilo que faz e o modo como actua no universo.

Não devemos pensar que o homem é o expoente máximo da criação. Da mesma forma que a distância entre o homem e as formas de vida inferiores está preenchida por seres de diferentes níveis, também é possível que, entre Deus e o homem, existam criaturas com inteligência e poder superiores aos humanos. De facto, a existência de divindades menores em todas as mitologias pagãs pressupõe a existência de uma classe mais elevada de seres entre Deus e o homem, superiores ao homem e inferiores a Deus. Esta possibilidade converte-se em certeza através do ensinamento manifesto e explícito das Escrituras. Seria muito triste que nos permitíssemos ser vítimas da percepção dos sentidos e materialistas ao ponto de nos recusarmos a crer numa ordem de seres espirituais, simplesmente por se encontrarem fora do alcance da nossa visão e toque.1

O estudo dos anjos, ou a doutrina da angelologia, é uma das dez categorias principais de teologia desenvolvidas em muitos trabalhos teológicos sistematizados. A tendência, porém, tem sido negligenciá-la. Como Ryrie escreve,

Para demonstrar este facto, basta examinar cuidadosamente o espaço dedicado à angelologia nas teologias clássicas. Este desinteresse pela doutrina pode simplesmente ser negligência ou indicar uma rejeição tácita desta área do ensinamento bíblico. Até mesmo Calvino foi cauteloso na discussão de tal assunto (Institutas, I, xiv, 3).2

Embora a doutrina dos anjos ocupe um lugar importante na Palavra de Deus, é vista com frequência como um assunto difícil, pois, apesar de existir na Bíblia uma abundante referência a anjos, a natureza desta revelação dá-se sem o mesmo tipo de descrição explícita que frequentemente encontramos noutros assuntos desenvolvidos na Bíblia:

Cada uma das referências a anjos é inerente a outro assunto. Não são tratados em si mesmos. A revelação de Deus nunca visa informar-nos acerca da natureza dos anjos. Quando são mencionados, é sempre de modo a dar-nos mais informação sobre Deus, sobre o que Ele faz e como o faz. Uma vez que os detalhes acerca dos anjos não são relevantes para tal objectivo, tendem a ser omitidos.3

Embora muitos detalhes acerca dos anjos sejam omitidos, é importante manter em mente três aspectos importantes da revelação bíblica que Deus nos concedeu a respeito dos mesmos.

(1) A referência a anjos na Escritura é vasta. Na tradução bíblica NASB, estes seres celestiais são referidos 196 vezes, 103 no Antigo Testamento e 93 no Novo.

(2) Além disso, estas referências numerosas estão espalhadas ao longo da Bíblia, encontrando-se em pelo menos 34 livros, desde os mais antigos (Job ou Génesis) até ao último livro da Bíblia (Revelação).

(3) Finalmente, existem numerosas referências a anjos da parte do Senhor Jesus, o qual a Escritura declara ser o criador de todas as coisas, incluindo os seres angélicos. Paulo escreveu: “Porque nele foram criadas todas as coisas que há, nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades (uma referência a anjos): tudo foi criado por ele e para ele” (Cl. 1:16).

Assim, embora a referência aos anjos possa parecer contextualmente inerente a outro tema, é um elemento importante da revelação divina e não deve ser negligenciada, especialmente em vista da mania moderna e abundantes ideias erradas acerca dos anjos. Assim, é a partir deste extenso corpo da Escritura que a doutrina dos anjos, conforme apresentada neste estudo, será desenvolvida. O objectivo é fazer da Bíblia a nossa autoridade, em detrimento das especulações dos homens, suas experiências ou aquilo que as pessoas pensam parecer lógico.

Embora os teólogos tenham sido cautelosos no seu estudo de anjos, temos sido bombardeados, em anos recentes, pelo que facilmente poderia ser chamado Anjomania4. Em”Kindred Spirit”, Dr. Kenneth Gangel escreveu um artigo, intitulado Angelmania, acerca da discussão e fascínio generalizado com anjos, até mesmo por parte do mundo secular.5 Gangel escreve:

No seu livro de 1990, Angels: An Endangered Species (Anjos: Uma Espécie em Vias de Extinção), Malcolm Godwin estima que, ao longo dos últimos 30 anos, uma em cada dez canções pop mencione um anjo. Mas tal não passava de diversão romântica.

Hoje em dia, a nossa cultura leva os anjos a sério, se não com precisão. Nos últimos dois anos, Time, Newsweek, Ladies’ Home Journal, Redbook e um grande número de outras revistas populares têm trazido artigos sobre anjos. Nos meados de 1994, a ABC transmitiu um especial de duas horas, em horário nobre, intitulado “Angels: the Mysterious Messengers” (“Anjos: os Mensageiros Misteriosos”). Na edição de 28 de Novembro de 1994, a Newsweek publicou um artigo denominado “In Search of the Sacred” (“Em Busca do Sagrado”), que observou que “20% dos americanos tiveram uma revelação de Deus no último ano, e 13% viram ou sentiram a presença de um anjo” (p.54).

A Newsweek está certa: a sociedade moderna, aparentemente tão secular e irremediavelmente materialista, procura desesperadamente algum significado espiritual e sobrenatural. Se os anjos o puderem proporcionar, então que sejam os anjos. São certamente mais alegres e luminosos do que a nossa paixão de longa data por filmes acerca de demónios e espíritos malvados, em conjunto com as readaptações sem fim do Drácula.6

As livrarias estão cheias de livros sobre anjos, e muitos são os que clamam encontros com os mesmos. Uma das principais estações televisivas tem um programa popular, intitulado “Touched By An Angel” (“Tocado Por Um Anjo”). Certamente, é apenas uma história para entretenimento, mas ilustra o nosso fascínio com este tópico. Adicionalmente, revela um entendimento muito pobre sobre aquilo que a Bíblia realmente ensina acerca dos anjos e de Deus. Através destes comentários, não pretendo fazer pouco caso dos chamados encontros com anjos, sobre os quais ocasionalmente lemos ou ouvimos falar. Porquê? Porque, como será discutido com maior detalhe mais tarde, os anjos são servos de Deus, descritos pelo autor de Hebreus como “espíritos, ao serviço de Deus, enviados a fim de exercerem um ministério a favor daqueles que hão-de herdar a salvação”. Veja também Salmos 91:11 e Mateus 4:11. Assim, certamente, graças ao carácter inspirado e inerrante da Escritura, podemos confiar plenamente no ensinamento da Bíblia sobre os anjos e, “talvez com um grau de certeza menor, ter em consideração os relatos pessoais de cristãos respeitáveis”.7

Há uma importante questão a ser feita. Porquê todo este fascínio com os anjos na nossa cultura? Primeiro, há sempre uma inclinação no homem para o miraculoso ou sobrenatural, que o ergue do mundano e da dor de viver, mesmo que por um momento; mas existem ainda mais aspectos a considerar. O interesse nos anjos é em parte devido às oscilações pendulares da sociedade. No passado, a sociedade oscilou desde as grosseiras especulações místicas da Idade Média até ao racionalismo dos finais de 1800 e inícios de 1900. Agora, em parte devido ao fracasso do racionalismo e materialismo no fornecimento de respostas e significado à vida, o vazio do coração humano, aliado à futilidade das suas ambições, deu origem ao interesse pelo domínio místico, sobrenatural e espiritual. A tragédia reside no facto de que a nossa cultura continua a procurar isto independentemente da revelação de Deus, a Bíblia. O pêndulo oscilou de volta ao misticismo, visto de forma tão proeminente no movimento da Nova Era, no ocultismo e nos cultos. Assim, a crença em Satanás, demónios e anjos é cada vez mais comum hoje em dia, usada em substituição da relação com Deus através de Cristo. Esta predisposição não se verifica porque as pessoas acreditem na Bíblia, mas sim por causa da emergência dos fenómenos ocultos e da futilidade da vida sem Deus (veja Ef. 2:12 e 4:17-19).

Uma Definição Simples

Os anjos são seres espirituais criados por Deus para O servirem, embora superiores ao homem. Alguns, os anjos bons, permaneceram-Lhe obedientes e levam a cabo a Sua vontade, enquanto outros, anjos decaídos, desobedeceram, caíram da sua posição santa e erguem-se agora em oposição activa contra a obra e plano de Deus.

Os Termos Aplicados aos Anjos

Termos Gerais

Anjo

Embora outras palavras sejam usadas a respeito destes seres espirituais, o termo prioritário na Bíblia é anjo. Três outros termos que indubitavelmente se referem a anjos são serafim (Is. 6:2), querubim (Ez. 10:1-3) e espíritos ministradores, que é talvez mais uma descrição do que um nome (Hb. 1:13-14). Mais será posteriormente acrescentado a este assunto, quando se analisar a classificação dos anjos. 

A palavra hebraica para anjo é mal`ach, sendo o termo grego angelos. Ambas as palavras significam “mensageiro”, descrevendo alguém que executa o propósito e vontade daquele a quem serve. O contexto determinará se se tem em vista um mensageiro humano ou um dos seres celestiais chamados “anjos”, ou se está a ser mencionada a segunda Pessoa da Trindade, conforme será discutido mais à frente. Os anjos santos são mensageiros de Deus, servindo-O e executando as Suas ordens. Os anjos decaídos servem a Satanás, o deus deste mundo (aiwn, “era”) (2 Cor. 4:4).

Exemplos de usos que não se referem a seres celestiais:

(1) Mensageiros humanos, de um humano para outro (Lucas 7:24; Tg. 2:25).

(2) Mensageiros humanos, trazendo uma mensagem divina (Ag. 1:13; Gl. 4:14).

(3) Um agente impessoal, o espinho na carne de Paulo descrito como “um mensageiro de Satanás” (2 Cor. 12:7).

(4) Os mensageiros das sete igrejas (Rev. 2-3). O termo também é usado em associação com as sete igrejas da Ásia, “Ao anjo da igreja de...”. Algumas pessoas interpretam-no como fazendo referência a um mensageiro especial ou delegação da igreja, tal como um mestre ancião, enquanto outras consideram que se refere a um anjo-da-guarda.

Portanto, o termo angelos não só é um termo genérico, relativo a uma ordem especial de seres (isto é, anjos), mas é também descritivo e expressivo do seu cargo e serviço. Assim, ao lermos a palavra “anjo”, deveremos pensar nela desta forma.

Santos

Os anjos não decaídos são também referidos como “santos” (Sl. 89:5, 7). A razão para tal é dupla. Primeiro, sendo a criação de um Deus santo, foram criados perfeitos, sem qualquer defeito ou pecado. Segundo, são chamados santos devido ao seu propósito. Foram “reservados” por Deus e para Deus, enquanto Seus servos e assistentes da Sua santidade (confira Is. 6).

Hoste

“Hoste” provém do hebraico tsaba, “exército, exércitos, hostes”. É um termo militar, invocativo da ideia de guerra. Os anjos são descritos como a “hoste”, chamando a atenção para duas ideias. Primeiro, o termo é usado para descrever os anjos de Deus como os “exércitos do Céu”, que servem no exército de Deus, dedicado à batalha espiritual (Sl. 89:6, 8; 1 Sm. 1:11; 17:45). Segundo, chama a atenção para a faceta dos anjos enquanto multidão de seres celestiais, que rodeiam e servem a Deus, como se constata na frase “Senhor dos Exércitos” (Is. 31:4). Adicionalmente, tsaba inclui por vezes a hoste dos corpos celestes, as estrelas do universo.

Termos Difíceis

Filhos de Deus

No seu estado santo, os anjos não decaídos são chamados “filhos de Deus”, no sentido em que foram trazidos à existência através da Sua criação (Job 1:6; 38:7). Embora nunca seja referido que tenham sido feitos à imagem de Deus, também podem ser chamados “filhos de Deus”, já que possuem uma personalidade semelhante à Sua. Tal será demonstrado posteriormente neste estudo. Este termo também é usado em Génesis 6:2, que nos diz que os “filhos de Deus” escolheram esposas de entre as “filhas dos homens”. Alguns estudiosos interpretam “os filhos de Deus” de Génesis 6:2 como uma referência aos filhos da descendência piedosa de Set, e as “filhas dos homens” como uma referência à descendência ímpia dos cainitas. Outros, em linha com o uso de “filhos de Deus” em Job, acreditam que o termo se refere aos anjos decaídos, que se relacionaram com as filhas dos homens a fim de produzirem uma descendência extremamente perversa e poderosa, que conduziu à perversidade extrema dos dias de Noé. Aqueles que defendem esta última perspectiva encontram apoio adicional em 2 Pedro 2:4-6 e Judas 6-7. 8 Ainda assim, algumas pessoas crêem que se referem a déspotas, governadores poderosos. Ross escreve:

Trata-se de um incidente de arrogância, o pisar orgulhoso dos limites. Aplica-se aqui aos “filhos de Deus”, um grupo lascivo e poderoso em busca de fama e fertilidade. Provavelmente, eram governadores poderosos, controlados (habitados) por anjos decaídos. Poderá ter acontecido que os anjos decaídos tenham deixado a sua morada e habitado corpos de déspotas e guerreiros humanos, os poderosos da terra.9

O Anjo do Senhor

A segunda dificuldade diz respeito à identidade do “anjo do Senhor”, conforme aparece no Antigo Testamento. Um estudo cuidadoso das muitas passagens que usam este termo sugere que não se trata de um anjo comum, mas sim de uma Teofania – ou melhor, de uma Cristofania, uma aparição pré-encarnada de Cristo. O anjo é identificado como Deus, fala como Deus e afirma executar as ordens de Deus. Não obstante, em algumas passagens, Ele distingue-se a Si mesmo de Javé (Gn. 16:7-14; 21:17-18; 22:11-18; 31:11-13, Ex. 3:2; Jz. 2:1-4; 5:23; 6:11-22; 13:3-22; 2 Sm. 24:16; Zc. 1:12; 3:1; 12:8). A hipótese de que o Anjo do Senhor seja uma Cristofania é sugerida pelo facto de as referências claras ao “Anjo do Senhor” cessarem após a encarnação. Referências a um anjo do Senhor em Lucas 1:11, 2:8 e Actos 5:19 ocorrem sem o artigo grego, sugerindo um anjo comum.

A Origem, Natureza e Número dos Anjos

Os Anjos São Seres Criados

O Facto da Sua Criação

O facto de que os anjos são seres criados, e não espíritos de humanos falecidos ou glorificados, é realçado no Salmo 148. Nele, o Salmista incita todos os que se encontram nos domínios celestiais, incluindo os anjos, a louvar a Deus. A razão dada é “Ele ordenou e logo foram criados” (Sl. 148:1-5). Os anjos, assim como os domínios celestiais, são declarados criações de Deus.

Uma vez que Deus É Espírito (João 4:24), é natural assumir-se que existem seres criados que se assemelham mais intimamente a Ele do que as criaturas mundanas, combinações dos domínios material e imaterial. Há um reino material, um reino animal e um reino humano; assim, pode assumir-se que há um reino angélico ou espiritual. Porém, a Angelologia assenta não na razão ou suposição, mas sim na revelação.10

O Momento da Sua Criação

Embora o momento exacto da sua criação nunca seja enunciado, sabemos que foram criados antes da criação do mundo. A partir do livro de Job, é-nos dito que se encontravam presentes quando a terra foi formada (Job 38:4-7); assim, a sua criação antecedeu a da terra, conforme descrito em Génesis 1.

O Agente da Sua Criação

A Escritura afirma especificamente que Cristo, enquanto Aquele que criou todas as coisas, é o criador dos anjos (compare João 1:1-3 com Cl. 1:16).

A Criação do Filho inclui “todas” as coisas no Céu e na terra, visíveis e invisíveis. Tal abrange todo o universo, material e imaterial. É referida uma hierarquia altamente organizada de seres angélicos, através das palavras “tronos” (qronoi), “dominações” (kuriothtes), “principados” (arcai) e “potestades” (exousiai). Este facto não só indica um domínio altamente organizado no mundo espiritual dos anjos, mas mostra também que Paulo escrevia a fim de refutar uma forma incipiente de Gnosticismo, que promovia a adoração de anjos em lugar da adoração de Cristo (confira Cl. 2:18). Desta forma, Paulo demonstra a superioridade desta última adoração e seu legítimo lugar supremo (confira Ef.1:21; 3:10; 6:12; Fl. 2:9-10; Cl. 2:10, 15).11

A Natureza e Número da Sua Criação

Os anjos foram criados simultaneamente, como hoste ou companhia. Deus criou o homem e o reino animal aos pares, com a responsabilidade e capacidade de procriar. Os anjos, porém, foram criados em simultâneo como uma companhia, uma hoste incontável de miríades (Cl. 1:16; Neemias 9:6). Isto é sugerido pelo facto de não estarem sujeitos à morte ou qualquer forma de extinção e não se propagarem ou multiplicarem, ao contrário do que acontece com os humanos. Hebreus 9:27 diz “... está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juízo.” Embora, no futuro, os anjos decaídos venham a ser julgados e permanentemente confinados ao lago de fogo (Mt. 25:41; 1 Cor. 6:3; 2 Pd. 2:4; Judas 6), não existe qualquer referência à morte de um anjo (veja Lucas 20:36). Não obstante, são uma hoste inumerável, criada antes da criação da terra (compare Job 38:7; Ne. 9:6; Sl. 148:2, 5; Hb. 12:22; Dn. 7:10; Mt. 26:53; Rv. 5:11; com Mt. 22:28-30; Lucas 20:20-36).

Os Anjos São Seres Espirituais

A Sua Morada

Afirmações como “os anjos que estão no céu” (Marcos 13:32) e “um anjo do céu” sugerem que os anjos têm moradas fixas ou centros para as suas actividades. Porém, devido ao ministério e capacidades que lhes foram conferidos no serviço de Deus, têm acesso a todo o universo. São descritos como servindo no céu e na terra (confira Is. 6:1 ss; Dn. 9:21; Rv. 7:2; 10:1).

Embora os anjos decaídos pareçam ter outra morada que não o céu, não é fornecida nenhuma localização específica, excepto a indicação de que, antes de ser libertado, Satanás será aprisionado no “Abismo”, durante o milénio posterior à Segunda Vinda (Rv. 20:3). Do mesmo modo, é dito que a praga que aparenta ser demoníaca provém do Abismo (9:1-30). Os anjos decaídos também têm um rei, referido como “o anjo do Abismo” (vs. 11). O destino desses anjos é o lago de fogo (Mt. 25:41). Os anjos santos habitarão nos novos céus e nova terra, descritos em Revelação 21-22.12

A referência ao “Abismo” traz ao de cima outro elemento importante a respeito da morada dos anjos decaídos. Ryrie escreve:

As Escrituras indicam com clareza dois grupos de anjos decaídos, um constituído por aqueles que têm alguma liberdade para desempenhar os planos de Satanás, e outro por aqueles que estão aprisionados. Entre os que se encontram aprisionados, alguns estão-no temporariamente, ao passo que outros estão permanentemente votados ao Tártaro (2 Pedro 2:4 e Judas 6). Os gregos imaginavam o Tártaro como um lugar de castigo inferior ao hades. Aqueles que estão temporariamente aprisionados encontram-se no abismo (Lucas 8:31; Rv. 9:1-3, 11), aguardando ali o julgamento final ou que sejam postos em liberdade na terra (versículos 1-3, 11, 14; 16:14).13 (ênfase minha)

Judas fala também da morada dos anjos:

Judas 1:6 E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas, até ao juízo daquele grande dia.

Embora se discuta o significado desta passagem, esta mostra-nos que os anjos não só têm um domínio ou esfera de autoridade que lhes é atribuída, mas também possuem um lugar de habitação.

O mais provável é tratar-se de uma referência aos anjos (“filhos de Deus”, confira Gn. 6:4; Job 1:6; 2:1) que desceram à terra e se relacionaram com mulheres. Esta interpretação é explorada ao pormenor no pseudo-epígrafo Livro de Enoque (7, 9.8, 10.11; 12.4), o qual Judas cita no versículo 14, e que é comum na literatura intertestamentária e entre os pais da Igreja primitiva (por exemplo, Apologia de Justino 2.5). Estes anjos “não guardaram o seu principado” (ten heauton archen). O uso da palavra arche para “poder”, “domínio” ou “esfera” é incomum, mas parece registar-se nesta passagem (confira BAG, p. 112). Está implícita a ideia de que Deus entregou aos anjos responsabilidades específicas (arche, “domínio”) e um local definido (oiketerion). Porém, devido à sua rebelião, Deus manteve ou reservou (tetereken, tempo perfeito) estes anjos decaídos nas trevas, em cadeias eternas, a aguardar o julgamento final. Aparentemente, alguns anjos decaídos encontram-se presos, enquanto outros permanecem livres e activos entre a humanidade, sob a forma de demónios.14

A Sua Imaterialidade

Embora se tenham por vezes revelado na forma de corpos humanos (angelofanias), tal como em Génesis 18:3, são descritos como “espíritos” em Hebreus 1:14. Isto sugere que não têm corpos materiais, ao contrário dos humanos. Tal é apoiado ainda pelo facto de não funcionarem como os seres humanos em termos de casamento e procriação (Marcos 12:25), nem estarem sujeitos à morte (Lucas 20:36).

A humanidade, incluindo o nosso Senhor encarnado, é “inferior aos anjos” (Hb. 2:7). Os anjos não estão sujeitos às limitações do homem, especialmente uma vez que são incapazes de morrer (Lucas 20:36). Os anjos têm maior sabedoria do que o homem (2 Sm. 14:20), mas, ainda assim, limitada (Mt. 24:36). Os anjos têm poder superior ao do homem (Mt. 28:2; Actos 5:19; 2 Pedro 2:11) mas, mesmo assim, estão limitados em poder (Dn. 10:13).

Os anjos, porém, têm limitações comparativamente ao homem, particularmente numa perspectiva futura. Os anjos não foram criados à imagem de Deus, não partilhando por isso o destino glorioso de redenção do homem em Cristo. Na consumação dos tempos, o homem redimido será exaltado acima dos anjos (1 Cor. 6:3).15

Millard Erickson escreve:

Pode inferir-se que os anjos são espíritos a partir das seguintes considerações:

Os demónios (anjos decaídos) são descritos como espíritos (Mt. 8:16; 12:45; Lucas 7:21; 8:2; 11:26; Actos 19:12; Rv. 16:14).

É-nos dito que não lutamos contra “a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Ef. 6:12).

Em Colossenses 1:16, Paulo parece identificar as forças celestiais como invisíveis.

Embora não necessariamente, as afirmações de Jesus quanto aos anjos não casarem (Mt. 22:30) nem morrerem (Lucas 20:36) aparentam indicar que os anjos são espíritos.16

Embora sejam seres espirituais muito poderosos, os anjos não são omnipotentes, omniscientes nem omnipresentes. Não podem estar em todo o lado ao mesmo tempo.

A Sua Aparência

Visto que são seres espirituais, normalmente não são visíveis, a menos que Deus conceda a capacidade de os ver ou se manifestem. Balaão não conseguia ver o anjo no seu caminho até que o Senhor abriu os seus olhos (Nm. 22:31), e o servo de Eliseu não foi capaz de ver a hoste de anjos que o rodeava até Eliseu ter orado para que os seus olhos fossem abertos (2 Reis 6:17). De acordo com os registos das Escrituras, ao serem avistados, os anjos eram frequentemente confundidos com homens, por se manifestarem com aparência masculina (Gn. 18:2, 16, 22; 19:1, 5, 10, 12, 15, 16; Jz. 13:6; Marcos 16:5; Lucas 24:4). Por vezes, aparecem de uma forma que manifesta a glória de Deus (Lucas 2:9; 9:26) ou com algum tipo de vestuário resplandecente (compare Mt. 28:3; João 20:12; Actos 1:10 com Ez. 1:13; Dn. 10:6). De um modo consistente, apareceram como homens reais – nunca como fantasmas ou animais alados (confira Gn. 18:2; 19:1; Marcos 16:3; Lucas 24:4).

Ocasionalmente, são retratados sob outras formas ou manifestações, tais como com asas ou combinações de homem, animal e pássaro, conforme sucede em Ezequiel 1:5 ss e Isaías 6:6. Mas, aparentemente, tais manifestações apenas ocorreram através de uma visão ou revelação especial de Deus. Nenhum anjo apareceu literalmente nessa forma.

Também parecem ter sempre aparecido como jovens ou adultos (Marcos 16:5), mas nunca como idosos, quiçá porque não envelhecem nem morrem (Lucas 20:36).

No contexto do fascínio actual da nossa cultura, previamente referido como anjomania, o conceito comum dos anjos é o de criaturas aladas, a maioria das vezes do género feminino.

Algumas das ideias comummente aceites não são apoiadas pelo testemunho bíblico. Não existe qualquer indicação de anjos que tenham aparecido como mulheres. De igual modo, não há referência explícita a que tenham asas, embora Daniel 9:21 e Revelação 14:6 os descrevam voando. Os querubins e serafins são representados com asas (Ex. 25:20; Is. 6:2), da mesma forma que as criaturas simbólicas de Ezequiel 1:6 (confira Rv. 4:8). Contudo, não temos garantias de que aquilo que é verdade em relação aos querubins e serafins o seja para os anjos em geral. Uma vez que não há qualquer referência explícita a indicar que a globalidade dos anjos seja alada, tal deve ser considerado, na melhor das hipóteses, uma inferência, ainda que não obrigatória, feita a partir das passagens bíblicas que os descrevem voando.17

Embora na Escritura os anjos geralmente apareçam como homens, Zacarias 5:9 poderá sugerir que tal nem sempre é o caso. As duas mulheres mencionadas nesta passagem não são especificamente chamadas de anjos, mas são claramente agentes de Deus ou forças de Satanás, tal como os anjos, bons ou maus.

A Sua Santidade

Todos os anjos foram criados santos, sem pecado, num estado de perfeita santidade.

Originalmente, todas as criaturas angélicas foram criadas santas. Deus considerou boa a Sua criação (Gn. 1:31) e, como é óbvio, Ele não poderia criar o pecado. Mesmo depois de o pecado ter entrado no mundo, os anjos bons de Deus, que não se rebelaram contra Ele, são chamados de santos (Marcos 8:38). Estes são os anjos eleitos (1 Tm. 5:21), em oposição aos anjos maus, que seguiram Satanás na sua rebelião contra Deus (Mt. 25:41).18

O Seu Carácter de Criatura

Enquanto seres criados, são meras criaturas. Não são divinos, estando a sua adoração expressamente proibida (veja Cl. 2:18; Rv. 19:10; 22:9). Enquanto ordem à parte de criaturas, são diferentes dos seres humanos e superiores aos mesmos, com poderes bem para lá das nossas capacidades no momento presente (confira 1 Cor. 6:3; Hb. 1:14; 2:7). Mas, enquanto criaturas, estão limitados nos seus poderes, conhecimento e actividades (1 Pedro 1:11-12; Rv. 7:1). À semelhança de toda a criação, os anjos encontram-se sob a autoridade de Deus e sujeitos ao Seu julgamento (1 Cor. 6:3; Mt. 25:41).

Na sequência da revelação concedida a João, em duas ocasiões o apóstolo prostrou-se em adoração, mas logo o anjo lhe disse que não o fizesse, dando-lhe depois a razão. Os anjos não são mais do que “servos” como nós, chamados a servir a Deus, como todas as Suas criaturas deveriam fazer. Assim, foi dito a João para “adorar a Deus”. A adoração de anjos (tal como acontece com qualquer objecto de adoração) distrai da adoração de Deus, atribuindo poderes divinos ao objecto de adoração. Os anjos são poderosos e imponentes de muitas maneiras mas, tal como nós, são simples criaturas e servos do Deus vivo, que deseja a nossa adoração exclusiva. Isto significa que não lhes devemos rezar nem colocar neles a nossa confiança, embora Deus os possa utilizar para colmatar as nossas necessidades de diversas maneiras. A nossa confiança deverá residir em Deus, não nos anjos. Eles ministram sob as Suas ordens, sujeitos à Sua autoridade e poder. Embora, por vezes, o instrumento de auxílio ou salvação tenha sido um anjo, os fiéis do Novo Testamento reconheciam que fora o Senhor quem os salvara (veja Actos 12:11).

Em Actos 27:23-25, Lucas narrou a experiência de Paulo com um anjo que lhe trouxera uma mensagem do Senhor, mas não ocorreu adoração do anjo. Em vez disso, a fé de Paulo encontrava-se no Deus a quem servia.

23 Porque, esta mesma noite, o anjo de Deus, de quem eu sou, e a quem sirvo, esteve comigo, 24 dizendo: “Paulo, não temas; importa que sejas apresentado a César, e eis que Deus te deu todos quantos navegam contigo”. 25 Portanto, ó varões, tende bom ânimo; porque, creio em Deus, que há-de acontecer assim como a mim me foi dito.

Escrevendo acerca da sua invisibilidade aos olhos da humanidade, Chafer apresenta um comentário interessante:

Uma razão pela qual os anjos são invisíveis aos olhos humanos poderá ser que, caso fossem vistos, seriam adorados. O homem, tão propenso à idolatria e à adoração do trabalho das suas próprias mãos, dificilmente resistiria à adoração dos anjos, estivessem eles diante dos seus olhos.19

A igreja em Colossos fora invadida por falsos doutores, que ensinavam uma falsa humildade e adoração de anjos como parte de um método de espiritualidade. Parece que estes doutores afirmavam ter revelações místicas especiais, como resultado de visões associadas à sua adoração de anjos. A respeito disto, Paulo escreveu:

Colossenses 2:18 Não permitam que ninguém que tenha prazer numa falsa humildade e na adoração de anjos vos impeça de alcançar o prémio. Tal pessoa conta detalhadamente as suas visões, e a sua mente carnal torna-a orgulhosa (NVI).

A pessoa que tenta fazer tal juízo é descrita como alguém que tem “prazer numa falsa humildade e na adoração de anjos”. O contexto sugere que procurava impor estas coisas aos colossenses, tentando, por esse meio, impedi-los de alcançar o seu prémio.20

Tal era demoníaco, pois tratava-se de uma tentativa de usurpar a posição preeminente e suficiência de Cristo enquanto Salvador e Senhor (confira Cl. 2:10). Não admira, portanto, que o autor de Hebreus demonstre, na mais extensa passagem acerca de anjos do Novo Testamento (Hb. 1:5-2:9), a superioridade de Cristo, até em relação aos anjos poderosos (Hb. 1:2-4, 13). Desta forma, conclui o seu argumento com uma questão destinada a mostrar que Cristo, o próprio Filho de Deus e esplendor da Sua glória, sentado à direita de Deus, é superior aos anjos: “Não são, porventura, todos eles, espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão-de herdar a salvação?” (Hb. 1:14).

As Suas Personalidades

Existem várias qualidades comuns à personalidade que todos os anjos possuem – existência pessoal, intelecto, emoção e vontade. Enquanto personalidades, vemo-los interagir vez após vez ao longo da Bíblia. Ryrie escreve:

Os anjos, assim, qualificam-se como personalidades porque possuem estes aspectos de inteligência, emoções e vontade. Tal é verdade quer para os anjos bons, quer para os maus. Os anjos bons, Satanás e os demónios têm inteligência (Mt. 8:29; 2 Cor. 11:3; 1 Pedro 1:12). Os anjos bons, Satanás e os demónios mostram emoções (Lucas 2:13; Tiago 2:19; Rv. 12:17). Os anjos bons, Satanás e os demónios demonstram ter vontade própria (Lucas 8:28-31; 2 Tm. 2:26; Judas 6). Assim, pode dizer-se que são pessoas. O facto de não terem corpos humanos não afecta as suas personalidades (tal como se verifica com Deus).21

Os anjos decaídos são até descritos através de actos de personalidade, como mentir e pecar (João 8:44; 1 João 3:8-10). Algumas pessoas têm considerado os anjos, incluindo Satanás, uma mera personificação abstracta do bem e do mal, mal tal não se enquadra de todo no ensinamento da Escritura.

As Suas Capacidades e Poderes

O Seu Conhecimento: Jesus disse: “Porém, daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas unicamente meu Pai” (Mt. 24:36). O comentário do Senhor sugere duas coisas: (1) A frase “nem os anjos” implica que os anjos têm conhecimento sobre-humano, mas (2) a afirmação principal deste versículo mostra que estão limitados na sua sabedoria, não sendo omniscientes. A superioridade do seu conhecimento é também sugerida pelo facto de terem estado presentes em alguns dos conselhos celestiais, envolvidos na transmissão de revelações (Gl. 3:19) e sido usados por Deus para interpretar visões, como nos casos de Daniel e Zacarias.

Ryrie sugere três razões para o seu conhecimento superior:

(1) Comparativamente aos humanos, os anjos foram criados como uma ordem superior de criaturas no universo. Assim, possuem um conhecimento superior inato. (2) Os anjos estudam a Bíblia mais profundamente do que alguns humanos, adquirindo conhecimento a partir dela (Tiago 2:19; Rv. 12:12). (3) Os anjos adquirem conhecimento através de uma longa observação das actividades humanas. Ao contrário dos humanos, os anjos não precisam de estudar o passado; experienciaram-no. Por consequência, sabem de que forma outros agiram e reagiram em determinadas situações, conseguindo prever, com maior grau de exactidão, como poderemos agir em circunstâncias similares. A experiência da longevidade confere-lhes um conhecimento superior.22

A Sua Força: Dado que o homem foi criado inferior aos anjos, com limitações que os anjos não têm, esperaríamos que possuíssem também força sobre-humana. O facto de que a força dos anjos supera a do homem é evidente em pelo menos duas considerações:

(1) Afirmações Específicas na Escritura: A Escritura fala especificamente do seu poder superior. O Salmo 103:20 sugere pelo menos a superioridade da sua força na afirmação “Bendizei ao Senhor, anjos seus, magníficos em poder, que cumpris as suas ordens”. Em seguida, 2 Tessalonicenses 1:7 refere-se ao regresso do Senhor com os Seus anjos poderosos, no meio de fogo flamejante. Adicionalmente, 2 Pedro 2:11 diz “enquanto os anjos, sendo maiores em força e poder, não pronunciam contra eles juízo blasfemo diante do Senhor”. A única questão que aqui se levanta é a seguinte: com quem estão a ser comparados? O principal assunto do contexto corresponde aos falsos doutores (seres humanos); porém, devido ao versículo 10, algumas pessoas acreditam que a comparação está a ser feita entre as “glórias” do versículo 10, anjos bons e anjos maus. Nesse caso, o versículo afirma que os anjos bons são mais poderosos do que os maus.

(2) A Descrição das Suas Actividades na Escritura: Embora o seu poder superior proceda sempre de Deus, as obras poderosas que realizam, tais como na execução dos juízos de Deus, demonstram a sua força sobre-humana (confira 2 Cr. 32:21; Actos 12:7-11; e as abundantes referências a actividades angélicas em Revelação). A este respeito, a confiança e oração de Eliseu para que o seu servo visse a miríade de anjos que os rodeava, diante dos exércitos humanos, sugerem a superioridade do seu poder (2 Reis 6:15-17). Certamente, a sua confiança não se baseava apenas na sua superioridade numérica. Exemplos do seu poder podem encontrar-se em Actos 5:19; 12:7, 23; Mateus 28:2 (a pedra que o anjo fez rolar pesava cerca de 4 toneladas).

O Salmista exclamou: “Bendito seja o Senhor Deus, o Deus de Israel, que só Ele faz maravilhas” (Sl. 72:18). Todo o poder miraculoso tem em Deus a sua fonte. Enquanto criaturas angélicas, estão sujeitos às limitações da sua natureza criada. São poderosos, mas não todo-poderosos. Até Satanás, um anjo decaído, é obrigado a actuar com os seus poderes angelicais sob a permissão de Deus (Job 1:12; 2:6).

A Sua Posição

Em Relação ao Homem

Por criação, o homem é inferior aos anjos (Hb. 2:7-9). Os anjos são superiores em inteligência, poder e movimento, mas ainda assim servem o homem como “espíritos ministradores” (Hb. 1:14), enviados a servir os santos, independentemente do seu alto estatuto ou poder. Conforme mencionado, os homens são alertados a nunca adorar anjos, uma vez que são meras criaturas.

Os crentes da actualidade são empiricamente inferiores aos anjos, mas superiores em termos posicionais graças à sua união em Cristo (compare Ef. 1:20-22 com Ef. 2:4-6 e Hb. 2:9). Os cristãos partilham o lugar de Cristo à direita de Deus. Um dia, porém, os crentes serão superiores em estatuto e experiência, e julgarão os anjos (1 Cor. 6:3). Tal refere-se indubitavelmente a algum tipo de orientação governamental que os fiéis terão sobre os anjos. 

Em Referência a Cristo

Graças à Sua natureza e existência essenciais, Cristo é superior, porque Ele é Deus Criador (compare Hb.1:4 ss com Cl. 1:15-17). Ao encarnar, tornou-se inferior durante um breve período (Hb. 2:9), mas tal só se aplica à Sua humanidade. Através da morte, sepultura, ressurreição e ascensão, Cristo tornou-se muito superior aos anjos, enquanto último Adão e segundo homem (confira 1 Cor. 15:45-48; Ef. 1:20-22; 1 Pd. 3:18-22; Cl. 2:15). Enquanto Deus-homem glorificado e exaltado, tornou-se o último Adão. Adão foi cabeça da primeira raça humana, mas Cristo tornou-se cabeça da segunda raça de homens regenerados. É chamado último porque não haverá outra queda e porque Ele, enquanto Salvador exaltado e glorificado, é um Espírito vivificante. Como segundo homem do céu, É visto como cabeça e princípio de uma nova e exaltada raça de pessoas.

A Divisão dos Anjos – Bons e Maus

Apesar de todos os anjos terem sido originalmente criados santos e sem pecado, deu-se uma rebelião por parte de Satanás que, envaidecendo-se devido à sua própria beleza, procurou exaltar-se acima de Deus, rebelando-se. Na sua revolta, levou consigo uma terça parte dos anjos (Rv. 12:4). Esta rebelião e queda são provavelmente descritas para nós em Isaías 14:12-15 e Ezequiel 28:15, personificadas nos reis de Babilónia e Tiro.23 Profetizando sobre um futuro conflito angélico que ocorreria a meio da Tribulação, João escreveu: “Travou-se, então, uma batalha no Céu: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o Dragão, e este pelejava também, juntamente com os seus anjos” (Rv. 12:7). Por outras palavras, existem anjos bons e anjos maus. A respeito da sua queda, Bushwell escreve:

Podemos inferior que os anjos que pecaram fizeram-no com conhecimento pleno das implicações. Optaram pela auto-corrupção, sabendo exactamente o que estavam a fazer. Pecaram sem remédio, não existindo redenção para eles (2 Pedro 2:4; Judas 6). Por outro lado, parece que os anjos santos, ao serem confrontados com a mesma decisão ética e possuindo a mesma capacidade de escolher, concedida por Deus, permaneceram e estão confirmados no seu estado de santidade. Nunca conheceram a experiência do pecado.24

Como é óbvio a partir de Revelação 12:7 e muitas outras passagens, o líder destes anjos decaídos, ou demónios, como também são chamados, é Satanás (confira Mt. 12:25-27). Enquanto líder destes anjos ímpios, Satanás é um mentiroso, assassino e ladrão (João 10:10). Como grande antagonista de Deus, Satanás odeia Deus e o Seu povo, deambulando constantemente como um leão que ruge, buscando a quem devorar através dos seus esquemas nefastos (1 Pedro 5:8). Enquanto ser angélico, Satanás, em conjunto com os seus anjos demoníacos, é poderoso e brilhante a um nível sobrenatural, usando todos os seus poderes contra a humanidade. Não só é mentiroso, ladrão e destruidor, como também uma das suas características principais é o engano. João descreve-o como aquele que “engana todo o mundo” (Rv. 12:9). Na sua astúcia, disfarça-se como anjo de luz (2 Cor. 11:14). Em vista disto, o Apóstolo Paulo escreveu: “Não é muito, pois, que os seus ministros se transfigurem em ministros da justiça...” (2 Cor. 11:15).

A Organização dos Anjos

O Facto da Organização Angélica

Embora a revelação bíblica relativa à organização dos anjos seja algo escassa, diz o suficiente para nos mostrar que parece haver uma hierarquia no mundo angélico. Parecem estar organizados em várias classes, ordens e cargos. Tal é sugerido pelo facto de Miguel ser chamado de Arcanjo ou chefe dos anjos (Judas 9). Depois, em Daniel 10:13, é denominado um dos principais príncipes. Outras classes e ordens são sugeridas pelos termos usados relativamente a anjos em Efésios 3:10; 6:12, e 1 Pedro 3:22. Ryrie escreve:

As Escrituras falam da “assembleia” e “concílio” dos anjos (Sl. 89:5, 7), da sua organização para a batalha (Rv. 12:7) e de um domínio sobre os gafanhotos demoníacos (9:11). Também lhes são dadas classificações governamentais, que indiciam organização e hierarquia (Ef. 3:10, anjos bons; e 6:12, anjos maus). Indubitavelmente, Deus organizou os anjos eleitos, e Satanás organizou os malvados.

Advém daí uma conclusão prática muito importante. Os anjos encontram-se organizados, assim como os demónios; mas os cristãos, individualmente ou em grupo, consideram muitas vezes desnecessário manterem-se organizados. Tal é especialmente verdade no que toca a combater o mal. Por vezes, os crentes sentem que podem “ir sozinhos” ou esperar a vitória sem qualquer preparação e disciplina prévia organizada. Também é verdade no que toca à promoção do bem. Ocasionalmente, os crentes perdem a melhor parte porque não planeiam nem organizam as suas boas obras.25

Tal é apoiado adicionalmente pela afirmação de Judas em relação aos anjos que deixaram o seu “principado” (NASB) ou “posições de autoridade” (NVI), em Judas 6.26 “Principado” corresponde ao grego arche, que pode significar “domínio, regra, autoridade” ou “esfera de influência”.27

As Classificações dos Anjos

Paul Enns fornece-nos uma excelente perspectiva global da maioria das diversas classes ou classificações do mundo angélico organizado.

Anjos que são líderes governamentais. Efésios 6:12 refere-se à “hierarquia dos anjos decaídos”: principados são “os primeiros ou elevados na hierarquia”; potestades são “os dotados de autoridade”; príncipes das trevas deste século “exprime o poder ou autoridade que exercem sobre o mundo”; hostes espirituais da maldade descreve os espíritos perversos, “expressando o seu carácter e natureza”. Daniel 10:13 refere-se ao “príncipe do reino da Pérsia”, que se opunha a Miguel. Não se tratava do rei da Pérsia, mas sim de um anjo decaído sob o controlo de Satanás; era um demónio “de alta hierarquia, nomeado pelo chefe dos demónios, Satanás, para a Pérsia, enquanto sua área especial de actividade” (confira Rv. 12:7).

Anjos de classe superior. Miguel é chamado de arcanjo em Judas 9 e de grande príncipe em Daniel 12:1. Miguel é o único anjo designado de arcanjo, podendo ser o único desta classe. A missão do arcanjo é proteger Israel. (É chamado de “Miguel, vosso príncipe” em Dn.10:21.) Existiam príncipes principais (Dn. 10:13), entre os quais Miguel, enquanto anjos de Deus da mais alta classe. Os principados (Ef. 3:10) são também mencionados, mas não são concedidos mais detalhes.

Anjos proeminentes. (1) Miguel (Dn. 10:13; 12:1; Judas 9). O nome Miguel significa “quem é semelhante a Deus?” e identifica o único arcanjo classificado como tal na Escritura. Miguel é o defensor de Israel, que, na Tribulação, fará guerra a favor de Israel e contra Satanás e suas hordas (Rv. 12.7-9). Miguel também disputou com Satanás acerca do corpo de Moisés, abstendo-se, no entanto, de o julgar, deixando isso para Deus (Judas 9). As Testemunhas de Jeová e outros cristãos identificam Miguel como Cristo; esta perspectiva, porém, iria sugerir que Cristo tem menos autoridade do que Satanás, algo que é indefensável.

(2) Gabriel (Dn. 9:21; Lucas 1:26). O seu nome significa “homem de Deus” ou “Deus É forte”. “Em cada uma das quatro ocasiões em que aparece no registo bíblico, Gabriel aparenta ser o mensageiro especial de Deus para o projecto do Seu reino... Revela e interpreta para os profetas e povo de Israel o propósito de Deus e o plano concernente ao Messias e Seu reino.” Numa passagem altamente significativa, Gabriel explicou os eventos das setenta semanas para Israel (Dn. 9:21 – 27). Em Lucas 1:26-27, Gabriel disse a Maria que Aquele que conceberia seria grande e iria reinar no trono de David. Em Daniel 8:15-16, Gabriel explicou a Daniel a sucessão dos reinos Medo-persa e Grego, bem como a derradeira morte de Alexandre, o Grande. Gabriel também anunciou a Zacarias o nascimento de João Baptista (Lucas 1:11 – 20).

(3) Lúcifer (Is. 14:12) significa “brilhante” ou “estrela da manhã”. Poderá ter sido o mais sábio e mais belo de todos os seres criados por Deus, colocado originalmente numa posição de autoridade sobre os querubins que rodeiam o Seu trono.

Anjos que são assistentes divinos. (1) Os querubins pertencem “à mais alta ordem ou classe, criados com beleza e poderes indescritíveis... O seu propósito principal e actividade podem ser sumariados desta forma: são proclamadores e protectores da presença gloriosa de Deus, Sua soberania e santidade”. Guardavam a entrada do Jardim do Éden, impedindo que o homem pecaminoso entrasse (Gn. 3:24); eram as figuras douradas que cobriam o trono da misericórdia sobre a arca no Santo dos Santos (Ex. 25:17 – 22) e presenciavam a glória de Deus na visão de Ezequiel (Ez. 1). Os querubins tinham uma aparência extraordinária, com quatro faces – de homem, leão, boi e águia. Tinham quatro asas e pés como os de um bezerro, cintilando como bronze polido. Em Ezequiel 1, presenciam a glória de Deus antes do julgamento.

(2) Os serafins, cujo nome significa “ardentes”, são retratados rodeando o trono de Deus em Isaías 6:2. São descritos como tendo seis asas cada. Na sua proclamação tripla, “santo, santo, santo” (Is. 6:3), “reconhecem Deus como extrema e perfeitamente santo”. Assim, louvam e proclamam a santidade perfeita de Deus. Os serafins também expressam a santidade de Deus na medida em que proclamam que o homem deve ser limpo da profanação moral do pecado, antes de poder apresentar-se diante de Deus e servi-Lo.”28

A respeito dos governadores no mundo angélico, Ryrie descreveu o assunto como se segue:

1. Principados. Esta palavra, usada sete vezes por Paulo, indica uma ordem de anjos, quer bons, quer maus, envolvida no governo do universo (Rm. 8:38; Ef. 1:21; 3:10; 6:12; Cl. 1:16; 2:10, 15).

2. Potestades. Este termo enfatiza provavelmente a autoridade sobre-humana dos anjos e demónios, exercida em relação aos assuntos do mundo (Ef. 1:21; 2:2; 3:10; 6:12; Cl. 1:16; 2:10, 15; 1 Pedro 3:22).

3. Dominações. Esta palavra sublinha o facto de que anjos e demónios têm poder superior ao humano (2 Pedro 2:11). Veja Efésios 1:21 e 1 Pedro 3:22.

4. Local de domínio. Numa passagem, os demónios são designados príncipes mundiais das trevas deste século (Ef. 6:12).

5. Tronos. Tal designação enfatiza a dignidade e autoridade dos governantes angélicos e uso respectivo no governo de Deus (Ef. 1:21; Cl. 1:16; 2 Pedro 2:10; Judas 8).29

Algumas pessoas põem em causa se os Serafins e Querubins são realmente anjos, já que nunca são identificados de forma clara como tal; porém, dada a natureza dos anjos e o seu serviço como servos sobre-humanos de Deus, este é o local mais lógico para os classificar. Seria útil ter também em conta a explicação de Ryrie sobre estes seres angélicos:

Querubins: Os querubins constituem uma outra classe de anjos, de hierarquia evidentemente alta, uma vez que Satanás era um querubim (Ez. 28:14, 16). Parecem funcionar como guardiões da santidade de Deus, tendo guardado o caminho para a árvore da vida no Jardim do Éden (Gn. 3:24). O uso de querubins na decoração do templo e do tabernáculo pode ainda indicar a sua função protectora (Ex. 26:1 ss; 36:8 ss; 1 Reis 6:23-29). Também carregavam o trono-carruagem que Ezequiel viu (Ez.1:4-5; 10:15-20). Alguns identificam também as quatro criaturas viventes de Revelação 4:6 como querubins, embora outros pensem que estas possam representar os atributos de Deus. Representações dos querubins farão também parte do templo milenar (Ez. 41:18-20).

Serafins: Tudo o que sabemos acerca desta classe de seres angélicos encontra-se em Isaías 6:2,6. Aparentemente, os serafins eram uma ordem similar aos querubins. Actuavam como assistentes no trono de Deus e agentes de purificação. Também era seu dever louvar a Deus. A sua descrição sugere uma criatura humanóide com seis asas. O termo poderá derivar de uma raiz significando “arder”, ou possivelmente “ser nobre”.30

Restam ainda três outras classificações de anjos:

  1. Anjos Eleitos: Em 1 Timóteo 5:21, Paulo fala dos “anjos eleitos”. Trata-se de anjos santos, de alguma forma incluídos nos propósitos eleitos de Deus. São os anjos que não seguiram Satanás após a sua rebelião. Pouco é revelado sobre a sua eleição mas, aparentemente, houve um período probatório no mundo angélico e estes, sendo os eleitos de Deus, permaneceram fiéis, sendo confirmados no seu estado santo ao serviço do Senhor. Conforme Chafer escreve, “A queda de alguns anjos não foi menos antecipada por Deus do que a queda do homem. Também poderá estar implicado que tenham passado um período de provação”.31
  2. As Criaturas Viventes: Trata-se de criaturas angélicas que parecem estar envolvidas na revelação da glória do Deus de Israel na Sua omnisciência, omnipotência e omnipresença (Ez. 1:5 ss; Rv. 4:6; 6:1). Ezequiel 10:15, 20 identifica-as com os querubins. Através das quatro faces, conseguiam também antecipar o que Deus faria para trazer a salvação ao homem pelo Seu Filho: (a) A face de homem sugere sabedoria, compaixão e inteligência, retratando a humanidade de Cristo enquanto Filho do homem, foco especial encontrado no evangelho de Lucas; (b) a face de leão fala de uma aparência de rei, retratando Cristo como Rei, o que corresponde à ênfase de Mateus; (c) a face de touro ou boi retrata um servo, ênfase vista em Marcos; e (d) a face de águia refere-se à acção celestial, retratando a divindade de Cristo, que é a ênfase de João.
  3. Vigilantes: “Vigilantes” corresponde a uma palavra aramaica, significando “vigilante, acordado, atento”. O versículo 17 poderá sugerir tratar-se de um modelo especial de anjo (uma classe especial). Parece descrever anjos santos, constantemente vigilantes para servirem o Senhor, que observam os governantes do mundo e os assuntos dos homens (Dn. 4:13, 17, 23). No versículo 13, a descrição adicional “um santo” poderá sugerir que existem vigilantes ímpios, isto é, forças demoníacas que observam as actividades humanas, procurando influenciar e destruir.

Anjos Especiais

Anjos Associados Com a Tribulação

Em Revelação, um conjunto de anjos encontra-se especificamente associado a certos juízos que serão lançados sobre a terra, tais como as sete trombetas e as últimas sete pragas (Rv. 8-9; 16). Adicionalmente, alguns anjos relacionam-se com funções especiais que lhes são dadas, pelo menos durante estes últimos dias. Há o anjo que tem poder sobre o fogo (Rv. 14:18), o anjo das águas (16:5) e o anjo do abismo, que irá acorrentar Satanás (20:1-2).

Anjos Associados Com a Igreja

Em Revelação 2-3, cada uma das sete cartas para as sete igrejas é endereçada “ao anjo da igreja de...”. Para além disso, aparecem na mão direita de Cristo na visão do capítulo 1 (Rv. 1:16, 20). Porém, uma vez que o termo para anjo significa “mensageiro”, sendo também usado em relação aos homens, debate-se se estas referências dirão respeito a seres angélicos ou a líderes humanos das sete igrejas. Poderá referir-se a um anjo-da-guarda destas igrejas ou aos homens que actuam como instrutores da Palavra, tais como pastores ou anciãos.

O Ministério dos Anjos

A característica fundamental dos anjos bons encontra-se na forma como são descritos em Hebreus 1:14, como “espíritos ministradores”, e nos registos das suas abundantes e variadas actividades de ministério, descritas na Escritura. Essencialmente, actuam como mensageiros sacerdotais (leitourgika pneumatata) no templo-universo de Deus.32 A partir do registo bíblico das suas actividades, o seu ministério pode ser sumariado como (1) adoração de Deus (Is. 6:3; Rv. 4:8), (2) mensageiros de Deus (Dn. 9:22; Lucas 1:11, 26; 2:9; Rv. 1:1), (3) soldados no combate espiritual (Dn. 10:13 ss; Rv. 12:7) e (4) ministros do povo de Deus (Hb. 1:14). A respeito da sua actividade enquanto espíritos ministradores, Bushwell comenta:

Poderemos fazer a seguinte pergunta: se não devemos adorar os anjos, ou orar-lhes de alguma forma, qual é o valor da doutrina que defende serem “espíritos ministradores”? Como resposta, poderemos pelo menos afirmar que o ensinamento da Escritura a respeito do ministério dos anjos é um belo enriquecimento do nosso conceito acerca do governo que Deus faz do mundo.33

Enquanto servos celestiais de Deus, que levam a cabo os Seus propósitos, podemos observar que o seu ministério recai em várias relações diferentes:34

Em Relação a Deus: No seu serviço a Deus, são vistos como presenças em redor do Seu trono, à espera de O servir e fazer a Sua vontade (Sl. 103:20; Is. 6:1ss; Job 1:6; 2:1; Rv. 5:11; 8:1 ss), como adoradores em Seu louvor (Is. 6:3; Sl. 148:1-2; Hb. 1:6; Rv. 5:12), como observadores, que se alegram com o que Ele faz (Job 38:6-7; Lucas 2:12-13; 15:10), como soldados no combate contra Satanás (Rv. 12:7) e como instrumentos dos Seus juízos (Rv. 7:1; 8:2).

Em Relação às Nações: Em relação à nação de Israel, Miguel, o arcanjo, parece ter um ministério muito importante enquanto seu guardião (Dn. 10:13, 21; 12:1; Judas 9). Relativamente a outras nações, observam os governantes e as nações (Dn. 4:17), procurando influenciar os seus líderes humanos (Dn.10:21; 11:1). Na Tribulação, serão os agentes que Deus utilizará para executar os Seus juízos (veja Rv. 8-9 e 16).

Em Relação a Cristo: com o plano de Deus centrado na pessoa de Seu Filho, Jesus Cristo, é natural que executem muitos serviços para o Salvador.

  • Em relação ao Seu nascimento, predisseram (Mt. 1:20; Lucas 1:26-28) e anunciaram-no (Lucas 2:8-15). Um anjo avisou José para que levasse Maria e o menino Jesus, fugindo para o Egipto (Mt. 2:13-15); novamente, um anjo disse à família para regressar a Israel, após a morte de Herodes (vv. 19-21).
  • Em relação ao Seu sofrimento, os anjos serviram-n'O depois da Sua tentação (4:11) e aquando da Sua angústia no Jardim do Getsémani (Lucas 22:43); Jesus também disse que poderia ter chamado uma legião de anjos, prontos a vir em Sua defesa caso desejasse (Mt. 26:53).
  • Em relação à Sua ressurreição, um anjo rolou a pedra do túmulo (28:1-2), anjos anunciaram a Sua ressurreição às mulheres na manhã de Páscoa (vv. 5-6; Lucas 24:5-7), estiveram presentes na Sua ascensão e deram instruções aos discípulos (Actos 1:10-11).
  • Em relação ao Seu regresso, será ouvida a voz do arcanjo aquando da translação da Igreja (1Ts. 4:16), acompanhá-Lo-ão no Seu retorno glorioso à terra (Mt. 25:31; 2 Ts. 1:7) e irão separar o trigo do joio na segunda vinda de Cristo (Mt. 13:39-40).

Em Relação aos Injustos: Os anjos não só anunciam e aplicam julgamentos (Gn. 19:13; Rv. 14:6-7; Actos 12:23; Rv. 16:1), mas também separarão os justos dos injustos (Mt. 13:39-40).

Em Relação à Igreja: Hebreus 1:14 descreve o seu serviço como o de “espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão-de herdar a salvação”. Com isto, porém, a Escritura aponta para um conjunto de ministérios específicos: proporcionam respostas a orações (Actos 12:5-10), ajudam a conduzir as pessoas ao Salvador (Actos 8:26; 10:3), podem ser fonte de encorajamento em tempos de perigo (Actos 27:23-24) e cuidam do povo de Deus na hora da morte (Lucas 16:22).

Em Relação a Novas Épocas: Ryrie assinala que os anjos parecem ficar invulgarmente activos assim que Deus institui uma nova época ao longo da História, delineando para nós esta ideia:

A. Uniram-se em Louvor Aquando da Criação da Terra (Job 38:6-7)

B. Estiveram Envolvidos na Promulgação da Lei Mosaica (Gl. 3:19; Hb. 2:2)

C. Estiveram Activos no Primeiro Advento de Cristo (Mt. 1:20; 4:11)

D. Estiveram Activos Durante os Primeiros Anos da Igreja (Actos 8:26; 10:3, 7; 12:11)

E. Estarão Envolvidos nos Eventos Relativos ao Segundo Advento de Cristo (Mt. 25:31; 1 Ts. 4:16)35

É claro que o ministério dos anjos teve lugar em outras ocasiões, mas surge naturalmente a questão seguinte, especialmente em vista do fascínio moderno com os anjos: há alguma evidência de que os diversos ministérios angélicos continuem a funcionar na era eclesial presente?

Permanece incerto se os anjos continuam a actuar de todas estas maneiras na era moderna. Mas já realizaram tais ministérios, e podem muito bem continuar a fazê-lo, mesmo sem que nos apercebamos. É claro que Deus não É obrigado a usar anjos; pode fazer qualquer coisa directamente. Porém, aparentemente, opta por usar o ministério intermediário dos anjos em muitas ocasiões. Não obstante, o crente reconhece que é o Senhor quem faz estas coisas, quer directamente, quer usando anjos (repare no testemunho de Pedro, que dizia que o Senhor o libertara da prisão, embora Deus tenha na verdade usado um anjo para realizar tal feito; Actos 12:7-10, comparado com vv. 11 e 17).

Quiçá uma inscrição que vi numa velha igreja da Escócia traduza bem o equilíbrio.

“Embora o Poder de Deus Seja Suficiente para Nos Governar,
Na Enfermidade do Homem, Nomeou os Seus Anjos para Nos Guardarem.”36

Hebreus 13:2 diz: “Não se esqueçam da hospitalidade; foi praticando-a que, sem o saber, alguns acolheram anjos” (NVI). Acolher anjos sem o saber traz à mente Abraão (Gn. 18:1 ss) e Lot (Gn. 19:1 ss), mas nem esta afirmação prova que os anjos actuem hoje em dia tal como nos tempos do Antigo e Novo Testamentos. Tal como Ryrie salienta, “A palavra 'anjo' pode referir-se a seres sobre-humanos (veja Gn. 18:1-8 para um exemplo de tal acolhimento) ou a um ser humano que seja mensageiro de Deus (veja Tiago 2:25 para um exemplo de tal acolhimento)”.37

Talvez nenhum aspecto do seu serviço para com o homem seja mais discutido do que a ideia de um “anjo-da-guarda”. Muitas vezes, as pessoas perguntam: “Toda a gente tem um anjo-da-guarda?”. O conceito de que cada pessoa terá um anjo-da-guarda específico provém de uma mera suposição a partir da noção de que os anjos guardam ou protegem, conforme o Salmo 91:11 declara. Contudo, esta passagem dirige-se àqueles que fazem do Senhor o seu refúgio.

O salmista explicou que nenhum mal ou desastre pode sobrevir àqueles que fizeram do Senhor o seu refúgio (mah£seh, “refúgio do perigo”; ...), pois Ele ordenou aos anjos que cuidassem deles. Os anjos protegem de ameaças físicas e dão aos crentes força para ultrapassar dificuldades, aqui retratadas como leões selvagens e serpentes perigosas. Ao tentar Cristo, Satanás citou 91:11-12 (Mt. 4:6), o que mostra que até as promessas mais maravilhosas de Deus podem ser aplicadas de modo insensato.38

Alguém poderia argumentar que esta passagem do Antigo Testamento não deve ser aplicada nos tempos modernos mas, em Hebreus 1:14, o autor não parece estabelecer essa distinção. O facto de serem espíritos ministradores que auxiliam os santos é apresentado como uma verdade geral da Bíblia e não deve ser restrita aos tempos bíblicos.

Com certeza, é reconfortante saber que Deus pode proteger, providenciar a encorajar-nos através dos Seus anjos, mas tal facto não garante esta salvação e, certamente, jamais nos devemos fiar nesta provisão de Deus. Assim, tendo considerado as variadas formas como os anjos ministram, devemos manter em mente que Deus nem sempre nos livra do perigo ou atende às nossas necessidades de forma miraculosa, quer através de anjos, quer por Sua intervenção directa. Nos Seus propósitos sábios e soberanos, o oposto é por vezes a Sua vontade, conforme a vida claramente exemplifica e as Escrituras declaram (veja Hb. 11:36-40).

Porém, existe outra verdade acerca dos anjos que precisa de ser tida em conta. Da mesma forma que as pessoas não pensam muito sobre o ministério punitivo dos anjos, com frequência também ignoram, nas suas ideias populares a seu respeito, o ensinamento da Escritura acerca do engano dos anjos malvados de Satanás (2 Cor. 11:14-15). O facto de a sociedade ignorar tal ponto não acontece por acaso. O motivo encontra-se no engano de Satanás e no vazio do coração do homem, ao persistir em procurar respostas longe de Deus, Sua revelação na Escritura e Seu plano de salvação em Cristo. Enquanto arquienganador e antagonista de Deus, da Igreja e da Humanidade como um todo, Satanás é o mestre do disfarce. Hoje em dia, grande parte da forma como a sociedade pensa, no seu encantamento com os anjos, resulta claramente do seu disfarce de anjo de luz, em conjunto com os seus anjos, que também se mascaram de acordo com os seus propósitos. Investigue o que é escrito em livros e proferido em seminários, e encontrará numerosas publicações e ensinamentos repletos de nada menos do que pura ilusão demoníaca. Para mais acerca deste assunto e de como se aplica ao fascínio actual com anjos, consulte o estudo “Angels, God’s Ministering Spirits” na nossa página web, na secção de teologia39.

A Vigilância dos Anjos

O Facto da Sua Vigilância

De maneira significativa, um conjunto de passagens fala dos anjos como observadores. Alguns ficam surpreendidos com esta verdade, mas a Bíblia ensina-nos que os anjos são espectadores das actividades de Deus no mundo, tendo especial interesse na observação do desenrolar do Seu plano de redenção. Uma vez que várias passagens se remetem especificamente ao facto de que os anjos são espectadores daquilo que Deus faz, estaríamos a ser negligentes em relação a esta verdade bíblica, já que, certamente, há uma razão e uma lição a serem aprendidas a partir dela (Job 38:7; Lucas 15:10; 1 Cor. 4:9; 11:10; Ef. 3:10; 1 Tm. 3:16; 1 Pd. 1:12).

Os Objectos da Sua Vigilância

Conforme indicado previamente, os anjos observaram e alegraram-se com a criação de Deus (Job 38:7). Ao contemplarem o nascimento de Cristo, regozijaram-se em louvor a Deus (Lucas 2:13-14) e testemunharam na íntegra a vida de Jesus na terra (1 Tm. 3:16). Também observam a alegria de Deus quando um pecador se arrepende (Lucas 15:10).40 Os anjos estão profundamente interessados na salvação do homem em Cristo, observando cuidadosamente a sabedoria multiforme de Deus, no desenrolar do Seu plano redentor (1 Pd. 1:12; Ef. 3:10). Na afirmação “coisas que até os anjos anseiam observar”, “coisas” são os aspectos concernentes à nossa salvação (vs. 10), e “anseiam observar” corresponde à mesma expressão usada em relação às acções de João, Pedro e Maria, quando se inclinaram para espreitar o interior do sepulcro vazio (Lucas 24:12; João 20:5, 11). O verbo parakuptw, “inclinar-se”, transmite a ideia de se debruçar para ver algo com maior clareza, ou para olhar atentamente (veja ainda Tiago 1:24).

As Razões da Sua Vigilância

Os Dois Reinos e o Conflito Angélico

A questão que surge naturalmente é a seguinte: por que é que os anjos estão profundamente interessados e observam de tal forma o que acontece na terra? Primeiro, enquanto criaturas santas, preocupam-se com a adoração e glória de Deus, que Lhe são devidas no Seu papel de Criador santo e infinito. Tal é claramente evidente em Isaías 6:3, onde, em coro alternado, os serafins cantam a santidade de Deus: “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos: toda a terra está cheia da Sua glória”. João afirma que, na sua devoção à adoração de Deus, as criaturas viventes nunca param de dizer: “Santo, santo, santo é o Senhor, o Deus todo-poderoso, que era, que é e que há-de vir” (NVI). A sua devoção à glória de Deus torna-se extremamente proeminente e específica em Revelação. Em Revelação 4:8-11, o seu louvor contínuo despoleta o louvor dos vinte e quatro anciãos, destinado à valorização de Deus enquanto Criador Soberano. Depois, no capítulo 5:8-14, os anjos, acompanhados pelos vinte e quatro anciãos (representantes da Igreja), dirigem o seu louvor à graciosa obra de salvação de Deus, através do Cordeiro, em vista de ser digno de abrir os sete selos. Apenas Ele é considerado digno de abrir o livro, quebrando os seus sete selos (compare Rv. 5:1 com 5:9 ss).

Embora não nos seja dito qual o conteúdo exacto do livro com sete selos, escrito por dentro e por fora, contém indubitavelmente a história da perda do domínio do homem sobre a terra (Gn. 1:26) para Satanás, o usurpador, e a recuperação desse domínio através do Deus-homem Salvador, o Leão que também é um Cordeiro. Sozinho, este Cordeiro consegue realizar aquilo que mais ninguém no universo é qualificado para e capaz de fazer. As três verdades seguintes formam um elemento importante da revelação de Deus:

(1) O Propósito Declarado de Deus: Era intenção de Deus que o homem governasse sobre a terra, debaixo da Sua autoridade (Gn. 1:26; Sl. 8:4-6; Hb. 2:5-8a).

(2) O Propósito de Deus Sofre um Atraso: Devido à queda, registada em Génesis 3, Satanás arrancou o poder das mãos do homem (compare Hb. 2:5 com 2:8b). A intenção de Deus era que o homem governasse sobre a terra – nunca os anjos, muito menos os anjos decaídos.

(3) O Propósito de Deus Concretiza-se: Conforme prometido em Génesis 3:15, o Cordeiro quebra o domínio de Satanás, graças à Sua Encarnação, vida sem pecado, morte, ressurreição e ascensão (veja Hb. 2:9-14); um dia, recuperará aquilo que fora perdido, através do julgamento dos sete selos, descrito em Revelação 6-19.

Um dos aspectos-chave de Revelação diz respeito aos dois reinos: o reino do mundo (o reino de Satanás) e o reino de Deus. As palavras “rei”, “reis”, “reino”, etc., aparecem trinta vezes em vinte e cinco versículos neste livro. Em vista da luta entre os dois reinos, há uma alegre celebração de vozes, que se erguem no céu ao som da sétima trombeta, antecipando aquilo que a mesma iria realizar.41 Tal inclui certamente os anjos santos:

Revelação 11:15 O sétimo anjo tocou a sua trombeta, e houve fortes vozes nos céus que diziam: “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e Ele reinará para todo o sempre”.

A questão da rebelião de Satanás face à autoridade de Deus poderá explicar a afirmação de Paulo em 1 Coríntios 11:10, ao dizer que uma mulher deve trazer um sinal de submissão sobre a cabeça por causa dos anjos. Tal sugere que uma das áreas que os anjos observam é a da submissão à autoridade. A submissão glorifica a Deus, enquanto a rebelião O desonra e promove os objectivos de Satanás. Na raiz do profundo interesse dos anjos no que Deus realiza actualmente encontra-se a rebelião e queda de Satanás. Como observadores, todos os anjos estavam presentes quando Satanás, na sua busca para ser como o Altíssimo, procurou usurpar o domínio soberano de Deus (veja Is. 14:12-15). Tal foi uma ofensa à glória de Deus. A partir de Revelação 12:3-4, parece que um terço da hoste angélica decidiu seguir Satanás. Por causa do seu pecado, Satanás foi expulso do seu lugar exaltado, tornando-se o grande adversário de Deus e Seu povo (veja Ez. 28:11-19).42 Para além disso, o Senhor diz-nos explicitamente que o lago de fogo foi preparado para Satanás e seus anjos (Mt. 25:41). Apesar de ser um adversário derrotado (confira Cl. 2:15) e de não se encontrar encarcerado neste momento, ele e os seus anjos decaídos sê-lo-ão, sendo este um grande tópico de expectativa na Bíblia (confira Rm. 16:20; Rev. 20:10).

A Caracterização de Satanás como o Caluniador

Será útil compreender um dos nomes de Satanás, carregado de implicações. O termo diabo, usado com tanta frequência em relação a Satanás, significa “caluniador, difamador, aquele que acusa falsamente”.43 Este nome revela-o em uma das suas caracterizações principais na Escritura. Enquanto “caluniador”, é alguém que difama o carácter de Deus; uma das formas pela qual procura fazê-lo é acusando os crentes (Rv. 12:10). O livro de Job proporciona-nos um bom exemplo das suas acusações difamatórias contra os crentes e de como, em simultâneo, procura caluniar o carácter de Deus. Ao ler-se os dois primeiros capítulos de Job, o verdadeiro propósito das acusações de Satanás tornam-se rapidamente evidentes. Satanás afirmava que Job apenas adorava a Deus por causa de tudo o que Ele lhe dera; não porque Job amasse Deus por quem Ele era, ou porque Deus merecesse ser adorado, enquanto Criador Santo e Soberano. “Tira-lhe tudo o que ele tem e ele te amaldiçoará” foi a essência da acusação de Satanás (confira Job 1:6-11; 2:1-6).

A Caracterização que Satanás Faz de Deus

A partir da caracterização bíblica de Satanás como “adversário” (1 Pd. 5:8)44 e “diabo”,45 bem como das suas actividades, registadas na Escritura, parece lógico que Satanás tenha argumentado que Deus não era amoroso, e que condenar Satanás e seus anjos ao lago de fogo era injusto. Pouco tempo depois da criação de Adão e Eva, o ataque do diabo ao carácter de Deus, classificando-o como injusto, torna-se evidente, através da natureza injuriosa das suas questões e afirmações a Eva, aquando da tentação (Gn. 3:1-5). Assim sendo, hoje em dia, num mundo que se encontra sob o seu engano (veja João 12:31; 16:11; Ef. 2:2; 2 Cor. 4:3-4), há um sentimento comum, ecoando entre muitas pessoas que, ao rejeitarem a Palavra de Deus, poderão dizer: “O Deus da Bíblia é vingativo. Como poderia um Deus amoroso enviar pessoas para o inferno? Recuso-me a acreditar num Deus assim.”

Uma Razão para o Homem

Parte da razão da criação do homem e do plano de salvação de Deus em Cristo é demonstrar a verdade do carácter de Deus – sábio, santo, justo, amoroso, amável, misericordioso e bom. Na Sua santidade e justiça, Deus não tinha outra escolha que não condenar Satanás e seus anjos ao lago de fogo. O mesmo acontece com o homem pecaminoso. Mas Deus também É misericordioso, amável e amoroso, pelo que providenciou uma solução, através da cruz, de modo a que o homem pudesse obter a vida eterna. Este misericordioso plano de amor não foi apenas antecipado no Antigo Testamento, tendo sido, na verdade, anunciado primeiramente à serpente (o diabo disfarçado), em Génesis 3:16, algo significante em vista do conflito angélico e das acusações injuriosas de Satanás. A redenção humana e a recuperação do paraíso perdido sempre se basearam naquilo que Deus faria através da semente da mulher, o Messias Salvador, que morreria como substituto do homem, mas que também derrotaria Satanás e, por conseguinte, demonstraria a falsidade das suas injúrias (confira Is. 53; Rm. 3:21-26; Cl. 2:10-15; Hb. 2:14-16).

As Escrituras revelam que os anjos aprendem muito acerca de Deus a partir das Suas actividades, através da pessoa e obra de Cristo e através da Igreja, especialmente no desvendar do plano de redenção de Deus. A respeito dos sofrimentos de Cristo, das glórias que se seguirão e das coisas anunciadas aos crentes, por aqueles que pregaram o evangelho da parte do Espírito Santo, Pedro declarou: “coisas que até os anjos anseiam observar” (veja 1 Pd. 1:11-12). Depois, num registo similar, Paulo escreveu:

Efésios 3:8-11 A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça, de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, 9 e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou; 10 para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus, 11 segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Consequentemente, a Igreja torna-se um meio para revelar tanto a sabedoria multiforme como a graça de Deus aos anjos, já que, em Efésios 2:4-7, Paulo escreveu:

Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, 5 estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), 6 e nos ressuscitou juntamente com ele, e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus, 7 para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça, pela sua benignidade para connosco, em Cristo Jesus.

Chafer cita Otto Von Gerlach, que salientou:

Pela Sua revelação em Cristo e pela instituição da Igreja Cristã na terra, Deus glorifica-Se perante os principados celestiais de um modo até agora desconhecido. Aqueles que, até aqui, cheios de reverência, O haviam louvado pelas maravilhas da criação, vêem agora a Sua sabedoria glorificada de uma nova forma, na comunhão cristã, através das diversas maneiras pelas quais os homens perdidos são salvos. Na redenção, foi manifestada uma forma de riqueza da sabedoria divina inteiramente nova e inesgotável.46

A Antecipação da Vitória

Revelação 4-5 apresenta a perspectiva do Céu na preparação para o julgamento que sucederá na terra, conforme descrito nos capítulos 6-19. Serão estes juízos que derrotarão Satanás e o seu sistema mundial, estabelecendo o Filho de Deus no Seu trono na terra. Nestes dois capítulos, porém, há uma forte ênfase na santidade de Deus, em ser merecedor de receber honra e glória, e no facto de o Cordeiro, o Senhor Jesus, ser digno de abrir e derramar os selos e de reinar e receber honra e glória. E quem mais é proeminente nestes dois capítulos? Os anjos!

Em vista deste cenário, podemos ver por que é que os anjos santos de Deus estão tão profundamente interessados na nossa salvação, pois nela observam a sabedoria multiforme, amor, graça e santidade de Deus (Ef. 3:10; 1 Pd. 1:12). Tal torna-se ainda mais importante quando se considera a rebelião e acusações de Satanás à luz da submissão de Cristo, cuja vida inteira testemunharam (1 Tm. 3:16). Testemunhar a submissão e humildade do Deus encarnado, mesmo até à morte na cruz, foi uma impressionante declaração do carácter de Deus como santo e imutável.

Que maravilhosa submissão! Obedecer à Sua própria lei como se fosse uma mera criatura, numa atitude de servo! Tal era novo. Haviam-no visto como governador do universo; mas nunca, até então, como súbdito! Encontrando Satanás em conflito e tentação prolongada! Tal era novo.47

Pense nisto! Os anjos haviam visto Satanás ser derrubado da sua posição exaltada e condenado ao lago de fogo, devido ao seu orgulho e rebelião, mas, na encarnação e vida submissa de Cristo, mesmo até à cruz, têm o derradeiro exemplo da santidade, amor, graça e misericórdia de Deus, bem como da justa condenação de Satanás.

Mas o que dizer acerca dos anjos decaídos? Evidentemente, houve um período de graça e provação para os anjos antes da queda de Satanás, mas permanecem agora confirmados no seu estado decaído, tal como aqueles que morrem sem Cristo permanecerão nesse mesmo estado quando enfrentarem o Grande Trono Branco do Julgamento e a separação eterna de Deus.

O Conflito Angélico
e o Problema Moral do Mal

A compreensão do cenário acima descrito proporciona-nos parte da resposta à velha questão sobre como é que um Deus bom pode permitir o mal, especialmente quando É omnisciente e omnipotente. De forma contrária à Escritura, que declara a omnipotência e omnisciência de Deus, algumas pessoas procuraram responder ao problema afirmando que, embora Deus seja bom, É incapaz de impedir que o mal aconteça. Embora apenas de modo implícito, só a Bíblia nos fornece uma resposta para o problema do mal, que reside, pelo menos em parte, no conflito angélico, brevemente descrito nos parágrafos precedentes. Existem certos aspectos básicos para a discussão deste assunto.

A Escritura revela que Deus É perfeito em santidade, amor, benevolência, graça e misericórdia. Tal significa que Deus não pode fazer o mal, já que o mal é contrário ao Seu carácter Santo. Deus, por exemplo, não pode mentir (Tt. 1:2). Para além disso, não pode tentar uma criatura a pecar (Tg. 1:13). Não pode ser o autor do pecado, pois julgou todo o mal, e ser o autor do pecado seria contrário à Sua justiça perfeita. Deus não poderia julgar o pecado nas criaturas, caso fosse o autor desse mesmo pecado. Assim, embora permitido por Deus, o mal não se originou n'Ele. Originou-se em algo exterior a Deus.

De acordo com a Bíblia, o pecado original humano, registado em Génesis 3, não foi o primeiro pecado no universo. A Bíblia revela que o problema moral se relaciona com o seguinte: (1) a queda de Satanás e seus anjos em pecado; (2) a caracterização de Satanás como adversário calunioso de Deus; (3) o propósito de Deus de que o homem reinasse sobre a terra, com a perda dessa soberania devido à tentação e queda humana em pecado, e (4) a redenção do homem e recuperação dessa soberania, através do Deus-homem Salvador imaculado, que suportou a sentença do nosso pecado.

Ao longo do estudo deste problema moral, emergem certos factos. É óbvio que, na criação dos anjos e do homem, Deus criou-os como criaturas morais, com poder de escolha. O problema do pecado está presente quando uma criatura moral escolhe o pecado em vez da justiça. Esta é uma explicação para a queda dos anjos e dos homens.48

A revelação da Escritura quanto à queda de Satanás, à queda do homem e ao conflito angélico subsequente envolve-nos em coisas bem para lá da nossa compreensão. Não obstante, a Bíblia ensina que Deus criou os anjos e o homem. Conforme sugerido pela comunhão observada na Trindade, entre Pai, Filho e Espírito Santo, o próprio ser de Deus requeria que desse origem a criaturas para comunhão, mas não as criou como robôs, sem escolha. Não existiria comunhão ou glória com um robô mecânico sem capacidade de escolha. Deus concedeu, tanto aos anjos como aos seres humanos, personalidades com intelecto, emoção e vontade. Pelo exercício desta personalidade, quer a humanidade, quer os anjos podem estabelecer comunhão com Deus, dando-Lhe glória. Mas, embora criados perfeitos e sem pecado, a liberdade de escolha também implicava a possibilidade, conhecida por Deus desde a eternidade, de que Satanás e a humanidade escolhessem contra Ele, o que ambos fizeram. Mas por que é que Deus o permitiu? Talvez a resposta se encontre no período posterior ao pecado, uma vez que a glória de Deus é revelada ainda mais. Tal como nada exibe melhor o esplendor de um diamante à luz do que um pano de fundo de veludo negro, nada poderia mostrar tanto a glória da misericórdia, bondade, graça e amor de Deus do que a escuridão do pecado humano.

Dado que isto causa perplexidade à mente humana, muitos rejeitam todas as ideias acerca de Deus, postulam a Sua fraqueza ou encontram faltas n'Ele. Mas a Bíblia contém algumas palavras importantes de advertência contra uma resposta desse género, sendo instrutiva a história de Job, suas provações e a actividade de Satanás e dos anjos bons. O livro de Job é importante para as questões concernentes ao problema moral do mal e à existência do sofrimento, graças ao entendimento que fornece quanto à actividade adversária de Satanás, bem como das actividades dos anjos chamados “filhos de Deus” (veja Job 1:6-13; 2:1-7; 38:4-6).

Os anjos são mencionados como presentes e louvando a Deus aquando da criação da terra (Job 38:7), mas, em Job 1:6 e 2:1, os “filhos de Deus” aparecem diante d'Ele, sem dúvida como Seus assistentes e servos submissos, em adoração e louvor ao Todo-Poderoso. Depois, porém, Satanás entra em cena subitamente, como acusador difamatório. Embora não seja registada a razão específica para o aparecimento de Satanás, as questões que Deus lhe coloca tornam o motivo claro. Encontrava-se ali para continuar a sua actividade injuriosa, no âmbito do seu conflito em curso contra o carácter de Deus.

Resumindo, portanto, o que a Bíblia nos ensina acerca de Satanás, do pecado e do sofrimento proporciona uma resposta para este dilema moral. Com a sua revelação sobre Satanás, os anjos, as provações de Job e sua resposta ao sofrimento, o livro de Job acrescenta um entendimento importante relativamente à forma como compreendemos e respondemos ao problema moral do mal.

Job foi um homem que sofreu tremendamente. A sua perda e dor foram terríveis. Apareceram três amigos que procuravam aconselhá-lo – mas, com amigos como estes, quem precisaria de inimigos? Basicamente, o seu conselho residia na ideia de que o sofrimento fora causado pelo pecado. E, como é óbvio, essa é por vezes a causa, mas o pecado pessoal é apenas uma das razões que a Escritura apresenta para o sofrimento. Ao longo do discurso com os seus três amigos, Job procurou justificar-se face às suas acusações. Tentou mostrar como era inocente de qualquer erro que pudesse estar na origem da sua dor. E, essencialmente, era. Mas, à medida que este diálogo e o sofrimento de Job se estendiam por um período prolongado, Job começou a ficar zangado com Deus, desenvolvendo um espírito exigente. Tal fica evidente nas palavras que Deus lhe dirige nos capítulos 38-40, especialmente nos versículos seguintes:

Job 38:2-4 Quem é este que escurece o conselho, com palavras sem conhecimento? 3 Agora cinge os teus lombos, como homem; e perguntar-te-ei, e tu responde-me. 4 Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faz-mo saber, se tens inteligência.

Por outras palavras, quão absurda é a ideia de que uma criatura deva tornar-se crítica do Criador ou daquilo que Ele faz, enquanto Soberano Senhor do universo. Assim, os dois capítulos seguintes desenvolvem o tema da sabedoria e poder de Deus.

Job 40:1-2 Disse ainda o Senhor a Job: “Aquele que contende com o Todo-poderoso poderá repreendê-lo? Que responda a Deus aquele que o acusa!”

Job respondeu então, dizendo:

Job 40:4-5 Eis que sou vil; que te responderia eu? A minha mão ponho na minha boca. 5 Uma vez tenho falado, e não replicarei; ou ainda duas vezes, porém, não prosseguirei.

Embora fosse um começo na direcção certa, é evidente, pelo que se segue, que Job se humilhara mas ainda não se arrependera, de modo que Deus continuou a questioná-lo. Porquê? Posso sugerir que, quando Job criticou os caminhos de Deus ou se tornou exigente para com Ele, estava, com efeito, a seguir as pisadas de Satanás, no que toca a encontrar defeitos e a usurpar a posição de Deus enquanto governante do mundo. No parágrafo seguinte (vss. 6-14), cheio de ironia, Deus questiona se Job é capaz de fazer as coisas que só Deus pode. Repare nos versículos 7-9:

Job 40:7-9. Então o Senhor respondeu a Job, desde a tempestade, e disse: 7 “Cinge agora os teus lombos como varão; eu te perguntarei a ti, e tu me responderás. 8 Porventura, também, farás tu vão o meu juízo, ou me condenarás, para te justificares? 9 Ou tens braço como Deus, ou podes trovejar com voz como a sua?”

Embora o problema do mal e Satanás deixe a mente humana perplexa, apenas a Palavra de Deus nos oferece uma explicação razoável quanto à causa, curso e destino derradeiro do mal. Precisamos não só de reconhecer que Deus É soberano e infinitamente sábio, mas também de nos submetermos, na fé, ao plano de Deus. O livro da Revelação, repleto de referências a anjos, dá-nos o resultado final – a derrota final do pecado, da morte e de Satanás, em conjunto com os seus anjos decaídos, e a restauração do paraíso. Nesse momento, Deus enxugará cada lágrima, e o universo conhecerá alegria permanente e paz muito além dos sonhos mais ousados.

A própria natureza da complexidade da criação não só exige uma causa adequada, um Criador, mas também demonstra a Sua sabedoria e poder infinitos (Sl. 19:1-6; Rm. 1:18-21). Deus É infinitamente sábio. Ele É o Ser omnisciente no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. E, embora Deus nos tenha revelado algumas coisas, deixou, obviamente, muitas outras por revelar. No nosso estado actual, simplesmente não teríamos capacidade para as compreender (confira Dt. 29:29). Não obstante, é essencial para a prática e para a fé que cheguemos ao ponto a partir do qual não só reconhecemos que os nossos pensamentos e caminhos são muito diferentes dos d'Ele, mas em que também aceitamos, na fé, aquilo que nos revelou. Repare na ênfase da passagem seguinte.

Isaías 55:6-9 Buscai ao Senhor, enquanto se pode achar, invocai-o, enquanto está perto. 7 Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos, e se converta ao Senhor, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar. 8 “Porque os Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os Meus caminhos”, diz o Senhor. 9 “Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os Meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os Meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.”

Será que isto significa que não devemos fazer perguntas nem procurar respostas para os mistérios do universo? Claro que não. Mas, nos tópicos para os quais Deus nos forneceu uma revelação ou para os quais encontramos respostas de Deus na Bíblia, quer sob a forma de declarações explícitas, quer de fortes argumentos implícitos, precisamos de nos submeter humildemente ao que nos é ensinado, colocando as coisas que ainda nos causam perplexidade na prateleira de cima, para compreensão posterior. Este é, como é óbvio, o assunto crucial. O que é que a Bíblia realmente ensina sobre qualquer uma destas questões? A nossa tendência é olhar para as respostas bíblicas através da razão e lógica humanas. Depois, quando parecem contrárias à razão humana, a nossa tendência é rejeitá-las ou, pelo menos, questioná-las e distorcer a verdade, de modo a que satisfaçam a nossa lógica. Por exemplo, a doutrina da trindade não é explicitamente ensinada na Bíblia, mas é claramente ensinada, de forma implícita, na Escritura. Outras doutrinas, tais como a encarnação, estão para lá da nossa capacidade de compreensão, apesar de explicitamente registadas na Bíblia. Assim, Isaías escreveu: “Mas eis para quem olharei: para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra” (Is. 66:2b).

Lições dos Anjos

O estudo dos anjos, bons e maus, fornece-nos um conjunto de lições sobre como devemos ou não viver, negativa e positivamente. O apóstolo Paulo proporciona um precedente para isto, no seu aviso relativo à selecção de noviços para anciãos, em 1 Timóteo 3:6-7. 

Lições Negativas

Enquanto querubim ungido, Satanás não só foi criado perfeito, mas também era extremamente belo. Como é óbvio, a sua posição elevada e beleza foram resultado da graça e poderes criativos de Deus, não de Satanás. Não obstante, ficou enfatuado com orgulho, perante a sua própria beleza e poder. Esqueceu a sua qualidade de criatura e desejou tornar-se semelhante a Deus (confira Ez. 28:11-15; Is. 14:12-13). Devido ao seu orgulho e rebelião, foi julgado e derrubado da sua posição exaltada, enquanto querubim ungido, e sentenciado ao lago de fogo, seu eventual local de destino. Como tal, Satanás não só se torna o exemplo clássico da tentação e tolice do orgulho numa criatura, mas o orgulho também se torna uma das suas principais armadilhas, através das quais procura causar problemas entre o povo de Deus, propenso a enfatuar-se com as capacidades e papéis próprios ou de outras pessoas, quando esses são dons de Deus. Em vista deste perigo sempre presente, Paulo advertiu contra seleccionar um recém-convertido para uma posição de autoridade, “para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação em que caiu o Diabo. Também deve ter boa reputação perante os de fora da igreja, para que não caia em descrédito nem na cilada do Diabo” (1 Tm. 3:6-7).

Satanás e os seus anjos decaídos também nos advertem contra a natureza perversa e os perigos da rebelião, em contraste com a submissão e a obediência. Talvez não exista outro lugar onde esta ideia seja mais claramente transmitida do que em 1 Samuel 15:22-23. Nesta passagem, a gravidade da desobediência (vs. 22), essencialmente definida como rebelião (vs. 23), é sublinhada pelas comparações com a superstição e a idolatria. Samuel compara-a à superstição (hebreu qesem, um termo generalista para várias práticas ocultas ou espiritismo. Para conhecer algumas das diversas formas de superstição, veja Deuteronómio 18:10-11.). À semelhança da idolatria, a superstição é demoníaca (veja 1 Cor. 10:19-22). Por trás do oculto e da idolatria, encontra-se a obra de Satanás, o rebelde dos rebeldes.

Em última análise, Satanás e os seus anjos malvados, os demónios, fornecem exemplos de tudo o que é perverso, bem como das consequências hediondas do pecado. Satanás é um rebelde, um mentiroso, um homicida, um enganador, um caluniador, um tentador, alguém que distorce e aquele que se opõe a tudo o que é bom, justo e santo. Enquanto homicida desde o início e pai da mentira (João 8:44), que tentou Eva no Éden, é, em última análise, o pai de tudo o que é perverso.

Obviamente, tal não retira ao homem a responsabilidade de escolher o que é bom, nem nos permite culpar Satanás pelo nosso próprio pecado, embora ande sempre à espreita para promover o pecado e para nos enganar e tentar. Ainda que Satanás nos tente constantemente, a nossa tentação para o pecado deve-se, em última análise, às nossas próprias concupiscências, que combatem contra a alma (Tg. 1:14; 1 Pd. 2:11; Ef. 2:3).

Lições Positivas

As abundantes referências aos santos anjos de Deus na Bíblia são, principalmente, registos das suas diversas actividades, mas duas coisas saltam rapidamente à vista. São constantemente vistos em actividades de adoração venerável a Deus e no serviço humilde, totalmente submissos à Sua vontade. Se estes seres celestiais, com toda a sua força, santidade e conhecimento de Deus, estão tão empenhados, não deveriam ser uma motivação e um exemplo para nós?

Foi depois de ver os santos serafins em adoração e humildade (algo sugerido pelo facto de cobrirem os pés), glorificando o Senhor, que Isaías viu e confessou o seu próprio estado pecaminoso, tornando-se um servo prestável. Foi então que, em resposta à pergunta do Senhor, “Quem enviarei Eu?”, o profeta disse “Eis-me aqui, enviai-me” (veja Is. 6:1-8). Depois de receberem as alegres notícias do nascimento do Messias, de terem a experiência de ver Jesus em Belém e de ouvirem as hostes celestiais de anjos, louvando a Deus, foram os pastores que, seguindo o exemplo dos anjos, voltaram “glorificando e louvando a Deus, por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes havia sido dito” (Lucas 2:20).

A consciência da realidade da vasta hoste de seres angélicos – o benefício que deriva dos bons, e a oposição dos maus – pode apenas ser obtida através da meditação nas Escrituras que registam tais verdades, bem como da oração.49

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Translated by Cláudia Oliveira


1 William Evans, The Great Doctrines of the Bible, Moody Press, Chicago, 1912, p. 215.

2 Charles C. Ryrie, Basic Theology, Victor Books, Wheaton, IL, 1987, capítulo 17, versão electrónica.

3 Millard J. Erickson, Christian Theology, Baker Book House, Grand Rapids, 1983, p. 434.

4 Nota de Tradução - Anjomania, tradução livre do inglês original Angelmania.

5 “Kindred Spirit”, revista publicada trimestralmente pelo Seminário Teológico de Dallas, Verão de 1995, pp. 5-7.

6 Gangel, p. 5.

7 Gangel, p. 7.

8 Para uma excelente discussão e defesa desta perspectiva, consulte o estudo de Deffinbaugh acerca de Génesis 6, no seu estudo sobre o livro de Génesis, disponível no nosso website.

9 The Bible Knowledge Commentary, Antigo Testamento, John F. Walvoord, Roy B. Zuck, Editores, Victor Books, Versão Electrónica.

10 Lewis Sperry Chafer, Systematic Theology, Vol. 2, Kregel Publications, 1993, p. 3.

11 The Bible Knowledge Commentary, Novo Testamento, John F. Walvoord e Roy B. Zuck, Editores, Victor Books, 1983, versão electrónica.

12 Lewis Sperry Chafer, Lewis Sperry Chafer Systematic Theology, Vol. 1, Parte 3, Edição Abreviada, John F. Walvoord, Editor, Donald K. Campbell, Roy B. Zuck, Editores Consultores, Victor Books, Wheaton, Ill., 1988, p. 284. 

13 Ryrie, p. 159.

14 Frank E. Gaebelein, Editor Geral, The Expositors’ Bible Commentary, Zondervan, Grand Rapids, versão electrónica, 1997.

15 Paul Enns, The Moody Handbook of Theology, Moody Press, Chicago, 1996, versão electrónica.

16 Erickson, p. 439.

17 Erickson, p. 440.

18 Ryrie, p. 124.

19 Lewis Sperry Chafer, Systematic Theology, Vol. 2, Publicações Kregel, 1993, p. 8.

20 Gabelein, Expositor’s Bible Commentary, versão electrónica.

21 Ryrie, p. 125.

22 Ryrie, p. 125.

23 Os termos e descrições aqui fornecidos superam certamente os atributos de qualquer monarca humano. Para além disso, outras passagens ensinam-nos com clareza que existem frequentemente forças angélicas ou demoníacas por trás do governo de reis ou reinos humanos (confira Dn. 10 e Efésios 6:10-12).

24 James Oliver Bushwell Jr., A Systematic Theology of the Christian Religion, Vol. 1, Zondervan, Grand Rapids, 1962, p. 134.

25 Ryrie, p. 128.

26 Nota de Tradução - não estando a versão bíblica NASB (New American Standard Bible) disponível em português, o tradutor optou por utilizar o termo “principado”, disponível na versão JFA-RA, como correspondente do conceito inglês original “domain”.

27 Walter Bauer, Wilbur F. Gingrich, e Frederick W. Danker, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, Chicago: Imprensa da Universidade de Chicago, 1979, versão electrónica.

28 Paul Enns, The Moody Handbook of Theology, Chicago, Ill.: Moody Press, 1996.

29 Ryrie, p. 129.

30 Ryrie, pp. 129-130.

31 Chafer, p. 17.

32 Ryrie, p. 131.

33 James Oliver Bushwell Jr., A Systematic Theology of the Christian Religion, Vol. 1, Zondervan, Grand Rapids, 1962, p. 133.

34 O material concernente ao ministério dos anjos nas suas diversas relações é adaptado de Ryries, Basic Theology, pp. 131-132.

35 Ryie, p. 131.

36 Ryrie, p. 133.

37 Charles Caldwell Ryrie, Ryrie Study Bible, Expanded Edition, Moody Press, Chicago, 1995, p. 1964.

38 The Bible Knowledge Commentary, Antigo Testamento, John F. Walvoord, Roy B. Zuck, Editores, Victor Books, 1983, 1985, versão electrónica.

39 Nota de Tradução – “Anjos, Espíritos ao Serviço de Deus”, artigo já traduzido e disponível em português.

40 A ideia principal do versículo 10 é a de que há grande alegria no Céu (confira vs. 7) quando um pecador se arrepende. Poderia argumentar-se que o texto não diz que os anjos se alegram, mas somente que há alegria na sua presença. Contemplam a alegria de Deus; porém, decerto, anjos devotos à vontade de Deus também se regozijam, tal como os vemos a louvar a Deus em Lucas 2, aquando do nascimento de Cristo.

41 As sete trombetas seguem-se aos sete selos; imediatamente após a trombeta final, aparecem as sete taças do juízo, que resultam no retorno de Cristo à terra, na derrota do reino de Satanás e no estabelecimento do reinado de Cristo sobre a terra.

42 “Esta secção, com as suas referências sobre-humanas, descreve, ao que parece, outra entidade que não o rei humano de Tiro, nomeadamente, Satanás. Se assim for, os privilégios exclusivos de Satanás, anteriores à sua queda, são descritos nos versículos 12-15, bem como no seu julgamento, nos versículos 16-19. Eras um selo de perfeição (v. 12). Isto é, Satanás era a consumação da perfeição, na sua sabedoria e beleza original.”(Charles Caldwell Ryrie, Ryrie Study Bible, Expanded Edition, Moody Press, Chicago, 1995, p. 1306).

43 Grego, diabolos, “acusador, caluniador”, de diabollw, “acusar, maligno”.

44 “Adversário”, do grego antidikos, usava-se em relação a um adversário legal, a “um oponente numa acção judicial”.

45 Para mais detalhes a respeito de Satanás, sua origem, títulos, etc., consulte a doutrina da Satanologia, disponível no nosso website.

46 Chafer, p. 25.

47 Chafer, p. 22, cita Dr. William Cooke, Christian Theology, pp. 622-23.

48 Lewis Sperry Chafer, Lewis Sperry Chafer Systematic Theology, Vol. 1, Edição Abreviada, John F. Walvoord, Editor, Donald K. Campbell, Roy B. Zuck, Editores Consultores, Victor Books, Wheaton, Ill., 1988, p. 289.

49 Chafer, p. 27.

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