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22. O Que Acontece Quando Cristãos Bagunçam o Coreto? (Gênesis 21:1-34)

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Introdução

Em um de seus filmes, Julie Andrews canta uma linda canção chamada Something Good, uma das minhas favoritas, mas que tem uma teologia abominável. A letra diz mais ou menos o seguinte: “Nada vem do nada, nada jamais poderia vir. Por isso, em algum lugar da minha infância ou da minha mocidade, devo ter feito algo de bom”. Muitos cristãos parecem ter o mesmo tipo de teologia. Eles acreditam que as coisas boas que acontecem em nossa vida são resultado de algo de bom que tenhamos feito. E, como os amigos de Jó, eles também acham que todas as coisas desagradáveis são consequência de algum mal que fizemos.

Não desejo contestar o fato de que a obediência traz bênção, pois, no final das contas, sempre traz. No entanto, muitas vezes, Deus permite que um cristão fiel passe por tribulações para que ele cresça e amadureça. Do mesmo modo, Ele também abençoa os cristãos muito mais a despeito do que fizeram do que por causa disso. Isso é graça — favor imerecido. Gênesis 21 é uma prova desse tipo de bênção na vida do crente.

O contexto deste capítulo é algo que Abraão gostaria que Moisés não tivesse se incomodado em registrar no livro sagrado. Enquanto peregrinava em Gerar, ele, mais uma vez, fez Sara, sua esposa, se passar por sua irmã. As consequências não foram muito agradáveis, pois ele foi repreendido por um rei pagão. No entanto, a verdadeira tragédia foi que Abraão parece não ter ficado triste ou ter se arrependido pelo pecado cometido. Até onde podemos dizer, Abraão não estava na melhor fase da sua vida espiritual quando Sara deu à luz o “filho da promessa”, Isaque. Foi em uma das suas piores fases que Deus lhe concedeu uma das bênçãos prometidas a ele.

O Nascimento do Filho Prometido (21:1-7)

Os acontecimentos dos versículos 1 a 7 podem ser vistos sob três aspectos diferentes. Nos versículos 1 e 2, temos o aspecto divino, o nascimento do filho prometido como uma dádiva de Deus. Os versículos 3 a 5 registram a reação de Abraão ao nascimento desse filho. Finalmente, nos versículos 6 e 7, temos a exultação de Sara pela chegada dessa criança há tanto esperada, a qual é a alegria da sua vida.

Um Ato de Deus (v. 1-2)

Tenho um amigo que é corretor de seguros e ele não hesitaria em dizer que um “ato de Deus”, no ramo de seguros, é um desastre natural sobre o qual o homem não tem controle. No entanto, Isaque foi “um ato de Deus” num sentido bem diferente. Ele foi o resultado da intervenção divina nas vidas de Abraão e Sara, os quais eram velhos demais para gerar filhos. Foi o cumprimento de uma promessa feita e reiterada a Abraão muito antes do nascimento de Isaque (cf. Gênesis 12:2; 15:4; 17:15-16; 18:10):

Visitou o SENHOR a Sara, como lhe dissera, e o SENHOR cumpriu o que lhe havia prometido. Sara concebeu e deu à luz um filho a Abraão na sua velhice, no tempo determinado, de que Deus lhe falara.  (Gênesis 21:1-2)

Várias coisas chamam a atenção nesta passagem. Primeiro, não podemos deixar de notar a serenidade dessa declaração. Não há suspense. Não há surpresa, o fato é registrado como se nada mais pudesse ocorrer. E, é claro, é exatamente isso.

Segundo, há uma ênfase distinta na questão do cumprimento. Não houve surpresa no nascimento de Isaque simplesmente porque foi exatamente isso o que Deus prometeu. Nestes dois breves versículos, o cumprimento da promessa é ressaltado quatro vezes (v. 1: “como lhe dissera”; “o que lhe havia prometido”; v. 2: “no tempo determinado”; “que Deus lhe falara”). Foi Deus quem prometeu o filho; foi Deus quem cumpriu Sua palavra. E tudo aconteceu no tempo determinado. Os propósitos de Deus nunca são retardados ou frustrados pelo pecado do homem. Os propósitos de Deus são certos. O que Deus prometeu, Ele cumprirá.

Terceiro, aqui, o filho parece ser concedido mais para o benefício de Sara do que para o de Abraão. “E o SENHOR”, escreveu Moisés, “visitou a Sara”...e “fez… a Sara” (versículo 1, ARC). Não acho que estou indo longe demais ao sugerir que Sara quisesse esse filho muito mais que Abraão. Lembrem-se de que ele rogou a Deus por Ismael, aparentemente, para aceitá-lo como o filho da promessa (cf. 17:18). Abraão também não pareceu levar essa promessa muito a sério quando se dispôs a sujeitar Sara aos perigos do harém de Abimeleque, justamente quando ela estava prestes a conceber o filho prometido (cf. 17:21; 18:14). Ainda assim, embora Abraão não desejasse essa criança tanto quanto sua esposa, Deus manteve Sua promessa.

A Falta de Entusiasmo de Abraão (v. 3-5)

Os versículos seguintes parecem confirmar minhas suspeitas de que Abraão não ficou muito entusiasmado com Isaque, pelo menos não tanto quanto sua esposa:

Ao filho que lhe nasceu, que Sara lhe dera à luz, pôs Abraão o nome de Isaque. Abraão circuncidou a seu filho Isaque, quando este era de oito dias, segundo Deus lhe havia ordenado. Tinha Abraão cem anos, quando lhe nasceu Isaque, seu filho. (Gênesis 21:3-5).

A reação de Abraão ao nascimento de Isaque poderia ser descrita como “obediente”. Em obediência às instruções recebidas em Gênesis 17, ele chamou o bebê de Isaque e o circuncidou ao oitavo dia. Portanto, Abraão seguiu as instruções de Deus ao pé da letra, mas sem a alegria que poderia ter sentido.

Lembrem-se de que agora ele estava com cem anos de idade. De certa forma, ele e Sara foram mais avós do que pais para Isaque. Quem de nós teria ficado supercontente com o nascimento de um filho nessa idade? Quando Abraão poderia estar desfrutando dos benefícios do seguro social há mais de 35 anos, ele se tornou pai. E, quando estivesse com 113 anos, seu filho estaria entrando na adolescência.

O Entusiasmo de Sara (v. 6-7)

Se a reação de Abraão ao nascimento do filho foi de mera obediência, a de Sara foi simplesmente radiante:

E disse Sara: Deus me deu motivo de riso; e todo aquele que ouvir isso vai rir-se juntamente comigo. E acrescentou: Quem teria dito a Abraão que Sara amamentaria um filho? Pois na sua velhice lhe dei um filho.

O nome Isaque significa “riso”. Tanto Abraão quanto Sara, ao serem informados sobre o filho que devia nascer deles, se riram (cf. 17:17; 18:12). Acima de tudo, seu riso foi motivado pelo pensamento absurdo de ter um filho num período tão tardio da vida. No entanto, agora o nome Isaque assume um significado totalmente novo, pois ele é um deleite para sua mãe, que experimenta os prazeres da maternidade em idade tão avançada.

Ismael é Afastado (21:8-21)

A falta de entusiasmo de Abraão a respeito de Isaque pode parecer mera conjectura, e precisamos admitir isso com toda franqueza, mas os acontecimentos dos versículos 8 a 21 com certeza parecem reforçar essa impressão.

No dia em que Isaque foi desmamado, Abraão deu um grande banquete. Parece que esse era um motivo de comemoração. Precisamos ter em mente que o desmame de uma criança naquele tempo ocorria bem mais tarde do que hoje em dia. Isaque devia ter mais ou menos uns três ou quatro anos, ou até mais.

A visão do filho de Agar na festa tirou de Sara toda a alegria. Nessa época, Ismael provavelmente já tinha entrado na adolescência e devia refletir o desprezo de sua mãe por Sara e seu filho. Pelo contexto, é difícil dizer se ele estava mesmo caçoando de Isaque ou se estava apenas brincando e se divertindo, uma vez que a palavra empregada no versículo nove pode significar tanto uma coisa como outra. O comentário de Paulo em Gálatas 4:29, no entanto, nos informa que o sentido pretendido por Moisés era o de zombaria1. Sara decidiu que alguma coisa precisava ser feita para acabar com aquilo de uma vez por todas. Com determinação, ela deu um ultimato a Abraão:

Rejeita essa escrava e seu filho; porque o filho dessa escrava não será herdeiro com Isaque, meu filho. (Gênesis 21:10)

Como Sara parece outra pessoa nesse momento! Quanta diferença entre a sua descrição na epístola de Pedro e a descrição feita por Moisés:

Não seja o adorno da esposa o que é exterior, como frisado de cabelos, adereços de ouro, aparato de vestuário; seja, porém, o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus. Pois foi assim também que a si mesmas se ataviaram, outrora, as santas mulheres que esperavam em Deus, estando submissas a seu próprio marido, como fazia Sara, que obedeceu a Abraão, chamando-lhe senhor, da qual vós vos tornastes filhas, praticando o bem e não temendo perturbação alguma (1 Pedro 3:3-6).

Obviamente, no capítulo 21, Sara não está nos seus melhores dias, nem Abraão. Algumas pessoas tentam elogiá-la pela profunda visão espiritual a respeito do fato de Isaque ser o herdeiro, não Ismael. Pessoalmente, creio que seus motivos principais foram o ciúme e um instinto protetor para que seu filho tivesse o que era destinado a ele.

Sara, como qualquer cristão que conheço, teve momentos que ela gostaria rapidamente de esquecer. Este, com certeza, é um deles. O fato de Pedro usá-la como exemplo de humildade e submissão considera este episódio como uma exceção à regra. De forma semelhante, o escritor aos hebreus fala de Abraão e Sara como aqueles cuja fé devemos imitar. Seus erros e pecados não são mencionados porque já foram tratados de uma vez por todas sob o sangue de Cristo. Além disso, seus pecados não são o foco principal do autor em hebreus, e sim sua fé. Os pecados dos homens são registrados na Escritura para nos lembrar de que os homens e mulheres do passado não são diferentes de nós e servem como alerta e instrução para não repetirmos os mesmos erros (cf. 1 Coríntios 10:11).

Abraão ficou profundamente triste pela decisão que foi obrigado a tomar (Gênesis 21:11). Pelo capítulo 17, sabemos que ele era muito ligado a seu filho Ismael e teria ficado contente se ele fosse o herdeiro por meio de quem as promessas de Deus seriam cumpridas. No entanto, isso era impossível, pois Ismael era fruto de esforços humanos, destituídos de fé (cf. Gálatas 4:21).

O apego de Abraão a Ismael era tão grande que foi preciso uma crise para que ele pudesse compreender a situação. Embora não possamos justificar a motivação para o ultimato de Sara, pessoalmente, creio que ele foi necessário para forçar Abraão a deixar de lado suas aspirações para esse filho.

Deus garantiu a Abraão que, por mais dolorosa e desagradável que fosse a situação, afastar Ismael era a coisa certa a fazer. Neste caso, ele deveria ouvir sua esposa:

Não te pareça isso mal por causa do moço e por causa da tua serva; atende a Sara em tudo o que ela te disser; porque por Isaque será chamada a tua descendência. (Gênesis 21:12)

É preciso observar que tanto Agar quanto o menino eram muito caros ao coração de Abraão. Até agora, Agar foi chamada de a serva de Sara, mas aqui ela é chamada por Deus de “sua serva”. Sara, lembrem-se, tinha muito ciúmes de Agar e seu filho (cf. Gênesis 16:5). É impossível para um homem ter um relacionamento íntimo como o que Abraão teve com Agar e depois simplesmente ir embora. Sara sabia disso, e Deus também. Mais do que fisicamente, Abraão tinha se tornado um com Agar, e Ismael era evidência dessa união.

No capítulo 17, Deus tinha Se recusado a aceitar Ismael como herdeiro de Abraão. Isaque, Ele disse, seria o herdeiro da promessa (17:19). Portanto, era necessário que Ismael fosse mandado embora e destituído para sempre do status de herdeiro. Era por isso que as exigências de Sara deviam ser atendidas e Ismael despachado. Ainda assim, as promessas feitas por Deus a Agar (16:10-12) e a Abraão (17:20) a respeito de Ismael seriam honradas: “Mas também do filho da serva farei uma grande nação, por ser ele teu descendente” (Gênesis 21:13).

Mandar embora o filho de uma concubina não era um fato sem precedentes naquela época. Na lei 146 do Código de Hamurabi, os filhos das escravas que não fossem feitos herdeiros deveriam ser libertos como compensação2. O fato de Abraão mandar Ismael embora se encaixa muito bem nessa prática. Dando-lhe a liberdade, Abraão estava indicando que Ismael não tinha parte em sua herança, a qual devia ser exclusivamente de Isaque.

Abraão se levantou bem cedo para despachar Agar e Ismael. Talvez isso seja evidência de sua determinação em cumprir uma tarefa tão desagradável, como sugere Kidner3. Embora não soe muito espiritual, eu me pergunto se seus motivos não seriam outros. No deserto, partir logo de manhãzinha com certeza seria mais prudente, pois a viagem seria feita no período mais fresco do dia. Mas, além disso, uma partida antecipada tornaria mais fácil uma despedida sem a interferência de Sara. Creio que Abraão queria expressar sua profunda afeição por Agar e Ismael sem uma audiência hostil.

Alguns sugerem que Agar tenha se perdido no deserto, o que explicaria porque ela “andou errante pelo deserto de Berseba” (versículo 14). Por que ela não voltou ao Egito, para onde parecia se dirigir quando fugia de Sarai (16:7 e ss)? Além disso, tempos depois, seria de lá que ela tomaria uma esposa para Ismael (versículo 21). Creio que Agar não voltou ao Egito porque acreditava que Deus cumpriria Suas promessas a respeito de Ismael no lugar por onde vagava. Nesse sentido, ela peregrinou pelo deserto, tal qual Abraão, acreditando que Deus os abençoaria ali.

Finalmente as provisões dadas por Abraão acabaram e a morte parecia bater à porta. Aqui, Ismael já não é mais criança, como poderíamos supor, mas adolescente, pois era quase quatorze anos mais velho que Isaque (cf. 17:15). Sem querer vê-lo morrer, Agar o deixou a alguma distância, sob a sombra de uns arbustos. Ela, então, ergueu a voz e chorou.

Não foi o choro de Agar que chamou a atenção de Deus, mas o do rapaz4. Como descendente de Abraão, Ismael era objeto do Seu cuidado especial. Seu choro ocasionou a intervenção divina:

Deus, porém, ouviu a voz do menino; e o Anjo de Deus chamou do céu a Agar e lhe disse: Que tens, Agar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino, daí onde está. Ergue-te, levanta o rapaz, segura-o pela mão, porque eu farei dele um grande povo. (Gênesis 21:17-18)

A solução para o problema de Agar já estava lá. Devido às suas lágrimas, ela não conseguia ver o poço ali perto. O mais provável é que o poço não fosse uma estrutura visível, apenas uma pequena fonte de água escondida entre os arbustos. Deus, então, fez com que ela visse as coisas como elas realmente eram, e ela e o rapaz foram revigorados e revividos.

A obra de Deus na vida de Agar talvez pareça um pouco dura para nós, mas entendo que Suas ações deveriam ser no sentido de que Suas promessas fossem cumpridas. Lembrem-se de que Ismael ia ser como um “jumento selvagem”, hostil para com seus irmãos e um espírito livre. Esse tipo de homem não podia ser educado na cidade, com todas as suas regalias e vantagens. Aprender a sobreviver no deserto, superando as adversidades, foi exatamente o que fez de Ismael um homem como esse. Da mesma forma que o campo de treinamento produz um bom fuzileiro naval, a sobrevivência no deserto fez de Ismael um homem. 

Abimeleque Faz um Trato com Abraão (21:22-34)

Os versículos 22 a 34 descrevem um incidente particular na vida de Abraão. O acordo feito entre ele e Abimeleque é importante tanto para ele quanto para nós. Por implicação, o acordo diz muita coisa a respeito dos medos e da fé de Abraão.

O encontro entre esses três personagens foi de grande importância. Abraão era reconhecido como um homem de influência e poder. Mais ainda, ele era conhecido por ser objeto do amor e proteção divinos. Abimeleque e Ficol foram até ele; eles não foram lá para convidá-lo a ir ao palácio. Foram para fazer um trato:

Por esse tempo, Abimeleque e Ficol, comandante do seu exército, disseram a Abraão: Deus é contigo em tudo o que fazes; agora, pois, jura-me aqui por Deus que me não mentirás, nem a meu filho, nem a meu neto; e sim que usarás comigo e com a terra em que tens habitado daquela mesma bondade com que eu te tratei. (Gênesis 21:22-23)

É difícil imaginar o tamanho do constrangimento que esse pedido deve ter causado a Abraão. Eis o rei da nação onde Abraão vivia, junto com seu primeiro ministro, indo até ele para propor-lhe um trato. Eles reconheceram que o motivo principal que os levou até Abraão foi o fato de ele ser uma pessoa amada por Deus. Resumindo, aqueles homens estavam a par, por experiência própria, da aliança abraâmica:

De ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra. (Gênesis 12:2-3)

Abimeleque procurou fazer um trato com Abraão porque nunca quis lutar contra ele. Pelejar com Abraão era atacar o Deus de Abraão e ter de contender com Ele. Por outro lado, fazer aliança com Abraão era ter Deus ao seu lado. Não é de admirar que Abimeleque estivesse tão ansioso para fazer esse acordo.

No entanto, percebem a lição que isso deve ter ensinado a Abraão? Ele havia mentido para Abimeleque a respeito de Sara, pois pensava que naquele lugar não havia temor de Deus e, portanto, numa nação pagã, não havia proteção para ele (cf. 20:11). Deus repreendeu sua incredulidade por meio deste testemunho vindo dos lábios de Abimeleque.

Além disso, sua mentira também foi repreendida. Como você se sentiria se um rei e seu primeiro ministro o elogiassem, reconhecendo o seu relacionamento especial com Deus, e depois o fizessem prometer que nunca mais mentiria para eles? Abimeleque respeitava o Deus de Abraão, mas não tinha tanta certeza quanto à credibilidade de Abraão. Colocando-o sob juramento, Abimeleque procurou resolver o problema da tapeação. Ele quase perdera a vida por causa da mentira de Abraão (20:3); e não queria que isso acontecesse de novo.

Uma vez feito o trato, Abraão procurou apresentar uma queixa específica que poderia ser resolvida dentro dos termos recém ajustados. Ele reclamou de um poço que seus servos tinham cavado e que, em seguida, foi confiscado pelos servos de Abimeleque (versículo 25). Abimeleque não só alegou desconhecer o fato, como pareceu fazer uma pequena reprimenda por Abraão não ter levado o caso a ele pessoalmente (versículo 26). Assim, uma aliança específica a esse respeito foi feita e sete cordeiras cedidas por Abraão serviram como sinal do acordo (versículos 28 a 31). Abimeleque e Ficol seguiram seu caminho e Abraão prestou culto ao Senhor, em agradecimento por essa aliança, plantando tamargueiras. E, assim, Abraão ficou na terra dos filisteus por muito tempo.

A lição que Abraão aprendeu com esse incidente foi surpreendente. Ele temia perder a vida e a da esposa no meio daqueles “pagãos” (20:11). Deus lhe mostrou que Abimeleque reconhecia sua situação privilegiada diante de Deus e que, por causa disso, não lhe teria causado mal algum. Abimeleque não só não tomaria uma esposa que não era sua, como também não tomaria um poço que não lhe pertencia. Como os temores de Abraão parecem tolos depois deste incidente!

Conclusão

Várias lições emergem desta passagem da história de Abraão. Primeiro, precisamos concluir que as bênçãos de Deus continuam sendo recebidas pelo Seu povo mesmo nas épocas em que sua fé está na pior fase. Neste capítulo, não vemos nem Abraão nem Sara em sua melhor fase; no entanto, Deus lhes deu o filho prometido, preservou a vida de Agar e Ismael e propiciou uma aliança com um rei pagão que deu a Abraão uma posição privilegiada.

A fim de não concluirmos que santidade não seja importante, também é preciso dizer que a desobediência tem consequências dolorosas. Mesmo depois de muitos anos da união de Abraão com Agar, uma união que negava o poder de Deus para cumprir as promessas da Sua aliança, Abraão teve de encarar seu erro e mandar embora seu filho amado. Cedo ou tarde os frutos do pecado serão colhidos pelo pecador. Por isso, aqui, a postura horrível de Sara, a separação chorosa de Abraão e o quase encontro de Agar e seu filho com a morte no deserto foram consequências do ato impetuoso de Abraão com Agar.

Em segundo lugar, devemos nos lembrar de que, às vezes, as coisas certas acontecem pelas razões erradas. Não creio que tenha sido mostrado o melhor ângulo de Sara neste capítulo. Não vejo nela um espírito manso e submisso em seu confronto com Abraão. Todavia, precisamos concluir que, por Deus ter dito a Abraão que a obedecesse, a coisa certa a fazer era despachar Ismael, de uma vez por todas. Isso abriu caminho para o “sacrifício de Isaque” no capítulo seguinte, pois só então Deus pôde dizer a Abraão: “Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto…” (Gênesis 22:2).

Por toda a Bíblia vemos que as coisas certas muitas vezes são resultado de razões erradas. Por exemplo, José foi enviado ao Egito para abrir caminho para a salvação da nação de Israel, mas foi a traição de seus irmãos que o mandou para lá, os quais achavam que estavam se livrando dele ao vendê-lo como escravo. Satanás afligiu Jó para tentar provar que os crentes só creem em Deus quando têm algum benefício. Deus, no entanto, permitiu que Jó fosse testado para dar a Satanás (e a nós) uma lição de fé.

Você está passando por alguma situação difícil ou aflitiva? Talvez seja por causa da deslealdade ou maldade de alguém. No que diz respeito a você, isso realmente não importa. Se você crê num Deus que é verdadeiramente soberano, que está realmente no controle, então precisa aceitar o fato de que Ele o levou ao lugar certo por motivos errados. As razões talvez não sejam louváveis, mas você pode ter certeza de que Deus o tem nesse lugar por um bom motivo.

Em terceiro lugar, aprendemos que a maioria dos nossos medos são totalmente infundados. Abraão se preocupava com sua segurança e a de sua esposa. Ele acreditava que Deus seria obedecido e Seu povo protegido somente onde Ele fosse conhecido e temido. Abraão devia aprender com o trato feito com Abimeleque que Deus cuida daqueles que são Seus. Se Abimeleque não ousava tomar um poço, quanto mais uma esposa ou uma vida. Todas as maquinações de Abraão foram por nada. A fé descansa nas promessas da aliança de Deus; o medo não tem sentido.

Finalmente, a resposta de Deus aos nossos problemas, com frequência, é a solução que estava ao nosso alcance, mas a nossa ansiedade nos impedia de vê-la. Amo o fato de Agar ter visto o poço que já estava ali. Foram suas lágrimas e seus medos que a impediram de vê-lo. O choro daqueles que pertencem a Deus sempre O alcançarão, mas a resposta não precisa ser espetacular ou milagrosa, como às vezes esperamos ou queremos. Muitas vezes, a resposta será aquela que, no devido tempo, é óbvia.

Você pertence a Ele, meu amigo? Se você crê na obra salvadora de Jesus Cristo em seu favor, então pertence. E, se pertence, Deus cuida de você. Aqueles que pertencem a Ele não precisam temer, pois Ele está com eles; na verdade, Ele está neles. E, a maior de todas as maravilhas, Ele nos trata com graça. Mesmo nas nossas horas mais tenebrosas, Ele é fiel e Suas promessas são verdadeiras.

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Tradução e Revisão: Mariza Regina de Souza


1 A palavra “brincando” na Versão Padrão Revisada (em inglês) não faz jus ao contexto: a tradução deveria ser “caçoando” (como em outras versões). Este é o modo intensivo do nome-verbo de Isaque, “rir”; o sentido aqui, exigido pelo contexto e por Gálatas 4:29 (“perseguia”), é pejorativo! Derek Kidner, Gênesis (Chicago: Inter-Varsity Press, 1967), p. 140.

2 O Código de Hamurabi afirma que os filhos não reconhecidos de escravos, embora não tivessem parte nos bens, deveriam ser libertados (Lei 171). Harold Stigers, Comentário em Gênesis (Grand Rapids: Zondervan, 1976), p. 185.

3 Kidner, Genesis, p. 140.

4 Não é coincidência o significado do nome “Ismael” ser “Deus ouve” (cf. Gênesis 16:11)