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Guardando o Coração

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Introdução

“Guarda o teu coração acima de todas as outras coisas, porque dele brotam todas as fontes da vida”
(Provérbios 4:23, Bíblia Ave Maria).

Vivemos certamente numa sociedade orientada para o consumo, materialista e hedonista, focada no prazer próprio. Em comparação com algumas partes do mundo, a maioria de nós está acostumada a níveis muito altos de luxo à laia dos nossos confortos, prazeres e segurança. Com isto surgiu a ideia proeminente de que a felicidade provém de feitos, reconhecimento, bens materiais, conforto e coisas do género. Temos vindo a acreditar na noção errada (e promovida por Satanás) de que, caso adquiramos certas coisas, estaremos verdadeiramente felizes, e até seguros. Em resultado, as pessoas desenvolvem os seus próprios planos, através dos quais procuram escalar a montanha do sucesso ou da felicidade. Como é óbvio, os planos escolhidos são em grande parte o produto da mentalidade de uma sociedade controlada pela Wall Street e pela Madison Avenue.

Enquanto Cristãos, poderemos ter rejeitado algumas ou até muitas destas noções. Mesmo assim, o coração é enganador e desesperadamente perverso e, uma vez que todos somos tão facilmente influenciados pelo mundo que nos rodeia, os nossos corações necessitam de ser guardados.

A Escritura ensina-nos claramente que os assuntos reais da vida são espirituais e que são realmente questões do coração, do homem interior. Talvez seja por essa razão que a palavra “coração” é encontrada tantas vezes na Bíblia. Uma vez que a palavra “coração” pode ser traduzida de várias formas, dependendo do contexto, o número de vezes que é encontrada varia de acordo com as diferentes traduções da Bíblia inglesa (863 vezes na NASB, 963 na KJV e 791 na NIV). Como estes números sugerem, o coração é um conceito proeminente e uma das palavras mais comummente usadas da Bíblia. A maioria destas ocorrências dá-se metaforicamente em relação ao homem interior. Quando usado metaforicamente (dependendo do contexto), “coração” refere-se à mente, emoções, vontade, natureza pecaminosa, inclusivamente à totalidade do homem interior, ou simplesmente à pessoa como um todo, sendo com frequência traduzido nesse sentido. Como ilustração simples do modo como várias traduções lidam com a palavra “coração”, compare a tradução da versão JFA em Êxodo 9:14 – “Enviarei todas as a minhas pragas sobre o teu coração [referindo-se ao faraó], e sobre os teus servos” – com a versão KJA, em português – “Mandarei todas as minhas pragas contra ti, contra os teus conselheiros e contra o teu povo”.1

O termo “coração”, portanto, diz geralmente respeito à pessoa interior e à vida espiritual nos seus diversos aspectos. Este uso múltiplo de “coração”, em conjunto com a forma como é usado, foca fortemente a nossa atenção na importância da vida espiritual. Tal como o coração humano, é central e vital para a nossa existência.

Devido ao vasto número de passagens que usam a palavra “coração”, foquei-me primariamente, embora não de forma exclusiva, nos Salmos e Provérbios. É neles que encontramos a maior concentração das diferentes utilizações do termo na Bíblia.

Propósito e Objectivo

Esclarecimento: Primeiro, um objectivo deste estudo passa por mostrar como podemos usar um índice para compreender a perspectiva de Deus sobre um assunto em particular. Um segundo objectivo é auxiliar-nos a ver novamente quão importante o nosso mundo interior realmente é em termos das nossas ideias acerca de Deus, nós mesmos e outros, e em termos das nossas motivações, metas e aspirações.

Exortação: O modelo aqui apresentado é um apelo à aplicação pessoal, para que cada um de nós possa lidar com a vida interior à luz da Palavra de Deus, de forma prática e pessoal. 

Encorajamento: Outro objectivo é o encorajamento. Todos precisamos de ser encorajados a procurar o Próprio Deus e os Seus recursos, à medida que nos debatemos com os diversos apelos das nossas naturezas pecaminosas nos altos e baixos da vida.

Importância do Coração na Escritura

Conforme evidenciado pelas múltiplas recorrências, o termo “coração” é uma palavra muito importante, pois Deus está profundamente preocupado com o homem interior ou a condição do coração.

1 Samuel 16:7 Mas o Senhor disse a Samuel: “Não te impressione o seu belo aspecto, nem a sua alta estatura, porque Eu rejeitei-o. O que o homem vê não importa; o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”.

Jeremias 17:9-10 Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá? 10 Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração, Eu provo os pensamentos; e isso para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas acções.

Estas passagens ensinam-nos que o Senhor observa e esquadrinha o coração, a pessoa interior. Por que é o coração tão importante? Porque as questões da vida – as nossas acções, obras, aspirações, etc. – procedem todas do coração (Pv. 4:23; Mt. 6:21; 12:34; 15:18). O que fazemos em palavras e actos é, antes de mais, produto do que somos por dentro.

No Seu Sermão da Montanha, o Senhor Jesus falou fortemente contra a hipocrisia meramente exterior e orientada para as aparências dos Fariseus religiosos. Em Mateus 5:17-48, não menos de cinco vezes Ele comparou a aproximação meramente exterior à Escritura do Antigo Testamento, conforme ensinada pelos Fariseus, com o Seu próprio ensinamento – que, como é óbvio, estava de acordo com o verdadeiro plano da Palavra de Deus. Fez isto através das seguintes afirmações:

“Ouvistes que foi dito... Eu, porém, digo-vos...” (vss. 21-22)
“Ouvistes que foi dito... Eu, porém, digo-vos...” (vss. 27-28)
“Também foi dito... Eu, porém, digo-vos...” (vss. 31-32)
“Ouvistes que foi dito... Eu, porém, digo-vos...” (vss. 33-34)
“Ouvistes que foi dito... Eu, porém, digo-vos...” (vss. 38-39)
“Ouvistes que foi dito... Eu, porém, digo-vos...” (vss. 43-44)

O que estava o Senhor a mostrar ao povo? Ele estava a chamar a atenção das pessoas para os preceitos morais que durante anos lhes haviam sido ensinados pelos seus líderes religiosos, preceitos que tinham origem nas Escrituras do Antigo Testamento. Contudo, com as palavras “Eu, porém, digo-vos”, Ele abordava de novo esses mesmos assuntos como, antes de mais, questões do coração. Isto, e só isto, é Cristianismo autêntico. O Cristianismo bíblico centra-se numa caminhada interior e íntima com Deus através da fé. Tudo o resto não passa de hipocrisia religiosa.

Por exemplo, Jesus ensina-nos que o adultério e o assassínio começam no coração. Pode não ter cometido adultério literalmente mas, se olhar para uma mulher ou para um homem com isso em mente, já cometeu adultério. Onde? No seu coração! (Mt. 5:28). A nossa caminhada com Deus é sempre uma questão do coração.

Contudo, como uma das consequências da queda, as pessoas olham para a aparência exterior. Deus, porém, está sempre preocupado com o coração, com a realidade e condição daquilo que está no interior. Porquê? Porque, caso o interior do copo esteja limpo, assim estará o exterior.

1 Samuel 16:7 Mas o Senhor disse a Samuel: “Não te impressione o seu belo aspecto, nem a sua alta estatura, porque Eu rejeitei-o. O que o homem vê não importa; o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”.

Um dos objectivos da vida cristã é a formação de um carácter semelhante a Cristo, o carácter de Cristo que se constrói nas nossas existências através das diversas ferramentas capazes de mudar a vida que Deus escolheu usar:

  • O ministério do Espírito Santo (Gl. 5:16-26)
  • A verdade da Palavra (Sl. 19:7-14; 119:9-11; João 17:17)
  • As provações e provas da vida (Tg. 1:2-4; Sl. 119:67, 71)
  • O ministério dos outros, como o ferro aguça ferro (Pv. 27:17)

Para que estas ferramentas sejam verdadeiramente eficazes, necessitamos de diligência pessoal ao lidar honestamente com o coração.

Cirurgia de Coração Aberto

Uma vez que o coração é tão importante para aquilo que pensamos, dizemos e fazemos, cada um de nós precisa de fazer regularmente uma cirurgia de coração aberto com o bisturi da Palavra, sob a mão orientadora do grande médico, o Senhor Jesus. Conseguimos isto mediante o ministério instrutivo, orientador e sentenciador do Espírito Santo. Como uma espada afiada de dois gumes, a Palavra divide o homem interior em pedaços, a fim de revelar a verdadeira condição e necessidades dos nossos corações (Hb. 4:12).

Hoje em dia, a maior parte das pessoas quer ser bem-sucedida de acordo com a sua definição própria de sucesso. Porém, ao escutar a actual propaganda do sucesso, uma e outra vez o foco da atenção incide sobre uma de duas coisas. Primeiro, a vasta maioria do pensamento, literatura e conversa debruça-se sobre o “eu” exterior – em quão inteligente pareço, que tipo de impressão provoco, quantos aplausos registo no contador de aplausos, quanto faço, quanto possuo, quão depressa subo a escada do sucesso na minha empresa, e assim a lista continua. Muito pouco do que lê coloca alguma ênfase no homem interior, no coração, a fonte dos nossos pensamentos, motivações, ambições, valores e decisões. E, em segundo lugar, quando aquilo que lê ou ouve coloca ênfase no coração, geralmente fá-lo de uma forma completamente autocentrada, mesmo em muita da literatura Cristã.

De forma oposta ao actual tipo de espiritualidade antropocêntrica (centrada no homem), tão comum hoje em dia, encontra-se a espiritualidade bíblica teocêntrica (centrada em Deus), que contempla a glória de Deus e o avanço do Seu reino como busca prioritária e razão de viver. O objectivo da Escritura não é o ganho material ou até espiritual para a própria pessoa, nem sua auto-realização ou promoção, mas sim a compreensão do nosso chamamento como arautos e embaixadores de Jesus Cristo. “Um dia, Franz Kafka fez a seguinte observação: 'Os Pais da Igreja não tinham medo de ir para o deserto, pois tinham riqueza nos seus corações. Mas nós, com riqueza a toda a volta, temos medo, porque o deserto se encontra nos nossos corações'”. 2

Bloesch também escreve:

Na nossa sociedade actual, o ideal humanista da felicidade ou bem-estar interior foi incorporado na fé Cristã sem qualquer modificação drástica, pelo que foi dada à religião uma orientação decididamente antropocêntrica. Reconhece-se geralmente que muita da religião popular (tanto conservadora como liberal) é narcisista (egocêntrica), focando-se nos sentimentos interiores e em esperanças e objectivos puramente pessoais. Deus É considerado necessário para ajudar o Seu povo a alcançar os desejos dos seus corações ou a encontrar a felicidade perfeita. Alguns fazem até o objectivo da religião parecer consumismo capitalista – adquirir os bens desta vida. Mas será que a prosperidade acompanha inevitavelmente a verdadeira fé? 3

De forma importante e interessante, a Bíblia diz muito pouco sobre o sucesso, especialmente esse tipo de sucesso, mas, conforme verificado, fala tremendamente sobre o coração, porque o coração é a fonte do verdadeiro sucesso. Não admira, portanto, que a palavra “coração” seja encontrada na Bíblia literalmente centenas de vezes. Assim, no que diz respeito a descrever o homem e as suas necessidades, coração é um dos termos mais comummente usados da Bíblia e, novamente, a maioria destas ocorrências é usada metaforicamente em relação ao homem interior, quanto à sua mente, emoções, vontade e natureza pecaminosa, ou inclusivamente em relação à totalidade da pessoa interior.

Não admira, portanto, que Salomão nos desafie:

Guarda o teu coração acima de todas as outras coisas, porque dele brotam todas as fontes da vida. (Provérbios 4:23, Bíblia Ave Maria).

Swindoll escreve: “Quão importante é o coração? É nele que o carácter se forma. Abrange sozinho os segredos do verdadeiro sucesso. Os seus tesouros não têm preço – mas podem ser roubados”.4

Todos precisamos de colocar a nós mesmos esta questão: Quão bem estou a guardar (preservar) o meu coração? É a condição do meu coração a minha maior preocupação? Deveria ser, já que é tão determinante para todos os aspectos da vida. Em última análise, determina o nosso amor a Deus e aos outros. Determina quem somos e o que fazemos.

Necessidades do Coração

O Coração Necessita de Ser Guardado

O coração necessita de ser guardado devido à sua inclinação natural enquanto parte da nossa decadência. Isto é verdade até em relação àqueles que foram regenerados pelo Espírito de Deus através da fé em Jesus Cristo. Embora os crentes possuam a nova natureza e a capacidade de conhecer Deus e discernir coisas espirituais, e tenham recebido o ministério esclarecedor e fortalecedor do Espírito Santo, ainda estão na posse da velha natureza ou da miserável capacidade para o mal e actividades egoístas, através da qual podem empenhar-se de forma independente em lidar com a vida sozinhos, longe de Deus.

Usando analogias ou ilustrações bíblicas, podemos ser:

(1) Pessoas empenhadas em construir as suas próprias cisternas, mas que sempre se revelam cisternas rotas, que não conseguem reter água (Jr. 2:13).

(2) Pessoas sempre dispostas a voltarem-se para o braço de carne, em detrimento de para o braço de Deus e Seus recursos (Jr. 2:13; 17:5 ss).

(3) Pessoas que procuram caminhar à luz das suas próprias tochas (Is. 50:11).

Recorrendo às palavras de Isaías, podemos ficar repletos de influências do Oriente, isto é, substitutos humanos para o plano de Deus para a vida (Is. 2:5-6). Obviamente, portanto, conforme Provérbios 28:26 nos adverte, o coração do homem não é um refúgio seguro: “O que confia no seu próprio coração é um insensato; porém o que caminha na sabedoria será salvo”. (Veja também Pv. 20:9 e Jr. 17:9).

Isaías 55:8-11 “Porque os Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os Meus caminhos”, diz o Senhor. 9 “Porque, assim como o céu é mais alto do que a terra, assim são os Meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os Meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos. 10 Porque, assim como a chuva e a neve descem dos céus e para lá não tornam, mas regam a terra, e a fazem produzir e brotar, para que dê semente ao semeador, e pão ao que come, 11 assim será a palavra que sair da Minha boca: ela não voltará para Mim vazia, antes fará o que Me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei.”

Jeremias 10:23 Eu sei, ó Senhor, que não é do homem o seu caminho; nem é do homem que caminha o dirigir os seus passos.

Aqui estão algumas razões pelas quais o coração necessita de ser guardado:

(1) O coração necessita de ser guardado porque, por natureza, não pensamos nem contemplamos a vida da mesma forma que Deus o faz. Somos inerentemente ignorantes em relação à Sua mente e aos Seus caminhos. Precisamos desesperadamente da sabedoria e orientação do Senhor para conhecermos os Seus caminhos, o nosso próprio coração e o seu rumo pervertido. Provérbios 19:3 avisa-nos que a nossa loucura subverte ou perverte o nosso caminho. “Perverte” corresponde à palavra hebraica salaph, “torcer, perverter, virar de pernas para o ar”.

(2) O coração necessita de ser guardado porque, à semelhança de ovelhas, somos propensos a desviar-nos de Deus nos nossos corações (Is. 53:6a). Queremos viver de forma independente, controlando e dirigindo os nossos próprios assuntos. Queremos comandar os nossos próprios destinos. Sim, alguns de nós querem confiar em Deus quanto a conduzir-nos para o Céu, mas, com demasiada frequência, preferiríamos dirigir os nossos próprios assuntos aqui na terra, por estarmos tão empenhados nos nossos próprios desejos. Seguir completamente as Suas orientações significa que podemos ser convocados a desistir de algo que pensamos ser necessário para obter segurança ou felicidade. Pensamos, portanto, que é muito mais seguro ficarmos nós no comando. Como resultado da sua queda, o homem é inerentemente rebelde.

(3) O coração necessita de ser guardado porque não é apenas enganador – é mais enganador do que qualquer outra coisa (Jr. 17:9a). Devido aos seus meios e estratagemas naturalmente egoístas, autocentrados e autoprotectores, não podemos confiar nele (Sl. 81:12-14; Jr. 17:9; 2:13). Mas, a fim de experimentarmos o caminho de Deus, temos primeiro de repudiar a nossa autoconfiança ou dependência naqueles mecanismos que usamos para nos protegermos. Depois, em lugar da autoconfiança, temos de aprender a confiar completamente no Senhor, independentemente da aparência das coisas. Em vez de nos apoiarmos no nosso próprio conhecimento, confiamos no Senhor para que dirija o nosso caminho (Pv. 3:5; Salmo 37:5). Contudo, por causa dos nossos medos e preocupações egoístas, o nosso coração engana-nos através dos seus raciocínios vãos, e desejamos voltar-nos para as nossas próprias soluções.

(4) O coração necessita de ser guardado porque é desesperadamente doente, isto é, incuravelmente perverso (Jr. 17:9b). A NVI traduz isto como “incurável”. Lembre-se que a palavra “coração” pode ser usada em relação à mente, emoções, vontade, todo o homem interior ou, tal como aqui, à natureza pecaminosa, parte do homem interior.

A natureza pecaminosa não pode ser erradicada, não pode ser aperfeiçoada nem tornada melhor. A correcção humana não funciona no coração do homem. Assim, uma vez mais, quem confia no seu próprio coração é tolo! A atracção desta velha natureza está sempre lá para nos enganar.

(5) O coração necessita de ser guardado porque não pode ser compreendido pela nossa própria sabedoria. Apenas Deus pode revelar e desnudar aos nossos olhos os corações (Jr. 17:10; 20:12, Pv. 17:3; Sl. 139:23). É difícil conhecer as nossas próprias motivações e razões (1 Cor. 4:4). Somos naturalmente habilidosos a enganar-nos a nós mesmos.

(6) O coração necessita de ser guardado porque é a fonte da vida; a fonte das atitudes, valores, crenças, aspirações e buscas (Pv. 4:23; Mt. 13:34; 15:18; 6:21). Por consequência, temos de guardá-lo ou ele conformar-se-á ao mundo circundante, levando-nos sempre por maus caminhos.

(7) O coração necessita de ser guardado porque, tal como constitui a fonte, forma também as correntes que dela fluem – os olhos, a boca, os pés, isto é, palavras e acções. Os métodos para guardar o coração irão surgir à medida que estudarmos algumas das suas outras necessidades. Mas, para compensarmos o nosso carácter, precisamos de fazer mais do que guardar os nossos corações.

O Coração Necessita de Ser Dado

A fim de compensar o seu carácter, tem de fazer mais do que guardar o seu coração. É o reverso que o torna autêntico... Também tem de dar o seu coração. Resistir a entregar-se por medo de se queimar pode parecer seguro, mas a longo prazo revela-se letal.5

(1) Dar o coração significa risco, confusões, ficar vulnerável: significa ter de avançar na fé, acreditando em Deus em detrimento de nas próprias estratégias. Significa ter de desistir de algo... por vezes, de muito. Pode até significar ficar com o coração partido e torcido como uma toalha. Mas não o dar significa fechá-lo à chave em segurança dentro do caixão do egoísmo. E, à semelhança de um corpo que jaz num caixão, o coração irá mudar; embora seguro, escuro e imóvel, irá apodrecer e tornar-se um saco de ossos.

(2) Dar o coração também significa responsabilidade: “Como diz a máxima, 'As pessoas estão dispostas a dar a Deus crédito, mas não dinheiro'. Enquanto a responsabilidade estiver no futuro e suspensa no espaço, aceitá-la-ei. Mas, se começar na verdade a interferir com a minha vida pessoal, esquecê-la-ei”.6

Acreditar que é possível dar o seu coração sem responsabilidade é como acreditar que pode educar filhos sem disciplina, gerir uma empresa sem regras ou liderar um exército sem autoridade. A responsabilidade é para a Grande Comissão o que os carris são para um comboio. É o método de controlo de qualidade, facilita a liderança, protege a congregação, faz do ministério uma alegria, ajuda as pessoas a manter os seus compromissos. 7

(3) Dar o coração significa envolvimento: Envolvimento com Deus, com a família, com outros cristãos e com não-cristãos. E o que inclui esse envolvimento? Inclui amor sacrificial, andar pela fé e não pela vista, espontaneidade em vez de rigidez, o risco da vulnerabilidade e disposição para se tornar responsável. No Dicionário Webster, descobrimos que estar envolvido significa “entrar como participante, relacionar-se intimamente, ligar, incluir”.

O empenho religioso é de longe demasiadas vezes egocêntrico e, embora isto possa ser purificado e colocado ao serviço de Deus através da Sua Palavra, com excessiva frequência a verdadeira comunhão com Deus e amá-Lo com todo o nosso coração são actos corrompidos e anulados pela ânsia e luta por poder, segurança ou outros desejos egoístas que procedem de um coração mantido longe de Deus, enquanto fonte de força, alegria e significado para a vida.

Por isso o Senhor disse: “Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas tem afastado para longe de mim o seu coração, e o seu temor para comigo consiste em mandamentos de homens, aprendidos de cor; portanto eis que continuarei a fazer uma obra maravilhosa com este povo” (Is. 29:13).

Obviamente, reter o coração expõe a nossa incapacidade e relutância quanto a entregá-lo quer a Deus, quer ao serviço das outras pessoas. Decerto, uma vez que jamais atingiremos a derradeira maturidade nesta vida, e por ser tão difícil abandonar os nossos diversos métodos de autoprotecção, haverá sempre espaço para crescimento no que diz respeito a dar o coração.

O Coração Necessita de Preparação

Salmo 78:8 E não fossem como seus pais, geração contumaz e rebelde, geração que não regeu o seu coração, e cujo espírito não foi fiel a Deus.

Salmo 108:1 Cântico. Salmo de David. Meu coração está firme, ó Deus, meu coração está firme; vou cantar e salmodiar.

A palavra “regeu”, no Salmo 78:8, e “firme”, no Salmo 108:1, corresponde ao hebraico kuwn. O seu significado básico é “estar firme, estabelecido, estável”. A partir daqui, veio a significar (a) “ser fundado, estabelecido, fixo”, sendo usado no Antigo Testamento em relação a uma casa fixa nos alicerces, à instituição de um trono ou reino e a pessoas estabelecidas, seguras e que perseveram. (b) Veio depois a significar “arranjar a fim de preparar, estar pronto, organizar, colocar em ordem”. Como tal, foi utilizado relativamente a palavras preparatórias para um discurso sábio, à preparação de comida, a preparar os alicerces para o templo de Salomão, à oração a ser preparada, organizada e colocada em ordem diante de Deus, à preparação de uma estrada, sacrifício, dos passos ou do caminho de alguém (Salmo 119:133), à actividade criativa de Deus, ao que Ele estabeleceu como Céus pelo Seu entendimento e à preparação do coração.

Esta palavra é usada em Salmo 78:8 quanto a preparar o coração para que esteja firme, focado e fixo no Senhor, no sentido de confiar e repousar no amor, bondade, sabedoria, graça e poder de Deus (confira Salmo 112:7-8). Aqui, a questão é que o coração só pode tornar-se firme, estável, após ter sido adequadamente preparado em termos bíblicos.

A mesma palavra é utilizada em Salmo 108:1 quanto a preparar o coração para adorar o Senhor. A KJV traduz isto por “My heart is fixed” (correspondendo ao português “O meu coração está firmado”), enquanto a NASB, NIV e RSV têm todas “My heart is steadfast” (correspondendo ao português “O meu coração está firme”). A Bíblia Amplificada apresenta “My heart is fixed—steadfast [in the confidence of faith]” (correspondendo ao português “O meu coração está firmado – fixo [na confiança da fé]”). Tal como os Céus foram preparados, firmados e estabelecidos pelo entendimento de Deus, também os nossos corações foram feitos estáveis através da compreensão que provém da Palavra de Deus (confira Col. 2:1-6).

Da mesma forma que o coração humano necessita de preparação através de uma dieta adequada e de exercício, de modo a aguentar uma actividade vigorosa e a estar globalmente saudável, o coração espiritual de cada um precisa de ser adequadamente preparado, a fim de ser capaz de responder a Deus com eficácia nas variadas situações da vida.

Este é um dos métodos através dos quais podemos guardar o coração, mas a ênfase encontra-se na necessidade de preparação espiritual através das diversas disciplinas bíblicas – confissão honesta e profunda do pecado, oração fervorosa, estudo bíblico cuidadoso, meditação na Palavra, leitura e memorização da Escritura e comunhão com fiéis. Precisamos de tais disciplinas de modo a estabilizar o coração, a fim de respondermos a Deus de forma positiva e confiante nas múltiplas circunstâncias da vida.

O Coração Necessita de Purificação

Jeremias 17:9 Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?

Hebreus 4:12 Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.

(1) O coração é purificado ao ser renovado. A mente precisa de renovação quanto às suas ideias, valores, motivações e crenças. Os pensamentos e intenções do coração têm de ser mudados através da preservação e meditação na Palavra. Abrangida neste tópico está a ideia de trocarmos o nosso ponto de vista pelo de Deus (Rom. 12:2; Is. 55:8 ss; Sl. 51:10; 119:9-11; Pv. 3:3; 7:3; 2 Cor. 4:16; Ef. 4:23).

(2) O coração é purificado ao ser testado (Dt. 8:2; Jr. 17:10; Sl. 139:23-24). Uma das razões para o sofrimento, provações e as variadas irritações que Deus traz ou permite é revelar a condição dos nossos corações, mostrando as suas verdadeiras cores, a fim de que possamos ver o nosso pecado e lidar com ele através da confissão e fé na provisão de Deus.

(3) O coração é purificado através da confissão ou arrependimento (Actos 8:22). Isto é vital para todo o processo, claro.

O Coração Necessita de Prostração

Uma e outra vez, é-nos dito na Escritura para adorar a Deus com todo o coração. Tal realça a necessidade de envolvimento total com Deus, um envolvimento que inclui a mente, as emoções e a vontade. Portanto, repare nas seguintes passagens da Escritura – devemos, com todo o nosso coração...

  • Amar a Deus (Dt. 6:5; Mt. 22:37; Marcos 12:30).
  • Procurar Deus (Dt. 4:29; Jr. 29:13).
  • Voltar para o Senhor (Joel 2:12).
  • Regozijar e exultar no Senhor (Sofonias 3:14).
  • Dar graças. Tal significa aprender a viver pelo louvor e acção de graças, puramente focados no Senhor (Sl. 9:1; 86:12; 119:7; confira Rom. 1:21).
  • Crer em Deus e na Sua Palavra (Actos 8:37).

O Coração Necessita de Ser Derramado

Salmo 62:8 Confiai n’Ele, ó povo, em todo o tempo; derramai perante ele o vosso coração; Deus É o nosso refúgio.

Precisamos de nos dirigir ao Senhor em oração, de modo a derramar diante d’Ele os nossos corações e fardos. Aqui, o mandamento baseia-se na promessa de que Ele Se preocupa e quer saber de nós.

O Coração Necessita de Ser Centrado

Provérbios 4:21 Que eles não se afastem dos teus olhos; conserva-os no íntimo do teu coração.

Deus não deve nunca ser apenas um assunto secundário. Nesta passagem, a palavra “íntimo” é o hebraico tawek, que significa “o meio, o centro”. Precisamos de manter a verdade de Deus no palco principal dos nossos corações. Quando a Palavra de Deus não é central para a vida, Deus também será posto de lado por outros cuidados, desejos e assuntos. Ficamos como navios sem porto, âncora ou leme, apenas para sermos empurrados de um lado para o outro pelos ventos variáveis e tempestades da vida.

Precisamos de colocar a verdade de Deus no palco principal devido à importância da Sua verdade para a nossa relação com Deus, nossas ambições, valores e buscas. Quando Deus não É o centro, ignoramo-Lo e aos Seus propósitos, princípios e promessas (confira Is. 40:9; Hb. 2:9; 12:1-2). De facto, as pessoas tentam frequentemente santificar a sua autocentralização, transformando-a num tipo de piedade autocentrada. A respeito deste problema, J. I. Packer escreve:

Os Cristãos modernos tendem a fazer da satisfação a sua religião. Mostramos muito mais preocupação relativamente à realização pessoal do que a agradar ao nosso Deus. Típica do Cristianismo actual, de qualquer modo nos países de língua inglesa, é a sua massiva série de livros de “como-fazer” para crentes, orientando-nos para relações mais bem-sucedidas, maior satisfação no sexo, tornar-se melhor pessoa, compreender as nossas possibilidades, obter maior entusiasmo a cada dia, perder peso, melhorar a nossa dieta, gerir o nosso dinheiro, tornar as nossas famílias mais felizes, e assim sucessivamente. Para as pessoas cuja paixão primordial é glorificar a Deus, estas são sem dúvida preocupações legítimas; mas os livros de “como-fazer” exploram-nas regularmente de uma forma auto-absorta, que trata do nosso proveito da vida em detrimento da glória de Deus enquanto centro de interesse.8 

O Coração Necessita de Exposição e Convicção

Provérbios 5:12 E digas: “Como aborreci a correcção! E desprezou o meu coração a repreensão!”

João 16:8 E, quando Ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo.

Judas 1:15 Para fazer juízo contra todos e condenar, de entre eles, todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra Ele.

2 Timóteo 4:2 Que pregues a palavra, instes, a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina;

Tito 1:13 Este testemunho é verdadeiro. Portanto, repreende-os severamente, para que sejam sãos na fé.

Tito 2:15 Fala disto, e exorta e repreende com toda a autoridade. Ninguém te despreze.

Provérbios 28:13 O que encobre as suas transgressões, nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia.

1 Coríntios 4:5 Portanto, nada julgueis, antes do tempo, até que o Senhor venha, o qual também trará à luz as coisas ocultas das trevas e manifestará os desígnios dos corações; e, então, cada um receberá de Deus o louvor.

Efésios 5:11 E não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas, mas, antes, condenai-as;

Um dos propósitos de centrar os nossos corações na Palavra é a admoestação.

2 Timóteo 3:16 Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça.

Adicionalmente, uma das razões para testar o coração com provações é levar à convicção relativa ao arrependimento, que conduzirá à confissão e a mudanças na vida.

Jeremias 17:10 Eu, o Senhor, esquadrinho o coração, eu provo os rins: e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas acções.

Salmo 139:23-24 Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.

O Coração Necessita de Ser Animado, Encorajado, Confortado

Provérbios 15:13,15 O coração alegre aformoseia o rosto, mas pela dor do coração, o espírito se abate… Todos os dias do aflito são maus, mas o de coração alegre tem um banquete contínuo.

2 Coríntios 9:7 Cada um contribua, segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade, porque Deus ama ao que dá com alegria.

João 14:1 Não se turbe o vosso coração: credes em Deus, crede, também, em Mim.

João 14:27 Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.

A vida está cheia de dor e desilusões que trazem mágoa e desencorajamento, pelo que o coração precisa de ser animado, confortado e encorajado. Mas a nossa tendência é procurar animar e confortar os nossos corações com os métodos do mundo – através das nossas estratégias para obter felicidade e dos detalhes da vida, tais como a busca de poder, prazer, bens, estatuto, entre outros. Deus deu-nos todas as coisas para que as aproveitássemos; porém, o Seu plano para a alegria e encorajamento duradouros provém de um coração que foi preparado e focado para confiar no Senhor (Jo. 16:27; Sl. 37:4)

O Coração Necessita de Ser Fortalecido

Salmo 37:31 A lei do seu Deus está em seu coração; os seus passos não resvalarão.

Salmo 40:8 Deleito-me em fazer a Tua vontade, ó Deus meu; sim, a Tua lei está dentro do meu coração.

Salmo 119:11 Escondi a Tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra Ti.

Salmo 19:7-9 A lei do Senhor é perfeita e refrigera a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices. 8 Os preceitos do Senhor são rectos e alegram o coração: o mandamento do Senhor é puro e alumia os olhos. 9 O temor do Senhor é limpo e permanece eternamente; os juízos do Senhor são verdadeiros e justos juntamente.

(1) Os absolutos da Palavra de Deus proporcionam um ALICERCE seguro, promotor de um carácter correcto no pensamento, atitudes, orientação, escolhas, valores, prioridades, aspirações, etc. (Mt. 6:21 ss).

(2) A força do coração advém da sua humildade. Uma pessoa humilde caminha na dependência do Senhor, em detrimento de numa autoconfiança orgulhosa (Sl. 10:17; 31:23-24).

(3) A força do coração advém de esperar no Senhor e confiar em Deus para o suprimento das necessidades. O que quer a Bíblia dizer exactamente quando nos exorta a esperar no Senhor? Essencialmente, com base na utilização deste desafio na Escritura, esperar no Senhor é um termo sumário para viver pela fé ou dependente do Senhor, conforme nos é explicado na Palavra. Por um lado, convoca-nos à entrega ao Senhor com a confiança de uma criança. Por outro, incita-nos a abandonar qualquer forma de existência independente, através da qual procuramos lidar com a vida mediante os nossos métodos e estratégias.

Na Bíblia, esperar no Senhor é o oposto de avançar e tratar do assunto com as próprias mãos, voltados para as nossas próprias soluções humanas. O Salmo 27:14 diz: “Espera no SENHOR, sê corajoso, e Ele fortalecerá o teu coração; espera, pois, no SENHOR” (LLT). 

(4) A força do coração advém de fazer de Deus a nossa porção. Tal significa que Deus É a recompensa ou o maior bem e companheiro do coração (Sl. 73:26; 119:56-57). Em Sl. 119:57, “porção” é o hebraico cheleq. Usava-se relativamente a uma recompensa ou ganho, mas também a uma porção escolhida, como um modo de vida habitual. De modo contrastante, compare com Salmo 50:18b, “tens a tua parte em associação com adúlteros”. A NVI apresenta “Você vê um ladrão, e já se torna seu cúmplice, e com adúlteros se mistura (isto é, escolheste para tua porção, para teu modo de vida, a companhia de adúlteros)”.

O Coração Necessita de Desejos e Aspirações Bíblicos 

Uma das necessidades do coração mais fundamentais e modificadoras da vida é ter desejos e aspirações bíblicos. Repare, por favor, na ênfase contida nas passagens seguintes:

(1) Salmo 37:4 Deleita-te também no SENHOR, e Ele te concederá os desejos do teu coração.

Embora esta passagem esteja repleta de mandamentos, podemos sumariá-la em quatro responsabilidades-chave:

  • Olhe para cima: Tire os olhos de cima das pessoas e das circunstâncias e confie no Senhor. Não se preocupe, não seja invejoso, mas confie, alegre-se, empenhe-se.
  • Olhe para a frente: Descanse e espere no Senhor e naquilo que Ele está a fazer. Saiba que o modo de vida dos obreiros do mal é apenas temporário e instável ou inseguro. Deus recompensará a sua rectidão; um dia habitará na terra e terá recompensas eternas.
  • Seja produtivo: Enquanto esperamos na provisão de Deus para o suprimento das nossas necessidades e entregamos o nosso caminho e circunstâncias ao Senhor, alegrando-nos sempre n’Ele, devemos fazer o bem, cultivar a fidelidade e habitar na terra.
  • Esteja satisfeito: Compare Sl. 37:16 ss com 1 Tim. 6:6 ss.

No centro ou coração de tudo isto, encontra-se o versículo 4 (Salmo 37) e as palavras “deleita-te também no Senhor”. Esta é a base da confiança, compromisso e repouso no Senhor.

Primeiro, o Mandamento. “Deleita-te” é anag, que significa (1) “ser macio, suave, delicado”. Em árabe, uma linguagem irmã, significava “atrair” e “aliciar”, sendo usado relativamente aos gestos amorosos de mulheres, nos seus olhares e forma de caminhar. Há um certo carácter feminino nesta palavra, que se adequa à natureza da relação entre Deus e os crentes. Israel era a esposa do Senhor, e a Igreja é a noiva de Cristo. À semelhança do que acontecia com Israel, devemos responder ao Senhor como Sua noiva casta, sensíveis ao Seu amor e cuidado. Conhecê-Lo assim deve edificar a nossa confiança e compromisso, evitando que sejamos afastados d’Ele. No texto hebraico, o verbo “deleitar” é um radical reflexivo, que veio a significar “ter um belo deleite, deleitar-se de forma requintada”. Portanto, o Salmista afirma, com efeito, que Deus deverá ser a nossa fonte de alegria mais bela. Devemos deleitar-nos na Sua pessoa e existência. Ele convoca-nos a procurá-Lo, de modo a podermos conhecer e deleitar-nos na Sua divina pessoa e existência.

Segundo, a Promessa. “Desejos” é o hebraico mishalab, que pode significar “orações, pedidos, petições”. Os nossos pedidos baseiam-se usualmente nos desejos, carências ou naquilo que vemos como nossas necessidades, embora esta não constitua uma das principais palavras hebraicas para “desejo”. “Do teu coração” dirige-nos para a fonte dos pedidos, a nossa pessoa interior, através do funcionamento da mente, emoções e vontade. “Desejos do teu coração” refere-se ao resultado do funcionamento desses elementos, quanto à formação de aspirações, desejos e anseios.

Quando o nosso deleite está genuinamente no Senhor, os nossos pedidos, produto dos desejos, são transformados e conformam-se à vontade de Deus. Assim que começarmos a alegrar-nos verdadeiramente no Senhor e a confiar n’Ele nas nossas necessidades e desejos, deixaremos de depender de estratégias próprias para obter segurança e relevância. Será então que os nossos desejos e pedidos começarão a mudar naturalmente.

Portanto, Deus promete-nos satisfazer tais pedidos, como sugere o contexto, no momento próprio.

(2) Salmo 94:19: “Quando os cuidados do meu coração se multiplicam, as Tuas consolações recreiam a minha alma.”

Os pensamentos ansiosos (cuidados) multiplicam-se quando a alegria do homem não está no Senhor. Se tal se verifica, a sua confiança também não estará n’Ele, repousando antes nas próprias estratégias e soluções para a vida. Portanto, o que diz o Salmista? “As Tuas consolações recreiam a minha alma”. Qual é a maior consolação ou fonte de conforto de Deus? É Ele mesmo. Quando os Cristãos não conseguem alegrar os seus corações no Senhor, procurando-O como fonte número um de conforto, começam a revelar-se, voltando-se para os seus próprios métodos.

Repare também na ênfase das passagens seguintes:

Salmo 42:1 Como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por Ti, ó Deus!

Salmo 62:10 Não confieis na opressão, nem vos desvaneçais na rapina; se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração.

Salmo 73:25-28 A quem tenho eu no céu senão a Ti? E na terra não há quem eu deseje, além de Ti. 26 A minha carne e o meu coração desfalecem; mas Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre. 27 Pois eis que os que se alongam de Ti, perecerão; Tu tens destruído todos aqueles que, apostatando, se desviam de Ti. 28 Mas, para mim, bom é aproximar-me de Deus; pus a minha confiança no Senhor Deus, para anunciar todas as Tuas obras.

Tais Salmos não apenas exprimem o desejo de um homem altamente espiritual, mas reconhecem a carência do homem enquanto ser criado com um vazio que só Deus pode preencher. Admitem que nada mais pode satisfazer verdadeiramente.

Por fim, compare Salmo 86:11 com Mateus 6:21-24. A maior indicação da decadência do homem é a sua propensão para tentar lidar com a vida ou procurar satisfação, relevância e segurança longe do Senhor.

Salmo 86:11 Ensina-me, Senhor, o Teu caminho, e andarei na Tua verdade; une o meu coração ao temor do Teu nome.

Mateus 6:21-24 Porque, onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. 22 A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; 23 Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas! 24 Ninguém pode servir a dois senhores; porque, ou há-de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamon.

Mesmo no seu melhor, uma pessoa assim é culpada de ter um coração dividido, que tenta caminhar com um pé apoiado no Senhor e outro nas suas próprias soluções. Assim, o que diz o Salmista? “Une (remove qualquer divisão de confiança) o meu coração ao temor do Teu nome”. Temer o Senhor é fundamentalmente confiar ou voltar-se para Ele, numa atitude de confiança total (Sl. 40:3; 115:11).

Problemas do Coração

(1) Foco ou padrão de pensamento incorrectos.

  • Em Salmo 19:14, o Salmista orou por um foco e padrão de pensamentos correctos. Reconheceu o perigo de ter um foco ou centro errados.
  • Quando dominado pela natureza pecaminosa e ponto de vista do homem, o coração colhe malvadez para si mesmo – imaginações impuras, calúnia, crenças falsas, falsas aspirações e soluções, desejos impuros, fraude, etc. (Salmo 41:6).
  • Uma vez que o coração é a fonte da vida, e dado ser incuravelmente perverso, a injustiça começa no coração (confira Sl. 36:1; 58:2; Mt.15:18-19). Lembre-se: os dardos inflamados do maligno, tal como aconteceu com Eva, são dirigidos ao coração (mente, emoções e vontade) (Ef. 6:16).  

(2) Um coração incrédulo (Hb. 3:12). Um coração incrédulo é aquilo que nos leva a procurar as nossas próprias soluções para a vida. Foi isto que aconteceu a Eva.

(3) Medo e ansiedade (Is. 35:4; 51:7). O medo ou a ansiedade são removidos através de um coração fiel ou da confiança no plano e provisão de Deus, independentemente dos problemas ou da aparência das coisas sob a nossa perspectiva (Sl. 112:7; 13:5; 27:3).

(4) Agitação, frustração do coração. A ausência de paz porque o coração não está verdadeiramente centrado no Senhor (Sl. 38:8-10).

(5) Coração desfalecido, deprimido, perdido. A ausência de resiliência (Sl. 40:12; Lc. 18:1).

(6) Desviar-se do Senhor. Voltar-se para o pecado e infidelidade, reincidir no erro (Dt. 17:17; Sl. 44:18; Pv. 7:25; Hb. 3:12).  

(7) Confiar nas fontes de esperança erradas, tais como estratégias humanas para a obtenção de segurança, relevância ou felicidade (Sl. 62:10; compare 64:6 com o versículo 10; 73:25 ss. Também Sl. 81:12, “para que andassem segundo os seus próprios conselhos”).

(8) Coração solitário e partido (Sl. 69:20; Pv. 15:13; 17:22).

(9) Coração amargurado (Sl. 73:21; Pv. 14:10; Tg. 3:14).

(10) Teimosia de coração (Êx. 7:14; Sl. 78:8; 81:12; Jr. 3:17).

(11) Coração dividido – o oposto da devoção exclusiva (2 Cr. 25:2; Sl. 86:11; Mt. 6:21-24; Tg. 1:6-8).

(12) Coração arrogante ou orgulhoso – o oposto de um coração humilde (2 Cr. 32:26; Is. 9:9; Sl. 101:5).

(13) Falsos valores do coração (Mt. 6:21; Fp. 3:8).

(14) Dureza de coração (Pv. 28:14; Hb. 3:7-13).

Não admira, portanto, que Salomão nos desafie: “Guarda o teu coração acima de todas as outras coisas, porque dele brotam todas as fontes da vida” (Provérbios 4:23, Bíblia Ave Maria).

Conforme enfatizado previamente, o coração é o local onde o nosso carácter é formado e conservado, o lugar que determina quem somos e o que fazemos. Como a Escritura nos avisa, as questões da vida brotam do coração. Este abrange sozinho os segredos do verdadeiro sucesso ou do significado da vida. Se o coração estiver repleto com o que é bom, as nossas palavras e acções suceder-se-ão a ele. Se estiver cheio do que é mau, o mesmo acontecerá com as nossas palavras e acções.

Por consequência, os tesouros dos nossos corações não têm preço – mas, conforme realçado, podem ser roubados. Enfrentamos três ladrões – o mundo, a carne e o diabo –, e estes perseguem-nos constantemente, procurando formas de roubar os bons tesouros do coração e substitui-los com aquilo que é mau e inútil – ou, pelo menos, com aquilo que não é o melhor.

Quão bem estou a guardar o meu coração? É o estado do meu coração a minha maior preocupação? Deveria ser, por ser tão determinante para todos os aspectos da vida. Em última análise, determina o meu amor por Deus e pelos outros. Define o que sou e o que faço.

Conclusão

Como vimos, Deus encontra-Se extremamente preocupado com os nossos corações. Porém, o que torna tudo mais difícil é o facto de, conforme Jeremias 17:9 nos adverte, o coração ser mais enganador do que todas as outras coisas, e incuravelmente perverso. Parte desta falsidade provém da natureza autoprotectora do coração e da sua propensão para confiar nas suas próprias soluções. Confiaríamos mais depressa em nós mesmos do que em qualquer outra pessoa, incluindo Deus.

Por causa disto, até mesmo a nossa adoração a Deus é suspeita, precisando de ser limpa ou purificada de intenções egoístas. Lembre-se, Deus alerta-nos na Sua Palavra para a possibilidade de sermos muito religiosos e, em simultâneo, mantermos os nossos corações afastados da verdadeira fé e adoração do Senhor (Is. 29:23).

Tendo em conta que a maioria das pessoas passa muito tempo a trabalhar, o tempo que passam na igreja deverá representar apenas uma fracção do seu envolvimento com Deus. Em resultado, a menos que sejamos desafiados e preparados para viver toda a vida para Deus, com um coração focado e pronto a confiar n’Ele na rotina diária, o Cristianismo degenera numa religiosidade meramente externa, na qual as pessoas “brincam às igrejas”.

A não ser que lidemos realmente com os nossos corações, o nosso empenho religioso ou adoração a Deus tornam-se egocêntricos. E, embora tal possa ser purificado e trazido para o serviço de Deus através da Palavra, demasiadas vezes a religião verdadeira é corrompida e anulada por fortes desejos e esforço despendido em preocupações centradas no próprio, como o poder, conforto e segurança. A Palavra de Deus é mais do que um manual de doutrina ou um conjunto de prescrições para uma existência adequada, que possamos aplicar a fim de fazer decorrer a vida à nossa maneira. É um livro inspirado por Deus, projectado para nos envolver apaixonadamente com o Deus vivo, de modo a confiarmos n’Ele mesmo quando a vida parece não fazer sentido. Tudo o que podemos fazer é confiar que Deus está no comando e que um plano bom e eterno permanece por completo no seu lugar.

O que tentamos fazer com frequência é desenvolver “confiança em Deus através da compreensão de por que acontecem as coisas e de como organizar as nossas vidas de modo a excluir delas infortúnios graves. Caso compreendêssemos os porquês e comos da vida, é claro que não haveria necessidade de confiar. Um mundo previsível nada mais requereria do que conformidade aos seus princípios”. 9

O Cristianismo e as promessas da Bíblia são questões de confiança, e a confiança é uma questão do coração.

Artigo original por J. Hampton Keathley III, Th.M.

Tradução de C. Oliveira

J. Hampton Keathley III, Th.M., licenciou-se em 1966 no Seminário Teológico de Dallas, trabalhando como pastor durante 28 anos. Em Agosto de 2001, foi-lhe diagnosticado cancro do pulmão e, no dia 29 de Agosto de 2002, partiu para casa, para junto do Senhor.

Hampton escreveu diversos artigos para a Fundação de Estudos Bíblicos (Biblical Studies Foundation), ensinando ocasionalmente Grego do Novo Testamento no Instituto Bíblico Moody, Extensão Noroeste para Estudos Externos, em Spokane, Washington.


1 Nota de tradução – o autor solicitava a comparação do texto correspondente a Êxodo 9:14 em duas versões bíblicas disponíveis em inglês: a KJV (“I will send all my plagues upon thine heart, and upon thy servants”) e a NASB (“I will send my plagues on you [marginal reading has “heart”] and your servants”). Na tradução, procurou apresentar-se versões bíblicas portuguesas com sentidos semelhantes.

2 Donald G. Bloesch, Faith and Its Counterfeits, InterVarsity, Downers Grove, IL, 1981, p. 14.

3 Bloesch, p. 12 ss.

4 Charles Swindoll, The Quest for Character, Multnomah Press, Portland, 1987, p. 28.

5 Swindoll, Quest, p. 113.

6 Bill Hull, The Disciple Making Pastor, Fleming H. Revell, Westwood, NJ, 1988, p. 162.

7 Hull, p. 159 ss.

8 J. I. Packer, Keeping in Step With the Spirit, Fleming H. Revell Company, Old Tappan, 1984, p. 97.

9 Larry Crabb, Who We Are and How We Relate, Navpress, Colorado Springs, 1992, p. 71.

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