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Lição 7: Vitória em Ai (Josué 8:1-35)

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Introdução

Quantas vezes Deus deve engendrar a derrota antes de poder engendrar a vitória. Por vezes, o sucesso entra pela porta dos fundos do fracasso. Ao iniciarmos este capítulo, recordo-me de alguns versículos no Salmo 119. “Antes de ser afligido, andava errado; mas agora, guardo a tua palavra” (vs. 67); e “Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos” (vs. 71).

Neste capítulo, vemos novamente a graça de Deus e a verdade da restauração. As derrotas nunca têm de ser o fim. De facto, podem ser o início, se apenas respondermos à graça de Deus como um Pai celestial amoroso e cuidadoso, que age para produzir em nós crescimento espiritual e mudanças à semelhança de Cristo. Porém, tal não minimiza as consequências do pecado. No incidente em Ai, o nome de Deus fora desonrado, vidas tinham sido perdidas e uma família pagara o pecado com a morte. O ímpeto que Israel ganhara foi temporariamente perdido e o povo de Deus ficou cheio de melancolia e desespero.

A história de Ai é uma mensagem de aviso. Lembra-nos que o pecado não pode ser tolerado na vida cristã. Impede a bênção de Deus da perspectiva de uma existência cristã produtiva. O pecado entristece e extingue o Espírito.

A história de Ai é também uma proclamação de esperança. Recorda-nos que a bênção e a produtividade podem aparecer assim que se confessa e se lida com o pecado.

A Convocação para a Batalha (8:1-2)

1 Então disse o Senhor a Josué: Não temas, e não te espantes: toma contigo toda a gente de guerra, e levanta-te, sobe a Ai: olha que te tenho dado na tua mão o rei de Ai, e o seu povo, e a sua cidade, e a sua terra. 2 Farás, pois, a Ai, e a seu rei, como fizeste a Jericó e a seu rei: salvo que, para vós saqueareis os seus despojos e o seu gado: põe emboscadas à cidade, por detrás dela.

Conforto do Senhor (vs. 1a)

Estando o pecado de Acan julgado, o favor de Deus relativamente à nação foi recuperado. A próxima coisa que lemos diz respeito à nova revelação que Deus fez a Josué, para o encorajar e lhe fornecer orientações para a vitória. As primeiras palavras que Josué ouviu foram " Não temas, e não te espantes ". Josué já escutara estas palavras antes. São palavras especiais para encorajar o povo de Deus quando este enfrenta o inimigo:

  • Foram as palavras que Moisés proferiu em Cades-Barneia ao enviar os doze espiões (Deut. 1:21).
  • Foram também as palavras que Josué ouviu de Moisés 40 anos mais tarde, quando este entregou as rédeas da liderança a Josué, que ficaria assim responsável por levar a nação até à terra da promessa (Deut. 31:8).
  • Depois, Josué escutaria palavras similares directamente do Senhor, quando Ele o comissionou para liderar o povo até à terra (Josué 1:9).
  • Mais tarde, Josué usaria as mesmas palavras para encorajar a nação perante os seus inimigos, e seriam usadas em três outras ocasiões, quando Judá enfrentasse adversários e probabilidades terríveis (Josué 8:1; 10:25; 2 Crónicas 20:15, 17; 32:7).

Isto serve para nos recordar que Deus É um Deus de conforto, que quer consolar e encorajar-nos através da Sua Palavra (confira Isa. 40:1; 2 Cor. 1:3 ss; Rom. 15:4).

Orientações Do Senhor (vss. 1b-2)

Assegurada a bênção do Senhor através de palavras de conforto, foram dadas algumas orientações específicas.

(1) Não cometam o mesmo erro outra vez: a palavra de Deus a Josué era que usasse todos os guerreiros de Israel. Embora a causa primária para a derrota em Ai tivesse sido o pecado de Acan, uma causa secundária foi subestimarem o inimigo, sobrestimarem-se a si mesmos e fiarem-se no Senhor (confira 7:3‑4). Por isso, é-lhes agora dito que levem todos os homens de guerra e avancem às ordens de Deus, confiando no facto de que seria Deus que lhes daria a vitória.

(2) Transformem o lugar da derrota no lugar da vitória: Repare no que acontece aqui. É novamente dito a Josué que avance e ataque Ai. Ele deverá regressar ao local da derrota e, agora, uma vez que Josué e o povo se relacionam de forma correcta com o Senhor, Deus prometeu que poderiam transformar o lugar da derrota num lugar de vitória.

(3) A base da vitória é sempre a mesma: As palavras "como a Jericó" recordam-nos que a vitória em Ai não só seria tão completa como a que ocorrera em Jericó, mas também que, como em Jericó, aconteceria através do poder de Deus, independentemente da estratégia usada. Deus quer que os nossos lugares de derrota se transformem em lugares de vitória. Não é suposto vivermos na derrota ou aceitá-la como norma para a vida cristã. Mas, como sempre, a vitória chega através da fé na presença e provisão de Deus.

(4) Os prometidos despojos da vitória — a ironia da bênção de Deus: No versículo 2, foi dito a Josué que os despojos de Ai e o gado poderiam ser agora tomados por Israel. Enquanto primícia da terra, Jericó fora colocada sob anátema, mas tal não foi o caso de Ai. Que ironia! A impaciência de Acan, não reprimida por paciência e confiança no Senhor para a provisão das suas necessidades, levou na verdade a que perdesse precisamente aquilo que desejara e muito mais. Desperdiçou a sua vida. "Se Acan tivesse somente suprimido os seus desejos ambiciosos e egoístas e obedecesse à palavra de Deus em Jericó, teria mais tarde tudo o que o seu coração desejasse e também a bênção de Deus. Quão fácil é pegarmos nos assuntos com as próprias mãos e anteciparmo-nos ao Senhor!"1. O caminho da fé e da obediência é sempre o melhor.

(5) Uma mudança nas estratégias (vs. 2b): A estratégia usada em Ai diferia inteiramente da que fora empregue em Jericó. Tal é altamente instrutivo para nós no ministério, nas batalhas espirituais ou no caminho a que Deus nos conduz. "Os israelitas não marcharam à volta das muralhas de Ai por sete vezes, nem as muralhas caíram milagrosamente".2 Era agora ordenado a Israel que conquistasse a cidade através de um combate normal.

Princípio: Não devemos esperar que Deus aja da mesma forma ou nos conduza sempre ao mesmo caminho. Temos de estar abertos e sensíveis aos diversos caminhos a que Deus nos pode conduzir. Enquanto Soberano Deus do universo, Ele nunca está limitado a um método particular para alcançar os Seus propósitos. Quando a minha esposa e eu frequentávamos o seminário, Deus proveu as nossas necessidades de numerosas maneiras. Por vezes, agia de formas que pareciam quase miraculosas. Noutras ocasiões, actuava mais através de meios e métodos naturais mas, atrás de tudo, estava a obra soberana e a atenção do Senhor.

A Estratégia para a Batalha (8:3-13)

3 Então Josué levantou-se, e toda a gente de guerra, para subir contra Ai: e escolheu Josué trinta mil homens valentes e valorosos, e enviou-os de noite. 4 E deu-lhes ordem, dizendo: Olhai, poreis emboscadas à cidade, por detrás da cidade; não vos alongueis muito da cidade: e todos vós estareis apercebidos. 5 Porém eu, e todo o povo que está comigo, nos achegaremos à cidade: e será que, quando nos saírem ao encontro, como dantes, fugiremos diante deles. 6 Deixai-os, pois, sair atrás de nós, até que os tiremos da cidade; porque dirão: Fogem diante de nós, como dantes. Assim fugiremos diante deles. 7 Então saireis vós da emboscada, e tomareis a cidade: porque o Senhor, vosso Deus, vo-la dará na vossa mão. 8 E será que, tomando vós a cidade, poreis a cidade a fogo; conforme à palavra do Senhor fareis; olhai que vo-lo tenho mandado. 9 Assim Josué os enviou, e eles se foram à emboscada; e ficaram entre Betel e Ai, ao ocidente de Ai: porém Josué passou aquela noite no meio do povo.

10 E levantou-se Josué de madrugada e contou o povo; e subiram ele e os anciãos de Israel, diante do povo, contra Ai. 11 Subiu, também, toda a gente de guerra que estava com ele, e chegaram-se, e vieram em frente da cidade, e alojaram-se da banda do norte de Ai; e havia um vale entre ele e Ai. 12 Tomou também alguns cinco mil homens, e pô-los entre Betel e Ai, em emboscada, ao ocidente da cidade. 13 E puseram o povo, todo o arraial que estava ao norte da cidade, e a sua emboscada ao ocidente da cidade: e foi Josué aquela noite ao meio do vale.

A estratégia para a captura de Ai era engenhosa (vss. 3‑9). Envolvia montar uma emboscada atrás (a ocidente) da cidade. O próprio Deus dissera a Josué para assim fazer (vss. 2, 8). A concretização deste plano envolvia três destacamentos de soldados. O primeiro era um grupo de guerreiros tipo comando, que foram enviados durante a noite para se esconderem na parte oeste da cidade. A sua missão era entrar em Ai e incendiarem-na depois de os seus defensores a desertarem a fim de perseguirem Josué e o seu exército, como haviam feito anteriormente. É dito que esta unidade abrangia 30,000 soldados. A presença de grandes rochas na região possibilitaria que todos estes homens permanecessem escondidos; ainda assim, parece um número excessivo de soldados para esta missão em particular. Em relação aos 30,000, Ryrie salienta:

Um número aparentemente grande para uma emboscada. Tem sido sugerido que em vez de "mil" se deveria ler "comandante". Se assim for, Josué enviou 30 comandantes numa emboscada tipo comando. 3

O segundo contingente era o exército principal que, bem cedo na manhã seguinte, percorreu as 15 milhas (cerca de 24 quilómetros) desde Gilgal e acampou à vista desarmada no lado norte de Ai. Guiado por Josué, este exército constituía uma força de diversão, destinada a atrair os defensores de Ai para fora da cidade.

O terceiro contingente era outra emboscada, contando 5,000 homens que se encontravam posicionados entre Betel e Ai, de modo a impedir uma possível chegada de reforços desde Betel para ajudar os homens de Ai. 4

A Descrição da Batalha (8:14-29)

14 E sucedeu que, vendo-o o rei de Ai, se apressaram, e se levantaram de madrugada, e os homens da cidade saíram ao encontro de Israel ao combate, ele e todo o seu povo, ao tempo assinalado, perante as campinas: porque ele não sabia que se lhe houvesse posto emboscada detrás da cidade. 15 Josué, pois, e todo o Israel, se houveram como feridos diante deles, e fugiram pelo caminho do deserto. 16 Pelo que, todo o povo que estava na cidade foi convocado para os seguir: e seguiram a Josué e foram atraídos da cidade. 17 E nem um só homem ficou em Ai, nem em Betel, que não saísse após Israel: e deixaram a cidade aberta, e seguiram a Israel.

18 Então o Senhor disse a Josué: Estende a lança que tens na tua mão para Ai; porque a darei na tua mão. E Josué estendeu a lança que estava na sua mão para a cidade. 19 Então a emboscada se levantou do seu lugar, apressadamente, e correram, estendendo ele a sua mão, e vieram à cidade, e a tomaram; e apressaram-se, e puseram a cidade a fogo. 20 E, virando-se os homens de Ai para trás, olharam, e eis que o fumo da cidade subia ao céu, e não tiveram lugar para fugirem, para uma parte nem outra; porque o povo que fugia para o deserto se tornou contra os que os seguiam. 21 E, vendo Josué e todo o Israel que a emboscada tomara a cidade, e que o fumo da cidade subia, tornaram, e feriram os homens de Ai. 22 Também aqueles da cidade lhes saíram ao encontro, e assim ficaram no meio dos israelitas, uns de uma, e outros de outra parte: feriram-nos, até que nenhum deles ficou, que escapasse. 23 Porém ao rei de Ai tomaram vivo, e o trouxeram a Josué.

24 E sucedeu que, acabando os israelitas de matar todos os moradores de Ai no campo, no deserto onde os tinham seguido, e havendo todos caído ao fio da espada, até todos serem consumidos, todo o Israel se tornou a Ai, e a puseram a fio de espada. 25 E todos os que caíram aquele dia, assim homens como mulheres, foram doze mil: todos os moradores de Ai. 26 Porque Josué não retirou a sua mão, que estendera com a lança, até destruir, totalmente, a todos os moradores de Ai. 27 Tão somente os israelitas saquearam para si o gado e os despojos da cidade, conforme à palavra do Senhor, que tinha ordenado a Josué. 28 Queimou, pois, Josué a Ai: e a tornou num montão perpétuo, em assolamento, até ao dia de hoje. 29 E ao rei de Ai enforcou num madeiro, até à tarde; e ao pôr-do-sol ordenou Josué que o seu corpo se tirasse do madeiro; e o lançaram à porta da cidade, e levantaram sobre ele um grande montão de pedras, até ao dia de hoje.

O plano decorreu com toda a regularidade (vss. 14‑22). Assim que o rei de Ai avistou o exército de Israel, mordeu a isca e perseguiu os israelitas, que fingiram retirar-se com medo como antes haviam feito. À ordem de Deus, Josué estendeu a lança na sua mão e, tendo isto como sinal, as tropas escondidas em emboscada do lado oeste correram até à cidade e incendiaram-na. Tal deixou cercados os soldados de Ai, sem lugar para fugirem já que, nesse momento, Josué e os seus homens, acompanhados dos 5,000 escondidos em emboscada, voltaram-se para combater os homens de Ai. "Mas, antes que se pudessem orientar, foram apanhados por um movimento em tenaz dos soldados israelitas, e destruídos." 5

Depois de matar todos os soldados de Ai, o exército de Israel reentrou na cidade e matou os seus habitantes (23‑29). Os soldados e cidadãos mortos totalizaram 12,000. Foi retirado saque da cidade, conforme Deus dissera que se poderia fazer (vs. 2). A cidade foi transformada num monte de ruínas.

O rei de Ai, previamente poupado, foi enforcado numa árvore até à tarde, sendo depois sepultado debaixo de um montão de pedras (confira o sepultamento semelhante de Acan, 7:26). O corpo do rei foi removido da árvore ao pôr-do-sol devido à ordem de Deus (Deut. 21:22‑23; confira Josué 10:27). Desta forma, Israel, tendo recuperado o favor de Deus, tornou-se vitorioso sobre a cidade de Ai. Do seu fracasso surgiu não apenas uma segunda oportunidade, mas também uma grande vitória, acompanhada de algumas lições bem necessárias. Embora nunca devamos procurar falhar, o fracasso pode ser a porta dos fundos para o sucesso, já que Deus está disposto a perdoar e a restaurar-nos, caso lidemos com o nosso pecado do modo prescrito na Palavra.

A Peregrinação Depois da Batalha (8:30-35)

30 Então Josué edificou um altar ao Senhor, Deus de Israel, no monte de Ebal, 31 Como Moisés, servo do Senhor, ordenou aos filhos de Israel, conforme ao que está escrito no livro da lei de Moisés, a saber: um altar de pedras inteiras, sobre o qual se não movera ferro: e ofereceram sobre ele holocaustos ao Senhor, e sacrificaram sacrifícios pacíficos. 32 Também escreveu ali, em pedras, uma cópia da lei de Moisés, que já tinha escrito diante dos filhos de Israel. 33 E todo o Israel, com os seus anciãos, e os seus príncipes, e os seus juízes, estavam de uma e outra banda da arca, perante os sacerdotes levitas, que levavam a arca do concerto do Senhor, assim estrangeiros como naturais; metade deles em frente do Monte Gerizím, e a outra metade em frente do monte Ebal; como Moisés, servo do Senhor, ordenara, para abençoar primeiramente o povo de Israel. 34 E depois, leu em alta voz todas as palavras da lei, a bênção e a maldição, conforme a tudo o que está escrito no livro da lei. 35 Palavra nenhuma houve, de tudo o que Moisés ordenara, que Josué não lesse perante toda a congregação de Israel, e das mulheres, e dos meninos, e dos estrangeiros que andavam no meio deles.

Depois da vitória em Ai, Josué fez o que parecia ser tolo humana e militarmente falando (3031). Parecer-nos-ia melhor prosseguir de imediato com a campanha militar e avançar rapidamente, de modo a capturar e assumir o controlo do sector central da terra. Mas não, Josué conduziu os israelitas por uma peregrinação espiritual, destinada a um tempo especial de adoração. Porquê? Moisés ordenara-o (Deut. 27:1‑8) por causa daquilo que este evento simbolizaria nas vidas dos israelitas.

Novamente, tal ilustra o princípio das prioridades principais: a nossa aptidão na vida está sempre dependente da nossa capacidade espiritual e orientação rumo ao plano de Deus. Muitos cristãos enfrentam continuamente a derrota nos seus caminhos porque são incapazes de reservar tempo para estarem sozinhos com o Senhor e reflectirem n'Ele, vestindo a sua armadura espiritual.

Por conseguinte, Josué conduziu sem demora toda a nação – homens, mulheres, crianças e o gado – desde o seu acampamento em Gilgal, para norte do Vale do Jordão, até ao local especificado por Moisés, os montes de Ebal (Josué 8:30) e Gerizím (v. 33), localizados em Siquém. Tratava-se de um percurso de cerca de 30 milhas (aproximadamente 48 quilómetros) e, evidentemente, não seria difícil nem perigoso, pois passariam por uma área escassamente povoada.

Os israelitas defrontavam-se com a possibilidade de um confronto com os homens da cidade de Siquém, uma fortaleza que vigiava a entrada no vale entre estas montanhas. Talvez os siquemitas tenham permanecido fechados na sua cidade, temerosos devido ao que haviam ouvido acerca das vitórias de Israel, ou quiçá Israel tenha conquistado a cidade pelo caminho. Campbell salienta: "É claro que a Bíblia não regista cada batalha da Conquista, e o registo da captura de Siquém poderá ter sido omitido. Por outro lado, a cidade poderia encontrar-se naquela altura em mãos aliadas, ou quiçá se tenha simplesmente rendido sem resistência”. 6

Poderemos porém perguntar, por que foi escolhida esta localização? As montanhas referidas estão localizadas no centro geográfico da terra, sendo grande parte da Terra Prometida visível de ambos os cumes. Portanto, tratava-se de uma localização que representava toda a terra, quer no momento da entrada em Canaã, quer quando a liderança de Josué estava a chegar ao fim (confira 24:1). Com a sua liderança a terminar, Josué reuniu novamente todas as tribos em Siquém e desafiou o povo a renovar os seus votos de aliança com o Senhor.

James Boice escreve:

Os Montes, que se encontram a cerca de três mil pés (914 metros) acima do nível do mar ou mil pés (305 metros) acima do vale entre ambos, são bastante áridos. O vale é frequentemente verde e, no local onde as montanhas se juntam, existe um anfiteatro natural. F. B. Meyer descreve-o como um lugar onde os montes são escavados "e o estrato de pedra calcária se quebra numa sucessão de saliências, apresentando a aparência de séries de bancos regulares". Este anfiteatro era o destino do povo, e foi ali que acamparam para a cerimónia. 7

Este local possui propriedades acústicas extraordinárias, sendo alguém que se encontre num dos montes facilmente ouvido por uma pessoa que esteja no outro.

As cerimónias aqui referidas envolviam três coisas. Campbell comenta sobre estes pontos:

Primeiramente, foi erigido no Monte Ebal um altar de pedras inteiras, e foram oferecidos sacrifícios (consistindo em holocaustos e sacrifícios de comunhão; confira Lev. 1; 3) ao Senhor. Jericó e Ai, nas quais eram adorados os falsos deuses dos cananeus, haviam caído. Israel adorava e proclamava agora publicamente a sua fé no único Deus verdadeiro.

Em segundo lugar, neste mesmo local, em Ebal mas talvez referindo-se a pedras diferentes, Josué também organizou algumas pedras de grandes dimensões. Na sua superfície, escreveu uma cópia da Lei de Moisés. Não foi registada a extensão gravada da Lei. Alguns sugerem que apenas foram escritos os Dez Mandamentos, enquanto outros pensam que a inscrição na rocha incluiria pelo menos o conteúdo de Deuteronómio 5‑26. Arqueólogos descobriram no Médio Oriente estelas ou pilares insculpidos similares, com seis a oito pés de comprimento (cerca de 1,8 a 2,4 metros). No Irão, a Inscrição de Behistun tem três vezes a extensão de Deuteronómio.

Terceiro, Josué leu… a Lei ao povo. Metade do povo estava posicionada nas encostas do Monte Gerizím, a sul, e a outra metade nas encostas do Monte Ebal, a norte, estando a arca da aliança rodeada de sacerdotes no vale entre os montes. À medida que as maldições da Lei eram lidas uma a uma, as tribos no Monte Ebal respondiam “Ámen!”. De modo similar, à medida que as bênçãos eram lidas, as tribos no Monte Gerizím respondiam “Ámen!” (Deut. 11:29; 27:12‑26). O enorme anfiteatro natural que ainda existe ali possibilitou que as pessoas escutassem cada palavra e, com toda a sinceridade, Israel afirmou que a Lei do Senhor era de facto a Lei da terra. 8

Assim, o Monte Ebal simbolizava as maldições, enquanto o Monte Gerizím representava as bênçãos. Este evento entre as duas montanhas constituiu uma enorme aula prática. O que aconteceria aos israelitas na terra, a história de Israel, iria depender de onde vivessem, quer fosse no Monte Ebal, em desobediência e sob maldição, ou no Monte Gerizím, em obediência e sob a bênção de Deus.

Campbell escreve: "A partir deste ponto, a história dos judeus dependeria da sua atitude relativamente à Lei que escutaram ser lida naquele dia. Quando eram obedientes, havia bênção; quando eram desobedientes, havia julgamento (confira Deut. 28). É trágico que as afirmações desta hora tão importante se tenham tão rapidamente desvanecido ".9 A verdade deste exemplo prático fora já demonstrada na vitória em Jericó e na derrota e posterior vitória em Ai. Quando se verificava obediência à Lei de Deus, existia vitória, mas a presença de desobediência resultava em derrota. Porém, há aqui mais conteúdo no qual deveríamos pensar, pois ninguém pode cumprir a lei. Neste exemplo prático, somos também recordados da graça e provisão de Deus. A cerimónia encenada ensina-nos mais do que o princípio de que a obediência traz bênção e a desobediência acarreta maldição.

O que acontece primeiro nesta cerimónia, antes da redacção e leitura da Lei? Foi erigido um altar feito de pedras inteiras, com vista à oferta de holocaustos e sacrifícios pacíficos, que apontam para a pessoa e obra de Cristo e solução de Deus para a maldição da Lei, mediante um sacrifício de substituição (8:31). Repare em três princípios importantes:

(1) A primeira coisa que Deus fez foi apontar para a graça e Sua solução para o pecado através da fé. Nesta ocasião, tanto a importância da Lei como o futuro de Israel, baseado na sua resposta à Lei, foram postos diante do povo. Ainda assim, a solução para o problema do pecado e fracasso foi a primeira coisa exposta. Porquê? Porque ninguém alcança uma obediência perfeita à Lei.

A mesma coisa era verdade no Sinai: ao mesmo tempo que Deus deu os Dez Mandamentos e os juízos, também deu os decretos, os sacrifícios. Ao mesmo tempo que dava Moisés aos israelitas, deu-lhes de igual modo o sumo sacerdote Aarão. Era como se Deus estivesse a dizer: "não devereis fazer isto, mas sei que o fareis, e aqui está a forma de escapardes à condenação".

(2) Moisés deu ordem para se construir o altar no Monte Ebal, o local onde as maldições destinadas à desobediência seriam lidas. Mas porquê este local em vez do lugar que representava a bênção pela obediência? Porque o altar era para pecadores. Era para aqueles que reconheceriam o seu pecado e viriam ao local de sacrifico não como justos, mas sim como pecadores.

Recorda-se das palavras da mulher samaritana em João 4? Os samaritanos construíram um altar em Gerizím, não em Ebal. A escolha de Gerizím para o altar sugere que se aproximavam de Deus não como pecadores, mas na sua própria justiça (confira João 4:20). Porém, as palavras do Senhor à mulher samaritana expuseram a ignorância espiritual desta, "Vós adorais o que não sabeis…" (vs. 22), descobrindo depois o seu pecado, "... tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido…" (vs. 18).

(3) O altar foi construído com pedras inteiras, sem trabalho humano. Tratava-se de uma completa negação do humanismo e da salvação (ou espiritualidade) pelas obras. Mostra que o ser humano nada pode acrescentar à obra de Deus para a salvação ou para a espiritualidade. Tudo acontece pela graça através da obra de Deus em Cristo. Tal torna-se um forte lembrete de que:

  • Temos de reconhecer a nossa pecaminosidade e aproximarmo-nos de Deus como pecadores (Rom. 3:23).
  • Temos de nos dirigir ao local do sacrifício, a cruz, reconhecendo a nossa necessidade de que outra pessoa morra no nosso lugar.
  • Temos de repudiar as nossas obras humanas para a salvação: reconhecer que não há nada que possamos fazer ou acrescentar à obra do substituto de Deus para o nosso pecado, a pessoa e obra de Cristo.

A adoração no Monte Ebal fez o povo focar-se na Lei de Deus como aquela revelação especial de Deus, tão crucial para o seu bem-estar futuro enquanto Seu povo. A Lei dirigia a nação para aqueles estatutos justos que deveriam permitir a Israel tornar-se uma nação santa, um povo remido especial, um povo da propriedade de Deus e uma luz para as nações (veja Êx. 19:4-6; Deut. 4:1-8). A Lei dirigia Israel e todos os homens para os estatutos morais que são tão vitais para a justiça, lei e ordem dentro das nações. Mas fazia ainda mais. Demonstrava a santidade de Deus e, em virtude da incapacidade do homem quanto a guardar a Lei, mostrava ao homem o pecado que o separava de Deus. Através do tabernáculo, dos sacrifícios e do sacerdócio, apontava para a frente, em direcção a um Salvador em sofrimento, o Cordeiro de Deus, que deveria morrer pelo pecado do homem de modo a que este pudesse ter uma relação com Deus e fazer parte do povo de Deus num mundo caído.

Mas quão rapidamente o seu compromisso em relação a esta revelação especial de Deus se desvaneceu das suas mentes pois, no livro bíblico seguinte, Juízes, lemos acerca daquilo que caracterizava a nação aquando do tempo dos juízes: “Naqueles dias, não havia rei em Israel, porém cada um fazia o que parecia recto aos seus olhos” (Juízes 21:25).

Hoje em dia, não nos comportamos de modo diferente no nosso país. Embora a nossa nação tenha sido fundada nos preceitos da Escritura como a Lei moral de Deus, temo-nos basicamente afastado da Bíblia, no intuito de fazermos aquilo que é correcto aos nossos próprios olhos. Por termos rejeitado a Palavra de Deus e negado a sua relevância, voltámo-nos para as nossas imaginações fúteis (Efésios 4:17 ss). Em resultado, tornámo-nos como aqueles contra os quais Isaías clamou, experimentando não apenas a perversão do nosso próprio pensamento, mas também o julgamento de Deus sobre a nossa sociedade:

20 Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; e fazem do amargo doce, e do doce amargo! 21 Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos! 22 Ai dos que são poderosos para beber vinho, e homens forçosos para misturar bebida forte: 23 Dos que justificam o ímpio por presentes, e ao justo negam justiça. 24 Pelo que, como a língua de fogo consome a estopa, e a palha se desfaz pela chama, assim será a sua raiz, como podridão, e a sua flor se esvaecerá como pó; porquanto rejeitaram a lei do Senhor dos Exércitos, e desprezaram a palavra do Santo de Israel (Isaías 5:20-24).

Um mero olhar casual sobre a sociedade de hoje proporciona evidência clara de que necessitamos desesperadamente de uma renovação espiritual e moral e de um retorno às nossas raízes piedosas, tal como nos foram dadas pelos nossos antepassados. A ruína moral na sociedade a na nossa liderança, especialmente para uma nação com o nosso começo, está para lá do imaginável. Quanto a isto, somos muito parecidos com Israel. Concordo com Campbell, que diz:

A sobrevivência da nossa sociedade pode bem depender da prontidão de todo o povo, dos líderes em Washington e dos cidadãos espalhados pela terra quanto a permitir que os absolutos da Palavra de Deus se tornem a lei da terra. E os cristãos devem mostrar o caminho. Eu e você devemos realizar um compromisso diário com a tarefa de limpar e purgar o “Acan” de nós mesmos. Temos de nos comprometer com sermos pessoas de pureza, fé e integridade, por dentro e por fora, em público e em privado. Então – e apenas então – estaremos prontos a marchar contra as fortalezas inimigas que se intrometem no nosso caminho – e conquistar a vitória. 10

Texto original de J. Hampton Keathley, III.

Tradução de C. Oliveira.


1 Campbell, Joshua: Leader Under Fire, p. 68.

2 Campbell, p. 68.

3 Charles Caldwell Ryrie, Ryrie Study Bible, Expanded Edition, Moody Press, Chicago, 1995, p. 343.

4 Campbell, p. 69.

5 Campbell, p. 69.

6 Campbell, p. 70.

7 Boice, Joshua: We Will Serve the Lord, Revell, New Jersey, 1989, p. 89.

8 John F. Walvoord, Roy B. Zuck, Editors, The Bible Knowledge Commentary, Victor Books, Wheaton, 1983,1985, versão electrónica.

9 Walvoord/Zuck, versão electrónica.

10 Campbell/ Denny, p. 129.

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