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Lição 4: Santificando o Povo (Josué 5:1-15)

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O capítulo 5 descreve a santificação do povo de Israel, em preparação para a grandiosa tarefa diante deles. Dessa forma, aparece como uma ponte entre a travessia do Jordão e o início das campanhas militares destinadas a subjugar os nativos da terra. Porém, para muitas pessoas, especialmente se treinadas em táctica militar, este capítulo poderá parecer um enigma, pelo menos do ponto de vista humano. Obviamente, tal é precisamente o assunto aqui analisado. Os caminhos de Deus são infinitamente superiores aos nossos. Todas as aparências indicavam que era a hora certa para atacar o inimigo. Ao ter cruzado o Jordão miraculosamente, o povo de Israel estava cheio de excitação e motivação. Aparentemente, sabiam que o inimigo se encontrava desorganizado sob um ponto de vista moral (5:1); assim, decerto, era a altura certa para avançar. Muitos dos líderes militares sob o comando de Josué talvez pensassem: “Por amor de Deus, não esperemos mais! Vamos! Este é o momento lógico e o inimigo está pronto para ser tomado!”.

Contudo, existem na economia e planeamento de Deus valores, prioridades e princípios espirituais muito mais vitais e fundamentais para a vitória ou para a nossa capacidade de atacar e demolir a fortaleza que o mundo erigiu contra o conhecimento e propósito de Deus (2 Cor. 10:4-5). Contemplando as condições a partir da nossa perspectiva de prazos, sentindo a pressão para realizar e cumprir tarefas de modo a agradar a outros e por vezes aos nossos próprios egos, encontramo-nos demasiadas vezes cheios de pressa quanto “a nos fazermos à estrada”. Porém, a fim de sermos bem-sucedidos do ponto de vista de Deus, certas coisas são essenciais se vamos atacar as diversas fortalezas da vida na Sua força e de acordo com os Seus princípios. Talvez uma carta redigida por um inglês durante a Segunda Guerra Mundial ilustre o tópico:

Como um só homem, toda a nação entregou os seus recursos ao Governo. Concedemos ao Conselho de Ministros o direito a recrutar qualquer um de nós para qualquer tarefa, a se apropriar dos nossos bens, dinheiro, tudo. Nunca os ricos atribuíram tão pouca importância à sua riqueza; jamais estivemos tão prontos a abdicar da própria vida, contanto a nossa causa possa triunfar. 1

Antes que Israel estivesse pronto a enfrentar o inimigo, precisava de uma preparação similar de coração e disposição, a fim de se submeter às ordens de Deus e experienciar o Seu poder. De modo a assegurar a vitória, Deus conduziu os israelitas através de vários eventos, destinados a instruí-los e prepará-los para a batalha. O capítulo 5 abrange cinco secções instrutivas, cada uma fundamental à vitória. Incluem os seguintes aspectos:

(1) Uma declaração concernente à moral dos nativos da terra (5:1). Essencial à vitória espiritual é compreendermos que, em Cristo, todos os inimigos que enfrentamos são, essencialmente, adversários derrotados (compare Rom. 6; Col. 2:1-15; Heb. 2:14).

(2) A renovação do ritual da circuncisão (5:2-9). Enquanto sinal da aliança de Deus com Abraão, a circuncisão representava a fé de Israel nas promessas de Deus, que incluíam a posse da terra como sua herança. Era um acto de fé e de preparação espiritual.

(3) A observância da Páscoa (5:10). Ao participar na Páscoa, Israel reviveria a sua libertação do Egipto através do sangue do Cordeiro; mas, tal como acontecia com a circuncisão, a Páscoa estava também relacionada com a terra. Do mesmo modo que observar a Páscoa no Egipto os protegera do anjo destruidor, assegurou-lhes também duas outras coisas: (a) tal como à travessia do Mar Vermelho se seguira a destruição dos egípcios, (b) à travessia do Jordão suceder-se-ia a derrota dos cananeus. Lembrar o passado tornara-se uma excelente preparação da fé para os testes do futuro.

(4) Comer da colheita da terra após a cessação do maná (5:11-12). Conforme foi descrito, a observância da Páscoa simbolizava a libertação do Egipto proporcionada por Deus e a salvação do julgamento do anjo destruidor; mas, para o povo da aliança de Deus, a libertação do Egipto incluía a promessa da herança da terra, lugar de abundância, terra de trigo, cevada, figueiras, azeite e mel (compare Deut. 8:8-9). Falava do seu novo começo, da sua nova vida como o povo de Deus salvo do julgamento e fixo no lugar da bênção. Permita-me repetir o princípio: a Páscoa não apenas olhava para trás, mas contemplava sobretudo o que estava adiante, a vida nova na terra, aproveitando as bênçãos abundantes pelo poder de Deus. Assim, comer da produção agrícola era um acto de confirmação da bênção abundante de Deus.

(5) O encontro de Josué com o Capitão das hostes do Senhor (5:13-15) torna-se o último evento-chave de preparação, sobre o qual nos debruçaremos mais tarde.

O Estado dos Cananeus (5:1)

E sucedeu que, ouvindo todos os reis dos amorreus, que habitavam desta banda do Jordão, ao ocidente, e todos os reis dos cananeus, que estavam ao pé do mar, que o Senhor tinha secado as águas do Jordão de diante dos filhos de Israel, até que passámos, derreteu-se-lhes o coração, e não houve mais ânimo neles, por causa dos filhos de Israel.

A primeira declaração importante no versículo 1 mostra o estado desmoralizado dos habitantes da terra. No fundo, constituíam já um adversário derrotado. Temiam a nação de Israel, devido às obras poderosas de Deus, descritas no versículo 1. Porém, esta verdade tem de ser interpretada à luz do duplo propósito de 4:24, um concernente às nações, “para que todos os povos da terra conheçam a mão do Senhor, que é forte”, e o outro a Israel, “para que temais ao Senhor, vosso Deus”.

Antes de passarmos à renovação da circuncisão, será útil reflectirmos brevemente sobre as declarações do versículo 1, relativas à moral dos nativos diante das obras poderosas de Deus. Existem aqui alguns paralelismos significantes e instrutivos com o Novo Testamento.

É vital que o povo de Deus reconheça e perceba que o Senhor não só É mais poderoso do que todos os nossos inimigos, sejam eles o mundo, a carne ou o diabo, mas também os derrotou para nós na pessoa e obra de Cristo, o Vitorioso. Em João 16:33, Jesus encorajou os Seus discípulos com estas palavras: “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas, tende bom ânimo, eu venci o mundo”. Uma vez que Cristo é verdadeiramente o Vencedor, também nós podemos ser vencedores; de facto, somos super-conquistadores n’Ele. Contudo, a nossa capacidade para conquistar e destruir as fortalezas edificadas contra o conhecimento de Deus e o seu impacto em nós e nos outros está sempre dependente da nossa vida nova no Salvador. Por esta razão, Paulo orou: “E, graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo, e por meio de nós manifesta, em todo o lugar, o cheiro do seu conhecimento” (2 Cor. 2:14, ênfase minha).

Mas triunfar em Cristo não é automático. Vencer através do Salvador exige que nos relacionemos correctamente com Ele, e ainda que nos foquemos e dependamos d’Ele como fonte do nosso caminho diário, passo a passo. A nossa necessidade é a de sermos fortes no Senhor e na força do Seu poder (Efésios 6:10 ss). Por tal razão, Israel não só precisava de saber que enfrentava um adversário derrotado e desmoralizado, mas também necessitava de preparação espiritual. Assim, o Senhor conduziu-os através de uma série de experiências importantes, de modo a fortificá-los e prepará-los para entrarem na batalha que os aguardava.

A Renovada Circuncisão do Povo (5:2-9)

2 Naquele tempo, disse o Senhor a Josué: Faz facas de pedra, e torna a circuncidar, segunda vez, aos filhos de Israel. 3 Então Josué fez para si facas de pedra, e circuncidou aos filhos de Israel, no monte dos prepúcios. 4 E foi esta a causa por que Josué os circuncidou: todo o povo que tinha saído do Egipto, os varões, todos os homens de guerra, eram já mortos no deserto, pelo caminho, depois que saíram do Egipto. 5 Porque todo o povo que saíra estava circuncidado, mas a nenhum do povo que nascera no deserto, pelo caminho, depois de terem saído do Egipto, haviam circuncidado. 6 Porque quarenta anos andaram os filhos de Israel pelo deserto, até se acabar toda a nação, os homens de guerra, que saíram do Egipto, que não obedeceram à voz do Senhor; aos quais o Senhor tinha jurado que lhes não havia de deixar ver a terra que o Senhor jurara aos seus pais dar-nos; terra que mana leite e mel. 7 Porém, em seu lugar, pôs a seus filhos; a estes Josué circuncidou: porquanto estavam incircuncisos, porque os não circuncidaram no caminho. 8 E aconteceu que, acabando de circuncidar a toda a nação, ficaram no seu lugar, no arraial, até que sararam. 9 Disse mais o Senhor a Josué: Hoje revolvi de sobre vós o opróbrio do Egipto; pelo que o nome daquele lugar se chamou Gilgal, até ao dia de hoje.

No versículo 2, o Senhor instrui Josué a circuncidar os filhos de Israel pela segunda vez. Obviamente, “segunda vez” não significa que os homens já circuncidados sê-lo-iam de novo. Em vez disso, enquanto nação, seria a segunda vez que todos os homens eram circuncidados, tendo a primeira ocorrido enquanto a geração antiga ainda estava no Egipto. Durante o período de escravidão no Egipto, os filhos de Israel não praticaram a circuncisão, não até estarem prestes a partir. A circuncisão era uma prática egípcia com conotações religiosas, reservada aos sacerdotes e cidadãos de classes superiores. Devido a isto, é provável que estivesse proibida aos israelitas. De qualquer modo, todo o homem participante na Páscoa no Egipto, israelita nato ou estrangeiro, foi circuncidado na altura (compare Josué 5:5 com Êx. 12:43-49). Em Êxodo 12:50, o comentário relativo a esta circuncisão é “…e todos os filhos de Israel o fizeram”.

Mas porquê a renovação do ritual da circuncisão, especialmente nesta altura, em que decerto deixaria os homens de guerra mais vulneráveis a ser atacados, incapacitando-os durante algum tempo? Ilustrando os efeitos da circuncisão em homens adultos, confira a história em Génesis 34, a respeito dos siquemitas e dos filhos de Jacob. Os homens siquemitas, que queriam casar-se com mulheres israelitas, concordaram em ser circuncidados, mas isso era apenas um estratagema destinado a incapacitá-los para lutar. Lê-se em Génesis 34:25: “Três dias depois, quando os homens de Siquém estavam ainda enfraquecidos pelas dores, Simeão e Levi, irmãos de Dina, agarraram cada um uma espada, entraram tranquilamente na cidade e mataram todos os homens”.

A sabedoria humana convocaria um ataque imediato; porém, em vez disso, Deus decretou um atraso, com o propósito de preparação espiritual. Os versículos 4-9 explicam as razões específicas:

(1) Nenhum homem nascido após a saída do Egipto ou durante a permanência no deserto havia sido circuncidado. Os israelitas falharam a prática da circuncisão enquanto estiveram no deserto (vss. 4-7). Tal pode ser uma evidência adicional da sua desobediência e falta de fé e confiança na aliança de Deus com a nação através de Abraão. Mas, mais do que tudo, devido ao significado da circuncisão, seria impróprio praticarem-na no deserto, como um povo julgado que ali morreria. A circuncisão era um sinal das promessas da aliança de Deus com Abraão, que incluíam a posse da terra (confira Gén. 17:8 ss). Devido à sua descrença, a geração antiga jamais a possuiria.

(2) A circuncisão, enquanto sinal da aliança, era um meio que permitia identificar-se com as promessas da aliança de Deus com Abraão e seus descendentes, a nação de Israel. Como tal, seria um sinal de fé naquilo que Deus faria através e pelo Seu povo. Indubitavelmente, por esta razão, nenhum homem poderia participar legitimamente na Páscoa se não estivesse circuncidado (Êx. 12:43 ss). A Páscoa recordava Israel da sua libertação do Egipto, mas essa libertação tinha como objectivo a posse da terra.

(3) O Senhor reconheceu a realização da circuncisão com as palavras “Hoje revolvi de sobre vós o opróbrio do Egipto; pelo que o nome daquele lugar se chamou Gilgal, até ao dia de hoje” (vs. 9). Conforme visto anteriormente, Gilgal significa “círculo”, referindo-se ao círculo de pedras colocado em Gilgal quando atravessaram o Jordão, servindo como memorial da salvação de Deus. Como também foi destacado, Gilgal provém do hebraico galal, “rolar algum objecto sobre, em cima, para longe, contra, até". A palavra que originou o termo roda (um círculo que rola, como usado numa carruagem) provém desse vocábulo. Assim, há aqui um jogo de palavras que se destina a ensinar uma verdade importante.

O que era o opróbrio do Egipto? Baseado em Génesis 34:14, Unger pensa que o “opróbrio era a vergonha e a desgraça da incircuncisão”2. Mas Ryrie, provavelmente por causa de Êxodo 32:12, acredita que se refere às “provocações tecidas pelos egípcios aos israelitas, devido à incapacidade de obterem a sua terra prometida” 3.

Um novo significado associa-se assim ao nome Gilgal. Primeiro, Gilgal simbolizaria o que Deus fizera ao afastar as águas do Jordão, de modo a poderem atravessar em solo enxuto. Porém, em segundo lugar, também recordaria Israel do que havia feito como acto de fé e obediência através do ritual da circuncisão. Esta simbolizava a sua fé no que Deus faria para os capacitar a possuir a terra. Incluído nisso, encontrava-se o seu compromisso único relativamente a Ele e aos Seus propósitos para eles enquanto Seu povo. 4

Foram estas duas coisas – as obras poderosas de Deus e o acto de fé dos israelitas – que revolveram para longe o opróbrio do Egipto. Em Gilgal, as pessoas deveriam lembrar-se das promessas da aliança de Deus e da libertação passada, no intuito de viverem como Seu povo e tomarem posse do que lhes pertencia nos dias que se seguiriam.

No fundo, portanto, em Gilgal Deus estava a dizer: “para serem vitoriosos contra os inimigos da terra, vocês têm de ser um povo santo, confiando em Mim para lutar nas vossas batalhas; têm de confiar nas promessas da Minha aliança e de se comprometer a ser o Meu povo, mantendo sempre em mente o vosso propósito enquanto uma nação de sacerdotes, Minha propriedade de entre todos os povos da terra” (Êx. 19:5-6).

A Páscoa É Celebrada (5:10)

10 Estando, pois, os filhos de Israel alojados em Gilgal, celebraram a páscoa, no dia catorze do mês, à tarde, nas campinas de Jericó.

Uma vez concluída a circuncisão, os israelitas estavam espiritualmente preparados e qualificados para observarem a Páscoa. É também notável o facto de terem atravessado mesmo a tempo de a celebrarem no dia catorze do mês. Repare na precisão temporal de Deus aqui demonstrada.

Esta era apenas a terceira Páscoa que o povo festejava. A primeira fora no Egipto (Êx. 12:1-28), a segunda no Monte Sinai, mesmo antes de levantarem acampamento (Núm. 9:1-5), e a terceira em Gilgal. Mas porquê a Páscoa? Ao participarem na Páscoa, reviveriam a sua libertação do Egipto através do sangue do Cordeiro, borrifado sobre os umbrais e o lintel das suas casas. Campbell escreve:

À medida que os cordeiros eram mortos, era-lhes assegurado que, tal como a travessia do Mar Vermelho fora seguida pela destruição dos egípcios, também a travessia do Jordão seria seguida pela derrota dos cananeus. Assim, recordar o passado tornava-se uma excelente preparação para as provas do futuro.5

A Páscoa não só lhes recordava a sua libertação e redenção do Egipto, como ainda antecipava outras vitórias – a derrota dos cananeus, mas também uma vitória concretizada em Jerusalém, no Calvário. Apontava naturalmente para a cruz, na qual Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós.

Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós (1 Cor. 5:7).

Tal como a circuncisão encontra o seu paralelo no baptismo do crente do Novo Testamento, também a Páscoa se equipara à Ceia do Senhor. A Ceia do Senhor, ou Comunhão, é aquele acto de adoração no qual devemos igualmente lembrar a pessoa e obra do Salvador enquanto o Cordeiro de Deus, que morreu em nosso lugar, carregando o nosso pecado para que pudéssemos possuir vida em abundância.

Existem algumas semelhanças importantes entre a Páscoa e a Ceia do Senhor:


Comparação da Páscoa com a Ceia do Senhor

A Páscoa

A Ceia do Senhor

A Páscoa era um memorial de uma libertação física do Egipto, mediante o sacrifício de um cordeiro (Êx. 12:1 ss).

A Ceia do Senhor é um memorial de uma libertação espiritual em Jerusalém, através do sacrifício do Cordeiro (João 1:29; 1 Cor. 5:7).

A Páscoa era ainda uma antecipação envolta em sombras e presságios de uma realização futura – a pessoa e obra de Cristo no Seu primeiro advento, que abrange o Seu nascimento, vida sem pecado e morte na Cruz como o Cordeiro de Deus, de modo a resgatar-nos das garras do pecado.

A Ceia do Senhor não só aponta para a realização desses prenúncios, mas também deve ser mantida em jeito de antecipação de um cumprimento futuro, o segundo advento e reino de Deus na terra, quando o Cordeiro se tornar o Leão.

A primeira Ceia do Senhor foi também a última Páscoa, pelo menos biblicamente falando, pois instituiu através da Cruz a Nova Aliança da relação de Deus com os homens, encerrando a Antiga Aliança, que consistia em prenúncios e sombras (confira Heb. 8:6-13). À medida que se estuda o ritual da Páscoa e a forma como esta era observada de acordo com a Escritura, isto torna-se ainda mais evidente e significativo, em especial se considerar o modo como a Páscoa é celebrada actualmente pela comunidade judaica. Nos dias de hoje, quando celebram a Páscoa, os judeus não sacrificam um cordeiro. Dispõem apenas de um osso seco do animal. Não celebram a Páscoa com o sacrifício de um cordeiro há mais de mil e novecentos anos. Porquê? Em Êxodo 12:14, Deus disse a Israel: “nas vossas gerações o celebrareis [o dia da Páscoa], por estatuto perpétuo”. Por que não obedecem os judeus a esta ordem?

Primeiramente, os judeus ortodoxos argumentam: “Levítico 17:8, 9 proíbe os israelitas de sacrificarem fora do templo, o local determinado para os sacrifícios. Consequentemente, uma vez que o templo foi destruído em 70 D.C. e que ainda não dispomos de um novo, não podemos cumprir a ordem de Deus, relativa a matar um cordeiro para assinalar a Páscoa”. O povo judeu confronta-se com um dilema. Por um lado, Deus pede-lhes que matem um cordeiro como estatuto perpétuo. Por outro, Deus torna esse acto impossível. Porquê?

Porque Jesus Cristo é o Cordeiro e a resposta. Paulo, ele próprio judeu, mas que veio a ter fé em Cristo, diz-nos que “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado” (1 Cor. 5:7). Cristo é o Cordeiro Pascal e a concretização da Páscoa do Antigo Testamento. Desde a Sua morte, a observância desta celebração segundo o típico costume judeu é ilegítima. Em lugar da Páscoa, devemos manter a Ceia do Senhor, um memorial de que o Cordeiro veio uma vez e virá novamente.

Reparemos nas palavras de Paulo em 1 Coríntios 5:7-8: “Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Pelo que façamos festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os asmos da sinceridade e da verdade”. Ele não disse “mantenhamos a Páscoa”, pois o sacrifício foi feito por nós de uma vez para sempre. A nossa responsabilidade reside na celebração do pão não levedado, associado à pureza da vida. Assim, Paulo falou de modo figurativo, dizendo: “façamos festa… com sinceridade e verdade”.

Aplicação: Tal como aconteceu com Israel, também hoje o Senhor deseja que os cristãos despojem os seus inimigos. Os nossos inimigos são aquelas coisas que se erguem contra a nossa amizade com o Senhor e a nossa produtividade. Também nos devemos lembrar que a nossa salvação provém de uma fonte – a obra de Deus para nós em Cristo. Porém, independentemente do que saibamos da doutrina, absorver esta ideia é difícil, devido à nossa inclinação natural para nos apoiarmos nas nossas próprias estratégias, esforçando-nos por viver vidas baseadas em meios próprios, mesmo nos assuntos espirituais.

Para além disso, tal como Israel deveria guardar a Páscoa como recordação do passado aliada à esperança da realização futura das suas sombras e prenúncios, também nós devemos preservar a Ceia do Senhor, recordando não só a vitória da cruz, mas antecipando ainda o retorno de Cristo: “Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálix, anunciais a morte do Senhor, até que venha” (1 Cor. 11:26).

As Colheitas da Terra São Desfrutadas e o Maná Cessa (5:11-12)

11 E comeram do trigo da terra do ano antecedente, ao outro dia depois da páscoa, pães asmos e espigas tostadas, no mesmo dia. 12 E cessou o maná no dia seguinte, depois que comeram do trigo da terra do ano antecedente; e os filhos de Israel não tiveram mais maná; porém, no mesmo ano, comeram das novidades da terra de Canaan.

Desfrutando da Colheita (vs. 11)

Com o versículo 11, a nossa atenção é canalizada para o facto de os israelitas terem comido das colheitas da terra logo após a celebração da Páscoa. O texto diz: “E comeram do trigo da terra do ano antecedente, ao outro dia depois da páscoa…”. Mas porquê? A explicação que se segue responde a esta questão.

Novamente, a Páscoa simbolizava a salvação de Deus do Egipto e do julgamento do anjo destruidor. Porém, para o povo da aliança de Deus, a libertação do Egipto incluía a promessa de herança da terra, local de abundância, terra de trigo, cevada, figueiras, azeite e mel (confira Deut. 8:8-9). Referia-se ao seu novo começo, à sua nova vida como o povo de Deus resgatado do julgamento, fixo como uma rocha no lugar da bênção. Permita-me repetir o princípio: a Páscoa não só contemplava o passado, mas ainda antecipava uma vida nova na terra, desfrutando das suas bênçãos abundantes pelo poder de Deus.

23 “Porque o Senhor passará para ferir aos egípcios, porém, quando vir o sangue na verga da porta, e em ambas as ombreiras, o Senhor passará aquela porta, e não deixará ao destruidor entrar nas vossas casas, para vos ferir. 24 Portanto, guardai isto por estatuto, para vós e para os vossos filhos, para sempre. 25 E acontecerá que, quando entrardes na terra que o Senhor vos dará, como tem dito, guardareis este culto” (confira Êx. 12:25, ênfase minha; veja também Êx. 13:8-9).

Conforme mencionado, a Páscoa não fora celebrada desde o Monte Sinai (Números 9), depois que levantaram acampamento e começaram a sua marcha em direcção à terra. Contudo, em Cades-Barneia rebelaram-se e foram incapazes de acreditar nas promessas de Deus. Tornaram-se um povo sujeito ao julgamento da disciplina de Deus; a geração antiga já não podia entrar na terra, e daí não mais se ter observado a Páscoa. Mas agora a nova geração atravessara através da fé no poder de Deus. Uma vez na terra, e tendo celebrado a Páscoa na fé, os israelitas estavam capacitados a apropriarem-se das bênçãos daquele lugar, provando a bondade do Senhor.

Para além disso, devemos notar que comeram o que foi definido como “pães asmos e espigas tostadas”. A Páscoa deveria ser seguida por uma celebração de pão ázimo, que duraria sete dias (Êx. 12:15). Na Escritura, o fermento é um símbolo de corrupção e maldade. O pão não levedado referia-se a Cristo, que se encontra sem pecado; comer do pão associa-se à amizade com o Senhor após um auto-exame e confissão do pecado, de modo a que não exista pecado conhecido na vida; só então pode alguém alimentar-se adequadamente e retirar sustento da vida do Salvador (confira 1 Cor. 11:28 ss).

Assim, a nação comeu da colheita, o que certamente seria uma demonstração de fé e uma lição do Senhor, relativa à vida salvadora de Deus mediante amizade com Ele.

A Cessação do Maná (vs. 12)

Após verificarmos que comeram da produção agrícola da terra, a nossa atenção é imediatamente focada no facto de o maná ter cessado. Há aqui uma relação óbvia. Mas qual?

Durante quarenta anos, o povo de Israel alimentara-se do maná, uma provisão especial de Deus no deserto, mesmo depois dos seus actos de rebelião e de descrença, bem como da recusa de Deus quanto a permitir que entrassem na terra. Porém, continuavam a ser o Seu povo; eram os objectos do Seu amor e, por isso e para bem da geração mais jovem, que haveria de atravessar, o maná continuou a ser disponibilizado.

Mas o que era o maná? Era uma dádiva sobrenatural para a viagem pelo deserto, mas não alimento para a terra da promessa. Dali em diante, de acordo com a possessão da sua terra, Deus providenciaria comida através de meios naturais, que correspondem ao método comum pelo qual Deus concede provisões. Quando caminhamos com o Senhor, focados n’Ele e vivendo obedientemente, somos capazes de nos apropriarmos e provarmos da Sua bondade. Milagres como o maná são excepções à regra, provisões especiais para objectivos especiais. Embora o Senhor seja sempre capaz de realizar milagres sobrenaturais conforme a Sua vontade, não devemos esperá-los, nem ficar desapontados ou pensar que algo está mal no nosso percurso caso não os experienciemos.

Finalmente, precisamos de ter em conta que provar as bênçãos da Terra Prometida era apenas uma amostra do que estava para vir. Experimentar as nossas bênçãos em Cristo deverá conduzir a uma expectativa dupla: mediante amizade e fé, há sempre mais para provarmos da bondade e misericórdia de Deus durante esta vida (1 Pedro 2:1-3), mas tal é somente uma antecipação de bênçãos mais ricas e abundantes, a experienciar na eternidade como povo de Deus. Como é o Espírito Santo exactamente definido para nós no Novo Testamento? Ele é chamado “o penhor do Espírito”. A sua abençoada presença interior é uma promessa de que muito mais está para chegar.

Felizmente, o Senhor continua a amar-nos e a cuidar de nós mesmo quando estamos no deserto, mas o maná não se compara à abundância da amizade com Ele.

O Capitão do Exército do Senhor (5:13-15)

13 E sucedeu que, estando Josué ao pé de Jericó, levantou os seus olhos e olhou; e eis que se pôs em pé, diante dele, um homem que tinha na mão uma espada nua: e chegou-se Josué a ele, e disse-lhe: És tu dos nossos, ou dos nossos inimigos? 14 E disse ele: Não, mas venho agora como príncipe do exército do Senhor. Então Josué se prostrou sobre o seu rosto na terra, e o adorou, e disse-lhe: Que diz o meu Senhor ao seu servo? 15 Então disse o príncipe do exército do Senhor a Josué: Descalça os sapatos dos teus pés, porque o lugar em que estás é santo. E fez Josué assim.

Estando tudo aparentemente preparado para a conquista da terra, a próxima cena começa com Josué, o comandante de Israel nomeado por Deus, não no acampamento de Israel em Gilgal, mas perto da cidade de Jericó. O que supõe que ele faria ali? Estaria certamente ocupado com a obra do Senhor, recolhendo informação acerca da cidade e respectivas fortificações, de forma a preparar-se para lançar o seu ataque. Naturalmente, Josué estaria preocupado com várias coisas. Antes de mais, precisava de um plano de acção – como iriam atacar Jericó, provavelmente a cidade mais fortificada de Canaã. Tinham pouca ou nenhuma experiência quanto a cercar uma cidade como Jericó. Para além disso, faltavam-lhes sem dúvida equipamentos como aríetes, catapultas, escadas para conseguirem escalar as muralhas ou torres móveis. Tudo o que tinham resumia-se a espadas, flechas, fundas e lanças, que pareciam totalmente inadequadas para a tarefa diante deles. Portanto, como prepararia Josué o seu exército, e como deveriam tratar de tomar a cidade? Ele devia sentir-se como se o peso do mundo recaísse sobre os seus ombros.

Poderíamos culpar Josué por se encontrar em Jericó, avaliando a situação? Claro que não. De facto, Neemias, outro grande líder, fizera o mesmo quando confrontado com o estado das muralhas de Jerusalém. Não obstante, Josué necessitava de um encontro com o Deus a quem servia, de modo a captar de novo uma verdade importante, igualmente vital como parte da sua preparação para a vitória pelo poder de Deus. À semelhança de todos os santos de Deus que por vezes tendem a fixar os olhos na enorme tarefa que enfrentam, faltava algo na perspectiva de Josué enquanto contemplava a cidade de Jericó. Talvez precisasse simplesmente de ser recordado de alguma verdade muito importante, quer para clarificação, quer para encorajamento.

A Posição do Homem

Estando a mente de Josué absorta em preocupações relativas à tarefa diante dele, sentindo nos seus ombros o peso da responsabilidade, levanta os olhos, e ali está um homem com uma espada desembainhada. Que tipo de imagem traz isto à mente, e o que significa? Estar de pé com uma qualquer arma desembainhada corresponde a uma posição militar de alguém que ou está de sentinela defensivamente, ou se encontra pronto a atacar um adversário ofensivamente. Estar de pé com uma espada desembainhada sugeria que estava ali para lutar ou a favor, ou contra Israel.

A Identidade do Homem

O versículo 14 diz-nos que este homem viera como o “príncipe do exército do Senhor”, o comandante do exército do Senhor. A resposta de Josué no versículo 14b e a declaração do capitão no versículo 15 mostram que se tratava de uma teofania; ou melhor, de acordo com a verdade exposta em João 1:1-18, era uma Cristofania, uma manifestação do Cristo pré-encarnado, que, como o Logos, é aquele que revela Deus. Caso fosse apenas um homem ou um anjo, certamente rejeitaria a adoração de Josué (vs. 14). Compare com a resposta de Paulo em Actos 14:8-20 àqueles que queriam fazer dos apóstolos deuses, e ainda com a resposta do anjo a João em Revelação 19:10.

Assim, o Cristo pré-encarnado aparece a Josué no intuito de ensinar e reforçar certas verdades vitais para o povo de Deus, especialmente para os que se encontram em posições de liderança, o que realmente abrange todos os fiéis num certo grau.

A Pergunta de Josué

… e chegou-se Josué a ele, e disse-lhe: És tu dos nossos, ou dos nossos inimigos? (vs. 13b).

Esta terá sido uma resposta natural face a um homem com a espada desembainhada, expressando tanto a preocupação de Josué como a sua coragem. Ninguém que pertencesse ao exército de Israel deveria estar ali já que, evidentemente, não haviam sido dadas ordens para que alguém abandonasse o acampamento. Portanto, quem seria este estranho, que aparecera subitamente vindo do nada? Decerto, Josué terá pensado: “uma vez que não é um de nós, poderá ser um inimigo ou alguém que veio ajudar-nos?”.

Porém, em vista da resposta dada a Josué, a sua questão revela uma mentalidade típica, que representa uma ameaça e impedimento à nossa eficácia ao serviço do Salvador. Que mentalidade é essa? Temos tendência a ver as batalhas que enfrentamos como as nossas batalhas, e as forças que defrontamos como forças organizadas contra nós e a nossas causas, preocupações e planos individuais, e até as nossas crenças teológicas ou posições na doutrina. Num sentido, isso é verdade, se nos mantivermos realmente na causa de Cristo. Contudo, existe outro sentido em que tal simplesmente não é verdade, e este é o assunto aqui em causa.

A Resposta Dada a Josué

E disse ele: Não, mas venho agora como príncipe do exército do Senhor. (vs. 14a).

A resposta chega em duas partes. A primeira é vista como uma negação categórica de ambas as hipóteses de Josué – é simplesmente um “nem” explícito. Por que não respondeu “estou aqui por ti e por Israel”? Em vez disso, o homem com a espada desembainhada disse: “Nem uma coisa, nem outra; não estou aqui para tomar partido, teu ou de qualquer outro”.

A segunda parte da resposta dá-nos a razão: “E disse ele: Não, mas venho agora como príncipe do exército do Senhor”. Por outras palavras, “estou aqui, não para tomar partido, mas para assumir o controlo como Comandante do Exército do Senhor”. Tal facto é de uma importância vital, assentando em dois princípios válidos para todos os aspectos da vida e da nossa luta contra as forças do mundo e de Satanás. Não havia dúvidas de que o Senhor estava lá com os exércitos do Céu para assegurar Jericó, de modo a que o povo de Deus pudesse tomar posse da sua herança (a Terra Prometida); mesmo assim, uma certa perspectiva era essencial para o verdadeiro sucesso. 

O primeiro princípio: Josué não deveria reivindicar a lealdade de Deus para a sua causa, independentemente de quão justa e santa pudesse ser. Em vez disso, Josué precisava de reconhecer a reivindicação de Deus sobre si, para os Seus propósitos. Tendemos a abordar as nossas batalhas e causas ao contrário; viramos as coisas e tentamos ordenar a Deus que nos apoie, em detrimento de nos submetermos e O seguirmos. Certamente, a batalha seria um empreendimento conjunto, Deus e o povo de Israel sob a liderança de Josué, nomeado pelo Senhor (1:1-9); mas Josué, como qualquer um de nós no exército do Rei, teria de seguir o Senhor, submetendo-se à Sua autoridade, recebendo as Suas ordens e confiando a batalha nas Suas mãos, por se aperceber que se tratava mesmo da Sua batalha como Comandante Supremo. Não parece haver dúvidas acerca da compreensão de Josué, conforme evidenciado pela sua questão: “Que diz o meu Senhor ao seu servo?”. Ele estava a pedir ordens a Deus, e certamente terá sido aí que recebeu as necessárias orientações para a tomada de Jericó.

O segundo princípio: Enquanto Aquele que viera para assumir o comando, o Senhor também estava a lembrar a Josué (e a nós) a presença pessoal de Deus e a Sua provisão poderosa, a provisão das Suas vastas hostes. A promessa da presença pessoal de Deus traz sempre a garantia do Seu cuidado protector. De igual modo, a promessa da Sua provisão poderosa chega sempre acompanhada pela promessa do Seu apoio e poder infinitos, independentemente de quão impossível o problema nos possa parecer. Havia mais, infinitamente mais, do que o exército de Josué. Havia Josué e o seu exército, mas também miríades das forças angélicas de Deus, sempre prontas a cumprir as Suas ordens e a servir os santos. Três outras passagens poderão servir como exemplos úteis, a fim de que possamos absorver o assunto aqui exposto e a sua importância na nossa vida diária.

Primeiro, compare 2 Reis 6:8-17. Quando Eliseu estava em Dotan com o seu jovem servo, acabou rodeado pelo exército de Ben-Hadad, que, durante a noite, iniciara a marcha e sitiara a cidade. Na manhã seguinte, ao sair para ir buscar água, o servo de Eliseu viu o vasto exército que circundava Dotan. Receoso e muito aflito, clamou a Eliseu: “Ai, meu senhor! Que faremos?”. Eliseu respondeu: “Não temas; porque mais são os que estão connosco do que os que estão com eles”. Depois, fez uma oração muito interessante, dizendo: “Senhor, peço-te que lhe abras os olhos, para que veja”. Em seguida, lemos que “o Senhor abriu os olhos do moço, e viu; e eis que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu”. Não estavam sozinhos. Com eles, para lutar em seu favor, estava uma hoste das forças angélicas de Deus, que em breve feriria de cegueira os exércitos do rei da Síria.

Um segundo exemplo foi registado para nós em Mateus 26:53. Estando os discípulos ainda relutantes e perplexos diante do facto de Cristo ter de ser crucificado, Pedro desembainhou a espada e atingiu o escravo do sumo-sacerdote, cortando-lhe a orelha. Jesus reagiu, dizendo: “Mete no seu lugar a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão. Ou pensas tu que eu não poderia agora orar ao meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?”.

Um exemplo final ilustrativo do exército angélico de Deus e do seu ministério para com o Seu povo encontra-se em Hebreus 1:14: “Não são, porventura, todos eles, espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão-de herdar a salvação?”. Vemos nisto a segunda razão para o comandante se descrever a si mesmo como “príncipe do exército do Senhor”. Estava assim a assegurar a Josué a provisão de Deus mediante o Seu poderoso exército angélico.

A Resposta de Josué

…Então Josué se prostrou sobre o seu rosto na terra, e o adorou, e disse-lhe: Que diz o meu Senhor ao seu servo? (vs. 14b).

Quanto precisamos nós desta resposta – a resposta de adoração e submissão. Josué percebeu rapidamente. Estivera a pensar num conflito entre os exércitos de Israel e Canaã. Talvez pensasse na batalha como sua. Certamente, sentia o peso da responsabilidade sobre os seus ombros. Mas, depois de ser confrontado pelo Comandante divino, foi recordado de uma verdade que ouvira Moisés proferir muitos anos antes, nas margens do Mar Vermelho. Moisés dissera então: “O Senhor pelejará por vós, e vos calareis” (Êx. 14:14). Josué aprendeu novamente a verdade que David constataria e iria declarar ao enfrentar Golias: “do Senhor é a guerra” (confira 1 Sam. 17:47).

Porém, isto não é tudo. Concluindo a sua adoração e submissão, vemos a pergunta de Josué, a questão de um servo que procura orientação do seu Comandante: “Que diz o meu Senhor ao seu servo?”. Lembra-se da resposta de Paulo na estrada de Damasco, quando se apercebeu que era o Senhor glorificado quem falava consigo? Respondeu, rapidamente: “Senhor, que farei?” (Actos 22:10).

Que reconfortante é saber que jamais teremos de suportar os nossos fardos ou enfrentar os nossos inimigos sozinhos. Josué tinha de reconhecer que as batalhas futuras e toda a conquista de Canaã eram realmente o conflito de Deus. Qual é o nosso papel? Somos soldados do Seu exército, os servos para os quais providencia abundantemente a Sua armadura (Efésios 6:10-18).

Enquanto Dr. C. I. Scofield era pastor da Primeira Igreja Congregacional de Dallas, sobreveio um período no qual os fardos do ministério lhe pareciam mais pesados do que aquilo que conseguia suportar. Esmagado pelo peso das frustrações e problemas do trabalho, ajoelhou-se um dia no seu escritório. Em profunda agonia espiritual, abriu as Escrituras, procurando alguma mensagem de força e conforto. Conduzido pelo Espírito aos versículos finais do capítulo 5 de Josué, constatou que estava a tentar lidar sozinho com as responsabilidades. Nesse dia, entregou o seu ministério ao Senhor, seguro de que era a Sua obra e que Ele conseguiria realizá-la. Ao aceitar a liderança de Deus, Dr. Scofield aliou-se ao Seu poder. 6

Certamente, estes versículos enfatizam a verdade relativa à preeminência e domínio de Cristo. Ele é a cabeça da igreja, realmente o Rei dos reis e Senhor dos senhores.

A passagem também nos recorda que Deus não está presente para lutar nas nossas batalhas, auxiliar nas nossas causas ou vir em nosso socorro quando nos metemos em problemas como se fosse um génio da lâmpada. Em vez disso, lembra-nos que a batalha é d’Ele, sendo o nosso papel o de servos-soldados: temos de O servir, realizar a Sua vontade, segui-Lo e depender d’Ele completamente.

A Revelação Final do Comandante

Então disse o príncipe do exército do Senhor a Josué: Descalça os sapatos dos teus pés, porque o lugar em que estás é santo. E fez Josué assim (vs. 15).

Nas palavras finais do Capitão, existe uma ordem – “Descalça os sapatos” –, bem como uma explicação – “porque o lugar em que estás é santo”. Descalçar os sapatos era um sinal próprio de um servo, símbolo de respeito e submissão. A descrição deste lugar de encontro e revelação como “santo” chama a atenção para o significado especial do que Josué acabara de aprender e experienciar. Deus não só É o Santo na nossa redenção através da provisão do Salvador Sofredor, como também É o Santo na nossa batalha através do Salvador Vitorioso. Só poderemos entrar na batalha e experimentar a salvação de Deus quando descalçamos os nossos sapatos, submetendo-nos à Sua autoridade, presença e poder.

Aqui, constatamos que a batalha do cristão é um chamamento santo, mas também uma promessa divina realizada naqueles que se fazem humildes debaixo da mão poderosa de Deus. “Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que, a seu tempo, vos exalte; lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (1 Pedro 5:6-7).

Conclusão

Neste capítulo, Josué encontrou-se com o Logos vivente, a própria revelação de Deus. Este encontro removeu um grande fardo dos ombros de Josué. A experiência previamente mencionada de Dr. Scofield ilustra a mesma verdade, baseada nesta passagem. Possamos nós compreender o quanto precisamos de permanecer na Palavra com um ouvido atento, de modo a que Deus consiga ensinar-nos as coisas que necessitamos de escutar.

Josué de pé e talvez deambulando nos arredores da cidade de Jericó, estudando o que o aguardava e acabrunhado com o peso da sua responsabilidade, é tão parecido connosco! Contemplamos as coisas que acreditamos que Deus nos chamou a fazer, mas estamos mais dispostos à actividade e à pressa do que à adoração e súplica pela orientação divina. Necessitamos de um estilo de vida que nos encaminhe para a batalha conscientes do Senhor e de quem Ele É a cada movimento, e cientes também dos princípios da Sua palavra, que devem guiar cada pensamento e passo da nossa parte, fortificando os corações com o conforto de Deus. Assim, enquanto contemplamos as batalhas e tarefas diante de nós, olhemos para cima, vendo o Comandante do Senhor dos Exércitos, e descalcemos os nossos sapatos.

Texto original de J. Hampton Keathley, III.

Tradução de C. Oliveira.


1 Donald K. Campbell, Joshua, Leader Under Fire, Victor Books, Wheaton, 1989, p. 39.

2 Merrill F. Unger, Unger's Commentary on the Old Testament, Vol. I, Moody Press, Chicago, 1981, p. 289.

3 Charles Caldwell Ryrie, Ryrie Study Bible, Expanded Edition, Moody, p. 338.

4 Alguns pensamentos acerca da circuncisão:

(1) Em Actos 7:8, Estevão falou acerca da aliança da circuncisão dada a Abraão. Enraizada na aliança abraâmica, a circuncisão simbolizava o acordo de Deus, que garantia a continuidade eterna da semente de Abraão e ainda a possessão da terra (Gén. 17:7-8).

(2) A este respeito, Génesis 17:11 diz-nos que a circuncisão é um “sinal do concerto” ou símbolo daquele acordo. Seria um sinal externo de uma realidade espiritual interior. Tal implicava que deveria ser feita como sinal de fé nas promessas da aliança de Deus. A circuncisão seria para o santo do Antigo Testamento o que o que a água do baptismo é para o santo do Novo Testamento. 

(3) O próprio acto da circuncisão simbolizava uma separação completa dos pecados da carne, como imoralidade, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, conflitos, inveja, ira, disputas, desavenças, divisões, ciúmes, embriaguez e glutonarias (Gál. 5:19-21).

(4) O ritual da circuncisão seria praticado uma vez, mas o que significava deveria ser preservado diariamente. Tal ênfase encontra uma ilustração nas experiências de Israel associadas a Gilgal, pois a nação regressava a esse lugar com frequência durante as suas campanhas militares. Tornou-se um local de compromisso renovado e santificação. De acordo com o Novo Testamento, significava (a) a justiça da fé (Rom. 4:9-12) e (b) o despojo do corpo da carne pela obra de Cristo e a união do crente com Ele (Col. 2:11).

(5) Embora um acto físico, a natureza espiritual da circuncisão é posta em evidência em diversas passagens do Antigo Testamento. Em Deuteronómio 10:16, Moisés desafiou Israel: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” (confira também Deut. 30:6; Jer. 4:4). Assim, a nação teria de compreender que a circuncisão não era apenas cortar um pedaço de pele, mas incluía um trabalho de fé interior, que tocava o coração e abrangia toda a vida.

(6) À luz da profecia de Deuteronómio 30:6 e da declaração de Colossenses 2:11, a circuncisão retratava o que Deus faria espiritualmente através da cruz de Cristo, de modo a lidar com as nossas naturezas pecaminosas, permitindo-nos, ao caminharmos na novidade de uma vida mediante fé em Cristo, viver vitoriosamente em relação aos nossos apetites carnais.

5 John F. Walvoord, Roy B. Zuck, Editors, The Bible Knowledge Commentary, Victor Books, Wheaton, 1983,1985, versão electrónica.

6 Campbell, p. 47.

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