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18. O Retorno de Davi a Jerusalém (2 Samuel 19:8 - 20:26)

Introdução

Nossa história me faz lembrar do caminho para um campo de treinamento missionário na região central da Índia com tantas reviravoltas que mal dá para imaginar. Davi pecou quando cometeu adultério com Bate-Seba e tirou a vida de seu marido (com a ajuda de ninguém menos que Joabe, a figura central do texto). Deus indiciou Davi por seu pecado por meio do profeta Natã, e Davi se arrependeu. No entanto, há consequências que ele terá de enfrentar. Sua filha Tamar é violentada por seu meio-irmão, Amnom. Depois Amnom é assassinado por seu meio-irmão, Absalão. Absalão foge para Gesur, onde recebe asilo de seu avô, Talmai. Por intervenção e intriga de Joabe, Davi é pressionado a permitir o retorno de Absalão a Jerusalém. Depois de algum tempo, Absalão consegue desprestigiar o governo do pai, dando início a uma revolução que obriga Davi, sua família e seus amigos a fugir para o deserto. Deus poupa Davi, dá a seu exército a vitória sobre as forças rebeldes, e providencialmente elimina Absalão por meio de Joabe, o qual o mata apesar das ordens específicas de Davi para o jovem não ser maltratado.

Agora Davi está prestes a voltar para Jerusalém e retomar seu governo sobre a nação de Israel. A fim de ganhar o favor do povo (e talvez tirar um espinho da própria carne), ele afasta Joabe do comando das forças armadas, substituindo-o por Amasa. Parece o fim de Joabe, mas no final do nosso texto veremos que é o fim de Amasa, o qual será morto por Joabe. E Joabe será novamente nomeado comandante do exército de Israel. Quem poderia imaginar uma coisa dessas?

Mas não para por aí. Davi foi forçado a fugir de Jerusalém devido à revolução instigada por Absalão. Embora ele nunca tenha abdicado do trono, Absalão agiu como rei por alguns dias, até ser derrotado em batalha e ter sua vida ceifada por Joabe. Davi é convidado a retornar a Jerusalém para retomar o governo sobre a nação. No entanto, no caminho há uma disputa entre os homens de Judá (a tribo de Davi) e os homens das outras tribos de Israel. Em algum ponto entre o rio Jordão e Jerusalém, uma rebelião é incitada por Seba, e os israelitas renegam Davi como rei e voltam para casa. Por meio de uma estranha reviravolta do destino (humanamente falando), Seba acaba encurralado numa cidade fortificada de Israel. Com a intervenção de uma sábia mulher da cidade, ele é morto, a cidade libertada e a divisão de Israel revertida. Resumindo: 1) Davi é rei; 2) Davi não é mais rei; 3) Davi é convidado a ser rei outra vez; 4) Davi tem o reino dividido; 5) Davi tem o reino reunido.

Acima de tudo, há uma incrível demonstração de derramamento de sangue e violência. Com toda certeza a história receberia classificação “18” (proibido para menores) por sua barbaridade. Joabe dá uma “mãozinha” (perdão pelo trocadilho) ao destino, atravessando Amasa com sua espada, espalhando suas entranhas pelo caminho; o exército, então, pára para ficar olhando o homem chafurdando no próprio sangue. O grand finale é a decapitação de Seba, cuja cabeça é lançada por sobre os muros da cidade para Joabe e o exército do lado de fora.

Esta história fascinante tem todos os ingredientes de um filme de ação. Mas não é só por isso (nem mesmo por isso, principalmente) que devemos estudá-la com cuidado. Esta é uma história religiosa inspirada; é uma história provavelmente escrita por um profeta e, por isso, com uma mensagem para ouvir e aprender. Então, vamos abordar o assunto com grande expectativa no coração e na mente, prontos para ouvir e aprender aquilo que Deus tem a nos dizer.

Apontando o Dedo em Israel (19:9-10)

Todo o povo, em todas as tribos de Israel, andava altercando entre si, dizendo: O rei nos tirou das mãos de nossos inimigos, livrou-nos das mãos dos filisteus e, agora, fugiu da terra por causa de Absalão. Absalão, a quem ungimos sobre nós, já morreu na peleja; agora, pois, por que vos calais e não fazeis voltar o rei?

É muito difícil para quem vive numa democracia entender a situação embaraçosa em que se encontram os israelitas. Quando o presidente Kennedy foi assassinado, apenas algumas horas depois Lyndon Johnson teve de prestar juramento como novo presidente e assumir o cargo. A constituição dos Estados Unidos tem um processo muito claro para sucessão governamental. Mas quando um monarca deixa de atuar como rei, o que faz a nação? Muita gente está discutindo e se acusando em Israel. Todo mundo está culpando alguém e exigindo que (esse) alguém faça alguma coisa. Davi tinha sido rei. Então ele fugiu para o interior. O povo ungiu Absalão em seu lugar, mas agora Absalão está morto. Parece haver uma conclusão precipitada de que Davi voltará e reassumirá seu papel como rei de Israel, mas como isso vai acontecer? O que eles devem fazer? O que podem fazer? E quem o fará? A discussão toda  é sobre essas coisas.

Mais um fator contribui para tornar esse problema tão desagradável — estas são as mesmas pessoas que apoiaram a rebelião de Absalão. Quem está discutindo é o povo de Israel, o qual permaneceu na terra. Eles não são os amigos de Davi que foram com ele para o deserto. Esse pessoal rejeitou Davi como rei e agora sabe que sua volta ao poder é inevitável. Quem gostaria de dar um passo à frente para trazer de volta o homem a quem eles rejeitaram, contra quem cometeram alta traição? Não é à toa que ninguém queira ser o líder.

Davi Facilita a Vida de Israel, Tomando a Iniciativa (19:11-18a)

Então, o rei Davi mandou dizer a Zadoque e a Abiatar, sacerdotes: Falai aos anciãos de Judá: Por que seríeis vós os últimos em tornar a trazer o rei para a sua casa, visto que aquilo que todo o Israel dizia já chegou ao rei, até à sua casa? Vós sois meus irmãos, sois meu osso e minha carne; por que, pois, seríeis os últimos em tornar a trazer o rei? Dizei a Amasa: Não és tu meu osso e minha carne? Deus me faça o que lhe aprouver, se não vieres a ser para sempre comandante do meu exército, em lugar de Joabe. Com isto moveu o rei o coração de todos os homens de Judá, como se fora um só homem, e mandaram dizer-lhe: Volta, ó rei, tu e todos os teus servos. Então, o rei voltou e chegou ao Jordão; Judá foi a Gilgal, para encontrar-se com o rei, a fim de fazê-lo passar o Jordão. Apressou-se Simei, filho de Gera, benjamita, que era de Baurim, e desceu com os homens de Judá a encontrar-se com o rei Davi. E, com ele, mil homens de Benjamim, como também Ziba, servo da casa de Saul, acompanhado de seus quinze filhos e seus vinte servos, e meteram-se pelo Jordão à vista do rei e o atravessaram, para fazerem passar a casa real e para fazerem o que lhe era agradável.

A notícia do que está acontecendo chega aos ouvidos de Davi enquanto ele ainda está em Maanaim. Ele age de forma a tornar sua volta mais fácil para os israelitas. Ele manda um recado para Zadoque e Abiatar (os sacerdotes que ficaram em Jerusalém e continuaram leais a ele), dando-lhes instruções para falar aos anciãos de Judá. Essa é a tribo de Davi, a primeira a ungi-lo como rei quando ele estava em Hebrom. Eles são os parentes mais próximos de Davi. E é lógico que devem tomar a iniciativa de levá-lo de volta a Jerusalém. Davi facilita as coisas para eles anunciando a demissão de Joabe do comando do exército, e sua substituição por Amasa. Isso é um artifício da parte de Davi. Os anciãos de Judá mandam lhe dizer que ele está convidado a voltar. Davi e todos os que estão com ele partem de Maanaim para as margens do rio Jordão. O povo de Judá se reúne em Gilgal para ajudá-los a passar o rio, e para receber Davi de volta como rei. Além do povo de Judá, está presente também uma delegação razoável de israelitas, representando as outras tribos. Entre eles estão Mefibosete, Ziba (seu servo, junto com seus filhos e servos), e Simei, junto com mil benjamitas.

Simei se Arrepende e é Perdoado (19:18b-23)

Então, Simei, filho de Gera, prostrou-se diante do rei, quando este ia passar o Jordão, e lhe disse: Não me imputes, senhor, a minha culpa e não te lembres do que tão perversamente fez teu servo, no dia em que o rei, meu senhor, saiu de Jerusalém; não o conserves, ó rei, em teu coração. Porque eu, teu servo, deveras confesso que pequei; por isso, sou o primeiro que, de toda a casa de José, desci a encontrar-me com o rei, meu senhor. Então, respondeu Abisai, filho de Zeruia, e disse: Não morreria, pois, Simei por isto, havendo amaldiçoado ao ungido do SENHOR? Porém Davi disse: Que tenho eu convosco, filhos de Zeruia, para que, hoje, me sejais adversários? Morreria alguém, hoje, em Israel? Pois não sei eu que, hoje, novamente sou rei sobre Israel? Então, disse o rei a Simei: Não morrerás. E lho jurou.

Simei não nos é estranho, nem a Davi. Ele é aquele descendente de Saul que atormentou Davi e seus acompanhantes quando fugiam de Jerusalém (2 Samuel 16:5 e ss). Ele lançou pedras, sujeira, acusações e insultos contra Davi. Abisai quis calar sua boca permanentemente, mas Davi não deixou, presumindo que Deus, de alguma forma, o estivesse repreendendo por meio desse falastrão. Agora, em seu retorno, Davi deve passar por Baurim, cidade natal de Simei. Simei sabe que está numa grande enrascada. Davi é novamente rei de Israel, e pode muito bem vê-lo como um traidor que precisa ser eliminado.

Simei chega, aparentemente convicto da sua loucura e do seu pecado, ansioso para demonstrar seu arrependimento a Davi enquanto pede perdão. Ele traz consigo 1.000 benjamitas, os quais também demonstram submissão a Davi como rei. Simei não perde tempo. Ele confessa seu pecado e sua loucura e implora o perdão de Davi. Uma vez mais, Abisai expressa o desejo de executar o encrenqueiro e livrar-se dele de uma vez por todas. Uma vez mais, Davi não permite, repreendendo não só ele, mas também Joabe (que obviamente está por trás disso — note a expressão “filhos (plural) de Zeruia” no verso 22). Este é um dia de reconciliação. Não haverá execuções, embora Simei mereça morrer por ter amaldiçoado um governante do seu povo (ver Êxodo 22:28). Davi lhe assegura: “não morrerás” (verso 23).1

Davi Lida com Mefibosete e Ziba (19:24-30)

Também Mefibosete, filho de Saul, desceu a encontrar-se com o rei; não tinha tratado dos pés, nem espontado a barba, nem lavado as vestes, desde o dia em que o rei saíra até ao dia em que voltou em paz. Tendo ele chegado a Jerusalém a encontrar-se com o rei, este lhe disse: Por que não foste comigo, Mefibosete? Ele respondeu: Ó rei, meu senhor, o meu servo me enganou; porque eu, teu servo, dizia: albardarei um jumento e montarei para ir com o rei; pois o teu servo é coxo. Demais disto, ele falsamente me acusou a mim, teu servo, diante do rei, meu senhor; porém o rei, meu senhor, é como um anjo de Deus; faze, pois, o que melhor te parecer. Porque toda a casa de meu pai não era senão de homens dignos de morte diante do rei, meu senhor; contudo, puseste teu servo entre os que comem à tua mesa; que direito, pois, tenho eu de clamar ao rei? Respondeu-lhe o rei: Por que ainda falas dos teus negócios? Resolvo que repartas com Ziba as terras. Disse Mefibosete ao rei: Fique ele, muito embora, com tudo, pois já voltou o rei, meu senhor, em paz à sua casa.

Quando Davi se tornou rei de Israel pela primeira vez, para cumprir sua aliança com Jônatas, ele começou a procurar algum descendente de Saul e Jônatas. Ele ouviu falar de Ziba, o qual serviu Saul até a morte deste. Ziba foi convocado ao palácio e disse ao rei que um filho de Jônatas havia sobrevivido, Mefibosete, aleijado desde a infância. Davi mandou buscar Mefibosete e deu-lhe todas as propriedades anteriormente pertencentes a Saul, assim como Ziba e sua família para servi-lo. Além disso, Davi tinha Mefibosete sentado à sua mesa como filho. Quando Davi fugiu de Jerusalém, Ziba saiu a encontrá-lo com provisões para a viagem. Quando Davi perguntou por Mefibosete, Ziba lhe disse que ele tinha preferido ficar em Jerusalém, esperando recuperar o trono do avô, Saul. Naquela ocasião, Davi deu a Ziba toda a herança que antes dera a Mefibosete.

Agora Davi está voltando a Jerusalém e ao trono. Ziba, seus filhos e servos, e Mefibosete, estão lá para recebê-lo e ajudá-lo na travessia do Jordão, e no caminho para Jerusalém. Embora Ziba esteja por perto, a conversa aqui é entre Davi e Mefibosete. É ele que parece ter abandonado Davi, enquanto Ziba parece gozar de boa reputação. Davi pergunta a Mefibosete por que ele não o acompanhou quando fugia de Jerusalém.

Algumas pessoas talvez não saibam que comecei minha carreira como professor. Dei aulas durante vários anos, e naquela época, ouvi uma porção de desculpas esfarrapadas (minha esposa e eu somos pais de cinco filhas, e também temos ouvido algumas desculpas lamentáveis). Por mais que eu tente entender o que Mefibosete está dizendo, para mim, não faz sentido. Ele não admite ter feito algo errado e tenta se defender dizendo a Davi ter sido enganado, pois tentou selar um jumento para si. Por que, então, ele não foi? Se Ziba não o impediu de selar o jumento, por que Mefibosete não seguiu em frente? Não entendo. Ele, então, acrescenta que Ziba o difamou diante do rei, sem dúvida por ter dito que ele tinha ficado em Jerusalém na esperança de reaver o trono.

Pessoalmente, não creio haver alguma forma de conciliar as duas histórias sobre a ausência de Mefibosete quando Davi fugiu de Jerusalém. Davi também não parece ter resolvido a questão, pois ele não julga um certo e o outro errado. Em vez disso, ele declara que as terras de Mefibosete (dadas a ele, e depois a Ziba) serão divididas igualmente entre ele e o servo, Ziba. Mais uma vez, esse é um dia de alegria e conciliação. Davi vai dar a ambos o benefício da dúvida e emitir um julgamento que beneficie tanto um quanto outro, e talvez facilite sua reconciliação.

Mefibosete certamente não pede nada. Ele reconhece a benevolência de Davi para com ele no passado, e também ser indigno e não merecedor de qualquer consideração especial da sua parte. Ele, então, parece abrir mão daquilo que Davi lhe dá, transferindo seus direitos (por assim dizer) a Ziba. Se ele realmente fez isso ou não, é outro assunto. Mas a impressão que ele tenta passar a Davi é a de que ele está feliz demais em viver na presença do rei, e não quer, nem precisa, de outros benefícios.

Bendito Barzilai (19:31-39)

Também Barzilai, o gileadita, desceu de Rogelim e passou com o rei o Jordão, para o acompanhar até ao outro lado. Era Barzilai mui velho, da idade de oitenta anos; ele sustentara o rei quando este estava em Maanaim, porque era homem mui rico. Disse o rei a Barzilai: Vem tu comigo, e te sustentarei em Jerusalém. Respondeu Barzilai ao rei: Quantos serão ainda os dias dos anos da minha vida? Não vale a pena subir com o rei a Jerusalém. Oitenta anos tenho hoje; poderia eu discernir entre o bom e o mau? Poderia o teu servo ter gosto no que come e no que bebe? Poderia eu mais ouvir a voz dos cantores e cantoras? E por que há de ser o teu servo ainda pesado ao rei, meu senhor? Com o rei irá o teu servo ainda um pouco além do Jordão; por que há de me retribuir o rei com tal recompensa? Deixa voltar o teu servo, e morrerei na minha cidade e serei sepultado junto de meu pai e de minha mãe; mas eis aí o teu servo Quimã; passe ele com o rei, meu senhor, e faze-lhe o que bem te parecer. Respondeu o rei: Quimã passará comigo, e eu lhe farei como for do teu agrado e tudo quanto desejares de mim eu te farei. Havendo, pois, todo o povo passado o Jordão e passado também o rei, este beijou a Barzilai e o abençoou; e ele voltou para sua casa.

Barzilai é um dos meus personagens favoritos nesta história. Ele é um senhor de idade, de 80 anos, para ser mais preciso. Ele é também muito rico. Ele deve ter vivido perto de Maanaim, pois foi lá que supriu as necessidades de Davi e de seus companheiros no exílio. Agora que Davi está voltando a Jerusalém, Barzilai faz um grande esforço para estender sua amizade e hospitalidade durante a sua volta. São cerca de 30 a 40 km (aproximadamente, pois não sabemos exatamente onde ficava Maanaim) até o Jordão, onde Davi cruzará o rio, e outro tanto até Jerusalém. Esse senhor idoso acompanha Davi até o rio, e depois até Gilgal (não muito longe de onde teria sido a antiga Jericó), e aí se despede.

Davi deseja demonstrar sua gratidão a esse velho companheiro, e o convida a ir com ele para Jerusalém, onde promete sustentá-lo com fartura. Barzilai graciosamente recusa a oferta de Davi. Ele admite estar velho demais para apreciar a diferença entre um filet mignon e um mingau, ou entre a voz de soprano de um dos músicos de Davi e sua própria cantoria no chuveiro. As iguarias de Davi seriam desperdiçadas com ele e, além disso, não lhe resta muito tempo de vida. Ele prefere ficar em sua própria casa, perto de onde seus parentes estão sepultados, e onde ele, em breve, também estará.2

Barzilai não deseja se beneficiar pessoalmente da generosidade de Davi, mas propõe uma alternativa. Ele recomenda um jovem, Quimã, ao rei, pedindo-lhe para conceder suas bênçãos ao rapaz como se fosse para ele. De acordo com 1 Reis 2:7, sabemos que Davi pretende manter sua promessa a Barzilai não só enquanto estiver vivo, mas também depois da sua própria morte. Ele dá instruções a Salomão para continuar sendo benevolente para com os filhos de Barzilai (note o plural). Com isso, presumo que Quimã seja filho de Barzilai e que, nessa época ou mais tarde, um ou mais de seus irmãos se juntou a ele. Davi generosamente cuida desses homens como o próprio Barzilai cuidou dele.

Brigando Pelo Rei (19:40-43)

Dali, passou o rei a Gilgal, e Quimã passou com ele; todo o povo de Judá e metade do povo de Israel acompanharam o rei. Eis que todos os homens de Israel vieram ter com o rei e lhe disseram: Por que te furtaram nossos irmãos, os homens de Judá, e conduziram o rei, e a sua casa através do Jordão, e todos os homens de Davi com eles? Então, responderam todos os homens de Judá aos homens de Israel: Porque o rei é nosso parente; por que, pois, vos irais por isso? Porventura, comemos à custa do rei ou nos deu algum presente? Responderam os homens de Israel aos homens de Judá e disseram: Dez tantos temos no rei, e mais a nós nos toca Davi do que a vós outros; por que, pois, fizestes pouco caso de nós? Não foi a nossa palavra a primeira para fazer voltar o nosso rei? Porém a palavra dos homens de Judá foi mais dura do que a palavra dos homens de Israel.

As sandálias mal tinham secado após a travessia do Jordão e eles começaram a murmurar um contra o outro. Todos os homens de Judá acompanham Davi, assim como metade do povo de Israel. A cena me faz lembrar de quando eu estava dirigindo e após algum tempo algumas das minhas filhas começavam a brigar e discutir. Alguns israelitas começam a discutir pelo fato de os homens de Judá, além de tomar a iniciativa, estão também assumindo a liderança para levar o rei de volta a Jerusalém (ninguém parece se lembrar de que poucos dias antes esse mesmo grupo estava discutindo entre si sobre quem deveria tomar tal iniciativa — e ninguém tomou, até os anciãos de Judá o fazerem). Inveja e ciúme começam a aflorar e, finalmente, os israelitas verbalizam sua fúria e frustração: “Como os homens de Judá vêm nos dizer o que fazer? Quem os designou para trazer Davi de volta ou para guiar essa gente?”

Os homens de Judá têm uma resposta pronta, com a qual revidam asperamente: “Estamos levando o rei para Jerusalém porque somos seus parentes mais próximos”. Posso até imaginar que seria algo mais do tipo: “Somos parentes de Davi, por isso, calem a boca!” Eles continuam a se defender dizendo que, embora sejam os parentes mais próximos de Davi, nunca se beneficiaram pessoalmente desse parentesco de forma discriminatória. Mas os homens de Israel não se dão por vencidos por essa contestação. Será que os parentes de Davi pensam que só por serem os parentes mais próximos têm prioridade? Eles têm uma maneira muito diferente de ver o assunto. Eles representam dez tribos, enquanto Judá, apenas uma. Eles deveriam ter dez vezes mais a reivindicar de Davi dos que os homens de Judá.

A discussão não para por aí, mas vai de mal a pior. O autor do texto achou melhor parar por aqui, acrescentando o comentário de que as palavras seguintes dos homens de Judá foram mais duras (“mais fortes”, ARC; “mais violentas”, NTLH; “mais asperamente”, NVI) do que as dos homens de Israel (verso 43). Desconfio que o autor não quis registrar para a posteridade as palavras tolas e cheias de ira ditas além desse ponto. Além disso, nós já entendemos a mensagem. A disputa grosseira e enciumada prevaleceu, de modo que as dez tribos ficaram irritadas e cheias de amargura contra Judá. A tensão foi grande o tempo todo. Qualquer ação precipitada poderia fazer o problema pegar fogo.

A Grande Divisão (20:1-2)

Então, se achou ali, por acaso, um homem de Belial, cujo nome era Seba, filho de Bicri, homem de Benjamim, o qual tocou a trombeta e disse: Não fazemos parte de Davi, nem temos herança no filho de Jessé; cada um para as suas tendas, ó Israel. Então, todos os homens de Israel se separaram de Davi e seguiram Seba, filho de Bicri; porém os homens de Judá se apegaram ao seu rei, conduzindo-o desde o Jordão até Jerusalém.

Mas algo precipitado realmente acontece. E acontece de ser justamente um homem do povo de Israel, cujo nome é Seba. O autor nos diz que ele é um “homem de Belial” (“homem sem valor”). Seba é um joão-ninguém que não seria levado a sério em circunstâncias normais. Mas no calor do momento, ele perde a paciência (ou vê a oportunidade de assumir a liderança), e fala sem pensar: “Não fazemos parte de Davi, nem temos herança no filho de Jessé; cada um para as suas tendas, ó Israel.” Isso é tudo o que é preciso para os israelitas baterem os calcanhares e irem embora com ele. E assim, uma discussão amarga estraga a alegre procissão, que acaba se tornando um grande cisma. Num momento, os israelitas aclamam Davi como líder; noutro, vão atrás de Seba, um joão-ninguém. Davi nem mesmo chegou a Jerusalém e seu reino já está dividido. É como se ele começasse tudo de novo, só como rei da tribo de Judá.

De Volta a Ativa (20:3-10a)

Vindo, pois, Davi para sua casa, a Jerusalém, tomou o rei as suas dez concubinas, que deixara para cuidar da casa, e as pôs em custódia, e as sustentou, porém não coabitou com elas; e estiveram encerradas até ao dia em que morreram, vivendo como viúvas.

Disse o rei a Amasa: Convoca-me, para dentro de três dias, os homens de Judá e apresenta-te aqui. Partiu Amasa para convocar os homens de Judá; porém demorou-se além do tempo que lhe fora aprazado. Então, disse Davi a Abisai: Mais mal, agora, nos fará Seba, o filho de Bicri, do que Absalão; pelo que toma tu os servos de teu senhor e persegue-o, para que não ache para si cidades fortificadas e nos escape. Então, o perseguiram os homens de Joabe, a guarda real e todos os valentes; estes saíram de Jerusalém para perseguirem Seba, filho de Bicri. Chegando eles, pois, à pedra grande que está junto a Gibeão, Amasa veio perante eles; trazia Joabe vestes militares e sobre elas um cinto, no qual, presa aos seus lombos, estava uma espada dentro da bainha; adiantando-se ele, fez cair a espada. Disse Joabe a Amasa: Vais bem, meu irmão? E, com a mão direita, lhe pegou a barba, para o beijar. Amasa não se importou com a espada que estava na mão de Joabe, de sorte que este o feriu com ela no abdômen e lhe derramou por terra as entranhas; não o feriu segunda vez3, e morreu.

A primeira coisa que Davi faz ao chegar em Jerusalém é cuidar das dez esposas (ou concubinas) deixadas para cuidar da casa. Absalão dormiu com elas em público; não há como Davi voltar as coisas ao que eram. Ele jamais dormirá com elas novamente. Ele designa um lugar para elas ficarem e providencia generosamente (tenho certeza disso) tudo de que precisam, mas não dorme com elas outra vez. Elas foram desonradas por Absalão.

O item seguinte da agenda de Davi é a rebelião em curso, liderada por Seba. Davi sabe que rapidez é essencial. Ele nem se atreve a dar tempo a Seba para reunir seguidores, organizar um exército e encontrar cidades fortificadas onde possa se esconder ou lutar. Quanto mais rápido o exército de Davi puder alcançá-lo e dar um jeito nele, melhor. Por isso, Davi convoca seu novo comandante, Amasa4 e lhe dá instruções para reunir as forças militares de Judá e, em seguida, perseguir e subjugar Seba o quanto antes.

Por alguma razão não explicada, Amasa não consegue reunir as forças armadas de Judá no prazo de três dias estipulado por Davi. Dá para imaginar o quanto Davi deve estar inquieto, sabendo que cada hora de liberdade de Seba aumenta a ameaça a seu reino. Deve ser muito doloroso para ele ter de, finalmente, admitir que Amasa não virá, pelo menos por enquanto, e chamar Abisai, irmão de Joabe e antiga dor de cabeça de Davi (ver 1 Samuel 26:6-11; 2 Samuel 16:9-12; 19:21-22). Davi não pediria a Joabe para fazer o serviço, pois ia parecer reconhecimento de que estava errado quando o demitiu e substituiu por Amasa. Mas quando Abisai sai de Jerusalém, liderando os guerreiros especiais de Davi (os Boinas Verdes ou Seals daquela época) em perseguição a Seba, ele vai acompanhado por Joabe.

Joabe e seus homens partem, junto com a guarda real de Davi, os quereteus e peleteus, e todos os “valentes”. Quando chegam a uma pedra grande e bem conhecida de Gibeão, Amasa sai para encontrá-los. Eu esperava que Abisai estivesse na liderança. É possível que as forças que partiram de Jerusalém à procura de Seba estivesse dividida em pequenos grupos, os quais se espalharam para localizar o traidor rapidamente. Daqui por diante no capítulo, Abisai é mencionado só de passagem, enquanto Joabe se torna eminente. Talvez Joabe tenha saído por conta própria, com seus próprios homens, e oportunamente tenha encontrado Amasa. É possível também que ele acreditasse saber onde Amasa poderia ser encontrado e decidisse lidar com ele primeiro. Será Amasa um trapalhão, que não faz nada direito? Ou é covarde, com medo de tentar? Não temos nenhuma pista, mas sua conduta certamente é um enigma. De uma forma ou de outra, sua atitude abre caminho para o que vai acontecer.

Joabe e Amasa se aproximam um do outro. O cumprimento de Joabe parece caloroso e amigável (“meu irmão”, verso 9), de modo que Amasa não fica de sobreaviso. Joabe está com vestes militares, o que inclui um cinto e uma bainha, portando a espada. De alguma forma (não parece intencional), quando ele se move para frente, a espada cai da bainha. Ele se abaixa e a pega com a mão esquerda. Amasa nem parece notar a espada na mão de Joabe quando eles se aproximam. Aparentemente, naquele exato momento, Joabe avalia a situação e percebe como seria fácil matar Amasa, e é isso o que ele faz, no que aparenta ser um impulso repentino. Joabe pega Amasa pela barba; talvez fosse essa a forma usual de segurar um homem para beijá-lo. Conforme ele agarra Amasa com a mão direita, com a esquerda ele o atravessa, provavelmente torcendo a espada em seu abdome, fazendo suas entranhas pularem para fora.

Pelo jeito, quase de imediato Joabe se vira e vai embora, junto com seu irmão Abisai, para retomar a perseguição a Seba. De acordo com o texto, não tenho certeza se ele tinha outra intenção além de matar Amasa. Não é dito que ele tentou assumir o controle do exército de Davi; só que saiu para continuar a perseguição a Seba.

Joabe Assume o Comando (20:10b-13)

Então, Joabe e Abisai, seu irmão, perseguiram a Seba, filho de Bicri. Mas um, dentre os moços de Joabe, parou junto de Amasa e disse: Quem está do lado de Joabe e é por Davi, siga a Joabe. Amasa se revolvia no seu sangue no meio do caminho; vendo o moço que todo o povo parava, desviou a Amasa do caminho para o campo e lançou sobre ele um manto; porque via que todo aquele que chegava a ele parava. Uma vez afastado do caminho, todos os homens seguiram Joabe, para perseguirem Seba, filho de Bicri.

Não parece ser por iniciativa de Joabe que um dos soldados assuma a tarefa de dizer aos demais o que fazer. Ele é “um dos moços de Joabe”, por isso, deve ser leal a ele, e um de seus partidários. Vendo Amasa estendido no chão, parece-lhe óbvia a necessidade de haver um novo comandante do exército. Afinal de contas, alguém precisar dar as ordens. Abisai, evidentemente, parece o próximo na linha de comando. Ele é o filho mais velho (1 Crônicas 2:16), mas o mais importante é que foi ele quem Davi enviou para perseguir Seba quando Amasa não voltou. Apesar disso, o jovem insta seus colegas a reconhecer Joabe como o novo comandante, acontecendo exatamente isso. Não há menção de nenhum protesto, e Joabe é dito como líder daqui pra frente.

Os soldados estão hesitantes, mas não tem nada a ver com o fato de Joabe estar no comando. Sua hesitação é devido à visão de Amasa, que jaz no meio da estrada revolvendo-se no seu próprio sangue. Todos param e ficam olhando como bobos seu corpo estendido, como fazem os curiosos na rodovia quando há algum acidente pavoroso. O mesmo jovem vê que isso está impedindo os soldados de seguir Joabe na perseguição a Seba e resolver o problema. Ele retira o corpo do meio da estrada e o coloca no campo, onde o cobre com um manto. Agora todos passam e nem olham. A perseguição continua.

À Procura de Seba (20:14-22)

Seba passou por todas as tribos de Israel até Abel-Bete-Maaca; e apenas os beritas se ajuntaram todos e o seguiram. Vieram Joabe e os homens, e o cercaram em Abel-Bete-Maaca, e levantaram contra a cidade um montão da altura do muro; e todo o povo que estava com Joabe trabalhava no muro para o derribar. Então, uma mulher sábia gritou de dentro da cidade: Ouvi, ouvi; dizei a Joabe: Chega-te cá, para que eu fale contigo. Chegando-se ele, perguntou-lhe a mulher: És tu Joabe? Respondeu: Eu sou. Ela lhe disse: Ouve as palavras de tua serva. Disse ele: Ouço. Então, disse ela: Antigamente, se costumava dizer: Peça-se conselho em Abel; e assim davam cabo das questões. Eu sou uma das pacíficas e das fiéis em Israel; e tu procuras destruir uma cidade e uma mãe em Israel; por que, pois, devorarias a herança do SENHOR? Respondeu Joabe e disse: Longe, longe de mim que eu devore e destrua! A coisa não é assim; porém um homem da região montanhosa de Efraim, cujo nome é Seba, filho de Bicri, levantou a mão contra o rei, contra Davi; entregai-me só este, e retirar-me-ei da cidade. Então, disse a mulher a Joabe: Eis que te será lançada a sua cabeça pelo muro. E a mulher, na sua sabedoria, foi ter com todo o povo, e cortaram a cabeça de Seba, filho de Bicri, e a lançaram a Joabe. Então, tocou este a trombeta, e se retiraram da cidade, cada um para sua casa. E Joabe voltou a Jerusalém, a ter com o rei.

Joabe, acompanhado do seu exército, passa um pente fino nas terras de Israel à procura de Seba. O autor nos diz que “Seba passou por todas as tribos de Israel até Abel...” (verso 14). Isso significa que a nação inteira sabe da busca de Davi por ele. Sem dúvida, isso é muito angustiante para quem decidiu seguir os conselhos de Seba e voltar para casa. Será que os israelitas ficaram chateados por Judá ter tomado a iniciativa de levar Davi de volta a Jerusalém? Pois agora devem estar muito mais perturbados por Judá estar tomando a iniciativa de varrer Israel para eliminar Seba, sem o menor escrúpulo de usar as forças armadas para isso.

Joabe e seu exército finalmente localizam Seba em Abel Bete-Maaca. Quando ouvem que ele se refugiou na cidade fortificada, eles a colocam sob estado de sítio. As pessoas do lado de dentro nem sabem porque estão sendo atacadas5, mas observam atemorizadas enquanto Joabe e seus homens começam a desmantelar a cidade. É só uma questão de tempo até Joabe entrar nela. Aí, então, não só a cidade será destruída, mas muitas pessoas provavelmente morrerão no confronto.

Uma mulher sábia avalia a situação e toma uma atitude. Ela vai até os muros, grita e pede para falar com Joabe. Ele se aproxima e ela lhe conta como a cidade já fora muito respeitada como fonte de sabedoria e conselho. Era um local conhecido por acabar com as disputas. Por que, então, Joabe quer destruir um lugar assim? Continuando, ela lhe diz que está entre as pessoas pacíficas da cidade, e entre os fieis de Israel. Eles nada fizeram para merecer o que eles estão fazendo. A cidade é parte da “herança do Senhor”. Joabe quer mesmo ser responsável por sua destruição?

Ele lhe assegura que não deseja destruir o lugar. Depois ele conta a razão do cerco. Eles estão à procura de uma pessoa, Seba, filho de Bicri, culpado de se rebelar contra o rei Davi. Se a mulher conseguir lhes entregar Seba, eles seguirão seu caminho em paz. Ela garante a Joabe que a cabeça de Seba será lançada por sobre os muros. A seguir, ela convence o povo do lugar a executar Seba, e sua cabeça é jogada para Joabe e seu exército. Com isso, ele toca a trombeta, indicando o fim das hostilidades. Depois ele volta para Jerusalém e para Davi.

Relatório Administrativo (20:23-26)

Joabe era comandante de todo o exército de Israel; e Benaia, filho de Joiada, da guarda real; Adorão, dos que estavam sujeitos a trabalhos forçados; Josafá, filho de Ailude, era o cronista. Seva, o escrivão; Zadoque e Abiatar, os sacerdotes; e também Ira, o jairita, era ministro de Davi.

Estou certo de que há muita coisa a ser dita sobre todos esses homens, mas nem vou tentar. Desejo apenas me concentrar em um deles, e é em Joabe. Quanta ironia! Esse sujeito é como mau hálito, a gente simplesmente não consegue se livrar dele. Pense nisso. Ele se juntou a Davi enquanto este fugia de Saul (ver 1 Samuel 22:1-2; 26:6). Ele e Abner deram início a uma espécie de luta homem a homem, a qual resultou em muitas mortes, incluindo a de Asael, irmão mais novo de Joabe (2 Samuel 2). Em retaliação contra Abner, o qual matou Asael em batalha, Joabe o mata à traição. Por causa disso, ele leva uma tremenda bronca de Davi (2 Samuel 3). É bastante improvável que Davi o tivesse escolhido como comandante do exército, mas ele havia oferecido o posto a quem primeiro atacasse a cidade de Jebus, e Joabe aceitara a oferta (1 Crônicas 11:4-6). Foi ele também quem manipulou Davi para trazer Absalão de volta a Israel e lhe conceder a liberdade (2 Samuel 14). Foi ele ainda quem matou Absalão, apesar da ordem em contrário de Davi (2 Samuel 18). Não é à toa que Davi o tenha substituído por Amasa. Mas o mais incrível é que, depois de matar Amasa, Joabe volta a ser o comandante do exército. Em vista do início do capítulo 19 (19:13), nunca iríamos imaginar que o capítulo 20 pudesse terminar assim.

Conclusão

Quanto à história da vida de Davi, sentimos agora uma forte sensação de alívio, pois ele está novamente em Jerusalém, reinando sobre Israel. Foi uma luta longa e árdua enquanto ele esperou que Deus cumprisse a promessa de que ele reinaria em Israel no lugar de Saul. Durante anos ele teve de se esconder do rei, o qual tentava matá-lo como se ele fosse um inimigo. Uma vez no trono, Davi teve muitos anos de sucesso, mas esse mesmo sucesso o levou a ficar descuidado, o que acabou causando a sua queda. O resultado dessa queda foi uma grande dose de sofrimento e adversidade, culminando com a rebelião de seu filho Absalão, e a consequente fuga de Davi de Jerusalém. Agora Absalão está morto, a revolução esmagada e Davi de volta à cidade. Que alívio!

A vida de Davi não é um conto de fadas. Ele não vive “feliz para sempre”. As dificuldades depois do seu colapso moral foram muitas, e extremamente dolorosas. Que todos nós aprendamos com elas. Há quem diga: “Bom, Davi também pecou”. Com isso, quase sempre querem dizer: “Davi pecou, se arrependeu, e então continuou exatamente como antes”. Mas isso não é verdade. Ele pecou sim, e também se arrependeu, mas as coisas não continuaram como antes. Depois da queda, sua vida nunca mais foi a mesma. Que ninguém ouse minimizar as consequências do pecado na vida de Davi. O pecado nunca vale a pena, e a vida de Davi ilustra muito bem esse fato.

Também precisamos reconhecer que todas essas dificuldades, afinal, foram para o bem de Davi, e para o bem do povo de Deus. Suas tribulações devem nos ensinar que o pecado não compensa. Por outro lado, elas também serviram para torná-lo mais humilde e mais dependente de Deus. Observe como esses fatos dolorosos lhe deram a humildade e a graça não tão evidentes no início da sua vida. Ele bondosamente perdoou Simei dos pecados contra ele. Não teria sido isso propiciado, pelo menos em parte, por ele mesmo ter sido perdoado por Deus? Vemos a mesma coisa em sua resposta a Mefibosete. Ele aprendeu a dar, e também a receber, com amigos queridos como Barzilai.

Os acontecimentos destes dois capítulos de 2 Samuel ressaltam a realidade da providência divina. Há vezes nas quais Deus intervém na vida dos homens de forma direta. Na época do êxodo, Ele Se revelou aos egípcios e aos israelitas de forma bem visível e dramática. Há outras vezes nas quais Deus age em conjunto com a fé e a obediência de um (ou mais) de Seus santos. Davi, por exemplo, tinha deixado bem claro que a vitória sobre Golias seria do Senhor, e assim foi. Há outras vezes ainda nas quais a mão de Deus não é tão evidente, pelo menos para quem não olha com os “olhos da fé”. Deus prometeu a Davi que ele seria rei, e que seu reino seria eterno. Por meio do profeta Natã, Deus lhe garantiu que ele não morreria por causa do seu pecado. Houve algumas vezes nas quais parecia que Davi tinha “pouca ou nenhuma” chance de sobrevivência. No entanto, Deus manteve Sua promessa, com frequência empregando as pessoas mais improváveis para isso. Ele usou os gentios (o rei de uma nação com a qual Davi tinha guerreado — ver 17:27), assim como os judeus. Ele usou ações provenientes de fé e generosidade, assim como decorrentes de interesses carnais (como quando Joabe matou Absalão, contra as ordens de Davi, e Amasa, por motivos agora desculpáveis). Por mais “fora de controle” que as coisas pudessem parecer, Deus sempre esteve no controle absoluto de tudo, usando os meios mais imprevistos para alcançar Seus propósitos e Suas promessas.

Pense em todas as reviravoltas do nosso texto. Davi designa Amasa como comandante em lugar de Joabe, obtendo com isso o favor dos homens de Judá. No entanto, Amasa demora para voltar a Jerusalém com as forças armadas de Judá, levando Davi a enviar Abisai, irmão de Joabe, à procura de Seba. Uma espada caída e um Amasa desprevenido se transformam em oportunidade para Joabe eliminar Amasa e tomar seu lugar. Dois homens, Seba e um soldado desconhecido, conclamam os soldados a agir, e eles agem. Uma mulher sábia fala, convencendo Joabe da inutilidade de transformar a rebelião de Seba numa guerra, e Joabe concorda. Este texto abre os nossos olhos para “vermos” a mão invisível de Deus operando na vida do Seu povo.

No texto, há também um exemplo bem claro da providência divina: a preparação oportuna da nação de Israel para a futura divisão. Observe as palavras ditas por Seba:

“Não fazemos parte de Davi, nem temos herança no filho de Jessé; cada um para as suas tendas, ó Israel.” (2 Samuel 20:1b)

Compare as palavras de Seba nesse texto com as palavras de Israel após a morte de Salomão:

Vendo, pois, todo o Israel que o rei não lhe dava ouvidos, reagiu, dizendo: Que parte temos nós com Davi? Não há para nós herança no filho de Jessé! Às vossas tendas, ó Israel! Cuida, agora, da tua casa, ó Davi! Então, Israel se foi às suas tendas.” (1 Reis 12:16)

É quase como se as palavras de Seba tivessem se tornado o lema dos rebeldes de Israel. As raízes da divisão entre Judá e as outras tribos são profundas em sua história, mas é evidente que a nação ficou dividida por pouco tempo nos dias de Davi. Essa divisão nunca foi totalmente reparada. Talvez tenha ficado adormecida durante o reinado de Salomão, mas despertou após sua morte. Em todas essas coisas, Deus esteve preparando a nação para a divisão intencionada por Ele. Quando se dividir pela segunda vez, a nação não se reunirá novamente. O reino do norte será dominado pela Assíria, como lição para Judá, lição esta que não será aprendida. Por isso, o reino do sul também será dominado, desta vez pelos babilônios. Nos acontecimentos do nosso texto, Deus está providencialmente preparando a nação para a futura divisão.

Nosso texto nos dá uma visão da condição espiritual de Israel nessa época da sua história. É muito fácil perceber a pecaminosidade de Israel em relação à liderança divinamente designada de Davi. A nação exigiu um rei, e Deus lhes deu um. Quando Deus substitui Saul por Davi, é por meio dele que tem início a dinastia davídica. Davi se recusou a levantar a mão contra o ungido de Deus; mas as tribos de Israel acham muito fácil seguir o conselho de Seba e rejeitar Davi como rei. Eles o renegam, a despeito do fato de Deus tê-lo ungido. Eles acham que o rei é alguém como eles, alguém obrigado a lhes dar o que querem, quando querem. E se ele não der, eles podem rejeitá-lo. A rebelião de Israel contra Davi é também rebelião contra Deus.

Mas não vamos cometer o erro de supor que por Israel ter pecado rebelando-se contra Davi, Judá seja fiel a Deus, por ter permanecido fiel a ele. Quando o povo de Israel está discutindo com o povo de Judá, o argumento dos israelitas é que, por serem dez tribos, eles têm dez vezes mais direito às posses de Davi, dez vezes mais a reivindicar dele. Em outras palavras, Davi tem dez vezes mais obrigações para com eles. Mas quando o povo de Judá fala de sua relação com Davi, sua reivindicação é o parentesco com ele. Nem as dez tribos, nem a tribo de Judá falam de Davi como o rei ungido de Deus. Todos eles seguem Davi por razões egoístas. Portanto, Judá não é melhor por seguir Davi do que os homens de Israel por deixá-lo.

Não é esse o problema da raça humana, em todas as épocas? Quando Deus criou Adão e Eva, Ele os colocou no jardim do Éden. Ele lhes deu liberdade para comer de toda árvore do jardim, com exceção de uma, que Ele proibiu. Aí veio Satanás e convenceu-os de que, se eles conheciam suas necessidades e sabiam como satisfazê-las, mas isso não se enquadrava nos padrões de Deus, eles podiam agir como quisessem, sem dar satisfações a Ele. E assim foi. E, daquele momento em diante, o homem tem se rebelado contra a autoridade de Deus.

Quando o Senhor Jesus Cristo veio à terra, Ele foi o Messias de Deus, o Seu Ungido. Ele foi o Rei de Deus. No início, muitos O seguiram, animados com a possibilidade do Seu reino. Mas quando souberam que o Seu reino não era o que eles esperavam, eles O repudiaram, afirmando ser César o seu rei.

Hoje em dia é a mesma coisa. Há muita discussão e debate sobre a questão da soberania, mas não se pode dizer que Jesus Cristo só queira que creiamos nEle como Salvador, mas não precisamos obedecê-lO como Senhor. Como somos demorados e hesitantes para aceitar isso. Como somos rápidos para rejeitar Seu senhorio sobre a nossa vida. A Bíblia fala claramente, ordenando-nos a fazer certas coisas e a abster-nos de outras. No entanto, quando esses mandamentos entram em conflito com aquilo que queremos, rapidamente, e sem nenhum pudor, rejeitamos o senhorio de Cristo, descartando Seus mandamentos como culturalmente irrelevantes (ou dando qualquer outra desculpa esfarrapada para justificar nossa rebeldia e desobediência). Quando os líderes designados por Deus (maridos, pais, autoridades governamentais, líderes da igreja) nos pedem para fazer algo de que não gostamos, nós nos recusamos a aceitar sua liderança e procuramos outros líderes, os quais nos “guiarão” como realmente sempre quisemos. É impressionante como não gostamos de nos submeter ao senhorio de Deus.

Enfim, só há um “Líder” a quem devemos seguir, e ele é a pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo:

“Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor,  no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” (Colossenses 1:13-20)

Quem O rejeita, o faz por sua conta e risco, e algum dia irá reconhecê-lO como o Rei de Deus:

“Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.” (Filipenses 2:5-11)

O Senhor dá aos homens oportunidade de crer em Jesus Cristo como o Salvador de Deus, o portador de pecados de Deus, assim como de se sujeitar a Ele como o Rei de Deus. Quem se submete a Jesus como Salvador e Rei, recebe o perdão dos pecados e um lugar no Seu reino. Quem O rejeita, um dia O reconhecerá como Rei, mas será banido para sempre do Seu reino, sofrendo a pena da condenação eterna por sua rebelião. Aquele a quem Deus designou como nosso Rei Soberano é também aquele a quem Ele enviou como Servo Sofredor, o qual suportou a pena pelos nossos pecados e nos dá a vida eterna. Vamos nos submeter a Ele como Senhor e Salvador, e viver como súditos fiéis, para Sua glória e para o nosso bem eterno.

Tradução: Mariza Regina de Souza


1 No texto hebraico, as (duas) palavras de Davi são exatamente as mesmas faladas por Natã a ele em 2 Samuel 12:13. A graça que Deus demonstrou a Davi, agora Davi demonstra a Simei.

2 Preciso fazer uma confissão neste ponto. Quando estudávamos o capítulo 12, salientei o fato de que Davi não teria tido nenhum conforto em saber que seria sepultado próximo ao túmulo do filho que ele acabara de perder, e que ele devia estar falando de sua esperança em ver o filho no céu. Não quero mudar minha opinião, mas devo ressaltar que Barzilai parece encontrar algum tipo de consolo em ser sepultado perto de seus entes queridos. Se isso é consolo suficiente para explicar a mudança de atitude de Davi no capítulo 12 é uma questão ainda aberta à discussão.

3 Você deve se lembrar que Abisai, irmão de Joabe, pediu a Davi para deixá-lo matar Saul, e que se ele o ferisse uma vez, não haveria necessidade de atacá-lo de novo (1 Samuel 26:8). Esses dois rapazes parecem se orgulhar de fazer o serviço completo na primeira vez.

4 Amasa era filho de Abigail, irmã de Davi (2 Samuel 17:25; 1 Crônicas 2:17). Joabe era filho de Zeruia, a outra irmã de Davi. Então, Joabe e Amasa eram primos.

5 Isso fica evidente pelas palavras da mulher registradas no verso 19.

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