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O Livro de Rute

Introdução

Anos atrás, encontrei-me em meio a uma discussão teológica sobre o dízimo. Uma igreja distante da nossa procurava estabelecer exatamente o quanto seus líderes deveriam pagar. Será que eles precisavam fazê-lo? Quanto deveria ser? O valor seria sobre a renda "líquida" ou sobre a renda "bruta"? Quando pediram minha opinião, entrei animadamente no debate, totalmente convencido de ter a resposta bíblica. Do ponto de vista técnico, achei que tinha a resposta certa; mas, então, lembrei-me do livro de Rute. Depois de considerar a mensagem deste pequeno grande livro, especialmente o exemplo de Boaz, percebi que caiu por terra tudo o que eu pensava a esse respeito. Tive que escrever a um dos membros daquela igreja, com quem estivera em contato, para dizer-lhe que tinha mudado de opinião.

Rute é um livro surpreendente. São apenas quatro capítulos, mas contam a história emocionante de uma viúva judia, sua nora gentia e um cavalheiro judeu com um enorme coração. Por mais breve que seja, a história é muito importante. Ela teve implicações para os judeus daquela época e continua tendo para os santos de hoje. Devemos prestar bastante atenção ao livro, pedindo que o Espírito Santo abra o nosso coração e a nossa mente para compreendermos sua mensagem.

A história de Rute se passa nos dias negros da época dos juízes (1:1). Juízes é um livro bastante perturbador, pois descreve um período da história de Israel no qual não havia rei e homens e mulheres agiam como bem entendiam: "faziam o que achavam mais reto". Eles não viviam de acordo com a lei de Deus, mas de acordo com seus próprios impulsos e inclinações. O livro fala sobre um ciclo contínuo de pecado, julgamento, súplica e libertação divina, quando, então, tudo recomeçava com pecados ainda maiores. Nele, também lemos sobre homens fracos e mulheres fortes, sobre um sacerdote de aluguel que se vendeu pela melhor oferta, e sobre outro que dividiu a concubina em doze partes, enviando cada pedaço a uma das doze tribos de Israel. Nesse período negro da história israelita viveram uma viúva judia, uma gentia de nome Rute, e um judeu sensível e piedoso chamado Boaz. Eles têm muito a nos ensinar.

Antes de irmos mais adiante, preciso dizer uma palavra sobre os moabitas. Rute, a heroína de nossa história, é moabita. Os moabitas eram um povo formado da união de Ló com sua filha mais velha, conforme descrito em Gênesis 19:30-28. Não eram cananeus. Conquanto fossem proibidos de entrar na assembléia do Senhor até a décima geração (Deuteronômio 23:3), os israelitas não tinham ordens para aniquilá-los e o casamento entre eles não era proibido (Deuteronômio 20:10-15, 21:10-14, compare com 7:1-6, 20:16-20). Lembram-se de que, quando perseguido por Saul, Davi levou seus pais para Moabe, para ficarem sob a proteção do rei? (I Samuel 22:3) Alguns moabitas, pelo menos, deveriam ser parentes de Davi.

Em minha abordagem nesta lição darei um breve resumo do livro e, em seguida, analisarei cada um dos três personagens principais. No final, tentaremos entender a contribuição do livro para a Bíblia e sua relevância e aplicação para os homens e mulheres de nossos dias.

A História de Rute

O livro começa informando que havia fome em Israel. Devido à escassez de alimentos, Elimeleque resolve deixar seu país, junto com sua família, e ir viver temporariamente em Moabe. Parece que ele morre logo após chegarem lá. Ele e sua esposa, Noemi, tinham dois filhos. Os dois se casam com mulheres moabitas e também morrem, sem deixar filhos.

Noemi fica apenas com suas noras, Rute e Orfa. Ouvindo que Deus visitara Seu povo e que há novamente grãos em Israel, ela se propõe a voltar para lá, insistindo com as noras para que fiquem em Moabe. Ela consegue persuadir Orfa a voltar para a casa dos pais; Rute, no entanto, está determinada a ficar com Noemi, a qualquer preço. Noemi não consegue dissuadi-la de forma alguma, por isso, ambas retornam juntas a Israel.

Quando chegam a Belém, cidade natal de Noemi, imediatamente ela é reconhecida pelo povo, que fica empolgado com a sua volta. Noemi, no entanto, rapidamente lhes conta sobre suas dificuldades, responsabilizando Deus por seus problemas, O qual parece tê-la abandonado, ou, pelo menos, é o que ela deixa implícito (1:20-22).

Rute, por sua vez, começa a procurar meios para suprir as necessidades de Noemi. Ela vai colher espigas nas proximidades do campo de um homem que, "por acaso", é parente chegado de Elimeleque (2:3). Logo ela chama a atenção dos segadores por seu trabalho diligente, quase sem descanso (2:7). Ela também atrai a atenção de Boaz, que toma providências para que ela seja protegida e tenha grãos suficientes para cuidar de sua sogra.

Noemi percebe que Boaz demonstra grande bondade para com Rute, por isso age como casamenteira, tentando juntar os dois. Ela bola um plano no qual Rute dará a entender que precisa de um marido e deseja se casar com Boaz. O plano funciona e Boaz diz que ficaria encantado em tê-la como esposa, mas não é o parente mais próximo de Elimeleque. Ele providencia um encontro nos portões da cidade com esse parente e lhe dá a oportunidade de adquirir as terras de Elimeleque e Rute como esposa. O homem está disposto a comprar as terras, mas não quer a mão de Rute em casamento. Por isso, Boaz fica tanto com as terras, quanto com Rute. Eles se casam e o filho que Rute lhe dá à luz chama-se Obede. Este é o avô de Davi.

Os Três Personagens Principais do Livro

Noemi

Confesso aos meus leitores que Noemi não é um dos meus personagens favoritos da Bíblia. Com certeza ela não é uma heroína, como Rute. Penso nela como uma mistura de Jacó, Jó, Jonas e Ester. Ela poderia facilmente ser intitulada como uma das "meninas más da Bíblia". Receio que muitos cristãos sejam enganados pela propaganda popular, que procura "santificar" Noemi. Permitam-me apontar algumas preocupações que tenho a respeito dela.

No capítulo um está escrito que o marido de Noemi morre e a deixa sozinha com os dois filhos (1:3). Tenho a impressão de que Elimeleque morre assim que eles chegam a Moabe. Parece que os rapazes se casam logo em seguida. Eles se unem a mulheres moabitas. Em  minha opinião, eles se casam depois da morte do pai e na época em que Noemi atua como chefe da família. Por isso, concluo que, ou Noemi orquestra o casamento dos dois com mulheres moabitas, ou aceita o fato passivamente. Ela e os filhos vivem em Moabe por quase dez anos (Rute 1:4). Durante todo esse tempo, aparentemente, ela não faz nenhum esforço para voltar a Israel, mesmo que seu marido tivesse a intenção de ficar ali apenas enquanto durasse o período de escassez em Israel.

Quando Noemi, finalmente, decide voltar a Israel, é porque ouve que Deus está novamente providenciando grãos para o Seu povo. Não temos nenhuma indicação de que a fome seja disciplina de Deus devido ao pecado e idolatria de Israel. Aparentemente, não há o sentimento de que deixar Israel seja deixar o lugar das bênçãos e da presença de Deus. Não há o desejo de voltar para lá. A única razão afirmada para o retorno de Noemi é que a terra está produzindo grãos outra vez. Os motivos dela parecem mais práticos do que nobres

O que é mais perturbador é o fato de Noemi insistir para que as noras permaneçam em Moabe e encontrem maridos por lá. Pior ainda é a clara inferência de que devem ficar ali como moabitas, adorando o deus(es) de Moabe.

"Disse Noemi: Eis que tua cunhada voltou ao seu povo e aos seus deuses; também tu, volta após a tua cunhada." (Rute 1:15)

Não há como saber quais foram os motivos de Noemi, mas se ela compreendesse os males da idolatria, perceberia que incentivar suas noras a permanecer em Moabe e adorar os deuses moabitas era simplesmente desastroso.

Finalmente, no capítulo um Noemi responsabiliza Deus por seu infortúnio:

"esperá-los-íeis até que viessem a ser grandes? Abster-vos-íeis de tomardes marido? Não, filhas minhas! Porque, por vossa causa, a mim me amarga o ter o SENHOR descarregado contra mim a sua mão." (1:13, ênfase do autor)

"Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara, porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso. Ditosa eu parti, porém o SENHOR me fez voltar pobre; por que, pois, me chamareis Noemi, visto que o SENHOR se manifestou contra mim e o Todo-Poderoso me tem afligido?" (1:20-21, ênfase do autor)

Quando retorna à sua cidade, Belém, Noemi imediatamente é reconhecida e saudada com alegria. O clima é de festa, mas ela, rapidamente, "põe água na fervura". Noemi não confessas seus pecados. Ela fala de Deus como Todo-Poderoso, mas também como cruel e caprichoso. Deus é a fonte de seus sofrimentos, os quais nada têm a ver com seus pecados ou com os pecados de seu povo.

No capítulo dois vemos Rute trabalhando arduamente para sustentar-se e à sua sogra, mas não vemos Noemi indo ao campo colher espigas. Tem-se a impressão de que Elimeleque e Noemi estavam bem de vida antes do tempo da fome ("tinham partido ditosos" - 1:21). Será que ela não ia trabalhar porque já estava velha e doente? Talvez. Mas também não seria possível que ela não o fizesse por sentir que isso estava abaixo de seus padrões, porque era orgulhosa demais? Estive diversas vezes em Taiwan e em outros lugares e fiquei maravilhado com o trabalho árduo dos idosos para auxiliar no sustento de suas famílias.

No capítulo três o comportamento de Noemi gera uma porção de preocupações. Ela se encarrega de providenciar para que Rute tenha um marido e um lar. Isso, em si mesmo, não parece uma coisa tão ruim. No entanto, os métodos usados por ela, na melhor das hipóteses, são questionáveis. Primeiro, embora algumas pessoas procurem demonstrar que o método utilizado por Noemi fosse um costume daquela época, não creio, de forma alguma, que este seja o caso. Considere as palavras de Leon Morris:

"Sabemos muito pouco a respeito dos antigos costumes de Israel, e os arranjos de casamento aqui descritos não são confirmados em nenhum outro lugar."

"O contexto deixa bem claro que essa era uma forma de Rute dar a entender a Boaz o seu desejo de se casar com ele. Os métodos comuns de aproximação, sem dúvida, eram difíceis, e esse forneceu um meio-termo conveniente. No entanto, não sabemos porque deveria ser assim. Tampouco sabemos se esse era um costume amplamente praticado. Esse método não aparece em nenhum outro lugar, só aqui." 

Segundo, Boaz não é o parente mais próximo de Elimeleque. Duvido muito que Rute saiba disso até que Boaz a informe (3:12); mas, Noemi, com certeza, sabe. Por que, então, ela tenta arranjar o casamento com ele em vez de com o parente mais próximo?

Terceiro, parece meio estranho Rute ter que propor o casamento. Por que Noemi não pergunta a Boaz se ele não quer tomar Rute como esposa?

Quarto, Noemi escolhe uma época, um lugar e um meio de aproximação que apelam para os desejos sensuais, não para um compromisso razoável. Ela instrui Rute a se aproximar de Boaz no tempo da sega, época de grande celebração. Essa ocasião é semelhante àquela em que Judá teve ligações com uma mulher que ele pensava ser prostituta cultual, mas que, na verdade, era sua nora (Gênesis 38:11-30). Noemi diz a Rute para ir à noite, depois de Boaz ter comido e bebido; em outras palavras, depois que ele ter bebido o suficiente para "seu coração estar alegre".

"Banha-te, e unge-te, e põe os teus melhores vestidos, e desce à eira; porém não te dês a conhecer ao homem, até que tenha acabado de comer e beber." (Rute 3:3, ARA, ênfase do autor). 

"Havendo, pois, Boaz comido e bebido e estando já de coração um tanto alegre, veio deitar-se ao pé de um monte de cereais; então, chegou ela de mansinho, e lhe descobriu os pés, e se deitou." (Rute 3:7, ARA, ênfase do autor)

Alguns podem pensar que estou lendo demais nas entrelinhas. Não mesmo! Encontramos exatamente a mesma expressão ("estar com o coração alegre", literalmente, estar embriagado) em Juízes 19:6, 9, onde o pai da concubina demonstra grande hospitalidade para com o genro. A expressão é também empregada em I Samuel 25:36 para se referir a Nabal, quando ele fica embriagado; em II Samuel 22:11, 13, quando Davi tenta embriagar Urias, para que ele vá para casa e se deite com sua esposa, a fim de encobrir o adultério de Davi; e, em II Samuel 13:28, quando Absalão ordena a seus servos que embriaguem Amnon para depois matá-lo. Ela é encontrada ainda em Ester 1:10, quando o rei da Pérsia, em estado de embriagues, exige a presença da rainha diante dele e de seus líderes.

Quinto, a intenção de Noemi é aproximar Rute de Boaz apelando para a atração física (Rute 3:3-4):

"Banha-te, e unge-te, e põe os teus melhores vestidos, e desce à eira; porém não te dês a conhecer ao homem, até que tenha acabado de comer e beber. Quando ele repousar, notarás o lugar em que se deita; então, chegarás, e lhe descobrirás os pés, e te deitarás; ele te dirá o que deves fazer." (Rute 3:3-4) 

Pare e pense. Boaz esteve trabalhando na colheita o dia todo; agora é hora de comer e beber. Seu coração está alegre, não apenas devido à ocasião festiva, mas também devido ao vinho que está bebendo. Uma linda jovem chega e se deita perto dele, cheirosa e bem-vestida. Não concordam comigo que a cena não é nada platônica?

Sexto, Noemi diz a Rute que ela deve fazer qualquer coisa que ele peça a ela (3:4)

Ora, se alguém ainda acha que minhas suspeitas são um tanto exageradas, deixe-me mostrar como Boaz reage. Ele diz a Rute que ninguém deve saber que ela esteve na eira naquela noite (3:14). Se esse realmente é o método usual de propor casamento, por que, então, as pessoas não compreenderão a presença e o comportamento de Rute? Sua presença ali ameaçará a reputação dele, ou dela? Não é de admirar que Morris aponte os perigos da aproximação proposta por Noemi:

"O narrador é extremamente sutil, mas é óbvio que o plano de Noemi não é isento de perigos. O que faz com que ela induza o comportamento de Rute é a confiança que ela deposita tanto em Rute, quanto em Boaz. Ainda mais neste caso, em que as práticas imorais do Antigo Oriente na época da colheita não são nada incomuns, e, de fato, parecem ser incentivadas pelos rituais de fertilidade praticados em algumas regiões."

Por tudo isso, concluo que Noemi tenta unir Rute e Boaz de forma provocante e manipuladora, em vez de seguir os princípios corretos. Em minha opinião, isto não depõe a seu favor.

Rute

Estou certo de que quando lemos sobre a "mulher virtuosa" em Provérbios 31, nossa tendência é pensar numa mulher judia. No entanto, conforme leio o livro de Rute, penso nela como uma "mulher virtuosa" do mesmo tipo da "mulher de Provérbios". Como veremos, ela é virtuosa, com certeza.

No capítulo um, Rute se agrega a Noemi, embora sua sogra insista para que ela volte para a casa dos pais, para sua terra natal e para seu(s) deus(es) pagão(s):

"Disse Noemi: Eis que tua cunhada voltou ao seu povo e aos seus deuses; também tu, volta após a tua cunhada. Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o SENHOR o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti." (Rute 1:15-17)

Noemi é uma mulher velha e amarga, que pensa que Deus a tem tratado com muito rigor. Ela incentiva Rute a voltar à terra de Moabe, à casa de seus pais e ao seu deus. Alguns poderiam pensar que seria bastante tentador para Rute "obedecer" a sua sogra e retornar para casa. Entretanto, o compromisso de Rute com Noemi é bem maior do que o compromisso de algumas pessoas com o casamento. De fato, as palavras de Rute, às vezes, são usadas como votos de casamento. Por seu voto ela se une a Noemi, a Israel e ao Deus de Israel. Seu compromisso não é por pouco tempo, até a morte de Noemi. Seu compromisso com Israel e com o Deus de Israel é para toda a vida. Rute diz que permanecerá em Israel mesmo após a morte de Noemi. Na realidade, ela também diz que será sepultada junto de sua sogra. Pelo que depreendo de suas palavras, Rute está expressando sua conversão e seu compromisso de adorar Yahweh, o Deus de Israel. Pelas palavras de Boaz, creio que ele tenha compreendido a mesma coisa:

"Respondeu Boaz e lhe disse: Bem me contaram tudo quanto fizeste a tua sogra, depois da morte de teu marido, e como deixaste a teu pai, e a tua mãe, e a terra onde nasceste e vieste para um povo que dantes não conhecias. O SENHOR retribua o teu feito, e seja cumprida a tua recompensa do SENHOR, Deus de Israel, sob cujas asas vieste buscar refúgio." (Rute 2:11-12) 

No capítulo dois, Rute é quem toma a iniciativa de sustentar Noemi, indo colher espigas no campo. Isto não é só evidência de que ela era uma trabalhadora diligente, é também evidência de sua fé. O que ela se dispõem a fazer é muito perigoso. Uma jovem estrangeira, bonita e desacompanhada, é muito vulnerável. Há aqueles que não hesitarão em se aproveitar dela (lembrem-se dos homens de Gibeá, em Juízes 19). Pela maneira como Boaz procura protegê-la, o perigo é evidente:

"Então, disse Boaz a Rute: Ouve, filha minha, não vás colher em outro campo, nem tampouco passes daqui; porém aqui ficarás com as minhas servas. Estarás atenta ao campo que segarem e irás após elas. Não dei ordem aos servos, que te não toquem? Quando tiveres sede, vai às vasilhas e bebe do que os servos tiraram." (Rute 2:8-9; ver também o comentário de Noemi em 2:22)

Boaz previne Rute de que ela deve trabalhar somente em seu campo e ao lado de suas servas. Além disso, ele adverte seus servos para que não a incomodem; na verdade, eles não podem sequer levantar a voz para ela (2:16). Apesar de todos os riscos envolvidos, Rute está disposta a trabalhar no campo, a fim de prover seu sustento e o de Noemi.

Quando Rute vai colher espigas no campo de Boaz, ela trabalha o dia todo, mal parando para descansar. O encarregado dos trabalhadores diz a Boaz:

"Disse-me ela: Deixa-me rebuscar espigas e ajuntá-las entre as gavelas após os segadores. Assim, ela veio; desde pela manhã até agora está aqui, menos um pouco que esteve na choça." (Rute 2:7)

Quando convidada a se sentar à mesa com Boaz e seus servos, ela guarda um pouco dos grãos tostados para a sogra, em vez de comê-los sozinha. (2:14, 18)

Mesmo sendo uma mulher atraente, Rute não usa sua aparência de forma sedutora, mas é humilde e modesta:

"Então, ela, inclinando-se, rosto em terra, lhe disse: Como é que me favoreces e fazes caso de mim, sendo eu estrangeira? ...Disse ela: Tu me favoreces muito, senhor meu, pois me consolaste e falaste ao coração de tua serva, não sendo eu nem ainda como uma das tuas servas." (Rute 2:10, 13)

Quando chegamos ao capítulo três, vemos Rute seguindo obedientemente as instruções de Noemi, agindo com fé, humildade e modéstia. Ela não tenta seduzir Boaz. A reação dele enfatiza o caráter piedoso dela:

"Disse ele: Bendita sejas tu do SENHOR, minha filha; melhor fizeste a tua última benevolência que a primeira, pois não foste após jovens, quer pobres, quer ricos." (Rute 3:10)

Em toda parte, Rute é considerada uma mulher digna e virtuosa:

"Agora, pois, minha filha, não tenhas receio; tudo quanto disseste eu te farei, pois toda a cidade do meu povo sabe que és mulher virtuosa." (Rute 3:11, ênfase do autor)

"Então, as mulheres disseram a Noemi: Seja o SENHOR bendito, que não deixou, hoje, de te dar um neto que será teu resgatador, e seja afamado em Israel o nome deste. Ele será restaurador da tua vida e consolador da tua velhice, pois tua nora, que te ama, o deu à luz, e ela te é melhor do que sete filhos." (Rute 4:14-15, ênfase do autor)

Boaz

Boaz é um homem dos mais notáveis. Parece óbvio que ele já tem uma certa idade (3:10) e que é um homem de recursos consideráveis. Ele tem também integridade e excelente caráter. Algumas pessoas parecem pensar que ele favorece Rute, principalmente, devido à beleza dela. Discordo totalmente. Em minha opinião, ele é gentil e bondoso para com todos, não apenas para com Rute. Vemos que há um respeito mútuo entre ele e seus trabalhadores:

"Eis que Boaz veio de Belém e disse aos segadores: O SENHOR seja convosco! Responderam-lhe eles: O SENHOR te abençoe! " (Rute 2:4)

Quando percebe a presença de Rute pela primeira vez, ele não a vê como alguém "disponível", mas como uma pessoa já comprometida:

"Depois, perguntou Boaz ao servo encarregado dos segadores: De quem é esta moça?" (Rute 2:5)

O interesse de Boaz por Rute é "paternal". Pelo menos por duas vezes (2:8, 3:10) ele se refere a ela como "minha filha", em vez de "meu bem", "docinho", "querida" ou coisa parecida. Ele reconhece que ela é uma mulher de caráter e que ela está buscando o sustento de Noemi. Em consequência disso, ele a trata com generosidade. Ele deixa que ela se sente à sua mesa e beba da água trazida por seus servos (2:9, 14). Ele toma precauções extras para que ninguém a prejudique (2:8-9, 16). Ele ordena a seus servos que deixem mais espigas para ela recolher (2:15-16). Ele se deleita em seu caráter piedoso, em sua fidelidade a Noemi e no fato de ela se entregar aos cuidados do Deus de Israel. Ele invoca sobre ela as bênçãos de Deus (2:11-12).

Os capítulos três e quatro mostram claramente o caráter piedoso de Boaz. Quando descobre que Rute está deitada perto dele, simbolicamente pedindo que ele se case com ela, ele a trata com respeito. Ele não tira proveito da situação. Ele conta a ela que não é o parente mais próximo de Elimeleque e que, por isso, não pode tomá-la como esposa até que tenha resolvido publicamente o assunto. Ele protege a honra de Rute mandando-a embora antes que alguém a veja. No capítulo quatro, ele resolve a questão publicamente nos portões da cidade. De forma alguma ele tenta desviar ou distorcer os procedimentos, a fim de dissuadir o parente mais próximo de comprar as propriedades de Elimeleque e tomar Rute como esposa. Ele faz tudo às claras e com honestidade. 

Conclusão

Que história maravilhosa e encantadora! No entanto, não é apenas uma história romântica; é uma história com lições para Israel e para nós. Para concluir, vamos refletir sobre o significado do livro e sua mensagem.

Primeiro, o livro de Rute fornece a genealogia de Davi, o rei israelita mais famoso de todos os tempos. Leon Morris escreve:

"É um fato interessante que, embora Davi seja o maior de todos os reis encontrados nos livros históricos e seja visto pelas gerações subsequentes como o rei ideal, sua genealogia não conste de I Samuel. Ali, ele é mencionado simplesmente como o "filho de Jessé". O livro de Rute termina com a genealogia retrocedendo até Perez, filho de Judá. Supõe-se que o livro tenha sido escrito para suprir a ausência da genealogia em I Samuel."

Segundo, vemos que, não importa quão negros sejam os dias, Deus sempre preserva um remanescente fiel do Seu povo. Alguns anos mais tarde, Elias pensou que "tinha ficado só" (I Reis 19:10, 14). Mas o fato é que Deus havia preservado 7.000 que não "tinham se dobrado a Baal" (I Reis 19:18). É justamente em tempos de intensa escuridão que a "luz" do evangelho brilha com mais intensidade por intermédio da vida e do testemunho dos santos:

"se abrires a tua alma ao faminto

e fartares a alma aflita,

então, a tua luz nascerá nas trevas,

e a tua escuridão será como o meio-dia." (Isaías 58:10)

"Vai alta a noite, e vem chegando o dia. Deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz." (Romanos 13:12)

"Pois, outrora, éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz." (Efésios 5:8)

"Fazei tudo sem murmurações nem contendas, para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo, preservando a palavra da vida, para que, no Dia de Cristo, eu me glorie de que não corri em vão, nem me esforcei inutilmente." (Filipenses 2:14-16) 

Terceiro, nosso texto nos relembra de que as nossas ações podem impactar as gerações futuras. As vidas piedosas de Rute e Boaz não foram bênção só para Noemi, foram bênção para todas as gerações subsequentes. A criança que Rute dá à luz a Boaz vai ser o avô do rei Davi (Rute 4:18-22). Quase não percebemos o quanto nossas ações e decisões podem impactar a vida daqueles que vêm depois de nós.

Quarto, Boaz é um excelente exemplo da "verdadeira religião".

"Quando também segares a messe da tua terra, o canto do teu campo não segarás totalmente, nem as espigas caídas colherás da tua messe. Não rebuscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro. Eu sou o SENHOR, vosso Deus." (Levítico 19:9-10)

"Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno; que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes. Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito." (Deuteronômio 10:17-19)

"Quando, no teu campo, segares a messe e, nele, esqueceres um feixe de espigas, não voltarás a tomá-lo; para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva será; para que o SENHOR, teu Deus, te abençoe em toda obra das tuas mãos." (Deuteronômio 24:19)

"Aprendei a fazer o bem;

atendei à justiça,

repreendei ao opressor;

defendei o direito do órfão,

pleiteai a causa das viúvas." (Isaías 1:17)

"Ele te declarou, ó homem, o que é bom

e que é o que o SENHOR pede de ti:

que pratiques a justiça, e ames a misericórdia,

e andes humildemente com o teu Deus." (Miquéias 6:8)

Que homem extraordinário é Boaz. A Lei de Moisés exigia que os cantos do campo não fossem rebuscados e as espigas caídas à beira do caminho não fossem colhidas. Ele ordena a seus servos que deliberadamente deixem grãos para que Rute os encontre. Boaz também providencia água e comida para ela. Ele a trata como a uma de suas servas. Procura protegê-la daqueles que poderiam prejudicá-la ou abusar dela. Ele não é irmão do falecido marido de Rute, por isso, como vimos, não é legalmente obrigado a tomá-la como esposa. Mesmo assim, ele o faz, andando a segunda milha em quase todas as coisas, para cuidar de Noemi e Rute.

O que quero ressaltar é que Boaz não vê a lei como uma exigência que ele deve cumprir a contragosto, mais ou menos como quando pagamos nossos impostos (não pretendemos dar ao governo um centavo a mais do que o exigido por lei). Ele considera a lei como o padrão mínimo do que deve ser feito. Ele considera a compaixão como o sentimento mais nobre e a generosidade, como  privilégio e prazer. Eis um homem que verdadeiramente ama a lei de Deus e vive com um espírito que se deleita em servir a Deus e aos outros.

Quinto, o livro de Rute é um excelente comentário sobre caridade cristã. Que contraste entre a atitude de Boaz e os programas sociais de nossos dias. Os programas sociais, na verdade, quase sempre desencorajam (ou até mesmo condenam) o trabalho árduo, humilhando as pessoas em vez de dar-lhes meios dignos de suprir suas próprias necessidades e as de suas famílias. Rute não recebeu nenhuma esmola; ela teve a oportunidade de trabalhar e agarrou-a com satisfação. Seu esforço conquistou o respeito de toda a comunidade. Esse é o tipo de caridade que deveríamos nos esforçar para praticar em nossos dias.

Pessoalmente, o que me intriga é: "Nesta era tecnológica, o que poderíamos considerar como o "canto dos campos"? Não sou fazendeiro, nem a maioria de vocês. Como, então, devemos fazer obras sociais para suprir as necessidades dos pobres e, ao mesmo tempo, manter (ou até mesmo elevar) sua dignidade? Este é um verdadeiro desafio e a resposta é diferente para cada um de nós. Sei que nem todo mundo pode trabalhar, mas estes são minoria. Para os que podem, devemos ajudá-los a procurar emprego. Não há respostas fáceis ou imediatas, mas os princípios são claros, e creio que as respostas estejam disponíveis para aqueles que as buscam com sinceridade.

Sexto, o livro de Rute nos dá um tremendo entendimento sobre o papel dos gentios no "desenrolar do drama da redenção" de Deus. Boaz tem percepção suficiente para compreender que uma gentia, que abraça o Deus de Israel pela fé, pode participar das bênçãos dos judeus. Isto está implícito na bênção invocada por ele em 2:11-12. É por isso que ele não tem reservas em se casar com Rute e ter filhos com ela. Graças ao discernimento e maturidade de Boaz, o povo da cidade, de certa forma, aceita a ascensão de uma gentia:

"Todo o povo que estava na porta e os anciãos disseram: Somos testemunhas; o SENHOR faça a esta mulher, que entra na tua casa, como a Raquel e como a Lia, que ambas edificaram a casa de Israel; e tu, Boaz, há-te valorosamente em Efrata e faze-te nome afamado em Belém. Seja a tua casa como a casa de Perez, que Tamar teve de Judá, pela prole que o SENHOR te der desta jovem." (Rute 4:11-12, ênfase do autor)  

Levei algum tempo para entender estas palavras, mas, depois que a gente entende, tudo fica muito claro. Ao abençoar Rute, o povo de Belém se refere a três mulheres, todas "estrangeiras" do ponto de vista israelita. Raquel e Lia são parentes, mas, para ter as duas como esposas, Jacó tem que deixar Canaã e ir para Padã-Harã, onde obtém Lia e sua irmã mais nova, Raquel. Inconscientemente, Judá cumpre os deveres do levirato quando tem relações sexuais com Tamar, sua nora (Gênesis 38). O povo de Belém percebe que Deus abençoou Israel por intermédio dessas "estrangeiras" e, por isso, não é tão difícil que compreendam que Deus também os abençoará por meio de Rute. E Deus o faz, de uma forma que ultrapassa todos os limites da imaginação. Rute virá a ser a bisavó do rei Davi (Rute 4:18-22).

Vemos que Deus "incorpora" uma porção de mulheres gentias à linhagem do "Messias" prometido. A primeira delas é Raabe, que vemos adotada por Israel devido à sua fé (Josué 2:1ss; 6:17-25). Ela, na verdade, é esposa de Salmon e mãe de Boaz. Será que é por isso que Boaz aceita Rute como membro da família da fé com tanta facilidade? Se sua mãe é gentia, por que não sua esposa? Além de Raabe e Rute, há também Tamar, Lia e Raquel. Deus não exclui os gentios do Seu plano de redenção, mas "incorpora-os" com os judeus como parte do plano.

Sétimo, Noemi, Rute e Boaz simbolizam, cada um deles, uma pessoa ou grupo em particular. Noemi personifica Israel de forma não muito lisonjeira. Ela demonstra uma atitude autoritária e tem amargura por Deus não derramar Suas bênçãos sobre ela. Parece que ela não compreende a graça de Deus e, com certeza, não reconhece qualquer pecado de sua parte. Ela parece alheia à maldade de sua época e também à disciplina de Deus. Ela deixa Israel com o marido e só retorna anos mais tarde, após os filhos terem se casado com mulheres moabitas. O motivo de seu retorno é porque há comida novamente em Israel. Noemi tem pouca consideração pelo bem-estar espiritual de suas noras. Ela tenta mandá-las de volta para suas famílias e para sua religião pagã. A esse respeito, ela parece manifestar um pouco do espírito de Jonas. Ela também é um tanto manipuladora, conforme vimos pela maneira como tenta promover o casamento entre Rute e Boaz. Nesse sentido, ela parece ter um pouco do sangue de Jacó. Embora minhas afirmações sejam um tanto cruéis, temos algo a dizer em favor de Noemi. A despeito de suas falhas e de sua amargura, Deus derrama graciosamente Suas bênçãos sobre ela, em grande parte, por intermédio de uma gentia. Paulo não disse que a salvação dos gentios é parte do plano de Deus para a salvação dos judeus? (ver Romanos 11:11-32) 

Rute é o retrato daqueles gentios convertidos que foram enxertados por Deus na "videira" de Seu pacto de bênçãos (João 10:6, Romanos 11:17ss). Ela não reivindica tais bênçãos, como se as merecesse; mas, aceita-as humildemente como manifestação da graça de Deus. Ela é o exemplo de uma verdadeira israelita, não por causa de seus antepassados, mas por causa de sua fé:

"Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes. Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa." (Gálatas 3:26-29; ver também 3:7, 6:16, Romanos 9:6 e Filipenses 3:3) 

Da mesma forma que Deus uniu Rute (uma gentia) e Boaz (um judeu), Ele também uniu, em Cristo, judeus e gentios:

"Portanto, lembrai-vos de que, outrora, vós, gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisos, na carne, por mãos humanas, naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo. Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derribado a parede da separação que estava no meio, a inimizade, aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade.  E, vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos que estavam perto; porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito. Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito." (Efésios 2:11-22)

Boaz é um retrato de Deus e, mais especificamente, de nosso Senhor Jesus Cristo. Foi ele que, como Cristo, recebeu os gentios na família da fé (ver, por exemplo, Lucas 4:16-30, especialmente os versos 23 a 27). Ele é o resgatador, aquele que "salva" Noemi e Rute no tempo da necessidade. Da mesma forma que ele se torna "uma só carne" com Rute, dando continuidade à linhagem do Messias prometido, nosso Senhor Jesus Cristo assume a forma humana tornando-se um conosco em nossa humanidade, para que possamos ser um com Ele pela fé, e assim sermos salvos. Boaz deixa de lado seus próprios interesses (diferentemente do parente mais próximo) para ser bênção aos que estão em necessidade.

Oitavo, Rute e Boaz exemplificam o tipo de amor leal que devemos demonstrar para com as pessoas desagradáveis. Já deixei claro que vejo Noemi como uma mulher velha e ressentida, que lança sobre Deus a culpa pelas suas dificuldades. Este não é o tipo de pessoa que você ou eu gostaríamos de ter por perto. A reação extremamente negativa de Noemi "reprime" os comentários carinhosos de seus amigos e vizinhos (1:19-21). Se eu fosse Rute, ficaria tentado a obedecê-la e deixá-la, voltando para minha família. Mas Rute é perseverante, não porque Noemi seja uma pessoa agradável (como normalmente seu nome sugere) ou cativante, mas porque Rute ama as pessoas desagradáveis. O amor de Rute não é em resposta à simpatia de Noemi, mas a despeito de sua amargura. Seu amor é movido pelas necessidades de sua sogra.

A persistência e a tolerância de Rute são absolutamente incríveis, não apenas na sua época, mas também na nossa. Quantos maridos e esposas têm se separado por causa de algum desgaste com o companheiro? Rute não tem nenhum compromisso com Noemi, só o compromisso do amor. Por ser fiel e leal à sua sogra, ela é muito admirada e grandemente recompensada por Deus. 

Será que você, meu amigo leitor, tem pensado em se separar quando deveria pensar em perseverar? Quem é a sua Noemi? Talvez seja um amigo, um parente (sua sogra?), ou até mesmo sua esposa. O que o livro de Rute nos ensina sobre perseverança? Creio que ele seja uma repreensão ao nosso egoísmo e falta de compromisso em servir aqueles que nos rodeiam. Aprendamos a ser tolerantes em nossos relacionamentos, da mesma forma que Deus tem persistido em Sua fidelidade para conosco, mesmo quando não somos fiéis (ver Timóteo 2:13).

Nono, vemos que os pecados de Noemi não impedem Rute de confiar no Deus de Israel. Sei que muitas pessoas justificam sua própria descrença acusando cristãos professos de hipocrisia. Noemi é exemplo do que um israelita tem de pior, mas há outros também, como Boaz, que são santos extraordinários. Nenhum de nós será desculpado por ser como Noemi, mas nenhum descrente será poupado da ira eterna de Deus porque alguns santos são hipócritas. As falhas de Noemi não impedem Rute de ter fé. Não deixe que um hipócrita se torne sua desculpa para ir para o inferno. Confie em nosso Senhor Jesus Cristo, o único meio dado por Deus para a salvação eterna. A vida sem pecado de Jesus, sua morte sacrificial e sua ressurreição sobrenatural são o único meio de Deus para a nossa salvação.

Tradução: Mariza Regina de Souza