8. O Dilúvio (Gênesis 6:9 — 8:22)

Introdução

O mundo conhece muito pouco sobre a Bíblia, mas são poucas as pessoas que desconhecem a história da arca de Noé. Ela é tema de piadas, de pinturas, de filmes sobre sua busca e até mesmo de representações em cerâmica. O conhecimento a respeito do dilúvio é quase universal, mesmo fora do relato bíblico do livro de Gênesis.

No entanto, devido a certas indicações na narrativa de Gênesis e também porque em todos os continentes e entre quase todos os povos são encontradas histórias sobre uma grande inundação, parece que devemos concluir que o dilúvio de Gênesis se não abrangeu toda a terra, no mínimo engolfou toda a raça humana. Todos os relatos se referem a um dilúvio destrutivo ocorrido nos primórdios de cada uma dessas histórias tribais. Em cada caso, um ou mais alguns indivíduos foram salvos e foram encarregados de repovoar a terra. Até agora, os antropólogos já reuniram cerca de 250 a 300 dessas histórias.1

Essa familiaridade com a história é o maior obstáculo ao nosso aproveitamento do estudo do livro de Gênesis. Quando abordamos o texto já estamos com a cabeça-feita, achando que nada ou quase nada irá mudar o nosso pensamento ou a nossa atitude.

Suponhamos, por exemplo, que o tema da história seja juízo e destruição, o que, de certa forma, é verdade. Hollywood faria um estardalhaço em cima disso. Veríamos tudo quanto é tipo de ato pecaminoso representado na tela. Quando o enredo já tivesse esgotado as cenas de luxúria, o foco seria voltado para a destruição e violência. Famílias seriam separadas por correntes tempestuosas. Bebês seriam arrancados de suas mães. Prédios rachariam e desmoronariam na inundação.

Embora essa pareça ser a força propulsora da narrativa, não existem palavras para descrever o processo real que resultou em agonia, sofrimento e morte. Nenhuma cena se passa diante dos nossos olhos de tal devastação. O julgamento, com certeza, é um dos temas do que aconteceu, mas, graças a Deus, há um tema muito maior, o da graça salvadora de Deus. Embora não nos atrevamos a ignorar as advertências do texto, também não podemos perder de vista o seu encorajamento.

Enquanto algumas pessoas atentam para o pecado e a devastação do dilúvio, outras se preocupam com o que causou a inundação, não com o seu significado. Estou certo de que há muita coisa interessante nesse acontecimento para as mentes científicas, no entanto, gostaria de chamar sua atenção para o fato de que muito do que é proposto em nome da ciência é apenas teoria e especulação. Não desejo de forma alguma desacreditar ou desencorajar as pesquisas sobre isso. Só quero dizer que não ousamos construir nossa vida sobre elas e ressaltar que esse tipo de abordagem não é o foco principal da narrativa do dilúvio em Gênesis.

Uma análise detalhada desse fenômeno não é o propósito desta lição, e sim uma visão ampla do significado e da mensagem do dilúvio para as pessoas de todas as épocas. Tendo isso em mente, vamos voltar nossa atenção para o texto.

Preparação (6:9 - 7:5)

De modo geral, este trecho trata dos preparativos necessários para o dilúvio. As razões são dadas nos versículos 9 a 12. A revelação é feita a Noé nos versículos 13 a 21. A ordem para entrar na arca está em Gênesis 7:1-4. Gênesis 6:22 e 7:5 registram a obediência de Noé às instruções divinas.

Os versículos 9 a 12 do capítulo 6 e os versículos finais do capítulo 8 são os mais importantes desta passagem, pois ressaltam as razões para o dilúvio e o propósito de Deus para a história. Por isso, vamos dedicar a maior parte do nosso estudo a estes versículos, bem como às passagens do Novo Testamento que tratam deste assunto.

Enquanto o dilúvio foi proposto para destruir a raça humana, a arca foi designada para salvar Noé e sua família, e garantir o cumprimento do propósito divino para a criação e da promessa de salvação de Gênesis 3:15. A chave para o entendimento desta história está na compreensão do contraste entre Noé e sua geração.

Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus (Gênesis 6:9).

Que epitáfio! Noé era um homem justo. Seu caráter é descrito por apenas duas palavras: justo e íntegro. A palavra justo (do hebraico saddiq)

... é comumente usada em referência aos homens. Significa que eles se ajustam a um padrão. Uma vez que Noé se ajustava ao padrão divino, ele recebeu a aprovação de Deus. No entanto, o termo é basicamente forense. Por isso, embora haja aprovação divina, esta não implica em perfeição da parte de Noé. Implica simplesmente em que as coisas que Deus busca num homem estavam presentes na vida dele.2

Sem qualquer pretensão a ser perfeito, Noé foi um homem que deu crédito à Palavra de Deus. Ele satisfez a expectativa divina para o homem, enquanto o resto da humanidade era vil.

A segunda expressão usada para Noé é “íntegro” (versículo 9). A palavra hebraica é tamim. “Uma vez que a raiz hebraica envolve a idéia de ‘completo’, é justo concluir que somente aquela vida era completa em todos os sentidos, bem estruturada e com todas as qualidades essenciais”.

Abandonando essas duas expressões técnicas, Moisés resumiu a vida de Noé escrevendo: “Noé andava com Deus” (Gênesis 6:9).

Com isso ele deu ênfase ao relacionamento entre Noé e Deus, a intimidade entre eles. Isso também reflete a continuidade daquela convivência. Era um caminhar diário, confiante.

Sem dúvida, esse relacionamento tinha como base a revelação acerca da criação do homem e da sua queda. Mais especificamente, devia incluir a promessa de redenção de Gênesis 3:15. E, com toda probabilidade, alguma outra revelação não registrada por Moisés.

Para mim, a justiça de Noé era baseada mais em sua fé em Deus do que no temor das consequências da desobediência. Pelo que sei, ele não fazia ideia do julgamento divino que ia ser infligido à terra até Deus lhe revelar pessoalmente (versículo 13 e ss). Esta revelação do derramamento da ira divina foi resultado do relacionamento direto de Noé com Deus. Se os homens tivessem sido avisados do dilúvio que estava por vir, eles poderiam muito bem ter obedecido a Deus simplesmente por medo da punição. O relacionamento entre Noé e Deus não era motivado por tal temor, mas pela fé. Fé, não medo, é o motivo bíblico para um relacionamento com Deus (embora deva haver um certo temor respeitoso).

Vamos ser bem claros quanto à justiça de Noé. Era uma justiça que veio pela fé.

Pela fé, Noé, divinamente instruído a cerca de acontecimentos que ainda não se viam e sendo temente a Deus, aparelhou uma arca para a salvação de sua casa; pela qual condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiça que vem pela fé. (Hebreus 11:70)

Não foram as obras de Noé que o preservaram do julgamento, mas a graça. “Mas Noé achou graça diante do Senhor” (Gênesis 6:8). Salvação é pela graça, mediante a fé, não por obras, mas para boas obras (Efésios 2:8-10).

Em contraste com a justiça de Noé estava a corrupção do homem: “A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida, porque todo o ser vivente havia corrompido o seu caminho na terra”. (Gênesis 6:11-12)

Somente Noé era justo em seus dias. “Disse o Senhor a Noé: Entra na arca, tu e tua casa, porque reconheço que tens sido justo diante de mim no meio desta geração” (Gênesis 7:1).

O que isso nos diz acerca da família de Noé eu não sei, mas não dá para acreditar que todos os que entraram na arca não acreditassem em Deus, pelo menos após o dilúvio! Não havia outros justos para serem introduzidos na arca, pois ninguém mais andava com Deus. Todos os justos relacionados no capítulo cinco morreram antes da ocorrência do dilúvio.

Por sua própria natureza, os homens eram depravados e corruptos. O que Deus determinou destruir já tinha se autodestruído3. O relacionamento entre o homem e seu semelhante podia ser resumido com apenas uma palavra: “violência”.

Gostaria que percebessem que em parte alguma Moisés especifica os pecados daquela geração. Isso poderia despertar nossa curiosidade ou luxúria. Mais ainda, não acredito que as pessoas daquela época foram destruídas por terem se tornado uma sociedade totalmente decadente. O pecador que bate na mulher, ou pratica a homossexualidade, ou vive com uma garrafa pelos becos, não é, necessariamente, a pessoa mais vil aos olhos de Deus. Desconfio que muitas pessoas mortas no dilúvio foram pessoas religiosas. Imagino que a sociedade daqueles dias não era muito diferente, em questão de caráter, de muitas outras, a não ser por uma notável exceção: aparentemente elas não tinham qualquer tipo de restrição. A questão é que, homens educados, bem barbeados, gentis com senhoras idosas, etc, mas fraudam o imposto de renda ou se aproveitam dos outros, são tão pecadores quanto aqueles cujos pecados são socialmente inadmissíveis.

A principal manifestação do pecado do homem é sua rebelião contra Deus e seu espírito independente. Ele supõe que, embora Deus exista, Ele não se importa com o que as pessoas façam ou em que creiam. E, caso Se importe, não é muito. Pior ainda é a conclusão de que isso não é, de forma alguma, da conta de Deus.

Observe como Deus condena esse tipo de atitude:

Então, me respondeu: A iniqüidade da casa de Israel e de Judá é excessivamente grande, a terra se encheu de sangue, e a cidade, de injustiça; e eles ainda dizem: O SENHOR abandonou a terra, o SENHOR não nos vê. Também quanto a mim, os meus olhos não pouparão, nem me compadecerei; porém sobre a cabeça deles farei recair as suas obras. (Ezequiel 9:9-10)

As inclinações perversas do homem pairam sobre as chamas do inferno por causa da sugestão ou crença de que, embora Deus exista, Ele não se preocupa com o pecado, nem intervém na história humana para tratar dele. Esse tipo de pensamento é fatal.

Deus não escondeu de Noé Seus intentos. Ele lhe revelou Sua decisão de destruir a civilização perversa daquela época e de preservá-lo, bem como ao descendente por meio de quem a promessa de salvação seria cumprida. Noé recebeu a revelação de que essa destruição viria por meio de um dilúvio, e que ele e sua família seriam salvos por meio de uma arca.4

Mesmo não sendo necessário para nós o registro de todas as instruções para a construção da arca, é preciso observar que os detalhes fornecidos são específicos, até no que se refere à coleta de alimento. A arca era um barco incrível, 135 metros de comprimento, 22,5 metros de largura e 13,5 metros de altura (6:15). Ela serviria para salvar tanto o homem quanto os animais.

A Preservação do Homem e dos Animais (7:6 - 8:19)

A arca, agora completa, tendo sido construída ao longo de muitos anos de acordo com o plano divino, é ocupada ao mando de Deus (7:1) pelo homem e pelos animais. Antes do início do dilúvio, Deus fecha a porta. Imagino que se não fosse assim, Noé a teria aberto para quem depois quisesse entrar. No entanto, o dia de salvação tinha de chegar ao fim.

A fonte de água parece sobrenatural. Talvez nunca tivesse chovido (cf. 2:6). Agora a chuva era torrencial. Além disso, as “fontes do grande abismo” (7:11) foram abertas. A água, vinda de cima e de baixo, irrompe durante quarenta dias (7:12). As águas prevalecem durante 150 dias (7:24) sobre a terra, e, em seguida, diminuem ao longo de alguns meses. Cinco meses após o início do dilúvio, a arca pousa sobre o monte Ararate (8:4, cf. 7:11). Leva um tempo considerável para que elas retrocedam e o solo fique seco o suficiente para se andar sobre ele. Noé e sua família passaram pouco mais de um ano dentro da arca. Ao mando do Senhor, alegremente (tenho certeza) eles desembarcam.

A Promessa (8:20-22)

A primeira coisa que Noé faz ao colocar os pés em terra firme é oferecer sacrifícios a Deus. Esta é mais uma evidência da sua fé e, com certeza, expressão da sua gratidão pela salvação proporcionada por Deus.

Em resposta ao sacrifício de Noé, Deus faz uma promessa solene. Gostaria que entendessem, no entanto, que este é um compromisso firmado na mente de Deus — é uma promessa que Ele faz a Si mesmo. A manifestação dessa decisão é dada a Noé no capítulo 9. Isto é o que Deus propôs Consigo mesmo:

E o Senhor aspirou o suave cheiro e disse Consigo mesmo: Não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem, porque é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade; nem tornarei a ferir todo vivente, como fiz. Enquanto durar a terra, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite. (Gênesis 8:21-22)

A resolução de Deus é que Ele nunca mais irá amaldiçoar a terra ou destruir todas as coisas viventes como tinha feito. Por que Ele assumiria um compromisso assim? Com certeza Ele não estava triste pelo que havia feito. O pecado tinha de ser julgado, não tinha?

O problema com o dilúvio é que seus efeitos foram apenas temporários. O problema não estava na criação, mas no pecado. Não estava nos homens, mas no homem. Apagar o passado e começar tudo de novo não adianta, pois o que é preciso é um novo homem para a criação. Esta é a ardente expectativa da criação.

Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. (Romanos 8:20-21)

Portanto, Deus decidiu lidar de forma diferente com o pecado no futuro. Embora o pecado tenha sofrido um revés temporário no dilúvio, ele sofrerá um golpe fatal com a vinda do Messias. É nessa época que os homens se tornarão novas criaturas (2 Coríntios 5:17). Depois de cuidar dos homens, Deus providenciará também um novo céu e uma nova terra (2 Pedro 3:13).

Em resposta à oferta sacrificial feita por Noé como expressão da sua fé, Deus renova Sua promessa de salvação final e definitiva. Até o dia quando essa salvação for consumada, Deus garante ao homem que medidas como o dilúvio não serão tomadas novamente.

O Significado do Dilúvio para as Pessoas de Todas as Épocas

Em primeiro lugar, o dilúvio é um lembrete da graça ímpar de Deus. Enquanto os incrédulos acharam julgamento, Noé achou graça (Gênesis 6:8).

Até certo ponto, todas as pessoas daquela época experimentaram a graça de Deus. Somente 120 anos após sua revelação foi que o juízo de Deus realmente caiu sobre os homens. Esse período foi uma época de graça na qual o evangelho foi proclamado.

A diferença entre Noé e quem morreu no dilúvio foi sua reação à graça de Deus. Aqueles que pereceram interpretaram a graça de Deus como indiferença divina. Eles concluíram que Deus não Se importava nem Se incomodava com o pecado dos homens.

Noé, por outro lado, entendeu a graça exatamente como ela é — uma oportunidade para ter relacionamento íntimo com Deus e, ao mesmo tempo, evitar o desprazer e o juízo divino. Os anos de Noé foram gastos andando com Deus, construindo a arca e proclamando a Sua Palavra.

A graça de Deus é claramente vista nesta promessa: “Enquanto durar a terra, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite” (Gênesis 8:22).

Eis a ironia da nossa época. Como nos dias de Noé, o pecador perdido vê a vida como ela é e pergunta: “Como é que Deus pode realmente existir e não fazer nada para endireitar as coisas — para dar um jeito nelas?” Ele conclui que Deus ou está morto, ou não Se importa, ou não consegue lidar com o mundo do jeito que ele é, fazendo pouco da advertência de 2 Pedro 3:8-9:

Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia. Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada, pelo contrário, Ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento.

Como Noé, o crente reconhece que a vida como ela se encontra é reflexo do controle soberano de um Deus gracioso sobre todas as coisas:

Pois, Nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio Dele e para Ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. (Colossenses 1:16-17)

A continuidade das coisas como elas são — dia e noite, verão e inverno, tempo de flores e tempo de frutos — faz o cristão dobrar os joelhos diante de Deus em louvor e submissão pelo Seu cuidado providencial. Os não-crentes, no entanto, distorcem essa promessa como desculpa para pecar:

Tendo em conta, antes de tudo, que, nos últimos dias, virão escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo as próprias paixões e dizendo: Onde está a promessa de sua vinda? Porque, desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação”. (2 Pedro 3:3-4)

Eles não reconhecem que esse tempo é concedido aos homens para arrependimento e reconciliação com Deus. No entanto, assim como o período da graça terminou nos dias de Noé, assim será para os homens hoje:

Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas. (2 Pedro 3:10)

Nosso Senhor ensinou que os dias que precederão a Sua vinda para julgar a terra serão exatamente como os dias que antecederam o dilúvio:

Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem. Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, senão quando veio o dilúvio e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do Homem”. (Mateus 24:37-39)

Esses dias não são descritos em termos de sensualidade ou decadência, mas de normalidade — de coisas comuns. Os homens dos últimos tempos estarão fazendo aquilo que sempre fizeram. Não há nada de errado em comer e beber, casar-se ou comprar e vender. Errado é fazer essas coisas sem Deus, supondo que podemos pecar como quisermos sem pagar o preço por isso. O tempo da graça chegará ao fim. Que saibamos reagir corretamente à graça de Deus.

Em segundo lugar, o dilúvio nos ensina sobre a ira de Deus. Aprendemos que, embora seja tardia, ela não falha. O juízo deve, finalmente, recair sobre aqueles que rejeitam a graça de Deus.

Fique bem claro, no entanto, que embora a ira e o juízo sejam uma certeza, eles não dão prazer ao coração de Deus. Em lugar algum desta passagem há a uma cena detalhada de angústia e sofrimento. Até os olhos de Noé foram poupados de ver o tormento sofrido por quem morreu no dilúvio. A arca não tinha vigias nem janelas por onde se pudesse olhar para a destruição feita por Deus. A única abertura era aquela no topo da arca permitindo a entrada de luz.

Deus não se deleita no juízo, nem o prolonga sem necessidade; no entanto, ele é certo para quem resiste à Sua graça. Não se engane, meu amigo, haverá uma época em que a oferta de salvação será retirada.

Há algum tempo, visitei uma senhora que estava morrendo de câncer. Não foi possível compartilhar o evangelho com ela em minha primeira visita, pois ela tinha de ser levada para terapia. Quando bati à sua porta pela segunda vez, seu marido atendeu e, pela abertura, pude vê-la, obviamente enfraquecida pela doença. Quando ele lhe perguntou se ela queria conversar comigo, ela balançou a cabeça dizendo que não. Não a vi de novo até a sua morte.

Muitas pessoas parecem pensar que podem esperar até estar com o pé na cova para serem salvas. Normalmente não acontece desse jeito. Deus silenciosamente fecha a porta da salvação. Quando vivemos em pecado e rebelião contra Deus, não podemos nos dar ao luxo de tomar a decisão no leito de morte. Às vezes acontece, concordo, mas é raro.

Além disso, muitas vezes o juízo de Deus permite que as coisas tomem seu próprio rumo. A história do dilúvio parece até uma reversão às condições do segundo dia da criação (Gênesis 1:6-7).

No livro de Colossenses está escrito que nosso Senhor Jesus Cristo é o Criador e Sustentador do universo (Colossenses 1:16-17). Quem rejeita a Deus vive como se Ele realmente não existisse. Na Grande Tribulação, Deus vai dar aos homens sete anos para descobrirem como é viver sem Ele. A mão de Deus que controla e restringe será retirada e o caos reinará. O juízo de Deus com frequência dá aos homens o que eles querem e o que merecem — as consequências naturais das suas ações.

Por fim, vamos considerar a questão da salvação de Deus. No caso de Noé, precisamos observar que o caminho de Deus para a salvação era restritivo. Deus providenciou somente um meio de salvação (uma arca) e somente uma porta. Os homens não poderiam ser salvos do jeito que quisessem, só do jeito de Deus. Tal é a salvação oferecida por Deus aos homens hoje.

Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim. (João 14:6)

A salvação da arca também tinha fins educativos. Ela nos dá uma imagem da salvação que foi cumprida em Cristo. Para aqueles da época de Moisés, ela foi um “tipo” de Cristo. A diferença entre quem foi salvo e quem morreu no dilúvio foi a diferença entre estar dentro ou fora da arca.

Todos passaram pelo dilúvio, tanto quem foi salvo como quem morreu. Mas os sobreviventes foram aqueles que estavam dentro da arca, a qual os abrigou dos efeitos do desprazer divino de Deus pelo pecado. Tanto quem estava dentro da arca quanto quem estava fora dela sabia da sua existência e foi informado da advertência de Deus sobre o julgamento vindouro. Alguns escolheram ignorar esses fatos, embora Noé os tenha alertado.

O mesmo acontece ainda hoje. Deus disse que é preciso haver punição para o pecado — a morte. Quem, pela fé, está em Cristo, recebe a ira de Deus em Cristo. Na cruz do Calvário a ira de Deus foi derramada sobre Seu Filho sem pecado, Jesus Cristo. Quem nEle crê experimenta a salvação de Deus em Cristo. Quem se recusa a crer nEle por um ato da vontade deve sofrer a ira de Deus fora de Cristo, a nossa arca. Saber acerca de Cristo não salva uma pessoa, assim como saber acerca da arca não salvou ninguém na época de Noé. Só estando na arca, estando em Cristo, é que salva!

O caminho de Deus para a salvação não foi glamoroso. Creio que muitos teriam entrado no Queen Mary se ele tivesse sido construído por Noé, mas não na arca. A arca era pouco chamativa aos olhos, mas era suficiente para a tarefa de salvar os homens do dilúvio.

Muitas pessoas não querem ser salvas se isso não for feito de forma glamorosa, atraente e aceitável. Eu não gostaria de passar um ano preso com animais barulhentos e fedorentos mais do que você, mas esse era o jeito de Deus.

Nosso Senhor Jesus, quando veio oferecer salvação aos homens, não veio como Alguém que tinha um grande magnetismo ou atração pessoal. Como Isaías falou a Seu respeito, 700 anos antes da Sua vinda:

Não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse. (Isaías 53:2)

Muitos aceitariam a salvação se seu apelo fosse carnal. Mas a salvação de Deus não é assim.

Alguns cristãos falham exatamente neste ponto. Eles acham que o caminho de Deus é glorioso do começo ao fim. Só milagres e maravilhas. Sem sofrimento, sem dor, sem agonia, sem dor de cabeça. Preciso lhes dizer que nem sempre o caminho de Deus é tão glorioso quanto desejamos, mas só ele é o caminho da libertação, da paz e da alegria.

E a salvação proporcionada por Deus é aquela recebida pela fé na Sua Palavra revelada. Noé provavelmente nunca tinha visto uma chuva, ou mesmo ouvido o estrondo de um trovão. No entanto, Deus disse que viria um dilúvio e que ele tinha de construir uma arca. Noé creu em Deus e agiu em conformidade com a sua fé.

A fé que Noé tinha não era uma fé acadêmica — conceitual, mas uma fé ativa — uma fé prática. Ele passou 120 anos construindo aquela arca, comprometido com o Deus que ele conhecia. A nossa fé, também, precisa ser ativa.

Está escrito que Noé foi um pregador. Não creio que ele falasse com frequência por detrás de um púlpito, mas por detrás de uma tábua e de um martelo. Foi seu modo de vida que condenou os homens da sua época e os advertiu sobre o julgamento por vir. Sua vida inteira foi direcionada pela certeza de que o julgamento de Deus estava chegando.

Quem é cristão como nós sabe que nosso Senhor virá outra vez para julgar o mundo. Fico me perguntando o quanto isso tem afetado o nosso dia a dia. Será que seus vizinhos e os meus podem dizer que estamos vivendo à luz daquele dia quando haverá julgamento e salvação? Sinceramente espero que sim.

Tradução e revisão: Mariza Regina de Souza


1 Howard F. Vos, Gênesis e Arqueologia (Chicago: Moody Press, 1963), p. 32, Vos, nas páginas seguintes dá um excelente resumo dos mais significativos relatos da antiguidade e propõe sua relação com o relato de Gênesis.

2 H. C. Leupold, Exposição de Gênesis (Grand Rapids: Baker Book House, 1942), I, pp. 264-265.

Leitch define mais adiante o conceito de justiça:

“No uso geral, representa qualquer conformidade com um padrão caso esse padrão tenha a ver com o caráter interno de uma pessoa, ou com o padrão objetivo de uma norma estabelecida. Thayer sugere a definição ‘o estado daquele que é como deve ser’. Num sentido mais amplo, isso se refere àquele que é reto e virtuoso, demonstrando em sua vida integridade, pureza e honestidade de sentimentos e ações”. A. H. Leitch, “Justiça”. The Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible (Grand Rapids: Zondervan, 1975, 1976), V. p. 104.

3 “O hebraico para corrupto (corrompido) (ou “destruído”) também deixa claro que aquilo que Deus decidiu ‘destruir’ (13), na prática, já se autodestruiu”. Derek Kidner, Genesis (Chicago: Inter-Varsity Press, 1967), p. 87.

4 Curiosamente, a palavra usada para arca (te,,ba) neste relato é encontrada outra vez só em Êxodo capítulo 2, a “arca” onde o bebê Moisés foi colocado por sua mãe para salvar a criança dos Egípcios.

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