3. O Significado do Homem: Seu Dever e Seu Deleite (Gênesis 1:36-31, 2:4-25)

Introdução

Nas últimas semanas, um caso assustador foi notícia dos jornais. Suas implicações são quase inacreditáveis. O processo judicial envolvia um senhor de idade que aparentemente estava um pouco senil, e que também fazia hemodiálise. A família decidiu que ele não tinha mais serventia, e que, se ainda estivesse lúcido, desejaria dar cabo da sua existência miserável. Não fosse pelo protesto dos enfermeiros, os quais tinham se afeiçoado ao homem, talvez hoje ele estivesse morto.

Vivemos numa época assustadora. Temos nas mãos recursos tecnológicos e biológicos impressionantes, mas nenhuma base sólida, ética ou moral, para determinar como eles devem ser utilizados. Não só temos usado esses recursos de forma conveniente e barata para matar uma criança ainda no ventre da mãe, como também há uma grande discussão sobre o registro de uma certidão de vida, declarando um bebê legalmente vivo, da mesma forma que existe o registro de uma certidão de óbito quando um bebê é declarado legalmente morto. A certidão só seria emitida após nascimento da criança, quando uma bateria de testes poderia ser feita. Qualquer bebê “inferior”, ou potencialmente não produtivo, seria simplesmente rejeitado e declarado “não vivo”, e então eliminado. Também sei que em alguns lugares do mundo o suicídio não é considerado crime, os que querem cometê-lo simplesmente são aconselhados — mas não convencidos de seus erros!

Nestes tempos em que o poder sobre a vida e a morte parece estar nas mãos dos homens como jamais esteve, nossa sociedade se encontra num vácuo moral, tomando decisões desse tipo. As antigas questões filosóficas sobre o significado da vida não são mais acadêmicas e intelectuais — são questões práticas que precisam ser respondidas.

Por tudo isso, nunca os versículos de Gênesis 1 e 2 foram tão importantes quanto agora. Neles encontramos o significado do homem. Assim, dei a esta mensagem o título de O Significado do Homem: Seu Dever e Seu Deleite. Para entender de forma correta a passagem, é preciso compreender os princípios eternos que devem determinar nossas decisões éticas e morais. Somado a isso, somos relembrados mais uma vez sobre o que realmente faz nossa vida valer a pena.

Embora já tenhamos tratado dos seis dias da criação de maneira geral, é importante entender a relação existente entre os três primeiros capítulos de Gênesis. O capítulo 1 resume a criação de forma cronológica (na verdade, aqui também precisamos incluir os versículos 1 a 3 do capítulo dois).

Deus criou os céus e a terra e toda a vida em seis dias, e no sétimo, descansou. O homem é descrito como a coroa da criação de Deus. A fim de manter o formato cronológico, apenas uma descrição geral da criação do homem é feita nos versículos 26 a 31.

O capítulo dois volta ao assunto da criação do homem com um relato mais pormenorizado. Longe de ser uma contradição, como muitos estudiosos sugerem, o capítulo dois complementa com mais detalhes o capítulo um. Enquanto no primeiro capítulo está escrito que Deus criou o homem, homem e mulher (1:26-27), no segundo, a descrição é mais ampla. No primeiro capítulo, todas as plantas são dadas ao homem como alimento (1:29-30), no capítulo dois ele é colocado num adorável jardim (2:8-17). No capítulo um está escrito que o homem deve dominar sobre todas as criaturas de Deus (1:26-28), no segundo, ele recebe a tarefa de dar nomes a essas criaturas (2:19-20). Contradições entre esses dois capítulos só podem ser coisas da imaginação, pois fica claro que o escritor do primeiro capítulo pretendia preencher os detalhes no segundo.

Além disso, o capítulo dois serve como introdução e preparação para o relato da queda. O capítulo dois dá o contexto da queda do homem descrita no capítulo três. O jardim e as duas árvores, a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal (2:9), são apresentados a nós. A mulher que estava para ser enganada também é apresentada no capítulo dois. Sem o capítulo dois, o capítulo um seria breve demais e o capítulo três chegaria sem nenhuma preparação.

Se o capítulo um está disposto de forma cronológica — numa sequência de sete dias, o capítulo dois não é cronológico, mas lógico. É claro que os acontecimentos do capítulo dois se encaixam na ordem do capítulo um, mas ele é disposto de forma diferente. Se no capítulo um a criação é vista através de uma lente grande-angular, o capítulo dois é visto através de uma teleobjetiva. No capítulo um, o homem se encontra no topo da pirâmide, como coroa da atividade criativa de Deus. No capítulo dois, ele está no centro das ações e do interesse de Deus.

A Dignidade do Homem (1:26-31)

Uma vez que o capítulo dois tem como fundamento os detalhes básicos dados em 1:26-31, vamos começar examinando estes versículos com mais cuidado. O homem, como já dissemos, é a coroa do plano criativo de Deus. Isso fica claro em vários pontos.

Primeiro, o homem é a última das criaturas de Deus. O curso todo da narrativa é uma preparação para a criação do homem. Segundo, só o homem é criado à imagem de Deus. Embora haja muita discussão sobre o que isso significa, várias coisas estão implícitas no próprio texto. O homem é criado à imagem e semelhança de Deus em sua sexualidade.

Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. (Gênesis 1:27)

Isso não quer dizer que Deus seja homem ou mulher, mas que Ele é tanto unidade como diversidade. No casamento, o homem e a mulher se tornam um, e mesmo assim são distintos um do outro. A unidade na diversidade exibida na relação do homem com sua esposa reflete uma faceta da personalidade de Deus.

O homem também, de alguma forma, é como Deus naquilo que o distingue do mundo animal. O homem, diferente dos animais, é feito à imagem e semelhança de Deus. O que o distingue dos animais, portanto, deve ser uma parte do seu reflexo de Deus. Sua capacidade de raciocínio, de comunicação e de tomada de decisões morais faz parte dessa distinção.

Além disso, o homem reflete a Deus em seu domínio sobre a criação. Deus é o Regente Soberano do universo. Ele delegou uma pequena porção da Sua autoridade ao homem no domínio da criação. Neste sentido, também, o homem reflete a Deus.

Observe, ainda, que são o homem e a mulher que dominam: “... dominai sobre...” (Gênesis 1:26, cf. v. 28).

Dominai se refere a ambos, não só às pessoas do sexo masculino que Deus fez. Embora Adão tenha a função de liderança (como evidenciado pela sua prioridade na criação1, por sua esposa ter origem no seu ser2 e por ele ter dado o nome a ela3), a função de Eva deve ser a de auxiliadora do seu marido. Nesse sentido, ambos devem dominar sobre a criação de Deus.

Apenas mais uma observação. Parece haver pouca dúvida de que na provisão dada por Deus ao homem como alimento, só vegetais foram incluídos naquela época:

E disse Deus ainda: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento. E a todos os animais da terra, e todas as aves dos céus, e a todos os répteis da terra, em que há fôlego de vida, toda erva verde lhes será para mantimento. E assim se fez. (Gênesis 1:29-30)

Somente depois da queda, e talvez do dilúvio, a carne foi introduzida como alimento para o homem (cf. Gênesis 9:3-4). O derramamento de sangue só teria sentido depois da queda, como um retrato da redenção que viria pelo sangue de Cristo. Está escrito que no milênio:

O lobo e o cordeiro pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; pó será a comida da serpente. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o SENHOR. (Isaías 65:25)

Se compreendo bem as Escrituras, o Milênio será o retorno das coisas ao que eram antes da queda. Assim, no paraíso do Éden, Adão e Eva, e o reino animal, eram todos vegetarianos. Como, então, alguém pode falar em “sobrevivência do mais forte” antes da criação de todas as coisas e da queda do homem?

No entanto, o mais importante é o fato de a dignidade e o valor do ser humano não serem imputados ao homem por ele mesmo, esses valores são intrínsecos a ele por ter ele sido criado à imagem de Deus. O valor do homem está diretamente relacionado à sua origem. Não é à toa que hoje estejamos ouvindo propostas éticas e morais tão assustadoras.

Qualquer opinião a respeito da origem humana que não veja o homem como produto do planejamento e do desígnio divino, não pode atribuir a ele o valor que Deus lhe deu. Colocando de outra forma, nossa avaliação sobre o homem é diretamente proporcional à nossa opinião sobre Deus.

Amigo, não sou profeta, mas me arrisco a dizer que nós, que somos chamados pelo nome de Cristo, num futuro bem próximo teremos de nos levantar e ser contados. Aborto, eutanásia e bioética, para citar apenas algumas questões, vão exigir padrões éticos e morais. O sólido princípio sobre o qual as nossas decisões devem ser tomadas, em minha opinião, é o fato de todos os homens terem sido criados à imagem de Deus.

Sob essa luz, agora posso ver porque nosso Senhor conseguiu resumir todo o Antigo Testamento em apenas dois mandamentos:

Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo (Mateus 22:37-40)

A atitude do futuro parece ser a de amar só o “próximo” que contribui para a sociedade, só aquele que pode ser considerado de algum interesse. Como isso é diferente do sistema de valores do nosso Deus, que disse:

O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes (Mateus 25:40).

Na minha opinião, é aqui onde nós cristãos seremos colocados à prova. Algumas pessoas estão realmente sugerindo que aqueles a quem nosso Senhor chamou de “pequeninos” são justamente os quais devem ser eliminados da sociedade. Queira Deus nos ajudar a ver que a dignidade do homem é aquela que é divinamente estabelecida.

O Dever do Homem (2:4-17)

Enquanto Gênesis um descreve a progressão do caos para o cosmos, ou da desordem para a ordem, o capítulo dois segue um padrão diferente. Talvez a linha literária que permeia toda a passagem seja a da atividade criativa de Deus em suprir as coisas que estão ausentes.

O versículo 4 serve como introdução dos versículos restantes4. O versículo 5 nos informa o que está faltando e é suprido nos versículos 6 e 7: faltam os arbustos, as plantas, a chuva e o homem. Essas ausências são supridas pela neblina (versículo 6) e pelos rios (versículos 10 e 14), pelo homem (versículo 7) e pelo jardim (versículos 8 e 9).

A ausência dos versículos 18 a 25 é simplesmente afirmada: “não se achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea” (cf. versículos 18, 20). Essa auxiliadora é providenciada de uma bela forma na última parte do capítulo dois.

Além disso, preciso enfatizar que aqui Moisés não tinha intenção de nos dar uma narrativa dos acontecimentos em ordem cronológica, mas numa sequência lógica5. A criação do homem e da mulher e o contexto onde estão inseridos descrevem melhor sua intenção. Eles vêm a ser o fator chave na queda ocorrida no capítulo três.

Embora ainda não tivesse chovido, Deus providenciou a água necessária à vida das plantas. “Mas uma neblina subia da terra e regava toda a superfície do solo” (Gênesis 2:6).

Existe alguma discussão sobre a palavra “neblina” (‘ed). Ela poderia significar névoa ou neblina, como alguns afirmam6. A Septuaginta usou a palavra grega pege, que significa “nascente”. Alguns acham que a palavra hebraica seja derivada de uma palavra suméria, referindo-se a águas subterrâneas7. Pode ser que essas nascentes afluíssem para o solo e a vegetação fosse aguada por irrigação ou por canais. Isso poderia explicar, em parte, o trabalho de Adão na manutenção do jardim.

Providenciada a água, Deus criou o jardim, o qual devia ser o lugar de habitação do homem e objeto do seu cuidado. O jardim era bem provido com muitas árvores, as quais proporcionavam beleza e alimento.

Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. (Gênesis 2:9)

Especificamente, duas árvores são mencionadas: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Esta última como sendo a única coisa proibida ao homem.

E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás. (Gênesis 2:16-17)

É interessante notar que, aparentemente, só Adão foi informado por Deus de que o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal não podia ser comido. Não se pode dizer com certeza como ele transmitiu a Eva o mandamento de Deus. Será que isso explicaria a avaliação incorreta dela em 3:2-3?

E foi nesse paraíso que o homem foi colocado8. Embora certamente ele se regozijasse nesse país das maravilhas, ele também tinha de cultivá-lo. Vamos dar uma olhada novamente no versículo 5:

Não havia ainda nenhuma planta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo havia brotado; porque o SENHOR Deus não fizera chover sobre a terra, e também não havia homem para lavrar o solo. (Gênesis 2:5)

Ao ser colocado no jardim, Adão teve de trabalhar lá: “Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar” (Gênesis 2:15).

Em 2:7, a descrição da criação de Adão é mais completa do que no capítulo um. Ele foi formado9 do pó da terra. Embora isso seja um fato humilhante, também fica claro que a origem do homem não é do mundo animal, nem que ele é criado da mesma forma que os animais. Em parte, a dignidade de Adão provém do fato de que seu fôlego de vida é soprado por Deus (versículo 7).

Aquele jardim não era um lugar imaginário. Cada parte da descrição daquele paraíso nos leva a pensar nele como um jardim de verdade, situado em alguma região geográfica específica. Existem pontos de referência definidos. Quatro rios são mencionados, dois deles conhecidos ainda hoje. Não deveríamos ficar surpresos com as mudanças que devem ter ocorrido, principalmente depois do evento cataclísmico do dilúvio, o que tornaria impossível sua localização exata.

Para mim, uma das coisas mais interessantes é que o paraíso do Éden foi um lugar um pouco diferente daquilo que imaginamos. Pra começar, foi um lugar de trabalho. Os homens modernos imaginam o paraíso como uma rede pendurada entre dois coqueiros numa ilha deserta, onde nunca terão de encarar o trabalho. Além disso, o céu é tido como o fim de todas as proibições. Muitas vezes, ele também é confundido com hedonismo. É autocentrado e orientado para o prazer. Embora o estado de Adão fosse de beleza e felicidade, não se pode pensar que tenha sido de prazer irrestrito. O fruto proibido também fazia parte do Paraíso. O céu não é a experiência de todos os desejos, e sim a satisfação de desejos benéficos e saudáveis.

A subserviência não é um conceito inédito no Novo Testamento. Trabalho significativo proporciona satisfação e objetivo na vida. Deus descreveu Israel como um jardim cultivado, uma vinha (Isaías 5:1-2 ss). Jesus falou de Si mesmo como a Videira e nós como os ramos. O Pai cuida da Sua vinha com ternura (João 15:1 e ss). Paulo descreveu o ministério como o trabalho de um lavrador (2 Timóteo 2:6).

Embora a igreja do Novo Testamento seja melhor descrita como um rebanho, ainda assim a imagem do jardim não é inapropriada. Há um trabalho a ser feito pelo filho de Deus. E esse trabalho não é penoso, não é um dever a ser cumprido com relutância. É uma fonte de alegria e satisfação. Hoje em dia, muita gente não tem senso real de sentido e propósito porque não faz o trabalho designado por Deus.

O Deleite do Homem (2:18-25)

Resta ainda uma ausência. Já existe água adequada, a bela e generosa provisão do jardim, e um homem para cultivá-lo. No entanto, ainda não há uma companhia apropriada para o homem. Essa necessidade se encontra nos versículos 18 a 25.

O jardim, com seus prazeres e delícias, e uma atividade significativa, não era suficiente se o homem não pudesse compartilhá-lo com alguém. Deus ia providenciar aquilo de que Adão mais precisava.

Disse mais o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea. (Gênesis 2:18)

A companheira de Adão devia ser uma criação muito especial, uma “auxiliadora idônea para ele” (versículo 18). Ela devia ser uma “auxiliadora”, não uma escrava, não uma inferior. A palavra hebraica ezer é muito interessante. Essa era uma palavra que Moisés obviamente gostava, pois Êxodo 18:4 diz que este foi o nome dado por ele a um de seus filhos.

E o outro, Eliézer (El = Deus), pois disse: o Deus de meu pai foi a minha ajuda e me livrou da espada de Faraó. (Êxodo 18:4)

Em Deuteronômio, Moisés ainda usa mais três vezes a palavra ezer (33:7, 26, 29), referindo-se a Deus como auxiliador do homem. O mesmo acontece nos Salmos (20:2, 33:20, 70:5, 89:19, 115:9, 121:1-2, 124:8, 146:5).

No Antigo Testamento, o sentido mais frequente em que a palavra é empregada não implica, absolutamente, em inferioridade. De modo consistente com seu uso, Deus está auxiliando o homem por meio da mulher. Que belo pensamento. Como isso é superior a algumas concepções humanas.

Por isso, Eva é também uma auxiliadora que “corresponde a” Adão. Certa tradução diz: “...Farei uma auxiliadora como ele”10.

Isso é justamente o oposto daquilo que consideramos a esposa perfeita — alguém que seja exatamente como nós. Em muitos casos, a incompatibilidade é designação de Deus. Como Dwight Hervey Small bem observou:

A incompatibilidade é um dos propósitos do casamento! Fardos e conflitos são designados por Deus como lições para o crescimento espiritual. Eles existem para que haja submissão aos santos e elevados propósitos11.

Assim como Eva foi feita para corresponder a Adão de forma física, ela também o completava social, intelectual, espiritual e emocionalmente.

Assim, quando aconselho àqueles que estão planejando se casar, não procuro descobrir o maior número possível de semelhanças entre eles. Pelo contrário, eu me preocupo em fazer com que cada um tenha uma visão precisa daquilo que o outro realmente é, e que eles estejam comprometidos com o fato de Deus estar unindo-os de forma permanente. O reconhecimento de que Deus fez o homem e a mulher propositadamente diferentes, e a determinação de atingir a unidade na diversidade, é essencial para um casamento saudável.

Antes de criar a contraparte de Adão, primeiramente Deus aguçou seu apetite. Os animais criados por Ele foram levados a Adão para que ele lhes desse nome. Dar nome aos animais refletia o domínio de Adão sobre eles, como intentado por Deus (cf. 1:28). Isso deve ter envolvido um estudo cuidadoso por parte de Adão para registrar as características peculiares de cada animal12.

Esse processo deve ter levado algum tempo. Adão deve ter observado que nenhuma daquelas criaturas poderia preencher o vazio da sua vida. Além disso, gostaria de usar um pouco de imaginação santa para supor que ele também observou que cada um deles tinha uma companheira, uma contraparte maravilhosamente concebida. Com certeza, ele notou que só ele não tinha ninguém.

E foi nesse instante, de profunda necessidade e desejo, que Deus colocou Adão em sono profundo13, e da sua costela e carne14 formou a mulher15. Então, Deus a deu de presente a ele.

Como é empolgante a resposta de Adão:

E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada. (Gênesis 2:23)

Gosto da maneira como a RVS (Revised Standard Version) traduz a resposta inicial de Adão: “afinal...”16 (em português, a versão Almeida Revista e Atualizada - ARA)

Nessa expressão há uma mistura de alívio, êxtase e deliciosa surpresa. “Esta, afinal (pois Adão ainda não lhe tinha dado nome), é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (versículo 23a). O nome da companheira de Adão é mulher. A tradução em inglês capta bem o jogo de sons semelhantes. Em hebraico, a pronúncia para homem seria ‘ish; e para mulher, ‘ishshah. Embora os sons sejam semelhantes, a raiz das duas palavras é diferente. Apropriadamente, talvez ‘ish venha de uma raiz paralela árabe, transmitindo a ideia de “exercer o poder”, enquanto o termo ‘ishshah talvez seja derivado de um paralelo árabe, significando “ser suave”17.

O comentário divinamente inspirado do versículo 24 é muito importante:

Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne. (Gênesis 2:24)

De acordo com este texto, é imperativo que o homem deixe mãe e pai e se una à sua mulher. Qual é a relação deste mandamento de deixar e se unir com a criação da mulher? O versículo 24 começa com “por isso...”. Por isso, o quê? Só podemos entender a razão se explicarmos o mandamento. O homem deve deixar seus pais, não no sentido de evitar sua responsabilidade para com eles (cf. Marcos 7:10-13, Efésios 6:2-3), mas no sentido de ser dependente deles. Ele precisa parar de viver sob a sua liderança e começar a agir sozinho como cabeça de um novo lar18.

A mulher não recebe o mesmo mandamento porque simplesmente é transferida de uma liderança para outra. Antes ela estava sujeita ao pai, agora está unida ao marido. O homem, no entanto, tem uma transição mais difícil. Ele, como filho, era dependente dos pais e submisso a eles.

Quando um homem se casa, ele precisa passar pela transição radical de um filho dependente e submisso para um líder independente (dos pais), que age como cabeça do seu lar.

Como muitos observam, a relação de marido e mulher é permanente, enquanto a relação de pai e filho é temporária. Mesmo se os pais não estiverem dispostos a encerrar essa relação, o filho é responsável por fazê-lo. Deixar de agir assim é rejeitar o tipo de vínculo necessário que ele deve ter com sua esposa.

Agora, talvez estejamos em posição de ver a relação desse mandamento com o relato da criação. Por que ele é mencionado aqui em Gênesis? Antes de tudo, não existem pais dos quais Adão e Eva tenham nascido. A origem de Eva vem diretamente do seu marido, Adão. A união ou vínculo entre ele e sua esposa é a união que vem de uma só carne (a carne de Adão) e se torna uma só carne (na união física). Esse vínculo é maior do que aquele entre pai e filho. Uma mulher é, naturalmente, o produto dos seus pais, tal como o homem é dos seus. No entanto, a união original não envolvia pais e a esposa era parte da carne do seu marido. Portanto, este primeiro casamento é evidência da primazia da relação marido e mulher sobre a relação pai e filho.

O último versículo não é incidental. Ele nos diz muita coisa que precisamos saber. “Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam” (Gênesis 2:25).

Sabemos, por exemplo, que o lado sexual dessa relação era uma parte da vida no paraíso. O sexo não teve origem com ou depois da queda. A procriação e a intimidade física foram intencionadas desde o princípio (cf. 1:28). Também vemos que o sexo podia ser apreciado ao máximo no plano divino. Desobediência a Deus não aumenta o prazer sexual; ela o diminui. Hoje, o mundo quer acreditar que inventou o sexo e que Deus apenas tenta impedi-lo. No entanto, sexo, sem Deus, não é o que poderia ou deveria ser.

Ignorância, se me perdoam dizer, é felicidade. Em nossa geração somos legais, ou se preferir, sofisticados, só quando sabemos (por experiência) tudo o que há para saber sobre sexo. Somos levados a crer que, “aqueles que não fizeram sexo antes do casamento são ingênuos demais”. Há muitas coisas que é melhor não saber. O sexo nunca foi tão apreciado como foi na doce ignorância.

A revelação posterior lança muita luz sobre este texto. Nosso Senhor, de forma significativa, cita os capítulos um e dois de Gênesis como se fossem um só relato (Mateus 19:4-5), um golpe fatal nos críticos do documento original.

A origem divina do casamento significa que ele não é mera invenção social (ou convenção), mas instituição divina para o homem. Quando Deus une um homem e uma mulher em casamento, a união é permanente: “O que Deus uniu, não o separe o homem” (Mateus 19:6).

O fato de Adão ter precedido sua esposa na criação e de Eva ser proveniente dele também estabelece as razões pelas quais o marido deve exercer a liderança no casamento (cf. 1 Coríntios 11:8-9, 1 Timóteo 2:13). O papel das mulheres na igreja não é apenas ideia de Paulo, restrita ao tempo e à cultura dos cristãos de Corinto. O papel bíblico da mulher é estabelecido no relato bíblico da criação (cf. também 1 Coríntios 14:34).

Conclusão

Tendo considerado a passagem por partes, vamos agora voltar nossa atenção para ela como um todo. Nenhuma outra passagem, em toda a Bíblia, define de forma tão sucinta as coisas realmente importantes da nossa existência. O significado da vida só pode ser compreendido quando relacionado ao Deus que criou o homem à Sua imagem e semelhança. Embora esta imagem tenha sido distorcida por causa da queda, aqueles que estão em Cristo são renovados à imagem dEle:

… e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade (Efésios 4:23-24).

… e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou (Colossenses 3:10).

Além disso, o sentido da vida não é apenas encontrado na dignidade dada por Deus ao homem ao criá-lo à Sua imagem, mas no trabalho dado a ele. Os homens, com frequência, vêm o trabalho como maldição. Embora tenha sido afetado pela queda (Gênesis 3:17-19), o trabalho foi dado antes dela, e é um canal de bênçãos e de realizações quando feito como se fosse para o Senhor (cf. Colossenses 3:22-24).

Finalmente, a instituição do casamento é dada por Deus para enriquecer profundamente a nossa vida. O trabalho que temos de fazer se torna muito mais rico e produtivo quando o dividimos com a contraparte que nos é dada por Deus. Eis, então, o que realmente importa na vida — reconhecer a nossa dignidade divinamente ordenada, o nosso dever e o nosso deleite. O nosso valor, o nosso trabalho e a nossa esposa são todos fontes de grande bênção quando são “no Senhor”.

Tradução e Revisão: Mariza Regina de Souza


1 1 Timóteo 2:13

2 1 Coríntios 11:8,12

3 Gênesis 2:23

4 “Hoje é um fato bem conhecido que o livro de Gênesis foi dividido em 10 seções pelo próprio autor, para cada uma das quais ele dá o título de “história” (toledo‚th); cf. 5:1; 6:9; 10:1; 11:10, 27; 25:12, 19; 36:1, (9); 37:2. Só isso, mais o uso de um número redondo - dez, já seria suficiente para se dizer que, aqui, a expressão “descendentes de” também deve ser um cabeçalho. Em todos os outros exemplos de uso em outros livros pode-se observar a mesma coisa; cf. Nm. 3:1; Rt 4:18; 1 Cr. 1:29; onde é sempre um cabeçalho.” H. C. Leupold, Exposition of Genesis (Grand Rapids: Baker Book House, 1942), I, p. 110.

5 “O versículo 4b nos leva à época da criação, mais especificamente, ao período anterior ao início do terceiro dia, e chama nossa atenção para certos detalhes que, sendo detalhes, dificilmente teriam sido inseridos no capítulo um: o fato de que certos tipos de planta, isto é, as espécies que requerem maior cuidado e atenção por parte do homem, ainda não tinham brotado. Aparentemente, toda a obra do terceiro dia se encontra na mente do escritor.” Ibid., p.112.

“Insisto em dizer que o primeiro capítulo deve ser entendido de forma cronológica. O que é visto pela ordem de desenvolvimento e pela sequência de pensamento. Existe também uma ênfase cronológica – primeiro dia, segundo, e assim por diante. Isto não está no segundo capítulo de Gênesis. Ali, em vez de fazer uma exposição em ordem cronológica, o Senhor está expondo o assunto passo a passo em preparação para o relato da tentação.” E. J. Young, In The Beginning, (Carlisle, Pennsylvania, The Banner of Truth Trust, 1976), p. 70.

6 Esse parece ser o ponto de vista Leupold, I, pp. 113-114.

7 “O que deve entender por “ed”? Não neblina! A palavra aparentemente tem relação com uma palavra suméria. Ela parece se referir a águas subterrâneas, e o que temos aqui ou é água irrompendo de algum lugar abaixo do solo ou talvez o transbordamento de um rio. Não acho que dê para fazer uma afirmação categórica quanto a isso.” Young, pp. 67-68. Cf. Também Derek Kidner, Genesis (Chicago: InterVarsity Press, 1967), pp. 59-60.

8 “A palavra “Éden”, em hebraico, pode significar deleite ou prazer. Não estou certo de que aqui o significado seja esse. Existe uma palavra suméria que quer dizer estepe, planície, vasta planície, e foi a leste desta planície que Deus plantou o jardim. Sem ser categórico, em minha opinião, é isso o que “Éden” significa. Assim, o jardim é plantado.” Young, p. 71.

9 “O verbo aqui empregado está mais de acordo com o caráter “Yahweh” de Deus; yatsar significa “moldar” ou “formar”. É a palavra que descreve especificamente a atividade do oleiro (Jr. 18:2 e ss). A ideia é ressaltar o cuidado e a atenção pessoal dados pelo oleiro ao seu trabalho. Deus deixa sinais do Seu interesse no homem, Sua criatura, na maneira como o forma”. Leupold, p. 115.

10 Cf. Leupold, p. 129

11 Dwight Hervey Small, Design For Christian Marriage (Old Tappan, New Jersey: Fleming H. Revell, 1971), p. 58. Em outro lugar Small observa: “Como Elton Trueblood sugere, um casamento de sucesso não é aquele no qual duas pessoas, que combinam perfeitamente, encontram um ao outro e seguem em frente sempre felizes, por causa de sua afinidade inicial. É, em vez disso, um sistema por meio do qual pessoas que são pecaminosas e briguentas são então alcançadas por um sonho e um propósito maior do que eles mesmos, que trabalham ao longo dos anos, apesar de repetidos desapontamentos, para tornar o sonho realidade.” p. 28.

12 “Pois a expressão dar nomes, no uso hebraico da palavra ‘nome’, envolve uma designação expressiva da natureza ou caráter daquele que é nomeado. Esta não era uma fábula tosca, onde, segundo a concepção hebraica, exclamações acidentais ao avistar uma nova e estranha criatura eram guardadas para dar nomes no futuro.” Leupold, p. 131.

13Tardemah é, de fato, um “sono profundo”, não um estado de êxtase, como interpretaram os tradutores gregos; também não é um “transe hipnótico” (Skinner), pois não encontramos qualquer sinal de hipnose nas Escrituras. Um “transe” talvez seja possível. A raiz, no entanto, é a mesma do verbo usado em referência a Jonas, quando ele dormia profundamente durante a tempestade.” Ibid, p. 134.

14 “A palavra tsela traduzida por “costela”, realmente tem esse significado (contra V. Hofman), embora não seja necessário pensar apenas em osso puro; pois, sem dúvida, osso e carne foram usados por aquela de quem o homem disse: “osso dos meus ossos e carne da minha carne” (v. 23). Ibid.

15 “A atividade de Deus ao moldar a costela tirada do homem é descrita como uma construção (wayyi ‘bhen). Antes de ser indicação da obra de um autor diferente, o verbo desenvolve a situação de forma mais apropriada. Não teria sido adequado o uso de yatsar para ‘formar’, pois é um verbo que se aplica no caso do barro, não da carne. “Construir” aplica-se à modelagem de uma estrutura importante; que envolve esforço na construção.” Ibid, p. 135.

16 Ou, como Leupold sugere “Agora, finalmente” (p. 136).

17 Leupold, pp. 136-137.

18 Creio que é preciso ter muito cuidado na aplicação do princípio de Bill Gothard “corrente de conselho”. Embora o sensato procurará conselho, e alguns possam vir de seus pais, dependência é um perigo real. O problema não é tanto com o princípio, mas com a aplicação.

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