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Uma Cosmoviso Trinitria (Constructing A Trinitarian Worldview - Portuguese)

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J. Scott Horrell, ThM, ThD, professor titular de teologia sistemtica (ps-graduao) da Faculdade Teolgica Batista de So Paulo e coordenador geral de Vox Scripturae. Com modificaes, o artigo faz parte de um livro sobre a Trindade a ser publicado por Edies Mundo Cristo em 1994.

For the doctrine of the Trinity, taken literally, nothing whatsoever can be gained for the practical purposes, even if one believed that one comprehended it and less still if one is conscious that it surpasses all our concepts. [Kant]1

It is part of the pathos of Western theology that it has often believed that while trinitarian theology might well be of edificatory value to those who already believe, for the outsider it is an unfortunate barrier to belief, which must therefore be facilitated by some non-trinitarian apologetic, some essentially monotheistic "natural theology." My belief is the reverse: that because the theology of the Trinity has so much to teach about the nature of our world and life within it, it is or could be the centre of Christianity's appeal to the unbeliever, as the good news of a God who enters into free relations of creation and redemption with this world. In the light of the thoelogy of the Trinity everything looks different.2

A cosmoviso a maneira em que encararmos a realidade. o conjunto de pressuposies que possumos acerca da constituio bsica do nosso mundo e do nosso lugar no mesmo. Seja coerente ou confusa, seja consciente ou nunca contemplada, nossa cosmoviso determina como entendemos ns mesmos, outros seres humanos e qual o sistema de valores atravs do que agimos cada dia. Assim, a cosmoviso a estrutura atravs do que compreendemos e avaliamos a nossa existncia.

A definio de Deus o centro conceitual de cada cosmoviso bsica.3 A partir da idia do Ser divino (ou ausncia de tal Deus), a pessoa desenvolve sua cosmolgica com os princpios e valores de vida. Por exemplo, o pantesta clssico (hindu) deduz de que porque Deus tudo e tudo Deus, ele possui em si a divindade.4 J que esse Deus (Brama) a totalidade e unidade de todas as coisas, o mundo de particulares em que vivemos (coisas e seres individuais) apenas iluso. Logo, sua auto-conscincia como ser humano sua personalidade, racionalidade e conscincia moral tambm apenas iluso. Ento, para unir-se com Deus, que em si a-pessoal, a-racional e amoral, necessrio negar sua conscincia e suas distines humanas. A partir de um Deus todo-inclusivo, no h lugar para o indivduo.

Inversamente, o politesmo dos gregos, animistas e at os mormons d lugar para os particulares mas carece um ponto infinito e absoluto que unifica o universo. No h estrutura para universais que podem dar significado para as existncias finitas. No caso dos mormons, por exemplo, porque o Deus Pai finito e em processo de desenvolvimento ("como Ele era ns somos"), devemos perguntar da onde vem a medida que julga o "desenvolvimento" de Deus? Sem um absoluto no universo, um absoluto pessoal, tudo torna-se relativo e ultimamente arbitrrio.

De semelhante forma, o atesta sofre do mesmo dilema. Sem um absoluto pessoal, todos os particulares ficam sem ponto de referncia definitiva. Logo, o ser humano (seja no nvel individual ou coletivo) se torna seu prprio absoluto e critrio de valores. Quando dois seres humanos (ou duas naes) discordam em seus valores e.g., exterminar os judeus ou proteg-los no h um referencial superior e csmico que distingui o bem do mal. O atesta descobre, seguindo Nietzsche, que a resposta est faltando do seu por qu?

Os testas (judeus, muulmanos e cristos) professam a realidade de um Deus infinito e pessoal que criou o universo do nada e o ser humano sua imagem. Assim, a dignidade humana, a personalidade (i.e., a alma/esprito com emoes, arbtrio, inteligncia etc.), a prpria racionalidade e os sentimentos morais (conscincia), se baseiam ontologicamente no prprio carter divino. Desta forma, o homem tem significado e distino nica entre os animais e o mundo impessoal. Entretanto, como veremos mais adiante, um tesmo monopessoal que insiste em que Deus uma pessoa s (o judasmo e o islo) tambm enfrenta dificuldades estruturais e prova-se finalmente inadequado para uma cosmoviso que leva a plena vivncia humana neste universo.

Uma cosmologia crist centralizada no conceito trinitrio de Deus.5 Atravs da revelao divina, entendemos que Deus existe como trs pessoas em uma essncia, ou trs pessoas da mesma s natureza em relacionamento dinmico e profundo.6 Portanto, a maior apologtica da f crist um entendimento bblico da Santa Trindade e uma compreenso de como a cosmoviso trinitria responde s questes bsicas da existncia. O propsito desta monografia de traar dez pontos principais de uma cosmoviso refletiva deste Deus Trino. Comearemos com uma viso da Santa Trindade antes da criao e, depois, o relacionamento entre Deus e a criao. Subseqüentemente, de vrias maneiras, abordaremos as conseqüncias da tri-unidade divina com respeito ao homem e o universo.

Pressupomos que a base bblica e o desenvolvimento histrico da doutrina da Trindade so essencialmente corretos, como expressos nos Credos Niceno-Constanoplano e de Atansio.7 Com os formuladores dos credos na igreja primitiva, reconhecemos que Deus de uma certa forma simultaneamente se revela e se esconde. H um p de mistrio sobre toda a revelao divina.8 No entanto, a partir da auto-revelao deste prprio Deus Altssimo, h muito que podemos seguramente afirmar. Motivado pelo amor do Senhor, o cristo compelido a contemplar e conceituar sobre ele e sua maneira de se relacionar com a criao.9 Apresentamos as seguintes idias como sugestes para uma cosmoviso trinitariana, dicas para nortear nosso pensamento. O valor da obra no tanto um desenvolvimento profundo de qualquer aspecto do trinitarianismo. Ela serve mais como uma sntese de vrios rumos de pensamento sobre o Deus Trino, esclarecendo um pouco mais uma cosmoviso crist que tanto prtica quanto filosfica para pastores e leigos.

I. A TRINDADE ANTES DO PRINCPIO

Antes de toda e qualquer criao, Deus era completamente auto-suficiente e todo-inclusivo. Tudo que existia era Deus; no havia nada que no fosse Deus. Tertuliano escreveu em c. 210, "Antes de todas as coisas Deus estava sozinho, sendo ele seu prprio universo, lugar e tudo. Mas ele somente estava sozinho no sentido que no havia nada externo de si mesmo."10 Sem incio, Deus existe para sempre numa essncia imutvel, escolhendo eternamente ser a si mesmo a partir de sua natureza. Alm disso, o Ser Supremo infinito em cada uma de suas caractersticas, muitas que talvez nunca foram reveladas e nem poderiam ser entendidas pelos seres humanos. Na unidade de Deus, as caractersticas no so contraditrias, mas totalmente consistentes consigo mesmas.11 E o Ser Supremo pessoal: Deus, em si, existe como trs pessoas, cada uma igual outra, sendo a mesma em essncia e qualidade, mas cada uma distinta e eternamente diferente como pessoa.12 Em seu mistrio final, a Trindade no pode ser compreendida de uma maneira exaustiva e completa. Qualquer conhecimento que temos sobre Deus est relacionado com a revelao dada numa situao finita, e em condies que tm significado para ns como seres finitos. Assim, atravs da revelao divina que concluimos que Deus, antes de toda e qualquer criao, existia infinito, pessoal, todo-inclusivo, auto-suficiente e imutvel, de acordo com o elevado conceito da Santa Trindade.13

II. A TRINDADE E A CRIAO IMPESSOAL

Enquanto alguns postulam uma co-existncia na eternidade passada da ordem criada com (e em dependncia de) Deus,14 o cristianismo clssico sempre afirmou uma criao ex nihilo, ou seja, que houve um comeo absoluto de criao.15 Num sentido, quando Deus criou, ele deliberadamente escolheu limitar-se, porque fez algo alm de si mesmo. Por criar algo do nada (nada absoluto), Deus no permaneceu mais todo-inclusivo.16 Houve algo que no era Deus. A pedra, a arvore e o animal no eram Deus. Mesmo na perspectiva moderna do continuum de energia e matria, uma pedra s tem significado em termos finitos.17 Em contraste com todas as teologias pantesticas, Deus no se estendeu a si mesmo na criao.18 Pelo contrrio, o espao, a energia, a matria e o tempo existem como algo feito artisticamente por Deus, e no como sua essncia. Porm, a existncia destas dimenses depende totalmente do Deus da Bblia.19

Alguns concluem que a criao originou-se no sobre-fluir de amor e de auto-sacrifcio dos relacionamentos trinitrios. Certamente, esse Deus Trino criou, sustenta e envolve-se com todas as dimenses da existncia. "Contudo, embora este processo auto-doador e auto-esvaziador seja to radical", observa Thomas Finger, "tal Deus trinitrio permanece distintamente outro. Assim, o entrelaamento de Deus com as criaturas evoca maravilha elevada, pois no procede de uma necessidade natural no porque j somos o corpo de Deus mas da graa."20

III. A TRINDADE E O PRINCPIO DA CRIAO PESSOAL

Alm de matria, espao e tempo, o Deus Trino escolheu criar outras pessoas. Deus limitou-se outra vez, pois agora ele no era o nico ser pessoal e moral no universo. Diferentemente do Criador, todos os seres criados so finitos, seja no cu ou na terra. Ao contrrio do Deus Filho, por exemplo, o anjo Lcifer (Satans) no onipresente, pois no capaz de estar presente em mais do que um lugar ao mesmo tempo. Deus, ento, continuou infinito mas no todo-inclusivo.

Em contradistino s cosmovises atestas e pantestas, o testa afirma que o fenmeno da personalidade (que distingue o ser humano do animal) fundamentado na natureza do Criador: (1) Deus pensa e raciocina logicamente, embora no necessariamente nas formas de pensamento que ns usamos21; (2) Deus escolhe voluntariamente, faz decises e possui livre arbtrio22; e (3) ele manifesta emoes e sentimentos, sendo um Ser moral e com propsito.23 Nas Escrituras, descobrimos que cada pessoa da Santa Trindade pensa e comunica, exercita livre arbtrio e manifesta emoes. E ns, como pessoas finitas, temos as mesmas caractersticas. O homem foi criado na imagem de Deus e, embora que tenhamos cado em pecado e soframos as cicatrizes da queda, o imago dei no est desfigurado a ponto de no haver reconhecimento. Somos realmente pessoas, com valor eterno, porque o Criador e Ser Absoluto do universo tambm pessoal.

IV. A TRINDADE E A UNIDADE-DIVERSIDADE DO UNIVERSO

A tenso entre a unidade absoluta versus a diversidade absoluta do universo provavelmente o maior problema religioso-filosfico da toda histria. Desde os filsofos mais antigos, o homem no tem resposta suficiente para esta dilema. Por um lado (unidade absoluta), o homem est trancado numa mquina de determinismo, seja no fatalismo religioso do hindusmo, do islamismo e do "calvinismo" extremo, ou no behavioralismo secular (formas de psicologia, sociologia, cincias fsicas e marxismo com a dialtica materialista). Por outro lado (diversidade absoluta), o ser humano fica perdido em um cosmos absurdo que no tem propsito ou direo e onde tudo acontece puramente por acaso uma posio vista no existencialismo e em vrios artstas modernos. Fora do cristianismo bblico, no h base para equilbrio desta tenso.24

Sendo trs pessoas em um Deus, a Trindade incorpora tanto unidade quanto diversidade em si mesma. A criao tambm reflete esta unidade-diversidade, seja quando pensamos em uma galxia do universo a 15 bilhes de anos-luz daqui (e agora se fala de filas e paredes de galxias de dimenses jamais imaginadas), ou nas partculas sub-atmicas com suas construes misteriosas de quarks, leptons e gauge bosons onde um top quark pode emitir uma energia de at o equivalente a 30 bilhes de volts (30 GeV).25 Seja vastamente enorme ou incrivelmente pequeno, o universo manifesta unidade em sua diversidade, e diversidade em sua unidade. H ordem entre as coisas individuais e o esquema total de criao.26

No fim, se no existisse um ponto infinito e absoluto de referncia no universo, ento todos os particulares (a pedra, o homem, os valores) seriam absolutamente sem significado. Um absoluto necessrio para estabelecer uma estrutura csmica. Se esse absoluto fundamenta o sentido da existncia humana, precisa ser uma pessoa, um Tu absoluto. Ao mesmo tempo, esse Tu absoluto precisa deixar espao pela existncia do indivduo. Em contraste com todas as outras religies e filosofias (incluindo o judasmo e o islo), o conceito da Trindade apresenta um relacionamento significativo entre unidade e diversidade, porque toda criao est por fim relacionada com Deus, e o prprio Deus existe em triunidade.27

V. A TRINDADE E A HUMANIDADE DO HOMEM

Mas no somente o problema da unidade e diversidade que resolvido em uma perspectiva trinitria do universo. Fora de uma Trindade pessoal, a prpria humanidade do homem (i.e., as coisas que o distinguem dos animais) em grande parte carece de fundamento adequado. Sem o conceito da Trindade, o homem torna-se necessariamente menos do que um ser humano ou, no mnimo, menos "humano" do que a grande maioria das pessoas gostariam de ser (e pressupem que ).28 No Deus Trino, h comunicao, comunho e amor logo h plenitude e riqueza de relacionamentos pessoais entre o Pai, o Filho e o Esprito Santo. Em nosso sculo, muitos declaram que os relacionamentos humanos so vazios, que o amor apenas produto de hormnios biolgicos, e que a linguagem sem significado, impossibilitando a comunicao com uma outra pessoa. No meio destas afirmaes anti-humanitrias, a f crist proclama que a comunicao, a comunho e o amor (incluindo o ato fsico) atos profundamente humanos assumem um significado profundo quando entendemos que o homem foi criado por um Deus infinitamente pessoal. E pelo fato do homem ser ontologicamente dependente de Deus, ele tem um alicerce intrnsico para entender que o amor (filos e agape) em si real, para regozijar-se com amigos, para exprimir-se com palavras raciocinadas,29 e para confraternizar nos nveis mais ntimos e transparentes uns com os outros. Em contraste com o existencialista e o determinista, o cristo possui base para encontrar significado em todas as atividades e funes humanas: em seus atos de criatividade, bondade e justia; em suas emoes de alegria, tristeza e ira; em seus pensamentos, linguagem, prxis de cincia e estudo da histria objetiva; e na distino entre fantasia e realidade. Por fim, o ser humano, como pessoa finita, encaixa-se na ordem da criao sem conflitos. No trinitarianismo, sua humanidade tem uma estrutura religioso-filosfica completamente adequada.30

Assim, a f crist nos leva a uma densidade em nossa humanidade. Criados no imago dei, quanto mais que tornamo-nos como Cristo e Deus, mais resplendecemos a intensa glria pessoal divina. O verdadeiro cristianismo no apaga a pessoa (em contraste com o pantesmo e o atesmo). Ao contrrio, a f bblica leva o cristo a ser realmente e, num sentido, infinitamente pessoal na sua qualidade. Em toda a histria, quem foi mais atraente e magnfica do que o ser humano Jesus Cristo? O que vemos na humanidade de Jesus (o Segundo Ado) corresponde ontologia de todo homem, uma ontologia despertada quando algum experimenta o novo nascimento atravs da f nele.31

Contudo, o homem no trs pessoas. Sendo uma s pessoa, ele foi criado para ter um trindade de relacionamentos pessoais: consigo mesmo, com outros seres humanos e com seu Criador. Alm disso, sendo finito, ele no suficiente para ter absolutos em si mesmo, obter a perspectiva final e estar no centro do seu universo. Ele criado para confiar e comungar com o Deus que absoluto e pessoal.

VI. A TRINDADE E AMOR

Uma caracterstica deste Deus, junto com sua santidade (sua auto-conscincia moral), o seu amor. Muito da unidade entre as pessoas da Trindade, ou entre Deus e criao, ou dentro da criao em si, existe atravs do amor. O amor, como indicado no Novo Testamento, algo que vem de dentro e vai para fora. Uma pessoa deve amar-se a si mesma e tambm aos outros. Assim, porque Deus amor, cada pessoa da Trindade ama no somente a si mesma, mas tambm s outras duas pessoas divinas. Definido em 1 Corntios 13, o amor por natureza no auto-centrpeto mas, sim, outro-centrpeto, compartilhando-se e dando-se para outro.32 Em contraste com o islo, o judasmo e outras religies que defendem que Deus existe exclusivamente como uma pessoa, o Deus Trino do cristianismo nunca se apresenta finalmente egocntrico, nem solitrio ou isolado.33 Ele no necessita de alguem para amar. Ele no precisa criar algum para amar, realizando-se assim como o amor absoluto. Para um Deus auto-suficiente ser amor, ele deve existir em, pelo menos, duas pessoas.34 A Santa Trindade, desde a eternidade passada, exercita constantamente o amor em si mesma e entre uma pessoa e outra. Se Jesus Cristo exemplificou a perfeita natureza de Deus e nos ensinou a seguir a ele (Lc 9:23-25), ento dando de ns mesmos em amor aos outros que mais nos aproximamos do imago dei. Parece que um princpio ontolgico do nosso ser que quanto mais nos esforamos para o bem dos outros (imitando as pessoas da Trindade), mais somos definidos e realizados como seres pessoais. Contudo, um Deus na forma trinitria finalmente no depende de suas criaturas para realizar-se em amor. Pelo contrrio, o amor infinito j existe entre cada pessoa da Trindade. Por causa de seu amor e sua unidade-diversidade, a Trindade torna-se nosso modelo de comunidade. Seja na famlia, na igreja local ou em qualquer nvel sociolgico, o ser humano pode seguir o exemplo do seu prprio Deus. E mesmo como as pessoas divinas possuem distines de atuao dentro da Trindade, os interrelacionamentos humanos bsicos da sociedade os conjugal, familial, eclesial, empresarial e governmental tambm exigem ordem de autoridade e de funo.35

VII. A TRINDADE E A JUSTIFICAO

Alm do mais, para um Deus perfeitamente santo prover perdo sem se comprometer, preciso que ele subsista em uma pluralidade de pessoas. Se Deus fosse uma s pessoa, ele poderia ser perfeitamente justo e santo, mas seria incapaz de perdoar os nossos pecados sem comprometer sua santidade. Por exemplo, no Islo, Al fica acima da ponte da morte que passa da vida terrestre para o paraso. Embaixo desta ponte estreita est o abismo do inferno. Um homem que teve uma vida 70% boa e 30% m talvez tenha permisso de passar para o paraso e para a presena de Deus. Mas um homem com menos virtude seria empurrado por Al para o abismo. Assumindo que nenhum homem 100% bom (e assim moralmente igual com Al), Al deve comprometer sua santidade ao permitir qualquer pessoa entrar no paraso. Como que o Absoluto Moral do universo pode perdoar e ter comunho com um pecador? Na Bblia, Deus o Justo mas tambm o Justificador de nossos pecados (Ro 3:23-26), precisamente porque ele mais do que uma pessoa. Por causa de sua pluralidade de pessoas, o Deus Trino pode ser o Santo Juiz sem se comprometer, o Cordeiro sacrificial que morreu em meu lugar e o Esprito santificador que atua em mim.36

VIII. A ONISCINCIA DIVINA

Ainda que incorpore em si unidade e diversidade, e exista como a base da humanidade do homem, o Deus Trino tambm onisciente. O acaso, casualidade e contingncia no esto alm de Deus. Nada pega Deus de surpresa, pois ele est, vamos dizer, no fundo do universo, a parede final. Se o acaso estivesse alm de Deus, ento o acaso, no fim, seria o Deus real. Entretanto, antes da criao do universo, Deus sabia da entrada do pecado no mundo e do remdio que iria efetuar o perdo do pecado. Ele tambm sabia do resultado e do fim da histria deste mundo, e como todos os homens algum dia glorificaro e bendiro (seja no cu, na terra ou sob da terra) o Senhor por tudo que ele . Parece que, ento, Deus no sabe mais agora do que sabia antes da formao do universo, porque ele sabe todas as coisas instantaneamente: todo passado, presente e futuro esto visveis diante dele. Ao mesmo tempo, de uma forma alm de nossa compreenso, a unidade da Trindade em sua oniscncia no diminui a dinmica inter-pessoal de cada uma entre si. Ou seja, o conhecimento infinito de cada membro da Trindade no apaga a vitalidade do seu amor e comunicao com os seres pessoas. Isso j tem implicaes para a parte seguinte.

IX. A TRINDADE, O TEMPO E O ESPAO

Diferente do conceito cclico do pantesmo, a perspectiva bblica de tempo linear, quer dizer, a histria tem princpio, direo, finalidade e fim.37 Parcialmente por isso, o judaico-cristianismo a nica religio entre as principais do mundo com profecias; at mais do que um quarto da Bblia pertence ao gnero de profecia. A f crist leva a srio a histria objetiva (cf. 1 Co 15:3-16). Deus entra no tempo e age conosco, incluindo em relacionamento ntimo com seres humanos. Por outro lado, parece que esse Deus soberano tambm existe num nvel atemporal, transcendendo todo o tempo e vivendo em um agora eterno.38 Como o tempo uma dimenso da sua prpria criao, Deus no est limitado ou restringido pelo tempo, mas ele est instantaneamente acima de toda histria csmica, sabendo o princpio do fim. Aqui mistrio, pois, sendo criador do tempo, Deus est acima do tempo; mas, sendo pessoal e trino, Deus no esttico ou sem dinamismo pessoal em si (perichoresis) e para com sua criao.

Visto a partir da Bblia, o tempo tem princpio mas no tem fim. A ordem fsica foi criada mas, pelo menos em alguma forma, continuar para sempre. Semelhantemente, o "novo nascido" torna-se herdeiro da vida eterna, pois ele tem incio mas nunca tem fim. Isto no significa que torna-se atemporal como Deus, mas que viver para sempre em alguma forma de tempo linear (cf. Ap 22:2). Os eleitos tero uma vida perptua em tempo, mas uma vida cheia da plenitude do Senhor ou seja, uma vida de qualidade elevada (2 Pe 1:4). Os que rejeitam a graa de Deus iro, nas palavras de Jesus, "para o fogo/castigo eterno" (Mt 25:41,46). Conquanto as medidas, as dimenses e a qualidade da existncia vindoura certamente mudem, parece que as dimenses do tempo e do espao so essenciais existncia does seres finitos.39

A lgica especulativa desta idia interessante. Pela Bblia entendemos que a Trindade tem se comprometido com sua criao, e se envolver para sempre com as ordem de tempo e de matria e.g., com os santos, o novo cu e a nova terra. Uma hermenutica natural da Escritura leva a entender que o Deus Pai, o Deus Filho e possivelmente o Esprito Santo representam-se em formas finitas e fsicas na ordem da criao (o Ancio dos dias, o Filho glorificado, a pomba divina etc.).40 Supe-se que Deus manifesta-se assim para que os seres finitos possam melhor conhecer e relacionar-se consigo. Se o infinito Deus no se revelasse, ou at assumisse, formas analgicas com nossa experincia, dificilmente teramos conhecimento exato e firme dele.41 Assim, a raa humana e a ordem dos anjos podem relacionar-se com Deus numa maneira muito mais concreta seja atravs de Jesus aqui na terra ou ao redor de Quem-Est-Assentado no trono e o Cordeiro no cu (Ap 4:1-7:10).

Desta tica, a Trindade em sua misericrdia revela-se atravs de formas finitas, sem se limitar quelas formas. Ela ficaria simultaneamente dentro e fora do tempo, no constrangida a uma ordem de matria e energia. Assim, a Santa Trindade engloba a criao e a no-criao, mantendo sua glria transcendente (ontolgica) e seu compromisso funcional (econmico) com a criao.42 Geralmente pensamos em duas dimenses: o cu e a terra. Mas parece que realmente h trs esferas em que devemos pensar de Deus: sua encarnao na terra, seu reino celestial e a Trindade transcendente, atemporal e separada de qualquer limitao finita. Num sentido, ento, o Deus Trino "encarna-se" tanto no prprio cu como na terra.

X. A LIVRE VONTADE DIVINA

Junto com a oniscincia e a atemporalidade, Deus tem livre vontade. "Deus eternamente escolhe ser si mesmo."43 Conseqüentemente, a Trindade pode ser tanto pessoal quanto infinito. Sua infinitude no apaga sua personalidade, pois Deus no infinito em tudo, em contraste com o Brahma do hinduismo.44 Deus infinito em cada uma de suas caratersticas (qualidade) mas no infinito em todas as coisas (quantidade), ou seria to mau quanto bom, to cruel quanto misericordioso, to impessoal quanto pessoal. Deus capaz de ser infinito em tudo, mas ele escolhe ser distinta e constantamente a si prprio e isso em e como trs pessoas. Porque o universo foi criado centrpeto e dependente do carter de Deus, este carter imutvel existe como o alicerce de toda existncia. Sem uma constncia voluntria do Deus Trino quanto a sua prpria essncia, a criao no teria base para sua unidade e, possivelmente, se desintegraria imediatamente em caos ou no-existncia. Desta forma, o mal no universo existe como perverso e parasita da coisas criadas pela bondade livre de Deus.45 Finalmente, somente a partir da livre vontade do Deus Trino que o homem pode exercitar seu livre-arbtrio dentro de seus limites finitos e sob a soberania divina.46

CONCLUSO: A SANTA TRINDADE E SUA GLRIA

Em vista da natureza infinita e pessoal do Deus Altssimo revelado na Bblia, com sua auto-suficincia absoluta, oniscincia, imutabilidade e livre-arbtrio, e em vista de como a estrutura filosfica trinitria suficiente para viver neste universo como pessoas completas, com amor, lgica, linguagem e equilbrio entre unidade e diversidade, algumas observaes finais devem ser colocadas. Tudo at agora mencionado relaciona-se com a cosmologia isto , com nossa perspectiva e vivncia do universo. Entretanto, temos que lembrar que tudo que no criao Deus. Se Deus existia completamente todo-inclusivo antes da criao, logo (se pudermos falar assim) ele est agora em todos os lugares e em todas as dimenses onde no existe a criao. Em todos os lados das poucas dimenses onde a criao reside, est o Senhor infinito, o Senhor de tudo, sempre em todas as esferas exercitando seu carter magnfico.47 Para os que so cristos, remidos pela obra de Jesus Cristo no Calvrio, a criao finita constitui um bero enorme sobre o qual, no qual e por meio do qual o Deus Trino paira, cuidando dos seus com afeio. Toda criao reconhecer algum dia a imensido e a beleza de Deus e a dvida incrvel que ela tem para com o Deus todo-poderoso, e.g., por sua existncia, sua preservao e pela proviso da salvao em Jesus Cristo. esta realizao palpvel que possivelmente nossa parte principal na qual devemos glorificar Santa Trindade e realizar-nos no plano eterno de Deus. Contudo, no haver glria mais bendita do que aquela glria dada por um membro da Trindade a outro membro da Trindade, cada um reconhecendo plenamente a grandeza do carter do outro, cada um por sua vez.

ANEXO 3
O CREDO DE ATANSIO

A composio do Credo de Atansio foi feita em 381 ou depois, provavelmente para uso catequstico para melhor instruir cristos na compreenso da Santa Trindade. Citada aqui a verso defendida por J. N. D. Kelly, The Athanasian Creed (Nova Iorque: Harper & Row, 1964) 112-114, traduzida por J. S. Horrell:

Quem deseja ser salvo deve manter acima de tudo a f catlica [universal]. Se um hmem no a mantivesse no seu total sem violao, ele certamente pereceria eternamente.

Agora isto a f catlica, que ns adoramos um Deus em Trindade, e Trindade em unidade, sem confundir as pessoas nem dividir a substncia. Pois a pessoa do Pai uma, do Filho uma outra, do Esprito Santo uma outra. Mas a Trindade do Pai, do Filho e do Esprito Santo uma, a Sua glria igual, a Sua majestade co-eterna.

Assim como o Pai, assim o Filho, assim tambm o Esprito Santo. O Pai no foi criado, o Filho no foi criado, o Esprito Santo no foi criado. O Pai infinito, o Filho in- finito, e o Esprito Santo infinito. O Pai eterno, o Filho eterno, o Esprito Santo eterno. Porm, no h trs seres eternos, mas um eterno; assim no h trs incriados, nem trs infinitos, mas um que no foi criado e que infinito. Na mesma maneira, o Pai onipotente, o Filho onipotente, o Esprito Santo onipotente; mas no h trs onipotentes, mas um onipotente.

Ento, o Pai Deus, o Filho Deus, o Esprito Santo Deus; porm no h trs Deuses, mas h um s Deus. Ento o Pai o Senhor, o Filho o Senhor, o Esprito Santo o Senhor; porm, no h trs Senhores, mas h um s Senhor. Porque, ainda que sejamos obrigados pela verdade crist a reconhecer cada pessoa separadamente como Deus e Senhor, assim tambm somos proibidos pela religio catlica a falar de trs Deuses ou Senhores.

O Pai no de ningum, nem feito, nem criado, nem gerado. O Filho somente do Pai, nem criado, mas gerado. O Esprito Santo do Pai e do Filho, nem feito, nem criado, nem gerado, mas procedido. Ento h um Pai, no trs Pais; um Filho, no trs Filhos; um Esprito Santo, no trs Espritos Santos. E nesta Trindade, no h nada antes ou depois, nada maior ou menor, mas todas as trs pessoas so co-eternas umas com as outras, e co- iguais. Ento, em todas as coisas, como foi dito acima, ambos Trindade em unidade, e unidade em Trindade, deve ser adorada. Pois aquele que deseja ser salvo deveria pensar assim sobre a Trindade.

APNDICE 3
UM DEUS MONOPESSOAL ADEQUADO?

UM DEUS MONOPESSOAL

UM DEUS TRIPESSOAL

I. AUTO-SUFICIENTE?

A. Como Pessoa?
Uma pessoa pensa, tem vontade e em parte se define atravs de seus inter-relacionamentos.

Parece que para ser realizado como pessoa um Deus monopessoal tivesse que criar outros seres com quem podia se relacionar do de ser pessoa--em tudo que a Bblia Um Deus monopessoal se torna menos pessoal e mais abstrato

Por ser trs pessoas, um Deus trino temem si a profunda auto-realizao no senti-revela como pessoal. A Trindade a base ontolgica da pessoa humana.

B. Como Comunicador?

Antes da criao por um Deus monopessoal no houve comunicao, palavra ou intercmbio pessoal

Sempre, na eternidade passada, um Deus tri-pessoal se alegrava de comunicao profunda; havia auto-realizao completa

C. Como Amor?
O amor d de si mesmo para o outro; se delita em elevar e ajudar o outro.

Um Deus unipessoal teria que criar alguma outra pessoa ou coisa para amar; antes da criao, o amor divina era apenas uma caracterstica latente e potencial, no ativo.

O NT representa uma dinmica de amor entre os membros da Trindade, cada um querendo glorificar o outro, na ordem econmica antes determinada.

II. COMO DEUS PODE SER AMBOS SANTSSIMO E MISERICORDIOSO?
O ponto chave em evangelizar mulumanos e judeus a questo do perdo de pecado. Um Deus monopessoal justo ou ele misericordioso, mas no pode ser os dois.

A. Um Deus Justo e Misericordioso?

Um Deus unipessoal santo no pode permitir pecado na sua presena (Hq1:13); obrigado como Absoluto Moral de punir pecado. A graa e perdo so apenas com promisso (abritrrio?) da sua justia

A Bblia insiste que Deus ambos justo e amor infinitos. Deus o Justo que exige perfeio e justia perfeita; o Justificador que pagou o preo; e o Esprito Santo que atua na vida do pecador.

B. Juzo?

Quando faz juzo, um Deus monopessoal apanha o pecador, diz "Chega!" Ele para de amar conforme 1 Co.13:4-7.

Como Trindade, possvel que cada um suporte o pecado contra si mesmo, mas julga a favor dos outros Dois contra o pecador.

III. O PROBLEMA DE UNIDADE E DIVERSIDADE

Crena num Deus monopessoal tem a tendncia para o determinismo; Ele soberano mas menos do que pessoal. Ou, um Deus monopessoal muito pessoal, mas no mais soberano; se torna finito. No existe uma estrutura para unidade e diversidade no universo.

Um Deus nico e tripessoal tem em si um a estrutura de unidade e diversidade que fundamenta o mundo criado. Mais, este Deus soberano sobre o universo, mas no a nica causa de tudo que acontece; existe lugar para o arbtrio do ser criado; o indivduo tem seu lugar importante.


1 Immanuel Kant, Der Streit der Fakultten, PhB 252, 33. in Jürgen Moltmann, The Trinity and the Kingdom: The Doctrine of God, trad. Margaret Kohl (San Francisco: Harper & Row, 1981) 6, 224.

2 Colin E. Gunton, The Promise of Trinitarian Theology (Edinburgh: T. & T. Clark, 1991) 7.

3 Veja Anexo 1. Alguns afirmam que a pergunta filosfica mais fundamental : "Por que algo existe em vez do nada?" H essencialmente trs respostas: (1) No h Deus e algo sempre existiu (atesmo); (2) Deus tudo e tudo Deus (pantesmo); ou (3) Um Deus infinito e pessoal criou algo do nada (tesmo). Sua resposta a esta pergunta em boa parte determina suas respostas s outras questes bsicas da vida: Por que o homem existe? Qual a base da sua dignidade? Personalidade? Raciocnio? Conscincia? Qual a base do bem e do mal? Do prazer e da aesttica? Qual o relacionamento entre a unidade e a diversidade no universo? Ao redor destas trs cosmovises atesmo, pantesmo e tesmo quase todas as filosofias e religies se dividem. No nvel popular, veja James W. Sire, The Universe Next Door (2 ed., Downers Grove, IL: InterVarsity, 1988); Colin Chapman, Cristianismo: A Melhor Resposta, trad. Joo Bentes (2 ed., So Paulo: Vida Nova, 1985); Norman L. Geisler e Paul D. Feinberg, Introduo a Filosofia, trad. Gordon Chown (So Paulo: Vida Nova, 1983); Ronald H. Nash, World Views in Conflict (Grand Rapids: Zondervan, 1992); e Francis A. Schaeffer, O Deus Que Intervm, trad. Fernando Korndorfer (2 ed., Braslia: Refgio, 1985). No nvel mais sofisticado, veja Colin E. Gunton, The One, the Three and the Many: God, Creation and the Culture of Modernity. 1992 Bampton Lectures [Oxford] (Cambridge: Cambridge Univ., 1993); and Charles Sherrard MacKenzie, The Trinity and Culture (Nova Iorque: Peter Lang, 1987).

4 Entre as religies, o budismo e o confucionismo diriam que a existncia de Deus irrelevante. Mas a cosmoviso de harmonia e unidade de todas as coisas vem diretamente da sua herana do pantesmo monista do hindusmo.

5 Abordagens sobre as bases bblicas e o desenvolvimento histrico e contemporneo da doutrina da Santa Trindade incluem: E. Calvin Beisner, God in Three Persons (Wheaton, IL: Tyndale House, 1984); Leonardo Boff, A Trindade, a sociedade e a libertao (Petrpolis: Vozes, 1986); Gerald Bray, The Doctrine of God (Leicester: InterVarsity, 1993); Ronald J. Feenstra e Cornelius Plantinga, Jr., eds., Trinity, Incarnation and Atonement: Philosophical and Theological Essays (Notre Dame, IN: Univ. de Notre Dame, 1989); Edmund J. Fortman, The Triune God: A Historical Study of the Doctrine of the Trinity (nova ed., Grand Rapids, MI: Baker, 1982); Bruno Forte, A Trindade como histria: Ensaio sobre o Deus cristo, trad. Alexandre Macintyre (So Paulo: Paulinas, 1987); Gordon H. Clark, The Trinity (Jefferson, MD: Trinity Foundation, 1985); Gunton, The Promise of Trinitarian Theology ; William J. Hill, The Three-Personed God: The Trinity as a Mystery of Salvation (Washington, DC: Catholic Univ. of America, 1982); Leonard Hodgson, The Doctrine of the Trinity (Nova Iorque: Charles Scribner's Sons, 1944); G. A. F. Knight, A Biblical Approach to the Doctrine of the Trinity (Edimburgo: Oliver & Boyd, 1953); Bertrand de Margerie, The Christian Trinity in History, trad. Edmund J. Fortman (Still River, MA: St. Bedes, 1982); Alister E. McGrath, Understanding the Trinity (Grand Rapids: Acadamie/Zondervan, 1988); Moltmann, The Trinity and the Kingdom; Moltmann, History and the Triune God: Contributions to Trinitarian Theology, trad. John Bowden (Londres: SCM Press, 1991); Michael O'Carroll, Trinitas: A Theological Encyclopedia of the Holy Trinity (Wilmington, DE: Michael Glazier, 1987; John J. O'Donnell, The Mystery of the Triune God (Londres: Sheed & Ward, 1988); Wolfhart Pannenberg, Systematic Theology, trad. Geoffrey W. Bromiley (Grand Rapids: Eerdmans, 1991) 1:259-336; William G. Rush, The Trinitarian Controversy (Filadlfia: Fortress, 1980); John Thurmer, A Detection of Trinity (Exeter: Paternoster, 1984); T. F. Torrance, The Trinitarian Faith: The Evangelical Theology of the Ancient Catholic Church (Edimburgo: T. & T. Clark, 1993); e A. W. Wainwright, The Trinity in the New Testament (Londres: SPCK, 1962).

6 Dentro da declarao histrica da doutrina Trinitariana do Credo Niceno-Constantinoplano (325 e 389 AD), h uma pequena diferna entre as nfases da Igreja Ortodoxa (oriental) e as Igrejas Catlica e Evanglica tradicionais (ocidentais). A nfase no ocidente tem sido a unidade de Deus com a proeminncia da essncia divina, enquanto no oriente a nfase as trs pessoas divinas que compartilham igualmente da mesma natureza. Especialmente nos ltimos vinte anos, muitos telogos ocidentais (evanglicos e catlicos) esto voltando perspectiva pluralista da Trindade que corresponde melhor com o desenvolvimento histrico da doutrina no sculo IV. O essencialismo agostiano-tomista e o modelismo bartiano est cada vez mais rejeitados hoje, em boa parte devido aos estudos neo-testamentrios sobre o relacionamento extraordinariamente pessoal entre Jesus (Deus Filho) e o Deus Pai e, tambm, as dificuldades filosficas e teolgicas em reduzier as trs pessoas a apenas "subsistncias" dentro da essncia divina.

7 Veja Anexo 2, O Credo Niceno-Constantinoplano e Anexo 3 O Credo de Atansio. O Credo Nicia foi aprovado pelos 318 pais da igreja no primeiro conclio geral em 325, e acrescentado e aceito mais tarde no oriente em Constantinopla em 389. a declarao base da f crist. O Credo de Atansio no um credo oficial adotado pela Igreja inteira mas um catecismo composto provavelmente no sculo V para esclarecer em formulas smples o significado do Credo Niceno-Constantinoplano. Por outro lado, ningum na longa histria da igreja disputa as afirmaes do Credo de Atansio.

8 Pannenberg, Systematic Theology, 1:337: "Qualquer tentativa inteligente de falar sobre Deus um discurso criticamente consciente de suas condies e limitaes deve comear e terminar com a confisso da majestade inconcebvel de Deus, que transcende todos nossos conceitos."

9 Foi extrememente difcil para os pais da igreja primitiva sintetizar os dados bblicos sobre a triunidade divina, porque no havia categorias filosficas e lingüsticas para express-los. Eles inventaram palavras e discutiram os significados para melhor aproximar o testemunho da Bblia.

10 Tertuliano, Adversus Praxean, 5. [Valria English"before all things God was alone, being His own universe, location, everything. He was alone, however, in the sense that there was nothing external to himself.."] Zwinglio ecoou a mesma idia, "Since we know that God is the source and Creator of all things, we cannot conceive of anything before or beside him which is not also of him. For if anything could exist which was not of God, God would not be infinite", "An Exposition of the Faith", citado em G. W. Bromiley, ed., Zwingli and Bullinger, trad. G. W. Bromiley (Londres: SCM Press, 1953) 249.

11 Como nosso universo to complexo e maravilhoso, no seria estranho imaginar que a dimenso celestial seja ainda mais vasta e extraordinria. Esta obra no pretende a enumerar os atributos de Deus. Veja Louis Berkhof, Teologia Sistemtica, trad. Odayr Olivetti (Campinas: Luz Para o Caminho, 1990) 54-93; Joo Calvino, Institutes of the Christian Religion, trad. H. Beveridge (1559; Grand Rapids: Eerdmans, 1975), I:108-139; Erickson, Christian Theology, 263-409; Christopher B. Kaiser, The Doctrine of God: An Historical Survey (Londres: Marshall Morgan & Scott, 1982); Ronald Nash, The Concept of God (Grand Rapids: Zondervan, 1983); J. I. Packer, O Conhecimento de Deus, trad. Cleide Wolf (3 ed., So Paulo: Mundo Cristo, 1987); A. W. Pink, Os Atributos de Deus, trad. Odayr Olivetti (So Paulo: PES, 1985);e C. Samuel Storms, The Grandeur of God: A Theological and Devotional Study of the Divine Attributes (Grand Rapids: Baker, 1984).

12 As palavras essncia e pessoa so difceis de definir. Mais do que a soma dos atributos de Deus, a essncia ou substncia divina (lat. substantia; gr. ousia) reflete tudo que Deus por natureza. No divida ou compartilhada, toda a essncia divina pertnce a cada pessoa da Trindade (gr. homoousios, de homos, "idntico" + ousia, "ser"). Visto no NT, o conceito de pessoa (lat. persona; gr. prosopon) reflete trs centros de conscincia divina, distintos em mente, vontade e emoes, em relacionamento dinmico, harmonioso e intensamente pessoal. Assim, a essncia de Deus define a simplicidade e unidade divina; a distino de pessoas revela a pluralidade e diversidade divina. A teologia ortodoxa (oriental) defende que a pessoa do Deus Pai a fonte eterna de Deus Filho e do Esprito Santo; em seu amor o Pai gerou outros iguais a si mesmo. No entanto, nunca havia um tempo quando no existiam os Trs.

13 Deus sendo honesto e verdadeiro, o Cristianismo clssico defende que a revelao bblica revela exata mas no completamente o que Deus em sua transcendncia e ontologia. Seguindo os credos e a evidncia bblica, os relacionamentos eternos da Trindade definem-se assim: o Filho eternamente gerado do Pai, e o Esprito Santo eternamente procede do Pai e (no ocidente) do Filho. As palavras gerado e procedido no denotam inferioridade de uma pessoa a outra, mas s esclarecem as diferenas, sem dizer muito mais, entre as trs pessoas.

14 Leonard Verduin, Somewhat Less Than God (Grand Rapids: Eerdmans, 1970) 11-13, questiona o conceito da criao ex nihilo, dizendo que isto supe um tempo quando Deus era no-criativo e ento contrrio sua natureza. Verduin props uma criao eterna no passado, mas sempre dependente ontologicamente de Deus.

15 Veja Jo 1:1-3; Rm 11:36; Cl 1:16,17; Hb 1:2, 11:3.

16 O conceito de Deus criando espao dentro de si para a criao visto em vrios pensadores histricos, desde o zimsum (auto-limitao) de Judaismo mstico, Nicholas de Cusa, F. W. J. Schelling, E. Brunner et.al. Jürgen Moltmann, God in Creation, trad. Margaret Kohl (Nova Iorque: Harper, 1985) 88, postula o seguinte kenosis ou auto-limitao divina: "1. God makes room for his creation by withdrawing his presence. What comes into being is a nihil which does not contain the negation of creaturely being (since creation is not yet existent), but which represents the partial negation of the divine Being, inasmuch as God is not yet Creator. The space which comes into being and is set free by God's self-limitation is a literally God-forsaken space 2. God 'withdraws himself from himself to himself' in order to make creation possible. His creative activity outwards is preceded by this humble divine self-restriction 3. If God is creatively active into that 'primordial space' which he himself has ceded and conceded, does he then create 'outwards'? Of course it is only through the yielding up of the nihil that a creatio ex nihilo is conceivable at all. But if creation ad extra takes place in the space freed by God himself, then in this case the reality outside God still remains in the God who has yielded up that 'outwards' in himself." Isso no necessariamente panentesmo, pois ainda h lugar distinto e absoluto para a criao. Cf. Hans Urs von Balthasar, Theodramatik II,1 (Einsiedeln: Johannes, 1983); Eberhard Jüngel, God as the Mystery of the World, trad. Darrell L. Guder (Grand Rapids: Eerdmans, 1983) 376-396; O'Donnell, The Mystery of the Triune God, 159-182; e Thomas Finger, "Modern Alienation and Trinitarian Creation", Evangelical Review of Theology 17:2 (abril 1993): esp. 205.

17 A pergunta maleva de Bertrand Russell, "Ser que Deus pode criar uma pedra to grande que ele mesmo no pode levant-la?", absurda e uma afronta a linguagem. Ele est perguntando: "Ser que Deus pode criar uma pedra infinita?"

18 Vrios telogos modernos propem um panentesmo cristo (tudo est em Deus e Deus est em tudo) atravs do que Deus encarna-se hipostaticamente no mundo: Pierre Teilhard de Chardin, The Heart of Matter, trad. Ren Hague (Nova Iorque: Harcourt Brace Jovanovich, 1978) 15-102; Karl Rahner (Cristologia transcendental), "Current Problems in Christology", Theological Investigations, 20 vols, trad. C. Ernst, D. Bourke et.al. (Londres: Darton, Longman & Todd, 1961-1981) 1:185; Leonardo Boff, Jesus Cristo Libertador (Petrpolis: Vozes, 1972) 259-261; e Boff, A Trindade, a sociedade e a libertao (Petrpolis: Vozes, 1986), 278.

19 O fato que o Deus onipresente permeia e sustenta a criao (Cl 1:15) admitido por todos e discutido em seguinte. possvel que existem dimenses da criao de Deus que so infinitas em certos aspectos: a vida eterna (de infinita dureza), talvez espao espacial (infinita extenso) e espao microscpico (infinita intensidade). As caractersticas da ordem criada demonstram-se cada vez mais extraordinria.

20 Finger, "Modern Alienation and Trinitarian Creation", 204.

21 Apesar da oposio de Cornelius Van Til, muitos telogos (G. Clark, E. J. Carnell, R. Nash, N. Geisler e F. Schaeffer) insistem em que os princpios bsicos de raciocnio a lei de contradio etc. esto baseadas no prprio carter de Deus. Cf. Gordon H. Clark, Religion, Reason and Revelation (Philadelphia: Presbyterian & Reformed, 1961) e "Secular Philosophy", em The Philosophy of Gordon H. Clark: A Festschrift, ed. R. H. Nash (Philadelphia: Presbyterian & Reformed, 1968); Herman Dooyeweerd, In the Twilight of Western Thought (Philadelphia: Presbyterian & Reformed, 1960) e Transcendental Problems in Philosophic Thought (Grand Rapids: Eerdmans, 1948).

Fora do tesmo, a base da razo no mundo secular muita fraca: o idealismo de Plato e o empiricismo de Aristtoles so rejeitados hoje (via Kant). Geralmente, a lgica/raciocnio no vista como um princpio absoluto, mas algo relativo e determinado: (1) pelo cdigo gentico (ns pensamos de uma maneira, a galinha de outra); ou (2) pela estrutura da linguagem. Cf. W. V. Quine, Philosophy of Logic (Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 1970); Nicolas Wolterstorff, On Universals: An Essay in Ontology (Chicago: Univ. of Chicago, 1970); e Dagobert Runes, Handbook of Reason (New York: Philosophical Library, 1972), 106. O atesmo e o pantesmo reduzem a lgica ao funcionalismo pragmtico, ou seja um fenmeno apenas relativo. Mas a evidncia cientfica, seguindo Einstein e outros, apia a concluso de que a lgica corresponde verdadeira natureza do universo.

22 O livre-arbtrio no ser humano outro fenmeno sem explicao no mundo no-testa, apesar do fato de que o humanismo (na maioria) e o existencialismo pressupem a vontade humana como um fundamento de seus sistemas. O pantesta tambm no tem nenhuma explicao para o por qu da vontade humana; logicamente, o arbtrio humano o que separa o ser humano de Brama e, assim, deve ser apagado para entrar em unidade com Deus.

23 Mais uma vez, nem o pantesmo nem o atesmo oferecem bases ontolgicas para as profundas emoes do ser humano. Eles admitem a realidade destas emoes e motivaes (o id de Freud, o angst de Heidegger e Jasper), mas os estudos comeam com o fato da sua existncia (e estudos biolgicos que definam a funo do corpo) sem oferecer como o homem auto-conscinte, auto-determinado e emotivo. Para uma discusso evanglica sobre o interrelacionamento da vida biolgica e psicolgica, veja John Medina, The Outer Limits of Life (Nashville: Oliver Nelson, 1991).

24 Todo monismo pantestico enfatiza a unidade a ponto de exluir a diversidade. Assim, a individualidade fica contra a unidade, que deve ser renunciada para se tornar um com Deus. Por outro lado, o niilismo e a filosofia existencialista no tm um absoluto que unifica o universo; assim, falta a eles a base para qualquer significado final. Cf. Gunton, The One, the Three and the Many; e R. J. Rushdoony, The One and the Many: Studies in the Philosophy of Order and Ultimacy (Filadlfia: Craig, 1971).

25 Veja Richard Golob e Eric Brus, eds. The Almanac of Science and Technology: What's New and What's Known (Boston: Harcourt Brace Jovanovich, 1990) 437-474.

26 Colin Gunton, The Promise of Trinitarian Theology, 142-161, contra a viso esttica do universo dos telogos clssicos (Aquino, Calvino), observam que a criao trinitria corresponde melhor com os descobrimentos cientficos refletindo mais "liberdade" e dinamismo na estrutura do universo. Veja, tambm, Thomas F. Torrance, Reality and Scientific Theory (Edimburgo: Scottish Academic Press, 1985), esp. 160-206.

27 Cornelius Van Til, "Personal Syllabus" no-publicado (Filadlfia, Westminster Theological Seminary, 1949) 218: "The Trinity is not a speculative doctrine of little significance. Every type of heresy is, in the last analysis, an attack upon the Trinity involving as it does the equal ultimacy of unity and plurality."

28 Muitos filsofos modernos fazem concesses mtuas entre as exigncias da sua lgica filosfica, por um lado, e sua humanidade e tica no outro. Cf. James W. Cornman e Keith Lehrer, Philosophic Problems and Arguments [Nova Iorque: Macmillan, 1968, 1974]) 508-509; e Schaeffer, O Deus que Intervm, 13-125.

29 Qualquer linguagem assume a lgica. Pelo fato de Deus comunicar-se conosco em palavras sons e smbolos finitos que transmitem conceitos ns, como seres em sua imagem, somos capazes de falar e entender o significado da linguagem conhecida (pelo menos em parte). Veja Norman Geisler, Philosophy of Religion (Grand Rapids: Zondervan, 1974, 1982), 87-309.

30 Enquanto haja ainda muita mais para explorar, existem vrios obras sobre a base trinitria do ser humano seja no nvel individual ou social, desde os Capadocianos (analogia social) e Agostinho (analogia psicolgica). Veja a prxima parte e Alistair I. McFadyen, The Call to Personhood: A Christian Theology of the Individual in Social Relationships (Cambridge: Cambridge Univ., 1990) esp. 15-44; Daniel L. Migliore, "The Trinity and Human Liberty", Theology Today 36:4 (jan. de 1980) 488-497; Elizabeth Moltmann-Wendel e Jürgen Moltmann, Humanity in God (Nova Iorque: Pilgrim Press, 1983) esp. 90-106; Dumitru Staniloae, "Image, Likeness, and Deification in the Human Person", Communio 13:1 (abril de 1986) 64-83; e R. P. Stevens, "The Mystery of Male and Female: Biblical and Trinitarian Models", Themlios 17:3 (abril/maio 1992) 20-24.

31 Contra o liberalismo que reduz a Cristologia antropologia, reconhecemos tanto a plena presena da natureza divina quanto a humana, dele sem os razes de pecado, e que revela em parte o que Deus crious no estado primrio e o que o crente bblico ser na glorificao.

32 Richard of St. Victor (d. 1173), De Trinitate, 1.20, falando de Deus como o Supremo Bom de todos virtudes: "It is never said of anyone that he possesses charity because of the exclusively personal love that he has for himself for there to be charity, there must be a love that is directed towards another. Consequently where there is an absence of a plurality of persons, there cannot be charity." Ele continuou dizendo que a nica expresso adequada deste amor infinito para com uma outra pessoa de igual dignidade e capacidade para receb-lo. Da mesma forma, a verdadeira glria e alegria divina para ser comunicada na sua plenitude exigem uma outra pessoa infinita que possa compreender e responder de modo igual. Da Esccia, Richard of St. Victor, elaborou a Trindade como uma comunidade de amor e sociedade sublime, assim muito mais perto da perspectiva grega (dos Capodocianos) e ortodoxa oriental.

33 Brian Hebblethwaithe, "Perichoresis Reflections on the Doctrine of the Trinity", Theology 80:676(julho de 1977) 257, diz: "If personal analogies are held to yield some insight into the divine nature (perhaps because man is suppose to be made in the image of God), then there can be no doubt that the model of a single individual person does create difficulties for theistic belief. It presents us with a picture of one who, despite his infinite attributes, is unable to enjoy the excellence of personal relation, unless he first create an object for his love. Monotheistic faiths have not favoured the idea that creation is necessary to God, but short of postulating personal relation in God [i.e., Trinitarianism], it is difficult to see how they can avoid it. There does seem to be something of an impasse here for Judaism and Islam. Hinduism, at least in its more philosophical forms, avoids this problem by refusing to push the personal analogies right back into the absolute itself. The personal gods of Hindu devotional religion are held by the philosophers to be personifications at a lower level of reality on the one absolute being, beyond all attributes. (Hence, incidentally, the so-called Hindu Trinity of Brahma, Vishnu and Siva is no real analogue for the Christian Trinity.)" Sua observao desmente as tentativas de Pannikar e outros de igualar a Trindade crist com o Deus do hinduismo veja Raimundo Pannikar, The Trinity and the Religious Experience of Man: Icon--Person--Mystery (Maryknoll NY: Orbis, 1973).

34 Veja Anexo 4.

35 Contra o monotesmo monopessoal que levou o ocidente ao individualismo por um lado, e por outro contra o pantesmo que levou o oriente dissoluo da dignidade humana, vrios telogos analisaram as implicaes do "trinitarianismo social" como modelo para humanidade em comunidade: Boff, A Trindade a sociedade e a libertao; Leonard Hodgson, The Doctrine of the Trinity (Nova Iorque: Charles Scribner's Sons, 1944); MacKenzie, The Trinity and Culture, 1-30, 95-116; David Nicholls, "Trinity and Conflict", Theology 96:769 (jan. de 1993) 19-27; John J. O'Donnell, "The Trinity as Divine Community", Gregorianum 69:1 (1988) 5-34; Cornelius Plantinga, Jr., "The Perfect Family", Christianity Today, 8 de maro de 1988, 24-27; Plantinga, "The Threeness/Oneness Problem of the Trinity", Calvin Theological Journal 23:1(abril de 1988), esp. 50-53; e Larry R. Thornton, "A Biblical Approach to Establishing Marital Intimacy. Part I: Intimacy and the Trinity", Calvary Baptist Theological Journal 4:2(out. de 1988) 43-72. As implicaes so fortes para a famlia e a liderana da igreja local, mas uma das elaboraes mais criativas e o contraste entre monarquia (de monism) e os princpios de liberdade vistos na triunidade de Deus (Moltmann, The Trinity and the Kingdom, 129-222) e, de novo, nas teorias de economia (M. Douglas Meeks, God the Economist: The Doctrine of God and Political Economy (Minnepolis MN: Fortress, 1989).

36 Um corolrio disso a natureza da punio divina. Uma sugesto (theologumenon) pessoal com respeito tenso sobre como um Deus de amor pode condenar o pecador a seguinte: Cada pessoa da Trindade possui amor irrestrito em si, amando infinitamente as outras duas pessoas divinas. A Bblia implica que Deus tambm ama infinitamente o indivduo humano (Jo 17:22-24; 1 Jo 4:16). Como no h limites que constranjam a infinidade, teoreticamente cada pessoa da Trinidade ama o indivduo tanto quanto as outras duas pessoas divinas. O que impede o homem de experimentar o amor de Deus o pecado, incluindo a rejeio do perdo provido pela morte de Deus Filho na cruz. O pecado provoca a ira e o castigo de Deus, que se manifesta em vrious juzos, incluindo a punio eterna do no-regenerado no inferno. Se Deus fosse uma s pessoa, seu juzo necessariamente seria vindicativo e retaliativo. Sua ira santa, no final, seria Deus levando a vara em vingana contra o pecador (e Deus teria todo direito de fazer assim). Porm, a prpria Palavra de Deus declara que "o amor paciente, benigno no se ensoberbece, no procura seus interesses, no se irrita", "tudo sofre tudo suporta" (1 Co 13:4-7). Se isso tambm defina o amor divino, como que Deus pode adminstrar o castigo? Como que o amor absolute e a santidade perfeita podem ficar unidos sem contradio?

Sugiro que o conceito da Santa Trindade resolve este dilema. Quando o homem finito e inquo peca contra Deus, ele peca contra todas as trs pessoas. Cada pessoa divina, porm, agindo por amor infinito, no leva em conta vindicativamente o pecador. Mas, a pessoa divina administra castigo quando ela julga (em amor e santidade) entre as outras duas pessoas divinas que tambm foram ofendidas pelo pecado e o pecador em si. Cada pessoa da Trindade em si podia "suportar todas as coisas", mas cada uma tambm funciona como santo juz arbitrando entre o homem pecador e as outras pessoas do Deus Trino. Assim, a pessoa divina, pelo amor do bem dos outros membros da Trindade, disciplina e pune, s vezes com severidade, o pecador, no por motivos pessoalmente vindicativos. possvel que este processo de juzo ocorra atravs de cada pessoa divina no mesmo instante, cada uma julgando no lugar das outras duas. Ou talvez somente uma pessoa da Trindade (i.., o Pai ou o Filho) continuamente julgue em justia pelos trs membros da Trindade. Qualquer que seja o caso, em ltima instncia, Deus no age de uma maneira individualmente egocntrica quando impe castigo sobre o pacador. Na estrutura da Trindade, at o juzo mais severo no necessariamente contradiria seu amor.

37 Claro que h mini e macro ciclos de tempo dento de uma esquema linear. Obras sobre a perspectiva crist e trinitria do tempo incluem: James Barr, Biblical Words for Time (Londres: SCM Press, 1962); Emil Brunner, "The Christian Understanding of Time", Scottish Journal of Theology 4(1951):1-12; Oscar Cullmann, Christ and Time, trad. F. V. Filson (Filadlfia: Westminster, 1964); Cullmann, Salvation in History, trad. S. G. Sowers (Nova Iorque: Harper & Row, 1967); Simon J. DeVries, Time and History in the Old Testament: Yesterday, Today and Tomorrow (Grand Rapids: Eerdmans, 1975); John J. O'Donnell, Trinity and Temporality (Oxford: Oxford Univ., 1983); Nelson Pike, God and Timelessness (Nova Iorque: Schocken, 1970); T. F. Torrance, Space, Time and Incarnation (Londres: Oxford Univ., 1969); Arthur H. Williams, "The Trinity and Time", Scottish Journal of Theology 39:1(1986) 65-81; e Claus Westermann, Beginning and End in the Bible, trad. Keith Crim (Filadlfia: Fortress, 1972).

38 Os pais da igreja debateram o conceito da eternidade. Alguns defenderam que Deus existe em tempo com ns, outros que Deus em sua transcendncia existe sem tempo. Agostinho (A Cidade de Deus XI, 6) sugeriu que o tempo foi criado juntamente com o universo (que prximo das teorias da fsica moderna). John H. Hick, Christianity at the Center (Londres: SCM Press, 1968) 82-99, e, para uma exposio interessante, Philip Yancey, Decepcionado com Deus, trad. Mrcio Loureiro Redondo (So Paulo: Mundo Cristo, 1990) 193-199.

39 Veja Alan B. Pieratt, "Pensando do Cu", em Imortalidade, eds. Russell P. Shedd e Alan B. Pieratt (So Paulo: Vida Nova, 1992), 227-248, sobre a natureza da vida vindoura.

40 Amos Funkenstein, "The Body of God in 17th Century Theology and Science", em Millenarianism and Messianism in English Literature and Thought 1650-1800, ed. Richard H. Popkin (Leiden: E. J. Brill, 1988) 150-175, traa como Deus perdeu seu corpo em teologia crist. importante reconhecer que a proposta acima longe dos conceitos de corporalidade onde o "esprito" tangvel (como Tertuliano: "Nada , seno corpo", De anima, 7) ou do atomismo (Descartes, Spinoza, H. More et.al.). Afirmamos a finitude da forma que Deus assume seja no cu ou na terra, mas no que a forma faz parte da essncia muito menos da transcendncia do Deus infinito. Seguimos a linha exprimida por Atansio, aqui explicando a natureza da encarnao do Filho: "The Word was not confined within his body; nor was he there and nowhere else; he not activate that body and leave the universe emptied of his activity and guidance. Here is the supreme marvel. He was the Word and nothing contained him; rather he himself contained all things. He is in the whole creation, yet in his essential being he is distinct from it all So also when he was in the human body, he himself gave that body life; and at the same time he was of course giving life to the whole universe, and was present in all things; and yet distinct from and outside the universe. And while being recognized from his body, through his actions in the body, he was also manifest in his working in the universe" (Atansio, De incarnatione, 17).

41 Conforme a nossa sugesto, quando a Bblia relata que Deus "esprito" est falando da essncia divina e do fato de que Deus onipresente. No significa que Deus nunca assume forma no cu. A hermenutica metafrica (neo-platnica) espiritualizou os textos que indicam uma revelao mais concreta de Deus, assim favorecendo apenas os textos sobre Deus como invisvel e transcendente. No entanto, as passagens que destacam a espiritualidade divina (i.e., 1 Rs 8:27; Sl 139:1-12; Jr 23:23-24; Jo 1:8; 4:23-24; 1 Tm 1:17; 6:14-16) no necessariamente negam as mltiplas passagens que falam sobre as formas finitas em que Deus se apresenta (Gn 3:8-9; x 24:9-11; 33:18-22; Nu 12:1-10; 1 Rs 22:19; J 1:6-2:6; Is 6:1-6; Ez 1:26-28; Dn 7:9-14; Zc 3:1-6; At 7:56; Hb 8:1-10:22; 12:22-23; Ap 4:2-7:10; 21:23-25; 22:1,3,5 etc.). Em minha opinio, embora muita linguagem de Deus seja necessariamente analgica, isto no nega as evidncias textuais de que Deus realmente se revela em formas concretas, seja no cu ou na terra. Contudo, h divergncias nesse ponto. Veja Robert W. Jenson, "The Body of God's Presence: A Trinitarian Theory", em Creation, Christ and Culture: Studies in Honour of T. F. Torrance, ed. Richard W. A. McKinney (Edimburgo: T. & T. Clark, 1976) 85-91; Norman Geisler, "Analogy: The Only Answer to the Problem of Religious Language", Journal of the Evangelical Theological Society 16:3(1973) 167-179; e Janet Martin Soskice, Metaphor and Religious Language (Oxford: Clarendon, 1985).

42 Assim, o Filho no se restringe a um corpo glorificado na eternidade futura, mas tambm existe completamente sem limites em seu estado ontolgico. Tambm, o Esprito Santo, enquanto envolvido funcionalmente na histria terrestre e no cu, no mesmo instante existe igual ao Pai e ao Filho, sem qualquer limitao na plenitude de seu estado ontolgico.

43 Van Til, "Personal Syllabus", s. pg.; tambm, Eberhard Jüngel, The Doctrine of the Trinity: God's Being Is in Becoming, trans. Horton Harris (Edimburgo: Scottish Academic Press, 1976) 68: "God's being in act was so understood, that God is his decision. Decision sets relationship; for it is as such a setting-oneself-in-relationship."

44 O criticismo mais severo dos intelectuais hindus que a infinitude divina necessariamente elimina qualquer personalidade divina. A infinitude de caractersticas englobando tudo no permite qualquer personalidade ou moralidade.

45 Cf. Alvin C. Plantinga, God, Freedom and Evil (Grand Rapids: Eerdmans, 1974); C. S. Lewis, O Problema do Sofrimento, trad. Neyd Siquiera (1940; So Paulo: Mundo Cristo, 1983); Norman Geisler, Philosophy of Religion, 311-403.

46 O livre-arbtrio do homem paralelo com o livre-arbtrio divino, em que o homem pode tomar decises e encarregar as conseqüncias. Mas o livre-arbtrio humano diferente daquele de Deus, j que o dele no autnomo. Nossas decises so sujeitas a vrios crculos de influncia, incluindo a soberania final de Deus. Alguns vem a Santa Trindade como o modelo de liberdade atravs da escolha mtua de se compadecer com o outro e permitir o exercsio de livre-arbtrio do outro. A vida crist, ento, a participao do crente na liberdade divina. Veja Moltmann, The Trinity and the Kingdom, 213-222; e Migliore, "The Trinity and Human Liberty", 488-497.

47 Finger, "Modern Alienation and Trinitarian Creation" 205: "As long as this space remains 'empty' enough for creatures to retain distinct identities, this image need not be panentheistic. I think it can help us conceive how the divine love is not really distant from the world, but still surrounds us; and how sin may not be running from God so much as pushing away the One who longs to draw near."

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