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A Idade Média da História de Israel

O Livro de Juízes

Introdução

Há alguns anos fiz uma série de pregações no livro de Juízes. Era costume em nossa igreja um dos homens fazer a leitura do texto das Escrituras e orar antes que eu pregasse. O texto que iria ser lido era Juízes 19. Esse texto é tão difícil que aconteceu uma coisa inédita em meu ministério: a pessoa a quem pedi para ler e orar não quis fazê-lo. Veja bem, não foi só uma pessoa, foram duas ou três até alguém finalmente concordar. No domingo de manhã, no momento da leitura, ele disse algo assim: "Sei que é nosso costume ler o texto primeiro e depois orar, mas, se você não se importa, gostaria de orar primeiro."

O livro de Juízes é muito inquietante, e não só por este incidente. O livro todo é muito difícil. Recentemente, recebi um email de uma pessoa que queria saber a respeito de outra passagem da Bíblia. Dizia mais ou menos isto:

Li algo na minha Bíblia que me deixou muito perturbado e abalou profundamente as bases de minha fé. Jamais pensei um dia ler que Deus aceitasse sacrifício humano. Fiquei esperando Deus deter Jefté e dizer-lhe para não sacrificar sua filha. Existe algum outro lugar na Bíblia onde este episódio seja mencionado? Deus concorda com isso? Como pôde permitir?

O autor do email se referia a outra história do livro de Juízes, onde Jefté faz um voto precipitado:

Fez Jefté um voto ao SENHOR e disse: Se, com efeito, me entregares os filhos de Amom nas minhas mãos, quem primeiro da porta da minha casa me sair ao encontro, voltando eu vitorioso dos filhos de Amom, esse será do SENHOR, e eu o oferecerei em holocausto.” (Juízes 11:30-31)

Pouco depois, lemos que sua filha saiu para encontrá-lo e que ele cumpriu seu voto, mesmo sendo um voto maluco (Juízes 11: 39-40).

O livro de Juízes descreve a época mais negra da história de Israel, embora seus acontecimentos venham logo após os "anos dourados" da "geração de Josué". Este não é o tipo de leitura que fazemos por pura diversão, mas é uma época importante da história de Israel, uma época que precisamos entender, e da qual devemos tirar lições importantes. É triste dizer, mas essa época é muito parecida com a nossa, o que torna esta mensagem ainda mais pertinente para nós. Vamos ouvir e prestar bastante atenção à mensagem de Deus nestas páginas tão difíceis.

A Estrutura do Livro de Juízes

A estrutura do livro de Juízes é muito simples:

Capítulos 1-3:6

Introdução ao período dos juízes

Capítulos 3:7-16:31

Descrição do governo dos juízes

Capítulos 17-21

Epílogo: duas histórias que caracterizam o período dos juízes

Entendendo o Livro de Juízes

O que é um Juiz?

Quando estudamos o livro de Juízes é importante compreendermos o que é um juiz, e o que não é. Naquela época, em Israel, um "juiz" quase nunca era uma pessoa que fizesse julgamentos, ou que resolvesse disputas, embora houvesse tal cargo em Israel (Êxodo 18, Números 11). Débora teve uma espécie de função judicial (Juízes 4:4-5), mas parecia estar mais relacionada às suas atividades como profetisa do que como "juíza". Nenhum dos outros juízes do livro realmente "julgava", no sentido mais comum da palavra.

Os juízes tampouco foram um protótipo dos reis de Israel. Eles eram, antes de tudo, "libertadores" da opressão sofrida por Israel dos seus inimigos. Algumas vezes eles agiam independentemente, como Sansão, que era uma espécie de "Patrulheiro Julgador Solitário". Alguns juízes conduziram as forças militares de uma ou mais tribos contra seus inimigos. Eles não conduziam as forças militares de toda a nação, mas só de algumas partes dela. Como governantes, eles não tinham qualquer função administrativa, como teria um rei. Deus levantou estes juízes espontaneamente, devido à opressão dos inimigos contra Israel. Não havia sucessão ou dinastia. Em geral, os israelitas ficavam livres da opressão enquanto o juiz vivesse.

O Livro de Juízes e a Aliança Mosaica

A chave para o entendimento do livro de Juízes está na aliança que Deus havia feito com Seu povo, os israelitas. As bênçãos e maldições da aliança mosaica são especificadas pela primeira vez em Levítico 26. Depois são repetidas em maiores detalhes em Deuteronômio 28. As bênçãos estão resumidas nos versos 1 e 2:

Se atentamente ouvires a voz do SENHOR, teu Deus, tendo cuidado de guardar todos os seus mandamentos que hoje te ordeno, o SENHOR, teu Deus, te exaltará sobre todas as nações da terra. Se ouvires a voz do SENHOR, teu Deus, virão sobre ti e te alcançarão todas estas bênçãos. (deuteronômio 28:1-2)

No entanto, da mesma forma que Deus prometeu Suas bênçãos a quem obedecesse a Seus mandamentos, havia também maldições para quem desobedecesse:

Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR, teu Deus, não cuidando em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos que, hoje, te ordeno, então, virão todas estas maldições sobre ti e te alcançarão: Maldito serás tu na cidade e maldito serás no campo. Maldito o teu cesto e a tua amassadeira. Maldito o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, e as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas. Maldito serás ao entrares e maldito, ao saíres. (Deuteronômio 28:15-19)

As palavras de despedida de Josué repetiam as mesmas advertências dadas anteriormente a Israel por Moisés:

Pois o SENHOR expulsou de diante de vós grandes e fortes nações; e, quanto a vós outros, ninguém vos resistiu até ao dia de hoje. Um só homem dentre vós perseguirá mil, pois o SENHOR, vosso Deus, é quem peleja por vós, como já vos prometeu. Portanto, empenhai-vos em guardar a vossa alma, para amardes o SENHOR, vosso Deus. Porque, se dele vos desviardes e vos apegardes ao restante destas nações ainda em vosso meio, e com elas vos aparentardes, e com elas vos misturardes, e elas convosco, sabei, certamente, que o SENHOR, vosso Deus, não expulsará mais estas nações de vossa presença, mas vos serão por laço e rede, e açoite às vossas ilhargas, e espinhos aos vossos olhos, até que pereçais nesta boa terra que vos deu o SENHOR, vosso Deus. Eis que, já hoje, sigo pelo caminho de todos os da terra; e vós bem sabeis de todo o vosso coração e de toda a vossa alma que nem uma só promessa caiu de todas as boas palavras que falou de vós o SENHOR, vosso Deus; todas vos sobrevieram, nem uma delas falhou. E sucederá que, assim como vieram sobre vós todas estas boas coisas que o SENHOR, vosso Deus, vos prometeu, assim cumprirá o SENHOR contra vós outros todas as ameaças até vos destruir de sobre a boa terra que vos deu o SENHOR, vosso Deus. Quando violardes a aliança que o SENHOR, vosso Deus, vos ordenou, e fordes, e servirdes a outros deuses, e os adorardes, então, a ira do SENHOR se acenderá sobre vós, e logo perecereis na boa terra que vos deu. (Josué 23:9-16, ênfase minha)

Introdução ao Livro de Juízes: Juízes 1:1-3:6

Em Juízes 1 e 2 encontramos a explicação para o declínio espiritual dos israelitas. A ruína de Israel começa logo após a morte de Josué. No final de seu livro, a geração de Josué já está no fim, por isso, ele conclama a nova geração de israelitas a abraçar a aliança feita por Deus com seus antepassados. Ele os exorta a decidir a quem serviriam:

Agora, pois, temei ao SENHOR e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no Egito e servi ao SENHOR. Porém, se vos parece mal servir ao SENHOR, escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR. (Josué 24:14-15, ênfase minha)

Apesar da expressa determinação dos israelitas de servir a Deus, Josué os advertiu que eles não seriam capazes de cumprir seu compromisso. Simplesmente não conseguiriam viver à altura dos padrões de um Deus Santo:

Então, Josué disse ao povo: Não podereis servir ao SENHOR, porquanto é Deus santo, Deus zeloso, que não perdoará a vossa transgressão nem os vossos pecados. (Josué 24:19)

Não leva muito tempo para percebermos a veracidade das palavras de Josué. O cumprimento destas palavras começa logo no início do livro de Juízes, no capítulo um. Embora a força dos reis cananeus tenha sido subjugada sob a liderança de Josué, a aniquilação total de seus remanescentes fica a cargo de cada tribo israelita. Nos capítulos 1 e 2, o autor dá ao leitor a explicação para o declínio da nação, bem como a razão pela qual Deus permitiu a permanência dos cananeus na terra. Nestes dois capítulos, observamos a seguinte seqüência:

Primeiro Passo: Vitória Parcial

As tribos de Judá e Simeão gozaram de relativo sucesso, mas seu êxito não foi completo (1:19). Os benjamitas não expulsaram totalmente os jebuseus que moravam em Jerusalém:

Esteve o SENHOR com Judá, e este despovoou as montanhas; porém não expulsou os moradores do vale, porquanto tinham carros de ferro. E, como Moisés o dissera, deram Hebrom a Calebe, e este expulsou dali os três filhos de Anaque.Porém os filhos de Benjamim não expulsaram os jebuseus que habitavam em Jerusalém; antes, os jebuseus habitam com os filhos de Benjamim em Jerusalém, até ao dia de hoje. (Juízes 1:19-21)

Os homens de Judá não conseguiram subjugar o povo que vivia no vale, o qual possuía tecnologia militar avançada (carros com rodas de ferro). Os homens de José saíram-se razoavelmente bem (1:22-26). Mas, o resto de Juízes 1 é história de vitórias incompletas. Os homens de Manassés (1:27-28), Efraim (1:29), Zebulom (1:30), Aser (1:31-32), Naftali (1:33) e Dã (1:34-35) não conquistaram e nem destruíram totalmente os cananeus em seus territórios. A vitória parcial sobre os cananeus significava viver junto com eles, próximo passo na espiral descendente de Israel.

Segundo Passo: Conviver Com o Inimigo

Uma vez que os israelitas não expulsaram totalmente os cananeus da terra, era necessário conviver com eles. Em alguns casos, os cananeus foram feitos escravos, mas não foram exterminados:

Naftali não expulsou os habitantes de Bete-Semes, nem os de Bete-Anate; mas continuou no meio dos cananeus que habitavam na terra; porém os de Bete-Semes e Bete-Anate lhe foram sujeitos a trabalhos forçados. Os amorreus arredaram os filhos de Dã até às montanhas e não os deixavam descer ao vale. (Juízes 1:33-34)

Terceiro Passo: Cooperar Com o Inimigo

Quando se vive entre outras pessoas é "necessário" entrar em entendimento e acordo com elas. Descobrimos, por exemplo, que Heber, o queneu (um descendente do sogro de Moisés) havia se tornado aliado do rei Jabim de Canaã (1:16; 4:11, 17). Era esse tipo de associação que provocava a desaprovação divina:

Subiu o Anjo do SENHOR de Gilgal a Boquim e disse: Do Egito vos fiz subir e vos trouxe à terra que, sob juramento, havia prometido a vossos pais. Eu disse: nunca invalidarei a minha aliança convosco. Vós, porém, não fareis aliança com os moradores desta terra; antes, derribareis os seus altares; contudo, não obedecestes à minha voz. Que é isso que fizestes? Pelo que também eu disse: não os expulsarei de diante de vós; antes, vos serão por adversários, e os seus deuses vos serão laços. (Juízes 2:1-3, ênfase minha)

Fazer acordo com os cananeus era a mesma coisa que legalizar sua permanência na terra; era reconhecer seu direito de existir, quando Deus havia ordenado aos israelitas que os exterminassem.

Quarto Passo: Corrompidos Pelos Cananeus

Havendo Josué despedido o povo, foram-se os filhos de Israel, cada um à sua herança, para possuírem a terra. Serviu o povo ao SENHOR todos os dias de Josué e todos os dias dos anciãos que ainda sobreviveram por muito tempo depois de Josué e que viram todas as grandes obras feitas pelo SENHOR a Israel. Faleceu Josué, filho de Num, servo do SENHOR, com a idade de cento e dez anos; sepultaram-no no limite da sua herança, em Timnate-Heres, na região montanhosa de Efraim, ao norte do monte Gaás. Foi também congregada a seus pais toda aquela geração; e outra geração após eles se levantou, que não conhecia o SENHOR, nem tampouco as obras que fizera a Israel. Então, fizeram os filhos de Israel o que era mau perante o SENHOR; pois serviram aos baalins. Deixaram o SENHOR, Deus de seus pais, que os tirara da terra do Egito, e foram-se após outros deuses, dentre os deuses das gentes que havia ao redor deles, e os adoraram, e provocaram o SENHOR à ira. Porquanto deixaram o SENHOR e serviram a Baal e a Astarote. (Juízes 2:6-13, ênfase minha)

Os israelitas fizeram exatamente aquilo que Deus sempre lhes dissera para não fazer. Da simples tolerância aos cananeus eles passaram a imitá-los. Os israelitas começaram a se casar com os cananeus e a adorar seus deuses. A nação que deveria ser santa e ficar longe das práticas pecaminosas dos cananeus, agora abraçava os mesmos pecados que trouxeram a ira de Deus sobre eles.

Quinto Passo: Disciplina Divina

Pelo que a ira do SENHOR se acendeu contra Israel e os deu na mão dos espoliadores, que os pilharam; e os entregou na mão dos seus inimigos ao redor; e não mais puderam resistir a eles. Por onde quer que saíam, a mão do SENHOR era contra eles para seu mal, como o SENHOR lhes dissera e jurara; e estavam em grande aperto. (Juízes 2:14-15)

As maldições da aliança mosaica agora são executadas contra Israel. Os israelitas sofreriam derrotas militares às mãos (ou espadas) de seus inimigos. Deus cessaria de enviar chuva para suas plantações e o gado não engordaria e reproduziria. Aquilo que Deus dissera, agora Ele começa a cumprir.

Sexto Passo: Libertação Divina

Suscitou o SENHOR juízes, que os livraram da mão dos que os pilharam. Contudo, não obedeceram aos seus juízes; antes, se prostituíram após outros deuses e os adoraram. Depressa se desviaram do caminho por onde andaram seus pais na obediência dos mandamentos do SENHOR; e não fizeram como eles. Quando o SENHOR lhes suscitava juízes, o SENHOR era com o juiz e os livrava da mão dos seus inimigos, todos os dias daquele juiz; porquanto o SENHOR se compadecia deles ante os seus gemidos, por causa dos que os apertavam e oprimiam. (Juízes 2:16-18, ênfase minha)

Em resposta ao seu sofrimento, os israelitas clamavam por socorro a Deus. Deus, em Sua graça, levantava um libertador, um juiz, que salvava os israelitas da opressão de seus inimigos. Essa libertação durava, normalmente, enquanto o juiz vivesse.

Sétimo Passo: Rumo à Apostasia

Sucedia, porém, que, falecendo o juiz, reincidiam e se tornavam piores do que seus pais, seguindo após outros deuses, servindo-os e adorando-os eles; nada deixavam das suas obras, nem da obstinação dos seus caminhos. (Juízes 2:19)

Após um doloroso ciclo de pecado, juízo e libertação, com certeza esperava-se que os israelitas tivessem aprendido a lição e viveriam de acordo com os mandamentos de Deus. Mas não era isso o que acontecia. Após a morte do libertador, os israelitas retornavam às suas práticas pecaminosas. Eles não voltavam simplesmente aonde tinham parado; eles se tornavam ainda piores. Seus pecados aumentavam. As coisas iam de mal a pior.

Deixados Prá Trás: Manifestação do Propósito Divino

Pelo que a ira do SENHOR se acendeu contra Israel; e disse: Porquanto este povo transgrediu a minha aliança que eu ordenara a seus pais e não deu ouvidos à minha voz, também eu não expulsarei mais de diante dele nenhuma das nações que Josué deixou quando morreu; para, por elas, pôr Israel à prova, se guardará ou não o caminho do SENHOR, como seus pais o guardaram. Assim, o SENHOR deixou ficar aquelas nações e não as expulsou logo, nem as entregou na mão de Josué. São estas as nações que o SENHOR deixou para, por elas, provar a Israel, isto é, provar quantos em Israel não sabiam de todas as guerras de Canaã. Isso tão-somente para que as gerações dos filhos de Israel delas soubessem (para lhes ensinar a guerra), pelo menos as gerações que, dantes, não sabiam disso: cinco príncipes dos filisteus, e todos os cananeus, e sidônios, e heveus que habitavam as montanhas do Líbano, desde o monte de Baal-Hermom até à entrada de Hamate. Estes ficaram para, por eles, o SENHOR pôr Israel à prova, para saber se dariam ouvidos aos mandamentos que havia ordenado a seus pais por intermédio de Moisés. Habitando, pois, os filhos de Israel no meio dos cananeus, dos heteus, e amorreus, e ferezeus, e heveus, e jebuseus, tomaram de suas filhas para si por mulheres e deram as suas próprias aos filhos deles; e rendiam culto a seus deuses. (Juízes 2:20-3:6)

Seria um erro pensar que Josué havia destruído totalmente a resistência dos cananeus, mas deixado a operação "limpeza" para cada uma das tribos. Como podemos perceber pelos versos acima e pelo texto abaixo, Deus tinha um propósito em deixar os cananeus na terra:

Além disso, o SENHOR, teu Deus, mandará entre eles vespões, até que pereçam os que ficarem e se esconderem de diante de ti. Não te espantes diante deles, porque o SENHOR, teu Deus, está no meio de ti, Deus grande e temível. O SENHOR, teu Deus, lançará fora estas nações, pouco a pouco, de diante de ti; não poderás destruí-las todas de pronto, para que as feras do campo se não multipliquem contra ti. Mas o SENHOR, teu Deus, tas entregará e lhes infligirá grande confusão, até que sejam destruídas. Entregar-te-á também nas mãos os seus reis, para que apagues o nome deles de debaixo dos céus; nenhum homem poderá resistir-te, até que os destruas. (Deuteronômio 7:20-24, ênfase minha).

Moisés havia dito aos israelitas que Deus removeria os cananeus aos poucos, pois, de outra forma, os animais selvagens tomariam conta do lugar. Entendo que isto signifique que a população não teria sido suficiente para "dominar" a terra, a qual, portanto, seria invadida pelos animais selvagens. À medida que a população aumentasse, os israelitas expulsariam os cananeus e controlariam todo o território. Até lá, a permanência dos cananeus seria permitida.

Em Juízes 2, temos ainda outra razão para Deus ter deixado os cananeus na terra por mais algum tempo. Era para testar e ensinar Israel. Os cananeus seriam um teste para o compromisso de Israel em cumprir cuidadosamente todas as exigências da lei de Deus. Será que os israelitas concluiriam o trabalho iniciado por Josué? Será que expulsariam os cananeus? E, será que continuariam separados, sem receber as mulheres cananéias em casamento ou seus deuses em adoração? Os cananeus também foram deixados prá trás para ensinar às futuras gerações de israelitas como proceder numa guerra santa (3:2). Deus não queria que os israelitas ficassem "moles". Eles precisavam ser fortes, para poder defender suas fronteiras das nações circunvizinhas. Os cananeus faziam parte do programa de testes e treinamento de Deus.

Como relembrado por Moisés, a primeira geração de israelitas fora testada por Deus no deserto:

Cuidareis de cumprir todos os mandamentos que hoje vos ordeno, para que vivais, e vos multipliqueis, e entreis, e possuais a terra que o SENHOR prometeu sob juramento a vossos pais. Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o SENHOR, teu Deus, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do SENHOR viverá o homem. Nunca envelheceu a tua veste sobre ti, nem se inchou o teu pé nestes quarenta anos.

Os israelitas falharam em todos os testes. Eles estavam sempre murmurando e se queixando de qualquer coisa que sentissem falta, ou simplesmente desejassem (como carne). Eles eram guiados pelos apetites da carne, não pelo compromisso de confiar em Deus e obedecê-Lo, guardando Seus mandamentos (ver I Coríntios 10:1-13).

Esta geração também falhou no teste dos cananeus "deixados prá trás". Em vez de permanecerem separados e expulsarem os cananeus de uma vez por todas, os israelitas começaram a se casar com eles e a adorar seus deuses (3:5-6). E foi por esta razão que Deus deixou estas nações na terra: para disciplinar os israelitas por sua desobediência.

Quatro Estudos de Caso: Débora e Baraque, Gideão, Jefté e Sansão

O autor de Juízes escreve sobre a libertação de Israel por intermédio de mais de uma dúzia de pessoas. Não sabemos quase nada sobre seis juízes: Sangar (3:31), Tola (10:1-2), Jair (10:3-5), Ibsã (12:8-10), Elom (12:11-12) e Abdom (12:13-15). Os juízes mais importantes do livro são: Débora (e Baraque - capítulos 4 e 5), Gideão (capítulos 6 a 8), Jefté (10:6 a 12:7) e Sansão (capítulos 13 a 16). Darei enfoque especial a eles porque receberam maior destaque no livro.

Débora e Baraque - Juízes 4:1-5:31

Israel era oprimido pelo rei Jabim de Canaã, assistido por Sísera, comandante de suas tropas. Quando os israelitas clamaram por socorro, Deus levantou Débora, a profetisa (Juízes 4:4). As palavras de Débora a Baraque são muito interessantes e instrutivas:

Mandou ela chamar a Baraque, filho de Abinoão, de Quedes de Naftali, e disse-lhe: Porventura, o SENHOR, Deus de Israel, não deu ordem, dizendo: Vai, e leva gente ao monte Tabor, e toma contigo dez mil homens dos filhos de Naftali e dos filhos de Zebulom? (Juízes 4:6)

A NET Bible traduz a primeira parte deste verso como uma pergunta, da mesma forma que a Versão King James, a Nova Versão King James e algumas outras. Também é possível que seja apenas uma ordem: "Vê que o SENHOR, Deus de Israel, ordenou:Vai, e leva gente ao monte Tabor, e toma contigo dez mil homens dos filhos de Naftali e dos filhos de Zebulom." (NASB) Contudo, a nota à margem da NASB (Nova Bíblia Padrão Americana) indica que talvez seja, de fato, uma pergunta. Se a passagem for entendida da forma como a NET Bible traduz, o leitor tem a impressão de que não é a primeira vez que Baraque ouve as palavras de Débora. O leitor poderia facilmente achar que Deus já havia ordenado a Baraque fazer o que Débora lhe diz. Isso ressaltaria o temor e a insegurança de Baraque, um temor que o fez se recusar a atacar Sísera e seu exército, a menos que Débora fosse com ele.

Em certo sentido, Baraque tinha bons motivos para se preocupar. O exército do rei Jabim, sob o comando de Sísera, tinha 900 carros com rodas de ferro (Juízes 4:13; ver também 1:19). Baraque, com certeza, era fraco na fé. Mesmo tendo sido ordenado por uma profetisa a atacar as forças de Sísera, ele não queria ir sozinho. Não é porque não respeitasse a palavra de Débora, pois disse que só iria se ela fosse com ele. Mas Débora era mulher, não um guerreiro; era esposa e mãe, não estrategista militar. Débora consentiu em ir com ele, mas mostrou que a vitória não lhe traria fama:

Então, lhe disse Baraque: Se fores comigo, irei; porém, se não fores comigo, não irei. Ela respondeu: Certamente, irei contigo, porém não será tua a honra da investida que empreendes; pois às mãos de uma mulher o SENHOR entregará a Sísera. E saiu Débora e se foi com Baraque para Quedes. (Juízes 4:8-9)

Baraque Vai até Jael

Baraque e suas forças venceram o inimigo e todos foram dizimados, exceto Sísera, que fugiu a pé. Sísera correu até ficar completamente exausto e, então, procurou refúgio na casa de Heber, o queneu, o qual tinha um acordo com o rei Jabim, a quem Sísera servia. No entanto, Heber não estava em casa, mas sua esposa, Jael, sim. A fidelidade dela era para com o povo de Deus, não para com um rei cananeu e seu comandante em chefe.

Jael acolheu o exausto e aterrorizado Sísera em sua tenda. Ele lhe pediu água, mas ela lhe deu leite morno. Ela assegurou-lhe que ele estava a salvo e depois o cobriu com um cobertor, a fim de que ele descansasse. Quando ele pegou no sono, Jael se ajoelhou ao seu lado com uma estaca e um martelo, encravando a estaca em sua testa, matando-o instantaneamente. Quando Baraque chegou, Jael lhe mostrou o troféu que jazia morto em sua tenda. O rei Jabim foi humilhado nesse dia, mas Baraque também, pois a vitória realmente foi devida a duas mulheres: Débora e Jael.

O cântico em Juízes 5 fala de Débora, Baraque e Jael, e o desempenho de cada um nesta vitória. O cântico também glorifica a Deus, a verdadeira fonte da vitória. Está descrito em forma poética como Deus empregou toda a natureza para derrotar os inimigos de Israel:

Saindo tu, ó SENHOR, de Seir,

marchando desde o campo de Edom,

a terra estremeceu; os céus gotejaram,

sim, até as nuvens gotejaram águas.

Os montes vacilaram diante do SENHOR, e até o Sinai,

diante do SENHOR, Deus de Israel. (Juízes 5:4-5)

Desde os céus pelejaram as estrelas contra Sísera,

desde a sua órbita o fizeram.

O ribeiro Quisom os arrastou, Quisom, o ribeiro das batalhas.

Avante, ó minha alma, firme! (Juízes 5:20-21)

O interessante é que a canção destaca quem participou e quem não participou da batalha:

De Efraim, cujas raízes estão na antiga região de Amaleque,

desceram guerreiros; depois de ti, ó Débora, seguiu Benjamim com seus povos;

de Maquir desceram comandantes,

e, de Zebulom, os que levam a vara de comando.
Também os príncipes de Issacar foram com Débora;

Issacar seguiu a Baraque, em cujas pegadas foi enviado para o vale.

Entre as facções de Rúben houve grande discussão.
Por que ficaste entre os currais para ouvires a flauta?

Entre as facções de Rúben houve grande discussão.
Gileade ficou dalém do Jordão,

e Dã, por que se deteve junto a seus navios?

Aser se assentou nas costas do mar

e repousou nas suas baías.
Zebulom é povo que expôs a sua vida à morte,

como também Naftali, nas alturas do campo. (Juízes 5:14-18)

Amaldiçoai a Meroz, diz o Anjo do SENHOR,

amaldiçoai duramente os seus moradores,

porque não vieram em socorro do SENHOR,

em socorro do SENHOR e seus heróis. (Juízes 5:23)

A canção menciona Débora, Baraque e Jael, mas o grande herói da batalha não é Baraque, e sim Jael. São os feitos dela que são os mais enfatizados. A honra é dela e de Débora, quando poderia (e deveria) ser de Baraque. Não obstante, Deus deu paz à terra durante 40 anos.

Eis uma vitória um tanto incompleta. É a vitória de Israel sobre seus opressores, uma vitória dada por Deus sobre um poderoso inimigo. Uma vitória ao mesmo tempo doce e amarga. Enquanto algumas tribos aceitaram o desafio e lutaram com e por seus irmãos, outras simplesmente ignoraram a situação, para sua vergonha. E é assim que entramos no livro de Juízes, e logo ficará bem pior.

Gideão, Um Grande Valente - Juízes 6-8

Uma vez mais os israelitas são culpados de praticar o mal à vista de Deus. Desta vez, Deus usa os midianitas como Sua vara de disciplina. Os israelitas, então, clamam por libertação e Deus levanta um homem chamado Gideão. Um anjo do Senhor vai até Gideão quando ele está malhando o trigo no lagar (6:11). Normalmente, o trigo era malhado em lugares altos, onde o vento pudesse soprar a palha. Gideão não pode fazer desta forma, pois estaria em lugar aberto, à vista dos midianitas, que poderiam vir e roubar seus grãos.

Vejo um rapaz bastante amedrontado malhando seu trigo, olhando ao redor a procura de algum sinal dos midianitas. Soa até irônico quando o anjo de Deus chega e lhe diz estas palavras: "O SENHOR é contigo, homem valente." (6:12). Costumo pensar que o anjo deve ter tido alguma dificuldade para manter o rosto impassível, sem cair na risada. Agora vejo que estas palavras eram proféticas. O que o Anjo falou a Gideão não dizia respeito àquele momento, mas ao que Gideão seria no futuro. A fim de não termos dificuldade para entender, é mais ou menos como quando a Palavra de Deus nos chama de "santos". Isso se refere ao que podemos ser (na verdade, que somos), mas não devido a alguma "santidade" de nossa parte.

A primeira reação de Gideão foi perguntar a Deus onde Ele estava em meio ao sofrimento de Seu povo:

Respondeu-lhe Gideão: Ai, senhor meu! Se o SENHOR é conosco, por que nos sobreveio tudo isto? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram, dizendo: Não nos fez o SENHOR subir do Egito? Porém, agora, o SENHOR nos desamparou e nos entregou nas mãos dos midianitas. (Juízes 6:13)

A resposta de Deus não era o que Gideão esperava ou quisesse ouvir! Deus lhe disse que ia libertar Seu povo agora, por intermédio dele, Gideão.

Então, se virou o SENHOR para ele e disse: Vai nessa tua força e livra Israel da mão dos midianitas; porventura, não te enviei eu? (Juízes 6:14)

Gideão quer ter certeza de que é realmente Deus quem está falando com ele. Ele pede um sinal (6:17) e consegue: o Anjo do Senhor incendeia sua oferta. Em resposta, Gideão constrói um altar ao Senhor.

Parece que Deus deu a Gideão algumas horas para meditar sobre o que acontecera, antes do Anjo voltar com outro desafio à sua fé. (Até então, Deus tinha revelado apenas de maneira geral que Gideão ia libertar seu povo.)

Construir esse altar foi o "primeiro passo" na carreira de fé de Gideão; no entanto, agora Deus requer uma fé mais obediente, mais consistente. Naquela mesma noite o Senhor lhe disse para derrubar o altar de Baal e o poste-ídolo erigido por seu pai. Depois, ele devia construir um altar no lugar e oferecer um sacrifício ao Senhor. Gideão obedeceu, mas tarde da noite, sob o manto da escuridão. Só pela manhã os homens da cidade descobriram o que acontecera durante a noite e quem o fizera. Eles exigiram que o pai de Gideão o matasse, mas ele se recusou, afirmando que Baal devia ser poderoso o suficiente para defender seus próprios interesses. Lógica excelente!

É ou não é espantoso que as pessoas daquela cidade estivessem ansiosas para ver a morte Gideão por ele adorar o Deus de Israel e blasfemar contra Baal? O que eles deveriam fazer era condenar o pai de Gideão por erigir um altar a um deus pagão. Com que rapidez os israelitas abandonaram os "dias dourados" da geração de Josué!

Em seguida, Deus ordenou que Gideão atacasse as nações do Oriente (6:33). Capacitado pelo Espírito de Deus, Gideão tocou a trombeta, convocando as tribos mais próximas para segui-lo (6:34-35). Ele sente a necessidade de outra confirmação, por isso, pede a Deus um duplo sinal. Este é o famoso sinal do velo de Gideão. Primeiro, a lã devia estar molhada e o chão seco. Depois, a lã devia estar seca e o chão ao seu redor molhado. Deus satisfez ambos os pedidos e Gideão agora estava pronto para ir à guerra.

No entanto, Deus ainda não estava. Trinta e dois mil israelitas se apresentaram para a batalha, para enfrentar um exército inimigo de mais de 100.000 homens (ver 8:10). Deus sabia que um exército de Israel desse tamanho ficaria tentado a tomar para si o crédito pela vitória. Portanto, Ele ordenou a Gideão que mandasse embora todos os medrosos - dois terços dos homens. Mesmo os 10.000 que sobraram ainda era um número grande demais para Deus; por isso, Ele reduziu os soldados israelitas a apenas 300. Deus sabia que Gideão precisaria de outro sinal; portanto, pede que ele desça ao acampamento dos midianitas. Ali, às escondidas, Gideão ouve um soldado conversando com outro, revelando o medo que os midianitas tinham dele e de seu exército. Isto foi tão encorajador para Gideão quanto Raabe para os dois espias e os israelitas (Josué 2:8-11, 23-24).

A vitória inicial de Gideão e seus homens é uma história impressionante. Ele dividiu os 300 soldados em três companhias de 100. Deu a cada homem uma trombeta e uma jarra com uma tocha dentro. As três companhias rodearam o acampamento inimigo. Neste ponto, o texto nos dá detalhes bem específicos:

Chegou, pois, Gideão e os cem homens que com ele iam às imediações do arraial, ao princípio da vigília média, havendo-se pouco tempo antes trocado as guardas; e tocaram as trombetas e quebraram os cântaros que traziam nas mãos. (Juízes 7:19, ênfase minha)

Por que o texto diria que isto ocorreu no meio da noite, no princípio da vigília média? Aparentemente eram 10 horas da noite. Como a guarda acabara de ser trocada, os novos guardas estariam se apresentando para o serviço enquanto os outros ainda retornavam às suas tendas. Em outras palavras, era justamente nessa hora que o maior número de guerreiros midianitas estaria acordado e andando de lá para cá. Minha teoria é que, se os israelitas tinham espadas, não estavam com elas em mãos. Como poderiam segurar a jarra numa das mãos e a trombeta na outra? Depois de soarem as trombetas, eles quebraram as jarras, expondo as tochas. Os midianitas entraram em pânico e começaram a se matar uns aos outros. O que poderia ter acontecido? Minha opinião é que o som das trombetas assustaram ainda mais o já apavorado exército midianita (7:13-14), que depois foi cegado pela luz das tochas. Seus olhos tinham se acostumado à escuridão, por isso as luzes os cegaram, como cervos à luz de faróis. Eles acharam que estavam sob ataque e, como não conseguiam enxergar direito, começaram a se mover de um lado para outro com suas espadas. Os únicos que estavam por perto eram seus compatriotas midianitas. Quanto mais os midianitas se moviam (e eram feridos por seus companheiros), mais intensamente eles lutavam - um com o outro. O resultado final foi que os midianitas se mataram uns aos outros, enquanto os israelitas observavam estupefatos à luz de suas tochas. Quando perceberam que estavam sendo destruídos (embora não soubessem que eles mesmos estavam se matando), os midianitas procuraram escapar noite adentro. Isso significa que eles não levaram suas armas e suprimentos, deixando tudo para trás, para Gideão e seus homens. Talvez não tenha acontecido exatamente desse jeito, mas eu me aventuraria a dizer que foi mais ou menos assim.

Agora, era hora dos outros israelitas se juntarem a seus companheiros e terminarem a batalha:

Então, os homens de Israel, de Naftali e de Aser e de todo o Manassés foram convocados e perseguiram os midianitas. (Juízes 7:23)

Os efraimitas, contudo, ficaram indignados. Eles reclamaram que foram convocados tarde demais para o confronto (7:24-8:1), mas foram acalmados pela resposta branda e prudente de Gideão. No entanto, houve outros que não quiseram cooperar de jeito algum:

Vindo Gideão ao Jordão, passou com os trezentos homens que com ele estavam, cansados mas ainda perseguindo. E disse aos homens de Sucote: Dai, peço-vos, alguns pães para estes que me seguem, pois estão cansados, e eu vou ao encalço de Zeba e Salmuna, reis dos midianitas. Porém os príncipes de Sucote disseram: Porventura, tens já sob teu poder o punho de Zeba e de Salmuna, para que demos pão ao teu exército? Então, disse Gideão: Por isso, quando o SENHOR entregar nas minhas mãos Zeba e Salmuna, trilharei a vossa carne com os espinhos do deserto e com os abrolhos. Dali subiu a Penuel e de igual modo falou a seus homens; estes de Penuel lhe responderam como os homens de Sucote lhe haviam respondido. Pelo que também falou aos homens de Penuel, dizendo: Quando eu voltar em paz, derribarei esta torre. (Juízes 8:4-9)

Sucote e Penuel eram duas cidades israelitas no território de Gade, a leste do rio Jordão. Assim sendo, uma vez mais, alguns israelitas não estavam dispostos a sair em auxílio de seus irmãos que estavam em necessidade. A união entre as tribos de Israel, testemunhada no livro de Josué, rapidamente se desmancha no livro de Juízes.

Após Gideão derrotar os fugitivos, ele voltou a Sucote e Penuel, onde puniu seus líderes e os executou. Ele também derrubou a torre de Penuel. Depois, matou os dois reis inimigos, Zeba e Salmuna, e pegou os adereços do pescoço de seus camelos.

Os israelitas estavam tão satisfeitos com a liderança de Gideão, que quiseram torná-lo seu rei, oferta que ele sabiamente recusou. A nota triste é que Gideão se aproveitou da gratidão do povo. Ele pediu-lhes uma parte dos despojos de guerra tomados dos midianitas. Eles, prazerosamente, lhe concederam; no entanto, Gideão utilizou estes despojos para fazer uma estola sacerdotal, a qual foi guardada em sua casa, mas depois acabou se tornando objeto de adoração. Desta forma, o grande libertador de Israel tornou-se uma pedra de tropeço a seus compatriotas israelitas, fazendo-os cair na idolatria que acarretaria o próximo ciclo de disciplina divina.

Jefté - Juízes 10:6-12:7

Deixando de lado alguns juízes, chegamos a Jefté, um dos grandes enigmas do livro de Juízes. Diferentemente de Gideão em seu início, Jefté foi um grande guerreiro. Ele era filho de uma prostituta (11:1). Quando seus meios-irmãos cresceram, eles o forçaram a deixar sua família; contudo, quando os amonitas começaram a oprimi-los, o povo de Gileade insistiu para ele voltar como seu líder (11:15-16). Jefté concordou, com a condição de que eles cuidassem das desavenças com sua família e outras pessoas de Gileade. Por esse tempo, ele começou a negociar com o rei amonita. O tempo não nos permitirá fazer uma exposição deste texto, mas as negociações entre Jefté e o rei amonita são um excelente resumo da disputa pelo território de Israel tal como é hoje (ver Juízes 11:12-28).

Quando, finalmente, as negociações fracassaram, Jefté liderou os israelitas contra os amonitas. Antes de ir para a batalha, ele fez um voto bastante tolo:

Fez Jefté um voto ao SENHOR e disse: Se, com efeito, me entregares os filhos de Amom nas minhas mãos, quem primeiro da porta da minha casa me sair ao encontro, voltando eu vitorioso dos filhos de Amom, esse será do SENHOR, e eu o oferecerei em holocausto. (Juízes 11:30-31)

Jefté e suas tropas derrotaram os amonitas e, quando ele voltou para casa, sua filha correu ao seu encontro. Em conseqüência disso, ele teve que cumprir seu voto com relação a sua filha. Tendo em vista não ser fácil acreditar que ele realmente tenha sacrificado a filha, outras explicações têm sido sugeridas, mas nenhuma que nos deixe com boa impressão sobre ele ou seu voto.

Uma vez mais lemos sobre um conflito com os efraimitas (ver 8:1-3). Parece que eles tinham pavio curto. Eles discutiram com Jefté por não terem sido convocados para a batalha (para que pudessem dividir a glória?). O resultado final dessa discussão foi guerra entre as tropas de Jefté e Efraim (12:1-7). As coisas iam de mal a pior. No princípio, os israelitas lutavam juntos contra inimigos comuns. Agora, eles lutam entre si.

Sansão - Juízes 13-16

O livro de Juízes dedica grande atenção a Sansão, tal como fez com Gideão. Ele é um personagem bastante significativo. Em primeiro lugar, Sansão é o último juiz do livro de Juízes. Em segundo, ele é uma figura trágica, um homem totalmente escravizado pela carne. Em terceiro, Sansão é um retrato do povo de Israel. Estou em dívida com Albert H. Baylis por seus comentários no excelente livro "Da Criação à Cruz":

Enquanto Jefté livra Israel a leste do Jordão, Sansão torna-se juiz no lado oeste (capítulos 13-16). O escritor dedica mais espaço a Sansão do que a qualquer outro juiz. Ele foi escolhido para julgar antes de seu nascimento; por isso, o início de sua vida é semelhante ao início da vida de Samuel, Jeremias e João Batista. Com toda certeza, esperava-se grandes coisas deste homem. Contudo, ele é terrivelmente desapontador. Ele está sempre desrespeitando a lei, casando-se com mulheres filistéias e usando seus poderes especiais para agir com violência desnecessária.

Por que gastar tanto tempo com as falhas de Sansão? Porque ele é o clímax da mensagem de Juízes. Sua vida se equipara à da própria nação de Israel. Sansão, como Israel, tinha um chamado especial, mas abandonou-o em busca de seus interesses pessoais. Seu poder, embora magnífico e capacitado pelo Senhor, não produziu libertação, pois sua vida foi marcada pela infidelidade ao Senhor e casamentos mistos com os povos da terra.

Discordo de alguns comentários de Baylis, mas, aqui, certamente concordo com suas idéias principais. Sansão chegou ao "fundo do poço" no que diz respeito aos libertadores de Israel; e alguém tinha que ser realmente pervertido para receber essa distinção. Enquanto outros libertadores tiveram que conquistar seu lugar, Sansão não poderia ter tido um começo melhor. Seu nascimento e seu ministério foram previamente anunciados de forma a colocarem-no no mesmo patamar que João Batista. Seus pais eram crentes fiéis e comprometidos com Deus. Eles procuraram diligentemente o conselho de Deus para educar o garoto e o fizeram da melhor forma possível. Eles criaram Sansão como nazireu; no entanto, ele parecia desprezar seus direitos espirituais de nascença. O único sinal de arrependimento e obediência de sua parte aparecem nos momentos finais de sua vida. Ele realmente é uma figura muito trágica.

As deficiências do caráter de Sansão se tornam evidentes logo no primeiro romance com uma mulher filistéia, no capítulo 14. Eis alguém cujo único dote era sua aparência; no entanto, isso era suficiente para Sansão. Ele fez tudo errado, desde comer o mel que estava sobre a carcaça de um leão morto até desprezar os conselhos de seus pais sobre a escolha de uma esposa. Sua futura mulher o enganou para que ele lhe revelasse seu segredo (a resposta do enigma), pois ela temia aqueles que a ameaçavam se ela não lhes desse a resposta (14:15-17). Quando percebeu que fora enganado, Sansão despejou toda a sua fúria sobre os filisteus. Ele não os destruiu por causa dos israelitas, mas para acalmar seu orgulho ferido. Quando esta mulher foi dada como esposa ao seu maior companheiro, Sansão novamente explodiu em fúria. Ele só servia e se ocupava consigo mesmo. Como é terrível ver alguém tão capacitado pelo Espírito de Deus e tão dominado pela carne.

Podia-se esperar que Sansão tivesse aprendido a lição após o primeiro desastre para arranjar uma esposa dentre os filisteus; no entanto, quando encontra Dalila, ele repete as mesmas bobagens, de tal forma que, uma vez mais, é coagido a contar para uma mulher estrangeira seu segredo mais íntimo (a origem de sua força). Isto faz com que ele seja capturado e tenha seus olhos vazados. Só quando seu cabelo começa a crescer novamente é que ele suplica a Deus forças para poder se vingar, derrubando o templo onde era exibido.

Epílogo: A História de Dois Levitas (Juízes 17-21)

Os capítulos finais de Juízes são um epílogo. Em vez de enfocar os pecados do povo, ou dos juízes que os livravam, os cinco capítulos finais examinam de perto a vida de dois levitas. O que está acontecendo com a liderança religiosa de Israel? Veremos que os líderes religiosos não estavam tornando a nação responsável por seus pecados, antes estavam influenciando o povo com sua própria conduta pecaminosa. O vazio espiritual a que me refiro está implícito nos primeiros capítulos do livro. Em Juízes 2:1-4, é o "Anjo do Senhor" quem repreende a nação por seus pecados. Novamente, em 2:20-21, é Deus quem fala. Somente a profetisa Débora (4:4 e ss) e um profeta sem nome (6:7-10) parecem ter falado em nome de Deus no livro de Juízes. Onde estão os sacerdotes e os profetas? Não há nenhum homem que se levante em nome do Senhor? Aparentemente, não! Como o Apóstolo Paulo escreveria anos depois:

Espero, porém, no Senhor Jesus, mandar-vos Timóteo, o mais breve possível, a fim de que eu me sinta animado também, tendo conhecimento da vossa situação. Porque a ninguém tenho de igual sentimento que, sinceramente, cuide dos vossos interesses; pois todos eles buscam o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus. (Filipenses 2:19-21)

Os dois levitas de nosso texto são homens que não buscam o interesse de Deus, ou de outras pessoas, mas somente o seu próprio interesse.

Aluga-se Sacerdote Desempregado Pela Melhor Oferta
Juízes 17-18

Que história espantosa! O texto não menciona o nome do jovem sacerdote, um levita de Belém, mas de seu empregador - Mica, sim. Mica era da região montanhosa de Efraim. Ele roubara prata de sua mãe e a ouvira pronunciando uma maldição sobre o ladrão. Parece ter sido o medo da maldição que o fez confessar. Em resposta, sua mãe pronuncia uma bênção sobre ele e dedica uma parte do dinheiro "ao Senhor", em favor do filho. Depois, ela contrata um artesão para fazer um ídolo. A casa de Mica se torna o santuário do ídolo. Ele, então, cria uma coleção de ídolos do lar, incluindo uma estola sacerdotal, e emprega um de seus filhos como sacerdote.

Havia um jovem levita que morara por uns tempos em Belém, entre o povo de Judá. Tenho a impressão de que ele estava desempregado. (Com o colapso espiritual da nação, o que faria um sacerdote? Seria como um agente funerário num mundo onde não existisse a morte.) O jovem levita estava à procura de um lugar para viver, indo parar na região montanhosa de Efraim. Ali, ele chegou à casa de Mica, o qual rapidamente lhe ofereceu emprego como seu sacerdote pessoal (Quer coisa melhor do que ter um levita como sacerdote?). Era uma oferta que o jovem levita não podia recusar. Com isso, Mica tinha certeza de que Deus o abençoaria:

Então, disse Mica: Sei, agora, que o SENHOR me fará bem, porquanto tenho um levita por sacerdote. (Juízes 17:13)

Os danitas procuravam um lugar para se estabelecer, por isso, enviaram cinco homens pelo país a fora. Em sua jornada, eles deram com a casa de Mica, onde passaram a noite. Quando ouviram o jovem sacerdote falar, reconheceram seu sotaque e descobriram que ele não era daquela parte do país. O jovem contou-lhes como Mica o empregara como seu sacerdote pessoal. Ao ouvirem isto, eles pediram que ele buscasse a revelação divina sobre sua indagação de um local para fixarem residência. O jovem sacerdote garantiu que eles seriam bem sucedidos (O que não faria um sacerdote de aluguel?), e eles seguiram seu caminho.

Quando voltaram prá casa, os espias tinham boas novas sobre Laís, um lugar pacífico e abundante, longínquo e indefeso. Os danitas, então, rumaram para lá, parando na casa de Mica no caminho. Ao se aproximarem da casa, os espias contaram aos outros sobre os ídolos de Mica, a estola sacerdotal e o jovem sacerdote. Se eles iam saquear Laís, podiam também pegar os ídolos de Mica (Afinal, a estola não fora usada para saberem sobre seu êxito em encontrar um lugar para se estabelecerem?). Alguns deles começaram a conversar com o jovem sacerdote, enquanto os outros roubavam os ídolos. Quando percebeu o que estava acontecendo, o jovem se opôs, mas foi rapidamente silenciado. Além do mais, eles lhe ofereceram um emprego melhor, servindo com estes mesmos ídolos como seu sacerdote. Era uma chance de promoção e ele prontamente aceitou a oferta. Mica, que fora como um pai para ele, protestou, mas, estando totalmente inferiorizado, acabou desistindo. Os danitas, acompanhados pelo jovem levita, seguiram, então, para Laís, destruindo a cidade e se apossando do lugar. Lá, eles passaram a adorar a imagem de escultura que fora de Mica, embora o lugar de adorar a Deus em Israel fosse Siló.

A história do levita é uma janela para o caráter moral e religioso de Israel e seus líderes espirituais. Este sacerdote não tinha compromisso com seus deveres oficiais, provavelmente porque a nação deixara de adorar a Deus de acordo com a Lei. Antes, "cada um fazia o que achava mais reto". Como estava desempregado, o levita parecia não se importar com o "deus" a quem servia, desde que fosse devidamente pago por isso. E, caso recebesse uma oferta melhor, como de fato aconteceu, ele deixaria seus compromissos e faria o que fosse melhor para ele, a seus próprios olhos. A liderança espiritual de Israel está corrompida até a raiz.

Uma Olhada no Segundo Levita
Juízes 19-21

Pela terceira vez neste epílogo, lemos as palavras: Naqueles dias, não havia rei em Israel... (Juízes 19:1a, ênfase minha).

Temos, então, a história do segundo levita. Esse camarada estava passando uns tempos na região montanhosa de Efraim. Ele, também, parecia estar desempregado ou deslocado. Ele não estava no lugar apropriado de adoração em Israel - Siló (ver 18:31). Ele tomara uma concubina de Belém, mas ela desagradou-se dele e fugiu para a casa de seu pai. O levita foi atrás dela, esperando convencê-la a voltar com ele. Quando chegou à casa do pai dela, ele foi calorosamente recebido, e sua missão bem sucedida. Ela estava disposta a voltar com ele. Eles teriam partido logo, não fosse a hospitalidade do pai dela. A cada dia que passava, o sogro persuadia o genro a ficar um pouco mais, e sua hospitalidade fazia valer a pena ficar.

Eles só conseguiram escapar um dia à tardinha, quando a escuridão da noite ameaçava envolvê-los no meio do caminho. Ao se aproximarem de Jebus (Jerusalém), o servo do levita queria passar a noite ali. No entanto, como a cidade ainda não fazia parte de Israel naquela época, o levita preferiu prosseguir até que estivessem em território israelita. Eles, então, continuaram até Gibeá, uma cidade no território de Benjamin, poucas milhas adiante. Eles chegaram ao anoitecer e foram até a praça, onde esperavam ser recebidos e convidados para ficar na casa de algum benjamita. Finalmente, um senhor que voltava do campo, passou por ali. Ele não era benjamita; sua casa ficava na região montanhosa de Efraim, mas ele estava vivendo temporariamente em Gibeá. Quando avistou os viajantes, foi conversar com eles. O levita explicou-lhe que tinha muitos suprimentos e que só precisava de um lugar para passar a noite. O senhor convidou-o para ficar em sua casa, insistindo em lhes dar de comer e beber. Eles tinham acabado de jantar, quando os homens da cidade bateram à porta, exigindo que o ancião lhes entregasse o levita, a fim de abusarem dele. Era Sodoma revivida! (compare com Gênesis 19:1-13)

O ancião ofereceu-lhes sua filha virgem e a concubina do levita. Os homens recusaram a oferta, mas o levita agarrou a concubina e obrigou-a a sair para a rua, onde aqueles homens abusaram dela a noite toda. Pela manhã, o levita estava pronto para seguir seu caminho. Quando abriu a porta, encontrou a concubina estirada no chão, com as mãos no limiar da porta. Sem qualquer compaixão, ele ordenou que ela se levantasse para irem embora. Ele ainda não tinha percebido que ela estava morta. Quando percebeu, colocou o corpo em sua mula e levou-o para casa, onde o dividiu em 12 pedaços, enviando uma parte para cada tribo de Israel, junto com uma mensagem. A mensagem era obviamente chocante:

Cada um que a isso presenciava aos outros dizia: Nunca tal se fez, nem se viu desde o dia em que os filhos de Israel subiram da terra do Egito até ao dia de hoje; ponderai nisso, considerai e falai. (Juízes 19:30)

Os benjamitas se recusaram a tratar dos perversos moradores de Gibeá; por isso, os demais israelitas entenderam ser necessário ir à guerra contra toda a tribo de Benjamim. Por instrução do Senhor, Judá liderou a primeira investida contra 26.000 guerreiros benjamitas. Estes conseguiram matar 22.000 israelitas no primeiro dia de batalha. Os israelitas choraram sua perda diante do Senhor e perguntaram se deveriam continuar o ataque. O Senhor lhes disse para atacar; no entanto, os gibeonitas mataram mais 18.000 israelitas naquele dia. Todo o exército israelita subiu a Betel, onde jejuou e chorou diante do Senhor. Eles ofereceram sacrifícios e novamente perguntaram a Deus se deveriam continuar o ataque. Uma vez mais o Senhor lhes disse para atacar, contudo, desta vez, assegurou-lhes a vitória (20:28). Os israelitas armaram uma emboscada e simularam uma derrota, a fim de que os benjamitas avançassem, abandonando a segurança da cidade. As tropas israelitas que estavam na retaguarda fizeram, então, meia volta e atacaram. A luta foi ferrenha, contudo, quando o dia terminou, mais de 25.100 guerreiros benjamitas haviam sido massacrados. Somente 600 soldados sobreviveram e fugiram para o deserto. Os israelitas, então, destruíram completamente as cidades benjamitas, exatamente como haviam feito com os cananeus (20:48).

Naquele dia, os israelitas também juraram não permitir que suas filhas se casassem com os benjamitas (21:1). Não demorou muito até começarem a compreender a magnitude dessa tragédia e lamentarem o fato de uma de suas tribos estar quase à beira da extinção. No dia seguinte, eles ofereceram sacrifícios ao Senhor e procuraram descobrir uma maneira de salvar a tribo de Benjamim. Eles fizeram uma pesquisa para saber quem não tinha ido à guerra contra os benjamitas e, desta forma, feito o juramento de não dar sua filha em casamento a um deles. Em resumo, os israelitas se arrependeram de seu zelo para tratar da perversidade dos benjamitas.

O povo de Jabes-Gileade não se havia unido a seus compatriotas na luta contra os benjamitas (21:8-9). Assim, 12.000 guerreiros israelitas foram enviados para lá, a fim de exterminar homens, mulheres e crianças, por não terem participado do conflito. Todas as mulheres virgens deveriam ser deixadas com vida para se tornarem esposas dos sobreviventes benjamitas. Quatrocentas jovens foram poupadas e levadas a Siló. Alguns mensageiros foram enviados aos 600 benjamitas para garantir que eles não seriam maltratados. As 400 jovens foram, então, dadas a eles como esposas. Os israelitas também armaram um plano, simulando um festival em Siló, para que os benjamitas pudessem raptar algumas jovens do lugar e tomá-las por esposa (21:19-24). Em certo sentido, este é um fim apropriado para o registro de um período tão trágico na história de Israel. Enfim, os israelitas não são melhores do que os cananeus que eles deveriam desapossar da terra.

Conclusão

O tempo não nos permite um estudo mais abrangente para mostrar todas as ramificações e aplicações práticas deste livro incrível. Entretanto, farei alguns comentários gerais e algumas sugestões de temas importantes para outros estudos e meditações.

Em primeiro lugar, precisamos reconhecer a contribuição ímpar do livro de Juízes ao cânon das Escrituras. Eis um livro que descreve um período trágico da história de Israel, um período de transição entre a posse da terra sob a liderança de Josué e a instituição da monarquia em I Samuel 8 e capítulos seguintes. A repetição da frase "Naqueles dias, não havia rei em Israel..." (17:6; 18:1; 19:1, 21:25) implica que, se Israel tivesse um rei, as coisas poderiam ser diferentes. Israel gozava paz apenas enquanto vivesse o juiz ou libertador. Se houvesse um rei, com filhos para sucedê-lo, não haveria falta de um líder. Talvez esta fosse a chave para a paz. Naturalmente, aprenderemos que não foi bem assim, mas o livro de Juízes realmente ajuda a preparar o leitor para receber um rei. Sem um rei, Israel fez muito pouco nos dias dos juízes.

Em segundo lugar, acho necessário enfatizar que o livro de Juízes não é o lugar para encontrarmos homens e mulheres cujos exemplos devamos seguir. Via de regra, os libertadores de Israel não são pessoas que devamos imitar. Sansão não é modelo nem de filho, nem de líder. E, com toda certeza, também não é de "Como Encontrar Uma Esposa Crente". O livro também não nos incentiva a seguir o exemplo de Gideão, sempre em busca de sinais. Embora eu tenha grande respeito por Débora, recomendo que você tenha muita cautela ao tentar utilizar a história de Débora e Baraque como base para as mulheres reivindicarem a si mesmas como líderes em lugar dos homens. O livro deixa bem claro que a liderança de Débora (a qual não posso negar e cujo caráter admiro e respeito) significa uma repreensão aos homens que falham em seu papel de líder. Também gostaria de ressaltar que Débora se recusou a liderar o exército e, no final, quem assumiu a liderança foram os homens.

Há diversos temas que se destacam no livro de Juízes. Deixe-me mencionar apenas alguns e fazer algumas sugestões para levarmos em consideração.

UNIFICAÇÃO. Vejo no livro de Juízes que, quanto mais os israelitas habitam entre os cananeus, mais íntima se torna sua associação com eles. Os israelitas estão cada vez mais parecidos e mais unidos com os cananeus. Eles começaram a se casar com eles e abraçaram seus ídolos. De certa forma (como no caso dos gibeonitas - capítulo 19), os israelitas até mesmo superaram os cananeus em depravação. Lembro-me das palavras de Paulo aos Coríntios, a respeito dos pecados encontrados naquela igreja:

Geralmente, se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. E, contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou? (I Coríntios 5:12)

A unidade das forças israelitas sob o comando de Josué rapidamente se desfaz no livro de Juízes. Enquanto procuram se unir aos cananeus (Heber, por exemplo, tinha um trato com o rei Jabim), a união de uns com os outros está se dissolvendo. No começo do livro, Judá se une a Simeão e eles saem vitoriosos (1:3). Quando chegamos a Débora e Baraque, e sua canção de vitória (Juízes 5), vemos que determinadas tribos são honradas por terem se unido à batalha e outras censuradas por não terem (5:14-18, 23). Quando Gideão luta com os midianitas, os efraimitas reclamam que foram excluídos (8:1). Os israelitas de Sucote (8:5-7) e Penuel (8:8-9) se recusam a fornecer água e alimentos aos homens de Gideão. No capítulo 9, Abimeleque mata seus irmãos e, no capítulo 12, os israelitas sob a liderança de Jefté precisam lutar contra os efraimitas. Finalmente, a nação toda é compelida a ir à guerra contra a tribo de Benjamim.

DESRESPEITO PELA PALAVRA DE DEUS. Este foi um período em que os homens desrespeitavam e desobedeciam a Palavra de Deus. "Fazer o que acha mais reto" é sinônimo de desrespeito à lei de Deus:

São estes os estatutos e os juízos que cuidareis de cumprir na terra que vos deu o SENHOR, Deus de vossos pais, para a possuirdes todos os dias que viverdes sobre a terra. Destruireis por completo todos os lugares onde as nações que ides desapossar serviram aos seus deuses, sobre as altas montanhas, sobre os outeiros e debaixo de toda árvore frondosa; deitareis abaixo os seus altares, e despedaçareis as suas colunas, e os seus postes-ídolos queimareis, e despedaçareis as imagens esculpidas dos seus deuses, e apagareis o seu nome daquele lugar. Não fareis assim para com o SENHOR, vosso Deus, mas buscareis o lugar que o SENHOR, vosso Deus, escolher de todas as vossas tribos, para ali pôr o seu nome e sua habitação; e para lá ireis. A esse lugar fareis chegar os vossos holocaustos, e os vossos sacrifícios, e os vossos dízimos, e a oferta das vossas mãos, e as ofertas votivas, e as ofertas voluntárias, e os primogênitos das vossas vacas e das vossas ovelhas. Lá, comereis perante o SENHOR, vosso Deus, e vos alegrareis em tudo o que fizerdes, vós e as vossas casas, no que vos tiver abençoado o SENHOR, vosso Deus. Não procedereis em nada segundo estamos fazendo aqui, cada qual tudo o que bem parece aos seus olhos. (Deuteronômio 12:1-8)

Os homens da cidade de Gideão quase o executaram porque ele obedecia a Deus, embora procurassem proteger e preservar a adoração a Baal.

O espírito daquela época era de autonomia pessoal e de grande rebeldia contra as leis de Deus. É quase assustador perceber como a nossa cultura tem se tornado parecida com a daqueles dias. Agora, por exemplo, é o reverenciado "direito" das mulheres serem donas de seu próprio corpo. Isto se aplica à sua conduta sexual (o mesmo acontece com os homens: ser hetero ou homossexual), e também à morte de seus fetos. A lei Roe v. Wade da Suprema Corte dos Estados Unidos foi baseada no princípio da privacidade, que prefiro chamar de princípio da autonomia pessoal. "Não há mais autoridade (da lei) em nossos dias e cada homem e mulher faz aquilo que acha mais certo, incluindo a morte de seus inocentes, os filhos ainda não nascidos."

VIOLÊNCIA. O livro está repleto de violência de todos os tipos. Não duvido que alguns pais fiquem apreensivos por seus filhos lerem certas partes do livro de Juízes. Talvez a história mais hedionda esteja no capítulo 19, quando o levita atira sua concubina aos homens da cidade de Gibeá para ser violentada por eles, e depois retalha seu corpo e envia os pedaços a seus compatriotas israelitas. Não parece quase inconcebível? E, no entanto, isto acontece todos os dias em nosso país, quase sem nenhum protesto. Chama-se "aborto por nascimento parcial". O corpo de uma criança viva é desmembrado dentro do útero e extraído aos pedaços. Agora, eu lhe perguntou, meu amigo, será que somos melhores do que os piores israelitas daquela época? Creio que não. Será que isto não serve para nos alertar que o juízo divino está próximo?

LIDERANÇA. A questão da liderança parece tomar conta deste livro. Parece haver uma persistente deterioração dos líderes de Israel: de razoavelmente bons, como Otoniel, Eúde, Débora e Baraque, a homens como Jefté e Sansão (sem mencionar os dois levitas no final do livro). Má liderança corrompe a nação (como a de Gideão, quando levou Israel a adorar sua estola sacerdotal). Boa liderança encoraja os homens a fazer o que é certo diante de Deus (Josué, por exemplo).

Creio que também seja certo inferir que Deus deu a Israel o tipo de líderes que eles mereciam. Sansão foi um homem de conduta e atitudes muito parecidas com as de Israel. Eles, como Sansão, foram dominados pelos apetites carnais, não pelo desejo de confiar em Deus e obedecê-Lo.

Podemos até não querer admitir, mas creio que o livro de Juízes nos diz (assim como outras partes da Bíblia) que Deus não se restringe a "bons líderes" para alcançar Seus propósitos. Deus usou um Faraó de coração duro (Romanos 9:17) da mesma forma que usou Moisés. Deus não se limita a usar somente pessoas boas e piedosas. Certamente é bom vivermos vidas piedosas, mas Deus também pode usar os ímpios para realizar Seus propósitos. Creia, ou não, Deus usou Jefté, Sansão e muitos outros personagens desagradáveis para cumprir Seus propósitos.

O PAPEL DAS MULHERES NO LIVRO DE JUÍZES. Um de meus amigos, Hampton Keathley IV, escreveu um excelente artigo sobre o "Papel das Mulheres no Livro de Juízes". Eu recomendo ao leitor que o leia. Os cananeus tinham uma cultura pervertida, manifestada em seu comportamento e no trato com as mulheres. No entanto, quando estudamos o livro de Juízes, descobrimos que Israel foi uma nação tão decante quanto eles, ou pior. Um pai faz um voto que requer o sacrifício de sua filha (Jefté). Um levita lança sua concubina "aos lobos" de Gibeá para salvar a si mesmo, e depois bruscamente manda que ela se levante do chão. Quando descobre que ela está morta, ele a parte em pedaços. As mulheres parecem ter mais poder no livro de Juízes. Débora e Jael são altamente honradas. Uma mulher lança uma pedra de moinho na cabeça de Abimeleque, matando-o (9:53). Mulheres seduzem Sansão e arrancam dele seus segredos mais íntimos. No entanto, embora pareça que as mulheres tenham mais poder, certamente elas carecem de honra (exceto algumas poucas exceções). Esta não foi uma época em que as mulheres foram tratadas com carinho e dignidade. Elas foram usadas e abusadas. Uma sociedade pode muito bem ser julgada pela forma como trata suas mulheres, por isso, o período dos juízes e a nossa própria época serão achados em falta.

Permita Deus que aprendamos com as lições do livro de Juízes aquilo que os antigos israelitas não aprenderam.

tradução: Mariza Regina de Souza


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