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O Resgate de Ló (Gênesis 14:1-24)

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Introdução

Sofro de uma incurável fascinação por títulos de sermões. Lamento já ter escrito a mensagem de Gênesis capítulo 13, pois agora tenho um novo título para ela. Deveria ter sido “Abrão tinha muito a perder”.148 O capítulo 14 então poderia ser “Abrão tinha muito a ganhar”. E quem sabe o capítulo 15 seria: “Abrão tinha muito a aprender”. Tantos títulos.

Na nossa rádio cristã local há um programa que tenta dar “uma outra visão das notícias”. Aprecio este esforço porque os cristãos certamente deveriam ver muito mais do que os analistas seculares vêem nas notícias de nossa época. Por exemplo, grandes catástrofes, tais como a erupção do Monte Santa Helena e os terremotos da Califórnia, podem prenunciar os sinais do final dos tempos (cf. Mateus 24:7). O rápido crescimento da criminalidade e da ilegalidade pode ser visto como conseqüência das condições morais dos últimos tempos (cf. II Timóteo 3:1-7). A erupção de guerras, sua ameaça em outros lugares, e o alinhamento das nações, são todos de grande importância para o alerta dos cristãos (cf. Ezequiel 38, Daniel 12, Mateus 24:6-8).

Existe, é claro, o lado secular das notícias. Ele trata, principalmente, dos fatos e números, detalhes e descrições dos acontecimentos que ocorrem. As explicações para esses acontecimentos quase sempre são de natureza humanista e econômica.

Para os cristãos deve haver uma outra dimensão – o lado espiritual da história. Se Deus é soberano na história, como a Bíblia afirma que Ele é (cf. Salmo 2, Pv. 21:1, Dn. 2:21, At. 4:23-31), então Sua mão deve ser vista guiando a história para realizar Seus propósitos.

Esse é o caso em Gênesis capítulo 14. Aqui, pela primeira vez nas Escrituras, a história patriarcal e a história secular se cruzam.149 Na superfície, este incidente é simplesmente um confronto internacional para garantir a supremacia econômica controlando uma rota comercial fundamental. O “outro lado da notícia” é que este acontecimento serve como comentário de Gênesis capítulo 13 e como uma oportunidade para instrução de ambos, Ló e Abrão. Enquanto Ló parece ter aprendido muito pouco, a fé de Abrão está amadurecida.

O Saque de Sodoma e a Perda de Ló
(14:1-12)

Os primeiros onze versos do capítulo 14 podem confundir o leitor do século 20, pois são estranhamente seculares. Pior ainda, parecem remotos, tolos e desinteressantes. Eles contêm o relato de um confronto entre duas coalizões de reinados opostas.

O primeiro bloco de nações era aquele dos 4 reis mesopotâmios do oriente (14:1). Quedorlaomer, rei de Elão (atual Irã), parece ter sido o cabeça.150 Sinear era a região da antiga Babilônia (cf. Gênesis 10:10). A segunda aliança era composta de 5 reis, incluindo os reis de Sodoma e Gomorra (14:2).

Depois de 12 anos como vassalos dos reis orientais, os cinco reis do sul tentaram livrar-se de suas algemas. Os reis orientais não podiam permitir que tal rebelião ficasse impune. Esta revolta não passava despercebida aos outros povos que se encontravam na mesma situação (cf. 14:5-7). As conseqüências econômicas de ignorar uma insurreição eram devastadoras demais para se considerar. Os cinco reis do sul controlavam o território pelo qual passava “a estrada real”. Esta era a terra pela qual devia passar o comércio entre o Egito e os quatro reis orientais. Quem quer que controlasse esse pedaço de terra mantinha o monopólio do comércio internacional.

A rota tomada pelos reis mesopotâmios é objeto de críticas consideráveis.

Ela revela uma curva ampla para leste e sul e depois para sudoeste; então do nordeste para o lado ocidental do Mar Morto, e finalmente as tropas se amontoam sobre seu objetivo final, as cidades do Vale de Sidim.151

Duas explicações parecem satisfazer as objeções que são levantadas. Creio que ambas revelam a sabedoria da estratégia de Quedorlaomer. Primeiro, a rota da conquista parece ser “a estrada real”, a rota comercial que os reis mesopotâmios procuravam garantir.152 A rebelião dos cinco reis do sul pode muito bem ter incitado atos semelhantes de outros reinos. Os quatro reis mesopotâmios procuraram então restaurar sua soberania sobre toda a extensão da rota comercial.

Segundo, os quatro reis procuraram tratar os reinos rebeldes um de cada vez. Ao assegurar sua posição primeiramente com estes outros reinos o perigo de um ataque pela retaguarda foi removido. O cerco sobre esses rebeldes parece estar se estreitando à medida que o relato prossegue.153 É possível que se esperasse que, conforme as vitórias se acumulassem para os quatro reis, para os cinco reis do sul a rendição fosse preferível à derrota.

Os reis de Sodoma e Gomorra, com seus aliados, devem ter decidido que era mais nobre sofrer uma derrota na guerra do que ter que entregar os pontos numa rendição. As tropas se colocaram na defensiva por todo o campo de batalha no vale de Sidim (14:8). Os reinos rebeldes devem ter oferecido pouca resistência diante da invasão. À medida que fugiam dos inimigos, alguns caíram em poços de betume do vale, outros escaparam para os montes (14:10).

Sodoma e Gomorra foram saqueadas. Tudo e todos que podiam foram levados. Esse é o lado secular da notícia. Mas, por que é dada tanta ênfase na descrição e nos detalhes deste episódio?

A resposta só pode ser encontrada no “outro lado da notícia”, a dimensão espiritual. Longe dos fatos e números, estratégias e especulações da razão humana, havia um propósito espiritual. Este incidente internacional não deve ser entendido somente em termos de confronto e poder econômico. Foi parte do programa do Deus soberano para as vidas de dois de Seu povo, Ló e Abrão.

Uma observação que, a olhos não esclarecidos, parece casual e incidental, é fundamental:

Tomaram também a Ló, filho do irmão de Abrão, que habitava em Sodoma, e os bens dele, e partiram. (Gênesis 14:12)

Que comentário sobre a decisão de Ló no capítulo 13! Ló escolhera agir com base em seus interesses econômicos, e assim desprezara a aliança que Deus fizera com Abrão (12:1-3). O que Ló deveria ter aprendido é que “aquele que vive pela espada, pela espada morrerá”. O interesse econômico era o motivo dos reis das duas alianças, a do sul e a dos mesopotâmios.

Tudo o que Ló parecia ter ganho ao levar vantagem sobre Abrão foi perdido num instante, e, aparentemente por acaso. Ele foi capturado em meio a um incidente internacional. Você pode imaginar os pensamentos que atravessaram a cabeça de Ló quando ele e sua família, e todos os seus bens estavam sendo carregados para uma terra distante? Ele, que fora tão astuto, agora era escravo, e tudo por causa de sua escolha egoísta.

Você reparou também que foi dito que Ló estava vivendo em Sodoma (verso 12)? Quando o deixamos no capítulo 13, primeiro ele estava vivendo no vale do Jordão, rumo ao Oriente (13:11). Então mudou suas tendas até Sodoma (13:12). Finalmente Ló é um deles, pelo menos no que dizia respeito aos vitoriosos.

Ló é Salvo Por Seu Tio Abrão
(14:13-16)

Um daqueles que escapou de Quedorlaomer encontrou Abrão e lhe contou o destino de Ló.

Porém veio um, que escapara, e o contou a Abrão, o hebreu. Ora, este habitava junto dos carvalhais de Manre, o amorreu, irmão de Escol e de Aner; os quais eram aliados de Abrão. (Gênesis 14:13)

Digna de nota é a designação de Abrão como “o hebreu”.154 Parece que ele estava começando a ser tornar bem conhecido daqueles que viviam naquela terra. Abrão estava habitando junto aos carvalhos de Manre. Manre e seus dois irmãos, Escol e Aner, tinham feito aliança com Abrão (verso 13).

Reunindo suas forças, e as de seus aliados,155 Abrão rapidamente perseguiu os captores de Ló.

Ouvindo Abrão que seu sobrinho estava preso, fez sair trezentos e dezoito homens dos mais capazes, nascidos em sua casa, e os perseguiu até Dã. (Gênesis 14:14)

Ninguém pode realmente ter certeza de que foi a fé de Abrão que o impulsionou a empreender uma aventurada tão arriscada, embora, aparentemente, com grande vantagem numérica. Pelo menos devemos ser cautelosos em ver um ato de fé neste texto. Em lugar algum o motivo de Abrão é claramente estabelecido.

Havia boas razões para ignorar totalmente o relatório do fugitivo. Como Sarai sem dúvida sugeriu, as chances não estavam a favor de Abrão. Tal campanha poderia ser suicida. Além do mais Ló conseguiu exatamente aquilo que procurara. Ele escolheu viver em Sodoma – deixe-o aprender sua lição em Elão ou Babilônia. Ele deliberadamente escolheu levar vantagem sobre seu tio, Abrão; agora deixe-o pagar o preço.

Se foi uma questão de fé ou de honra não posso dizer com certeza. (Pessoalmente sou mais inclinado à honra familiar. Vejo Abrão como um homem meio parecido com Ben Cartwright na série de TV “Bonanza”). Agora vemos que a mansidão de Abrão, demonstrada em seu trato com Ló, não era fraqueza. Quaisquer que tenham sido suas razões, Abrão foi atrás de seu sobrinho. Por causa de Sua promessa a Abrão (12:1-3), Deus o protegeu e o fez prosperar.

E, repartidos contra eles de noite, ele e os seus homens, feriu-os e os perseguiu até Hobá, que fica à esquerda de Damasco. Trouxe de novo todos os bens, e também a Ló, seu sobrinho, os bens dele, e ainda as mulheres e o povo. (Gênesis 14:15-16)

Abrão, ao que parece, tinha uma poderosa mente militar. Ele empreendeu uma marcha forçada e um ataque de surpresa de diferentes posições. Pelas aparências, Abrão foi o comandante de seus homens, e também dos de seus aliados. A perseguição foi vigorosa e extensiva, até que a vitória fosse completa e os despojos inteiramente recuperados. Tudo foi recuperado: os bens, as pessoas, e o pródigo – Ló.

O Rei de Sodoma e o Rei de Salém
(14:17-24)

Talvez não haja nenhum teste maior para o homem enfrentar do que o do sucesso:

Como o crisol prova a prata, e o forno o ouro, assim o homem é provado pelos louvores que recebe. (Provérbios 27:21)

Mal se pode compreender a tentação que o retorno triunfal de Abrão lhe trouxe. Sua recepção deve ter sido a versão antiga do desfile de honra de Nova Iorque. Se o rei de Sodoma já saíra ao seu encontro, quanto mais as pessoas daquela cidade, que aguardavam o retorno de seus entes queridos.

Após voltar Abrão de ferir a Quedorlaomer e aos reis que estavam com ele, saiu-lhe ao encontro o rei de Sodoma no vale de Savé, que é o vale do Rei. (Gênesis 14:17)

Se o rei de Sodoma tinha algumas palavras apropriadas para a ocasião, teve que esperar para dize-las, pois de algum lugar surgiu o rei de Salém com as palavras que Abrão mais precisava ouvir:

Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do Deus Altíssimo; abençoou ele a Abrão, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra, e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos! E de tudo Abrão deu-lhe o dízimo. (Gênesis 14:18-20)

Creio que foi providencial que a aparição de Melquisedeque interrompesse o encontro de Abrão com o rei de Sodoma. Tão logo Melquisedeque terminou seu ofício, aparentemente afastou-se, e então o rei de Sodoma falou.

Melquisedeque é uma figura crucial nessa narrativa pois ele coloca a vitória de Abrão na perspectiva teológica correta.156 Não teve tapinha nas costas ou politicagem. Melquisedeque era rei e sacerdote, não rei e político. Suas palavras tinham a intenção de relembrar a Abrão que a vitória era de Deus, e que seu sucesso era conseqüência da bênção de Deus. De fato, as palavras de Melquisedeque eram um lembrete da aliança que Deus fizera com Abrão quando o chamou de Ur para ir para Canaã:

Ora, disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela, da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei. De ti farei uma grande nação; e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção. Abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra. (Gênesis 12:1-3)

A resposta de Abrão foi um testemunho de sua fé no Deus único adorado por ele e Melquisedeque. Seu dízimo foi uma evidência tangível de que era Deus quem merecia a glória.

Muitos recorrem ao verso 20 como texto de prova para o dízimo: “...E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.” Dizem que esta é a primeira ocorrência de dízimo, e que aconteceu antes da Lei ser dada. Por isso a prática do dízimo vai além da Lei e assim é obrigatória aos cristãos de hoje. Creio que este seja um pensamento enganoso.

Somos levados a crer que Abrão dizimou a Melquisedeque dando-lhe o dízimo de todas as suas posses. Mas quando Moisés escreveu: “...deu-lhe o dízimo de tudo”, o que ele quis dizer por tudo – tudo o quê?

Isto pode ser um choque prá você, mas Abrão não deu o dízimo de suas posses. Em primeiro lugar, Abrão não estava em casa, com suas posses, mas no caminho de volta prá casa, com as posses do rei de Sodoma e seus aliados. O escritor aos Hebreus nos informa o conteúdo do dízimo de Abrão:

Considerai, pois, como era grande esse a quem Abraão, o patriarca, pagou o dízimo tirado dos melhores despojos. (Hebreus 7:4)

Imagine esta cena: Abrão é encontrado pelo rei de Sodoma que, sem dúvida, o enche de elogios. O rei de Salém chega e insta Abrão a dar glória a Deus. E então o rei de Sodoma fica boquiaberto e de olhos arregalados enquanto Abrão dá o dízimo do melhor dos despojos de Sodoma a Melquisedeque. Que testemunho para a glória de Deus e para a pecaminosidade de Sodoma! Isso, meu amigo, não é um exemplo bíblico de dízimo.

O rei de Sodoma sabia muito bem que “ao vencedor pertencem os despojos”. Somado a isso, ele já testemunhara o dízimo dos bens sendo dado ao rei de Salém (Jerusalém). O melhor acordo que este rei pagão podia esperar concluir era reaver o povo e entregar as posses a Abrão:

Então, disse rei de Sodoma a Abrão: Dá-me as pessoas; e os bens ficarão contigo. (Gênesis 14:21)

Que tentadora esta oferta deve ter sido para Abrão. Por todos os direitos, e mesmo pela solicitação do rei de Sodoma, os despojos eram seus. De certa forma foi uma justiça poética. Ló escolhera Sodoma por sua promessa de bênçãos materiais. Aparentemente Ló tomara o melhor de Abrão, e agora Deus o estava dando de volta a Abrão, a quem deveria ter pertencido desde o princípio.

As palavras de Abrão devem ter sido um choque muito maior para o rei de Sodoma do que sua atitude de partilhar os despojos com Melquisedeque:

Mas Abrão lhe respondeu: Levanto a mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o que possui os céus e a terra, e juro que nada tomarei de tudo o que te pertence, nem um fio, nem uma correia de sandália, para que não digas: Eu enriqueci a Abrão. (Gênesis 14:22-23)

Onde supomos que Abrão encontrou as palavras que disse ao rei de Sodoma? Do rei de Salém – donde mais? Melquisedeque se referiu a seu Deus, e de Abrão, como o “Deus Altíssimo, o que possui os céus e a terra”. Esta era uma designação incomum para Deus (El Elyon – cf. anotação à margem dos versos 19 e 20 da NASV), e no entanto Abrão as usou – as mesmas palavras que Melquisedeque dissera.

Creio que a chegada do rei de Salém foi um momento decisivo para Abrão, pois colocou sua vitória na perspectiva correta. Ainda que os homens possam dar a glória a homens, os santos devem dar a glória a Deus, pois qualquer vitória, no final das contas, é Sua, não nossa.

Por esta razão, Abrão não podia aceitar a oferta de ficar com os bens de Sodoma. Abrão, como Melquisedeque, agora era zeloso para que a glória de Deus fosse somente Dele. Aceitar qualquer coisa de um rei pagão seria dar-lhe a oportunidade de supor que sua oferta fosse responsável pelo sucesso de Abrão. O valor desses bens era muito alto e assim Abrão recusou aquilo que, por direito, era seu.

Abrão chegou a esta maravilhosa convicção, mas repare que ele não empurra suas opiniões goela abaixo de seus aliados:

Nada quero para mim, senão o que os rapazes comeram, e a parte que toca aos homens Aner, Escol e Manre, que foram comigo; estes que tomem o seu quinhão. (Gênesis 14:24)

Aquilo que os homens comeram dos bens de Sodoma não devia ser pago novamente. Mas também aquilo que era devido aos outros, que não estavam ligados a Deus pela fé, não devia ser retido.

Conclusão

Talvez mais que qualquer outra coisa o acontecimento de Gênesis 14 nos dê um comentário divino sobre as decisões tomadas no capítulo 13. Ló escolheu Sodoma e seu próprio interesse, e quase perdeu tudo por causa disso. Abrão escolheu seguir a paz e por isso lhe foi dada a vitória militar. Ló contou consigo mesmo e se tornou escravo. Abrão confiou em Deus e se tornou uma figura proeminente entre seus irmãos. Quão diferentes nossas decisões se mostram à luz da história. A história sopesa as decisões dos homens.

Esta passagem também nos faz lembrar da soberania de Deus nos assuntos dos homens. Deus está no controle da história. Os acontecimentos que parecem ser apenas seculares muitas vezes têm um propósito e um significado espiritual muito mais profundo. Aquilo que parece ser uma situação trágica onde Ló é capturado entre dois sistemas políticos oponentes, é realmente o propósito de Deus sendo desenvolvido para o benefício de dois homens (primeiramente), Ló e Abrão. Aí está, meu amigo cristão, o outro lado das notícias.

A aparição de Melquisedeque me faz lembrar que não há “Patrulheiros Solitários” na fé cristã. Há épocas em que nos sentimos como se ninguém mais guardasse a fé, mas essa impressão é auto-ilusão (cf. I Reis 19:14, 18). Aqui estava um rei/sacerdote temente a Deus, Melquisedeque, o qual não vimos antes, nem veremos depois, mas que é um verdadeiro crente.

Deus trabalha através de homens, meu amigo. Ainda que possamos gostar de ser auto-suficientes, este não é o jeito de Deus. Num momento crítico da vida de Abrão, Deus mandou um homem para corrigi-lo e não deixá-lo levar o sucesso tão a sério. Graças a Deus pelos homens e mulheres que Ele usa em nossas vidas, e pelo fato de que Ele nos usa para ministrar aos outros em momentos cruciais da vida.

Há também um lembrete de que, no tocante a dar e receber, o mais importante é a glória de Deus. Se damos para receber glória, nossos presentes não têm nenhum proveito (cf. Mateus 6:2-4). Se temos sucesso nas mãos daqueles que rejeitam a Deus e que tomam a glória para si mesmos, a glória de Deus fica encoberta aos homens. Vamos ser mais cautelosos nesta questão de dinheiro e de coisas materiais. Alguns poderiam receber dinheiro, até mesmo do diabo, mas Abrão não.

Finalmente, este acontecimento nos dá uma bela ilustração da salvação de Deus. Ló escolheu seguir seu próprio caminho, buscando seus interesses acima da promessa de Deus de abençoar os homens através de Abrão. Como resultado de sua busca Ló teve que enfrentar as conseqüências de seu pecado. Em vez de paz e prosperidade ele encontrou vergonha e escravidão.

Como Ló não foi capaz de fazer nada para corrigir seus erros ou para livrar-se do cativeiro, Abrão, com grande risco pessoal, obteve a vitória e sua libertação. Salvar Ló foi a única razão do ousado resgate de Abrão. A despeito da indiferença de Ló para com Abrão, Abrão o resgatou das conseqüências de seu próprio pecado.

Todos nós, diz a Bíblia, pecamos:

... pois todos pecaram e carecem da glória de Deus. (Romanos 3:23)

Todos seguimos nossos próprios caminhos:

Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho. (Isaías 53:6a)

As boas novas do Evangelho é que Deus mandou Seu filho, Jesus Cristo, para nos resgatar de nossos pecados. As conseqüências e a penalidade pelos nossos pecados foram sofridas por Jesus Cristo na cruz do Calvário.

Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós. (Isaías 53:4-6)

Você confia Nele? Reconhecerá sua teimosia e obstinação e sua necessidade de ser libertado do cativeiro do pecado? A missão de resgate de Deus foi bem sucedida, e seus benefícios são gratuitos para todos aqueles que crêem que a salvação está somente em Cristo.

Porque Deus amou ao mundo de tal maneira, que deu Seu filho unigênito para que, todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3:16)

E não há salvação em nenhum outro; porque debaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos. (Atos 4:12)

Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. (Romanos 6:23)

Aquele que crê no filho de Deus tem, em si, o testemunho; Aquele que não dá crédito a Deus o faz mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus dá acerca do seu Filho. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está no seu Filho. Aquele que tem o Filho tem a vida; Aquele que não tem o Filho não tem a vida. (I João 5:10-12)


148 É impossível a tradução desse trocadilho para o português, pois o Autor usa o próprio nome de Ló, em inglês “Lot”, que juntamente com o artigo indefinido “a” significa “muito, bastante”

149 “Pela primeira vez, os acontecimentos bíblicos estão expressamente em harmonia com a história exterior.” Derek Kidner, Genesis (Chicago: InterVarsity Press, 1967), p. 118.

150 O domínio elâmico e babilônico da Palestina fora efetivo por 12 anos. Quedorlaomer, o elamita, foi, na época em questão, soberano sobre a “Babilônia, um fato com o qual os registros históricos concordam.” H. C. Leupold, Exposition in Genesis (Grand Rapids: Baker Book House, 1942), I, p. 450.

151 Ibid, p. 451

152 A rota da conquista tem uma história contínua desde 2.500 aC até a época atual. Ao longo dela, de ponta a ponta, são encontrados montes de ruínas, alguns bastante grandes, indicando que a rota é, de fato, histórica e verdadeira, estimulando a cobiça de invasores. Tempos mais tarde veio a ser chamada de “estrada real” (Nm. 29:17, 21:22).” Harold Stigers, A commentary on Genesis (Grand Rapids: Zondervan, 1976), D, 148.

153 “A explicação mais simples é que o exército vindo do leste queria eliminar a possibilidade de um ataque pela retaguarda de grupos inamistosos. Esses grupos inamistosos ou eram oponentes que não tinham sido subjugados ou oponentes subjugados conhecidos por serem rebeldes e inclinados a apoiar outros rebeldes... Isso revela que o cerco foi se estreitando cada vez mais sobre Sodoma e Gomorra. Podemos sentir a apreensão das cidades revoltosas, eles se voltam de um lado para outro à medida que os relatórios sobre as derrotas dos grupos que estão sendo atacados vão sendo despejados.” Leupold, Genesis, I, p. 401, p. 149.

154 Pela primeira vez Abrão é chamado de “hebreu”. Alguns consideram que “hebreu” não seja equivalente a Habiru, apesar de outros, incluindo Kenyon, acharem que possivelmente sejam o mesmo. Uma das funções típicas de Habiru era a de mercenário, e Abrão se encaixa nesse quadro no resgate de Ló. Assim, o cognome “hebreu” é um título memorial deste resgate, não de desaprovação, mas no melhor sentido. Como indicado pelo conteúdo de documentos cuneiformes, novamente pensa-se que Abrão se enquadra em sua época.” Stigers, Genesis, p. 149

155 O verso 24 nos informa que os homens de Manre, Escol e Aner acompanharam Abrão nesta campanha militar, pois iam partilhar os despojos.

156 Alguns podem ficar confusos diante do fato de que não tenha me aprofundado sobre a importância tipológica de Melquisedeque. O escritor aos Hebreus faz isto (Hebreus 5, 7) refletindo sobre os acontecimentos em Gênesis, combinado com a profecia do Salmo 110:4. A razão de eu não ter tratado da importância tipológica de Melquisedeque é que, para Moisés, ela era secundária, não primordial. Era complementar, não fundamental para o significado literal, histórico e gramatical do texto. O significado tipológico de qualquer texto é um benefício adicional, mas não deve suplantar sua interpretação literal. O significado tipológico pode nem ter passado pela mente do escritor (só na mente de Deus), mas o significado literal era a mensagem pretendida pelo escritor.

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